quarta-feira, 6 de maio de 2009

Jesus e Paulo: Vidas Paralelas (1)



Já referi neste blog uma obra de Jerome Murphy-O’Connor, intitulada Paulo, um homem inquieto, um apóstolo insuperável. Hoje dedico alguns parágrafos a outra obra deste dominicano irlandês que é uma reconhecida autoridade em estudos sobre S. Paulo. O livro em causa tem por título Jesus e Paulo - Vidas Paralelas, e apresenta-nos uma série de semelhanças entre as vidas do fundador do Cristianismo e o seu mais brilhante apóstolo.

Para elaborar este trabalho o O’Connor serviu-se do texto Bíblico e procurou elementos geográficos, culturais e históricos. Com estes dados examinou os espaços em que ambos foram educados, as suas condições enquanto refugiados, as suas origens sociais e posições económicas, as circunstâncias políticas e influencias culturais em que desempenharam as respectivas missões.

Alguns aspectos deste trabalho conseguem ser surpreendentes, nomeadamente a questão sobre o censo imperial (que, segundo o texto Bíblico, teria ocorrido por ocasião do nascimento de Jesus) e da fuga para o Egipto (que supostamente seria para fugir ao “massacre dos inocentes”).

Sobre o censo imperial, O’Connor afirma (p.10) que não há evidência alguma de ter existido um censo imperial geral no reinado de Augusto. Se tivesse existido, não teria sido aplicado num reino autónomo associado a Roma, mas sim em territórios pertencentes ao Império. Além disso, nenhum censo romano exigia que as pessoas se deslocassem para as terras onde tinham nascido; o recenseamento podia decorrer na terra onde se habitava, e as mulheres e crianças não era obrigadas a comparecer pessoalmente (o chefe de família respondia por elas).

Sobre a historicidade da fuga para o Egipto, O’Connor afirma (p. 25-26) que é extremamente duvidoso que Herodes tivesse algum interesse pela criança Jesus (um potencial inimigo para a geração seguinte). Citando Flávio Josefo, mostra-nos que Herodes estava preocupado com alguma conspiração que pudesse surgir em Belém (qualquer conspirador podia apelar à rebelião contra Herodes, afirmando ser o governante profetizado em Mq 5:1-2.

Consequentemente a cidade estava cheia de espiões e informadores que informavam o governante sobre todos os residentes cujas opiniões eram desfavoráveis Nestas circunstâncias, seria de esperar que várias famílias procurassem segurança fora da jurisdição de Herodes. O Egipto, local habitual de refúgio, seria um destino natural. É correcto admitir que a família de Jesus estivesse entre essas famílias (a actividade profissional de José dava-lhe mobilidade para procurar trabalho noutro local).

A historicidade da expulsão dos vendilhões do Templo também é tema de análise (p. 70). Segundo o autor, a raiz deste incidente estaria no papel desempenhado pelos cambistas. Nessa época, o dinheiro tinha de ser pago em moedas de Tiro. A frequência dessa taxa foi um dos problemas. Inicialmente era uma taxa a ser paga uma vez na vida; posteriormente tornou-se uma taxa anual. Outro problema consistia no facto destas moedas possuírem imagens do deus Melkart (adorado na cidade de Tiro), facto que para muitos judeus equivalia a idolatria.

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