domingo, 22 de dezembro de 2013

Jorge Bergoglio, o jesuíta

"O Espírito residente de Deus, que, na Era Apostólica da Igreja, animou os seus membros, a pureza original dos seus ensinamentos, o antigo brilho da sua luz, irá, sem dúvida, renascer e reviverá como consequência inevitável desta redefinição das suas verdades fundamentais, bem como a clarificação do seu propósito original." (Shoghi Effendi, 1936)*

As primeiras intervenções do Papa Francisco avivaram na minha memória estas palavras de Shoghi Effendi. Pode ainda ser cedo para saber se ele irá cumprir a desejada renovação da Igreja aguardada por tantos cristãos. Independentemente do que o futuro nos reserva, não tenho hesitações em afirmar que ele é uma figura inspiradora, e que em muitos aspectos se tornou uma influência positiva a nível mundial. Além das suas intervenções, a sua imagem de humildade e simplicidade, despertou uma curiosidade natural . Em Portugal, vários livros tentam satisfazer essa curiosidade tentando revelar quem é Jorge Bergoglio, que foi escolhido para liderar a Igreja Católica.

Um desses livros é de autoria dos jornalistas Francesca Ambrogetti e Sergio Rubim, e foi originalmente publicado em 2010, com o título “O Jesuíta”. Na introdução os autores formulam algumas das questões já pertinentes nessa época: “Quem é este docente que levava Jorge Luis Borges às suas aulas e lhe dava a ler os contos dos seus alunos? Quem é este pastor convencido que se deve passar de uma Igreja «reguladora da fé» para uma Igreja «transmissora e facilitadora da fé»? Quem é este ministro religioso que, de um modesto lugar numa residência jesuíta de Córdoba, passou a converter-se em poucos anos em Arcebispo de Buenos Aires, cardeal primaz da Argentina e presidente do Episcopado? Quem é em suma, este argentino de vida quase monacal, que esteve perto de ser Papa?”

Nesta obra encontramos um conjunto de entrevistas com o então Cardeal Bergoglio. Com um prólogo escrito pelo Rabino de Buenos Aires, Abraham Skorka, o livro apresenta uma sucessão de diálogos e questões que muitos de nós gostaríamos de colocar a Jorge Bergoglio. E as respostas – espontâneas, profundas e bem-humoradas – permitem perceber um pouco quem é este homem.

Na minha opinião este é um livro indispensável para compreender o novo papa e o rumo que a Igreja Católica pode tomar nos próximos anos. E é igualmente indispensável para todos os Bahá’ís que desejam manter um diálogo profundo e significativo com os Cristãos.

Deixo alguns excertos que me parecem particularmente relevantes:
Quando o trabalho não dá lugar ao ócio saudável, ao repouso reparador, então escraviza, porque a pessoa já não trabalha pela dignidade, mas sim pela competitividade. Está viciada a intenção pela qual está a trabalhar… (p. 37)

A origem da palavra nostalgia - do grego nostos algos - tem a ver com a ânsia de voltar ao lugar; é disto que fala a Odisseia. Essa é uma dimensão humana. O que Homero faz através da história de Ulisses é marcar o caminho de regresso ao seio da terra, ao seio materno da terra que nos deu à luz. Considero que perdemos a nostalgia como dimensão antropológica. Mas também perdemos a hora de educar, por exemplo, na nostalgia do lar. Quando guardamos os nossos mais velhos nos lares, com três bolinhas de naftalina no bolso, como se fossem um casaco ou um sobretudo, de alguma maneira temos a dimensão nostálgica doente porque, encontrarmo-nos com os nossos avós, é assumir um reencontro com o nosso passado (p.28-29)

Temos de saber que a vida não pode ser parida sem dor. Não são só as mulheres que sofrem ao trazer um filho ao mundo, mas todos nós, em coisas que realmente valem a pena e permitem crescer, temos de passar por momentos dolorosos. A dor é algo que está ligado à fecundidade. Atenção! Não é uma atitude masoquista, mas sim aceitar que a vida nos marca limites. (p.73-74)

Alguns escolhem uma missa pela forma como o sacerdote prega. Mas, dali a dois meses, dizem que o que não funciona bem é o coro, e então voltam a mudar. Há uma redução do religioso ao estético. Vai-se mudando de gôndola no supermercado religioso. É a religião como produto de consumo, muito ligada, a meu ver, a um certo teísmo difuso, prosseguido dentro dos parâmetros da New Age, onde se mistura muito a satisfação pessoal, o relax, o «estar bem». Isso está a ver-se especialmente nas grandes cidades, mas não é só um fenómeno que se dá entre pessoas cultas. Nos sectores humildes, nos bairros de lata, por vezes, vai-se buscar o pastor evangélico, porque «me toca». (p.84)

Toda a pessoa pode dar-nos alguma coisa e toda a pessoa pode receber alguma coisa de nós. O preconceito é como um muro que impede que nos encontremos. E os argentinos são muito preconceituosos; rotulamos imediatamente as pessoas para, no fundo, nos esquivarmos ao diálogo, ao encontro. Assim acabamos por fomentar o desencontro que, na minha opinião, atinge a categoria de verdadeira patologia social (p.114)

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* Shoghi Effendi, The World Order of Bahá'u'lláh, p. 185. A citação é de uma longa carta escrita em 1936. Nessa carta, Shoghi Effendi descreveu diversas transformações mundiais que afectariam povos e nações e transformariam o mundo numa civilização global. Algumas dessas transformações seriam crises profundas que afectariam várias instituições, nomeadamente as instituições religiosas.

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