quinta-feira, 21 de setembro de 2006

Ahmadinejad e a justiça

O que se segue é um pequeno excerto de uma conferência de imprensa com o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, que teve lugar hoje (21 de Setembro) nos Estados Unidos e foi transcrita na totalidade no Washington Post. Tanto a pergunta como a resposta foram feitas através de um tradutor.

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(...)

PERGUNTA: Nas suas intervenções mencionou que os lideres e presidentes do mundo se devem voltar para a justiça e aplicá-la

Você é presidente do Irão e tem a oportunidade de aplicar a justiça. Os relatórios vindos do Irão parecem indicar que os movimentos estudantis estão a ser reprimidos, que a justiça não está a ser aplicada, no que toca aos seguidores da fé Bahá’í e também às mulheres, que se opõem à lei islâmica que os discrimina.

Assim essa justiça que você fala no campo da política não existe. Porque é que você é contra a justiça?

AHMADINEJAD: Na reunião que tivemos com a Associação da Imprensa Estrangeira na noite passada, pareceu-me que esta era a principal questão na mente de muitas pessoas.

Quero dar-vos alguns números.

Existem cerca de 219 milhões de pessoas nos Estados Unidos e no Irão vivem cerca de 68 milhões de pessoas.

Mas existem 3 milhões de presos nos EUA. Existem cerca de 130.000 – existem exactamente 130.000 mil de presos no Irão, 90% dos quais são traficantes de drogas ilícitas que foram presos após conflito armado directo com as nossas forças de segurança, que estavam a tentar impedir o tráfico de drogas do Irão para a Europa e Estados Unidos

Agora devemos tentar saber - penso que vocês o devem fazer – quais as origens dos presos nos Estados Unidos.

Ontem coloquei esta questão e ninguém me soube responder

Vejamos: uma elevada percentagem do povo americano está na prisão, enquanto que apenas 0,2% da população iraniana está na prisão. Coloquemos então estes números em proporção.

(...)

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COMENTÁRIO:
Com a habilidade tradicional de um político, o presidente iraniano fugiu à pergunta e falou do que lhe convinha. A verdade é que a comparação da dimensão população prisional entre os EUA e o Irão não é algo comparável – ou relacionável – com a falta de direitos cívicos de alguns sectores da população destes dois países.

Por ventura as mulheres iranianas usufruem dos mesmos direitos e liberdades que as mulheres americanas? Os movimentos estudantis americanos usufruem das mesmas liberdades e direitos que os seus congéneres iranianos? E os bahá’ís? Quantos foram presos arbitrariamente nos últimos anos nos Estados Unidos por motivos religiosos? Quantos jovens bahá’ís americanos foram impedidos de entrar nas universidades americanas por motivos religiosos?

É este o tipo de comparações que deve ser feito. Para estas perguntas o presidente iraniano dificilmente terá uma resposta, pois a falta de direitos cívicos de uma qualquer segmento da população é sempre injustificável.

Ainda sobre a situação das mulheres no Irão recomendo este artigo da BBC: Women graduates challenge Iran

11 comentários:

Marco Oliveira disse...

Descobri um “bug” neste template que impede a publicação de comentários quando o nome do comentador começa com uma estranha sequência de caracteres (tipo: “FRQSTR=19290759x281999.....”). Estes caracteres aparecem por default em alguns browsers e surge em comentários anónimos. Enquanto não resolvo este problema, aqui fica um comentário que não consegui publicar por este motivo.

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Eu não vejo nesta resposta qualquer habilidade...é mais tipo conversa de surdos, um a falar de uma coisa e outro de outra!
Sei que o Presidente do Irão recolhe muitas simpatias por esse mundo fora pela forma como se opõe ao Bush, mas só tem ilusões quanto ao seu sentido de justiça quem for ingénuo!

João disse...

Fui eu que publiquei esse comentário...esqueci-me de pôr o meu nome. Já sei agora que tenho que escrever o nome antes de começar a escrever o comentário senão esqueço-me.

Marco Oliveira disse...

João,
Isto é falta de tempo misturada com nabice.
Por essas duas razões é que ainda não corrigi este problema. :-)

Elise disse...

"mas só tem ilusões quanto ao seu sentido de justiça quem for ingénuo!"
... ou desonesto. Eu não me esqueci de um artigo que foi publicado num jornal português sobre o "Irão encantatório". Quem lesse aquilo...

Ògán Jobá disse...

Caro Marco,

Perguntou-me no meu blogue se os povos yòrubàs eram povos cujos territórios foram partidos com a conferência de Berlim.
Na realidade os yòrubàs, Bantus e Fons, são povos cujo domínio terminou com a colonização europeia e tráfico negreiro. Isto é, quanto à sua pergunta a resposta é sim e não. Por um lado a conferência dilacerou definitivamente os reinos mas já a escravatura tinha iniciado a queda das suas civilizações hoje quase desconhecidas fora do mundo académico.

Infelizmente não temos a sorte de merecer o respeito público, o blogue é assim, uma causa vã.

cumprimentos.

GH disse...

Pois eu concordo com a Elise e até digo mais.

O importante nas relações entre pessoas e nações é defender a dignidade e o valor dos seres humanos; infelizmente há muita malta que pensa que o importante é estar contra aos Estados Unidos. Isto é a preversão completa dos valores que devem reger as relações internacionais. É o que se pode chamar anti-americanite irracional..

É óbvio que tudo o que os americanos fazem não é necessáriamente bom. Muitos governos europeus oposeram-se à invasão do Iraque, há 3 anos atrás.

Também há ditadores que se opoem às decisões dos EUA; mas essa oposição aos EUA, não deve funcionar como uma desculpa para atropelos aos direitos humanos - ou mesmo atrocidades! - nos paises governados por esses ditadores. Isso é esquecer o essencial. Na Europa quem apoia esses ditadores é tolinho ou é desonesto!

Mikolik disse...

Só queria me colar ao ponto de vista do GH e da Elise, é indescutivel e muito correcto.

Marco Oliveira disse...

Ogan,

O preservar de uma cultura ou da memória de um povo, só será uma causa vã se não restar qualquer vestígio da existência desse povo.

Se um povo ou uma cultura desaparece, a família humana fica irremediavelmente mais pobre. Isso aconteceu com varios povos ao longo da história; muito provavelmente, em alguns casos não resta hoje qualqer vestigio da sua existência ou presença neste planeta.

Enquanto você (e outras pessoas) acreditar(em) que é possível mostrar quem eram os Yòrubàs e o que resta hoje deles, você estará a dar um contributo para a alargar a nossa consciência da diversidade cultural da família humana.

Por isso, não acredito que a sua causa seja vã.

-------------- disse...

Para conhecer mais a justiça de Ahmadinejad.......

http://photos1.blogger.com/blogger/334/161/1600/execution%20..jpg

SAM disse...

Aqui vai o que os estadunidenses fazem (ou lá se vai tentando)...

http://www.iranfocus.com/modules/news/article.php?storyid=8702

Jô disse...

Marco, por favor leia no Washington Post, onde tem a entrevista deste post, da mesma data, 21 de Setembro, a carta de grande jornalista iraniana, Akbar Ganjo, nos EUA.
Não sei se sabe, mas ele é bastante conhecido e esteve preso por seis anos na prisão de Ahmadinejad e foi quase morto por causa das torturas. A sua carta é no mínimo curioso:

http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2006/09/20/AR2006092001583.html

Depois de sair da prisão conseguiu fazer a sua viagem pela Europa e EUA denunciando e nestas viagem visitou muitas personalidades políticos e defensores dos direitos humanos, uma curiosidade é que contam-se que o Presidente Bush quis falar com ele e ele não aceitou. Neste link encontra mais sobre ele:

http://www.washingtonpost.com/ac2/wp-dyn/NewsSearch?sb=-1&st=Akbar%20Ganji&

Há quem diga se o governo iraniano mudar será ele na liderança.