quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Escravatura



Recentemente Tony Blair expressou a sua profunda tristeza pelo papel desempenhado pela Grã-Bretanha no comércio de escravos, dizendo que se sentia "profundamente envergonhado". As suas palavras provocaram as mais diversas reacções, desde os que sustentam que não há que pedir desculpas por actos cometidos pelos nossos antepassados, até às organizações Pan-Africanas que afirmaram que as palavras do Primeiro Ministro britânico não têm qualquer significado e exigem compensações financeiras para os descendentes dos povos vítimas de escravatura.

O debate alargou-se aos leitores no site da BBC e não faltou quem recordasse que outras nações se dedicaram ao tráfico de escravos antes dos britânicos e prosseguiram essa actividade depois da Rainha Vitória a ter proibido. O debate está lançado entre os britânicos.

Para a mentalidade ocidental de hoje, deve ser difícil encontrar uma nação que não tenha um episódio negro na sua história. Nessa perspectiva todos encontraremos algo que nos incomoda na história dos nossos antepassados, algo que preferíamos que não existisse e nos incomoda sempre que é mencionado ou recordado. Há quem diga que são os "fantasmas do nosso passado colectivo". Haverá maneira de exorcizar esses fantasmas? Não sei.

Há alguns anos atrás, quando Mário Soares era Presidente da República lembro-me de, pelo menos duas vezes, o ter ouvido a pedir desculpa aos judeus pelas perseguições que sofreram em Portugal. Foi um momento simbólico especial, um assumir pesaroso de um episódio passado que todos preferíamos que não tivesse existido. Ainda hoje tenho a sensação que aquelas palavras do nosso ex-Presidente da República eram mais importantes para os portugueses do que para os judeus.

Então porque não podem os actuais dirigentes políticos portugueses fazer o mesmo em relação à escravatura? É que a maturidade de uma sociedade também vê na sua capacidade de reconhecer os erros do passado.

9 comentários:

João Moutinho disse...

Na minha visão a atitude de Tony Blair foi a mais correcta.
Quanto às atitudes de quem entende não pedir desculpas ou de quem se sente no direito de pedir indemenizações eram inevitáveis.
No entanto, discordo claramente de ambas. Primeiro, a História deve ser assumida como tal, e não como gostaria de ter sido. A distinção entre pirata, decobridor e herói torna-se muito ténue se procurarmos ter uma visão imparcial.
A escravatura foi real, o morticínio e humilhações nos navios de carga existiram.
Quanto ao pedido de indemnizações, não posso concordar porque o tráfico de escravos nunca poderiam ter sido executado sem o apoio activo da elite africanas, eram elas que capaturavam os escravos e os vendiam aos europeus - sem a mínima complacência. Só muito mais tarde os europeus penetraram no interior de África. E ainda hoje, o que fazem as élites africanas aos próprios povos?
Vamos pedir indeminizações aos italianos pela escravatura imposta pelo Império Romano?
Reconhecer erros só fica bem a quem o faz mas a "caça às bruxas" pode acabar muito mal.

GH disse...

Joao Moutinho,
Falta lembrar que os índios do Brasil também foram escravizados (e dizimados) pelos Portugueses.

Aquilo que há alguns séculos eral legal hoje é considerado um crime contra a humanidade.
Corremos o risco de fazer juízos anacrónicos...

João disse...

É certo que as desculpas não apagam os erros do passado, e também por isso é que há quem defenda as indemnizações como forma de ser consequente.
Quanto a mim acho que o passado não pode ser apagado, nem à custa de indemnizações, o passado serve para extrair-mos as lições para o presente e o futuro e um pedido de desculpas sincero pode querer dizer que se aprendeu alguma coisa com o passado.
Ninguém tem que viver com a culpa pelo comportamento dos seus antepassados, mas também ninguém deveria viver marcado pelo mal feito aos seus antepassados. Neste aspecto acho que a fé bahai apresenta uma visão do mundo que a ser aplicada sem desvios poria fim a este tipo de questões pois significaria o fim de uma ordem estabelecida em que na realidade a vida humana não tem toda a mesma dignidade.

Mikolik disse...

João, explica-me o que queres dizer com "...fé bahai apresenta uma visão do mundo que a ser aplicada sem desvios poria fim a este tipo de questões pois significaria o fim de uma ordem estabelecida em que na realidade a vida humana não tem toda a mesma dignidade."

Como assim não tem a mesma dignidade?

João disse...

Eu explico: De facto no mundo de hoje a vida humana não tem o mesmo valor e a mesma dignidade, consoante a origem étnica, religiosa ou geográfica do ser humano em causa. Basta pensar na emoção que causa o rapto de um ocidental em qualquer parte do terceiro mundo em contraste com a indiferença com que as imagens de fome em Africa já são recebidas.
Essa diferença ainda é em muito resultante de situações do passado como o tráfico negreiro. É certo que a escravatura sempre existiu e por todo o lado, mas a partir dessa altura uma determinada raça passou a ser conotada com a figura de escravo e uma outra com a de amo, e isso é que foi trágico para a humanidade.
Essa tragédia não se resolve com ajustes de conta com o passado mas sim com uma nova visão da humanidade e do mundo, e nesse sentido eu penso que a visão bahai pode ser a solução para um mundo melhor e justo.
Espero ter conseguido explicar-me melhor desta vez.
Um abraço para ti Pedro!

Mikolik disse...

João, obrigado pelo esclarecimento, percebi e de resto concordo.

Quando participei na inauguração dos terraços no Monte Carmelo, no Centro Mundial Bahá'í em Haifa, tirei fotografias ao lado de bahá'ís da Papua Nova-Guiné, falei com pessoas do Kazakistão, Tailândia, Ilhas dos Pacifico, etc, etc. Foi uma autêntica celebração da diversidade e riqueza da raça humana. Ali pude verificar que o ideal bahá'í de unidade na diversidade não são apenas palavras, é uma realidade formada, em fase de cristalização global...

Vamos lá chegar, os nossos filhos irão viver num mundo melhor que o nosso.

(...nome...) disse...

Com este rumo dos acontecimentos será mesmo que os nossos filhos irão viver num mundo melhor que o nosso?
Noutro post os meus comentários foram criticados e acusados de serem exagerados e trágicos pelo facto de demonstrar a minha preocupação pelo silêncio dos bons quanto à situação dos direitos humanos, em especial no Irão.
Neste post vejo quase os mesmos nomes dramatizando situações que aconteceram no passado, aliás num passado muito distante.
Talvez realmente seja mais conveniente comentar e especular sobre tragédias passadas até porque não há nada que fazer a não ser sentar e lamentar.
Certamente é mais conveniente para o Sr. Tony Blair, também séculos depois, fazer um pedido de desculpas pela escravatura.
Será que todos estão a espera do futuro para fazerem pedidos de desculpa pelos crimes cometidos hoje contra os outros seres humanos?

FL disse...

Sinceramente tenho dificuldade em formar opinião sobre este tipo de questões. Durante quanto tempo é um povo ou entidade culpado por algo que fez? Deverá a actual Igreja Católica ser julgada pela Inquisição? Os alemãos de hoje ainda têm ligação ou culpa ao que aconteceu no nazismo? Serão os muçulmanos de hoje culpados pela ocupação Ibérica? Os exemplos são inúmeros. Depois há a questão do anacronismo de julgamento que já referiram. Considera que a atitude de Tony Blair é correcta mas a ideia de dar compensações financeiras para pagar erros do passado é má. Deve-se ajudar para criar um mundo melhor e não por ter peso na consciência. Depois há formas melhores de auxílio ao desenvolvimento do que oferecer dinheiro. Veja-se o caso de Angola.
Quanto ao caso concreto da escravatura, a verdade é que ela já existia em África antes da presença europeia. Os prisioneiros de guerra ou populações ocupadas resultantes dos conflitos entre tribos eram tornados escravos. Isto não desculpabiliza o que os europeus fizeram, mas a verdade é que não inventaram nada.
Não sinto peso na minha consciência pelo que Portugal fez na época da Expansão. O peso que tenho, enquanto pessoa que gostava de viver num mundo melhor, é pelo facto de Portugal e os outros países desenvolvidos não ajudarem mais e melhor, sem interesses e corrupção, quem realmente precisa.

(...nome...) disse...

Concordo plenamente com FL.
Em vez de lamentações e culpabilizações Deve-se ajudar para criar um mundo melhor e não por ter peso na consciência. Depois há formas melhores de auxílio ao desenvolvimento do que oferecer dinheiro.?