Após a tomada de Badajoz pelas forças franquistas, foram julgados e condenados à morte vários prisioneiros republicanos. Em Portugal, onde a guerra civil espanhola era seguida com toda a atenção, organizaram-se excursões para assistir a esses fuzilamentos em Badajoz.
Presumo que a maioria das pessoas que estava nessas excursões alinhava pelas ideias do Estado Novo. O objectivo da viagem era assistir à punição dos agressores da sociedade, daqueles que atentavam contra o nosso modo de vida, a "tranquilidade social" defendida pelo antigo regime. A viagem a Badajoz era uma manifestação da solidariedade aos franquistas e uma afirmação da ideologia política de cada um dos excursionistas.
Numa dessas excursões, os anfitriões espanhóis cederam uns lugares especiais aos convidados portugueses para que pudessem apreciar todos os pormenores das execuções. Aconteceu que os homens que iam ser fuzilados pararam por uns instantes em frente aos convidados portugueses.
Um desses homens percebeu que estavam ali estrangeiros para assistir à sua morte. Olhou alguns deles nos olhos e perguntou-lhes "Sois portugueses, verdade?" Alguns responderam que sim. "É um grande espectáculo assistir à morte de um homem, verdade?" perguntou-lhes o condenado.
Esta pergunta deixou profundamente transtornados vários portugueses. Alguns perceberam imediatamente que tinham levado o seu combate político longe demais. Sentiram-se profundamente envergonhados por estar ali; apenas queriam sair dali o mais rapidamente possível. Aquela pergunta de um homem condenado à morte fê-los perceber que nenhum combate político podia justificar a morte de uma pessoa. Passadas algumas décadas, alguns ainda recordavam o rosto e a expressão daquele homem ao dirigir-lhes aquelas últimas palavras.
Nas últimas semanas, a violência das imagens provenientes do Iraque não deixa ninguém indiferente. Revolta e indignação são os sentimentos mais comuns de quem as vê. A divulgação dessas imagens tem sido usada para denunciar situações inaceitáveis.
A divulgação do vídeo da execução de Nicolas Berg assumiu outros contornos. Alguns media pouco escrupulosos e ávidos de sensacionalismo exibiram o filme da execução; em vários sites (inclusive portugueses) é possível fazer o download desse filme. Os motores de busca assinalaram que esse filme durante algum tempo foi o elemento mais pesquisado na Net (superou a pornografia!). Vários e-mails circularam com o filme da execução.
Para quem deseja ver, ou exibir, o filme, já não importa se os assassinos transmitem alguma mensagem política com aquela execução; já não se pensa se este acto foi mais ou menos bárbaro que o que se passou nas prisões iraquianas; já nem sabemos o que vale a vida humana. A morte de Nicolas Berg transformou-se num espectáculo. Talvez ele, como aquele condenado republicano em Badajoz, pudesse ter dito: "É um grande espectáculo assistir à morte de um homem, verdade?"
segunda-feira, 31 de maio de 2004
sábado, 29 de maio de 2004
Há 112 anos: "Apagou-se o Sol de Bahá"
Em Novembro de 1891 Bahá'u'lláh completara 75 anos de idade. Os últimos anos tinham sido mais tranquilos do que as décadas anteriores. Residia em Bahji, na Terra Santa. A Sua saúde física ressentia-se de acontecimentos vividos: envenenamento, espancamentos, torturas prolongadas na prisão de Teerão (o tristemente célebre Siyah-Chal) e dois anos na mais grandiosa prisão ('Akká).
A Sua esposa, Naváb, tinha falecido em 1886; no ano seguinte falecera o seu irmão e apoiante leal, Mirzá Musá.
Nesse ano de 1891, Bahá'u'lláh revelara a Sua última grande obra, a Epistola ao Filho do Lobo. Trata-se de um livro dirigido a um clérigo muçulmano responsável pela morte de dois bahá'ís, executados na cidade de Isfahan em 1878. Ao longo de várias páginas recorda vários acontecimentos do Seu ministério e revela novamente as epístolas dirigidas aos reis e governantes do Seu tempo.
Em 8 de Maio de 1892 começou a sentir febre. Nos dias seguintes tentou manter alguma rotina diária, continuando a receber crentes em Sua casa. Com o passar dos dias a febre agravou-se, e toda a sua saúde piorou.
Seis dias antes de falecer chamou toda a família à Sua presença; alguns crentes e peregrinos também foram convocados. "Estou satisfeito com todos vós... Prestaram-Me muitos serviços... Que Deus vos ajude a permanecer unidos...".
Na madrugada de 29 de Maio de 1892, Bahá'u'lláh abandonou este mundo físico.
No dia seguinte as mesquitas em ‘Akká, e noutras partes da Palestina, anunciavam a morte daquele homem que muitos consideravam santo. De Damasco, Beirute, Alepo e Cairo chegam palavras de pesar, homenagens e comitivas. Ao Sultão do Império Otomano(que governava a Palestina, e tinha sido responsável por muitos dos sofrimentos de Bahá’u’lláh), 'Abdu'l-Bahá enviou um telegrama anunciando a morte de Seu Pai; começava coma frase "Apagou-se o Sol de Bahá".
Nove dias após o falecimento de Bahá'u'lláh, procedeu-se à abertura do Seu testamento; perante várias testemunhas, abriu-se caixa que continha esse documento e os respectivos selos foram quebrados. O documento foi lido em voz alta para os Seus filhos e um grande número de crentes; neste, 'Abdu'l-Bahá, o filho mais velho de Bahá'u'lláh, era nomeado Seu sucessor.
'Abdu'l-Bahá tinha então quarenta e oito anos; obedecendo às instruções de Seu Pai carregou o fardo da liderança da Comunidade Bahá'í.
A Sua esposa, Naváb, tinha falecido em 1886; no ano seguinte falecera o seu irmão e apoiante leal, Mirzá Musá.
Nesse ano de 1891, Bahá'u'lláh revelara a Sua última grande obra, a Epistola ao Filho do Lobo. Trata-se de um livro dirigido a um clérigo muçulmano responsável pela morte de dois bahá'ís, executados na cidade de Isfahan em 1878. Ao longo de várias páginas recorda vários acontecimentos do Seu ministério e revela novamente as epístolas dirigidas aos reis e governantes do Seu tempo.
Em 8 de Maio de 1892 começou a sentir febre. Nos dias seguintes tentou manter alguma rotina diária, continuando a receber crentes em Sua casa. Com o passar dos dias a febre agravou-se, e toda a sua saúde piorou.
Seis dias antes de falecer chamou toda a família à Sua presença; alguns crentes e peregrinos também foram convocados. "Estou satisfeito com todos vós... Prestaram-Me muitos serviços... Que Deus vos ajude a permanecer unidos...".
Na madrugada de 29 de Maio de 1892, Bahá'u'lláh abandonou este mundo físico.
Entrada do Túmulo de Bahá'u'lláh, em Bahji.
Para os bahá'ís, este é considerado o local mais sagrado do mundo.
No dia seguinte as mesquitas em ‘Akká, e noutras partes da Palestina, anunciavam a morte daquele homem que muitos consideravam santo. De Damasco, Beirute, Alepo e Cairo chegam palavras de pesar, homenagens e comitivas. Ao Sultão do Império Otomano(que governava a Palestina, e tinha sido responsável por muitos dos sofrimentos de Bahá’u’lláh), 'Abdu'l-Bahá enviou um telegrama anunciando a morte de Seu Pai; começava coma frase "Apagou-se o Sol de Bahá".
Nove dias após o falecimento de Bahá'u'lláh, procedeu-se à abertura do Seu testamento; perante várias testemunhas, abriu-se caixa que continha esse documento e os respectivos selos foram quebrados. O documento foi lido em voz alta para os Seus filhos e um grande número de crentes; neste, 'Abdu'l-Bahá, o filho mais velho de Bahá'u'lláh, era nomeado Seu sucessor.
'Abdu'l-Bahá tinha então quarenta e oito anos; obedecendo às instruções de Seu Pai carregou o fardo da liderança da Comunidade Bahá'í.
sexta-feira, 28 de maio de 2004
Um Dia de Guerra
São 16 pessoas, 16 conflitos diferentes, 16 histórias para contar, 16 experiências diferentes... Porque lutam estas pessoas? Que esperanças têm para o futuro? Como é a vida na guerra? Têm medo? A dor é banal para eles?
Apenas li o conteúdo do site da BBC que anuncia esta série e já estou em pulgas! Oxalá que seja exibida em Portugal num horário decente.
quinta-feira, 27 de maio de 2004
Falecimento
A avó materna do meu amigo Varqa Jalali (aquele que eu gostaria que colaborasse aqui neste blog) faleceu nos Estados Unidos no passado dia 25 de Maio.
Este é daqueles momentos em que gostaria de dizer umas palavras que te pudesse confortar, que pudesse atenuar a tristeza da tua mãe e de toda a tua família. Mas como é difícil encontrar essas palavras!
Independentemente das palavras que eu consiga encontrar ou não, farei as minhas orações pelo progresso da alma da tua avó.
Um grande abraço!
Este é daqueles momentos em que gostaria de dizer umas palavras que te pudesse confortar, que pudesse atenuar a tristeza da tua mãe e de toda a tua família. Mas como é difícil encontrar essas palavras!
Independentemente das palavras que eu consiga encontrar ou não, farei as minhas orações pelo progresso da alma da tua avó.
Um grande abraço!
quarta-feira, 26 de maio de 2004
O Desporto ao serviço da Paz
Há algumas semanas atrás referi a digressão da equipa de cricket da Índia no Paquistão (link); posteriormente, a equipa paquistanesa efectuou uma digressão pela Índia. Este tipo de gestos tem por objectivo atenuar as tensões entre os povos dos dois países; é claramente uma tentativa de usar o desporto a favor da paz.
Mais recentemente, algumas organizações humanitárias tomaram uma inciativa digna de elogio e merecedora da nossa atenção: realizaram vários jogos de cricket entre adolescentes dos dois países; estes adolescentes, entre os 12 e os 17 anos pertencem aos chamados "meninos de rua". Primeiramente organizaram equipas de acordo com a nacionalidade dos jovens; posteriormente, organizaram-se jogos com equipas mistas.
Com as equipas mistas, o entusiasmo pelo jogo tornou-se muito mais importante do que qualquer carga política ou nacionalista que o pudesse rodear. O jogo tornou-se um factor de unidade para estes adolescentes provenientes de países que têm tradicionalmente relações muito difíceis.
Esperemos que, com estas e outras iniciativas semelhantes, as próximas gerações de indianos e paquistaneses tenham mais e melhores condições para se entenderem. Oxalá iniciativas destas se pudessem repetir noutros locais do mundo!
Uma foto-reportagem sobre esta notícia está no site da BBC.
Com as equipas mistas, o entusiasmo pelo jogo tornou-se muito mais importante do que qualquer carga política ou nacionalista que o pudesse rodear. O jogo tornou-se um factor de unidade para estes adolescentes provenientes de países que têm tradicionalmente relações muito difíceis.
Esperemos que, com estas e outras iniciativas semelhantes, as próximas gerações de indianos e paquistaneses tenham mais e melhores condições para se entenderem. Oxalá iniciativas destas se pudessem repetir noutros locais do mundo!
Uma foto-reportagem sobre esta notícia está no site da BBC.
Inder Manocha
Imaginem que um comediante de um grupo étnico diferente do vosso vos diz: "Se eu contar uma piada a seu respeito, isso é comédia; se você contar uma piada a meu respeito, isso é racismo!" Este tipo de provocação sobre o politicamente correcto é usado por um comediante britânico que acaba de receber um dos prémios EMMA (Ethnic Multicultural Media Achievement Awards).
O comediante em causa chama-se Inder Manocha. É filho de pai indiano e mãe iraniana; teve uma educação britânica em Oxford e tem vindo a tornar-se famoso com as suas comédias multi-étnicas no Reino-Unido (onde a diversidade étnica é cada vez maior). Há quatro anos, Manocha trocou uma carreira de psicoterapeuta pela comédia. Agora o seu talento artístico foi reconhecido.
A noticia completa está aqui no BWNS.
O comediante em causa chama-se Inder Manocha. É filho de pai indiano e mãe iraniana; teve uma educação britânica em Oxford e tem vindo a tornar-se famoso com as suas comédias multi-étnicas no Reino-Unido (onde a diversidade étnica é cada vez maior). Há quatro anos, Manocha trocou uma carreira de psicoterapeuta pela comédia. Agora o seu talento artístico foi reconhecido.
A noticia completa está aqui no BWNS.
segunda-feira, 24 de maio de 2004
Há 185 anos nascia a Rainha Vitória
Em 24 de Maio de 1819, no palácio de Kensington, em Londres, nascia Alexandrina Vitoria. O seu pai, o Duque de Kent, morreu quando ela tinha oito meses. Vitoria cresceu no Palácio de Kensington sob o cuidado de uma governanta alemã e tutores ingleses e do tio, o Príncipe Leopoldo (que viria a ser Rei da Bélgica). Vitória aprendeu francês e alemão; estudou história, geografia e religião; aprendeu piano e cultivou o gosto pela pintura (que manteve até aos seus sessenta anos). Quando o seu tio, rei Guilherme IV, falece em Junho de 1837 sem ter filhos, Vitoria torna-se Rainha. Tinha então 18 anos.
Casou em 1840 com o Príncipe Alberto, de quem teve nove filhos. O casal transmitiu uma imagem de família tranquila e respeitável, que contrastava com os anteriores monarcas. Envolveram-se pessoalmente na educação dos filhos (não deixaram isso apenas a cargo de amas ou tutores). Alberto tornou-se um braço direito da Rainha no que toca aos assuntos de estado; apoiou o desenvolvimento de artes e ciências e foi um grande impulsionador da modernização e fortalecimento do exército britânico; apesar disso, alguns britânicos nunca lhe perdoaram o sotaque alemão.
Após a morte de Alberto em 1861 manteve um luto carregado durante quase 10 anos. Os seus nove filhos foram casando; oito tiveram filhos. Alguns dos seus filhos e netos casaram com membros de casas reais de outros países, nomeadamente Espanha, Rússia, Suécia, Noruega, e Roménia; Devido à sua numerosa descendência, os britânicos ainda gostam de lhe chamar a "Avó da Europa".
O reinado de Vitória seria o mais longo de um monarca britânico e é frequentemente referido como a "era vitoriana". Durante esse tempo o Império fortaleceu-se e desenvolveu-se; Vitória simpatizava com algumas das mudanças e desenvolvimentos a que ia assistindo: o caminho de ferro, a fotografia, a anestesia para parturientes. Mas tinha dúvida relativamente a outras questões: o direito de voto universal, a criação de escolas públicas e acesso de mulheres a todas as profissões (nomeadamente a medicina). Orgulhava-se de ser chefe de estado do mais vasto império multirracial e multi-religioso do mundo; a sua honestidade, patriotismo e devoção à vida familiar tornaram-na o símbolo máximo de uma era.
Os episódios políticos mais marcantes e conhecidos do seu reinado são a Guerra da Crimeia (1853-1856), a guerra dos Boers na África do Sul (1899-1901) e várias rebeliões na Índia. O incidente do Mapa Cor-de-Rosa também se dá durante o reinado de Vitoria. Do ponto de vista social podemos salientar a abolição da escravatura em todo o império britânico (1838), a lei de redução do horário de trabalho (para dez horas) na industria têxtil (1847) e o "Third Reform Act" que concedia o direito de voto a todos os homens trabalhadores (1884).
A Rainha Vitória reinou durante 63 anos e foi chefe de estado de todo o Império Britânico, que incluía, o Canadá, a Austrália, a Índia, e vastos territórios em África. Personificação do Reino, Vitoria sempre pretendeu que o Império fosse considerado como uma poderosa potência económica e militar e um modelo de civilização. Faleceu em 22 de Janeiro de 1901.
A Epistola revelada por Bahá'u'lláh
Entre 1968 e 1870, Bahá'u'lláh revelou uma epístola dirigida à Rainha Vitória. Tal como noutras epístolas dirigidas aos reis e governantes do seu tempo, anuncia-lhe o aparecimento de uma nova revelação divina e faz um juízo sobre os actos da Rainha, enquanto governante. Alguns excertos dessa epístola:
Ó Rainha em Londres! Inclina teu ouvido para a voz de teu Senhor, o Senhor de toda a humanidade, que clama do Loto Divino: Verdadeiramente, nenhum Deus há senão Eu, o Todo-Poderoso, o Omnisciente! Rejeita tudo o que está na terra, e, adorna a cabeça de teu reino com o coroa da lembrança de teu Senhor, o Todo-Glorioso. Ele, em verdade, veio ao mundo na Sua mais grandiosa glória, e tudo o que foi mencionado no Evangelho se cumpriu.
(...)
Põe de lado o teu desejo e volta o teu coração para teu Senhor, o Ancião dos Dias. Fazemos menção de ti por amor a Deus e desejamos que o teu nome seja exaltado pela tua comemoração de Deus, o Criador da terra e do céu. Ele, em verdade, dá testemunho daquilo que digo. Fomos informados de que tu proibiste o tráfico de escravos, tanto de homens como de mulheres. Isso, em verdade, é o que Deus ordenou nesta Revelação maravilhosa. Deus, em verdade, destinou-te uma recompensa por isso.
(...)
Soubemos também que entregaste as rédeas do conselho nas mãos dos representantes do povo. Em verdade, fizeste bem pois assim os alicerces do edifício de tuas actividades serão fortalecidos, e os corações de todos os que se acham abrigados à tua sombra, sejam de alta ou de baixa condição, serão tranquilizados. Compete-lhes, entretanto, ser dignos de confiança entre Seus servos e considerarem-se a si próprios como os representantes de todos os que habitam na terra.
(...)
A tradução completa da epístola em inglês encontra-se aqui. Existe uma espécie de "tradição oral" entre os bahá'ís, segundo a qual a Rainha Vitória teria sido o único governante que teria respondido a Bahá'u'lláh. A resposta teria sido algo do género "Se essa causa provém de Deus, então não necessita da nossa ajuda para triunfar; mas se não provém de Deus, então cairá por si própria". No entanto, não há qualquer confirmação sobre a existência dessa resposta (ver este esclarecimento).
____________________
A biografia da Rainha Vitória que consta da Encyclopedia Britannica encontra-se aqui na Baha'i Library Online.
Casou em 1840 com o Príncipe Alberto, de quem teve nove filhos. O casal transmitiu uma imagem de família tranquila e respeitável, que contrastava com os anteriores monarcas. Envolveram-se pessoalmente na educação dos filhos (não deixaram isso apenas a cargo de amas ou tutores). Alberto tornou-se um braço direito da Rainha no que toca aos assuntos de estado; apoiou o desenvolvimento de artes e ciências e foi um grande impulsionador da modernização e fortalecimento do exército britânico; apesar disso, alguns britânicos nunca lhe perdoaram o sotaque alemão.Após a morte de Alberto em 1861 manteve um luto carregado durante quase 10 anos. Os seus nove filhos foram casando; oito tiveram filhos. Alguns dos seus filhos e netos casaram com membros de casas reais de outros países, nomeadamente Espanha, Rússia, Suécia, Noruega, e Roménia; Devido à sua numerosa descendência, os britânicos ainda gostam de lhe chamar a "Avó da Europa".
O reinado de Vitória seria o mais longo de um monarca britânico e é frequentemente referido como a "era vitoriana". Durante esse tempo o Império fortaleceu-se e desenvolveu-se; Vitória simpatizava com algumas das mudanças e desenvolvimentos a que ia assistindo: o caminho de ferro, a fotografia, a anestesia para parturientes. Mas tinha dúvida relativamente a outras questões: o direito de voto universal, a criação de escolas públicas e acesso de mulheres a todas as profissões (nomeadamente a medicina). Orgulhava-se de ser chefe de estado do mais vasto império multirracial e multi-religioso do mundo; a sua honestidade, patriotismo e devoção à vida familiar tornaram-na o símbolo máximo de uma era.
Os episódios políticos mais marcantes e conhecidos do seu reinado são a Guerra da Crimeia (1853-1856), a guerra dos Boers na África do Sul (1899-1901) e várias rebeliões na Índia. O incidente do Mapa Cor-de-Rosa também se dá durante o reinado de Vitoria. Do ponto de vista social podemos salientar a abolição da escravatura em todo o império britânico (1838), a lei de redução do horário de trabalho (para dez horas) na industria têxtil (1847) e o "Third Reform Act" que concedia o direito de voto a todos os homens trabalhadores (1884).

Ilustração da Grande Exposição Universal de 1851.
Um momento para a Grã-Bretanha mostrar ao mundo o seu poderio industrial e tecnológico.
Um momento para a Grã-Bretanha mostrar ao mundo o seu poderio industrial e tecnológico.
A Rainha Vitória reinou durante 63 anos e foi chefe de estado de todo o Império Britânico, que incluía, o Canadá, a Austrália, a Índia, e vastos territórios em África. Personificação do Reino, Vitoria sempre pretendeu que o Império fosse considerado como uma poderosa potência económica e militar e um modelo de civilização. Faleceu em 22 de Janeiro de 1901.
A Epistola revelada por Bahá'u'lláh
Entre 1968 e 1870, Bahá'u'lláh revelou uma epístola dirigida à Rainha Vitória. Tal como noutras epístolas dirigidas aos reis e governantes do seu tempo, anuncia-lhe o aparecimento de uma nova revelação divina e faz um juízo sobre os actos da Rainha, enquanto governante. Alguns excertos dessa epístola:
Ó Rainha em Londres! Inclina teu ouvido para a voz de teu Senhor, o Senhor de toda a humanidade, que clama do Loto Divino: Verdadeiramente, nenhum Deus há senão Eu, o Todo-Poderoso, o Omnisciente! Rejeita tudo o que está na terra, e, adorna a cabeça de teu reino com o coroa da lembrança de teu Senhor, o Todo-Glorioso. Ele, em verdade, veio ao mundo na Sua mais grandiosa glória, e tudo o que foi mencionado no Evangelho se cumpriu.
(...)
Põe de lado o teu desejo e volta o teu coração para teu Senhor, o Ancião dos Dias. Fazemos menção de ti por amor a Deus e desejamos que o teu nome seja exaltado pela tua comemoração de Deus, o Criador da terra e do céu. Ele, em verdade, dá testemunho daquilo que digo. Fomos informados de que tu proibiste o tráfico de escravos, tanto de homens como de mulheres. Isso, em verdade, é o que Deus ordenou nesta Revelação maravilhosa. Deus, em verdade, destinou-te uma recompensa por isso.
(...)
Soubemos também que entregaste as rédeas do conselho nas mãos dos representantes do povo. Em verdade, fizeste bem pois assim os alicerces do edifício de tuas actividades serão fortalecidos, e os corações de todos os que se acham abrigados à tua sombra, sejam de alta ou de baixa condição, serão tranquilizados. Compete-lhes, entretanto, ser dignos de confiança entre Seus servos e considerarem-se a si próprios como os representantes de todos os que habitam na terra.
(...)
A tradução completa da epístola em inglês encontra-se aqui. Existe uma espécie de "tradição oral" entre os bahá'ís, segundo a qual a Rainha Vitória teria sido o único governante que teria respondido a Bahá'u'lláh. A resposta teria sido algo do género "Se essa causa provém de Deus, então não necessita da nossa ajuda para triunfar; mas se não provém de Deus, então cairá por si própria". No entanto, não há qualquer confirmação sobre a existência dessa resposta (ver este esclarecimento).
____________________
A biografia da Rainha Vitória que consta da Encyclopedia Britannica encontra-se aqui na Baha'i Library Online.
Apenas Palha
Durante muitos anos assinei os meus e-mails com uma frase de S. Tomás de Aquino: "Tudo que escrevi foi apenas palha." Esta frase suscitava alguns comentários bem divertidos dos destinatários. Por vezes apenas aquela frase na assinatura chegava para pôr em causa todo o conteúdo da mensagem.
Esta frase tem suscitado muitas e diversas interpretações; algumas pessoas entendem-na como uma negação de S. Tomás em relação à sua própria obra; outras preferem interpretá-la como um reconhecimento da insignificância de qualquer palavra proferida por um ser humano, perante a grandeza e o poder da Palavra de Deus.
Prefiro esta segunda interpretação. Nas escrituras sagradas podemos ver exemplos do poder da palavra divina, na forma como influenciou e transformou consciências, sociedade e nações. Foi pela influência da Palavra de Deus que os inimigos da fé se transformam em defensores e mártires da religião; foi pela influência da Palavra que sociedades tribais se transformaram em nações organizadas e prósperas.
Nas escrituras Bahá'ís, afirma-se que a Palavra de Deus é tão poderosa que Deus apenas teve de pronunciar a palavra "Sê" (forma do verbo ser) para chamar toda a criação à existência. É, obviamente, uma imagem figurativa do poder da Palavra, que nos leva a reflectir. Se uma pequena palavra tem assim tanto poder, imagine-se uma epístola ou um livro sagrado!
As palavras dos seres humanos também podem ter uma influência poderosa; podem destruir uma reputação ou criar a fama de uma pessoa; podem incutir sensações, desejos e afectos.
A blogosfera está repleta de palavras. O que aconteceria se entre estas surgisse um blog de autoria do próprio Deus?
Como iriam as palavras humanas reagir à presença e influência das palavras divinas? Como iriam reagir os blogs mais conhecidos?
É divertido imaginar algumas reacções:
O Abrupto elaboraria sobre influências políticas desse blog e incluiria alguns Salmos nos Early Morning Blogs?
O BDE quereria saber que partido tinha Ele tomado na Guerra do Iraque?
O Blasfémias tentaria classificá-lo na sua tabela do Blasferas?
O Barnabé iria insistir que Ele era de esquerda e tratá-lo por "Camarada"?
O Jumento iria logo demonstrar que Deus tinha impostos em atraso?
A Ana Gomes iria denunciá-lo por passividade durante a crise de Timor?
O Blog 19 iria pedir a intervenção d'Ele em milhares e milhares de casos de violação de direitos humanos?
É difícil conter um sorriso ao especular sobre possíveis reacções dos diferentes blogs. No fundo, a grande questão seria saber com que rapidez iríamos reconhecer que as nossas palavras (não apenas na blogosfera!) são apenas palha, perante o poder e influência da Palavra Divina.
Esta frase tem suscitado muitas e diversas interpretações; algumas pessoas entendem-na como uma negação de S. Tomás em relação à sua própria obra; outras preferem interpretá-la como um reconhecimento da insignificância de qualquer palavra proferida por um ser humano, perante a grandeza e o poder da Palavra de Deus.
Prefiro esta segunda interpretação. Nas escrituras sagradas podemos ver exemplos do poder da palavra divina, na forma como influenciou e transformou consciências, sociedade e nações. Foi pela influência da Palavra de Deus que os inimigos da fé se transformam em defensores e mártires da religião; foi pela influência da Palavra que sociedades tribais se transformaram em nações organizadas e prósperas.
Nas escrituras Bahá'ís, afirma-se que a Palavra de Deus é tão poderosa que Deus apenas teve de pronunciar a palavra "Sê" (forma do verbo ser) para chamar toda a criação à existência. É, obviamente, uma imagem figurativa do poder da Palavra, que nos leva a reflectir. Se uma pequena palavra tem assim tanto poder, imagine-se uma epístola ou um livro sagrado!
As palavras dos seres humanos também podem ter uma influência poderosa; podem destruir uma reputação ou criar a fama de uma pessoa; podem incutir sensações, desejos e afectos.
A blogosfera está repleta de palavras. O que aconteceria se entre estas surgisse um blog de autoria do próprio Deus?
Como iriam as palavras humanas reagir à presença e influência das palavras divinas? Como iriam reagir os blogs mais conhecidos?
É divertido imaginar algumas reacções:
O Abrupto elaboraria sobre influências políticas desse blog e incluiria alguns Salmos nos Early Morning Blogs?
O BDE quereria saber que partido tinha Ele tomado na Guerra do Iraque?
O Blasfémias tentaria classificá-lo na sua tabela do Blasferas?
O Barnabé iria insistir que Ele era de esquerda e tratá-lo por "Camarada"?
O Jumento iria logo demonstrar que Deus tinha impostos em atraso?
A Ana Gomes iria denunciá-lo por passividade durante a crise de Timor?
O Blog 19 iria pedir a intervenção d'Ele em milhares e milhares de casos de violação de direitos humanos?
É difícil conter um sorriso ao especular sobre possíveis reacções dos diferentes blogs. No fundo, a grande questão seria saber com que rapidez iríamos reconhecer que as nossas palavras (não apenas na blogosfera!) são apenas palha, perante o poder e influência da Palavra Divina.
sábado, 22 de maio de 2004
O Primeiro Acto
Todas as religiões têm o seu "primeiro acto". Trata-se do primeiro momento de uma fantástica cadeia de eventos que vão revolucionar a história da humanidade. Esse primeiro acto assume muitas vezes características místicas e passa-se geralmente entre gente humilde.
No religião Judaica podemos considerar que o primeiro acto se desenrola com o nascimento de Moisés, o seu abandono nas águas e a sua adopção pela família do faraó; na religião Cristã, temos o nascimento de Cristo em Belém com a adoração dos Magos e, posteriormente, a fuga para o Egipto; no Islão, descreve-se a aparição do Anjo Gabriel ao Profeta numa gruta. A religião Bahá’í também tem o seu primeiro acto; aconteceu na cidade de Shiraz, na Pérsia, na noite de 22 para 23 de Maio. Estávamos no ano de 1844.
Seguindo as instruções de um professor de uma escola teológica messiânica, o estudante Mullá Husayn dirigiu-se a Shiraz. Chegou à cidade ao entardecer; a viagem deixara-o cansado, sujo, suado e com fome. Às portas da cidade contemplou as cúpulas das mesquitas e pensou em qual poderia orar a Deus para Lhe suplicar que o guiasse ao Prometido.
Enquanto caminhava, um jovem de turbante verde – sinal de que se tratava de um descendente de Maomé – dirigiu-se a ele. Sorridente cumprimentou-o e abraçou-o como se Mullá Husayn fosse um irmão que não via há muito tempo. Pensou que se pudesse tratar de um companheiro de escola que o tivesse reconhecido. Tratava-se de 'Ali-Muhammad, que ficaria conhecido como "O Báb" (em português, "A Porta"). O Báb convidou-o a ficar em Sua casa; podia comer, refrescar-se e descansar da viagem. A gentileza, a dignidade e a própria maneira de falar do Báb despertaram a atenção de Mullá Husayn. Decidiu aceitar o convite.
Depois de tomar um chá, e terem feito as orações da tarde, o Báb começou a fazer-lhe perguntas: Quem era ele? O que fazia na vida? Porque viajava? Mullá Husayn explicou que era aluno de uma escola religiosa e que andava à procura do Prometido. O seu professor, antes de morrer, tinha dado instruções aos alunos para que se espalhassem pela Pérsia na procura do Prometido.
"O vosso professor deu-vos algumas indicações detalhadas sobre as características do Prometido?" perguntou o Báb.
"Sim", respondeu Mullá Husayn, "sabemos que é descendente do Profeta, deve ter entre 20 e 30 anos, tem conhecimento inato, não fuma e não tem qualquer deficiência física".
Houve uma breve pausa no diálogo. Depois numa voz firme e cativante o Báb disse:
"Vê! Todos esses sinais se manifestam em Mim!"
"Mullá Husayn ficou chocado. O Báb explicou-lhe de que forma os sinais se aplicavam a Ele; mas Mullá Husayn contra-argumentou. Simultaneamente sentia uma mistura de medo e excitação percorrer-lhe o corpo. Lembrou-se então que o seu professor lhe tinha dito que o Prometido lhe daria uma explicação sobre o Sura de José (um capítulo do Alcorão). Para seu grande espanto o Báb disse-lhe:
Agora é chegado o momento de revelar um comentário ao Sura de José". E pegando numa caneta e papel, começou a escrever e entoou as seguintes palavras: "Todo o louvor a Deus que, através do poder da Verdade, fez descer este Livro ao Seu servo, para que sirva como uma luz brilhante para toda a humanidade..." Mullá Husayn ficou siderado com as palavras que ouviu; começou a ter consciência do que se estava a passar. O Prometido estava diante de si, a escrever o que entoava com enorme rapidez.
Quando concluiu o comentário, passavam duas horas do pôr do sol; o Báb disse então ao seu convidado: "Esta noite, esta própria hora, serão celebradas nos dias vindouros como um dos maiores e mais significativos festivais. Agradece a Deus por te ter graciosamente ajudado a alcançar o desejo do teu coração, e por teres sorvido do vinho selecto da Sua palavra."
Durante toda a noite comeram, oraram, e o Báb foi revelando mais palavras sagradas. Passadas algumas horas ouviram ruído vindo do exterior; a cidade acordava ao som dos apelos vindos dos minaretes das mesquitas que chamavam às orações matinais. O Báb encontrara o Seu primeiro discípulo. Terminava ali o primeiro acto.
Nas semanas seguintes, outros discípulos viriam a reconhecer o Báb; esses primeiros encontros tiveram sempre uma certa carga mística. O último do primeiro conjunto de discípulos foi Quddus.
Nessa mesma noite em que o Báb revelou a Sua Missão, em Teerão, nascia 'Abdu'l-Bahá, o filho de Bahá'u'lláh.
_____________________
ALGUMAS NOTAS:
1 - O texto completo do comentário ao Sura de José revelado pelo Báb naquela noite encontra-se na Bahá'í Library Online neste link.
2 - O livro Dawn-Breakers(a narrativa de Nabil) relata a vida do Báb e dos Seus primeiros discípulos; está disponível na Bahá'í Library Online neste link.
3 - O livro The Bab, de Hasan Balyuzi é o meu relato preferido sobre a vida do Báb e os primeiros crentes (mas isto é uma opinião muito pessoal!).
No religião Judaica podemos considerar que o primeiro acto se desenrola com o nascimento de Moisés, o seu abandono nas águas e a sua adopção pela família do faraó; na religião Cristã, temos o nascimento de Cristo em Belém com a adoração dos Magos e, posteriormente, a fuga para o Egipto; no Islão, descreve-se a aparição do Anjo Gabriel ao Profeta numa gruta. A religião Bahá’í também tem o seu primeiro acto; aconteceu na cidade de Shiraz, na Pérsia, na noite de 22 para 23 de Maio. Estávamos no ano de 1844.
Seguindo as instruções de um professor de uma escola teológica messiânica, o estudante Mullá Husayn dirigiu-se a Shiraz. Chegou à cidade ao entardecer; a viagem deixara-o cansado, sujo, suado e com fome. Às portas da cidade contemplou as cúpulas das mesquitas e pensou em qual poderia orar a Deus para Lhe suplicar que o guiasse ao Prometido.
Enquanto caminhava, um jovem de turbante verde – sinal de que se tratava de um descendente de Maomé – dirigiu-se a ele. Sorridente cumprimentou-o e abraçou-o como se Mullá Husayn fosse um irmão que não via há muito tempo. Pensou que se pudesse tratar de um companheiro de escola que o tivesse reconhecido. Tratava-se de 'Ali-Muhammad, que ficaria conhecido como "O Báb" (em português, "A Porta"). O Báb convidou-o a ficar em Sua casa; podia comer, refrescar-se e descansar da viagem. A gentileza, a dignidade e a própria maneira de falar do Báb despertaram a atenção de Mullá Husayn. Decidiu aceitar o convite.
Depois de tomar um chá, e terem feito as orações da tarde, o Báb começou a fazer-lhe perguntas: Quem era ele? O que fazia na vida? Porque viajava? Mullá Husayn explicou que era aluno de uma escola religiosa e que andava à procura do Prometido. O seu professor, antes de morrer, tinha dado instruções aos alunos para que se espalhassem pela Pérsia na procura do Prometido.
"O vosso professor deu-vos algumas indicações detalhadas sobre as características do Prometido?" perguntou o Báb.
"Sim", respondeu Mullá Husayn, "sabemos que é descendente do Profeta, deve ter entre 20 e 30 anos, tem conhecimento inato, não fuma e não tem qualquer deficiência física".
Houve uma breve pausa no diálogo. Depois numa voz firme e cativante o Báb disse:
"Vê! Todos esses sinais se manifestam em Mim!"
"Mullá Husayn ficou chocado. O Báb explicou-lhe de que forma os sinais se aplicavam a Ele; mas Mullá Husayn contra-argumentou. Simultaneamente sentia uma mistura de medo e excitação percorrer-lhe o corpo. Lembrou-se então que o seu professor lhe tinha dito que o Prometido lhe daria uma explicação sobre o Sura de José (um capítulo do Alcorão). Para seu grande espanto o Báb disse-lhe:
Agora é chegado o momento de revelar um comentário ao Sura de José". E pegando numa caneta e papel, começou a escrever e entoou as seguintes palavras: "Todo o louvor a Deus que, através do poder da Verdade, fez descer este Livro ao Seu servo, para que sirva como uma luz brilhante para toda a humanidade..." Mullá Husayn ficou siderado com as palavras que ouviu; começou a ter consciência do que se estava a passar. O Prometido estava diante de si, a escrever o que entoava com enorme rapidez.
Quando concluiu o comentário, passavam duas horas do pôr do sol; o Báb disse então ao seu convidado: "Esta noite, esta própria hora, serão celebradas nos dias vindouros como um dos maiores e mais significativos festivais. Agradece a Deus por te ter graciosamente ajudado a alcançar o desejo do teu coração, e por teres sorvido do vinho selecto da Sua palavra."
Durante toda a noite comeram, oraram, e o Báb foi revelando mais palavras sagradas. Passadas algumas horas ouviram ruído vindo do exterior; a cidade acordava ao som dos apelos vindos dos minaretes das mesquitas que chamavam às orações matinais. O Báb encontrara o Seu primeiro discípulo. Terminava ali o primeiro acto.
Nas semanas seguintes, outros discípulos viriam a reconhecer o Báb; esses primeiros encontros tiveram sempre uma certa carga mística. O último do primeiro conjunto de discípulos foi Quddus.
Nessa mesma noite em que o Báb revelou a Sua Missão, em Teerão, nascia 'Abdu'l-Bahá, o filho de Bahá'u'lláh.
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ALGUMAS NOTAS:
1 - O texto completo do comentário ao Sura de José revelado pelo Báb naquela noite encontra-se na Bahá'í Library Online neste link.
2 - O livro Dawn-Breakers(a narrativa de Nabil) relata a vida do Báb e dos Seus primeiros discípulos; está disponível na Bahá'í Library Online neste link.
3 - O livro The Bab, de Hasan Balyuzi é o meu relato preferido sobre a vida do Báb e os primeiros crentes (mas isto é uma opinião muito pessoal!).
sexta-feira, 21 de maio de 2004
Posts sobre o Islão
Excelentes, os posts do Guia dos Perplexos sobre o Islão! Recomendo vivamente a leitura dos posts Compreender o Islão - o Sufismo e Um conto de Rumi.
Parabéns José!
Desulpem a ignorância, mas alguem me pode sugerir um blog islâmico (em português) com coisas semelhantes?
Parabéns José!
Desulpem a ignorância, mas alguem me pode sugerir um blog islâmico (em português) com coisas semelhantes?
Pelé e Garrincha
O canal Arte brindou-nos esta semana com um documentário sobre Pelé e Garrincha. Estes foram duas "divindades" do futebol brasileiro nos anos 50 e 60; sempre que jogaram juntos na selecção, o Brasil nunca perdeu.
Pelé tinha gosto no golo; era a vedeta do Santos; tornou-se uma estrela socialmente bem aceite; Garrincha tinha gosto no drible; era o craque do Botafogo; a sua vida pessoal não se encaixava bem com o estrelato. Garrincha nunca tratou uma lesão no joelho e o álcool destruiu a sua vida. Pelé foi terminar a carreira nos Estados Unidos, já nos anos 70.
Tudo isto se passou num tempo em que o futebol parecia mais um jogo do que um negócio; os participantes pareciam mais atletas do que mercenários; tudo num tempo em que os brasileiros precisavam de sonhar com algo que os fizesse esquecer os seus problemas sociais e políticos.
Pelé tinha gosto no golo; era a vedeta do Santos; tornou-se uma estrela socialmente bem aceite; Garrincha tinha gosto no drible; era o craque do Botafogo; a sua vida pessoal não se encaixava bem com o estrelato. Garrincha nunca tratou uma lesão no joelho e o álcool destruiu a sua vida. Pelé foi terminar a carreira nos Estados Unidos, já nos anos 70.
Tudo isto se passou num tempo em que o futebol parecia mais um jogo do que um negócio; os participantes pareciam mais atletas do que mercenários; tudo num tempo em que os brasileiros precisavam de sonhar com algo que os fizesse esquecer os seus problemas sociais e políticos.
quinta-feira, 20 de maio de 2004
Peregrinação
Com o 13 de Maio surgiram uma série de posts a "levantar poeira" a propósito da peregrinação a Fátima; se alguns posts recordaram para o facto das aparições não serem matéria de fé para o catolicismo (i.e., não é necessário acreditar nas aparições para ser católico) outros fizeram comparações provocatórias e mesmo ofensivas comparando aquela peregrinação com fenómenos de massas como o futebol, a festa do Avante e até a visita que muitos comunistas faziam ao túmulo de Lenine em Moscovo.
Eu não acredito nas aparições de Fátima; mas respeito quem faz uma peregrinação. Nas peregrinações a Fátima, Kerbala ou ao Ganges, os peregrinos procuram alguma espécie de conforto espiritual da parte do Criador. Em todas essas peregrinações encontro aspectos que me parecem excessivos. Posso até criticar esses aspectos que considero excessivos; mas não sinto que tenha o direito de ofender ninguém. Isso seria excessivo da minha parte.
Tenho a minha fé e as minhas convicções; tenho a minhas perspectiva sobre o mundo e os meus interesses. Do alto da minha formação intelectual, daquilo que considero ser os meus valores espirituais, e a minha forma de viver a minha relação com o Criador, confesso que também poderia criticar os peregrinos de Fátima, de Kerbala ou do Ganges.
Cada um de nós terá a sua opinião sobre o que é, ou deve ser, uma peregrinação. Eu entendo-a como um acto profundamente pessoal; está longe de ser um evento social. Um momento para reflectir sobre a nossa relação com Deus.
No início dos anos noventa tive o privilégio de fazer a minha peregrinação. O destino foi a cidade de Haifa (e arredores); é nessa cidade, no norte de Israel, que repousam os restos mortas das figuras centrais da religião bahá’í.
Cheguei uns dias antes de se iniciar a peregrinação bahá'í; já que ia a Israel queria aproveitar para visitar outros locais: Jerusalém, Telavive, Nazaré, Belém e o Mar Morto. A excursão dedicada a Jerusalém durou um dia inteiro. Por entre magotes de excursionistas e peregrinos, passamos pelo Muro das Lamentações, pelo Santo Sepulcro e pela Esplanada das Mesquitas.
Troquei impressões com outros excursionistas como eu; há demasiada gente por ali, há comércio a mais por ali. Nessa ocasião conheci uma americana idosa – uma freira, a “sister Helen”- que quer saber coisas sobre a fé Bahá'í; na véspera tinha estado em Haifa e estava maravilhada. Almoçámos juntos; da janela do restaurante via-se a Cidade Velha; olhou para a multidão que apinhava nas ruas em redor dos lugares sagrados e confidenciou-me que a melhor hora para orar no Santo Sepulcro é às seis da manhã: não há confusão e o local está tranquilo. Concordo com ela.
E passaram-se quatro dias como turista em Israel, antes de iniciar a minha peregrinação. Apanhei uma camioneta para Haifa. Estranhamente, ao chegar aquela cidade deixei de ser turista e passei a ser peregrino. É como se tivesse deambulado nos dias anteriores, e subitamente tivesse um objectivo na minha viagem.
Junto-me a um pequeno grupo de peregrinos bahá’ís; somos pouco mais de 200 pessoas de diferentes países. A visita aos lugares sagrados dura 9 dias. Visitamos os túmulos, a prisão de ‘Akka, as diferentes residências onde Bahá'u'lláh e a Sua família foram vivendo. São-nos mostradas várias relíquias: roupas, canetas e objectos pessoais de Bahá'u'lláh.
Os espaços e os objectos levam muitos de nós a sentir que efectivamente Bahá'u'lláh viveu ali, esteve ali, teve alegrias e tristezas ali. Essa noção de proximidade com o lado humano do Profeta toca-nos profundamente. Para alguns a experiência é comovedora; para outros é extasiante. Cada um vive à sua maneira aquela experiência impar. A minha preocupação pessoal era conseguir um momento em que eu pudesse estar só no interior dos túmulos sagrados. Consegui isso por duas vezes. Foi indescritível!
Os nove dias da peregrinação passam a correr; fazer as malas, correr para o aeroporto e passadas umas horas estava de novo em Lisboa.
Foi assim uma peregrinação Bahá'í. Na minha fé, nas minhas convicções, na minha maneira de ver o mundo senti-me fortalecido espiritualmente, e cheio de uma alegria e energia estranhas.
E agora penso, de novo, nos outros peregrinos: de Fátima, de Kerbala ou do Ganges. Poderia eu criticar outros que fazem peregrinações a outros locais? Não teremos todos o mesmo objectivo ao fazer uma peregrinação? É fácil criticar as crenças dos outros quando são diferentes das nossas; mas será assim tão difícil aceitar que outras pessoas possam ter ideias diferentes das nossas?
Eu não acredito nas aparições de Fátima; mas respeito quem faz uma peregrinação. Nas peregrinações a Fátima, Kerbala ou ao Ganges, os peregrinos procuram alguma espécie de conforto espiritual da parte do Criador. Em todas essas peregrinações encontro aspectos que me parecem excessivos. Posso até criticar esses aspectos que considero excessivos; mas não sinto que tenha o direito de ofender ninguém. Isso seria excessivo da minha parte.
Tenho a minha fé e as minhas convicções; tenho a minhas perspectiva sobre o mundo e os meus interesses. Do alto da minha formação intelectual, daquilo que considero ser os meus valores espirituais, e a minha forma de viver a minha relação com o Criador, confesso que também poderia criticar os peregrinos de Fátima, de Kerbala ou do Ganges.
Cada um de nós terá a sua opinião sobre o que é, ou deve ser, uma peregrinação. Eu entendo-a como um acto profundamente pessoal; está longe de ser um evento social. Um momento para reflectir sobre a nossa relação com Deus.
Cheguei uns dias antes de se iniciar a peregrinação bahá'í; já que ia a Israel queria aproveitar para visitar outros locais: Jerusalém, Telavive, Nazaré, Belém e o Mar Morto. A excursão dedicada a Jerusalém durou um dia inteiro. Por entre magotes de excursionistas e peregrinos, passamos pelo Muro das Lamentações, pelo Santo Sepulcro e pela Esplanada das Mesquitas.
Troquei impressões com outros excursionistas como eu; há demasiada gente por ali, há comércio a mais por ali. Nessa ocasião conheci uma americana idosa – uma freira, a “sister Helen”- que quer saber coisas sobre a fé Bahá'í; na véspera tinha estado em Haifa e estava maravilhada. Almoçámos juntos; da janela do restaurante via-se a Cidade Velha; olhou para a multidão que apinhava nas ruas em redor dos lugares sagrados e confidenciou-me que a melhor hora para orar no Santo Sepulcro é às seis da manhã: não há confusão e o local está tranquilo. Concordo com ela.
E passaram-se quatro dias como turista em Israel, antes de iniciar a minha peregrinação. Apanhei uma camioneta para Haifa. Estranhamente, ao chegar aquela cidade deixei de ser turista e passei a ser peregrino. É como se tivesse deambulado nos dias anteriores, e subitamente tivesse um objectivo na minha viagem.
Junto-me a um pequeno grupo de peregrinos bahá’ís; somos pouco mais de 200 pessoas de diferentes países. A visita aos lugares sagrados dura 9 dias. Visitamos os túmulos, a prisão de ‘Akka, as diferentes residências onde Bahá'u'lláh e a Sua família foram vivendo. São-nos mostradas várias relíquias: roupas, canetas e objectos pessoais de Bahá'u'lláh.Os espaços e os objectos levam muitos de nós a sentir que efectivamente Bahá'u'lláh viveu ali, esteve ali, teve alegrias e tristezas ali. Essa noção de proximidade com o lado humano do Profeta toca-nos profundamente. Para alguns a experiência é comovedora; para outros é extasiante. Cada um vive à sua maneira aquela experiência impar. A minha preocupação pessoal era conseguir um momento em que eu pudesse estar só no interior dos túmulos sagrados. Consegui isso por duas vezes. Foi indescritível!
Os nove dias da peregrinação passam a correr; fazer as malas, correr para o aeroporto e passadas umas horas estava de novo em Lisboa.
Foi assim uma peregrinação Bahá'í. Na minha fé, nas minhas convicções, na minha maneira de ver o mundo senti-me fortalecido espiritualmente, e cheio de uma alegria e energia estranhas.
E agora penso, de novo, nos outros peregrinos: de Fátima, de Kerbala ou do Ganges. Poderia eu criticar outros que fazem peregrinações a outros locais? Não teremos todos o mesmo objectivo ao fazer uma peregrinação? É fácil criticar as crenças dos outros quando são diferentes das nossas; mas será assim tão difícil aceitar que outras pessoas possam ter ideias diferentes das nossas?
quarta-feira, 19 de maio de 2004
Civilização e Barbárie
Tentando responder ao Manuel
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Ao longo da história da humanidade sempre assistimos actos de tremenda crueldade. Foram cometidos por uma pessoa contra outra, por uma família contra outra, por um povo contra outro, uma classe social contra outra, um grupo étnico contra outro.
Por vezes esses actos foram cometidos dentro de uma ordem legal existente (os judeus na Alemanha nazi) ou de uma mentalidade de uma certa época (os guaranis no Brasil colonial), ou emergiram como fruto de preconceitos sociais, políticos e raciais não necessariamente enquadrados num quadro legal.
Mas apesar de tudo isto, eu acredito que a humanidade evoluiu.
A evolução ao nível de valores permite que hoje existam cada vez mais a pessoas a revoltar-se contra a barbárie, a dizer basta, a gritar que não podemos continuar a viver assim. Existem organizações que apoiam as vitimas; existem organismos internacionais que impedem que outros massacres se repitam. Por vezes surpreendemo-nos quando o coro dos nossos protestos surte algum efeito (o caso de Timor). Noutras épocas isso não acontecia; ou não havia notícias, ou a barbárie era moralmente aceitável.
No caso concretos destes abusos nas prisões iraquianas, não podemos deixar que os responsáveis fiquem impunes (esperemos que os media - e os blogs! - façam o seu papel e exerçam a sua pressão). No tipo de sociedades ocidentais em que vivemos, parece-me que são maiores as possibilidades dos culpados virem a ser encontrados do que seriam em regimes ditatoriais.
Mas mais grave que a barbárie das prisões iraquianas são outras barbáries que vão por esse mundo fora e merecem menos atenção mediática; se os povos da Libéria, do Sudão, da Colômbia ou da Birmânia se fizessem ouvir... Para azar deles, aos olhos dos governos e dos media ocidentais as imagens das prisões iraquianas têm mais valor do que os seus tremendos calvários. Já aqui me lamentei várias vezes sobre estes casos menos visíveis.
Lembro-me de ter visto uma reportagem sobre uma menina na Serra Leoa a quem os "rebeldes" cortaram os dedos das mãos. Após um curativo feitos pelos médicos, perguntou-lhe com a maior inocência: "Os meus dedos voltam a crescer?" Esta menina não era suspeita de qualquer crime.
Hoje a situação na Serra Leoa tende a normalizar-se, apesar de avanços e recuos (ver aqui). Não é isto um sinal que a Comunidade Internacional evoluiu?
Muito provavelmente estas situações e estes crimes bárbaros voltarão a acontecer; talvez venhamos a ter conhecimento delas, ou não. Mas sinto que colectivamente temos de continuar a evoluir para que a probabilidade de acontecerem seja cada vez menor; temos de continuar a evoluir para acudir a muitos outros que sofrem este e outro tipo de atropelos aos seus direitos humanos. E acredito que podemos evoluir.
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Ao longo da história da humanidade sempre assistimos actos de tremenda crueldade. Foram cometidos por uma pessoa contra outra, por uma família contra outra, por um povo contra outro, uma classe social contra outra, um grupo étnico contra outro.
Por vezes esses actos foram cometidos dentro de uma ordem legal existente (os judeus na Alemanha nazi) ou de uma mentalidade de uma certa época (os guaranis no Brasil colonial), ou emergiram como fruto de preconceitos sociais, políticos e raciais não necessariamente enquadrados num quadro legal.
Mas apesar de tudo isto, eu acredito que a humanidade evoluiu.
A evolução ao nível de valores permite que hoje existam cada vez mais a pessoas a revoltar-se contra a barbárie, a dizer basta, a gritar que não podemos continuar a viver assim. Existem organizações que apoiam as vitimas; existem organismos internacionais que impedem que outros massacres se repitam. Por vezes surpreendemo-nos quando o coro dos nossos protestos surte algum efeito (o caso de Timor). Noutras épocas isso não acontecia; ou não havia notícias, ou a barbárie era moralmente aceitável.
No caso concretos destes abusos nas prisões iraquianas, não podemos deixar que os responsáveis fiquem impunes (esperemos que os media - e os blogs! - façam o seu papel e exerçam a sua pressão). No tipo de sociedades ocidentais em que vivemos, parece-me que são maiores as possibilidades dos culpados virem a ser encontrados do que seriam em regimes ditatoriais.
Lembro-me de ter visto uma reportagem sobre uma menina na Serra Leoa a quem os "rebeldes" cortaram os dedos das mãos. Após um curativo feitos pelos médicos, perguntou-lhe com a maior inocência: "Os meus dedos voltam a crescer?" Esta menina não era suspeita de qualquer crime.
Muito provavelmente estas situações e estes crimes bárbaros voltarão a acontecer; talvez venhamos a ter conhecimento delas, ou não. Mas sinto que colectivamente temos de continuar a evoluir para que a probabilidade de acontecerem seja cada vez menor; temos de continuar a evoluir para acudir a muitos outros que sofrem este e outro tipo de atropelos aos seus direitos humanos. E acredito que podemos evoluir.
terça-feira, 18 de maio de 2004
Professores
Tenho recordações das minhas professoras da primária; lembro-me dos nomes delas, da fisionomia e de alguns episódios que se passaram na escola. Já aconteceu encontrar-me por acaso com uma e tê-la reconhecido. Dos professores que tive no secundário e na universidade apenas recordo os melhores e os que eram mesmo maus. Dos medianos e dos medíocres não me lembro nem sequer do nome.
Ser professor não é fácil, e não é qualquer um que consegue sê-lo. Eu próprio já dei aulas na faculdade e sei como é complicado explicar um determinado tema, de diferentes maneiras, até que tenhamos a percepção que todos compreenderam o assunto em causa.
Por vezes até é necessário saber ler nas expressões dos alunos se estão a acompanhar o nosso raciocínio ou não. Mas nem todos se preocupam com isso.
A vida para os professores não está fácil. O maior problema que enfrentam deve ser a redução da população escolar; a principal consequência deste facto é a redução da possibilidade de emprego. Quando fiz o ciclo preparatório, a minha escola tinha 44 turmas de 32 alunos; hoje tem 14 turmas de 20 a 22 alunos. É óbvio que não são necessários tantos professores.
Creio que todos nós teremos histórias sobre bons e maus professores.
Tive um professor de Português no 11º ano de quem guardo excelentes recordações. Éramos uma turma da área tecnológica (consequentemente, pouco vocacionada para as letras!) Mas aquele homem conseguia cativar a nossa atenção, fazer-nos apreciar certos autores, levar-nos a entender certos aspectos da nossa língua. Na altura, fiquei a gostar de Eça e Fernando Pessoa; coisa pouco comum entre a rapaziada das áreas tecnológicas...
Como este devo ter tido mais uma meia dúzia de excelentes professores enquanto fui estudante. Eram homens e mulheres, a quem eu, na minha qualidade de aluno, reconheço o mais elevado nível de excelência profissional. Todos eles tinham uma interessante combinação de qualidade profissionais e qualidades pessoais. Todos eles sabiam como cativar a nossa atenção, despertar em nós o interesse pela matéria, criar em nós um gosto pelos assuntos que tratávamos nas aulas.
Num momento, em que tanto se critica a todos os agentes do sistema de ensino, era importante que os professores de excelência fossem apontados como exemplo para todos os outros. Afinal, são eles que verdadeiramente dignificam a carreira e a posição de um professor na nossa sociedade.
Ser professor não é fácil, e não é qualquer um que consegue sê-lo. Eu próprio já dei aulas na faculdade e sei como é complicado explicar um determinado tema, de diferentes maneiras, até que tenhamos a percepção que todos compreenderam o assunto em causa.
Por vezes até é necessário saber ler nas expressões dos alunos se estão a acompanhar o nosso raciocínio ou não. Mas nem todos se preocupam com isso.
A vida para os professores não está fácil. O maior problema que enfrentam deve ser a redução da população escolar; a principal consequência deste facto é a redução da possibilidade de emprego. Quando fiz o ciclo preparatório, a minha escola tinha 44 turmas de 32 alunos; hoje tem 14 turmas de 20 a 22 alunos. É óbvio que não são necessários tantos professores.
Creio que todos nós teremos histórias sobre bons e maus professores.
Tive um professor de Português no 11º ano de quem guardo excelentes recordações. Éramos uma turma da área tecnológica (consequentemente, pouco vocacionada para as letras!) Mas aquele homem conseguia cativar a nossa atenção, fazer-nos apreciar certos autores, levar-nos a entender certos aspectos da nossa língua. Na altura, fiquei a gostar de Eça e Fernando Pessoa; coisa pouco comum entre a rapaziada das áreas tecnológicas...
Como este devo ter tido mais uma meia dúzia de excelentes professores enquanto fui estudante. Eram homens e mulheres, a quem eu, na minha qualidade de aluno, reconheço o mais elevado nível de excelência profissional. Todos eles tinham uma interessante combinação de qualidade profissionais e qualidades pessoais. Todos eles sabiam como cativar a nossa atenção, despertar em nós o interesse pela matéria, criar em nós um gosto pelos assuntos que tratávamos nas aulas.
Num momento, em que tanto se critica a todos os agentes do sistema de ensino, era importante que os professores de excelência fossem apontados como exemplo para todos os outros. Afinal, são eles que verdadeiramente dignificam a carreira e a posição de um professor na nossa sociedade.
segunda-feira, 17 de maio de 2004
Comunidade de Ideias
Cada autor na blogosfera é essencialmente um conjunto de ideias. Expomos ideias em posts; trocamos ideias nos comentários dos posts uns dos outros. Entre linhas e parágrafos percebemos alguns traços de personalidade do autor. Mas não conhecemos a pessoa.
Esta situação, lembra-me um história que li algures sobre S. Tomás. Ele é referido como um dos maiores santos e sábios da Cristandade. São muitas as pessoas que estudam os seus textos; são vários os pensadores e filósofos cristãos que foram influenciados por ele. Ainda hoje as suas ideias conseguem ser motivo de debate e mesmo polémica entre teólogos e filósofos.
S. Tomás era monge e vivia num mosteiro. Era gordo e os seus maneirismos valeram-lhe a alcunha de "boi Tomás" (nada simpáticos, aqueles monges!). Um dia houve um monge que passou perto dele, apontou para o céu e disse-lhe: "Olha, irmão Tomás, uma vaca a voar!" S. Tomás olhou para o céu. Os monges que assistiram a isto desataram a rir. S. Tomás disse-lhes então: "Prefiro acreditar que uma vaca pode voar, do que um monge pode mentir".
Tal como estas características pessoais de S. Tomás não transparecem nos seus escritos (pelo menos, nos poucos que eu conheço), também a maioria das nossas características pessoais não transparecem nos nossos posts.
De alguma forma creio que, se algum dia conhecer pessoalmente autores de outros blogs, deixaremos de ser uma comunidade de ideias e seremos uma comunidade de pessoas. Com tudo o que isso tem de agradável e de desagradável.
Esta situação, lembra-me um história que li algures sobre S. Tomás. Ele é referido como um dos maiores santos e sábios da Cristandade. São muitas as pessoas que estudam os seus textos; são vários os pensadores e filósofos cristãos que foram influenciados por ele. Ainda hoje as suas ideias conseguem ser motivo de debate e mesmo polémica entre teólogos e filósofos.
S. Tomás era monge e vivia num mosteiro. Era gordo e os seus maneirismos valeram-lhe a alcunha de "boi Tomás" (nada simpáticos, aqueles monges!). Um dia houve um monge que passou perto dele, apontou para o céu e disse-lhe: "Olha, irmão Tomás, uma vaca a voar!" S. Tomás olhou para o céu. Os monges que assistiram a isto desataram a rir. S. Tomás disse-lhes então: "Prefiro acreditar que uma vaca pode voar, do que um monge pode mentir".
Tal como estas características pessoais de S. Tomás não transparecem nos seus escritos (pelo menos, nos poucos que eu conheço), também a maioria das nossas características pessoais não transparecem nos nossos posts.
De alguma forma creio que, se algum dia conhecer pessoalmente autores de outros blogs, deixaremos de ser uma comunidade de ideias e seremos uma comunidade de pessoas. Com tudo o que isso tem de agradável e de desagradável.
domingo, 16 de maio de 2004
sexta-feira, 14 de maio de 2004
Porquê a Católica?
O Tiago Mendes perguntou aqui, num comentário, porque é que eu a dado momento decidi inscrever-me na Católica, em Ciências Religiosas. Aqui vai a resposta.
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Mesmo antes de me tornar bahá’í percebi que o facto da fé bahá’í ter nascido num meio islâmico, a torna facilmente identificável com alguns aspectos do Islão (um pouco à semelhança do que acontece entre Cristianismo e Judaísmo); em alguns dos livros sagrados bahá’ís, por exemplo, encontramos mais referências ao Alcorão do que à Bíblia.
À medida que ia estudando as escrituras bahá’ís comecei a conseguir distinguir aquilo que é fruto de um enquadramento cultural e teológico do meio em que esta religião nasceu, e aquilo que é a essência dos ensinamentos.
Por exemplo, numa epístola, Bahá'u'lláh refere-se ao facto de Jesus depois de ter morrido, ter "ascendido ao quarto céu". Isto é uma referência a uma tradição xiita; o destinatário da epístola era de origem xiita. Admito que se o destinatário da epístola fosse católico, Bahá'u'lláh poderia ter escrito que Jesus hoje "está sentado à direita do Pai" (se bem seja um pouco absurdo especular sobre o que poderia um Profeta fazer num situação hipotética).
Depois de entender estes pequenos aspectos, comecei a apreciar a hermenêutica bahá’í (a forma de interpretar as escrituras, a que também se pode chamar midrash), a história dos primeiros crentes, e o contexto em que cada livro e epístola foi revelado.
A dado momento, senti que sabia demais sobre a religião bahá’í e de menos sobre a religião dos meus pais e da minha família. Tinha cá uma suspeita que havia imensos pontos de contacto entre as religiões bahá'í e cristã; tinha de descobri-las. Como na altura estava num momento de estagnação profissional, resolvi aproveitar o meu tempo livre inscrevendo-me numas cadeiras do curso de Ciências Religiosas da Universidade Católica.
Como nos disseram numa das aulas, ali ensinava-se "aquilo que não se pode ensinar na missa": como se formou o Antigo Testamento; como se elaboraram os Evangelhos; como se constituiu o povo hebreu; cristologia e vários modelos cristológicos; o tema da ressurreição...
Um dos primeiros conceitos que nos davam era sobre a necessidade sermos racionais ao olhar para as escrituras: diz-se que Abraão teria nascido perto da cidade de Ur; no entanto, as escavações arqueológicas indicam que a cidade de Ur não existia no tempo de Abraão; podíamos então concluir que o mais provável era que a cidade existisse no tempo do cronista autor da escritura. Ainda houve um aluno que ficou chocado com isto; "Se está escrito que ele nasceu em Ur, então temos de acreditar nisso!" protestava ele.
Entre as coisas que aprendi é que o tipo de interpretações que S. Paulo faz das escrituras é muito semelhante ao tipo de interpretações que se fazem nas escrituras Bahá'u'lláh. S. Paulo consegue identificar significados simbólicos em textos onde parece não haver nada de simbólico (veja-se a história das mulheres de Abraão, por exemplo).
Outra coisa que percebi é que há diferenças claras em algumas das nossas convicções: a consubstancialidade trinitária e a ressurreição (apesar de alguns professores gostarem do significado simbólico da ressurreição que eu lhes apresentava).
O ambiente também era especial: a maioria dos alunos da Católica encaixa naquele estereotipo do "betinho". É rapaziada de fato e gravata que estudam direito ou gestão e anseiam por trabalhar num bom escritório de advogados ou num grande consultora. Os alunos de Ciências Religiosas e Teologia não encaixavam em estereótipos. Eram descontraídos e brincalhões. Metade dos alunos pretendiam ser professores de moral e religião; depois havia freiras, diáconos e alguns "para-quedistas" como eu.
Foi assim que descobri o catolicismo para além da imagem que os padres transmitiam na missa ou os folhetos distribuídos nestas; consegui identificar muitos pontos de contacto entre a fé bahá’í e a fé católica; e desapareceram-se os preconceitos que tinha contra o catolicismo.
Entretanto a minha situação profissional mudou e tive de abandonar as aulas. Só tive tempo para fazer algumas cadeiras. Ficou a recordação de uns bons momentos de convívio e aprendizagem. Talvez um dia volte a ter tempo disponível e possa voltar; então, farei a licenciatura em teologia.
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Mesmo antes de me tornar bahá’í percebi que o facto da fé bahá’í ter nascido num meio islâmico, a torna facilmente identificável com alguns aspectos do Islão (um pouco à semelhança do que acontece entre Cristianismo e Judaísmo); em alguns dos livros sagrados bahá’ís, por exemplo, encontramos mais referências ao Alcorão do que à Bíblia.
À medida que ia estudando as escrituras bahá’ís comecei a conseguir distinguir aquilo que é fruto de um enquadramento cultural e teológico do meio em que esta religião nasceu, e aquilo que é a essência dos ensinamentos.
Por exemplo, numa epístola, Bahá'u'lláh refere-se ao facto de Jesus depois de ter morrido, ter "ascendido ao quarto céu". Isto é uma referência a uma tradição xiita; o destinatário da epístola era de origem xiita. Admito que se o destinatário da epístola fosse católico, Bahá'u'lláh poderia ter escrito que Jesus hoje "está sentado à direita do Pai" (se bem seja um pouco absurdo especular sobre o que poderia um Profeta fazer num situação hipotética).
Depois de entender estes pequenos aspectos, comecei a apreciar a hermenêutica bahá’í (a forma de interpretar as escrituras, a que também se pode chamar midrash), a história dos primeiros crentes, e o contexto em que cada livro e epístola foi revelado.
Como nos disseram numa das aulas, ali ensinava-se "aquilo que não se pode ensinar na missa": como se formou o Antigo Testamento; como se elaboraram os Evangelhos; como se constituiu o povo hebreu; cristologia e vários modelos cristológicos; o tema da ressurreição...
Um dos primeiros conceitos que nos davam era sobre a necessidade sermos racionais ao olhar para as escrituras: diz-se que Abraão teria nascido perto da cidade de Ur; no entanto, as escavações arqueológicas indicam que a cidade de Ur não existia no tempo de Abraão; podíamos então concluir que o mais provável era que a cidade existisse no tempo do cronista autor da escritura. Ainda houve um aluno que ficou chocado com isto; "Se está escrito que ele nasceu em Ur, então temos de acreditar nisso!" protestava ele.
Entre as coisas que aprendi é que o tipo de interpretações que S. Paulo faz das escrituras é muito semelhante ao tipo de interpretações que se fazem nas escrituras Bahá'u'lláh. S. Paulo consegue identificar significados simbólicos em textos onde parece não haver nada de simbólico (veja-se a história das mulheres de Abraão, por exemplo).
Outra coisa que percebi é que há diferenças claras em algumas das nossas convicções: a consubstancialidade trinitária e a ressurreição (apesar de alguns professores gostarem do significado simbólico da ressurreição que eu lhes apresentava).
O ambiente também era especial: a maioria dos alunos da Católica encaixa naquele estereotipo do "betinho". É rapaziada de fato e gravata que estudam direito ou gestão e anseiam por trabalhar num bom escritório de advogados ou num grande consultora. Os alunos de Ciências Religiosas e Teologia não encaixavam em estereótipos. Eram descontraídos e brincalhões. Metade dos alunos pretendiam ser professores de moral e religião; depois havia freiras, diáconos e alguns "para-quedistas" como eu.
Foi assim que descobri o catolicismo para além da imagem que os padres transmitiam na missa ou os folhetos distribuídos nestas; consegui identificar muitos pontos de contacto entre a fé bahá’í e a fé católica; e desapareceram-se os preconceitos que tinha contra o catolicismo.
Entretanto a minha situação profissional mudou e tive de abandonar as aulas. Só tive tempo para fazer algumas cadeiras. Ficou a recordação de uns bons momentos de convívio e aprendizagem. Talvez um dia volte a ter tempo disponível e possa voltar; então, farei a licenciatura em teologia.
quinta-feira, 13 de maio de 2004
Arab News
Costumo acompanhar com alguma regularidade os artigos que saem no Arab News. Trata-se de um site noticioso saudita; ali pode-se perceber uma perspectiva de uma sociedade diferente, uma maneira de encarar o mundo e a vida que é naturalmente diferente do que estamos habituados.
Além das notícias, têm vindo a aparecer um conjunto de artigos de opinião que me deixam surpreendido, quer pela força com que se lançam contra o tradicionalismo, quer pela descrição do tipo de problemas que as pessoas naquele país ainda enfrentam, quer pelas questões que são colocadas.
Num artigo recente, intitulado Rules of Engagement, o autor criticava a forma como se processam os casamentos na maioria das famílias; geralmente, são as mães que procuram noivas(os) para os filhos(as); os rapazes ambicionam uma noiva com olhos verdes de gazela e cabelo negro comprido; as raparigas desejam um jovem médico com bom aspecto. A este tipo de comportamentos, o autor do texto contrapõe os casamentos pela internet, onde os parceiros têm possibilidade de conhecerem um pouco do caracter um do outro, antes de se casarem. E quanto à tradição de serem as famílias a arranjar os casamentos, é recordado que a primeira esposa do profeta Maomé escolheu-O a Ele e foi ela a tomar a iniciativa de fazer a proposta de casamento.
Um outro texto Tradition Vs. Religion refere a forma como as mulheres não eram marginalizadas no tempo de Maomé. Podiam assistir aos sermões nas mesquitas, ser conselheiras de governantes, trabalhar na assistência aos doentes e necessitados; nada disto acontece hoje na Arábia Saudita. O autor do texto questiona mesmo a imposição da utilização do véu; refere como isso tem sido utilizado para fins criminosos (nomeadamente, por terroristas). Relata ainda um caso de uma muçulmana americana que visitou pela primeira vez a Grande Mesquita em Meca; quando estava em frente da Kaaba sentiu um êxtase espiritual difícil de descrever. Um velho barbudo aproximou-se dela aos gritos, "Tape o rosto!" e bateu-lhe com um pau. Um verdadeiro ignorante da verdade e tolerância do islão, conclui o autor.
Se os factos que estes artigos descrevem podem ser chocantes e mesmo absurdos para nós, parece-me que pelo facto de serem publicados já é um passo em frente. Mas mudar mentalidades é algo que pode levar uma ou mais gerações.
Além das notícias, têm vindo a aparecer um conjunto de artigos de opinião que me deixam surpreendido, quer pela força com que se lançam contra o tradicionalismo, quer pela descrição do tipo de problemas que as pessoas naquele país ainda enfrentam, quer pelas questões que são colocadas.
Um outro texto Tradition Vs. Religion refere a forma como as mulheres não eram marginalizadas no tempo de Maomé. Podiam assistir aos sermões nas mesquitas, ser conselheiras de governantes, trabalhar na assistência aos doentes e necessitados; nada disto acontece hoje na Arábia Saudita. O autor do texto questiona mesmo a imposição da utilização do véu; refere como isso tem sido utilizado para fins criminosos (nomeadamente, por terroristas). Relata ainda um caso de uma muçulmana americana que visitou pela primeira vez a Grande Mesquita em Meca; quando estava em frente da Kaaba sentiu um êxtase espiritual difícil de descrever. Um velho barbudo aproximou-se dela aos gritos, "Tape o rosto!" e bateu-lhe com um pau. Um verdadeiro ignorante da verdade e tolerância do islão, conclui o autor.
Se os factos que estes artigos descrevem podem ser chocantes e mesmo absurdos para nós, parece-me que pelo facto de serem publicados já é um passo em frente. Mas mudar mentalidades é algo que pode levar uma ou mais gerações.
quarta-feira, 12 de maio de 2004
Cangaceiros
Acabei de ler "Cangaceiros" de José Lins do Rego. Cangaço é o nome dado ao banditismo que alastrava no nordeste do Brasil entre nos finais do séc. XIX e início do séc. XX. Os cangaceiros matavam, roubavam e destruíam as fazendas que iam encontrando no seu caminho. Alguns fazendeiros davam-lhe abrigo e protecção (eram os chamados "coiteiros"); alguns desses coiteiros tentavam mesmo usá-los na defesa dos seus interesses políticos.
Ao terror lançado pelos cangaceiros, respondia as forças policiais com igual violência; qualquer suspeito de ligação ao cangaço (fosse coiteiro, familiar ou apenas testemunha) era vítima da brutalidade policial. A população rural vivia encurralada entre o terror do cangaço e o terror da polícia.
Num cenário de decadência de uma sociedade patriarcal nordestina o livro mostra-nos vocábulos regionais, misticismos, mulheres violadas, tiroteios, um menino que vive triste, em função das notícias que lhe chegam do seu irmão, o mais terrível chefe cangaceiro do Nordeste. Demasiada violência e angústia naquele sertão imenso.
O autor nasceu em 1901 na Paraíba e conviveu com os problemas da época naquela região do Brasil. O cangaço tem duas personagens reais que ficaram muito conhecidas: Lampião e Maria Bonita. Impelido pelo despotismo de homens poderosos e sede de vingança pessoal, Lampião, cometeu o seu primeiro assassinato para vingar a morte do pai, vitima de um crime político. Durante alguns vários anos ele o seu bando aterrorizaram o nordeste. Quando a polícia os apanhou, decapitou-os e colocou as cabeças em exposição (ver foto aqui). A cena foi fotografada e provocou polémica no Brasil da época. Um suplemento especial sobre Lampião encontra-se no Estadão on-line.
Ao terror lançado pelos cangaceiros, respondia as forças policiais com igual violência; qualquer suspeito de ligação ao cangaço (fosse coiteiro, familiar ou apenas testemunha) era vítima da brutalidade policial. A população rural vivia encurralada entre o terror do cangaço e o terror da polícia.
O autor nasceu em 1901 na Paraíba e conviveu com os problemas da época naquela região do Brasil. O cangaço tem duas personagens reais que ficaram muito conhecidas: Lampião e Maria Bonita. Impelido pelo despotismo de homens poderosos e sede de vingança pessoal, Lampião, cometeu o seu primeiro assassinato para vingar a morte do pai, vitima de um crime político. Durante alguns vários anos ele o seu bando aterrorizaram o nordeste. Quando a polícia os apanhou, decapitou-os e colocou as cabeças em exposição (ver foto aqui). A cena foi fotografada e provocou polémica no Brasil da época. Um suplemento especial sobre Lampião encontra-se no Estadão on-line.
terça-feira, 11 de maio de 2004
Costa do Marfim
Uma reportagem da BBC tenta descrever o que é a vida numa cidade-fortaleza controlada pelos rebeldes. Há alguma tranquilidade nas ruas; os comerciantes desesperam com os bancos que continuam encerrados; os funcionários públicos fugiram para Abidjan em Setembro de 2002; o sistema de ensino está praticamente paralisado.
Uns falam da secessão do norte; outros dizem que querem toda a Costa do Marfim. O cidadão comum só quer a paz e a possibilidade de educar os seus filhos.
É uma guerra de importância menor para os media e governos ocidentais. Pobres marfinenses...
segunda-feira, 10 de maio de 2004
O Rosto dos Mártires
Quando frequentei algumas cadeiras do curso de Ciências Religiosas da Universidade Católica em Lisboa, conheci uma série de professores interessantes. Numa aula, um desses professores, chamou a nossa atenção para as imagens de Cristo que é frequente encontrarmos: o cabelo bem penteado, a barba arranjada, os olhos claros, um olhar angélico. Teria o Jesus da história essa face e uma expressão assim tão perfeitas?
Na verdade, na nossa tentativa de divinizar santos e heróis, temos tendência a representá-los de acordo com certos estereótipos: os santos com um olhar angélico (de preferência a olhar para cima) e as mãos unidas em oração, e os heróis com um olhar duro e de queixo levantado (com uma mão na espada ou apontando para algum lado de forma determinada). Este tipo de representações tem alimentado o nosso imaginário e está por certo longe da realidade.
A comunidade bahá’í também tem os seus "heróis"; são na sua grande maioria, crentes que preferiram o martírio a negar a sua fé. O facto dos martírios mais conhecidos terem ocorrido no final do Século XIX e no início do século XX permite que existam algumas fotos desses mártires.
Há dias, quando procurava uma referência num livro Bahá'í, passei mais uma vez pela foto de Varqá e seu filho Ruhu’lláh. Esta foto foi tirada em 1896, pouco antes de pai e filho serem executados; o seu único crime foi não negarem a sua fé. Desta vez demorei-me um pouco mais a olhar para a foto.
As expressões destes dois crentes, num momento em que já sabiam o destino que os aguardava, está longe dos nossos estereótipos de santos e heróis. Demorei-me a olhar a foto e senti que é difícil perceber o que lhes ia na alma naquele instante. Particularmente impressionante é a expressão do filho Ruhu’lláh (tinha 12 anos).

Quem foi Varqá?
Varqá nasceu em Yazd e era filho de um bahá'í que já tinha estado na presença de Bahá'u'lláh. É recordado como um poeta de prestígio; tinha conhecimentos de medicina e era versado em assuntos religiosos. Foi um dos mais eloquentes divulgadores da causa Bahá'í na Pérsia. Ao longo da sua vida, recebeu várias epístolas de Bahá'u'lláh.
Em 1878, fez a sua primeira peregrinação a 'Akká. Ficou profundamente impressionado com Bahá'u'lláh. Em muitas ocasiões Bahá'u'lláh parecia ler-lhe os pensamentos; noutras recordava-se de sonhos em que se lembrava de ter visto Bahá'u'lláh. De regresso à Pérsia, decide ir viver para a cidade de Tabriz; dedica-se de corpo e alma à divulgação da nova religião. Essas actividades custaram-lhe vários problemas com familiares que não acreditavam na nova revelação, e alguns anos na prisão.
Em 1891 recebeu permissão para se deslocar novamente em peregrinação à Terra Santa; desta vez levou dois filhos e o sogro. Bahá'u'lláh recebeu-os de forma particularmente acolhedora; elogiou-o bastante e atendendo aos seus conhecimentos de medicina pediu-lhe alguns conselhos sobre a Sua saúde. Um dos filhos, Ruhu'lláh (em português "Espírito de Deus"), esteve várias vezes na presença de Bahá'u'lláh; o jovem deixava particularmente impressionados os membros da família de Bahá'u'lláh. As suas conversas revelavam muita maturidade e um conhecimento invulgar sobre a Causa.
A terceira e última peregrinação realizou-se após o falecimento de Bahá'u'lláh; nessa ocasião foram recebidos por 'Abdu'l-Bahá. De regresso à Pérsia, avolumam-se os problemas; as suas actividades são cada vez mais acompanhadas por opositores da Causa. As detenções e os espancamentos sucedem-se; Varqá e o filho Ruhu'lláh são transferidos sucessivamente de prisão em prisão, até serem levados para Teerão. Pai e filho recusam-se sempre a negar a sua fé; Varqá foi esfaqueado pelo chefe da prisão; Ruhu’lláh, depois de assistir à morte do pai, foi estrangulado. Estávamos em Maio de 1896.
_______________________________
Mais informações sobre Varqá em The Revelation of Bahá'u'lláh, vol. 4, cap. 4; Eminent Bahá’ís in the time of Bahá'u'lláh, cap. 7.
Na verdade, na nossa tentativa de divinizar santos e heróis, temos tendência a representá-los de acordo com certos estereótipos: os santos com um olhar angélico (de preferência a olhar para cima) e as mãos unidas em oração, e os heróis com um olhar duro e de queixo levantado (com uma mão na espada ou apontando para algum lado de forma determinada). Este tipo de representações tem alimentado o nosso imaginário e está por certo longe da realidade.
A comunidade bahá’í também tem os seus "heróis"; são na sua grande maioria, crentes que preferiram o martírio a negar a sua fé. O facto dos martírios mais conhecidos terem ocorrido no final do Século XIX e no início do século XX permite que existam algumas fotos desses mártires.
Há dias, quando procurava uma referência num livro Bahá'í, passei mais uma vez pela foto de Varqá e seu filho Ruhu’lláh. Esta foto foi tirada em 1896, pouco antes de pai e filho serem executados; o seu único crime foi não negarem a sua fé. Desta vez demorei-me um pouco mais a olhar para a foto.
As expressões destes dois crentes, num momento em que já sabiam o destino que os aguardava, está longe dos nossos estereótipos de santos e heróis. Demorei-me a olhar a foto e senti que é difícil perceber o que lhes ia na alma naquele instante. Particularmente impressionante é a expressão do filho Ruhu’lláh (tinha 12 anos).

Varqá e o filho Ruhu'lláh, na prisão em Teerão, pouco antes de serem martirizados
Quem foi Varqá?
Varqá nasceu em Yazd e era filho de um bahá'í que já tinha estado na presença de Bahá'u'lláh. É recordado como um poeta de prestígio; tinha conhecimentos de medicina e era versado em assuntos religiosos. Foi um dos mais eloquentes divulgadores da causa Bahá'í na Pérsia. Ao longo da sua vida, recebeu várias epístolas de Bahá'u'lláh.
Em 1878, fez a sua primeira peregrinação a 'Akká. Ficou profundamente impressionado com Bahá'u'lláh. Em muitas ocasiões Bahá'u'lláh parecia ler-lhe os pensamentos; noutras recordava-se de sonhos em que se lembrava de ter visto Bahá'u'lláh. De regresso à Pérsia, decide ir viver para a cidade de Tabriz; dedica-se de corpo e alma à divulgação da nova religião. Essas actividades custaram-lhe vários problemas com familiares que não acreditavam na nova revelação, e alguns anos na prisão.
Em 1891 recebeu permissão para se deslocar novamente em peregrinação à Terra Santa; desta vez levou dois filhos e o sogro. Bahá'u'lláh recebeu-os de forma particularmente acolhedora; elogiou-o bastante e atendendo aos seus conhecimentos de medicina pediu-lhe alguns conselhos sobre a Sua saúde. Um dos filhos, Ruhu'lláh (em português "Espírito de Deus"), esteve várias vezes na presença de Bahá'u'lláh; o jovem deixava particularmente impressionados os membros da família de Bahá'u'lláh. As suas conversas revelavam muita maturidade e um conhecimento invulgar sobre a Causa.
A terceira e última peregrinação realizou-se após o falecimento de Bahá'u'lláh; nessa ocasião foram recebidos por 'Abdu'l-Bahá. De regresso à Pérsia, avolumam-se os problemas; as suas actividades são cada vez mais acompanhadas por opositores da Causa. As detenções e os espancamentos sucedem-se; Varqá e o filho Ruhu'lláh são transferidos sucessivamente de prisão em prisão, até serem levados para Teerão. Pai e filho recusam-se sempre a negar a sua fé; Varqá foi esfaqueado pelo chefe da prisão; Ruhu’lláh, depois de assistir à morte do pai, foi estrangulado. Estávamos em Maio de 1896.
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Mais informações sobre Varqá em The Revelation of Bahá'u'lláh, vol. 4, cap. 4; Eminent Bahá’ís in the time of Bahá'u'lláh, cap. 7.
sábado, 8 de maio de 2004
Haifa, no início do Sec. XX
Haifa é hoje local de peregrinação para os Bahá'ís. Encontrei esta foto na Biblioteca da Universidade Americana de Beirute:
sexta-feira, 7 de maio de 2004
Onde está o "novo mundo" prometido por essas ideologias?
A propósito do aniversário do nascimento de Karl Marx, referido no BDE e no Bota-Acima, recordei-me imediatamente de uma mensagem de 1985, da Casa Universal de Justiça (o órgão dirigente da Comunidade Internacional Bahá’í). Esta mensagem é ainda muito actual. Uma tradução (em português do Brasil) completa desta mensagem encontra-se aqui.
Como já escrevi anteriormente, nunca li nada de Karl Marx (prometo que um dia o farei!); apenas conheço o resultado da aplicação das suas teorias. O Marxismo foi-nos pregado como um "substituto de religião". O resultado ficou bem patente aos olhos do mundo. O que se escreve nesta carta aplica-se a todas as teorias políticas que nos foram apresentadas como derradeiras panaceias para os males da humanidade. Coloquei a bold as frases que considero mais relevantes.
Por mais vital que tenha sido a sua força ao longo da história da humanidade, e por mais dramático que seja o actual ressurgimento do fanatismo religioso militante, a religião e as instituições religiosas, no decorrer das últimas décadas, estão ser consideradas por um número crescente de pessoas como irrelevantes em relação às principais preocupações do mundo moderno. Em seu lugar, as pessoas voltaram-se ou para a procura hedonista da satisfação material, ou para a devoção a ideologias fabricadas pelos homens com o objectivo de salvar a sociedade dos males evidentes de que padece. Lamentavelmente, muitas dessas ideologias, em vez de abraçarem o conceito de unidade da humanidade e promoverem o aumento da concórdia entre os diversos povos, manifestaram tendência a deificar o Estado, a sujeitar o resto da humanidade ao domínio de uma nação, raça ou classe, a procurar suprimir toda a discussão e o intercâmbio de ideias, ou a abandonar friamente milhões de seres humanos à sorte de um sistema de mercado que, de forma mais que patente, esta agravando as agruras em que se encontra a maioria da humanidade, ao mesmo tempo que permite que pequenas parcelas vivam em condições de riqueza, com que nossos antepassados dificilmente poderiam sonhar.
Como são trágicos os resultados da fés substitutas que os sábios mundanos da nossa era criaram! Na desilusão maciça de populações inteiras que foram ensinadas a venerar nos seus altares, pode ler-se o veredicto irreversível da História acerca do seu valor. Os frutos que essas doutrinas produziram, após décadas de um exercício cada vez mais irrestrito do poder por aqueles que lhes devem a sua ascensão no mundo dos homens, são as enfermidades sociais e económicas que invadem todas as regiões do mundo nos anos finais deste século XX. Na base de todas essas aflições exteriores estão os danos espirituais, reflectidos na apatia que se apossou da massa dos povos de todas as nações e na extinção da esperança nos corações de milhões de destituídos e angustiados.
Chegou o momento em que aqueles que pregam os dogmas do materialismo, quer do Leste ou do Oeste, tanto o capitalismo quanto o socialismo, terão de apresentar contas da tutela moral que têm presumido exercer. Onde está o "novo mundo" prometido por essas ideologias? Onde está a paz internacional a cujos ideais proclamaram a sua devoção? Onde estão os avanços para novos domínios de progresso cultural, produzidos pelo enaltecimento desta raça, daquela nação ou de determinada classe? Por que é que a vasta maioria dos povos do mundo está se afundando cada vez mais na fome e na miséria, enquanto os árbitros actuais dos afazeres humanos têm a sua disposição riquezas incalculáveis, numa escala jamais concebida pelos Faraós e pelos Césares, e nem mesmo pelas potências imperialistas do século passado?
Há que ter calma e moderação na aplicação das teorias políticas. Há ideias políticas que são aplicáveis numa época e num lugar; mas não são aplicáveis em todas as épocas e em todos os lugares. E acima de tudo, não nos deixemos escravizar ou destruir por ideias políticas. Como é triste ver militantes e dirigentes políticos, arvorados em defensores de nobres ideais, mas cuja integridade moral é trucidada nos meandros de intrigas e golpadas a que eufemisticamente chamam "combate político".
Acho bem que as pessoas tenham ideais políticos e os defendam. Mas lembrem-se, por exemplo, do que disse Gandhi, sobre uma das suas causas preferidas (a independência da Índia): "Estou disposto morrer por esta causa; mas não estou disposto a matar ninguém por esta causa".
Como já escrevi anteriormente, nunca li nada de Karl Marx (prometo que um dia o farei!); apenas conheço o resultado da aplicação das suas teorias. O Marxismo foi-nos pregado como um "substituto de religião". O resultado ficou bem patente aos olhos do mundo. O que se escreve nesta carta aplica-se a todas as teorias políticas que nos foram apresentadas como derradeiras panaceias para os males da humanidade. Coloquei a bold as frases que considero mais relevantes.
Por mais vital que tenha sido a sua força ao longo da história da humanidade, e por mais dramático que seja o actual ressurgimento do fanatismo religioso militante, a religião e as instituições religiosas, no decorrer das últimas décadas, estão ser consideradas por um número crescente de pessoas como irrelevantes em relação às principais preocupações do mundo moderno. Em seu lugar, as pessoas voltaram-se ou para a procura hedonista da satisfação material, ou para a devoção a ideologias fabricadas pelos homens com o objectivo de salvar a sociedade dos males evidentes de que padece. Lamentavelmente, muitas dessas ideologias, em vez de abraçarem o conceito de unidade da humanidade e promoverem o aumento da concórdia entre os diversos povos, manifestaram tendência a deificar o Estado, a sujeitar o resto da humanidade ao domínio de uma nação, raça ou classe, a procurar suprimir toda a discussão e o intercâmbio de ideias, ou a abandonar friamente milhões de seres humanos à sorte de um sistema de mercado que, de forma mais que patente, esta agravando as agruras em que se encontra a maioria da humanidade, ao mesmo tempo que permite que pequenas parcelas vivam em condições de riqueza, com que nossos antepassados dificilmente poderiam sonhar.
Como são trágicos os resultados da fés substitutas que os sábios mundanos da nossa era criaram! Na desilusão maciça de populações inteiras que foram ensinadas a venerar nos seus altares, pode ler-se o veredicto irreversível da História acerca do seu valor. Os frutos que essas doutrinas produziram, após décadas de um exercício cada vez mais irrestrito do poder por aqueles que lhes devem a sua ascensão no mundo dos homens, são as enfermidades sociais e económicas que invadem todas as regiões do mundo nos anos finais deste século XX. Na base de todas essas aflições exteriores estão os danos espirituais, reflectidos na apatia que se apossou da massa dos povos de todas as nações e na extinção da esperança nos corações de milhões de destituídos e angustiados.
Chegou o momento em que aqueles que pregam os dogmas do materialismo, quer do Leste ou do Oeste, tanto o capitalismo quanto o socialismo, terão de apresentar contas da tutela moral que têm presumido exercer. Onde está o "novo mundo" prometido por essas ideologias? Onde está a paz internacional a cujos ideais proclamaram a sua devoção? Onde estão os avanços para novos domínios de progresso cultural, produzidos pelo enaltecimento desta raça, daquela nação ou de determinada classe? Por que é que a vasta maioria dos povos do mundo está se afundando cada vez mais na fome e na miséria, enquanto os árbitros actuais dos afazeres humanos têm a sua disposição riquezas incalculáveis, numa escala jamais concebida pelos Faraós e pelos Césares, e nem mesmo pelas potências imperialistas do século passado?
Há que ter calma e moderação na aplicação das teorias políticas. Há ideias políticas que são aplicáveis numa época e num lugar; mas não são aplicáveis em todas as épocas e em todos os lugares. E acima de tudo, não nos deixemos escravizar ou destruir por ideias políticas. Como é triste ver militantes e dirigentes políticos, arvorados em defensores de nobres ideais, mas cuja integridade moral é trucidada nos meandros de intrigas e golpadas a que eufemisticamente chamam "combate político".
Acho bem que as pessoas tenham ideais políticos e os defendam. Mas lembrem-se, por exemplo, do que disse Gandhi, sobre uma das suas causas preferidas (a independência da Índia): "Estou disposto morrer por esta causa; mas não estou disposto a matar ninguém por esta causa".
quinta-feira, 6 de maio de 2004
Um ideal de vida
Uma das perguntas típicas que me colocam quando digo a alguém que sou bahá’í é "O que é que vocês fazem?" É aquela pergunta tradicional de quem associa à religião um conjunto de rituais e leis (do tipo "não faças isto" ou "fazer aquilo é pecado"). Esta perspectiva distorcida do que é a religião, muitas vezes impede um bom diálogo.
Outras pessoas, porém avançam com a pergunta "Em que é que vocês acreditam?". É uma pergunta de quem associa a religião a um conjunto de crenças e princípios. Geralmente tenho conversas interessantes com quem me coloca este tipo de pergunta.
A pergunta mais frequente é: O que é ser Bahá’í? Cada crente tem a sua resposta; cada um de nós pode expressar à sua maneira o que é o seu ideal de vida Bahá’í.
A esta pergunta eu responderia com um pequeno texto das escrituras de Bahá’u’lláh:
Sê generoso na prosperidade e grato no infortúnio.
Sê digno da confiança de teu próximo e dirige-lhe um olhar afectuoso e acolhedor.
Sê um tesouro para o pobre, uma advertência para o rico, uma resposta ao pranto do necessitado, e preserva a santidade das tuas promessa.
Sê recto no teu julgamento e comedido nas tuas palavras. Com ninguém sejas injusto e a todos mostrai brandura.
Sê como uma lâmpada para os que caminham nas trevas, um consolo para o triste, um mar para o sedento, um refúgio para o abatido, um sustentáculo e defensor da vítima da opressão. Que a integridade e a rectidão marquem todos os teus actos.
Sê um lar para o forasteiro, um bálsamo para o sofredor, fortaleza para o fugitivo.
Sê os olhos para os cegos e farol para os pés dos que se perdem.
Sê um adorno na face da verdade; uma coroa na fronte da fidelidade; um pilar no templo da rectidão; um sopro de vida no corpo da humanidade; um estandarte das hostes da justiça; uma estrela sobre o horizonte da virtude; uma gota de orvalho no solo do coração humano; uma arca no oceano do conhecimento; um sol no céu da generosidade; uma jóia no diadema da sabedoria; uma luz radiante no firmamento de tua geração; um fruto na árvore da humanidade.
A mesma questão colocada a outros crentes pode ter respostas muito interessantes se for baseada nas escrituras ou nos textos de algum santo ou sábio. O ideal de qualquer religião não anda muito longe dos conceitos expostos no texto anterior. Se a resposta for dada com textos das suas escrituras, a beleza literária das palavras poderá ser diferente, mas a essência espiritual da mensagem é a mesma. Talvez o Tiago Mendes, o Nuno Guerreiro e os membros do Terra da Alegria possam dar exemplos de respostas muito interessantes a este tipo de questão (se é que não o fizeram anteriormente). Se mais alguém quiser partilhar outros exemplos, é bem-vindo!
Outras pessoas, porém avançam com a pergunta "Em que é que vocês acreditam?". É uma pergunta de quem associa a religião a um conjunto de crenças e princípios. Geralmente tenho conversas interessantes com quem me coloca este tipo de pergunta.
A pergunta mais frequente é: O que é ser Bahá’í? Cada crente tem a sua resposta; cada um de nós pode expressar à sua maneira o que é o seu ideal de vida Bahá’í.
A esta pergunta eu responderia com um pequeno texto das escrituras de Bahá’u’lláh:
Sê generoso na prosperidade e grato no infortúnio.
Sê digno da confiança de teu próximo e dirige-lhe um olhar afectuoso e acolhedor.
Sê um tesouro para o pobre, uma advertência para o rico, uma resposta ao pranto do necessitado, e preserva a santidade das tuas promessa.
Sê recto no teu julgamento e comedido nas tuas palavras. Com ninguém sejas injusto e a todos mostrai brandura.
Sê como uma lâmpada para os que caminham nas trevas, um consolo para o triste, um mar para o sedento, um refúgio para o abatido, um sustentáculo e defensor da vítima da opressão. Que a integridade e a rectidão marquem todos os teus actos.
Sê um lar para o forasteiro, um bálsamo para o sofredor, fortaleza para o fugitivo.
Sê os olhos para os cegos e farol para os pés dos que se perdem.
Sê um adorno na face da verdade; uma coroa na fronte da fidelidade; um pilar no templo da rectidão; um sopro de vida no corpo da humanidade; um estandarte das hostes da justiça; uma estrela sobre o horizonte da virtude; uma gota de orvalho no solo do coração humano; uma arca no oceano do conhecimento; um sol no céu da generosidade; uma jóia no diadema da sabedoria; uma luz radiante no firmamento de tua geração; um fruto na árvore da humanidade.
A mesma questão colocada a outros crentes pode ter respostas muito interessantes se for baseada nas escrituras ou nos textos de algum santo ou sábio. O ideal de qualquer religião não anda muito longe dos conceitos expostos no texto anterior. Se a resposta for dada com textos das suas escrituras, a beleza literária das palavras poderá ser diferente, mas a essência espiritual da mensagem é a mesma. Talvez o Tiago Mendes, o Nuno Guerreiro e os membros do Terra da Alegria possam dar exemplos de respostas muito interessantes a este tipo de questão (se é que não o fizeram anteriormente). Se mais alguém quiser partilhar outros exemplos, é bem-vindo!
quarta-feira, 5 de maio de 2004
Sorriam: isto é o alargamento da UE!
Um checo vai a um oftalmologista em Lisboa que lhe mostra o cartaz com as seguintes letras:
"c z w x n q s t a c z"
Pergunta-lhe:
- Consegue ler?
"Ler?", responde o checo, "Eu até conheço o gajo!!"
"c z w x n q s t a c z"
Pergunta-lhe:
- Consegue ler?
"Ler?", responde o checo, "Eu até conheço o gajo!!"
segunda-feira, 3 de maio de 2004
A Consciência da Utilidade
O post do Henrique - Consciência da Inutilidade - deve ter sido um desabafo dele; mas foi uma espécie de provocação para mim. Aqui está a resposta a esse desabafo provocador.
Será inútil preocuparmo-nos com os altos e baixos na evolução da humanidade? Será a violência inerente à condição humana? Enquanto houver humanidade, haverá guerras? Olhando para a história das civilizações poderíamos dizer que sempre houve guerras; uma dedução aparentemente lógica seria "se sempre houve guerras, então sempre haverá".
Na verdade, ao longo da história as diferentes civilizações reflectiram o amadurecimento da espécie humana; começámos por nos organizar como tribos, depois como grupos de cidades, mais tarde como países e impérios. Em todos os tipos de organização social que criámos, sempre combatemos uns com os outros. Mas poderemos continuarmos com guerras numa sociedade global? Não me parece.
A evolução que a humanidade atravessou pode ser comparada à evolução de um ser humano. Existem crises e impulsos próprios da infância e da adolescência que raramente se observam num adulto. Um adulto normal raramente tem impulsos irreflectidos; não faz birras, nem tem crises de adolescente. Tem sentido de justiça e bom senso; prefere o diálogo à violência (raramente recorre a esta).
Neste processo de amadurecimento global, sem nos apercebermos, estamos a criar um mundo novo; assistimos a processos de desintegração da velha ordem e construção de uma sociedade global mais justa e equilibrada. Estamos a sair da nossa adolescência colectiva e a entrar numa idade adulta colectiva. Muito provavelmente, os nossos filhos e netos vão assistir a transformações tremendas neste planeta, tal como nós assistimos a coisas inacreditáveis para os nossos avós. A União Europeia seria algo praticável há 100 anos? O fim do comunismo, enquanto potência mundial, seria imaginável há 50 anos? Quantos países utilizam hoje métodos democráticos nos seus sistemas políticos e quantos o faziam há 100 anos?
É evidente que o futuro imediato da humanidade é sombrio: terrorismo, capitalismo selvagem, uma ONU fraca e pouco hábil, ameaças ambientais terríveis,… só para mencionar algumas coisas. Mas a médio e longo prazo, acredito que este mundo só pode melhorar. Como disse Bahá'u'lláh, "...estas lutas infrutíferas, estas guerras ruinosas hão de passar e a mais grandiosa paz virá..."
Será inútil preocuparmo-nos com os altos e baixos na evolução da humanidade? Será a violência inerente à condição humana? Enquanto houver humanidade, haverá guerras? Olhando para a história das civilizações poderíamos dizer que sempre houve guerras; uma dedução aparentemente lógica seria "se sempre houve guerras, então sempre haverá".
A evolução que a humanidade atravessou pode ser comparada à evolução de um ser humano. Existem crises e impulsos próprios da infância e da adolescência que raramente se observam num adulto. Um adulto normal raramente tem impulsos irreflectidos; não faz birras, nem tem crises de adolescente. Tem sentido de justiça e bom senso; prefere o diálogo à violência (raramente recorre a esta).
Neste processo de amadurecimento global, sem nos apercebermos, estamos a criar um mundo novo; assistimos a processos de desintegração da velha ordem e construção de uma sociedade global mais justa e equilibrada. Estamos a sair da nossa adolescência colectiva e a entrar numa idade adulta colectiva. Muito provavelmente, os nossos filhos e netos vão assistir a transformações tremendas neste planeta, tal como nós assistimos a coisas inacreditáveis para os nossos avós. A União Europeia seria algo praticável há 100 anos? O fim do comunismo, enquanto potência mundial, seria imaginável há 50 anos? Quantos países utilizam hoje métodos democráticos nos seus sistemas políticos e quantos o faziam há 100 anos?
É evidente que o futuro imediato da humanidade é sombrio: terrorismo, capitalismo selvagem, uma ONU fraca e pouco hábil, ameaças ambientais terríveis,… só para mencionar algumas coisas. Mas a médio e longo prazo, acredito que este mundo só pode melhorar. Como disse Bahá'u'lláh, "...estas lutas infrutíferas, estas guerras ruinosas hão de passar e a mais grandiosa paz virá..."
domingo, 2 de maio de 2004
Foi há 141 anos: o fim do Primeiro Exílio
Em 1863, após dez anos de exílio em Bagdade, a popularidade de Bahá'u'lláh e do pequeno número de "exilados persas" era suficiente para incomodar as autoridades persas e otomanas. Os persas temiam pelo peregrinos xiitas que se deslocavam em peregrinação a Kerbala e a Najaf, e que se convertiam à nova religião (depois de visitarem Bagdade); os otomanos receavam que a popularidade daquele grupo de persas fosse prelúdio de alguma revolta entre a população xiita.
Deste modo, sentiram que a melhor solução seria exilar Bahá'u'lláh para longe da fronteira persa-otomana; o local escolhido foi a capital do império: Constantinopla. Pensavam que ali, próximo da corte imperial, as actividades daqueles exilados seriam mais controladas e menor o contacto com os apoiantes daquela nova religião.
Depois de receberem a ordem de partida para Constantinopla, Bahá'u'lláh, familiares e o pequeno grupo de exilados acamparam no jardim de Ridvan (em português, "Paraíso") nos arredores de Bagdade. Durante doze dias, receberam visitas de despedidas dos notáveis e de muita população da cidade.
Foi durante esses dias que Bahá'u'lláh revelou a alguns dos Seus discípulos que Ele era o Prometido anunciado pelo Báb. Aos que receberam esta boa nova foi pedido que não a revelassem por enquanto. A revelação da Sua posição apenas seria feita anos mais tarde.
Estes dias em que Bahá'u'lláh esteve no jardim de Ridvan é assinalado no calendário bahá’í como o "Festival de Ridvan". É celebrado entre os dias 21 de Abril e 2 de Maio.
Parece-me que é possível estabelecer um certo paralelismo entre este episódio e o momento em que Cristo anuncia aos apóstolos que Ele é o Messias, pedindo que mantivessem o segredo por algum tempo (Lc 9:18-21).
Mais detalhes sobre os acontecimentos no jardim de Ridvan encontram-se no livro God Passes By (há uma tradução brasileira deste livro com o título "Presença de Deus")
Deste modo, sentiram que a melhor solução seria exilar Bahá'u'lláh para longe da fronteira persa-otomana; o local escolhido foi a capital do império: Constantinopla. Pensavam que ali, próximo da corte imperial, as actividades daqueles exilados seriam mais controladas e menor o contacto com os apoiantes daquela nova religião.
Depois de receberem a ordem de partida para Constantinopla, Bahá'u'lláh, familiares e o pequeno grupo de exilados acamparam no jardim de Ridvan (em português, "Paraíso") nos arredores de Bagdade. Durante doze dias, receberam visitas de despedidas dos notáveis e de muita população da cidade.
Foi durante esses dias que Bahá'u'lláh revelou a alguns dos Seus discípulos que Ele era o Prometido anunciado pelo Báb. Aos que receberam esta boa nova foi pedido que não a revelassem por enquanto. A revelação da Sua posição apenas seria feita anos mais tarde.
Estes dias em que Bahá'u'lláh esteve no jardim de Ridvan é assinalado no calendário bahá’í como o "Festival de Ridvan". É celebrado entre os dias 21 de Abril e 2 de Maio.
Parece-me que é possível estabelecer um certo paralelismo entre este episódio e o momento em que Cristo anuncia aos apóstolos que Ele é o Messias, pedindo que mantivessem o segredo por algum tempo (Lc 9:18-21).
Mais detalhes sobre os acontecimentos no jardim de Ridvan encontram-se no livro God Passes By (há uma tradução brasileira deste livro com o título "Presença de Deus")
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