quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Washington Post: Bahá’ís do Egipto lutam pelo reconhecimento

Aqui fica a tradução(um pouco apressada) do artigo ontem publicado no Washington Post (Baha'is in Egypt fight for recognition as people; também aqui). O texto é de autoria de Cynthia Johnston, da agência Reuters. Os sombreados a amarelo são da minha responsabilidade.
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Se o dentista egípcio Raouf Hindy negasse a sua fé Bahá'í, poderia obter documentos de identificação para os seus filhos necessários para a matricula nas escolas egípcias, poderia conduzir um carro ou abrir uma conta bancária.

Mas Hindy insistiu em dizer a verdade.

A sua decisão levou-o à linha da frente de uma batalha legal sobre as políticas de identificação do Egipto para os bahá’ís, que são vistos como heréticos por muitos muçulmanos, e cuja fé não é reconhecida pelo Estado.

Hindy está a processar o Governo pelo direito de omitir a religião das suas crianças em documentos de identificação oficiais - um acto corajoso neste país profundamente religioso e de maioria muçulmana onde a pequena comunidade Bahá’í deve ter entre 500 e 2000 membros.

Se ele ganhar, os advogados afirma que o caso criará um precedente que ajudará outros bahá’ís a obter documentos de identificação, largamente negados desde 2004. A discriminação contra os Bahá’ís está entrincheirada na burocracia, afirmam.

"Não gosto que uma pessoa qualquer me obrigue a escrever uma religião em que eu não acredito. Sabem porquê? A religião está entre o coração e Deus", afirmou Hindy à Reuters.

A Constituição egípcia garante liberdade religiosa, mas na prática os funcionários estão relutantes em reconhecer outras religiões para além do Islão, Cristianismo e Judaísmo.

Activistas dos direitos [civis] afirmam que os Bahá’ís enfrentam perseguições sistemáticas no Egipto. As regras aplicadas rigidamente desde que o Egipto informatizou o sistema de identificação exigem que os documentos oficiais das pessoas contenham a filiação religiosa, e que esta seja escolhida de entre as três fés reconhecidas.

Assim, Emad e Nancy, os filhos gémeos de Hindy, sem documentos apropriados têm caído numa subclasse de pessoas não reconhecidas, cuja identidade o Egipto considera perturbadora.

"Se esta política continuar, os Bahá’ís serão cidadãos de quinta-categoria, ou até não-cidadãos, no seu próprio país", afirmou Diane Ali, a Representante Bahá'í junto das Nações Unidas.

Hindy delapidou as suas poupanças para que os seus filhos, que são cidadãos Egípcios nascido em Oman quando ele trabalhava no Golfo, pudessem estudar no estrangeiro. As escolas egípcias, incluindo as privadas, recusam-se a admiti-los. O Egipto recusa-se a reconhecer as suas certidões de nascimento porque estas identificam os gémeos como bahá’ís.

A SUBCLASSE BAHÁ’Í

Como resultado das novas regras, nos anos recentes a vida tem ficado cada vez mais difícil para os Bahá’ís.

A fé Bahá’í, que teve origem no Irão, chegou ao Egipto em 1860, quando comerciantes bahá’ís se estabeleceram em Alexandria e no Cairo, de acordo com o site oficial bahá’í, http://www.bahai.org.

Um século mais tarde a comunidade abarcava 5000 pessoas, a maior no mundo árabe. Os bahá’ís egípcios tinham as suas próprias bibliotecas e cemitérios. Segundo a comunidade, as assembleias bahá’ís governantes funcionavam em sete cidades.

Em 1960, o Egipto dissolveu as instituições Bahá’ís e confiscou os bens da comunidade. Um terreno nas margens do Nilo comprado para construir uma casa de adoração foi vendido em hasta pública.

Os bahá'ís são por vezes vistos no mundo árabe como cidadãos desleais porque a fé tem o seu centro mundial naquilo que é hoje Israel. Após a guerra de 1967 no Médio Oriente, afirma a comunidade, alguns bahá’ís egípcios foram presos em campos de detenção durante seis meses. Seguiram-se algumas detenções esporádicas.

Muitos analistas afirmam que uma razão mais provável do sentimento anti-bahá’í no Egipto está nas diferenças teológicas com o Islão. Os bahá’ís consideram o fundador da fé, Bahá'u'lláh, como o mais recente de uma linha de profetas que inclui Abraão, Moisés, Buda, Jesus e Maomé.

Hala Mustafa, editor da revista al-Ahram Quarterly Democracy, afirmou que as novas restrições foram impostas pois o Egipto está a tornar-se conservador no aspecto religioso, e acrescentou que não há indícios de que o Governo venha a alterar em breve a sua visão sobre os Bahá’ís.

O porta-voz do Ministério do Interior afirmou: "As regras que foram publicadas sobre este assunto dizem que não devem ser emitidos documentos de identidade para esta religião bahá'í. Isto significa que é proibido. É uma decisão do tribunal; não é nossa. Nós apenas estamos a implementá-la."

Os muçulmanos ortodoxos consideram os bahá’ís como heréticos, pois eles chamam profeta ao fundador da sua religião – um anátema para muçulmanos que acreditam que Maomé foi o Mensageiro final de Deus.

SEM IDENTIDADE

Os bahá’ís dizem que muitos deles evitam sair à noite ou ir a locais onde a polícia possa esteja a fazer identificações, por medo de lhes ser pedido documentos de identidade que eles cada vez menos podem apresentar.

Os egípcios com 16 anos ou mais devem ter sempre consigo o cartão de identidade. Alguns bahá’ís trazem consigo os agora cartões inválidos emitidos antes de 2004. Outros têm passaportes ou outros documentos que ainda não expiraram e usam-nos.

"Nem sequer tentei obter um [cartão de identidade] porque sabia que não conseguiria... Para quê ir meter-me nesta confusão?" disse Basem Wagdy, um bahá’í do Cairo. "Trago comigo a minha carta de condução. Mesmo antes disto penso que se me mandarem parar apresento-lhe o meu cartão de estudante."

Wagdy, um professor de ciências e matemática, afirma ter sido despedido da Universidade Alemã do Cairo depois de não ter sido capaz de apresentar dados sobre a sua conta bancária - levando a escola a descobrir que ele não tinha cartão de identidade e a rescindir o contrato. Depois disso, conseguiu emprego num liceu americano.

Um funcionário da Universidade Alemã recusou fazer comentários.

Durante alguns meses no ano passado, os bahá’ís tiveram esperanças: após uma luta de dois anos, um tribunal decidiu em Abril que os membros de uma família bahá’í cujos documentos tinham sido confiscados pelo Estado podiam identificar-se como Bahá’ís nos documentos oficiais.

Mas um tribunal superior alterou a decisão em Dezembro numa decisão sobre a qual não pode haver recurso.

Como resultado os bahá’ís mudaram de táctica. Agora já não procuram ser identificados como bahá’ís nos documentos; apenas querem documentos de identidade sem qualquer menção da sua religião.

"É um passo atrás para a comunidade Bahá’í", afirmou Hossam Bahgat, um advogado dos bahá’ís que tem esperanças no caso de Hindy. "Mas será uma solução que permitirá aos bahá’ís realizar as funções básicas do dia a dia".

7 comentários:

Ângelo C. disse...

Deus continua a enviar mensagens.
Maomé fez um esforço, mas...
Estava limitado e era limitado.
Ele próprio reconheceu isso de várias formas.Até disse que era um simples humano.
Pq n foi o ultimo mensageiro nem Deus parou de enviar mensagens.
Deus n tirou os sentidos às pessoas.
Sentidos servem p sentir
Sentir é receber informação do exterior.
Informações são o conteúdo de mensagens.
As pessoa são feitas de natureza receptora.
Logo, Deus mantém todas as condições para as pessoas continuarem a receber mensagens.
Pq mesmo no mais pequeno átomo ou ideia, há informação.
Se Deus fez tudo e está em tudo, então há informação de Deus em tudo.
As pessoas, além de receptoras de informação religiosas, tb são emissoras.
Têm essa energia natural. Através de conselhos, práticas, exemplos, interpretações, etc...
As pessoas querem transmitir informação religiosa às outras pessoas e a Deus.
Pq nunca li isto, nem me foi dito, de onde veio ?
Creio que para teologia de um amador, estas reflexões até estejam razoáveis.
Angelo
anjocel@gmail.com

Daniella disse...

Nossa,
Não sei quem é este Ângelo nem tem o perfil disponível para eu espiar :) mas a sua análise, raciocino e conclusão foi de cortar a respiração.
Bons argumentos, parabéns, nunca tinha visto o assunto desta prisma.

Anónimo disse...

Também fiquei surpreendido com estas "revelações".
E há mais. Algumas diga-mos que são um tanto ou quanto "polémicas".
É à vontade de Deus. quando Ele quer e como quer. :-)
Se a democracia é boa, então é lógico que Deus também use esse método. Enviando a Sua Palavra (mensagens ) não apenas a um , mas a muitos, de preferência a todos.
Estes temas até são interessantes.
Não conhecia os bahai, e tb os acho interessantes.
Fiquem na graça de Deus,
Angelo

Anónimo disse...

Por outras palavras.
Se a democracia é o melhor método, então é lógico pensar que Deus tb usa esse método.
Disponibiliza a Sua Mensagem em tudo e para todos.
Ângelo

Anónimo disse...

Mais alguma reflexão.
Se Alá é todo poderoso, tem todos os poderes, então também tem os poderes maus.
Se Deus/Alá é o único deus e criador, então também criou o mal.
Até demorei algum tempo a publicar esta reflexão, por ter ficado admirado com as conclusões.
Creio que esta ideia de um Deus bom e mau ao mesmo tempo, seja próxima à ideia que os hindus têm das divindades.
Quanto aos cristão, creio que o problema se resolva com o espírito santo.
Se Deus é tudo, também é espírito. Se é espírito, também é espírito santo.
E através do espírito santo, que pode ser algo que seja partilhado entre Deus e os homens, podem-se alcançar novos patamares no desenvolvimento humano.
Angelo

Marco disse...

Angelo,
Sobre o conceito de Deus na religião Baha'i, escrevi este post há algum tempo; sobre este assunto também aqui deixei o post: Uma Realidade Transcendente.
Também traduzi e publiquei no post Teísmo e Monismo uma análise comparativa do conceito de Deus/Realidade Última entre as religiões Teístas e as religiões Monistas.

Aquilo a que chamamos "mal" é fruto do livre arbítrio concedido aos seres humanos. Também existe sofrimento que não é fruto do mal provocado pelos seres humanos; mas isso é algo inerente à condição humana.

Anónimo disse...

Obrigado pela atenção,
Ângelo