sábado, 29 de outubro de 2016

O que é Deus?



Um amigo ateu (a que vou chamar “Maynard”) colocou uma série de perguntas sobre Deus que achei suficientemente interessantes para lhe dar uma resposta.

Questão nº 1: Deus é uma entidade (a) material ou (b) não-material? (ou seja, Deus é feito do mesmo tipo de material como protões, electrões, etc., com propriedades como massa, carga, rotação, etc. tal como qualquer outra coisa existente no universo, ou é feito de algo não-material?)

Ciclicamente, alguém que afirma ser porta-voz de Deus tenta explicar isto à humanidade. Talvez isso seja um bom ponto de partida - a hipótese de um Ser original, uma Primeira Causa. Vejamos o que dizem os Profetas de Deus e os defensores deste conceito:

Todo o universo visível vem do meu Ser invisível. Todos os seres descansam em mim, mas Eu não tenho o Meu descanso neles, e na verdade eles não descansam em Mim. Considera o meu mistério sagrado: Eu sou a fonte de todos os seres, Eu apoio todos, mas Eu não descanso neles. (Krishna, Bhagavad Gita 9: 4)

Como escritora, eu "percebo" o que ele quer dizer. Eu posso dizer que estou "dentro" dos livros que escrevo. Eu criei as personagens e a história a partir da minha imaginação e dos meus pensamentos mais profundos, e as personagens continuam a viver e a crescer na minha mente. Mas eu não estou literalmente dentro livro. Não estou abrangida ou condicionada pela história nas suas páginas, nem tenho que respeitar as regras que estabeleci para o meu universo ficcional. No entanto, existe uma grande quantidade de "mim" nele. O livro reflecte as minhas emoções sobre certas coisas e pessoas; revela os meus processos de pensamento e, em alguns casos, mostram vislumbres de minha vida.

Assim, tal com Krishna, eu posso dizer "Todo o meu universo literário visível vem do meu ser invisível. Todas as personagens têm o seu descanso (e origem) em mim, mas eu não descanso nelas. Na verdade, eles não descansam em mim. Eu sou a sua fonte, e apoio-os a todos ao escrever sobre eles, mas eu não estou dentro eles." Por outras palavras, eu não sou definida por eles ou limitada por eles. Eu não começo nem termino neles, mas transcendo-os. A sua realidade reflecte a minha realidade e o meu intelecto.

Bahá'u'lláh (o fundador da Fé Bahá'í) afirma que Deus está num plano de existência acima da nossa compreensão, tal assim nós estamos acima da compreensão, digamos, de uma personagem fictícia. Deus não está limitado, estritamente falando, pelas leis do universo físico que Ele criou, tal como eu não estou condicionada pelas leis que criei para um mundo de fantasia num dos meus romances.

E sobre isto, Bahá'u'lláh também diz algo mais interessante, que ecoa antigas vozes profética:

"Quem se conheceu a si próprio, conheceu Deus." (SEB, XC)

Nós, seres humanos somos, de alguma forma essencial, criados à imagem de Deus. Krishna diz que o atman (alma) é "o espírito de Deus no homem" e que atman torna o ser humano precioso aos olhos de Deus e leva-nos a procurá-Lo. Bahá'u'lláh escreveu sobre a capacidade da alma humana para reflectir os "nomes e atributos de Deus".

Quando Bahá'u'lláh diz:
"Eu amei a tua criação, e por isso te criei"

Eu sei em certa medida, o que Ele quer dizer. Eu conheço o amor indescritível e profundo que precede os meus próprios actos de criação. Eu sei que as personagens que crio e os mundos que lhes dou para habitar são a expressão desse amor.

Isso não significa que somos pequenos deuses. Um dos maiores problemas no mundo de hoje é que muitas pessoas acreditam verdadeiramente nisso. Penso que é mais correcto reconhecermos a singularidade de nossa própria faculdade racional, e com isso teremos uma pista sobre o tipo de inteligência que os seres humanos reflectem no universo.

Então aqui está uma reviravolta: as escrituras das religiões mundiais dizem-nos que o espírito humano é um reflexo de Deus, que por Sua vez está na origem do Universo. Parece apropriado, portanto, que este espírito nos predisponha a questionar: "Por que estamos aqui?" e "Como chegámos aqui?" (que não são a mesma questão) e esperar seriamente encontrar uma resposta. Podemos empregar essa faculdade racional para chegar à ideia de que existe logicamente um Deus transcendente, não-material.

Como assim? Se postulamos que Deus é, como nós, feito de material cósmico (átomos, etc), então vamos acabar com uma regressão infinita. Ou seja, se Deus faz parte deste universo físico e está sujeito às suas leis, em seguida, a conversa nunca mais acaba. Temos de perguntar o que causou Deus. Na verdade, qualquer que seja a Origem das leis que regem o funcionamento deste universo, ela não pode, em si, estar sujeita às leis universais. Deve ser algo fundamentalmente diferente.

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

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