quinta-feira, 19 de maio de 2005

Yazd

Há alguns anos atrás, quando num noite de sábado cumpria o típico programa "jantar e cinema", um dos amigos bahá'ís comentou o facto de uma moça da comunidade já com quase vinte anos, nunca ter autorização para sair de casa. Era estranho, mas era verdade. Os pais não autorizavam que ela se juntasse àquele grupo que se reunia ao sábado à noite para comer uma pizza e ver um filme. Uma outra rapariga do grupo, de origem iraniana, esclareceu: "Pois... os pais dela são de Yazd". Ninguém percebeu o que aquilo queria dizer. Por fim esclareceu: "As pessoas de Yazd têm fama de ser muito duros. Foi lá que ocorreram os martírios mais brutais da história bahá'í."

Não sei até que ponto esta descrição é realidade ou um mero estereotipo. Hoje ao recordar um dos mais brutais dos martírios que ocorreram em Yazd, não pude deixar de recordar esta conversa.

OS SETE MÁRTIRES DE YAZD

O ano de 1891 foi particularmente violento para os bahá'ís da Pérsia. Um pouco por todo o país vários crentes foram martirizados, assustando a comunidade e levando-a a passar a uma situação de semi-clandestinidade. A cidade de Yazd[1] foi palco de um dos mais horríveis martírios desse ano: num único dia, sete crentes foram assassinados de forma incrivelmente cruel.

No dia 19 de Maio daquele ano, por ordem do governador e encorajamento do mujtahid local[2], sete crentes foram acorrentados e obrigados a desfilar pelos bazares, pelas principais ruas e praças da cidade. Eram acompanhados por uma multidão eufórica que gritava e cantava, aguardando freneticamente as suas execuções. Foram martirizados em diferentes locais da cidade. Alguns bahá'ís[3] que testemunharam os martírios foram obrigados a decorar as suas lojas para celebrar o evento.




O primeiro destes sete mártires foi 'Ali-Asghar, um jovem de vinte e sete anos. Depois de ser estrangulado, os restantes seis companheiros foram obrigados a arrastar o seu corpo pelas ruas da cidade. Um pouco mais à frente, Mullah Mihdi, um idoso de oitenta e cinco anos foi decapitado. Mais uma vez, os restantes companheiros foram obrigados a arrastar o seu cadáver até outro bairro da cidade onde executaram outro companheiro 'Aqa Alí. Todos estes crimes foram cometidos perante uma multidão entusiasmada que os insultava, agredia e festejava a sua morte.

Posteriormente seguiram até à casa do mujtahid local onde foi degolado um quarto companheiro, Mullá 'Alíy-i-Sabzivári; o seu corpo foi despedaçado perante os gritos da multidão eufórica. Logo a seguir, num outro bairro, perto das Portas de Mihriz, Muhmmad-Baqir sucumbiu aos suplícios. O cortejo dirigiu-se, então, para o Maydan-i-Khan onde os últimos condenados, os dois irmãos com pouco mais de vinte anos, 'Alí Ashgar e Muhhammad-Hasan, foram decapitados. A cabeça de um deles foi colocada numa lança, exibida como troféu e posteriormente apedrejada; o seu cadáver foi lançado contra a porta da casa da sua mãe, onde várias mulheres entraram para dançar e celebrar.

Ao final da tarde, os cadáveres arrastados para fora da cidade onde foram amontoados e apedrejados; os judeus da cidade foram obrigados a levar o que restava dos seus corpos e a lançá-los num fosso na planície de Salsabil.

Ante o entusiasmo da população, o governador decretou feriado para o povo; o comércio foi encerrado e várias ruas iluminadas para que os festejos pudessem prosseguir durante a noite.

Este foi um mais bárbaros actos cometidos contra a comunidade bahá’í durante os chamados tempos heróicos[4]. É relativamente fácil encontrar referências a este massacre em vários livros bahá'ís. Nos próximos posts apresentarei testemunhos de ocidentais que testemunharam o evento.

----------------------------------
NOTAS
[1] - Sobre a história das perseguições em Yazd ver também YAZD, IRAN e Persecutions of Babis in 1888-1891 at Isfahan and Yazd.
[2] - Doutor de Lei Islâmica
[3] - Existe um relato de um comerciante, chamado Haji Mirza, que afirma que, quando a multidão passou na rua, o próprio Bahá'u'lláh teria passado em frente à sua loja, pouco metros atrás dos mártires (na época Bahá'u'lláh estava exilado em ‘Akká). Haji Mirza saiu imediatamente do estabelecimento para seguir Bahá'u'lláh; Este terá feito um gesto apontado na direcção da loja, indicando que ele devia voltar para trás. Haji Mirza regressou à loja e dali viu que Bahá'u'lláh estava próximo do grupo de mártires quando um deles foi executado. Esta estranha visão fê-lo perceber que os mártires não estavam sós no momento da execução. Para mais pormenores, ver Adib Taherzadeh, The Revelation of Baha'u'llah, vol. 3, p. 194
[4] - Yazd voltaria a ser palco de perseguições ainda mais intensas em 1903.

8 comentários:

Anónimo disse...

Marco, o texto está excelente.
Daqui podemos entender o cinismo da História, é sempre assim, aqueles que estão mais próximos do Profeta são sempre aqueles que mais se afastam.
O comportamento dos iranianos, maioritariamente xiitas, fazem-me me lembrar o dos judeus no tempo de Jesus. Imploravam pelo Prometido mas quando Ele chegou repudiram-No de forma vil.
Além de que os xiitas, segundo crença dos Bahá'ís, são aqueles que, de entre os muçulmanos, seguem os legítimos sucessores de Maomé.
Daqui faço-te uma proposta. Poderias colocar citações corânicas ou hadith (tradições) em que tudo isto já estava profetizado?

João Moutinho

Elfo disse...

Ó João Moutinho, por acaso sabes onde isso se encontra e, traduzido em qualquer língua do ocidente?
É que parece que há uns estudiosos dos hadiths mas só os vejo em árabe e farsi, como se eu dominasse alguma dessas línguas.

Anónimo disse...

No "Livro da Certeza", por exemplo, há muitas tradições referidas.
A minha tola é que não me permite citar nenhuma de forma corretca. Mas estou recordado daquela atribuída a Sádiq em que ele refere que o conhecimento é composto por 27 letras mas que o Alcorão só revelou 2 letras e que o Qa'im revelará as restantes vinte e cinco letras.
Em a "Ordem Mundial de Bahá'ú'lláh" o Guardião faz citações de Maomé sobre o Dia do Juízo. Há uma em que Ele afirma que naqueles dias o céu tornar-se-á vermelho e choverão pedras sobre o Seu povo, e que a religião será algo de vazio na lígua dos crentes e que derão abreviar esse Dia.
Mas como eu disse, o melhor é ir ao texto inicial e não colocar uma ideia imprecisa.

João Moutinho

Elfo disse...

Ora vês que quando fazes os TPCs és recompensado... aí está uma resposta ... "magistral"...
um abraço

Anónimo disse...

É verdade, é verdade.
Mas para eu saber alguma coisa tenho de ler bastante.
Além, de que aqui tenho alguém para fazer o meu trabalho...e que nunca poderia ser "magistral" ao contrário do efectuado neste blog.
Bom, não fica muito bem eu estar a autoelogiar-me mas eu tenho um estudo feito sobre o Alcorão, em que é demonstrado que a vinda de Bahá'ulláh já estva profetizada.

João Moutinho

Marco disse...

O Ocean possui algumas Hadiths:
* Bukhari (9 volumes)
* Hadith Qudsi
Mas eu gostava mesmo era de ter isto impresso em livro.

Anónimo disse...

já agora, é em Bukhari que está referido que Jesus iria reinar de novo durante 40 anos?

João Moutinho

Anónimo disse...

lamento mas vocês...não dá. que rancor e ´odio aos xiitas. tanta imbecilidade. tá visto que vocês, até pelo alinhamentos, trabalham para o patrão sionista. e o Irão incomoda, não é?...porque os sunitas até obedecem ao padrinho americano, são obscurantistas e lambem o cu aos judeus. só que a revolução islâmica está viva e tranquila. os xiitas estão no poder no Iraque e são maioria no Líbano, com o Hizballah que vos deu uma lição no sul...pois é...baháaaa.