segunda-feira, 10 de abril de 2006

Judas

O primeiro violador da Aliança Jesus?

Ao longo da última semana, uma campanha mediática por parte da National Geographic veio chamando a nossa atenção para um documentário exibido no passado domingo intitulado "O Evangelho de Judas". Trata-se de um trabalho onde se descreve a recuperação de um manuscrito com mais de 1700 anos; segundo a NG, o documento contém uma nova versão das conversas entre Judas Iscariotes e Jesus Cristo; essas conversas terão inspirado alguns grupos gnósticos cristãos dos primeiros séculos. Além disso, o facto de nos primeiros séculos existirem muitas formas de cristianismo foi uma ideia repetida ao longo do documentário.

O discípulo maldito sempre nos foi retratado de forma simplista como o traidor. As poucas referências que existem a este discípulo "traidor" deixam muitas questões em aberto. Que relacionamento existia entre Judas e Jesus? Como se enquadrava ele entre os outros discípulos? O que motivou a sua traição?


As poucas linhas que os quatro Evangelho dedicam a este discípulo permitem algumas conclusões como a do padre Carreira das Neves: "Judas nunca teve a intenção de atraiçoar Jesus ou sequer o desejo de o ver morto. Se assim fosse, ficaria contente por ter conseguido o seu objectivo e nunca se suicidaria"[1]

A curiosidade histórica que este documento agora apresentado pela National Geographic pode suscitar é normal (e inevitável!). Mas como todos os Evangelhos, este é provavelmente mais um testemunho da vivência da fé do que um relato de historicidade inquestionável. Desta forma, o documento apresenta-se como mais um elemento que nos ajuda a perceber as formas como as primeiras comunidades de cristãos entendiam e expressavam a sua fé.

Não faltarão as atitudes radicais: os que especularão sobre a tentativas de ocultar verdade histórica e teorias da conspiração, e os que considerarão este documento como um ataque à tradição e historicidade cujas raízes consideram encontrar-se apenas nos quatro evangelhos canónicos.

Mas o pouco que os Evangelhos nos contam sobre Judas merece outra reflexão.

Traição e ostracismo (na forma de referências negativas à sua pessoa) são duas características na história de Judas que tornam inevitável uma comparação com algumas personagens na história Baha’i.[2] Na verdade, ao longo da história da religião baha’i, houve várias situações em que algum crente se revoltou contra o líder da comunidade; estes crentes ficaram conhecidos como "violadores da aliança"[3].

No tempo de Bahá'u'lláh, foi o seu irmão Sub-i-Azal, que se considerava como o verdadeiro sucessor espiritual do Báb. No atribulado relacionamento de Azal com Bahá'u'lláh, houve algumas tentativas de assassinato (incluindo uma tentativa de envenenamento que deixou Bahá'u'lláh com a mão trémula para o resto da vida). Foram também várias intrigas de Azal em Adrianópolis, que contribuíram para o terceiro exílio de Bahá'u'lláh; nessa ocasião Bahá'u'lláh foi enviado para 'Akká e Azal para o Chipre.

Também no tempo de 'Abdu'l-Bahá e de Shoghi Effendi houve algumas situações em que algum crente se revoltava e desenvolvia acções que punham em causa a sua segurança e a liberdade de movimentos. A maior parte dessas pessoas eram familiares próximos que acabaram por ser expulsos da comunidade e a esmagadora maioria dos crentes evitaria contactá-los. Os motivos destas revoltas eram invariavelmente a liderança sobre a comunidade dos crentes e a autoridade para interpretar as Escrituras.

A maioria destes crentes "revoltosos" acabaria por ser assimilada por outras comunidades religiosas; alguns porém, tentaram criar a sua própria comunidade baha'i[4].

São pois estas características comuns (traição e ostracismo) que me levam a especular sobre se Judas não terá sido o primeiro violador da aliança da história do Cristianismo.

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NOTAS
[1] - Citado no Expresso, 8 de Abril.
[2] - O livro que mais detalhe possui sobre estas situações de revolta na história baha'i é The Covenant of Bahá'u'lláh, de Adib Taherzadeh
[3] - Aliança é o termo que entre os Baha'is designa a promessa de Bahá'u'lláh segundo a qual se os crentes seguirem as disposições do Seu Testamento, a orientação divina continuaria através da pessoa que Ele tivesse nomeado Seu sucessor.
[4] – Veja-se o caso dos "baha'is ortodoxos", que hoje têm algumas centenas de crentes. Tal como este grupo, houve outros que se criaram mas que nunca se conseguiram afirmar como uma alternativa (ou uma outra corrente de pensamento) na religião baha’i.

12 comentários:

Anónimo disse...

Marco

Usas o termo correcto: campanha mediática da NGM. O que, em si, não tem mal nenhum. Querem ter sucesso editorial e têm toda a legitimidade de o querer. Mas neste tipo de campanhas há sempre alguns mal-entendidos ou "mal-explicados". Por isso, e pelo que li e ouvi, acho que vale a pena fazer dois ou três esclarecimentos.
- Este "evangelho" é do século IV, ou seja cerca de 200 anos mais antigo que os livros que compõe o Novo Testamento.
- Existem dezenas de "evangelhos apócrifos", cada um puxando a "brasa à sua sardinha".
- Os gnósticos foram das primeiras heresias a surgir no seio do Cristianismo. Já no Novo Testamento se fala deles.
Quanto a Judas, direi que ele não era pior ou melhor do que cada um de nós. Teve a oportunidade de aceitar Cristo, negou-O, e seguiu a sua natureza. Milhares de milhões fizeram e fazem o mesmo ao longo da História.
Seja como for, não sei se se pode comparar Judas com esses "traidores" da fé Bahai. Por uma razão. Judas fazia parte do plano de Deus, será que sucedeu o mesmo com os "traidores" bahais"?

Um abraço

Anonymous #2

João Moutinho disse...

Olá boa gente,
O Anónimo 2 chamou a atenção de alguns aspectos importantes importantes sendo de referir o facto de haver inúmeros Evangelhos apócrifos.
Este Evangelho "Segundo Judas" tem um carácter exclusivista na medida em que surge direccionado a uma grupo específico gnóstico de seguidores de Jesus, em que só eles tinham salvação, ao contrário dos Evangelhos Canónicos que têm um caráter mais universalista - embora seja de referir que o Evagelho de Mateus se apresente inicialmente como destinado ao "povo eleito".
Quanto ao facto de Judas ser um "violador do Convénio", não chegou a sê-lo porque a sua acção pérfida resultou antes da passagem de Jesus. Ao contrário, Omar esperou pela passagem de Maomé para tomar nas suas mãos um poder que não lhe era destinado.
'Abdu'l-Bahá descreve Judas como um discípulo dedicado e culto, era o tesoureiro do seu grupo, mas que não suportou não ter sido ele o escolhido para o lugar que foi dado a Pedro. A ambição fê-lo atraiçoar o seu Mestre.

João disse...

"Bahais ortodoxos"???
Quem são eles? O que defendem?
É estranho, acho que as duas palavras não fazem sentido juntas!

Marco disse...

Anonymous #2,

Custa-me acreditar que uma decisão de um ser humano (que, como sabemos, tem livre arbítrio) possa fazer parte "do Plano de Deus". Soa como se a negação/traição já estivesse prevista por Deus, e portanto, a(s) pessoa(s) que comete(m) o acto não pudesse(m) ter o livre arbítrio.

Em última análise isto leva-me a pensar que se Judas não tivesse traído Jesus, não haveria Cristianismo. Não me faz sentido, pois não? Com a traição de Judas ou sem ela, o Cristianismo existiria sempre. O mesmo se passa com as "traições" de alguns baha’is.

Prefiro acreditar, que não obstante os obstáculos e os ataques que lhe seja feito a influência da intervenção divina na história da humanidade (na forma de religião revelada) mantém-se inalterável.

João Moutinho,

Se a traição de Judas se deve à ambição de poder, então isso é violação do Covénio.

Anónimo disse...

Marco

A discussão entre predestinação e livre-arbítrio é uma discussão que existe no mundo cristão pelo menos desde Agostinho. Ambas sõa tentaivas de conciliar a soberania de Deus com a responsabilidade do Homem. O concenso não é fácil. Mesmo na minha pequena congregação há pessoas que pensam das duas maneiras. Mas numa coisa não pode haver dúvidas (para os cristãos). É que o episódio de Judas não foi um acidente no percurso terreno de Jesus. Jesus veio para morrer na cruz e Judas foi o meio pelo qual isso aconteceu.

anonymous #2

João disse...

Marco, não te esqueças da minha questão, despertaste a minha curiosidade.
Quem são os bahais ortodoxos?
O quê que os diferencia dos outros bahais?

Marco disse...

João,
Os "baha’is ortodoxos" afirmam que ainda têm um Guardião (sucessor de Shoghi Effendi). Isto apesar de Shoghi Effendi não ter nomeado qualquer sucessor. A Wikipedia tem uma página sobre eles: http://en.wikipedia.org/wiki/Orthodox_Bahai_Faith
Curiosamente, a maioria do material que eles publicam e todas as suas intervenções são maioritariamente para atacar a Casa Universal de Justiça e a Comunidade Baha’i.

Anonymous #2,
Nessa perspectiva, Judas não é traidor mas apenas um instrumento do "Plano de Deus".

Anónimo disse...

Marco

Judas é um traidor e um instrumento no plano de Deus. Bahá'u'lláh, tanto quanto sei, também morreu de morte violenta. Essa morte foi quando Deus quis ou quando os homens quiseram? Por outras palavras, Bahá'u'lláh deixou o "trabalho" por fazer ou morreu quando tinha que morrer?

Anonymous #2

João disse...

Obrigado pelo esclarecimento Marco...estranho que ainda tenha sobrevivido até aos nossos dias um grupo de seguidores desse pretenso guardião!
Há mais algum grupo de bahais "dissidentes" para além destes "bahais ortodoxos"?

Marco disse...

Anonymous #2
Bahá’u’lláh morreu de morte natural; o Bab morreu de morte violenta. Creio que o Báb profetizou a Sua própria morte. Mas o que motivou o Seu fuzilamento foi a decisão das autoridades persas; eles não estavam condicionados por existência dessa profecia.

Tanto o Báb, como Bahá’u’lláh, ao longo das Suas vidas enfrentaram a ira do clero muçulmano e dos governos persa e otomano. O Báb pagou com a própria vida; Bahá’u’lláh foi sujeito a tortura e a vários exílios. Por várias vezes, percebeu que a Sua vida corria perigo. Não obstante tudo isso, esta religião disseminou-se, a comunidade de crentes consolidou-se e hoje e reconhecida como uma religião mundial (devido à natureza dos ensinamentos e diversidade dos crentes) e independente (não é um mero ramo dos Islão).

Uma das muitas coisas que percebo na história das Suas vidas é a seguinte: a vontade dos homens não se pode opor à vontade de Deus. Mesmo que algumas vozes se calem, outros se levantam para divulgar a Mensagem (nem que sejam as pedras! [Lc 19:40]).

Marco disse...

João,

Por vezes descubro uns sites de uma qualquer pessoa que criou a Igreja Baha'i da Reforma, ou a Associação dos Baha'is não-filiados (os nomes não são exactamente estes, mas são parecidos). Mas os seus ideais nunca são muito claros. O importante para eles parece ser atacar a Comunidade baha'i.

Marco Aurélio disse...

Marco

A descoberta do Evangelho de Judas é um grande achado arqueológico e espero que os religiosos entendam isso. A Última Tentação de Cristo, A Paixão de Cristo, e o Código da Vinci foram duramente atacados pelas igrejas. Agora é diferente. Não se trata de um filme ou de um livro. É um documento verídico. Essa vai dar muita polêmica!

Um abraço

Marco Aurélio