sábado, 27 de fevereiro de 2016

Acreditar na Criação ou na Eternidade?

Por David Langness.


Os filósofos da Grécia - como Aristóteles, Sócrates, Platão e outros - dedicavam-se à investigação dos fenómenos naturais e espirituais. Nas suas escolas falavam sobre o mundo da natureza, assim como o mundo sobrenatural. Hoje a filosofia e lógica de Aristóteles são conhecidas em todo o mundo. Porque eles estavam interessados tanto na filosofia natural como na divina, e promoviam o desenvolvimento do mundo físico da humanidade, assim como o intelectual, eles prestaram um serviço louvável à humanidade. Este foi o motivo do triunfo e sobrevivência dos seus ensinamentos e princípios. O homem deve continuar estas duas linhas de pesquisa e investigação para que todas as virtudes humanas, exteriores e interiores, se possam tornar possíveis. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 322)
Está preparado para um tema verdadeiramente profundo? Esta é uma das questões mais antigas e mais profundas da humanidade: Como começou a existência do universo? Ou será que nunca começou? Será que um Criador todo-poderoso (ou, talvez a própria energia e matéria) criou o universo num momento específico no tempo - ou será que sempre existiu? Dependendo de como se responde a essas perguntas, podemos ser "criacionistas" ou "eternalistas". Vamos examinar esse enigma basilar e cada um pode decidir por si próprio.

Na filosofia clássica, nenhum debate se prolongou tanto como este argumento da eternidade.

Um dos lados do debate, geralmente designado como "Criacionismo ex nihilo", argumenta que um Criador criou todo o universo ex nihilo , ou seja, a partir do nada .

O outro lado afirma que o universo é eterno, isto é, sempre existiu.

Nenhuma explicação científica, incluindo a Teoria do Big Bang, conseguiu provar de forma definitiva uma ou outra posição. Os defensores da teoria do Big Bang, incluindo o padre Lemaître, o sacerdote católico que primeiramente a defendeu em 1927, dizem que esta se encaixa o modelo criacionista. Os defensores da teoria eternalista afirmam que a ciência provou que nenhuma coisa pode emergir do nada, e que a natureza abomina o vazio.

Maimónides
A maior parte da defesa do Criacionismo ex nihilo veio de teólogos e de filósofos tradicionais que acreditavam na existência de um Deus. Filósofos Judeus, Cristãos e Muçulmanos (com algumas excepções, como o filósofo muçulmano Averróis) e o clero em geral apoiaram esta posição ao longo da história. Geralmente argumentam que a criação de Deus teve de começar a existir em algum momento no tempo; e que antes da criação de Deus, por definição, nada existia, excepto Deus. O famoso teólogo e filósofo Judeu Maimónides, provavelmente o mais conhecido dos criacionistas, apresentou fortes argumentos em defesa desta posição, que ele considerava uma verdade absoluta bíblica.

Do outro lado do debate, o chefe eternalista, o grande filósofo grego Aristóteles, desenvolveu vários argumentos científicos e filosóficos convincentes sobre a eternidade. Afirmou que "essa geração que ocorreria a partir do nada" era obviamente impossível, uma vez que sabemos que a matéria vem sempre de uma causa pré-existente ou outra forma de matéria. Acrescentou que a própria existência de movimento no universo significa que as coisas sempre se moveram. E afirmou que um vácuo completo é uma impossibilidade natural e, portanto, o vazio absoluto não pode existir, e nunca existiu.

Várias religiões orientais - Hinduísmo, Budismo, Jainismo - também apoiam o ponto de vista eternalista; as suas escrituras apontam que o universo não teve início.

Isto deixa-nos com a cabeça a andar à roda, não é? A minha fica, com certeza. Acho que é incrivelmente difícil conceber um universo atemporal, sem início nem fim, e acho que é igualmente difícil imaginar um vazio completo cheio de um nada absoluto. Na verdade, não consigo pensar em perguntas mais complicadas do que esta.

A resposta Bahá’í para este debate pode ser surpreendente:
Sabe que é uma das questões mais obscuras da divindade a de que o mundo da existência - isto é, esse infinito universo - não teve início.

... Sabe que um senhor sem vassalos não é imaginável; um soberano sem súbditos não pode existir; um professor sem alunos não pode ser nomeado; um criador sem a criação é impossível; um fornecedor sem os receptores é inconcebível - pois todos os nomes e atributos divinos apelam à existência das coisas criadas. Se fôssemos imaginar um tempo em que as coisas criadas não existissem, isso seria equivalente a negar a divindade de Deus.

Além disto, a não-existência absoluta não tem capacidade para alcançar a existência. Se o universo fosse um puro nada, a existência nunca teria acontecido. Assim, tal como a Essência da Unidade, ou o ser divino, é eterno e perpétuo - isto é, não tem início nem fim - sucede que o mundo da existência, esse universo ilimitado, da mesma forma, também não tem início. Para ter certeza, é possível que alguma parte da criação - um dos globos celestes - seja recém-formada ou se desintegre; mas os outros incontáveis globos continuarão a existir e o mundo da existência em si não se desfaz nem se destrói. Pelo contrário, a sua existência é perpétua e imutável. Agora, como cada globo tem um início, também deve inevitavelmente ter um fim, pois toda a composição, seja universal ou particular, deve necessariamente decompor-se. No máximo, alguns outros desintegram-se rapidamente e outros lentamente, mas é impossível que algo que é composto, não acabe, finalmente, por se decompor. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 207-208)
Os ensinamentos Bahá’ís afirmam claramente que a existência do universo “é perpétua e imutável”. No entanto, Bahá’u’lláh escreveu que toda a criação “é antecedida por uma causa”:
O Deus uno e verdadeiro existiu eternamente, e continuará a existir eternamente. A Sua criação, de igual modo, não teve início e não terá fim. Tudo o que é criado, porém, é antecedido por uma causa. Este facto, só por si, estabelece, sem sombra de dúvida, a unidade do Criador. (Bahá'u'lláh , Selecção dos Escritos de Bahá'u'lláh , LXXXII)
Poderia esta resposta nos dão um meio-termo entre o criacionismo e o eternalismo? Qual a sua opinião?

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Texto original: Do You Believe in Creation or Eternity? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

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