terça-feira, 27 de maio de 2008

Endurecem as ameaças contra Bahá'ís iranianos

Numa escalada de agressividade verbal, dois líderes iranianos apelaram recentemente à "limpeza" dos Baha’is do Irão. O primeiro caso ocorreu, na passada sexta-feira, na cidade de Mashad, quando Alam Al-Hoda - um pregador e membro da Assembleia de Especialistas - afirmou que os «espiões baha’is» recentemente detidos deviam ser executados:
Países como os Estados Unidos, o Canadá e a União Europeia, que deliberadamente ignoram as atrocidades cometidas pelos israelitas na faixa de Gaza, levantaram a sua voz para expressar a sua preocupação pelas recentes detenções destes espiões assassinos [os sete Baha’is detidos]. O Bahaismo não é uma religião, e também não é um sistema de crença! Como podem estes mercenários israelitas [os Baha’is iranianos] que têm uma mão no assassínio de milhões de pessoas inocentes, viver livremente no nosso país e tirar partido de um punhado de políticos pervertidos prostitutas e gente promiscua para assinar petições que apela à anulação da Lei Islâmica [liberdade religiosa no Irão] ? O nosso país é a pátria do Prometido [o 12º Íman] e uma verdadeira teocracia onde não há espaço para dialogar com esta rede de espiões. Em vez disso, este movimento satânico deve forçosamente ser destruído e os seus membros devem ser executados.
O original deste discurso em persa encontra-se aqui.

Também Hamid Reza Taraghi, secretário-geral para Assuntos Internacionais do Partido Motalefeh, (que também é conhecido como membro da sociedade Hojjatiyieh, um movimento anti-Bahá'í iraniano), numa entrevista divulgada ontem pela agência IRNA (Agência Noticiosa Iraniana), acusou os Bahá'ís detidos no passado dia 14 de Maio de serem responsáveis por um ataque à bomba contra uma mesquita de Shiraz, e apelou a que o Irão fosse purgado de Bahá'ís.
"Enquanto os Baha'is não se levantaram em oposição ao regime iraniano, os iranianos viveram em paz com eles. Agora os iranianos pedem aos funcionários judiciais e de da segurança que reajam a esta seita que se voltou para ataques terroristas contra o povo e o regime". E acrescentou: "Nos últimos anos os baha’is alargaram as suas actividades subversivas com a ajuda dos Estados Unidos e da Inglaterra. Agora é legalmente possível lidar com esta seita ilegítima, que procura reconhecimento como religião, como grupo anti-revolucionário. O próprio facto de potências estrangeiras como os Estados Unidos terem expressado imediatamente a sua preocupação pela detenção destas pessoas prova que eles são meros agentes/espiões americanos no Irão. O regime americano tem dois pesos e duas medidas: porque é que não prestou atenção aos protestos internacionais contra a supressão dos Davidianos que eram acusados de actividades subversivas contra o regime americano, enquanto apoia uma seita que está envolvida em actividades subversivas noutro país? Os iranianos sempre tomaram posições fortes contra grupos subversivos, e agora pedem que o Irão seja purgado desta seita terrorista."
O original desta notícia em Persa encontra-se aqui.

COMENTÁRIO:
O argumento de que os Bahá'ís ameaçam a segurança do Estado é um cliché da propaganda do regime iraniano. Na verdade, estamos na presença de uma política continuada e sistemática, iniciada em 1991, que tem por objectivo a eliminação da Comunidade Bahá'í do Irão. Se fosse verdade, há muito que o regime iraniano teria exibido provas dessas acusações. Mas as únicas provas que se têm visto apenas evidenciam exactamente o contrário: perseguições e discriminações contra uma minoria religiosa indefesa (sobre estas provas, ver este post).

A acusação de que os Bahá'ís são "espiões sionistas" surgiu nos últimos 30 anos. Ao longo das últimas décadas, os baha’is já foram publicamente acusados de serem espiões britânicos, russos e americanos. Na verdade, quando o regime iraniano se sente ameaçado por um país estrangeiro, os Bahá'ís são acusados de serem espiões desse país. Se a Fé Bahá'í existisse no tempo em que Afonso de Albuquerque andou pelo Golfo Pérsico, é evidente que os Bahá'ís também teriam sido acusados de ser espiões portugueses!

O momento que a Comunidade Bahá'í vive é de manifesta ansiedade. Que irá acontecer a estes sete baha’is iranianos? Onde estão detidos? De que são acusados? Esta escalada de agressividade verbal vai agravar-se? Assistiremos a uma perseguição em larga escala? E como vai reagir o mundo livre a estes novos desenvolvimentos? Fará mais declarações formais de protesto ou tomará outras iniciativas?

1 comentário:

Joao disse...

Fiz um forward desta mensagem para a "Sociedade das Nações" da SIC Notícias.