quinta-feira, 7 de setembro de 2006

Religião Organizada

Um texto de Dale E. Lehman, Planet Baha'i(artigo em inglês: Being Organized)
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Muitas pessoas que acreditam em Deus afirmam que não gostam da religião organizada. Este é um sentimento compreensível. Quando olhamos para a história da religião, é difícil evitar o sentimento de que algo está muito mal. Parece que toda a religião organizada desempenhou um papel sinistro desde a corrupção e injustiça até à guerra e ao genocídio. Pode ser difícil, perante este cenário, perceber que também fez muito bem. Eu próprio também já rejeitei a religião organizada, considerando-a desnecessária e inútil.

Como bahá'í, porém, adquiri uma nova perspectiva. Vejo agora a religião organizada como uma ferramenta que existe com um determinado propósito. Tal como qualquer outra ferramenta, a religião pode ser usada de forma incorrecta; mas quando usada correctamente, proporciona-nos muitos benefícios. O propósito da religião foi definido por Bahá'u'lláh nestas palavras:
Diz o Grande Ser: Ó vós, filhos dos homens! O propósito fundamental que anima a Fé de Deus e a Sua Religião consiste em salvaguardar os interesses e promover a unidade do género humano, e nutrir entre os homens o espírito de amor e amizade. Não permitimos que se torne fonte de dissensão e discórdia, de ódio e inimizade.

(Bahá'u'lláh, Epístolas de Bahá'u'lláh)
Desde o seu início, toda a religião tem estes objectivos. No entanto, esta pequena frase indica que temos uma possibilidade de escolha: podemos usar a religião para atingir os objectivos propostos, ou podemos usá-la para atingir o oposto. Através da religião podemos aproximar-nos do Criador e da nossa família humana; mas também podemos fomentar divisões, conquistar poder pessoal, e até promover a guerra. A religião é uma força poderosa. Pode fazer um enorme bem, mas também se por tornar um grande mal.

As pessoas formam organizações para conseguir capitalizar o poder da unidade. Há muito que sabemos que "duas cabeças pensam melhor que uma", que "unidos sobrevivemos, divididos caímos". Uma grande empresa, captando o poder de muitas pessoas trabalhando para um objectivo comum, pode oferecer mais produtos e serviços, e consequentemente fazer mais dinheiro do que qualquer indivíduo isolado. A Constituição dos Estados Unidos começa com palavras que afirmam a importância da organização e unidade para a segurança e prosperidade dos seus povos. Uma comunidade religiosa também beneficia da organização e da unidade. Uma religião organizada pode proporcionar melhores recursos para a educação espiritual dos seus membros, pode oferecer mais e melhores serviços humanitários, e pode ter mais influência na sociedade.

Usemos, por um momento, a palavra "religião" num sentido muito restrito. Vamos usá-la para significar a correcta expressão dos ensinamentos divinos. Quando seguimos as leis e princípios de Deus, estamos a ser correctamente religiosos. Quando caímos no fanatismo, tentamos impor as nossas crenças aos outros, ou usamos a autoridade religiosa para nos servirmos a nós próprios, não estamos a ser religiosos. Tendo em mente estas distinções, consideremos o que Bahá'u'lláh escreveu:
A religião é, em verdade, o principal instrumento para o estabelecimento da ordem no mundo e da tranquilidade entre os seus povos. O enfraquecimento dos pilares da religião tem fortalecido os insensatos, tornando-os mais audazes e mais arrogantes. Em verdade digo: quanto maior o declínio da religião, mais penosa se torna a desobediência dos ímpios. Isso não pode levar, afinal, senão ao caos e confusão. Ouvi-me, ó homens de percepção, e precavei-vos, vós que estais dotados de discernimento!

(Bahá'u'lláh, Epístolas de Bahá'u'lláh)
A raiz do problema da religião organizada não está na organização em si, mas no coração humano. Um organização religiosa composta por pessoas cujos corações foram tocados pelo Espírito Santo, e que tentam sinceramente viver de acordo com os padrões divinos, será como uma luz para o mundo. Os seus membros procurarão aprofundar o seu conhecimento e fé, e esforçar-se-ão por ajudar o mundo. O poder da sua unidade permitir-lhe-á, enquanto organização, fazer exponencialmente mais bem no mundo do que qualquer um deles sozinho poderia fazer sozinho.

Todas as religiões organizadas têm em si este potencial. Se lhes falta alguma coisa, é apenas um meio para impedir a corrupção. Bahá'u'lláh, porém, estabeleceu uma ordem administrativa e criou uma Aliança com os Seus seguidores para a proteger contra a corrupção e o cisma. Isto não se deve ao factos dos Bahá'ís serem mais merecedores que os outros, mas porque Deus, nesta era, decretou que a unidade mundial seria estabelecida. Na verdade, Ele tomou o assunto nas Suas mãos, e não o entregou a outros.

Esta é a fonte da nossa confiança na religião organizada. Sabemos que cometeremos erros. Sabemos que algumas pessoas tentarão moldar a nossa religião de acordo com os seus propósitos. Mas também sabemos que os nossos erros acabarão por nos melhorar a nós próprios, e que os que se opõem à Aliança de Bahá'u'lláh serão incapazes de o derrotar. Com esta confiança, podemos centrar todas as nossas energias na promessa de Bahá'u'lláh para o futuro:
"Tão poderosa é a luz da unidade que pode iluminar a terra inteira."
(Bahá'u'lláh, SEB, CXXXII)

19 comentários:

GH disse...

Qualquer pessoa de bom senso percebe que a religião pode dar para o bem e para o mal.
Mas parece-me que voces sentem que a vossa organização adminsitrativa é imune à corrupção. Não creio que tenham esse imunidade só por não terem clero e por usarem métodos democráticos. Não será arrogância da vossa parte?
E mais outra pergunta: o que é isso do Convénio?

GH disse...

Esqueci-me de dizer que o novo template está fixe!

Pedro Fontela disse...

Marco,

O que fazes neste artigo é purgar o conceito de religiao organizada da realidade que lhe vai associada para depois lhe imputar outro bem mais positivo ainda que imaginário.

O resto, perdoa a expressao, é uma pretençao vazia a uma experiencia única - que voces nao podem realmente reclamar.

"O enfraquecimento dos pilares da religião tem fortalecido os insensatos, tornando-os mais audazes e mais arrogantes. Em verdade digo: quanto maior o declínio da religião, mais penosa se torna a desobediência dos ímpios."

Afinal o islamismo feroz está bem presente. Venham essas correntes de fé com "boa" vontade para amarrar bem a sociedade...

Marco Oliveira disse...

Pedro,
Na minha opinião, atribuir à religião organizada apenas coisas negativas é uma visão parcial do problema. O papel duplo (positivo e negativo) da religião organizada parece-me inegável. Considera o progresso tecnológico: os seus frutos podem ser usados para o bem os para o mal. Nenhum de nós se opõem ao progresso tecnológico; mas já vimos pessoas a escrever e a dizer que a inovação tecnológica é a desgraça do mundo. Não é isso uma visão distorcida e parcial?

Todas as religiões têm a sua ascensão e queda; é um processo inevitável. Aconteceu com religiões anteriores e inevitavelmente acontecerá com a religião baha’i. O que eu vejo de diferente na minha religião – enquanto religião organizada – é o facto de não ter clero e usar métodos democráticos na eleição das suas estruturas administrativas. Penso que isto só por si representa algo de profundamente inovador em relação às religiões anteriores. Que frutos dará? Só o futuro poderá mostrar.

Quanto ao “islamismo feroz”, isso é para mim um sinal evidente de uma religião em declínio. E gente de boa vontade que se organiza e acaba por “amarrar a sociedade”, é algo que sempre aconteceu em todos os tempos e sob todas as formas (política, social, religiosa,...). Não é por acaso que “O Triunfo dos Porcos” é um livro famoso.

Não vou especular sobre o futuro da comunidade baha’i. Mas não hesito em afirmar: tem um grande potencial. Se esse potencial será bem aproveitado ou não, isso apenas depende dos próprios baha’is.

GH
É óbvio que a existência de métodos democráticos não é uma garantia de imunidade à corrupção. Mas é uma novidade em termos de religião organizada. Basicamente, o que o autor do texto afirma é que a religião baha’i tem uma estrutura organizacional diferente das religiões do passado. Mas depende dos próprios baha’is fazer um uso correcto dessa estrutura organizacional.

João disse...

Olá GH, fico contente pelo teu regresso e espero que venhas animar novamente este blog que sem ti fica muito unanimista.
Pois é Marco, tens que reconhecer que sem a participação do GH o teu blog perde muito, apesar de algumas vezes ele se exceder no tom!
Um abraço

F. Cirilo disse...

O facto de vocês não terem padres e usarem métodos democráticos nas vossas eleições, não vos torna imunes. Mas dá-vos um toque de originalidade, temos que reconhecer. E por isso não seria justo dizer que vocês são iguais aos outros. Como são diferentes nesse aspecto, pode ser que não cometam os mesmos erros de outras religiões. Mas acabarão por cometer outros erros, como escreve o autor do artigo.

Também concordo que o islão – onde o extremismo e a violência assumem cada vez maior relevo – é uma religião decadente. Mas isso não significa que os devamos menosprezar os resultados desse extremismo e violência. Os fanáticos são muito perigosos.

Pedro Fontela disse...

Marco,

Estou a citar o vosso profeta... se calhar o problema está bem mais perto de casa do que pensas ou queres deixar transparecer.

A comparaçao que fazes nao me parece correcta. As leis naturais sao amorais porque sao factos puros; os conceitos teológicos nao sao factos, sao extrapolaçoes, ideias, baseadas em certos principios (que por sua vez nao sao empiricos) e podem ser julgados como morais ou imorais (como todas as ideias). A religiao, tal como qualquer ideologia, nao é uma ferramente amoral como a ciência.

Nao penso que alguns principios democráticos possam ser considerados como um rasgo de originalidade porque segundo sei há correntes protestantes que também o fazem - a certas comunidades nao lhes é atribuido um sacerdote, a própria comunidade é que trata de escolher um.

Marco Oliveira disse...

Pedro,
Eu limitei-me a comparar os efeitos de actividades humanas bem distintas (religião organizada e progresso tecnológico) como podendo ser positivos ou negativos. Não comparei as leis ou os conceitos que fundamentam essas actividades.

A ciência é amoral, mas o uso da ciência não é.

Considera a aeronáutica, por exemplo. Construir aviões comerciais é diferente de construir bombardeiros; num caso as leis científicas são usadas para o bem, no outro são usadas para o mal.

Considere-se agora o Islão. Nos seus primeiros séculos a civilização islâmica superou a civilização europeia, e deu um tremendo impulso ao desenvolvimento social e científico da humanidade. Hoje, há fanáticos que usam o Islão como inspiração para perpetrar actos bárbaros, ou para justificar a existência e legitimidade de regimes ditatoriais. Num caso, os ensinamentos do Islão foram usados para o bem, no outro são usados para o mal.

Só mais duas notas:
1 - “As leis naturais sao amorais porque sao factos puros” – Creio que as leis científicas não são factos, mas antes uma visão e interpretação dos factos.
2 - Quanto à eleição de sacerdotes, tens razão; creio ter lido algures que o próprio Sto Agostinho foi eleito bispo pela sua comunidade.

SAM disse...

Não sei se ajuda (até porque está em inglês), mas se quiserem está sugiro-vos a seguinte declaração da Comunidade Internacional Bahá'í acerca da perspectiva ahá'í no que concerne à admistração (em geral) e a corrupção.

Não comento, pois não sou especialista. Mas quem sabe, a leitura seja proveitosa:

http://www.bic-un.bahai.org/pdf/01-0528.pdf

Pedro Fontela disse...

Marco,

Começando pelas notas:
1- tens toda a razao, sao interpretaçoes da realidade e nao a realidade em si. Mas sao construidas sobre a base empirica e a lógica do seu desenvolvimento nao é moral - sao na pior das hipoteses especulaçoes com a informaçao que está disponivel sem intençoes politicas, sociais, etc. EX: a lei da gravidade de newton nao é moral nem imoral, nem foi derivada de um doutrina moral.

Eu tenho sempre dúvidas em comparar o passado com o presente em termos de progresso. Sao diferentes e pelos nossos critérios actuais o islao medieval e a cristandade medieval sao brutais - se me disserem que exitem graus e graus de brutalidade concordo mas olha que a diferença nao é muita.

voltando ao tema central da religiao organizada: Nao partilho a tua visao positiva por várias razoes (admito que várias delas sao pessoais):
1) Desconfio de autoridades estabelecidas sobre principios nao confirmáveis.
2) Qualquer estructura religiosa que permita umaintervençao politica é por natureza perniciosa e trai o proncipio com que supostamente foi criada (sim, sei que voces teoricamente nao podem participar tao activamente na vida politica, mas as coisas mudam Marco...)
3) A experiencia histórica nao está do vosso lado.
4) Qualquer sistema politico que se deixe influenciar por qualquer relgiao tende a ser totalizante em muitas, quando nao todas a vertentes.
5) Sacerdotes que têm influencia eleitoral estao a perverter a democracia ao exercer um pressao injusta sobre o crente.

e outras razoes haveriam mas acho que estas ja dao que falar :)

Pedro Fontela disse...

Nota: nisto tudo esqueci-me de dizer que gosto mais deste formato de blog :)

Elfoverde disse...

Bom, Marco, parabéns pelo novo formato..., de vez em quando é preciso inovar.

Quanto ao texto em si é demasiado longo para se darem comentários sintéticos.

A organização nunca fez mal a ninguém mas como sou um anarca por natureza, gosto de ver uma boa desorganização organizada.

Isto não é critica a ninguém em especial, aliás revejo-me nesta noção, mas há que reconhecer que às vezes somos muitos organizados no papel e uns autênticos "bahá'ís" noutras circunstâncias.

Um abraço.

Marco Oliveira disse...

Pedro,

Eu acredito que a humanidade tem vindo a evoluir colectivamente. Tal como um ser humano atravessamos a infância, e adolescência e vamos agora entrar na nossa idade adulta; claro que ainda temos comportamentos de adolescente (veja-se o relacionamento entre as nações), mas isto com o tempo passa (há alguns meses atrás coloquei aqui o link para uma notícia da BBC que dava conta da redução de conflitos no nosso planeta).

Desta forma, quando dizes que a experiência histórica não está do nosso lado, é um pouco como dizer que uma pessoa com 16 ou 17 anos nunca será um adulto maduro, porque sempre teve comportamentos ora infantis ora adolescentes. A experiência histórica desse jovem também não está do lado dele.

Quanto ao que dizes sobre estruturas e autoridades religiosas, lembro-me de uma frase de Agostinho da Silva: "O homem mais próximo de Deus é o mais desconfiado das ortodoxias religiosas". (esta também é para o Elfo!)

Quanto ao novo template, obrigado pelo elogio. Foi feito/adaptado nas férias

Pedro Fontela disse...

Isso só pode ser verdade Marco se assumes que existe uma progressao linear da humanidade. Eu nao aposto nisso.

Marco Oliveira disse...

Pedro,

Penso que a evolução não é linear; é uma evolução com avanços e recuos.

Por exemplo, nas ultimas décadas do século XX vimos a democracia impor-se como sistema político em diversos países do mundo. Nos anos 70 foram Portugal, Espanha e Grécia, nos anos 80 foram vários países da América Latina, nos anos 90 foram os antigos países do leste... Isto é uma evolução. E se compararmos com o início do sec. XX (onde o mundo era governado por uma dúzia de famílias reais, então percebemos que a evolução é enorme).

Também tomando apenas o sec. XX como exemplo, assistimos a evoluções tremendas a nível científico (medicina, engenharia) e social (emancipação das mulheres, direitos laborais).

Poder-se-á argumentar que o sec. XX foi uma excepção em relação à história da humanidade. A mim parece-me que o século XX foi um momento de viragem na história da humanidade e que tivemos uma sorte incrível poder viver nos seus últimos anos.

E quando vejo o capitalismo selvagem a ameaçar direitos conquistados nesse século, movimentos terroristas e governos ditatoriais a ameaçar essas conquistas do século XX, considero que são pequenos recuos e que somos suficientemente fortes para não permitir um retrocesso global da humanidade.

Resumindo: acredito que hoje vivemos melhor do que os nossos avós, e que os nossos netos ainda vão viver melhor que nós. Estamos a enfrentar grandes problemas, é verdade; mas os nossos avós também enfrentaram grandes problemas e superaram-nos.

João Moutinho disse...

Marco,

Parabéns pelo artigo, pela discussão e pleo novo formato.
Pedro Fontela, apreciei particularmente a sua (contra)argumentação.
Na realidade, acreditamos que "Essas lutas infrutíferas, essas guerras ruinosas cessarão e a Mais Grandiosa Paz virá".

João

Daniella disse...

Capitalismo selvagem, movimentos terroristas e governos ditatoriais ao meu ver são como conflitos internos, problemas de identidades e crises de um adolescente no caminho da maturidade.
Queira o Pedro Fontela ou não, um dia ele foi bebé depois passou a sua infância e aposto que teve uma adolescência conturbada; ora se agora ainda é jovem ou não eu não sei mas uma dia há de ser adulto e velho e olhando para atrás, pensando na vida em que deixou lá.
Espero que ele se orgulhe dela.

Pedro Fontela disse...

Marco,

O progresso é algo que ocorre quando um conjunto de condiçoes se reune. E sim, realmente estamos muito melhor agora do que se tivessemos os dois nascido algures no séc.XVIII mas isso, como creio que concordarás, nao é relevante para determinar uma lei universal sociológica de evoluçao social.
Nao sei, todo o discurso de progresso que apresentas a mim só me faz lembrar Comte - com as várias fases e tudo.
Acredito que o progresso é reversivel dadas certas condiçoes e que nao existe objectivo nenhum para o qual todos caminhem - é um proceso mais acidentado e caótico.




Daniela,

A metáfora do Marco parece-me desajustada pelas razoes que já indiquei. O crescimento de um ser humano é linear o da história nao tem por que ser.

Pedro Fontela disse...

Joao Moutinho,

A paz virá? Talvez. Mas acrescento um ponto: a paz só tem utilidade quando se concordam com os termos do armistício.