sábado, 30 de setembro de 2017

O Epitáfio de Satanás

Por Christopher Buck.


Tudo o que potencialmente possuís, porém, só se pode manifestar como resultado da vossa própria vontade. Os vossos próprios actos testemunham esta verdade... Os homens, contudo, têm violado deliberadamente a Sua lei. Esse comportamento deve ser atribuído a Deus, ou aos seus próprios seres? Sede justos no vosso juízo. Todo o bem provém de Deus, e todo mal provém de vós próprios. Não o compreendeis? (Bahá’u’lláh, SEB, LXXVII)
A epígrafe de Bahá’u’lláh sobre o mal é o epitáfio de Satanás.

Esta citação mudou a minha vida. Teve um impacto muito duradouro em mim, libertando-me do medo e do pavor de "Satanás".

“Como?” poderão perguntar. No fundo, a citação nem sequer menciona Satanás. Essa é a questão. Um poderoso "argumento do silêncio", na verdade! Este excerto notável - simples, mas profundo nas suas implicações - impressionou-me tanto pelo que não afirma, assim como pelo que afirma.

Quando li pela primeira vez, "todo mal provém de vós próprios" - precedida pela afirmação "Os vossos próprios actos testemunham esta verdade" - fiquei siderado, atordoado e impressionado com a súbita clareza que senti, e por outro lado, pela tremenda responsabilidade que estas palavras transmitem. Tive, então, que enfrentar a verdadeira origem do mal - no espelho.

No que diz respeito ao mal, compreendi que o problema fica por aqui.

Quando li estas palavras, percebi finalmente que Satanás não existe fora do simbolismo do mal humano. Satanás é uma personificação do mal; não uma personalidade maligna.

Satanás não é uma pessoa. Satanás é um mito. Acreditar no contrário, é uma crença distorcida. Vejam que eu cresci com Satanás fazendo parte da minha educação Cristã. Foi-me dito na catequese que Satanás se poderia disfarçar como um anjo da luz:
E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz. (2Cor 11:14)
Quando era criança, isso deixava-me com medo, até mesmo paranóico. Satanás poderia estar à espreita em qualquer lugar. Pior ainda, Satanás estava em todo lugar - iníquo e omnipresente. Quando era criança, a ideia de Satanás possuía-me. Satanás assustava-me profundamente. Mas a explicação de Bahá’u’lláh libertou-me. Como?

Para os Bahá’ís, Bahá’u’lláh exorciza Satanás, expondo-o por aquilo que realmente é (e por aquilo que não é). Bahá’u’lláh mata o dragão primordial. Os ensinamentos Bahá’ís mostraram-me que Satanás é uma superstição, uma diversão, uma perversão da verdadeira fonte do mal. Há quarenta anos, quando li esta epígrafe pela primeira vez pouco depois de me tornar Bahá’í, fiquei impressionado com outra visão súbita: não preciso de acreditar em Satanás para acreditar em Cristo. Este pensamento, só por si, era libertador, purificador, capacitador. “Porquê?”, poderão perguntar.

Permitam-me ser franco: hoje, para ser cristão, muito provavelmente, você tem que acreditar em Satanás, bem como em Cristo. Pense nisso! O Cristianismo pode existir sem Satanás? Eu acredito que sim. Mas provavelmente a maioria dos cristãos não pensou no problema de Satanás dessa forma.

Não me interpretem mal: ser Cristão é seguir Cristo e aceitá-Lo como Senhor e Salvador. Mas se Cristo salva do Pecado Original, e se o pecado original foi provocado por Satanás, a serpente no Jardim do Éden (como é que Satanás se infiltrou para o Éden?), então ser Cristão, neste sentido, implica a crença num ser maligno, um espírito chamado Satanás. A doutrina prevalecente sobre a salvação implica acreditar em Satanás.

Podemos ver outra ligação: se não existe Satanás, também não existe salvação. A não ser que a salvação que Cristo oferece tenha outro significado. E isso é tema que as Escrituras Bahá'ís clarificam, tal como a questão da existência de Satanás:
A realidade subjacente a esta questão é que o espírito maligno, Satanás ou o que quer que seja interpretado como mal, refere-se à natureza inferior no homem. Essa natureza inferior é simbolizada de várias maneiras. No homem existem duas expressões, uma é a expressão da natureza, a outra a expressão do reino espiritual... Deus nunca criou um espírito maligno; todas essas ideias e nomenclaturas são símbolos que expressam a natureza meramente humana ou terrena do homem. É uma condição essencial do solo da terra que espinhos, ervas daninhas e árvores infrutíferas possam crescer a partir dele. Relativamente falando, isso é mau; é simplesmente o estado inferior e o produto mais baixo da natureza. (‘Abdu'l-Bahá, Promulgation of Universal Peace, pp. 294-295)
E ainda:
"O significado da serpente é apego ao mundo humano." (‘Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, cap. 30)
Por outras palavras, Satanás é uma personificação do mal, não uma personalidade maligna. E acreditar em Cristo, sem exigir uma crença simultânea em Satanás, reconsidera a pessoa e a obra de Cristo de uma forma revolucionária e revitalizante.

Quando entendemos Satanás como um símbolo e não como uma realidade, podemos começar a entender a perspectiva Bahá'í sobre o mal como a regra de ferro do carácter ignóbil, em contraste com a regra de ouro do carácter nobre.

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Texto original: Satan’s Epitaph (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

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