quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Sr. Rouhani: o que é que fez para proteger os direitos dos cidadãos Bahá’ís?


Por Reza Afshari.

Agora que o presidente Hassan Rouhani se prepara para falar na Assembleia Geral da ONU pela quarta vez – e a última antes da próxima eleição presidencial iraniana em 2017 – não posso deixar de notar que ele falhou tremendamente no cumprimento das suas promessas eleitorais de proteger os direitos humanos no Irão. Isto é particularmente verdade para a comunidade Bahá’í do Irão, a maior minoria religiosa do país, e alvo preferencial do regime.

Muitas vezes penso que apenas verei liberdade no meu país quando os meus compatriotas Bahá’ís forem livres. A história da comunidade do Bahá’í no Irão, em muitos aspectos, é a história da luta pelos direitos humanos no Irão. Desde a Revolução Islâmica de 1979, os Bahá’ís têm sido brutalmente reprimidos. O governo iraniano executou cerca de 200 Bahá’ís, prendeu milhares, negou-lhes emprego, impediu-os de entrar no ensino superior, profanou os seus cemitérios e arrasou os seus lugares sagrados. Os Bahá’ís são perseguidos desde que nascem até que morrem.

Seria fácil concluir que esta perseguição é apenas resultado do ódio cego dos clérigos, e que as suas principais raízes estão no preconceito religioso. Não há dúvida que se trata de um factor importante; mas a história é mais complexa. O povo iraniano também tem sido cúmplice na repressão. Apesar de qualquer Estado conseguir abusar dos seus cidadãos, os preconceitos dos iranianos comuns permitiram que os abusos contra os Bahá’ís não fossem controlados.

Antes da Revolução, quando os Bahá’ís gozavam de uma liberdade relativamente maior, eles ainda enfrentavam uma vasta discriminação e hostilidade social dos seus concidadãos, que organizavam massacres e violências contra eles. Durante muitos anos após a Revolução, quando a perseguição governamental se intensificou, os iranianos permaneceram calados. Ver os Bahá’ís como “os outros” era tão comum – devido ao facto de, durante décadas eles terem sido demonizados como espiões estrangeiros e membros de um culto perverso, primeiro pelos clérigos no tempo do Xá e depois pela propaganda de ódio do regime, e eram o bode expiatório para todos os tipos de problemas políticos e económicos – que nem os activistas de direitos humanos falavam dos Bahá’ís.

Felizmente, o vento começou a mudar. É claro que ainda há várias dezenas de Bahá’ís prisioneiros de consciência atrás das grades, incluindo os sete líderes da comunidade Bahá’í do Irão. Os Bahá’ís ainda são impedidos de ter emprego no sector público e alguns empregadores privados são pressionados para não os contratar; nos anos recentes, o governo também começou a encerrar várias empresas pertencentes a Bahá’ís, num esforço para garantir que a comunidade ficava empobrecida. Entretanto, nas escolas as crianças Bahá’ís são hostilizadas, os Bahá’ís são excluídos das universidades, e os cemitérios Bahá’ís são profanados. A condição dos Bahá’ís lembra-nos que, mesmo quando o Irão se abriu aos negócios após o acordo nuclear, a situação dos direitos humanos permaneceu inaceitável.

No entanto, as mudanças estão a acontecer. Os iranianos estão a “privatizar” o Islão, contornando os severos ayatollahs e preocupando-se cada vez mais com a justiça social. A implacável oposição do Estado à liberdade individual aumentou o apreço por essa liberdade. Em retrospectiva, a República Islâmica tem sido paradoxalmente catártica, eliminando a letargia cultural que entupia as vias políticas para a modernidade e desencadeando um debate sobre a aceitação da democracia e dos direitos humanos. Largos sectores do povo iraniano aprenderam muito nas últimas três décadas, e hoje muitas pessoas defendem corajosamente os direitos dos Bahá’ís e de outros grupos perseguidos. Reconhecem que os Bahá’ís iranianos passaram por um imenso sofrimento e orgulham-se da resistência e resiliência da comunidade Bahá’í.

Mas há um longo caminho a percorrer. As vozes dos Bahá’ís iranianos ressoam nos meus ouvidos há mais de três décadas e eu estou mais convencido do que nunca que o tratamento dos Bahá’ís iranianos é um indicador da aceitação social das normas de direitos humanos e da vontade do Estado em aplica-las. Quando os direitos dos Bahá’ís melhorarem, os direitos dos iranianos também irão melhorar. E agora que as empresas ocidentais exigem fazer negócios com o Irão e o presidente Rouhani se prepara para mais uma sessão retórica aos diplomatas em Nova Iorque, faríamos bem em recordar o povo iraniano, que continua a viver sob um regime que lhes nega os direitos humanos essenciais.

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FONTE: Mr. Rouhani: What Have you Done to Protect the Rights of Your Baha’i Citizens? (International Policy Digest)

1 comentário:

Alexandre Matos disse...

Excelente ver alguém a defender os bahais do Irão. Abraço e obrigado.