quinta-feira, 4 de junho de 2009

O "laicismo" de Saramago

Na sua crónica de hoje no Diário de Notícias, José Saramago discorre sobre o “laicismo”. Tal como noutras ocasiões, nas entrelinhas deste texto percebe-se que o escritor defende que o Estado deve ignorar as confissões religiosas. É algo bem diferente de uma laicidade inclusiva, onde o Estado coopera com as confissões religiosas, tal como coopera com tantos outros agentes sociais.

O texto de hoje tem a novidade: Saramago reduz o conceito de laicismo a uma espécie de combate escatológico entre a Igreja Católica e o Ateísmo. Para um velho combatente comunista, esta é uma curiosa visão profética.

Sabemos que Saramago nunca morreu de amores pela Igreja Católica, nem pela religião. No texto de hoje, rejeita a existência de Deus; não de um Deus transcendente, distinto da criação; para Saramago Deus apenas pode ser identificada com uma divindade saída de um catecismo literalista ou de uma qualquer religiosidade infantil. Um ateísmo, como o de Saramago, que se limita a rejeitar crenças religiosas patéticas, será sempre um ateísmo patético. É por isso que Saramago não chega aos calcanhares de Richard Dawkins.

5 comentários:

rui disse...

Como é habitual, gostei muito desta tua reflexão.
Comento apenas para dizer q me parece q seria mais correcta a expressão "crenças religiosas reduzidas ao patético" do q "crenças religiosas patéticas". Será um preciosismo semântico, e não deixa de ser apenas um pormenor no q dizes, mas parece-me q faz sentido.

Marco disse...

Rui,
Tens razão; a expressão "crenças religiosas reduzidas ao patético" era a mais correcta.
Um abraço.

MC disse...

muito boa, mesmo, Marco. tocas no essencial da questão.

Embora a Igreja Católica não perca nada se reflectir um pouco nas motivações do Saramago.

abraço

João Moutinho disse...

À tua conta acabei por ler a crónica do Saramago.
Enfim, a sua ideologia mantém-se.
Dá para ver que é algo que continua a ameaçar-nos (o exemplo notório da Coreia do Norte).

Pascoal Naib disse...

Gostaria de parabenizar pela crítica consciente ao texto de Saramago e também percebi essa visão reducionista do mesmo, porém colocar Dawkins acima de Saramago ou mesmo desperceber que Dawkins é muito pior em discriminar toda a forma de religiosidade é um equívoco!