segunda-feira, 30 de junho de 2014

Cristo é Deus?

Por Alex Gottdank.


Aparentemente as Escrituras Bíblicas contêm um paradoxo: Cristo é, e não é, Deus.

Vejamos as seguintes citações:
"... Cristo Jesus... não considerou como uma usurpação ser igual a Deus" (Filipenses 2:5-6).

Cristo declarou: "... o Pai é mais do que eu" (João 14:28).

Cristo proclamou: "Eu e o Pai somos Um" (João 10:30).

Cristo perguntou: "... Porque me interrogas sobre o que é bom? Bom é um só... " (Mateus 19:17).

"Jesus disse-lhe... Quem me vê, vê o Pai.... "(João 14:9).

"A Deus jamais alguém o viu... " (João 1:18).

"No princípio existia o Verbo... e o Verbo era Deus... E o Verbo fez-se homem e veio habitar connosco..." (João 1:1, 14).

"Porque é nele que habita realmente toda a plenitude da divindade" (Colossenses 2:9).

"Será que Deus poderia mesmo habitar sobre a terra? Pois se nem os céus nem os céus dos céus te conseguem conter! Quanto menos este templo que eu edifiquei?" (1 Reis 08:27).
A Igreja tentou conciliar estas frases, e outras como estas, declarando que Cristo era homem e Deus, um mistério que teríamos de aceitar com base na fé. Mas a frase passagem bíblica - "[Cristo] é a imagem do Deus invisível..." (Colossenses 1:15) e os ensinamentos Bahá'ís que comparam Cristo a um espelho perfeito apresentam-nos uma maneira de compreender este mistério com clareza. Basta apenas pensar como funciona um espelho para compreender o papel de Cristo como um espelho espiritual, ou como imagem de Deus.

Se olharmos para um espelho voltado para o sol, podemos ver o sol; mas que sabemos que a imagem não é o próprio sol; é apenas um reflexo, porque o sol não desce para o espelho. Em vez disso, é o seu atributo - a luz - que se reflecte no espelho.

Da mesma forma, se olharmos para o espelho espiritual de Cristo, veremos Deus; mas sabemos que Cristo é a imagem de Deus, e não o próprio Deus; é o reflexo de Deus, pois Deus não desce para o espelho. Em vez disso, os Seus atributos de amor, poder, omnisciência, etc. reflectem-se no espelho.

As Escritura sustentam este conceito, pois Salomão declarou que nem o seu templo, nem "o céu e o céu dos céus" poderiam "conter" Deus. Consequentemente, se Deus não pode ser contido na Terra, e logicamente descer a ela ou habitar nela, então quando Cristo "habitou entre nós", podemos inferir que não é a essência de Deus, mas os atributos de Deus, que habitaram entre nós.

As escrituras Bahá’ís declaram:
Se dissermos que se vê o sol no espelho, não queremos dizer que o próprio sol desceu das alturas sagradas do seu céu e entrou no espelho! Isso é impossível. A Natureza Divina vê-se nos Manifestantes e a sua Luz e Esplendor são visíveis em glória extrema.( 'Abdu'l-Bahá in London, p. 23)
Como tal, reconhecemos que Cristo, sendo uma imagem de Deus para a humanidade, reflecte os atributos de Deus, e não a essência de Deus. Com esta distinção clara, podemos agora conciliar as citações anteriores.

Quando a Escritura proclama Cristo como "igual" a Deus, mas ao mesmo tempo descreve Deus como "maior que" Cristo, fá-lo, porque Cristo é igual a Deus em propósito, espírito, palavra e qualidades, mas não em essência, porque a essência de Deus é "maior que" a essência de Cristo.

Da mesma forma, quando Cristo diz: "Eu e o Pai somos Um", isso significa que são um em espírito, propósito e atributos de Deus. No entanto, quando Cristo diz: "Porque me interrogas sobre o que é bom? Bom é um só", Ele quer dizer que a Sua essência não se pode comparar com a essência de Deus.

Da mesma forma, pode-se "ver o Pai", olhando para Cristo, pois vêem-se os atributos de Deus em Cristo, mas não se pode ver a essência de Deus, pois "a Deus jamais alguém o viu".

E, por último, Cristo enquanto imagem de Deus que se fez carne encarna "totalmente" os atributos de Deus, a Palavra, e o Espírito na Terra, mas não a essência de Deus, pois a essência de Deus não pode "habitar" no meio de nós.

Os ensinamentos Bahá'ís declaram de forma inquestionável que Cristo é, e não é, Deus, tal como a Bíblia ensina. Por um lado, Cristo é Deus, pois quando olhamos para Cristo vemos a imagem e a presença de Deus na terra. Por outro lado, Cristo não é Deus, pois enquanto "imagem do Deus invisível", Cristo reflecte os atributos de Deus para a humanidade, sem encarnar a essência de Deus. Por outras palavras:
... o homem perfeito [Cristo],... tem a pureza e a transparência de um espelho perfeito - aquele que reflecte o Sol da Verdade. De tal... podemos dizer que a Luz da Divindade com as perfeições celestes habita nele. ('Abdu'l-Bahá in London, p. 23)
Além disso, ao reconhecer Cristo como "imagem de Deus" sustentamos a crença monoteísta na unicidade de Deus (a essência de Deus), conforme descrito nas Escrituras Hebraicas: "Eu sou o Senhor... não existe outro Deus além de mim... (Isaías 45:5).

Em resumo, conhecemos Deus porque conhecemos e temos uma relação pessoal com nosso Senhor Jesus Cristo. Através do Seu reflexo perfeito de Deus, conhecemos as qualidades de Deus, o propósito de Deus, a Palavra de Deus e o Espírito de Deus. No entanto, apesar de Deus ser cognoscível dessa maneira, Ele permanece incognoscível na sua mais íntima essência.

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Texto original em inglês: Is Christ God? (bahaiteachings.org)

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Alex Gottdank é um Bahá’í de origem judaica e cristã, autor do livro Preparing for Christ’s New Name, uma análise da natureza do regresso de Cristo. Como pioneiro bahá'í, ele foi membro da Assembleia Espiritual Nacional das Western Caroline Islands entre 1988 e 2000. Actualmente é professor de história em San Juan Capistrano, na Califórnia.

3 comentários:

Anónimo disse...

Leia o início do Evangelho de João (que está mencionado no texto). O que lá está é uma pessoa, não é um reflexo ou um espelho. Mas eu percebo, a natureza de Cristo e a Sua obra são pedras no sapato para os bahais. Se Cristo é Deus os mensageiros posteriores, humanos, perdem credibilidade, se Cristo levou sobre Si os pecados da Humanidade então o problema está resolvido e os mensageiros posteriores nada podem acrescentar.

Marco Oliveira disse...

Anónimo,
Leia todo o Evangelho de João (e não apenas o início). Leia todos os Evangelhos, as Cartas de Paulo, o Antigo Testamento…Tente perceber os estilos literários dos diferentes livros bíblicos e o contexto histórico em que foram escritos.
E depois aplique a maior bênção que Deus lhe deu: a racionalidade. E perceberá que se uma interpretação do texto sagrado vai contra a razão, então está incorrecta. A razão diz-nos que o nosso mundo não pode conter o que o transcende.

filha do administrador disse...

eu na minha vida do dia-a-dia não me preocupo muito com essa questão, percebo que a igreja teve que arranjar algumas formas de garantir alguma coerência no seu discurso, mas nada disso me preocupa, eu sei que quando falo com "Deus" refiro-me a Cristo, quando rezo ao Pai, refiro-me a Cristo, quando admiro tudo o que fez, e disse e aquilo que quero seguir, refiro-me a Cristo. Se é Deus intocável? talvez, mas eu gosto de pensar que andou aqui neste mundo e sabe o que digo.