domingo, 8 de outubro de 2006

Mind the Gap! (1)

Após quatro dias em Londres aqui fiquei com a impressão que os imigrantes muçulmanos não conseguem – ou não pretendem - integrar-se na sociedade inglesa.
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Mind the gap! é a frase que se ouve repetidamente em várias estações de Metro da capital britânica; alerta os passageiros do metros para degrau que pode existir entre o chão da carruagem e a plataforma. Esta frase e popularizou-se de tal forma que consta já de algumas recordações turísticas.

Mas a palavra gap também pode ser entendida distanciamento ou fosso.

Em relação ao ano passado, apercebi-me imediatamente o clima de tensão que se criou em relação à Comunidade Muçulmana. Todos os dias há várias notícias dando conta de vários casos de imigrantes muçulmanos incapazes de se integrarem na sociedade britânica: é o polícia muçulmano que pede para não efectuar vigilância da Embaixada de Israel invocando problemas morais, é o taxista muçulmano que se recusa transportar o cão de uma mulher invisual porque acredita que o cão é um animal impuro, são as crianças muçulmanos de uma escola pública que se opõem às decorações de natal... Todos os dias a imprensa mostra vários casos de insucesso do que chamam o modelo multicultural inglês.

O tema é já abordado sem a preocupação do politicamente correcto, chegando um dirigente da oposição a prometer que se for eleito vai acabar com os "ghetos muçulmanos". Mais recentemente, o Ministro Jack Straw ao receber um grupo de mulheres muçulmanas pediu-lhes que retirassem o véu que lhes cobria o rosto. Segundo o Ministro, falar com alguém com o rosto coberto é algo que impede um diálogo normal; curiosamente, a atitude do ministro recebeu um forte apoio da opinião pública. "Teve coragem para dizer o que todos pensam", "Finalmente foi franco e honesto", "Foi muito corajoso, pois há uma significativa percentagem de muçulmanos na sua região eleitoral".

Hoje, os editoriais e comentadores de alguns jornais questionaram o facto de se permitir a existência de comunidades de imigrantes fechadas sobre si próprias e isoladas do contactos com outras comunidades. Houve mesmo quem recordasse que o multiculturalismo em si não é o problema, pois os Amish nos EUA também são uma comunidade fechada sobre si própria, mas com uma postura totalmente diferente da comunidade muçulmana em Inglaterra. E por fim, a própria Igreja de Inglaterra criticou os esforços do Governo Inglês no diálogo Inter-Religioso, afirmando que este tem privilegiado excessivamente a fé islâmica e as comunidades islâmicas, aprofundando o fosso que existe entre esta e outras comunidades.

A tensão é óbvia. O gap entre os imigrantes muçulmanos em Inglaterra e a restante sociedade inglesa está-se a aprofundar. Vêm aí tempos muito complicados.

Mind the Gap!

9 comentários:

João Moutinho disse...

Pois é, meu caro!

GH disse...

Eu acredito que existam alguns segmentos dos imigrantes muçulmanos em Inglaterra que não são flor que se cheire.
Mas os ingleses também são um bocado racistas, certo?
Não é verdade que eles se recusam fazer trabalhos que consideram ser dos "coloured"?

Daniella disse...

Caro Marco, li o seu recente post e por sinal muito bem escrito, no entanto acho que – não digo que exagerou porque nisso tudo há um certo exagero geral – descreveu um só lado da história. Concordo com o que diz em relação à comunidade muçulmana mas será que alguém procurou indagar o porquê? Será que há 20 ou 30 anos atrás também estes factos, esta distância cultural e ideológica eram assim tão evidente?
Lembro-me em algum lugar no tempo conheci uma iraniana que me contou da sua viagem a Londres e que como foi humilhada por um rapaz londrino que a chamou de árabe tendeira e não civilizada enquanto ele próprio estava usando um lenço modelo Yasser Arafat, numa época em que o Irão esbanjava riqueza e civilização, a viagem deve ter sido há uns 30 anos atrás.
Pois bem, meu caro, quando alguém é frequentemente atacado, ele cria uma redoma de protecção à sua volta; esta redoma para uma pessoa pode ser a sua atitude de violência ou a negação ou até a recusa, lembrei-me dum comentário num dos seus posts anteriores onde falava dum fosso que abriu e que empurra cada vez mais o muçulmano normal para fundamentalismo.
Não quero fazer nenhuma análise psicológica nem fazer de advogada de... e até pessoalmente acho muito humilhante que uma mulher use véu islâmico, mas também acredito na liberdade da escolha ainda mais nos berços da liberdade e democracia como Inglaterra, se as mulheres muçulmanas querem falar com o ministro de véu a escolha é delas e não há nenhum ministro que tenha direito de pedir muito menos de mandar-lhes tirar o véu ou o caso do taxista que recusa levar o cão. Você vive em Portugal e sabe como mulheres portuguesas cobriam cabelos com lenço preto, principalmente depois da morte do marido e até ao fim da vida. Vai me dizer que isso é uma tradição e nem todas as portuguesas usam, pois bem no Islão também apesar do pesares nem todas as mulheres usam véu e nem toda pessoa detesta o cão.

joão ferreira dias disse...

pois é, eu também me farto de rir quando ouço falar em diálogo inter-religioso por parte a Igreja, porque esse diálogo é só com os muçulmanos. E então e nós povo de Ketù e afins? Pois.

iuri disse...

ha que notar que este tipo de problema - um comunidade imigrante fechar-se sobre si propria sem se querer integrar no pais acolhedor - nao existe so' com os emigrantes, os proprios portugueses fazem (ou faziam) isso em paises como (por exemplo) holanda. ha emigrantes no canada e estados unidos que nem falam ingles. nao estou a querer generalizar, mas que acontece , acontece.
por outro lado , com certeza ha partes da comunidade muçulmana em londres que se entregam perfeitamente, mas esses sao o que se notam menos.

Elise disse...

Excelente Marco. Acrescento que o Estado providência contribuiu para estas tensões sociais - quantos dos ghettos são bairros sociais ? - e que encaro com muita preocupação o crescimento de partidos de extrema direita na Europa.

Nos EUA não há tantos conflitos porque a mobilidade social é maior.

GH disse...

Daniella,
Vc acha que o taxista muçulmano tem o direito de recusar transportar o cão de uma mulher cega? Ele só pode ter esse direito se isso estiver estipulado no contrato de serviço e no contrato de trabalho. Se ele não cumpre esses contratos então deve ser despedido!

E se amanhã ele disser que também não trabalha às 6ªs feiras? Já imaginaste o que acontece a um taxista cristão na Arábia Saudita que se recuse trabalhar ao domingo?

Repara que este tipo de problemas em Inglaterra só acontece com muçulmanos; porque é que não acontece com comunidades de sul-coreanos, polacos, gregos, nigerianos, ganeses, brasileiros...? Porque é que isto é só com muçulmanos? E porque é que isto tambem está a acontecer em França, na Alemanha, e noutros países europeus?

O que tu dizes mostra não uma atitude de tolerância, mas de complacência com gente que quer manter um estilo de vida incompatível com o ocidental atacando valores elementares da nossa cultura.

Daniella disse...

Caro GH, não vamos brincar nem retorcer as palavras. De tudo o que eu escrevi -que de certa forma foi longo e peço desculpas – você só conseguiu ver esta parte de taxista?
Pois bem o nosso problema maior é exactamente esta questão: cada um vê só aquela parte que lhe convém; um vê simplesmente a parte conflituosa mas há quem tenta enxergar as coisas sem provocar danos.
Meu caro, eu não falei que taxista tem direito a recusar transportar mulher cega com cão, claro se a regra é para transportar e ele não gosta então ele que peça demissão; o meu argumento não é para discutir com você ou qualquer outra pessoa, o que eu disse é que ele tem direito a não gostar de cão.
E sobre segunda parte do seu comentário onde diz: “Repara que este tipo de problemas em Inglaterra só acontece com muçulmanos; porque é que não acontece com comunidades de sul-coreanos, polacos, gregos, nigerianos, ganeses, brasileiros...?”
Por acaso a discriminação inglesa ou mais generalizada digamos a europeia acontece sim senhor e com muitos povos imigrantes. Não foi o polícia inglesa que matou um brasileiro depois do atentado no metro? Ups este foi por engano!!! E os asiáticos que vivem discriminados nos bairros denominados “Chinatown” e separados dos puro ingleses. E com os africanos, com aquela bela cor da pele, segundo você vivem em total harmonia! Não é? Vamos ver se estamos entendendo os ingleses! Vivem bem com todo mundo menos com os muçulmanos! Mas que povo tão amoroso! Tenho que me lembrar de pedir desculpas a eles pelo injusto comentário que fiz!
E por último:
“Porque é que isto é só com muçulmanos? E porque é que isto também está a acontecer em França, na Alemanha, e noutros países europeus?”
Sobre os seus porquês sugiro que volte a ler o meu comentário neste e se for preciso nos outros post relacionados a este assunto, mas desta vez sem pré-deduções.

SAM disse...

As situações não acontecem só com os muçulmanos, nem só acontecem situações negativas.

Reparemos que um brasileiro foi morto na Inglaterra, há uns meses (não digo um par de anos, porque na minha memória quero manter o tema recente).

Reparemos que um cão é um animal impuro para o taxista e que se ele não quer o cão no taxi, concordo com o GH, que o tenha no contrato. Eu, acreditando seja no que for que acredito, digo sempre a quem me emprega que irei sempre a cumprir as minhas decisões religiosas. Acho que ele tinha esse direito, mas que o celebrasse no contrato!

Reparemos que a Inglaterra, berço da democracia como uns gostam de chamar não é o berço do pluriculturalismo. Não sei se podemos falar em guetos muçulmanos ou guetos indianos ou guetos latinos. Nem sei se podemos dizer que são os imigrantes que se afastam ou se eles não sentem que podem ser integrados na sociedade "de acolhida" (caricato, mas é esse o termo sociológico).

Sei que é moda falar-se do tema. Se fosse moda falar dos curdos, falar-se-ia deles. Se fosse moda falar-se dos bahá'ís, dos ketu, dos hindus, falar-se-ia deles.

Não é por se falar hoje na violência escolar que ela não existia há dez anos atrás... É moda falar-se do tema agora, tal como será moda falar-se de outro amanhã, como ontem se falou de outro...

A interculturalidade numa sociedade pluricultural passa pela população que está e pela que chega de se quererem integrar, de quererem interagir e isso só acontece se houver despreendimento de ambas as partes e um esforço firme e consciente de quererem. 'Abdu'l-Bahá dizia que é necessário "conhecimento, vontade, acção" para que se consigam as coisas.

Talvez seja o momento dos dois lados se conhecerem e de aceitarem!