quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

La Sapienza

O episódio do cancelamento da visita do Papa à universidade romana La Sapienza tem feito correr muita tinta. Uns encaram-no como uma espécie de “desforra da ciência sobre a religião”; outros apenas como mais um espasmo do ateísmo radical.

O Papa Bento XVI foi convidado pelo Reitor da Universidade de Roma La Sapienza para proferir um discurso na abertura do ano académico. Contra este convite insurgiram-se dezenas de professores, protestando contra as posições conservadoras do Papa Bento XVI em diversas matérias sociais e, sobretudo, a sua concepção de uma investigação científica subordinada à fé religiosa. Lembraram um discurso feito em 1990, quando ele era ainda Cardeal, em que teria citado Feyerabend dizendo: «Na altura de Galileu, a Igreja mostrou ser mais fiel à razão que o próprio Galileu. O julgamento contra Galileu foi razoável e justo».

(imagem obtida no De Rerum Natura)

A visita acabou por ser cancelada “por receio de tumultos”. A notícia do cancelamento foi recebida por centenas estudantes com aplausos e gritos de vitória.

Que pensar de tudo isto?

Impedir alguém de expressar as suas opiniões é uma acto de censura. E as universidades além de centros de desenvolvimento e disseminação do saber, deviam fomentar os preceitos da tolerância e do respeito por quem tem ideias diferentes. Lembro que Ahmadinejad – um dos lideres mundiais mais odiados pelos americanos - foi convidado para discursar numa universidade americana. Foram-lhe ditas umas boas verdades; mas ele pôde usar da palavra e defender-se.

Desta forma estes professores e alunos da universidade La Sapienza colocaram-se ao nível dos radicais, que deambulam por universidades no mundo islâmico pregando a intolerância, o obscurantismo e regozijando-se com uma pretensas vitórias do bem sobre o mal.

Mas também custa a acreditar que um Pontífice que não teve medo de ir à Turquia depois das polémicas provocadas pelo discurso na Universidade de Ratisbona, tenha receio de se deslocar a uma Universidade Romana por recear que os protestos degenerassem em cenas de violência.

A verdade é que este cancelamento acaba por ser uma hábil jogada do Papa Bento XVI que consegue criar um facto onde a intolerância do ateísmo radical é exposta publicamente. Desta forma, os professores e alunos que provocaram este episódio, além de intolerantes, mostraram uma enorme ingenuidade em relação às consequências do seu acto.

* * * * * * * * *

NOTA: Já tive oportunidade de criticar neste blog várias posições do Papa Bento XVI a propósito de um livro que ele escreveu sobre o Cristianismo e as Religiões do Mundo. E apesar de considerar que muitas das suas posições são profundamente questionáveis, nunca recomendei que o seu livro não fosse lido; isso seria uma sugestão de censura e uma rejeição do debate de ideias. Por muito diferentes que sejam as minhas opiniões das opiniões do Chefe da Igreja Católica, entendo que ele deve ter direito a expressá-las.


ACTUALIZAÇÃO: Ler o Editorial de José Manuel Fernandes, hoje no Público (sem link)

--------------------------------------------------
Sobre este assunto:
Papa cancela visita a universidade após protestos e manifestações (DN)
Vaticano divulga discurso que Papa não pôde fazer em universidade (AFP)
Mídia espanhola critica censura à visita papal à «La Sapienza» (Zenit)
Papal visit scuppered by scholars (BBC)
Galileo protest halts pope's visit (CNN)

2 comentários:

casimirosilva disse...

Caro Marco,

O facto de Bento XVI ficar a ganhar é que é, de facto, a questão principal deste episódio. E, se lhe juntarmos a intolerância de quem o terá impedido na sua visita, estão criadas as condições para Bento XVI ganhar simpatias onde já tinha perdido tudo.

Anónimo disse...

Por acaso à primeira vista um tipo até pensa que foi bem feita terem feito isto ao Papa. Foi uma vingançazinha... Mas depois vê-se que o homem sai desta história como a vitima da intolerância.

O tiro saiu pela culatra aos professores e estudantes.Ganda noia!