segunda-feira, 7 de novembro de 2005

A Chama da Civilização

Os tumultos que se vivem nos arredores das grandes cidades francesas fazem agora a abertura de noticiários e capa de jornais. As imagens de viaturas e edifícios em chamas durante a noite tornaram-se uma constante ao longo dos últimos dias. Alguns sociólogos e analistas políticos têm tentado explicar a origem destes problemas: o desemprego entre os jovens dos subúrbios, os erros nas políticas de integração de emigrantes, o sistema capitalista financeiro em que hoje vivemos...


Estas notícias fizeram-me lembrar umas palavras de Bahá'u'lláh em que Ele insistia no princípio da moderação em todas as coisas e advertia que se a "chama" da civilização fosse "levada a um excesso", "devoraria as cidades"[1]. Não se trata de uma condenação do progresso civilizacional; o próprio Bahá'u'lláh também afirmou que o objectivo comum dos seres humanos é construir uma civilização em contínuo progresso[2]. Então o que pode significar esta "civilização" "levada a um excesso"?

Na minha interpretação (e isto é uma interpretação muito pessoal!) as palavras do fundador da religião baha’i são uma advertência contra soluções radicais e insistência em modelos de desenvolvimento que provaram ser incapazes de garantir a estabilidade e o progresso social. De certa forma é isso que tem acontecido em França: ao longo das últimas décadas foram desenvolvidas várias políticas económicas e sociais que criaram as condições para que se dessem esses tumultos.

Depois de restabelecer a ordem e lei a sociedade francesa vai certamente reflectir sobre os motivos destes incidentes. Dificilmente se encontrará uma solução milagrosa para todos os problemas que ali se vivem. Mas um país que tem por lema "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" certamente terá capacidade para perceber as novas realidades que hoje vive e procurar soluções que satisfaçam todos os grupos sociais.

Actualização: sobre este assunto, vale a pena ler o texto do Zé Filipe na Terra da Alegria da passada 2ª feira em que se apresenta uma declaração de D. Jean-Pierre Ricard, arcebispo de Bordéus e presidente da Conferência Episcopal Francesa a propósito dos tumultos em França.

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NOTAS
[1] – Citado em The Promised Day is Come, pag. 3
[2] – Selecção dos Escritos de Bahá'u'lláh, sec. CIX.

4 comentários:

Anónimo disse...

"Mas um país que tem por lema "Liberdade, Igualdade e Fraternidade" certamente terá capacidade para perceber as novas realidades que hoje vive e procurar soluções que satisfaçam todos os grupos sociais."

Infelizmente tenho muitas dúvidas que isso aconteça. A não ser que haja uma espécie de "queda do muro de Berlim". A França do Maio de 68, que está no poder, que glorifica a violência como forma de transformação social, que, com políticas proteccionistas como a PAC, ajuda à miséria no terceiro mundo, não tem seguramente "rins" para lidar com este problema. Se vier uma nova França talvez as coisas se componham. Com esta não. Irá até ao suícidio agarrada aos mitos positivistas em que sempre acreditou.

Anonymous #2

F Cirilo disse...

Pois eu estou admirado é de isto apenas ter rebentado agora. Há anos que vou a França e ouço histórias e avisos sobre os suburbios no norte de Paris. Malta que dizia: "Qualquer dia aquilo rebenta..."
E pronto. Rebentou!

Marco disse...

"Se vier uma nova França..."
É isso! Está a morrer uma velha França e a nascer uma outra nova França. E estes motins serão dores de parto ou espasmos de agonia? Eu prefiro as transições serenas, os partos sem dor e as mortes tranquilas. É isso que eu desejo para estas duas Franças.

João Moutinho disse...

Permito-me chamar a atenção para o pertinente comentário do anónimo 2 que fez aquilo que se designa por "pôr o dedo na ferida".
Infelizmente aquelas imagens não nos são absoluamente estranhas, enquanto Portugueses, embora não tenhamos, para já, nenhum problema daquela dimensão.
Há problemas obvios de integração e há de haver injustiças praticadas sobre a população norte-africana os subsariana ou dessas origens mas nada pode justificar muitas dos crimes que "jovens" cometem com os camaramans ao lado deles com as máquinas ao ombro.
Por outro lado é óbvio o desconforto do governo francês perante esta situção, mas lembremo-nos de quando ocorreram os motins de Los angeles em 1992 (onde houve qualquer coisa como 50 mortos) o governos americano mandou avançar o Exército.
Parece que os franceses não conseguem viver com as realidades desagradáveis, talvez devido aos "mitos positivistas", e tentam acreditar que certas coisas não são possíveis na sua sociedade.