terça-feira, 16 de maio de 2006

O veneno do poder

A humanidade não está tão desenvolvida que possamos abandonar completamente a ideia de que alguém tem de comandar o barco. Mas o que eu estou sempre a achar é que se deve defender é o comandante de estar a exercer poder demais e de se deixar envenenar pela própria imagem de que é poderoso. Na verdade, temos conhecido dirigentes de muitos países que antes de exercerem o poder são uns e depois são outros. É claro, que podemos pôr a hipótese de que eles já eram aquilo que mostram ser e que eram apenas hipócritas, que estavam apenas a esconder-se que apenas ocultavam aos outros a sua verdadeira face. Mas podemos ter outra hipótese – é que realmente o banquete do poder deve ser em muitos pontos extremamente venenoso, porque o princípio dele é que um homem pode mandar sobre os outros como se possuísse a verdade.

Agostinho da Silva, Vida Conversável, pag. 65-66
Várias obras que se tornaram clássicos na literatura e no cinema, diversas parábolas e até a sabedoria popular nos referem a forma como a sensação do poder corrompe os governantes. Agostinho da Silva refere o problema da vertigem do poder e reflecte sobre os motivos dessa vertigem, considerando que se deve proteger o governante contra essa vertigem, tal como se deve proteger o povo contra um governante embriagado pelo poder.

Mas o interessante é o facto de ele antecipar implicitamente um tempo em que a humanidade não necessitará chefes. Este ideal utópico, este objectivo de algumas correntes políticas anarquistas, sugere a criação de uma sociedade sem hierarquias, onde cada cidadão conhece o seu papel, seus direitos e deveres. Algo que nos exigiria uma maturidade individual e colectiva muito longe da que conhecemos nas sociedades actuais.

5 comentários:

Elfo disse...

Olha, então se calhar é por isso que eu sou Bahá´í !!!

gh disse...

Também há baha'is que se deixam envenenar com o veneno do poder? Se sim, vcs têm algum antídoto para isto?

João disse...

Será o sistema administrativo Bahai o modo de pôr em prática essa utopia de uma sociedade sem chefes e sem hierarquias? Será ele imune à tal vertigem do poder capaz de transformar os homens?

Marco disse...

GH e João,

A estrutura administrativa da Comunidade Baha’i possui uma série de características distintas das estruturas administrativas de outras comunidades religiosas. O primeiro aspecto que se destaca é o facto de não existir clero; por outras palavras, não existe uma classe organizada que dirige e controla as actividades da comunidade. Mas existem pessoas que trabalham a tempo inteiro para a comunidade.

Por outro lado o facto da maioria das estruturas administrativas baha’is serem eleitas também é uma garantia de alguma rotatividade entre as pessoas que servem nesses organismos. Além disso é importante ter presente que a estrutura administrativa não é uma criação dos crentes baha’is; esta estrutura foi concebida pelos fundadores da sua religião.

Será isto suficiente para impedir a corrupção e a vertigem do poder? Tenho dúvidas que assim seja. Todas as religiões têm os seus períodos de ascensão e queda. Todas têm momentos de enorme pujança e influência muito positiva na vida da humanidade e momentos de decadência, cristalização e corrupção das suas estruturas administrativas.

A religião baha’i tem apenas 160 anos de existência. Ainda está a dar os seus primeiros passos. Digamos que está no início da sua curva ascendente. O que acontecerá na curva descendente, só as gerações futuras saberão.

João disse...

Ou seja Marco, voltamos ao meu comentário de há uns tempos: será que a religião bahai poderá um dia ser maioria sem perder as qualidades que a caracterizam actualmente?
Por mim não tenho problemas com as minorias...e que esta cresça sem se desvirtuar!