domingo, 22 de março de 2015

O que significa uma verdadeira Liderança

Por Payam Akhavan.
A leitura da história nos leva à conclusão de que todos os homens verdadeiramente grandes, os benfeitores da humanidade, aqueles que conduziram os homens a amar o bem e a odiar o mal, e que causaram um verdadeiro progresso, todos eles foram inspirados pela força do Espírito Santo. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 165)
(Este artigo é uma adaptação do discurso do Prof. Payam Akhavan na Cerimónia de Abertura da McGill University Model United Nations em 22 de Janeiro de 2015, em Montreal, no Canadá.)

No mundo de hoje, o que significa ser líder?

De minha própria experiência de trabalho como um investigador de direitos humanos das Nações Unidas, percebi que liderança não tem a ver com estatuto VIP. Não se trata de políticos carismáticos e celebridades de Hollywood. Não se trata de aparecer na CNN. Não se trata de dominar ou controlar os outros. Não se trata de acumular riqueza obscena.

Liderança é acima de tudo empatia; é a coragem e a compaixão para sentir a dor dos outros; é o poder e o discernimento para substituir o egoísmo pelo altruísmo.

Se pensarmos nos líderes que verdadeiramente têm inspirado mudanças no mundo, aqueles que nos dão esperança num futuro melhor, percebemos que eles têm um aspecto comum. Vemos que, apesar deles terem vivido em diferentes períodos históricos e em culturas diferentes, e de terem enfrentado desafios diferentes, todos eles partilharam uma experiência comum: o sofrimento

Os Gandhis, os Luther Kings, os Mandelas deste mundo, todos eles sofreram. Todos eles pagaram um preço por aquilo em que acreditavam. Eles não confundiram palavras bonitas com boas acções. Eles não se deixaram escravizar pelos seus confortos e interesses egoístas. Eles estavam livres em espírito, dispostos a sentir dor no caminho da justiça, e a ser desinteressados na sua luta contra a injustiça.

Na verdade, eles tinham uma atitude completamente diferente em relação ao poder. Eles não desejavam o poder. Pelo contrário, o seu poder veio directamente de não desejarem o poder para seu próprio benefício. O seu poder veio de uma fonte superior.

Quantos líderes políticos nos dizem que apenas querem o poder para fazer o bem? E porque são tão poucos os que realmente acabam por fazer o bem, à medida que se deixam corromper e aceitam compromissos no caminho traiçoeiro que conduz ao poder? Este é o mundo cínico dos que são demasiado fracos para resistir às tentações egoístas, dos que tentam mascarar a sua indiferença com palavras ilusórias e vazias.

Temos que reconhecer que esta concepção de poder não tem qualquer significado. É apenas uma ilusão. A verdadeira liderança - a liderança moral - surge quando não se quer o poder pelo poder. A verdadeira liderança começa com uma conversa autêntica com o nosso próprio eu interior, com um sincero desejo de sentir a dor dos outros, de ajudar aqueles que sofrem, não por causa da recompensa ou do reconhecimento, mas por causa da dimensão da nossa própria consciência. Para alcançar a grandeza, devemos alcançar a humildade. Para ser mestre da humanidade, primeiro é preciso ser servo da humanidade.

Para refazer a imagem do mundo, também temos de refazer o conceito de poder e de responsabilidade pessoal, de liderança nas bases, e muitas vezes contra tudo e contra todos.

Mães da Plaza de Mayo, Argentina
Consideremos a coragem heróica das Mães da Plaza de Mayo que confrontaram a ditadura militar na Argentina. Elas desafiaram os poderosos generais e protestaram frente ao palácio presidencial, exigindo saber o destino dos seus filhos que tinham desaparecido durante a chamada "Guerra Suja" da década de 1970. Consideremos as Mães de Srebrenica que durante tantos anos exigiram justiça para genocídio bósnio de 1995 que custou a vida aos seus filhos e maridos. Ou no meu país de origem, o Irão, de onde tenho estado exilado durante tantos anos por ser Bahá'í, consideremos as extraordinárias Mães de Khavaran, o nome do bairro onde os seus filhos foram lançados numa vala comum após a execução em massa de presos políticos em 1988.

Estas corajosas mães enfrentaram espancamentos e prisões apenas por chorar os seus entes queridos. Mas elas nunca pararam de falar, de chorar e exigiram justiça. Consideremos o poder de uma mãe que perdeu o seu filho. Que força pode atravessar-se no seu caminho, enquanto ela chora pela redenção da sua perda irreparável? E a sua coragem contrasta com a cobardia daqueles oportunistas e bandidos que matam os inocentes, e têm tanto medo da verdade que nem sequer deixar uma mãe chorar no túmulo do seu filho. A violência destes homens emana da sua fraqueza, surge da sua necessidade desesperada de poder, da sua incapacidade até para reconhecer a sua própria humanidade.

Ao longo da minha carreira, conheci muitos líderes famosos. Mas aqueles homens e mulheres que mais me inspiraram, aqueles que me têm mostrado o poder e a resistência do espírito humano, aqueles que me enchem de esperança em relação ao futuro da humanidade, são aqueles que você provavelmente nunca ouviu falar. Eles são os heróis anónimos deste mundo, aqueles que trabalham em silêncio e com amor, que querem ajudar os outros, não por fama ou riqueza, mas devido à sua própria inquietação e compaixão por outros seres humanos.

Dag Hammarskjöld
Todos nós temos um papel a desempenhar. Todos nós temos que assumir a nossa parte do fardo, na luta por um mundo melhor. A questão que devemos colocar a nós próprios é: em que é que eu acredito, e qual o preço que estou disposto a pagar para ser fiel aos meus princípios, para ser fiel ao mim próprio?

Considero-me culpado pelo falhanço da liderança quando ouço duras críticas aos que detêm poder neste mundo. Assim como pequena redenção, vou concluir com as palavras de um líder mundial que ousou ser diferente; que não permitiu que o seu estatuto eminente obscurecesse as suas mais profundas crenças e princípios morais. Falo do diplomata sueco Dag Hammarskjöld, o Secretário-Geral das Nações Unidas desde 1953 até à sua morte prematura em 1961, num estranho acidente de avião no Congo.

Hammarskjöld tinha de se mover no mundo cínico da política da Guerra Fria na ONU. Teve de lutar para manter a sua independência e integridade, para não se tornar um instrumento de interesses específicos de algumas nações. Diz-se que após a sua morte, os amigos descobriram um poema profético escrito na sua Bíblia. O poema descreve de forma belíssima o que muitos sentiram com a terrível perda deste líder visionário e corajoso. Deixo-vos com as mesmas palavras para reflectirem na vossa busca por um significado e um propósito:
No dia que nasceste todos estavam felizes - tu choraste sozinho. Segue tua vida de tal maneira, que, na tua derradeira hora todos chorem e tu sejas o único sem uma lágrima para derramar!

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Texto Original: On the Meaning of True Leadership (bahaiteachings.org)

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Payam Akhavan é professor de Direito na Universidade Internacional McGill, em Montreal (Canadá) e professor convidado na Universidade de Oxford (Reino Unido). Já trabalhou como procurador da ONU em Haia, e também trabalhou com as Nações Unidas sobre os direitos humanos na Bósnia, Cambodja, Guatemala, Ruanda e Timor Leste.

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