domingo, 11 de março de 2007

Naide Gomes

Há 30 anos, Carlos Lopes era uma figura de relevo no Atletismo português. Nos 10.000 metros e nas provas de corta-mato sabíamos que ele acabaria entre os primeiros. Ele tornou-se um modelo para muitos jovens que de repente descobriam a sua vocação para o atletismo. Era a personificação do prestígio do desporto português.

A influência do seu prestígio era tal que, quando em vésperas dos jogos olímpicos de Los Angeles, Carlos Lopes sofreu um acidente durante um treino na Segunda Circular, várias pessoas passaram a usar aquele local para treinos de corridas de meio-fundo. Parecia que todos queriam ser iguais ao Carlos Lopes.

Recentemente, Naide Gomes sagrou-se hoje campeã da Europa do salto em comprimento em pista coberta, ao vencer o concurso em Birmingham com um salto de 6,89 metros, revalidando o título obtido em Madrid 2005.

Ou seja, temos uma bicampeã europeia.

Estranhamente, os nossos media parecem desatentos ao sucesso atleta sportinguista. A verdade é que o nosso país não tem assim tantos atletas de sucesso; não devia Naide Gomes ser apresentada como um modelo para as jovens portuguesas que se dedicam ao atletismo? Não poderiam os seus triunfos ser uma fonte de inspiração para tantas jovens que ainda não descobriram a sua vocação para o atletismo?

Esta situação não passou despercebida à própria atleta que, depois de agradecer a todos os amigos e familiares que a tinham apoiado e felicitado por ocasião deste último sucesso, deixou um repto para todos os agentes desportivos: "Apoiem o atletismo!"

Só mais uma nota final: Uma mulher que prestigia o nome de Portugal no Atletismo merecia mais do que uma homenagem com um beijinho e um ramo de flores do Presidente do Sporting, tal como aconteceu ontem no Estádio de Alvalade durante o intervalo do jogo Sporting-Estrela da Amadora.

6 comentários:

Pedro disse...

Cada vez mais verás cada vez menos atletas de classe mundial em Portugal. Eu sempre fiz atletismo de fundo. No meu tempo de júnior, há 15 anos atrás, havia sempre concorrência, cheguei a ficar nos 100 primeiros nas grandes provas de estrada com mais de mil atletas, mas nunca era dos 10 primeiros no meu escalão, viam-se jovens, e viam-se também relativamente muitos corredores individuais, isto é, a correr sem pertencerem a nenhum clube. Hoje em dia é bem diferente, contam-se pelos dedos os jovens numa prova desse género, e corredores individuais são raríssimos. A última prova em que participei, o ano passado, a média de idades do pelotão era de 49 anos, ou seja, basicamente só velhos a correr.

A minha conclusão: Por um lado devido às tendências da evolução da vida moderna, por outro devido às condições sócio-económicas do nosso país, o desporto deixou de ser uma ocupação de massas, especialmente o desporto que requer um alto índice de sacrifício e dedicação. Em particular o atletismo recente-se da falta de pistas, espaços verdes próprios para a pratica do desporto. Essa é uma das justificações porque sempre conseguimos ter um bom atletismo de fundo e meio-fundo, é que nessas distâncias qualquer estrada serve para treinar, até mesmo a 2ª circular.

Pedro disse...

Mesmo assim acho que teremos sempre um ou outro campeão mundial, que no fundo será a excepção que confirma a regra, pessoas com extremo talento sempre as haverá, e se elas tiverem a sorte de estarem no local certo na altura certa poderão aparecer.

Dou-te um exemplo: o Nélson Évora, que é bahá'í, tem um talento inato aliado a uma estrutura física ideal para saltar, nasceu para o atletismo por um acaso da sorte. Ele morava no mesmo prédio que o João Ganço, que ainda hoje é o treinador dele. Um dia o João, num fim-de-semana em que o Nélson não tinha nada para fazer, levou-o para os treinos com o filho e o resto das crianças que ele treinava. Aquilo foi continuando, assim um pouco por distracção, até que afinal nasceu ali um campeão mundial.

Se o Nélson não fosse vizinho do João, duvido que a vida escolar ou social do local onde residia o estimulasse ou sequer lhe daria a possibilidade de dedicar-se ao atletismo e a vir a ser o que é. Por isso vejo o futuro do atletismo e do desporto em geral no nosso país, a nível mundial, com as mesmas características de sempre, mas ainda mais exacerbadas, ou seja, muito poucos atletas a competir nas competições internacionais e esses poucos a lutarem pelas medalhas. Isto é, alguns poucos, mas muito bons. E o que isso interessa para Portugal? Quase nada, o desporto para ser útil a uma pessoa ou a um país deseja-se pela quantidade e não pela “qualidade”. A verdadeira utilidade do desporto para o país é quando uma larga percentagem da população o pratica, pela consequência que tem para a formação do carácter e saúde física de uma maior percentagem dos cidadãos. As medalhas servem para quê? Pelos vistos nem sequer ajudam o Estado a criar mais infra-estruturas desportivas! Sim, porque como nós sabemos desporto não é só futebol, mas isso era outra conversa…

Helena disse...

Olá Marco,

1. O modo como falas do Carlos Lopes e da Naide lembra-me que, na altura em que o Boris Becker e a Steffi Graf começaram a dar nas vistas (foi mais ou menos simultâneo), os mass media davam muito mais relevo ao Boris Becker que à Steffi Graf - como se o desporto de mulheres fosse coisa de menos importância.

2. Na escola dos meus filhos fizeram recentemente um estudo sobre o desenvolvimento físico dos alunos. Durou dois anos. Num dos anos tiveram ginástica especial para as costas, no outro tiveram as aulas de desporto normais. As medições no fim de cada ano mostraram que o desporto escolar, mesmo com ginástica especial, não basta. As próximas gerações vão ter umas costas desgraçadas por se sentarem demasiado tempo, carregarem pastas escolares demasiado pesadas e não fazerem desporto suficiente. O médico que fez o estudo falou mesmo num "número muitíssimo alto de pessoas com incapacidades físicas" devido à falta de desporto - já na geração dos nossos filhos.
A escola reagiu: o ano do meu filho tem uma tarde por semana duas horas suplementares em que os alunos experimentam um diferente tipo de desporto (atletismo, futebol, natação, judo, ténis, esqui de fundo, etc.), com o objectivo de os alunos descobrirem algo que lhes agrade para passarem a praticar regularmente.

As pessoas da minha geração iam a pé para a escola e para todo o lado, no recreio e depois dos deveres brincavam às correrias e tropelias (não havia computadores e quase não se via televisão). Em suma: estavam permanentemente em movimento. Os nossos filhos passam a vida sentados - isto é um fenómeno muito recente, e já se está a ver que vai dar muito mau resultado!

Pedro disse...

Sentados não seria tão mau, se as crianças se soubessem sentar correctamente, e os adultos também. A ajudar o facto de 90% das cadeiras+mesa não terem ergonomia.

Em sempre fiz muito desporto, mas mesmo assim tenho problemas de costas e agora ando a investigar o assunto, as causas, etc.
A Helena tem toda a razão no que diz, mas a mim parece-me que a postura é o problema principal, é claro, o exercicio fisico ajuda a ter, ou conseguir, uma postura melhor.

Nesse estudo só faltou perceber que certamente as cadeiras e mesas da escola fazem curvar as costas das crianças...

Marco disse...

Helena,

Eu estou a pôr a Naide e o Carlos Lopes ao mesmo nível, como fontes de exemplo e inspiração para todos os jovens. Só lamento é que a Naide não receba tanta atenção.

Isso que escreves sobre desenvolvimento físicos dos miudos é importante. O meu mais velho já anda na natação. :-)

Helena disse...

Pedro,
não percebo nada disto - ando a vender o peixe ao preço a que comprei - mas o médico que fez o estudo chamou a atenção para a necessidade de os miúdos mudarem muitas vezes de posição, enquanto sentados. Aquela coisa de os obrigar a sentar direitos parece não ser importante - excepto pelo facto de, durante alguns segundos, terem mudado de posição. Parece que, desde que variem, todas as posições são boas para as costas: a escorregar pela cadeira abaixo, semi-deitados sobre a mesa, e até com as costas direitas.

Marco,
eu percebi esse lamento pela falta de atenção dada à Naide, mas expliquei mal, no meu comentário.

Pessoalmente, passei a infância a mexer-me, mas odiava desporto: faltava-lhe a componente lúdica.
Não tive aulas de natação, mas passava horas na água a brincar às corridas, a ir buscar coisas ao fundo do mar, aos mergulhos, etc.

Um casal amigo (pediatra e fisioterapeuta infantil) recomenda vivamente aqueles trampolins gigantes para treinar os músculos do tronco.

Mas já me estou a afastar completamente do tema do post!