sábado, 27 de janeiro de 2018

Uma questão de fé



Estou sentada na sala de espera do hospital e o meu filho de um ano de idade está no bloco operatório há quatro horas. A ansiedade é um eufemismo.

O meu bebé ainda tem aguentar mais quatro horas de operação, se a enfermeira que acabou de me sussurrar a informação estiver correcta. Esta é a sua terceira cirurgia neste ano; e ele tem apenas um ano de vida. Hoje, sou capaz de explodir se alguém me disser que as pessoas apenas são testadas de acordo com a sua capacidade. Hoje sinto-me abandonada por todas e quaisquer versões de Deus.

Olho para a sala espera cheia de gente. Casais tranquilos, mães, pais, irmãos, amontoam-se em círculos apertados. Bebendo café, olhando pela janela, olhos vidrados. Sei que não estou sozinha nos meus pensamentos; não nesta sala e não no mundo.

As pessoas falam sobre os momentos da vida em que duvidamos. Quando perguntamos porquê, quando não compreendemos, quando a nossa dor ou a dor que testemunhamos no mundo nos faz chorar de frustração, raiva, e até fúria. Este é um dos meus momentos. Não é um processo de pensamento passivo ou hipotético. É real, é pessoal e é difícil. Esta palavra "fé" não é brincadeira.

Olho para uma mãe sentada numa poltrona a poucos metros de mim, junto a um carrinho de criança vazio. Tem a cabeça curvada, os cabelos caídos, penso que talvez esteja derrotada, mas depois ela ergue a face e vejo os seus olhos fechados, as mãos apertadas e os lábios movendo-se silenciosamente. Está rezar.

O que leva esta mãe solitária a pedir a ajuda de Deus? O que a faz levantar o rosto numa expectativa silenciosa? Onde é que ela encontrou a fé?

O sinal do amor é a força moral sob o meu decreto e a paciência sob as Minhas provações. (Baha'u'llah, As PalavrasOcultas, árabe, #48)

O primeiro sinal de fé é o amor. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation ofUniversal Peace, p. 336)

Terá a sua fé aumentado a sua capacidade de lidar com as tristezas, ou de ser paciente durante provações severas? Isso permite-lhe estar sozinha, sentada ao lado do seu carrinho de criança vazio com calma interior?

As suas orações, embora silenciosas, afectam-me como um sofrimento pessoal. Dentro de mim, também quero que a minha fé seja forte; quero confiar em Deus para guiar os cirurgiões, para proteger o meu filho, para que o seu sofrimento seja mínimo, para que a sua recuperação seja rápida. Quero que a minha fé me leve, e leve o meu filho, através desta e de todas as suas provações.

E agora dou-vos um mandamento que será sobre uma aliança entre vós e eu - que tenhais fé; que a vossa fé seja firme como uma rocha, que nenhuma tempestade mundana possa abalar, que nada possa perturbar, e que subsista por todas as coisas até o fim... Assim como tiverdes fé, também serão os vossos poderes e bênçãos. (‘Abdu'l-Bahá, Baha’i Readings, p. 313)

Compreendo. As orações silenciosas desta mãe são orações silenciosas para manter sua fé; ao fazê-lo, dão-lhe força, poder e bênçãos.

Penso na pessoa que eu era há um ano atrás. Estava afortunadamente inconsciente da obscura desordem genética que se apossou do meu filho. Como é que isso me mudou? Olho para os desconhecidos na sala de espera com os quais me sinto inexplicavelmente ligada, a mãe que reza em silêncio e a quem me liguei com um simples olhar, o mundo desconhecido do qual sou agora um habitante cúmplice mas ferozmente leal. Estes sentimentos são bênçãos. Bênçãos estranhas e terríveis, mas belíssimas. Será que eu teria estas coisas se minha fé não tivesse sido testada? Teriam os meus olhos ficado assim tão abertos? Seria capaz de sentir oceanos de ternura e compaixão feroz?

... o espírito humano, a menos que seja auxiliado pelo espírito de fé, não pode conhecer os mistérios divinos e as realidades celestiais. É como um espelho que, embora claro, brilhante e polido, ainda precisa de luz. Só quando um raio de sol cai sobre ele, é que se pode descobrir os mistérios divinos. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, p. 242)

Então, se o "primeiro sinal de fé é o amor" e se o sinal do amor é "paciência sob as Minhas provações", vou começar por aí.

Olho para o meu relógio. Ainda me dói o coração. Talvez doa sempre durante estes dias. Talvez seja suposto doer. As dores dão-me a conhecer os "mistérios divinos" e as "realidades celestiais" - com tamanho realismo que percebemos que é fácil pensar que temos fé quando nunca fomos desafiados.

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Texto Original: A Question Of Faith (www.bahaiteachings.org)

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Brittany Betts formou-se na Universidade de Oxford e é CEO da The International Educator. Cresceu em Portugal e pertence à quarta geração de Bahá’ís na sua família. Actualmente vive na Califórnia (EUA).

2 comentários:

Anónimo disse...

Obrigado, Brittany, de todo o coração, por escrever este testemunho tão franco, tão honesto e inspirador. Precisamos disso. 

Cori Correa disse...

Grato por partilhar, Brittany. Cori