domingo, 19 de outubro de 2008

No Parlamento em Brasília (1)

Declaração proferida no Parlamento Brasileiro (Câmara dos Deputados) pelo Deputado Federal Geraldo Resende (PMDB/MS), na sessão parlamentar no dia 16/Outubro/2008.
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BAHÁ’ÍS: MAIS QUE UMA QUESTÃO RELIGIOSA, UMA QUESTÃO DE DIREITOS HUMANOS


Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputadas e Deputados,

O Irã assombra o mundo com seu Programa Nuclear e, sobretudo, com a intransigência do seu presidente Mahrmoud Ahmadinejad em não permitir que membros da Organização das Nações Unidas, a ONU, vistorie as reais intenções iranianas com suas instalações nucleares, mas trago aqui outra questão polêmica que ocorre atualmente no Irã e que não tem recebido do resto do mundo a atenção que deveria receber: a perseguição à religião Bahá’í e a prisão de seus praticantes que estão sendo presos e acusados de espionagem.

Desde o último dia 14 de maio, sete Bahá’ís iranianos vêm sendo mantidos encarcerados, sem acesso a advogados e sem comunicação com suas famílias. São pessoas de bem que cometeram o “crime” de pertencer a uma religião não reconhecida pelo estado iraniano. Este sete Bahá’ís formam um grupo que buscava cuidar dos interesses dos mais de 300 mil Bahá’ís iranianos e foram presos de forma arbitrária, tirados dos seus lares e estabelecimentos comerciais por policiais iranianos.

O trabalho deste grupo consistia em ajudar a organizar reuniões regulares de oração, atividades para crianças, realizar funerais, casamentos e outras poucas atividades comunitárias. E o que é ainda mais preocupante senhor presidente, é que passados quase quatro meses, estes Bahá’ís continuam encarcerados de maneira totalmente arbitrária e agora sob acusação de espionagem e de pertencerem a um grupo anti-islã e anti-irã.

Mais recentemente a situação dos Bahá’ís se agravou. Em junho corrente, três Bahá'ís de origem iraniana, todos com negócios bem sucedidos e famílias estabelecidas no Yemen, tiveram suas casa atacadas e documentos, Cds, fotografias e até computador confiscados.

Embora não tenha havido qualquer acusação formal, oficiais do governo indicaram que os bahá'ís foram detidos sob a suspeita de algum tipo de "proselitismo" contra a lei do Yemen, o que é negado pelos bahá'ís, mas o que é pior: estão diante da possibilidade de iminente deportação ao Irã, onde os bahá'ís são intensamente perseguidos e é provável que enfrentem prisão ou tortura.

Senhor Presidente, estas acusações não são verdadeiras. Conheço muitos Bahá’ís no meu Estado, e sei muito bem que os eles não se envolvem com nenhum tipo de disputas políticas ou religiosas e que, acima de tudo, lutam vigorosamente pela paz e unidade no mundo.

É preciso lembrar que foi o próprio governo persa quem exilou o fundador da fé Bahá’í para a cidade de Acre, hoje parte do território de Israel. Portanto, acusar os Bahá’ís de terem ligações políticas com Israel pelo fato de os santuários sagrados, com os restos mortais do fundador de sua fé estarem localizados naquela região, é algo que claramente demonstra a intenção do governo iraniano de discriminar a qualquer custo esses sete Bahá’ís.

Nobres colegas, até mesmo os cidadãos iranianos estão se levantando em defesa dos Bahá’ís, já que eles, vizinhos, colegas e amigos, sabem que os Bahá’ís não fazem parte de nenhum órgão secreto israelense, e merecem o devido respeito como seres humanos.

A iraniana e muçulmana Shirin Ebade, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz, se levantou para defender os Bahá’ís, e o resultado disso foi um jornal reformista iraniano afirmar que sua filha havia se convertido do Islã para a Fé Bahá’í – o que não tem fundamento nenhum.

Analisando esta questão, percebemos que existe uma clara perseguição contra aqueles que defendem os Bahá’ís, e por mais este motivo o governo brasileiro, assim como outros governos no mundo, precisa se pronunciar o mais rápido possível contra estas tristes violações, pois estes sete Bahá’ís estão correndo o risco de serem executados a qualquer momento.

Todos os grupos vulneráveis no Irã contam com a pressão internacional para que algo seja feito; para que seus direitos sejam preservados; e para que possam viver com o mínimo de dignidade possível. Os Bahá’ís iranianos são apenas mais um desses grupos que aguardam apreensivamente uma atitude em sua defesa.

É preciso esclarecer, senhor presidente, que a Fé Bahá’í prega a unidade de Deus, da Religião e da Humanidade. Bahá’u’lláh, fundador da doutrina Bahá’í já dizia que o objetivo fundamental que anima a Fé de Deus e Sua Religião é proteger os interesses da humanidade e promover a unidade, e nutrir o espírito de amor e amizade entre os homens.

A Fé Bahá’í é uma religião mundial, independente, com suas próprias leis e escrituras sagradas, surgida na antiga Pérsia, atual Irã em 1844. A Fé Bahá’í foi fundada por Bahá’u’lláh, título de Mirzá Husayn Ali, que viveu entre os anos de 1817 e1892, e não possui dogmas, rituais, clero ou sacerdócio.

A Comunidade Bahá’í com aproximadamente 6 milhões de adeptos, é a segunda religião mais difundida no mundo, superada apenas pelo Cristianismo. Os Bahá’ís residem em 178 países do mundo, em praticamente todos os territórios e ilhas do globo. No Brasil, a Comunidade Bahá'í está estabelecida desde fevereiro de 1921, com a chegada ao País da senhora Leonora Holsapple Armstrong, que introduziu a Fé Bahá’í no País. Hoje os Bahá’ís formam um contingente de aproximadamente 47 mil pessoas, das mais diversas classes sociais, culturais e econômicas, residentes em aproximadamente 1.215 municípios brasileiros.

É preciso lembrar, senhor presidente, que o próprio Congresso Nacional do Brasil homenageou Bahá’u’lláh, o Fundador da Fé Bahá’í, em concorrida Sessão Solene realizada no dia 28 de maio de 1992, ano do centenário de seu falecimento, ocasião em que representantes dos diversos partidos políticos discursaram sobre a vida e os ensinamentos de Bahá’u’lláh.

Ainda em 1992, durante a realização da Conferência Mundial para Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco 92, a Comunidade Bahá'í dirigiu a palavra a todos os Chefes de Estado e Governo na Conferência Oficial e ofereceu à cidade do Rio de Janeiro e a todos os que promoveram a Conferência Mundial, o belo monumento em forma de ampulheta, dedicado à Paz Mundial, estabelecido no Aterro do Flamengo, e concebido pelo renomado artista Siron Franco, ele também um membro da Comunidade Bahá’í.

Além disto, a Comunidade Bahá’í é reconhecida no Brasil por estabelecer projetos de desenvolvimento econômico e social em diversas regiões do país. Por exemplo, aqui em Brasília, criou a ESCOLA DAS NAÇÕES, que propicia uma educação voltada para conceitos de unidade da humanidade e de cidadania mundial. A Comunidade Bahá'í é a primeira organização não-governamental formalmente creditada junto às Nações Unidas, há cerca de 50 anos, apoiando todas as ações das Nações Unidas para o estabelecimento da paz mundial, tolerância e o entendimento entre os povos do mundo.

Diante do exposto senhor Presidente, a comunidade Bahá’í residente no estado brasileiro, aguarda uma manifestação do governo que sempre se mostrou tão preocupado com os direitos humanos.

Muito obrigado.

GERALDO RESENDE Deputado Federal PMDB/MS

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COMENTÁRIO: Quanto tempo vamos ter de esperar até podermos ver um Deputado fazer uma declaração semelhante no Parlamento Português?

4 comentários:

entãoéassim... disse...

O que é que já foi referido cá sobre os dramáticos acontecimentos, de que temos conhecimento, contra os Bahá'is ?
Tomáramos nós que soubessem que os Bahá'is existem, quanto mais levantassem a voz!

Carlos Moreira disse...

Excelente iniciativa do deputado Geraldo Resende. Mas ainda vejo que o Congresso Nacional brasileiro pode fazer mais do que isso. A situação é por demais absurda para se manter calado.

GH disse...

Houve algum outro parlamento onde tivessem surgido tantas declarações em apoio dos Baha'is num único ano?

Anónimo disse...

Podemos agradecer a Sede Nacional Baha´i do Brasil que toma o iniciativo de entrar em contato com deputados e senadores do seu país, pedindo ajuda na forma de ação. Se queremos ver mais de isso no resto do mundo, todas as comunidades
Baha´ís devem tentar conversar com suas representantes e mostrar o que está acontecendo. Não podemos esperar por governos tomar o inciativo sozinho.