Quando fiz mestrado, tive a oportunidade de assistir a um seminário, onde o palestrante, era o Eng. Viana Baptista. Tinha sido ministro dos transportes num governo "AD", no inicio dos anos 80; estava ali para partilhar connosco uma série de experiências pessoais no âmbito da gestão de tecnologia e de políticas industriais e de inovação tecnológica.
Referiu, a certa altura, as políticas europeias nessa área e a forma como os países se movimentam nos "corredores" da União Europeia para fazer valer os seus interesses. Contou-nos como era constantemente "assediado" por uma ministra holandesa com uma pasta equivalente à sua; ela sempre arranjava um pretexto para meter conversa com ele; onde quer que ele fosse, ela arranjava maneira para se encontrar com ele; a mulher emanava charme e simpatia.
Um dia percebeu que ela fazia isso com todos os ministros europeus com pastas iguais ou equivalentes à sua. Aquilo era apenas um dos métodos holandeses para fazer lobby. E olhando para os organismos internacionais, é fácil perceber que os holandeses possuem muita gente nas cúpulas ou integrando os respectivos centros de decisão. Ou seja: o lobby holandês nos organismos internacionais parece ser bem sucedido
A Holanda é, assim, um país com 15 milhões de habitantes e uma área que é 1/3 de Portugal e consegue desta forma fazer valer os seus interesses entre a comunidade das nações.
Soubemos nos últimos dias que o nosso primeiro-ministro será o próximo presidente da Comissão Europeia. Não sei se as negociações que levaram à escolha do nosso Primeiro é fruto de um lobby português, ou resultado de um entendimento de bastidores entre os países mais poderosos da União. Neste momento, a segunda hipótese parece-me mais plausível...
A escolha de um português (fosse Durão Barroso, ou António Vitorino) para chefiar a Comissão Europeia (apesar de ter menos poderes), só pode deixar-me satisfeito. Talvez os interesses portugueses na União fiquem melhor defendidos. É certo que isto é uma visão muito portuguesa e pouco universalista sobre esta Europa que se vai construindo; afinal, o Presidente da Comissão Europeia deve defender os interesses da Europa e não apenas do seu país natal.
Mas deixem-me ser um pouco faccioso! Gosto que o Presidente da Comissão Europeia seja português. Também gostava muito que o Conselho de Segurança da ONU tivesse como membros permanentes, grandes países como o Brasil (além disso, era importante acabar com o direito de veto naquele organismo...). Também gostava que Angola ou Moçambique ocupassem a presidência da OUA por muito tempo...
Enfim! Que as vozes lusófonas se fizessem ouvir nos centros de decisão dos organismos internacionais.
quarta-feira, 30 de junho de 2004
terça-feira, 29 de junho de 2004
O piquenique em Englewood
Em 1912 e 1913, 'Abdu'l-Bahá viaja pela Europa e pelos Estados Unidos. Era um sonho que acalentava há muito tempo: levar pessoalmente a mensagem de Seu Pai aos povos do Ocidente. As Suas palestras ficam registadas em vários livros (Paris Talks, 'Abdu'l-Bahá in London, Promulgation of Universal Peace); alguns crentes mais próximos deixam para a posteridade livros de memórias (The Diary of Juliet Thompson e Portals to Freedom são alguns exemplos) onde descrevem episódios e acontecimentos que se sucedem naquela viagem e que deixam a conhecer várias facetas do Mestre.
Mas a idade obriga-o a momentos de repouso. Em Nova Iorque, antes de um desses momentos de repouso, pede aos amigos que organizem um piquenique com crentes e simpatizantes. Fica tudo marcado para dia 29 de Junho, na propriedade de um crente de Englewood, Nova Jersey.
Quando o dia chega, estão presentes cerca de duas centenas de pessoas de Nova Iorque e arredores. O cansaço das viagens não Lhe esconde a satisfação de ver reunidos todos aqueles crentes. As Suas palavras proferidas nesse dia são um estímulo para o crescimento e à unidade da comunidade bahá'í da América. O piquenique será recordado como "A Festa da Unidade".
As fotos seguintes foram captadas nesses dia:



O ambiente vivido nesse e noutros encontros, a dinâmica dos Bahá’ís americanos, e a liberdade religiosa existente no Ocidente, fazem-No perceber o provável rumo de evolução da religião Bahá'í: serão os povos do Ocidente a tomar a Causa Bahá'í nas suas mãos e divulgá-la pelo mundo.
'Abdu'l-Bahá é frequentemente apresentado como o mais perfeito exemplo de vida Bahá'í. Para conhecer um pouco melhor quem foi 'Abdu'l-Bahá, recomendo uma visita ao blog O Mestre, da minha amiga Marcia. Além de várias fotos, contém excertos de relatos de pessoas que conheceram pessoalmente 'Abdu'l-Bahá.
Mas a idade obriga-o a momentos de repouso. Em Nova Iorque, antes de um desses momentos de repouso, pede aos amigos que organizem um piquenique com crentes e simpatizantes. Fica tudo marcado para dia 29 de Junho, na propriedade de um crente de Englewood, Nova Jersey.
Quando o dia chega, estão presentes cerca de duas centenas de pessoas de Nova Iorque e arredores. O cansaço das viagens não Lhe esconde a satisfação de ver reunidos todos aqueles crentes. As Suas palavras proferidas nesse dia são um estímulo para o crescimento e à unidade da comunidade bahá'í da América. O piquenique será recordado como "A Festa da Unidade".
As fotos seguintes foram captadas nesses dia:
O ambiente vivido nesse e noutros encontros, a dinâmica dos Bahá’ís americanos, e a liberdade religiosa existente no Ocidente, fazem-No perceber o provável rumo de evolução da religião Bahá'í: serão os povos do Ocidente a tomar a Causa Bahá'í nas suas mãos e divulgá-la pelo mundo.
'Abdu'l-Bahá é frequentemente apresentado como o mais perfeito exemplo de vida Bahá'í. Para conhecer um pouco melhor quem foi 'Abdu'l-Bahá, recomendo uma visita ao blog O Mestre, da minha amiga Marcia. Além de várias fotos, contém excertos de relatos de pessoas que conheceram pessoalmente 'Abdu'l-Bahá.
segunda-feira, 28 de junho de 2004
O Velho Louco que movia Montanhas
Talvez já conheçam esta fábula chinesa:
Na China antiga, havia um Velho Louco que já tinha oitenta ou noventa anos. Em frente da sua porta existiam duas enormes montanhas, que bloqueavam o caminho até à sua casa.
Um dia o Velho Louco reuniu toda a família e disse: “Estas duas grandes montanhas à nossa porta são um transtorno! Vamos afastá-las! Que tal?”
Todos os filhos e netos concordaram. Disseram: “Não há dificuldade que não possamos ultrapassar. Podemos atirar as pedras para o mar!”
No dia seguinte, o Velho Louco foi com toda a família para a montanha; saíram muito cedo e voltaram tarde. E sem medo das dificuldades começaram a escavar as montanhas todos os dias.
Um outro velho, conhecido como o Velho Sábio, viu-os a trabalhar para afastar as montanhas e pensou que aquilo era ridículo. Perguntou ao Velho Louco: “Como podes tu afastar duas enormes montanhas na tua idade?”
O Velho Louco respondeu: “Apesar de eu morrer, ainda estarão cá os meus filhos. E depois deles morrerem, estarão os meus netos. Teremos cada vez mais pessoas, e as montanhas terão cada vez menos pedras. Enquanto tivermos determinação, por certo que poderemos afastar montanhas.”
Quando o Velho Sábio ouviu isto, não teve mais nada a dizer.
Esta determinação do Velho Louco sensibilizou Deus. Assim, Ele enviou dois anjos que afastaram imediatamente as duas montanhas.
Creio que esta fábula reflecte não só, a sabedoria de uma civilização milenar, mas também uma experiência de vida comum a toda a humanidade. No tempo de Mao Zedong, foi dada uma nova interpretação a esta fábula. As “duas montanhas” que os revolucionários chineses tinham de afastar eram o imperialismo e o feudalismo, que pesavam sobre o país e o povo. E Mao acrescentou: “O nosso Deus não é outro senão o povo chinês. Se o povo se levantar e escavar connosco, porque motivo não conseguiremos afastar estas montanhas?” Diziam alguns analistas que o povo chinês construía o Socialismo com o “espírito do velho louco”.
A determinação em levar uma causa avante, e a fé que se pode atingir um objectivo difícil, mesmo quando todos os obstáculos parecem enormes, encontram eco nesta fábula. Pessoalmente (e isto é uma opinião muito pessoal!) vejo esta determinação em alguns políticos que admiro, como Mandela, Luther King e Ghandi.
Também no momento do despertar das grandes religiões, se encontram também muitos visionários, pessoas com determinação e coragem para levar os novos ensinamentos e conseguirem ter alguma percepção do mundo para lá do momento em que vivem. Eles têm a clara noção que a fé pode mover montanhas.
Um dos exemplos que me vem imediatamente à memória, ter-se-ia passado com Santo Agostinho. Enquanto em Cartago se assistia à chegada e refugiados da península itálica, e se falava do desembarque dos Vândalos no norte de África, as pessoas diziam “É o fim do mundo! É o fim do mundo!” O Bispo de Hipona, respondia: “Não. É o princípio de um mundo novo.”
Ao vivermos tempos de pessimismo generalizado sobre a situação mundial, ao repetir de frases como “Isto tá cada vez pior!” ou “Não sei onde isto vai parar…” muita falta nos fazem visionários - velhos loucos que conseguem afastar montanhas - que percebam a evolução para lá do momento em que vivem e entendam que mundo novo estamos a construir, apesar das dificuldades do momento. É que a história da humanidade mostra-nos que a fé pode mesmo mover montanhas.
Na China antiga, havia um Velho Louco que já tinha oitenta ou noventa anos. Em frente da sua porta existiam duas enormes montanhas, que bloqueavam o caminho até à sua casa.
Um dia o Velho Louco reuniu toda a família e disse: “Estas duas grandes montanhas à nossa porta são um transtorno! Vamos afastá-las! Que tal?”
Todos os filhos e netos concordaram. Disseram: “Não há dificuldade que não possamos ultrapassar. Podemos atirar as pedras para o mar!”
No dia seguinte, o Velho Louco foi com toda a família para a montanha; saíram muito cedo e voltaram tarde. E sem medo das dificuldades começaram a escavar as montanhas todos os dias.
Um outro velho, conhecido como o Velho Sábio, viu-os a trabalhar para afastar as montanhas e pensou que aquilo era ridículo. Perguntou ao Velho Louco: “Como podes tu afastar duas enormes montanhas na tua idade?”
O Velho Louco respondeu: “Apesar de eu morrer, ainda estarão cá os meus filhos. E depois deles morrerem, estarão os meus netos. Teremos cada vez mais pessoas, e as montanhas terão cada vez menos pedras. Enquanto tivermos determinação, por certo que poderemos afastar montanhas.”
Quando o Velho Sábio ouviu isto, não teve mais nada a dizer.
Esta determinação do Velho Louco sensibilizou Deus. Assim, Ele enviou dois anjos que afastaram imediatamente as duas montanhas.
Creio que esta fábula reflecte não só, a sabedoria de uma civilização milenar, mas também uma experiência de vida comum a toda a humanidade. No tempo de Mao Zedong, foi dada uma nova interpretação a esta fábula. As “duas montanhas” que os revolucionários chineses tinham de afastar eram o imperialismo e o feudalismo, que pesavam sobre o país e o povo. E Mao acrescentou: “O nosso Deus não é outro senão o povo chinês. Se o povo se levantar e escavar connosco, porque motivo não conseguiremos afastar estas montanhas?” Diziam alguns analistas que o povo chinês construía o Socialismo com o “espírito do velho louco”.
A determinação em levar uma causa avante, e a fé que se pode atingir um objectivo difícil, mesmo quando todos os obstáculos parecem enormes, encontram eco nesta fábula. Pessoalmente (e isto é uma opinião muito pessoal!) vejo esta determinação em alguns políticos que admiro, como Mandela, Luther King e Ghandi.
Também no momento do despertar das grandes religiões, se encontram também muitos visionários, pessoas com determinação e coragem para levar os novos ensinamentos e conseguirem ter alguma percepção do mundo para lá do momento em que vivem. Eles têm a clara noção que a fé pode mover montanhas.
Um dos exemplos que me vem imediatamente à memória, ter-se-ia passado com Santo Agostinho. Enquanto em Cartago se assistia à chegada e refugiados da península itálica, e se falava do desembarque dos Vândalos no norte de África, as pessoas diziam “É o fim do mundo! É o fim do mundo!” O Bispo de Hipona, respondia: “Não. É o princípio de um mundo novo.”
Ao vivermos tempos de pessimismo generalizado sobre a situação mundial, ao repetir de frases como “Isto tá cada vez pior!” ou “Não sei onde isto vai parar…” muita falta nos fazem visionários - velhos loucos que conseguem afastar montanhas - que percebam a evolução para lá do momento em que vivem e entendam que mundo novo estamos a construir, apesar das dificuldades do momento. É que a história da humanidade mostra-nos que a fé pode mesmo mover montanhas.
Uma fábula chinesa na Terra da Alegria
O meu texto de hoje está na Terra da Alegria. É uma pequena reflexão sobre uma fábula chinesa. A foto abaixo é do livro onde encontrei essa fábula.
domingo, 27 de junho de 2004
Um país possível
É com o título "Um país possível" que a Única (a revista do Expresso) deste sábado, nos apresenta uma reportagem de três páginas sobre o Irão. Nos texto e fotos de Gonçalo Cadilhe, pouco ficamos a saber; metade do texto são comparações com outros países ou recordações de crises políticas vividas naquele país. Várias cidades, Shiraz, Yazd, Isfahan, Persópolis, Qom e Teerão são descritas com a brevidade de um telegrama. Muitas fotos dão-nos um vislumbre da riqueza cultural daquele país, mas pouco se escreve sobre isso.
É pena, pois o Irão tem uma herança cultural semelhante à Grécia. Ficou ainda muito por escrever... No meio de vários elogios às estruturas sociais daquele país, retenho uma frase: "Naturalmente, o Irão é melhor para uma pessoa de fé xiita".
É pena, pois o Irão tem uma herança cultural semelhante à Grécia. Ficou ainda muito por escrever... No meio de vários elogios às estruturas sociais daquele país, retenho uma frase: "Naturalmente, o Irão é melhor para uma pessoa de fé xiita".
sábado, 26 de junho de 2004
Sorriam: é a Futebolândia!
Nas Torres das Amoreiras, o centro de escritórios mais conhecido da capital portuguesa, um enorme cartaz publicitário, vai apresentando diferentes mensagens após cada jogo da selecção portuguesa.
Ontem ainda não tinham passado 24 horas sobre o jogo Portugal-Inglaterra, e a mensagem era esta que se vê na foto.

O sentido de humor é importante no marketing. Afinal os ingleses já são campeões mundiais de rugby...
Ontem ainda não tinham passado 24 horas sobre o jogo Portugal-Inglaterra, e a mensagem era esta que se vê na foto.

O sentido de humor é importante no marketing. Afinal os ingleses já são campeões mundiais de rugby...
sexta-feira, 25 de junho de 2004
Badasht
Em Junho de 1848, comunidade babí estava sem liderança activa; o Báb encontrava-se preso e incomunicável na fortaleza de Chiriq e em alguns locais da Pérsia tinham eclodido as primeiras perseguições e martírios de crentes. O movimento Babi era muito recente (o Báb anunciara a Sua missão em 1844); a falta de contacto com o Báb deixava espaço para muitos mal-entendidos e confusões sobre o verdadeiro propósito dos ensinamentos bábis. Algumas pessoas pensavam tratar-se de um movimento reformista do Islão; outros acreditavam tratar-se de uma nova religião independente do Islão.
Estas dúvidas relativas ao propósito do movimento bábi e a falta de contactos com o seu profeta fundador, impeliram alguns crentes mais destacados a convocar uma reunião para esclarecer os crentes sobre o objectivo da ensinamentos bábis e delinear uma forma de voltar a ter contacto com o Báb. Foi no início do verão de 1848 que se realizou esse encontro.
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| Local onde se realizou a conferência de Badasht |
O principal promotor dessa reunião foi Bahá'u'lláh (na altura era conhecido entre os crentes como Jinab-i-Bahá). O local escolhido foi Badasht, um lugarejo em Mazindaran, no norte do Irão. Estiveram presentes oitenta e um crentes; foram instaladas várias tendas; entre os participantes contavam-se Quddus e Tahirih (uma poetisa, que se tornara uma das primeiras discípulas do Báb).
Bahá'u'lláh, anfitrião, acolheu calorosamente cada um dos participantes; em cada dia da reunião revelava uma epístola; esta era depois lida em voz alta perante todos os presentes (é preciso ter presente que na cultura islâmica a poesia e a literatura são usadas para elevar a moral das pessoas). A cada um dos presentes, Ele atribuiu um título; numa epístola revelada mais tarde pelo Báb, esses título seriam confirmados. ("Quddus" e "Tahirih" são títulos de crentes concedidos por Bahá'u'lláh; não são nomes próprios)
O VÉU DE TAHIRIH
A presença de uma mulher naquela reunião não era normal; recordemo-nos que a Pérsia em meados do séc. XIX era socialmente muito atrasada (quase medieval!). O papel da mulher era casar, gerar filhos e ficar em casa; raramente era vistas em público, e quando isso acontecia tinham sempre o tradicional véu a cobrir-lhes o rosto. Por este motivo, a simples presença de Tahirih era, no mínimo, incómoda.
Num dia, ao dirigir-se à assembleia de crentes, Tahirih tirou o véu que lhe cobria o rosto. A discussão estalou imediatamente; vários crentes ficaram escandalizados, outros abandonaram a reunião; mas havia outros apoiavam o acto da poetisa. O próprio Quddus ficou furioso e estava de espada na mão como se a qualquer momento pudesse desferir um golpe sobre quem ousasse ofender Tahirih. Apesar da confusão que se gerou, ela continuou a falar para os restantes crentes que ainda ficaram para a ouvir; estava serena e confiante.
Durante alguns dias persistiu um estado de tensão entre os crentes; tomavam diferentes partidos e discutiam entre si. Bahá'u'lláh interveio e acalmou os ânimos; conciliou as diferentes opiniões; conseguiu fazê-los perceber que os preceitos do Islão eram coisa do passado. Um punhado de crentes, porém, abandonou a reunião, considerando insuportável aquela heresia que atentava contra valores invioláveis do Islão.
A reunião durou vinte e dois dias. No final desta, os Babís sentiam-se mais confiantes e fortes na sua fé. Compreendiam e assumiam definitivamente o rompimento com a ortodoxia, as tradições e os rituais islâmicos. Esta posição ia despertar a fúria do clero xiita. Terminada a reunião, vários crentes foram violentamente atacados no caminho de regresso a suas casas.
Aquela reunião ficou conhecida como "Conferência de Badasht"; o gesto de Tahirih nessa conferência é frequentemente recordado por muitos bahá'ís como o primeiro sinal da emancipação feminina no Irão; vários livros e poemas têm sido escritos sobre ela. Hoje, em algumas famílias bahá'ís iranianas é normal encontrar mulheres com o nome Tahirih .
quinta-feira, 24 de junho de 2004
Anúncios que nos tocam
Para fugir à futebolada noticiosa, tenho de me refugiar nos noticiários dos canais estrangeiros; BBC e Euronews costumam ser as minhas primeiras alternativas. É a minha janela para o mundo real que continua a existir por detrás das nossas bandeiras, dos estádios e das opções tácticas de cada jogo.
Ontem, num intervalo entre blocos noticiosos, a Euronews, apresentou-nos um anúncio contra o turismo sexual e exploração sexual de crianças. Sem serem chocantes, as imagens e as palavras tinham uma força tremenda. Um homem que se ia despindo, e já nu caminhava por um corredor de uma prisão, até que se encostava a uma parede e um guarda de aproximava dele... Presumo que existam muitos europeus que necessitam de ser sensibilizados.
Hoje de manhã, um outro anúncio: num lar de uma família europeia "normal", as crianças brincam com a maior naturalidade; a filha brinca com uma boneca, o filho com um carrinho. A dado momento, a televisão mostra uma criança sem uma perna, apoiada em muletas, a olhar fixamente para a câmara; a menina pára de brincar com a boneca e olha demoradamente para a televisão. De súbito, arranca uma perna da sua boneca e oferece-a ao outro menino que vê na televisão. O anúncio era da Handicap International, uma organização que luta contra as minas anti-pessoais.
Confesso que estes anúncios não me deixaram indiferente. Sem recorrer a imagens sensacionalistas, têm uma força enorme para chamar a atenção para problemas gravíssimos. Oxalá estas duas campanhas obtenham bons resultados.
Ontem, num intervalo entre blocos noticiosos, a Euronews, apresentou-nos um anúncio contra o turismo sexual e exploração sexual de crianças. Sem serem chocantes, as imagens e as palavras tinham uma força tremenda. Um homem que se ia despindo, e já nu caminhava por um corredor de uma prisão, até que se encostava a uma parede e um guarda de aproximava dele... Presumo que existam muitos europeus que necessitam de ser sensibilizados.
Hoje de manhã, um outro anúncio: num lar de uma família europeia "normal", as crianças brincam com a maior naturalidade; a filha brinca com uma boneca, o filho com um carrinho. A dado momento, a televisão mostra uma criança sem uma perna, apoiada em muletas, a olhar fixamente para a câmara; a menina pára de brincar com a boneca e olha demoradamente para a televisão. De súbito, arranca uma perna da sua boneca e oferece-a ao outro menino que vê na televisão. O anúncio era da Handicap International, uma organização que luta contra as minas anti-pessoais.
Confesso que estes anúncios não me deixaram indiferente. Sem recorrer a imagens sensacionalistas, têm uma força enorme para chamar a atenção para problemas gravíssimos. Oxalá estas duas campanhas obtenham bons resultados.
quarta-feira, 23 de junho de 2004
Mirzá Mihdi (O Ramo Mais Puro)
Passam hoje 134 anos sobre o falecimento do filho de Bahá’u’lláh, Mirzá Mihdi (em português, "O Ramo Mais Puro"). Este acontecimento foi considerado como uma das mais amargas tragédias que atingiram Bahá'u'lláh, a Sua família e os Seus companheiros, durante o encarceramento na fortaleza de Akká.
Mirzá Mihdi, irmão de 'Abdu'l-Bahá, nasceu em 1848; quando era criança foi levado de Teerão para Bagdade para se juntar à sua Família, pouco depois do seu Pai ter regressado das montanhas do Sulaymaniyyih. Desde então tentou dedicar cada momento da sua vida ao serviço do Bahá'u'lláh, tendo mesmo sido Seu secretário. Existem algumas Epístolas que estão transcritas pela sua mão
Um dia, na prisão de Akká, ao pôr do sol, quando caminhava no terraço, dedicando-se às suas habituais orações, caiu por uma clarabóia. Esta queda provocou-lhe várias fracturas nas costelas e fê-lo sangrar abundantemente. Os membros da família e seus companheiros ficaram profundamente alarmados; 'Abdu'l-Bahá com os olhos cheios de lágrimas dirigiu-Se a Bahá'u'lláh, prostrou-Se aos Seus pés e suplicou-Lhe que curasse Mirzá Mihdi. Bahá'u'lláh dirigiu-se, então, ao leito onde jazia o Seu filho; perguntou-lhe se queria viver, mas ele replicou que o seu único desejo era que os portões da prisão se abrissem para que os crentes pudessem visitar o seu Senhor.
Vinte e duas horas após a queda, Mirzá Mihdi faleceu. Tinha vinte e dois anos de idade.
No momento em que se procediam ao preparativos para o funeral (que, segundo as tradições da época, incluíam a lavagem do cadáver) Bahá'u'lláh revelava as seguintes palavras:
"Neste preciso momento, o Meu filho está a ser lavado perante a Minha face, após o termos sacrificado na Maior Prisão. Por este motivo os habitantes do Tabernáculo de Abhá choram em grande pranto, e se lamentaram os que com este jovem sofreram encarceramento no caminho de Deus, o Senhor do Dia Prometido. Sob tais condições a Minha Pena não foi impedida de recordar o seu Senhor, o Senhor de todas as nações, e convocou o povo de Deus, o Omnipotente, o Todo Generoso. Este é o dia em que aquele que foi criado da luz de Bahá, sofreu martírio, numa ocasião em que estava aprisionado às mãos dos seus inimigos". (*)
As Suas Palavras nas semanas seguintes revelam uma dor profunda pela perda daquele filho; mais tarde, numa epístola afirmaria que a pior dor que um pai pode sentir é a perda de um filho.
Quatro meses após o falecimento de Mirzá Mihdi, Bahá'u'lláh e a Sua Família foram transferidos para uma casa nos arredores da prisão. Logo depois foram levantadas muitas restrições que afectavam toda a Família, e vários crentes puderam visitar Bahá'u'lláh.

Hoje, os restos mortais de Mirzá Mihdi repousam, juntamente com os de sua mãe e os de sua irmã, no Monte Carmelo, nos jardins adjacentes à sede da Casa Universal de Justiça (foto acima). As suas roupas ensanguentadas foram conservadas e são hoje uma das relíquias que podem ser vistas pelos peregrinos bahá’ís.
______________
(*) Bahá’í Holy Places at the World Centre. pags. 72-73
Mirzá Mihdi, irmão de 'Abdu'l-Bahá, nasceu em 1848; quando era criança foi levado de Teerão para Bagdade para se juntar à sua Família, pouco depois do seu Pai ter regressado das montanhas do Sulaymaniyyih. Desde então tentou dedicar cada momento da sua vida ao serviço do Bahá'u'lláh, tendo mesmo sido Seu secretário. Existem algumas Epístolas que estão transcritas pela sua mão
Vinte e duas horas após a queda, Mirzá Mihdi faleceu. Tinha vinte e dois anos de idade.
No momento em que se procediam ao preparativos para o funeral (que, segundo as tradições da época, incluíam a lavagem do cadáver) Bahá'u'lláh revelava as seguintes palavras:
"Neste preciso momento, o Meu filho está a ser lavado perante a Minha face, após o termos sacrificado na Maior Prisão. Por este motivo os habitantes do Tabernáculo de Abhá choram em grande pranto, e se lamentaram os que com este jovem sofreram encarceramento no caminho de Deus, o Senhor do Dia Prometido. Sob tais condições a Minha Pena não foi impedida de recordar o seu Senhor, o Senhor de todas as nações, e convocou o povo de Deus, o Omnipotente, o Todo Generoso. Este é o dia em que aquele que foi criado da luz de Bahá, sofreu martírio, numa ocasião em que estava aprisionado às mãos dos seus inimigos". (*)
As Suas Palavras nas semanas seguintes revelam uma dor profunda pela perda daquele filho; mais tarde, numa epístola afirmaria que a pior dor que um pai pode sentir é a perda de um filho.
Quatro meses após o falecimento de Mirzá Mihdi, Bahá'u'lláh e a Sua Família foram transferidos para uma casa nos arredores da prisão. Logo depois foram levantadas muitas restrições que afectavam toda a Família, e vários crentes puderam visitar Bahá'u'lláh.

Hoje, os restos mortais de Mirzá Mihdi repousam, juntamente com os de sua mãe e os de sua irmã, no Monte Carmelo, nos jardins adjacentes à sede da Casa Universal de Justiça (foto acima). As suas roupas ensanguentadas foram conservadas e são hoje uma das relíquias que podem ser vistas pelos peregrinos bahá’ís.
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(*) Bahá’í Holy Places at the World Centre. pags. 72-73
terça-feira, 22 de junho de 2004
Sorriam: é apenas futebol!
Nunca pensei colocar um post sobre o Euro 2004, mas como esta merece uma boa gargalhada, vou abrir uma excepção.
Na imprensa espanhola, a reacção mais inteligente à derrota de Espanha:
"Le doy la razón al presidente, hace meses Zapatero dijo que todos los
españoles que estuviesen fuera volverían a España antes del 30 de junio."
...absolutamente genial!
Na imprensa espanhola, a reacção mais inteligente à derrota de Espanha:
"Le doy la razón al presidente, hace meses Zapatero dijo que todos los
españoles que estuviesen fuera volverían a España antes del 30 de junio."
...absolutamente genial!
Quando a Rádio anunciou a invasão da Rússia
Uma das memórias de infância que o meu pai costuma partilhar connosco, relaciona-se com um evento passado neste dia. Em 1941, passavam férias fora de Lisboa; num momento de descontracção familiar ligaram o rádio para ouvir as notícias. E ouviram: "A Alemanha invadiu a Rússia". O meu avô reagiu imediatamente: "Agora meteram-se com umas bestas à altura deles!".
O meu avô, um coronel-médico, tinha combatido na Primeira Grande Guerra, em Angola (a actual Namíbia era colónia alemã) e em França. Testemunhou os horrores da guerra; sentiu a perda de amigos e companheiros de armas. Por vezes, contava coisas que se tinham passado nas trincheiras. Imagino que deva ter ficado ressentido com os alemães.
Nesse verão, demoraram-se mais algum tempo na casa alugada para as férias antes de regressarem a Lisboa. Creio que ele temia que, após um eventual sucesso do exército alemão na União Soviética, Portugal pudesse vir a ser o alvo seguinte. Só no início de Novembro, quando o avanço alemão começou a perder o ímpeto, regressaram à vida normal em Lisboa.
O meu avô, um coronel-médico, tinha combatido na Primeira Grande Guerra, em Angola (a actual Namíbia era colónia alemã) e em França. Testemunhou os horrores da guerra; sentiu a perda de amigos e companheiros de armas. Por vezes, contava coisas que se tinham passado nas trincheiras. Imagino que deva ter ficado ressentido com os alemães.
Nesse verão, demoraram-se mais algum tempo na casa alugada para as férias antes de regressarem a Lisboa. Creio que ele temia que, após um eventual sucesso do exército alemão na União Soviética, Portugal pudesse vir a ser o alvo seguinte. Só no início de Novembro, quando o avanço alemão começou a perder o ímpeto, regressaram à vida normal em Lisboa.
segunda-feira, 21 de junho de 2004
Machado de Assis nasceu há 165 anos
Foi há dois anos que descobri Machado de Assis. Nas estantes do escritório do meu pai lá estavam alguns livros "a chamar por mim". Como na época podia usar transportes públicos para ir para o emprego, aproveitava o tempo da viagem em leituras. O primeiro volume que peguei foi um romance chamado Helena. O estilo fez-me lembrar o Eça. Helena é a história de dois jovens apaixonados que vão tendo cada vez mais suspeitas que são irmãos; quando decidem terminar a relação, descobrem que afinal não têm qualquer parentesco.
Depois peguei no D.Casmurro; uma história que nos leva a acreditar numa infidelidade apenas com base nas suspeitas do narrador. Seguiu-se Quincas Borba (o meu preferido!); trata-se da história de um homem que herda uma fortuna e vai enlouquecendo progressivamente; o seu único amigo verdadeiro é um cão; ao seu redor só existem "amigos" por interesse no dinheiro. Li ainda Memórias Póstumas de Brás Cubas; descreve a futilidade da vida de um indivíduo. Apesar de ser uma dos mais famosas obras do autor, não me fascinou.
Quem gosta de Eça, dificilmente deixará de gostar de Machado de Assis.
Mais informações sobre este autor estão disponíveis aqui no site da Academia Brasileira de Letras.
Aquelas dez mulheres de Shiraz
Quando em 1984 aceitei a Fé Bahá’í, falava-se muito em perseguições religiosas no Irão. Um dos alvos do fanatismo da revolução iraniana tinha sido a comunidade bahá’í daquele país (creio que aconteceu com praticamente todos os regimes); muitas famílias bahá’ís que tinham possibilidades, abandonavam o Irão e instalavam-se noutros países.
Entretanto as notícias que iam chegando do Irão eram uma torrente de angústias. A casa do Báb, em Shiraz, tinha sido destruída; os membros da Assembleia Nacional dos Bahá’ís do Irão tinham sido enforcados; cemitérios Bahá’ís eram profanados; crentes socialmente conhecidos eram raptados e fuzilados... Não havia boas notícias vindas do Irão.
Desde o início da revolução islâmica 1979 que os Bahá’ís no Irão eram alvo de perseguições sistematizadas; dezenas de milhar ficaram sem emprego, viram as suas pensões de reforma canceladas, as empresas eram confiscadas ou encerradas; jovens e crianças foram expulsos das escolas.
Foi no Irão que nasceu a Fé Bahá’í; A comunidade bahá’í do Irão constitui a maior minoria religiosa daquele país (350.000 pessoas). Há muito tempo que os fundamentalistas islâmicos viam a nova religião como uma heresia e uma ameaça à sociedade. Princípios Bahá’ís como a revelação progressiva, a livre e independente investigação da verdade, a igualdade de direitos e oportunidades para as mulheres e a necessidade de instrução escolar para toda a população são conceitos que irritam os clérigos muçulmanos
Um dos momentos mais dramáticos das perseguições que se seguiram à revolução, deu-se em Junho de 1983, as autoridade iranianas prenderam dez mulheres que leccionavam aulas bahá’ís para crianças (o equivalente à catequese, em Portugal). Estas mulheres foram sujeitas a intensos abusos físicos e mentais, sempre com o objectivo de as forçar a negar a sua fé. Tal como a maioria dos Bahá’ís que tinham sido presos, mantiveram-se firmes.
No dia 18 desse mês, essas dez mulheres bahá’ís foram enforcadas. Este acto foi particularmente chocante para os Bahá’ís, pois vulgarmente apenas os homens eram alvo de execuções. A mais nova dessas mulheres era uma adolescente de 16 anos; chamava-se Mona Mahmudnizhad. A história de Mona mereceu muita atenção mediática: vários livros publicados, foram publicados muitos artigos em revistas e jornais e até um videoclip descrevendo o seu martírio foi lançado (link).
Nos anos seguintes, a Comissão dos Direitos Humanos da ONU foi condenando repetidamente o Irão; no início dos anos 90 as perseguições perderam o seu carácter violento; mas as discriminações continuaram.
Após 25 anos de Revolução Islâmica, os mulláhs bem poderiam fazer um balanço das suas perseguições aos bahá’ís; por paradoxal que pareça, as perseguições no Irão contribuíram para que a religião bahá’í se tornasse mais conhecida em todo o mundo; muitos crentes iranianos se espalharam pelo mundo e estimularam fortemente o crescimento das comunidades bahá’ís em diversos países; e o tema das perseguições levou a que a Comunidade Bahá’í ficasse conhecida nos organismos internacionais.
Não tivessem existido perseguições no Irão, e ainda hoje a comunidade Bahá’í seria quase desconhecida.
Fotos das 10 mulheres.
Entretanto as notícias que iam chegando do Irão eram uma torrente de angústias. A casa do Báb, em Shiraz, tinha sido destruída; os membros da Assembleia Nacional dos Bahá’ís do Irão tinham sido enforcados; cemitérios Bahá’ís eram profanados; crentes socialmente conhecidos eram raptados e fuzilados... Não havia boas notícias vindas do Irão.
Desde o início da revolução islâmica 1979 que os Bahá’ís no Irão eram alvo de perseguições sistematizadas; dezenas de milhar ficaram sem emprego, viram as suas pensões de reforma canceladas, as empresas eram confiscadas ou encerradas; jovens e crianças foram expulsos das escolas.
Foi no Irão que nasceu a Fé Bahá’í; A comunidade bahá’í do Irão constitui a maior minoria religiosa daquele país (350.000 pessoas). Há muito tempo que os fundamentalistas islâmicos viam a nova religião como uma heresia e uma ameaça à sociedade. Princípios Bahá’ís como a revelação progressiva, a livre e independente investigação da verdade, a igualdade de direitos e oportunidades para as mulheres e a necessidade de instrução escolar para toda a população são conceitos que irritam os clérigos muçulmanos
Um dos momentos mais dramáticos das perseguições que se seguiram à revolução, deu-se em Junho de 1983, as autoridade iranianas prenderam dez mulheres que leccionavam aulas bahá’ís para crianças (o equivalente à catequese, em Portugal). Estas mulheres foram sujeitas a intensos abusos físicos e mentais, sempre com o objectivo de as forçar a negar a sua fé. Tal como a maioria dos Bahá’ís que tinham sido presos, mantiveram-se firmes.
No dia 18 desse mês, essas dez mulheres bahá’ís foram enforcadas. Este acto foi particularmente chocante para os Bahá’ís, pois vulgarmente apenas os homens eram alvo de execuções. A mais nova dessas mulheres era uma adolescente de 16 anos; chamava-se Mona Mahmudnizhad. A história de Mona mereceu muita atenção mediática: vários livros publicados, foram publicados muitos artigos em revistas e jornais e até um videoclip descrevendo o seu martírio foi lançado (link).
Nos anos seguintes, a Comissão dos Direitos Humanos da ONU foi condenando repetidamente o Irão; no início dos anos 90 as perseguições perderam o seu carácter violento; mas as discriminações continuaram.
Após 25 anos de Revolução Islâmica, os mulláhs bem poderiam fazer um balanço das suas perseguições aos bahá’ís; por paradoxal que pareça, as perseguições no Irão contribuíram para que a religião bahá’í se tornasse mais conhecida em todo o mundo; muitos crentes iranianos se espalharam pelo mundo e estimularam fortemente o crescimento das comunidades bahá’ís em diversos países; e o tema das perseguições levou a que a Comunidade Bahá’í ficasse conhecida nos organismos internacionais.
Não tivessem existido perseguições no Irão, e ainda hoje a comunidade Bahá’í seria quase desconhecida.
Fotos das 10 mulheres.
Aquelas dez mulheres de Shiraz
No vídeo há uma série de cenas que correspondem a momentos reais que foram testemunhados por diversas pessoas:
* Mona dava aulas para crianças quando foi presa; na prisão encontrou outras mulheres que também tinham sido presas.
* Uma das torturas a que foram sujeitas foi o espancamento da palma dos pés (no filme vê-se uma prisioneira a ser arrastada para a cela deixando pegadas de sangue).
* Quando eram levadas para o enforcamento, as mulheres iam cantando orações; o motorista não conseguiu conter as lágrimas.
* Mona foi a última a ser enforcada; beijou a corda antes de a colocar no pescoço.
sexta-feira, 18 de junho de 2004
Há 133 anos: o triunfo do Kaiser
No dia 18 de Junho de 1871 o exército alemão desfila em Berlim com grande aparato. O império alemão tem motivos para celebrar: depois da unificação em torno da Prússia, a França, a grande potência europeia liderada por Napoleão III, foi completamente derrotada numa guerra rápida. O recém proclamado Império Alemão parece ter todos os motivos para estar orgulhoso. O Kaiser Guilherme I é aclamado como "Deus da Guerra". Longe dali, numa remota prisão do Império Otomano, um nobre persa exilado adverte-o sobre a sua conduta; tal como já fizera com outros Reis e Governantes daquele tempo.
Guilherme Frederico Ludwig nasceu em 22 de Março de 1797, em Berlim. Era o segundo filho de Frederico Guilherme III da Prússia e da rainha Louise de Mecklenburg-Strelitz. Entrou no Exército prussiano em 1807 e serviu durante as guerras napoleónicas. Em 1829 casou com Augusta de Saxe-Weimar, de quem teve dois filhos. Após a ascensão ao trono do seu irmão Frederico Guilherme IV em 1840, Guilherme torna-se o primeiro na linha de sucessão. Em 1858, após o seu irmão ter sido declarado incapaz, Guilherme torna-se regente e três anos mais tarde sucede-lhe no trono. Crente firme no direito divino dos reis, declara na sua coroação que "governará por favor de Deus e de mais ninguém".
Em 1862, Guilherme nomeia Otto von Bismarck primeiro ministro; desde esse ano até à morte do imperador, o Bismarck guiaria os destinos da Prússia e da Alemanha. A oposição ao programa militar do Kaiser e do Bismarck é silenciada. É lançado um programa de unificação dos estados alemães sob liderança prussiana. A estratégia de unificação passa por uma guerra com a Dinamarca em 1864 (por causa de Schleswig-Holstein) e com a Áustria em 1866. Durante a guerra Franco-Prussiana (1870-71), o Kaiser assume o comando da guerra e recebe pessoalmente a rendição de Napoleão III em Sedan. É proclamado imperador alemão na Sala dos Espelhos do Palácio de Versalhes, em 1871, enquanto as tropas alemãs cercam Paris
Durante o seu reinado, Guilherme nem sempre concordava com as políticas do Bismarck; alguns historiadores dizem que se deixava convencer pelo seu Chanceler. Apesar de concordar com as políticas militaristas, Guilherme I não concordou com a Kulturkampf (a luta do Bismarck contra a Igreja Católica Romana) mas deu-lhe um consentimento tácito. As suas políticas militaristas e antidemocráticas valeram-lhe o ódio de grupos radicais; em 1878 foi alvo de dois atentados.
Faleceu em Berlim, em 9 de Março de 1888. Sucedeu-lhe o filho, Frederico III.
A EPÍSTOLA DE BAHÁ'U'LLÁH AO KAISER
O Kaiser Guilherme I foi um dos governantes europeus para quem Bahá'u'lláh revelou uma epístola (não descobri a data exacta em que foi revelada, mas creio ter sido por volta de 1870).Tal como a outros governantes, anuncia-lhe o aparecimento de uma nova revelação divina, e aconselha-o na condução da governação. Chama-lhe a atenção para o destino de Napoleão III (a quem Bahá'u'lláh enviara duas epístolas) e para o destino de todos os governantes despóticos. Por fim, profetiza duas derrotas da Alemanha.
Ó Rei de Berlim! Dá ouvidos à Voz que chama deste Templo manifesto: - Em verdade, não há outro Deus senão Eu, o Eterno, o Incomparável, o Ancião dos Dias. Acautela-te para que o orgulho não te impeça de reconhecer a Aurora da Revelação Divina, nem os desejos terrenos te excluam, como se o fosse por um véu do Senhor do Trono no alto e da terra em baixo. Assim te aconselha a Pena do Altíssimo. Ele, em verdade, é o Mais Misericordioso, o Todo-Generoso. Lembra-te daquele cujo poder transcendeu o teu poder (Napoleão III), e cuja posição era superior à tua posição! Onde está ele? Onde foram as coisas que ele possuía? Fica avisado, e não sejas dos que estão profundamente adormecidos. Ele foi quem lançou para trás de si a Epistola de Deus quando Nós o informamos daquilo que as hostes da tirania Nos fizeram sofrer. Por isso a desgraça o atacou de todos os lados e, com grande perda, ele se baixou ao pó. Pondera, ó Rei, sobre ele e sobre os outros que, como tu, venceram cidades e dominaram os homens. 0 Todo-Misericordioso fê-los descerem dos seus palácios às suas sepulturas. Sê advertido, sê dos que reflectem... Ó margens do Reno! Nós vos vimos cobertas de sangue, porque as espadas da retribuição foram desembainhadas contra vós; e tê-la-eis ainda outra vez. E ouvimos as lamentações de Berlim, apesar de hoje estar em glória conspícua.
O texto em inglês desta epístola encontra-se aqui.
Em 1862, Guilherme nomeia Otto von Bismarck primeiro ministro; desde esse ano até à morte do imperador, o Bismarck guiaria os destinos da Prússia e da Alemanha. A oposição ao programa militar do Kaiser e do Bismarck é silenciada. É lançado um programa de unificação dos estados alemães sob liderança prussiana. A estratégia de unificação passa por uma guerra com a Dinamarca em 1864 (por causa de Schleswig-Holstein) e com a Áustria em 1866. Durante a guerra Franco-Prussiana (1870-71), o Kaiser assume o comando da guerra e recebe pessoalmente a rendição de Napoleão III em Sedan. É proclamado imperador alemão na Sala dos Espelhos do Palácio de Versalhes, em 1871, enquanto as tropas alemãs cercam Paris
Durante o seu reinado, Guilherme nem sempre concordava com as políticas do Bismarck; alguns historiadores dizem que se deixava convencer pelo seu Chanceler. Apesar de concordar com as políticas militaristas, Guilherme I não concordou com a Kulturkampf (a luta do Bismarck contra a Igreja Católica Romana) mas deu-lhe um consentimento tácito. As suas políticas militaristas e antidemocráticas valeram-lhe o ódio de grupos radicais; em 1878 foi alvo de dois atentados.
Faleceu em Berlim, em 9 de Março de 1888. Sucedeu-lhe o filho, Frederico III.
A EPÍSTOLA DE BAHÁ'U'LLÁH AO KAISER
O Kaiser Guilherme I foi um dos governantes europeus para quem Bahá'u'lláh revelou uma epístola (não descobri a data exacta em que foi revelada, mas creio ter sido por volta de 1870).Tal como a outros governantes, anuncia-lhe o aparecimento de uma nova revelação divina, e aconselha-o na condução da governação. Chama-lhe a atenção para o destino de Napoleão III (a quem Bahá'u'lláh enviara duas epístolas) e para o destino de todos os governantes despóticos. Por fim, profetiza duas derrotas da Alemanha.
Ó Rei de Berlim! Dá ouvidos à Voz que chama deste Templo manifesto: - Em verdade, não há outro Deus senão Eu, o Eterno, o Incomparável, o Ancião dos Dias. Acautela-te para que o orgulho não te impeça de reconhecer a Aurora da Revelação Divina, nem os desejos terrenos te excluam, como se o fosse por um véu do Senhor do Trono no alto e da terra em baixo. Assim te aconselha a Pena do Altíssimo. Ele, em verdade, é o Mais Misericordioso, o Todo-Generoso. Lembra-te daquele cujo poder transcendeu o teu poder (Napoleão III), e cuja posição era superior à tua posição! Onde está ele? Onde foram as coisas que ele possuía? Fica avisado, e não sejas dos que estão profundamente adormecidos. Ele foi quem lançou para trás de si a Epistola de Deus quando Nós o informamos daquilo que as hostes da tirania Nos fizeram sofrer. Por isso a desgraça o atacou de todos os lados e, com grande perda, ele se baixou ao pó. Pondera, ó Rei, sobre ele e sobre os outros que, como tu, venceram cidades e dominaram os homens. 0 Todo-Misericordioso fê-los descerem dos seus palácios às suas sepulturas. Sê advertido, sê dos que reflectem... Ó margens do Reno! Nós vos vimos cobertas de sangue, porque as espadas da retribuição foram desembainhadas contra vós; e tê-la-eis ainda outra vez. E ouvimos as lamentações de Berlim, apesar de hoje estar em glória conspícua.
O texto em inglês desta epístola encontra-se aqui.
quinta-feira, 17 de junho de 2004
Crianças abandonadas na Nigéria
Todos os dias são abandonadas em média 15 crianças na capital da Nigéria.
A maior parte tem deficiências físicas. Uns morrem antes de serem recolhidos por algum orfanato; outros conseguem ser adoptados. Uma foto-reportagem da BBC que nos mostra um pouco deste mundo das crianças salvas das ruas de Lagos.
A maior parte tem deficiências físicas. Uns morrem antes de serem recolhidos por algum orfanato; outros conseguem ser adoptados. Uma foto-reportagem da BBC que nos mostra um pouco deste mundo das crianças salvas das ruas de Lagos.
quarta-feira, 16 de junho de 2004
Pio IX foi eleito há 158 anos
Há 158 anos, no dia 16 de Junho, Pio IX era eleito Papa. O seu papado – o mais longo da história – seria marcado por uma série de episódios que marcariam profundamente o destino da Igreja Católica. Este Papa encontra-se entre os governantes do séc. XIX a quem Bahá'ú'lláh enviou epístolas.__________________
Giovanni Maria Mastai-Ferretti nasceu em 13 de Maio de 1792. Foi ordenado sacerdote em 1819; tornou-se arcebispo de Spoleto em 1827; foi nomeado cardeal em 1840 pelo Papa Gregório XVI, a quem viria a suceder em 1846.
O primeiro ano do seu pontificado foi marcado por reformas políticas na administração dos Estados Papais. A constituição então publicada satisfazia algumas exigências de representação popular; mas não foi suficiente para acalmar a vaga de nacionalismo que alastrava pela Itália. A revolução de 1848 leva o Papa a refugiar-se em Gaeta, no Reino de Nápoles. Dois anos mais tarde, a recém-criada República Romana é dissolvida após uma intervenção francesa; Pio IX começa então a alinhar-se com a oposição ao liberalismo político e eclesiástico.
Pio IX defendeu sempre o controlo da ciência, educação e cultura nos Estados Papais, e resistiu vigorosamente às exigências de criação de um governo constitucional e à unificação da Itália. Numa bula publicada em 1854, proclamou o dogma da Imaculada Concepção. Em 1864 publicou a encíclica Quanta Cura acompanhada de uma lista condenatória de oitenta erros, entre os quais a crença de que o próprio Papa se devia
reconciliar com o "progresso, liberalismo e civilização moderna". Apoiou o Ultramontanismo, uma doutrina que, entre outras coisas, proclamava a autoridade papal sobre a igreja internacional. O triunfo desta doutrina no Primeiro Concílio do Vaticano (1869-70) resultou na proclamação da infalibilidade papal.O poder temporal do Papado ficara muito diminuído em 1860, quando o novo Reino de Itália absorveu todo os territórios dos Estados Papais com excepção de Roma. Esse poder temporal termina definitivamente em 1870, após a queda de Napoleão III, quando as tropas francesas, que protegiam o domínio papal, se retiram, e a cidade de Roma se tornou capital de uma Itália unida.
Pio IX recusou assinar o Acto Parlamentar de 1871 que definia as relações entre o Papado e o governo Italiano, e retirou-se para o Vaticano. Ali permaneceu até à sua morte em 7 de Fevereiro de 1878, considerando-se um prisioneiro na sua cela. O mesmo fizeram os seus sucessores até à conclusão do Tratado de Laterano, em 1929; neste tratado definia-se, entre outras coisas o estatuto da Cidade do Vaticano.
O seu papado foi o mais longo da história. Foi sucedido por Leão XIII. No ano 2000, Pio IX foi beatificado por João Paulo II.
A EPÍSTOLA AO PAPA
Como já escrevi noutros posts, Bahá'u'lláh dirigiu epistolas aos mais importantes governantes do seu tempo. Pio IX foi um desses governantes. A Epístola ao Papa (Lawh-i-Páp) foi revelada em árabe entre 1868 e 1869; à semelhança de outras epístolas a Reis e Governantes, o seu tom é claramente autoritário e majestático. Nela Bahá'u'lláh anuncia numa linguagem inequívoca o retorno de Cristo na Glória do Pai. As analogias entre o Papa e os doutores judeus que condenaram Jesus, sucedem-se; incluem-se também várias exortações para que o Papa seja um exemplo de virtude entre os cristãos.
Ó PAPA ! Rasga os véus. Aquele que é o Senhor dos Senhores veio envolto em nuvens e Deus, o Todo-Poderoso, o Independente, cumpriu o Seu decreto… Ele, em verdade, desceu novamente do Céu tal como desceu da primeira vez. Acautela-te para não argumentar com Ele como fizeram os fariseus com Ele (Jesus) sem qualquer sinal ou prova evidente(...)...lembra-te Daquele que foi o Espirito (Jesus), que quando veio, os maiores doutores do Seu tempo O condenaram no Seu próprio país. Mas aquele que era apenas um pescador acreditou Nele.(...)Considera aqueles que se opuseram ao Filho (Jesus), quando Ele veio até eles com soberania e poder. Quantos fariseus que esperavam poder contemplá-Lo e se lamentavam de estarem separados Dele! E, no entanto, quando a fragrância da Sua vinda soprou sobre eles, e a Sua beleza se desvelou, afastaram-se Dele e discutiram com Ele... Ninguém voltou a face para Ele, com excepção alguns que eram destituídos de poder entre os homens.(...)Ó Pontífice Supremo! Dá ouvidos ao que te aconselha Aquele que molda os ossos que se desfazem em pó, pela voz Daquele que é o Seu Mais Grandioso Nome. Vende todos os ornamentos elaborados que possuis e gasta-os no caminho de Deus, Aquele que faz a noite suceder ao dia e o dia suceder à noite. Abandona o teu reino aos reis, e sai do teu lar, com tua face voltada para o Reino, e, desprendido do mundo, proclama os louvores de Deus entre o céu e a terra. Assim te ordena Aquele que é o Possuidor dos Nomes, por parte do teu Senhor, o Omnipotente, o Omnisciente. Exorta os reis e diz: "Tratai os homens com equidade. Acautelai-vos para não transgredires os limites fixados no Livro". Isto na verdade, convém-te.Quanto ao destino desta epístola, apenas sabemos que foi entregue no Vaticano; não sabemos se o próprio Pio IX a leu, ou se alguém a terá traduzido para o Papa. O texto completo desta epístola encontra-se aqui (em inglês)
________________________
NOTAS / LINKS
Encyclopedia Britannica - Biografia de Pio IX (link)
The Revelation of Bahá'u'lláh, vol III, Adib Taherzadeh, pags 116-118
Site Oficial do Vaticano sobre Pio IX (link)
Site Italiano sobre Pio IX (link)
segunda-feira, 14 de junho de 2004
Fradique Mendes e o Bábismo
O nosso Eça de Queirós, esse grande senhor da literatura portuguesa e notável crítico social foi a primeira pessoa no nosso país a referir a Fé Bahá'í. N’A Correspondência de Fradique Mendes encontramos uma curiosa referência ao Báb (o profeta precursor de Bahá'u'lláh) e ao Bábismo. Os Queirosianos dirão melhor do que eu que importância tem o Fradique Mendes (É uma projecção da personalidade de Eça? Um ideal de cidadão português? Um personagens criado para criticar a sociedade portuguesa da época?).
Alguns investigadores Bahá’ís já se dedicaram a tentar perceber onde seria que o escritor português teria sabido da existência do Báb. Alguns apontam a viagem ao Egipto [entre Outubro 1869 a Janeiro 1870] (Eça esteve presente na inauguração do Canal do Suez); outro referem a revista francesa Revue des Deux Mondes ou o jornal The Times de Londres. Uma outra possibilidade seria o livro do Conde Gobineau, Les Religions et Philosophies dans l’Asie Centrale (1865).
Vejamos então o texto:
Então, com a familiaridade que se ia entre nós acentuando, perguntei a Fradique o que o detivera assim na Pérsia um ano inteiro e um dia como nos contos de fadas. E Fradique, com toda a singeleza, confessou que se demorara tanto nas margens do Eufrates, por se achar casualmente ligado a um movimento religioso que, desde 1849, tomava na Pérsia um desenvolvimento quase triunfal, e que se chamava o Babismo. Atraído para essa nova seita, por curiosidade crítica, para observar como nasce e se funda uma religião, chegara pouco a pouco a ganhar pelo Babismo um interesse militante--não por admiração da doutrina, mas por veneração dos apóstolos. O Babismo (contou-me ele, seguindo por uma viela mais solitária e favorável as confidências), tivera por iniciador certo Mirza-Mohamed, um desses Messias que cada dia surgem na incessante fermentação religiosa do Oriente, onde a religião é a ocupação suprema e querida da vida. Tendo conhecido os Evangelhos Cristãos por contacto com os missionários; iniciado na pura tradição mosaísta pelos judeus do Hiraz; sabedor profundo do guebrismo, a velha religião nacional da Pérsia -- Mirza-Mohamed amalgamara estas doutrinas com uma concepção mais abstracta e pura do Maometismo, e declarara-se Bab . Em persa Bab quer dizer Porta . Ele era, pois, a porta --a única porta através da qual os homens poderiam jamais penetrar na absoluta Verdade. Mais literalmente, Mirza-Mohamed apresentava-se como o grande porteiro , o homem eleito entre todos pelo Senhor para abrir aos crentes a porta da Verdade--e portanto do Paraíso. Em resumo era um Messias, um Cristo. Como tal atravessou a clássica evolução dos Messias: teve por primeiros discípulos, numa aldeia obscura, pastores e mulheres: sofreu a sua tentação na montanha: cumpriu as penitências expiadoras: pregou parábolas: escandalizou em Meca os doutores: e padeceu a sua paixão, morrendo, não me lembro se degolado, se fuzilado, depois do jejum do Ramadão, em Tabriz.
(...)
Assim conversando, penetrámos no adro da mesquita de El-Azhar, onde mais fulgurante e estridente tumultuava a festa do Beiram. Mas já não me prendiam as surpresas daquele arraial muçulmano--nem almées dançando entre brilhos de vermelho e de ouro; nem poetas do deserto recitando as façanhas de Antar; nem Dervíxes, sob as suas tendas de linho, uivando em cadência os louvores de Alá... Calado, invadido pelo pensamento do Bab, revolvia comigo o confuso desejo de me aventurar nessa campanha espiritual! Se eu partisse para Tebas com Fradique?... Por que não? Tinha a mocidade, tinha o entusiasmo. Mais viril e nobre seria encetar no Oriente uma carreira de evangelista, que banalmente recolher à banal Lisboa, a escrevinhar tiras de papel, sob um bico de gás, na Gazeta de Portugal ! E pouco a pouco deste desejo, como duma água que ferve, ia subindo o vapor lento duma visão. Via-me discípulo do Bab-- recebendo nessa noite, do ulema de Bagdade, a iniciação da Verdade. E partia logo a pregar, a espalhar o verbo babista. Onde iria? A Portugal certamente, levando de preferência a salvação às almas que me eram mais caras. Como S. Paulo, embarcava numa galera: as tormentas assaltavam a minha proa apostólica: a imagem do Bab aparecia-me sobre as águas, e o seu sereno olhar enchia minha alma de fortaleza indomável. Um dia, por fim, avistava terra, e na manhã clara sulcava o claro Tejo, onde há tantos séculos não entra um enviado de Deus. Logo de longe lançava uma injúria às igrejas de Lisboa, construções duma Fé vetusta e menos pura. Desembarcava. E, abandonando as minhas bagagens, num desprendimento já divino de bens ainda terrestres, galgava aquela bendita Rua do Alecrim, e em meio do Loreto, à hora em que os Directores Gerais sobem devagar da Arcada, abria os braços e bradava: «Eu sou a Porta!»
Nota em forma de link.
Alguns investigadores Bahá’ís já se dedicaram a tentar perceber onde seria que o escritor português teria sabido da existência do Báb. Alguns apontam a viagem ao Egipto [entre Outubro 1869 a Janeiro 1870] (Eça esteve presente na inauguração do Canal do Suez); outro referem a revista francesa Revue des Deux Mondes ou o jornal The Times de Londres. Uma outra possibilidade seria o livro do Conde Gobineau, Les Religions et Philosophies dans l’Asie Centrale (1865).
Vejamos então o texto:
Então, com a familiaridade que se ia entre nós acentuando, perguntei a Fradique o que o detivera assim na Pérsia um ano inteiro e um dia como nos contos de fadas. E Fradique, com toda a singeleza, confessou que se demorara tanto nas margens do Eufrates, por se achar casualmente ligado a um movimento religioso que, desde 1849, tomava na Pérsia um desenvolvimento quase triunfal, e que se chamava o Babismo. Atraído para essa nova seita, por curiosidade crítica, para observar como nasce e se funda uma religião, chegara pouco a pouco a ganhar pelo Babismo um interesse militante--não por admiração da doutrina, mas por veneração dos apóstolos. O Babismo (contou-me ele, seguindo por uma viela mais solitária e favorável as confidências), tivera por iniciador certo Mirza-Mohamed, um desses Messias que cada dia surgem na incessante fermentação religiosa do Oriente, onde a religião é a ocupação suprema e querida da vida. Tendo conhecido os Evangelhos Cristãos por contacto com os missionários; iniciado na pura tradição mosaísta pelos judeus do Hiraz; sabedor profundo do guebrismo, a velha religião nacional da Pérsia -- Mirza-Mohamed amalgamara estas doutrinas com uma concepção mais abstracta e pura do Maometismo, e declarara-se Bab . Em persa Bab quer dizer Porta . Ele era, pois, a porta --a única porta através da qual os homens poderiam jamais penetrar na absoluta Verdade. Mais literalmente, Mirza-Mohamed apresentava-se como o grande porteiro , o homem eleito entre todos pelo Senhor para abrir aos crentes a porta da Verdade--e portanto do Paraíso. Em resumo era um Messias, um Cristo. Como tal atravessou a clássica evolução dos Messias: teve por primeiros discípulos, numa aldeia obscura, pastores e mulheres: sofreu a sua tentação na montanha: cumpriu as penitências expiadoras: pregou parábolas: escandalizou em Meca os doutores: e padeceu a sua paixão, morrendo, não me lembro se degolado, se fuzilado, depois do jejum do Ramadão, em Tabriz.
(...)
Assim conversando, penetrámos no adro da mesquita de El-Azhar, onde mais fulgurante e estridente tumultuava a festa do Beiram. Mas já não me prendiam as surpresas daquele arraial muçulmano--nem almées dançando entre brilhos de vermelho e de ouro; nem poetas do deserto recitando as façanhas de Antar; nem Dervíxes, sob as suas tendas de linho, uivando em cadência os louvores de Alá... Calado, invadido pelo pensamento do Bab, revolvia comigo o confuso desejo de me aventurar nessa campanha espiritual! Se eu partisse para Tebas com Fradique?... Por que não? Tinha a mocidade, tinha o entusiasmo. Mais viril e nobre seria encetar no Oriente uma carreira de evangelista, que banalmente recolher à banal Lisboa, a escrevinhar tiras de papel, sob um bico de gás, na Gazeta de Portugal ! E pouco a pouco deste desejo, como duma água que ferve, ia subindo o vapor lento duma visão. Via-me discípulo do Bab-- recebendo nessa noite, do ulema de Bagdade, a iniciação da Verdade. E partia logo a pregar, a espalhar o verbo babista. Onde iria? A Portugal certamente, levando de preferência a salvação às almas que me eram mais caras. Como S. Paulo, embarcava numa galera: as tormentas assaltavam a minha proa apostólica: a imagem do Bab aparecia-me sobre as águas, e o seu sereno olhar enchia minha alma de fortaleza indomável. Um dia, por fim, avistava terra, e na manhã clara sulcava o claro Tejo, onde há tantos séculos não entra um enviado de Deus. Logo de longe lançava uma injúria às igrejas de Lisboa, construções duma Fé vetusta e menos pura. Desembarcava. E, abandonando as minhas bagagens, num desprendimento já divino de bens ainda terrestres, galgava aquela bendita Rua do Alecrim, e em meio do Loreto, à hora em que os Directores Gerais sobem devagar da Arcada, abria os braços e bradava: «Eu sou a Porta!»
Nota em forma de link.
Eça de Queirós
Em Portugal, a primeira referência à religião Bahá'í foi feita na obra A Correspondência de Fradique Mendes, de Eça de Queirós.
O meu texto hoje está nas Terras da Alegria e aborda este assunto.
Como sempre, podem comentar aqui.
O meu texto hoje está nas Terras da Alegria e aborda este assunto.
Como sempre, podem comentar aqui.
sábado, 12 de junho de 2004
Na próxima segunda-feira...
Sei que a essa hora estou a trabalhar e por isso... lá tenho eu que ir à procura do manual do vídeo para programar aquilo!
sexta-feira, 11 de junho de 2004
Crianças Malditas
Há uma fábula que nos conta que um lobo e o cordeiro bebiam água do mesmo riacho quando o lobo percebeu a presença do cordeiro. O lobo começou então a ralhar com o cordeiro; se ele bebia a água do mesmo riacho, então, a água ficava suja. O cordeiro respondeu que tal não era possível, pois ele estava a beber num local mais abaixo do que o lobo. A isto o lobo respondeu que a água que ele queria beber estava suja; e se o culpado não era aquele cordeiro, então era o pai dele. E com esse argumento, matou e comeu o cordeiro.
No canal história tem sido exibido periodicamente um documentário sobre filhos de soldados alemães que estiveram estacionados na Noruega durante a 2ª Guerra Mundial. Algumas dessas crianças foram geradas no âmbito de um programa de expansão da "raça ariana". Após a guerra a maioria dessas crianças viveram um verdadeiro calvário; algumas foram internadas em colégios especiais; foram sujeitas a variados abusos. Socialmente foram sempre rejeitadas. A maioria quando atingiu a idade adulta, tornaram-se pessoas psicologicamente instáveis; o alcoolismo, a depressão e o suicídio atingiram dimensões muito significativas entre eles.
Na prática, esta geração de crianças pagou pelos erros dos seus pais, ou dos dirigentes políticos do país dos seus pais.
Recentemente foi publicado um livro sobre filhos dos soldados alemães que ficaram em França. Tal como as crianças norueguesas, também estas foram o alvo da vingança de uma sociedade castigada pela ocupação alemã. Estima-se que em França entre 1941 e 1945 tenham nascido 200.000 crianças de mãe francesa e pai alemão.
Algumas destas crianças ainda receberam alguma ajuda dos pais alemães; outras conheciam-lhe apenas o nome e procuraram-no na Alemanha; em França, nos anos após a guerra era muito complicados ser filho de pai incógnito e ter cabelo loiro. Se as mães tinham sido presas, as crianças eram entregues a famílias de acolhimento.
Uma dessas crianças conta como sempre esperava ver o seu pai e desejava saber coisas da Alemanha. Quando encontrava algum turista na rua, perguntava: "Deutsch ? Mein vater ist deutsch" ("Alemão? O meu pai é alemão"); nalguns casos mais felizes deu-se o reencontro com os meio-irmãos na Alemanha.
Regra geral, as mães e avós proibiam estes filhos de sair e brincar com outras crianças; queria protegê-los da violência (física e verbal) e nalguns casos proteger a família da vergonha. Os efeitos psicológicos da humilhação e da rejeição foram muito profundos nestas crianças e ainda se fazem sentir.
Os pais destas crianças foram, na maioria, amados por mulheres francesas; um amor maldito (para os valores da sociedade da época ) cujo fruto foram também umas “crianças malditas”.
No canal história tem sido exibido periodicamente um documentário sobre filhos de soldados alemães que estiveram estacionados na Noruega durante a 2ª Guerra Mundial. Algumas dessas crianças foram geradas no âmbito de um programa de expansão da "raça ariana". Após a guerra a maioria dessas crianças viveram um verdadeiro calvário; algumas foram internadas em colégios especiais; foram sujeitas a variados abusos. Socialmente foram sempre rejeitadas. A maioria quando atingiu a idade adulta, tornaram-se pessoas psicologicamente instáveis; o alcoolismo, a depressão e o suicídio atingiram dimensões muito significativas entre eles.
Na prática, esta geração de crianças pagou pelos erros dos seus pais, ou dos dirigentes políticos do país dos seus pais.
Algumas destas crianças ainda receberam alguma ajuda dos pais alemães; outras conheciam-lhe apenas o nome e procuraram-no na Alemanha; em França, nos anos após a guerra era muito complicados ser filho de pai incógnito e ter cabelo loiro. Se as mães tinham sido presas, as crianças eram entregues a famílias de acolhimento.
Uma dessas crianças conta como sempre esperava ver o seu pai e desejava saber coisas da Alemanha. Quando encontrava algum turista na rua, perguntava: "Deutsch ? Mein vater ist deutsch" ("Alemão? O meu pai é alemão"); nalguns casos mais felizes deu-se o reencontro com os meio-irmãos na Alemanha.
Regra geral, as mães e avós proibiam estes filhos de sair e brincar com outras crianças; queria protegê-los da violência (física e verbal) e nalguns casos proteger a família da vergonha. Os efeitos psicológicos da humilhação e da rejeição foram muito profundos nestas crianças e ainda se fazem sentir.
Os pais destas crianças foram, na maioria, amados por mulheres francesas; um amor maldito (para os valores da sociedade da época ) cujo fruto foram também umas “crianças malditas”.
quarta-feira, 9 de junho de 2004
Bocas
Quando se é diferente, está-se sujeito a ouvir “bocas”. Ter alguma característica que pareça fugir a uma normalidade implicitamente convencionada, torna a pessoa alvo de “bocas”. De alguma forma todos nós tivemos na escola algum colega muito alto (a que chamávamos "girafa") ou um colega gordo (a que chamávamos "baleia").
Quando se é Bahá'í também se está sujeito a ouvir "bocas". A primeira é, inevitavelmente, porque os Bahá’ís não tomam bebidas alcoólicas. A segunda porque jejuamos durante 19 dias antes do ano novo. Essas devem ser as duas principais características que sobressaem à primeira vista no nosso comportamento.
Mas uma "boca" vinda de um amigo é apenas um comentário jocoso; não tem de ser necessariamente uma provocação ou um comentário agressivo ou de discriminação. Há que ter um pouco de bom senso e perceber o tom da brincadeira.
Quando vivia em casa dos meus pais, e algum amigo bahá'í me visitava, o meu pai gostava de perguntar "Aceita um licorzinho?". A resposta era um educado "Não obrigado, eu não bebo". Ao que meu pai retorquia: "Eu sei que não bebe. Só queria ver se resistia à tentação". E sorria.
Ainda em casa dos meus pais, no período do jejum (19 dias sem comer, nem beber, do nascer ao pôr do sol) recebi a alcunha de "predador nocturno". O meu pai apenas me via comer à noite e dizia para todos que quando eu jejuava não sabia o que ia encontrar na manhã seguinte no frigorífico.
Mais recentemente, e já na nossa própria casa, recebemos uns amigos que nos visitaram pela primeira vez. Ao verem a fotografia de 'Abdu'l-Bahá um deles não resistiu a mandar a sua boca: "Aha! Este gajo tem aqui a foto do Bin Laden!...". A boca não me caiu bem. Tratei logo de explicar que uma pessoa não tem nada a ver com a outra , e contei quem tinha sido 'Abdu'l-Bahá. Antes de saírem os nossos amigos olharam novamente a foto e comentaram: "Por acaso, até não é nada parecido..."
Nos tempos que correm este é o tipo de comentário que incomoda. Receio que este tipo de confusões e a semelhança de sonoridade de algumas palavras árabes (baas com bahá'í, por exemplo) possam vir a trazer alguns incómodos aos membros da nossa comunidade.
Quando se é Bahá'í também se está sujeito a ouvir "bocas". A primeira é, inevitavelmente, porque os Bahá’ís não tomam bebidas alcoólicas. A segunda porque jejuamos durante 19 dias antes do ano novo. Essas devem ser as duas principais características que sobressaem à primeira vista no nosso comportamento.
Mas uma "boca" vinda de um amigo é apenas um comentário jocoso; não tem de ser necessariamente uma provocação ou um comentário agressivo ou de discriminação. Há que ter um pouco de bom senso e perceber o tom da brincadeira.
Quando vivia em casa dos meus pais, e algum amigo bahá'í me visitava, o meu pai gostava de perguntar "Aceita um licorzinho?". A resposta era um educado "Não obrigado, eu não bebo". Ao que meu pai retorquia: "Eu sei que não bebe. Só queria ver se resistia à tentação". E sorria.
Ainda em casa dos meus pais, no período do jejum (19 dias sem comer, nem beber, do nascer ao pôr do sol) recebi a alcunha de "predador nocturno". O meu pai apenas me via comer à noite e dizia para todos que quando eu jejuava não sabia o que ia encontrar na manhã seguinte no frigorífico.
Mais recentemente, e já na nossa própria casa, recebemos uns amigos que nos visitaram pela primeira vez. Ao verem a fotografia de 'Abdu'l-Bahá um deles não resistiu a mandar a sua boca: "Aha! Este gajo tem aqui a foto do Bin Laden!...". A boca não me caiu bem. Tratei logo de explicar que uma pessoa não tem nada a ver com a outra , e contei quem tinha sido 'Abdu'l-Bahá. Antes de saírem os nossos amigos olharam novamente a foto e comentaram: "Por acaso, até não é nada parecido..."
Nos tempos que correm este é o tipo de comentário que incomoda. Receio que este tipo de confusões e a semelhança de sonoridade de algumas palavras árabes (baas com bahá'í, por exemplo) possam vir a trazer alguns incómodos aos membros da nossa comunidade.
terça-feira, 8 de junho de 2004
Uganda: as crianças...
Uma gota de esperança num mar de sofrimento? O primeiro passo de uma longa caminhada de pacificação?
Uma foto-reportagem da BBC mostra um grupo de crianças ugandesas raptadas pelos rebeldes LRA (Lord Resistance Army). Estas crianças eram forçadas a combater ou a servir como escravas sexuais. Ao abrigo de um programa de amnistia, algumas crianças abandonaram o LRA e regressaram às suas famílias. O momento do reencontro teve uma enorme intensidade emocional.
Uma foto-reportagem da BBC mostra um grupo de crianças ugandesas raptadas pelos rebeldes LRA (Lord Resistance Army). Estas crianças eram forçadas a combater ou a servir como escravas sexuais. Ao abrigo de um programa de amnistia, algumas crianças abandonaram o LRA e regressaram às suas famílias. O momento do reencontro teve uma enorme intensidade emocional.
segunda-feira, 7 de junho de 2004
Cinema
Segundo os ensinamentos bahá’ís, os profetas de Deus estão num plano de existência superior ao nosso; podem ter uma aparência humana, mas há algo mais de supra-humano que Deus os dotou que não é compreensível para nós.
O simples facto de estar na presença de um Profeta pode afectar de múltiplas formas qualquer ser humano normal. As palavras do orientalista britânico E.G. Browne, ao descrever o seu encontro com Bahá’u’lláh , exemplificam as dificuldades humanas para descrever um Manifestante de Deus:
"Embora suspeitasse vagamente para onde ia e com quem havia de estar (pois nenhuma informação clara me fora dada), passaram-se um ou dois segundos antes que eu, palpitante de admiração e reverência, me certificasse de que a sala não estava deserta... Jamais me esquecerei da fisionomia daquele a Quem olhava, embora não possa descrevê-la. Aqueles olhos penetrantes pareciam ler-nos a própria alma... Não me foi preciso perguntar em cuja presença estava, enquanto me curvei diante Daquele que é objecto de uma devoção e um amor que os reis poderiam invejar e os imperadores almejar em vão!"
Uma voz serena e digna disse para me sentar e prosseguiu: "Louvor a Deus por teres chegado!... Vieste ver um prisioneiro e um exilado... Só desejamos o bem-estar do mundo e a felicidade das nações. Que todas as nações se unam na mesma fé e todos os homens se tornem irmãos; que se fortaleçam os laços de afecto e união entre os filhos dos homens, que cesse a divergência de religião e se anulem as diferenças de raça. Que mal há nisso? E assim há de ser: essas lutas infrutíferas, essas guerras ruinosas passarão e a Maior Paz virá. ... Não se vanglorie o homem por amar a pátria; antes, tenha ele glória em amar sua espécie."
Estas nossas dificuldades e limitações, condicionam sempre qualquer descrição ou representação que pretendamos fazer de um Profeta. Assim, qualquer filme ou representação que se faça sobre a vida de um Mensageiro de Deus, será sempre falho, e condicionado pelas nossas limitações para compreender a Sua essência. Mesmo por uma questão de respeito, talvez fosse melhor não Os representarmos.
Claro que o audio-visual tem uma força enorme na nossa sociedade, e o cinema é uma arte muito atraente. Quem pode resistir a um bom filme? Eu próprio tenho "Os Dez Mandamentos" e gostaria de ter um filme sobre a vida de Jesus. Ouvi até falar de um filme sobre a vida de Maomé, em que este não é retratado (não aparece a face)...
É assim que facilmente constato uma das minhas contradições: apesar de não gostar que se façam filmes sobre os Mensageiros de Deus, não resisto a vê-los.
O simples facto de estar na presença de um Profeta pode afectar de múltiplas formas qualquer ser humano normal. As palavras do orientalista britânico E.G. Browne, ao descrever o seu encontro com Bahá’u’lláh , exemplificam as dificuldades humanas para descrever um Manifestante de Deus:
"Embora suspeitasse vagamente para onde ia e com quem havia de estar (pois nenhuma informação clara me fora dada), passaram-se um ou dois segundos antes que eu, palpitante de admiração e reverência, me certificasse de que a sala não estava deserta... Jamais me esquecerei da fisionomia daquele a Quem olhava, embora não possa descrevê-la. Aqueles olhos penetrantes pareciam ler-nos a própria alma... Não me foi preciso perguntar em cuja presença estava, enquanto me curvei diante Daquele que é objecto de uma devoção e um amor que os reis poderiam invejar e os imperadores almejar em vão!"
Uma voz serena e digna disse para me sentar e prosseguiu: "Louvor a Deus por teres chegado!... Vieste ver um prisioneiro e um exilado... Só desejamos o bem-estar do mundo e a felicidade das nações. Que todas as nações se unam na mesma fé e todos os homens se tornem irmãos; que se fortaleçam os laços de afecto e união entre os filhos dos homens, que cesse a divergência de religião e se anulem as diferenças de raça. Que mal há nisso? E assim há de ser: essas lutas infrutíferas, essas guerras ruinosas passarão e a Maior Paz virá. ... Não se vanglorie o homem por amar a pátria; antes, tenha ele glória em amar sua espécie."
Estas nossas dificuldades e limitações, condicionam sempre qualquer descrição ou representação que pretendamos fazer de um Profeta. Assim, qualquer filme ou representação que se faça sobre a vida de um Mensageiro de Deus, será sempre falho, e condicionado pelas nossas limitações para compreender a Sua essência. Mesmo por uma questão de respeito, talvez fosse melhor não Os representarmos.
Claro que o audio-visual tem uma força enorme na nossa sociedade, e o cinema é uma arte muito atraente. Quem pode resistir a um bom filme? Eu próprio tenho "Os Dez Mandamentos" e gostaria de ter um filme sobre a vida de Jesus. Ouvi até falar de um filme sobre a vida de Maomé, em que este não é retratado (não aparece a face)...
É assim que facilmente constato uma das minhas contradições: apesar de não gostar que se façam filmes sobre os Mensageiros de Deus, não resisto a vê-los.
domingo, 6 de junho de 2004
Uma história sobre Santo Agostinho
Uma história que já ouvi várias vezes do meu pai (que é católico) é a propósito de Sto. Agostinho e a transcendência de Deus. Segundo essa história, um dia Sto. Agostinho estava numa praia caminhando e reflectindo sobre a essência de Deus; meditava sobre qual seria a melhor forma de compreender Deus e sobre o que seria Deus.
Entregue aos seus pensamentos, reparou numa criança brincava na areia. Tinha feito um pequeno buraco e usando um pequeno recipiente entretinha-se despejando água do mar nesse buraco. A criança repetia continuamente essa tarefa; caminhava entre o mar e o pequeno buraco, levando água e despejando-a no buraco.
Intrigado com a persistência da criança, perguntou-lhe o que estava a fazer.
"Vou por todo o mar dentro deste buraco", foi a resposta.
"Mas não vês que o mar é demasiado grande? Nunca conseguirás colocar aí toda a água do mar!..." retorquiu o bispo de Hipona.
"Também tu nunca conseguirás perceber o que é Deus", afirmou então a criança.
Com esta resposta, o Santo percebeu que qualquer esforço humano para compreender Deus seria em vão.
Não sei qual a veracidade desta história. Mas a imagem apresentada é muito interessante e vem na linha do post que escrevi aqui ontem
Entregue aos seus pensamentos, reparou numa criança brincava na areia. Tinha feito um pequeno buraco e usando um pequeno recipiente entretinha-se despejando água do mar nesse buraco. A criança repetia continuamente essa tarefa; caminhava entre o mar e o pequeno buraco, levando água e despejando-a no buraco.
Intrigado com a persistência da criança, perguntou-lhe o que estava a fazer.
"Vou por todo o mar dentro deste buraco", foi a resposta.
"Mas não vês que o mar é demasiado grande? Nunca conseguirás colocar aí toda a água do mar!..." retorquiu o bispo de Hipona.
"Também tu nunca conseguirás perceber o que é Deus", afirmou então a criança.
Com esta resposta, o Santo percebeu que qualquer esforço humano para compreender Deus seria em vão.
Não sei qual a veracidade desta história. Mas a imagem apresentada é muito interessante e vem na linha do post que escrevi aqui ontem
sábado, 5 de junho de 2004
O Inacessível, o Omnipotente, o Omnisciente
No Palombella Rossa, um post do Manuel referia como cada pessoa vê Deus de diferentes formas, em diferentes aspectos da vida. Foi um daqueles parágrafos tocantes, directos e elegantes com que o Manuel nos brinda com regularidade. Os comentários (incluindo o meu!) fizeram-me lembrar a Alegoria da Caverna; cada um de nós começou a dizer o que Deus era e não era; se era isto, então era contradição com aquilo... enfim, escrevemos sobre coisas que nos transcendem.
O pouco, muito pouco, que podemos conhecer de Deus chega-nos através dos Profetas de Deus e das Sagradas Escrituras.
Além disso temos de reconhecer as nossas limitações. Por exemplo, quando dizemos que algo é infinito, estamos a utilizar um conceito abstracto criado pela mente humana. Ora esse conceito de infinito, está obviamente condicionado pelas limitações do nosso intelecto. Aplicar esse conceito a Deus é sempre limitá-Lo ou reduzi-Lo. Deste modo, parece-me que Deus está acima da compreensão humana. Tentar definir o que Ele é, ou não é, apenas nos deixa confusos.
Os parágrafos seguintes são excertos das escrituras bahá'ís, revelados por Bahá'u'lláh, e abordam este assunto (existem mais textos que abordam a impossibilidade do ser humano compreender Deus):
Elevado, infinitamente elevado estás Tu acima das tentativas do homem mortal para desvendar o Teu mistério, para descrever Tua Glória ou até mesmo dar uma ligeira noção da natureza da Tua Essência. Por mais que essas tentativas se realizem, não podem esperar jamais transcender os limites que foram impostos às Tuas criaturas, pois esses esforços são impulsionados pelo Teu decreto e gerados pela Tua invenção. Os mais sublimes sentimentos que o mais santo dos santos pode expressar em louvor a ti e a mais profunda sabedoria que os homens de maior erudição podem proferir nos seus esforços para compreender a Tua natureza, giram todos ao redor daquele Centro que está inteiramente sujeito à Tua soberania, que adora a Tua Beleza e se move através do movimento da Tua Pena.
(...)
Ninguém, a não ser Tu, em qualquer tempo, tem podido vislumbrar o Teu mistério, ou louvar dignamente a Tua grandeza. Inescrutável e enaltecido acima do louvor dos homens, haverás de permanecer para todo o sempre. Nenhum Deus há, senão Tu, o Inacessível, o Omnipotente, o Omnisciente, o Santo dos Santos. (SEB, I)
Tão perfeita e completa é a Sua criação, que nenhuma mente ou coração, por muito perspicaz e pura que seja, poderá alguma vez perceber a natureza da mais insignificante das Suas criaturas, e muito menos, sondar o mistério de Quem é o Sol da Verdade, de Quem é a Essência invisível e incognoscível. As concepções do mais devoto dos místicos, as realizações dos mais notável entre os homens, o mais alto louvor que língua ou pena humana possam prestar, são todos o produto da mente finita do homem e condicionados pelas suas limitações (SEB, XXVI)
É esta a nossa condição de criaturas de Deus, incapazes de conhecer directamente o nosso Criador. Se algum de vós conhecer excertos da Bíblia ou do Alcorão que aborde este tema, seria interessante partilhá-lo, para percebermos diferentes perspectivas sobre este assunto.
O pouco, muito pouco, que podemos conhecer de Deus chega-nos através dos Profetas de Deus e das Sagradas Escrituras.
Além disso temos de reconhecer as nossas limitações. Por exemplo, quando dizemos que algo é infinito, estamos a utilizar um conceito abstracto criado pela mente humana. Ora esse conceito de infinito, está obviamente condicionado pelas limitações do nosso intelecto. Aplicar esse conceito a Deus é sempre limitá-Lo ou reduzi-Lo. Deste modo, parece-me que Deus está acima da compreensão humana. Tentar definir o que Ele é, ou não é, apenas nos deixa confusos.
Os parágrafos seguintes são excertos das escrituras bahá'ís, revelados por Bahá'u'lláh, e abordam este assunto (existem mais textos que abordam a impossibilidade do ser humano compreender Deus):
Elevado, infinitamente elevado estás Tu acima das tentativas do homem mortal para desvendar o Teu mistério, para descrever Tua Glória ou até mesmo dar uma ligeira noção da natureza da Tua Essência. Por mais que essas tentativas se realizem, não podem esperar jamais transcender os limites que foram impostos às Tuas criaturas, pois esses esforços são impulsionados pelo Teu decreto e gerados pela Tua invenção. Os mais sublimes sentimentos que o mais santo dos santos pode expressar em louvor a ti e a mais profunda sabedoria que os homens de maior erudição podem proferir nos seus esforços para compreender a Tua natureza, giram todos ao redor daquele Centro que está inteiramente sujeito à Tua soberania, que adora a Tua Beleza e se move através do movimento da Tua Pena.
(...)
Ninguém, a não ser Tu, em qualquer tempo, tem podido vislumbrar o Teu mistério, ou louvar dignamente a Tua grandeza. Inescrutável e enaltecido acima do louvor dos homens, haverás de permanecer para todo o sempre. Nenhum Deus há, senão Tu, o Inacessível, o Omnipotente, o Omnisciente, o Santo dos Santos. (SEB, I)
Tão perfeita e completa é a Sua criação, que nenhuma mente ou coração, por muito perspicaz e pura que seja, poderá alguma vez perceber a natureza da mais insignificante das Suas criaturas, e muito menos, sondar o mistério de Quem é o Sol da Verdade, de Quem é a Essência invisível e incognoscível. As concepções do mais devoto dos místicos, as realizações dos mais notável entre os homens, o mais alto louvor que língua ou pena humana possam prestar, são todos o produto da mente finita do homem e condicionados pelas suas limitações (SEB, XXVI)
É esta a nossa condição de criaturas de Deus, incapazes de conhecer directamente o nosso Criador. Se algum de vós conhecer excertos da Bíblia ou do Alcorão que aborde este tema, seria interessante partilhá-lo, para percebermos diferentes perspectivas sobre este assunto.
sexta-feira, 4 de junho de 2004
Templo do Chile
Já aqui escrevi sobre os templos bahá'ís, a propósito do site do templo de Chicago. Está neste momento em marcha um projecto de construção do Templo Bahá'í da América do Sul.
Este templo ficará situado nos arredores de Santiago do Chile. O site da Comunidade Bahá'í do Chile já inclui uma apresentação multimedia que nos dá uma visão que será essa estrutura. Mais notícias sobre este templo estão no BWNS.
A foto seguinte mostra a maquete desse novo templo.
Este templo ficará situado nos arredores de Santiago do Chile. O site da Comunidade Bahá'í do Chile já inclui uma apresentação multimedia que nos dá uma visão que será essa estrutura. Mais notícias sobre este templo estão no BWNS.
A foto seguinte mostra a maquete desse novo templo.
quinta-feira, 3 de junho de 2004
Médicos e Enfermeiros
Admiro a maioria dos médicos e enfermeiros. Admiro a maioria os profissionais de saúde. Mas não tenho estômago para ser como eles. O tipo de pressões a que estão sujeitos, o facto de lidarem com a vida dos outros,... isso não é coisa para mim.
O exemplo do quão desgastante pode ser a profissão de enfermeiro ou médico foi-me contado numa história que se passou num hospital distrital.
Há alguns anos atrás, o Hospital possuía um número limitados daqueles aparelhos que conseguem manter uma pessoa viva de forma artificial (não sei como se chamam os aparelhos). Diziam as normas internas que se não houvesse máquinas disponíveis para todas as pessoas, dever-se-ia dar prioridade às pessoas mais novas.
Houve uma ocasião em que a equipa responsável pelos cuidados intensivos recebeu quase em simultâneo dois pacientes que necessitavam de ser “ligados à máquina”; o primeiro era um homem com 65 anos que já tinha sobrevivido a três enfartes e mostrava imensa vontade de viver; o segundo era um jovem de dezoito anos que acabava de cometer a segunda tentativa de suicídio.
Mas apenas havia uma máquina disponível! A equipa tinha de escolher quem ia viver e quem ia morrer.
Assim que perceberam a situação, a discussão estoirou. Uns argumentavam com os regulamentos; outros contrapunham a “vontade de viver” de cada um dos pacientes. Houve gritos e choros. Por fim acabaram por dar prioridade ao jovem.
Passadas algumas horas, o homem mais velho morria; no dia seguinte, o jovem morreu também (desistiu de viver, diziam). Mais choro e desânimo na equipa de cuidados intensivos.
Este tipo de situações causam um desgaste profundo em qualquer pessoa normal; imagino que seja necessário ter nervos de aço e um estômago muito forte para lidar ciclicamente com estes casos. E depois de enfrentar isto, os profissionais de saúde voltam para casa, onde têm a família que os aguarda. Como é que ainda têm forças para dar atenção à família?
É por terem capacidade para aguentar coisas destas é que eu admiro médicos e enfermeiros.
O exemplo do quão desgastante pode ser a profissão de enfermeiro ou médico foi-me contado numa história que se passou num hospital distrital.
Há alguns anos atrás, o Hospital possuía um número limitados daqueles aparelhos que conseguem manter uma pessoa viva de forma artificial (não sei como se chamam os aparelhos). Diziam as normas internas que se não houvesse máquinas disponíveis para todas as pessoas, dever-se-ia dar prioridade às pessoas mais novas.
Houve uma ocasião em que a equipa responsável pelos cuidados intensivos recebeu quase em simultâneo dois pacientes que necessitavam de ser “ligados à máquina”; o primeiro era um homem com 65 anos que já tinha sobrevivido a três enfartes e mostrava imensa vontade de viver; o segundo era um jovem de dezoito anos que acabava de cometer a segunda tentativa de suicídio.
Mas apenas havia uma máquina disponível! A equipa tinha de escolher quem ia viver e quem ia morrer.
Assim que perceberam a situação, a discussão estoirou. Uns argumentavam com os regulamentos; outros contrapunham a “vontade de viver” de cada um dos pacientes. Houve gritos e choros. Por fim acabaram por dar prioridade ao jovem.
Passadas algumas horas, o homem mais velho morria; no dia seguinte, o jovem morreu também (desistiu de viver, diziam). Mais choro e desânimo na equipa de cuidados intensivos.
Este tipo de situações causam um desgaste profundo em qualquer pessoa normal; imagino que seja necessário ter nervos de aço e um estômago muito forte para lidar ciclicamente com estes casos. E depois de enfrentar isto, os profissionais de saúde voltam para casa, onde têm a família que os aguarda. Como é que ainda têm forças para dar atenção à família?
É por terem capacidade para aguentar coisas destas é que eu admiro médicos e enfermeiros.
quarta-feira, 2 de junho de 2004
Do Irão...
A Polícia iraniana prendeu a família de um Pastor Cristão.
O caso deu-se no passado dia 23 de Maio. O pastor Khosroo Yusefi, a esposa, um filho de 18 anos e uma filha de 15 anos foram presos na cidade de Chalous, na província de Mazindaran (junto ao Mar Cáspio). Permanecem presos sem qualquer acusação.
A notícia completa está no Maranatha Christian Journal.
O caso deu-se no passado dia 23 de Maio. O pastor Khosroo Yusefi, a esposa, um filho de 18 anos e uma filha de 15 anos foram presos na cidade de Chalous, na província de Mazindaran (junto ao Mar Cáspio). Permanecem presos sem qualquer acusação.
A notícia completa está no Maranatha Christian Journal.
Os Índios e a formação do Brasil
No ano passado concluí a leitura do Sobrados e Mocambos; anteriormente tinha lido o Casa Grande e Senzala. À maioria dos portugueses estes títulos não dizem nada. Tratam-se de duas obras do sociólogo brasileiro, Gilberto Freyre, onde se descreve a formação da sociedade brasileira no nordeste daquele país.
O primeiro volume descreve a formação do sociedade rural e patriarcal; o senhor e a sua família ficavam na Casa Grande; os negros dormiam na Senzala. O segundo volume aborda a decadência da sociedade rural e a formação das primeiras sociedades urbanas; os burgueses (maioritariamente brancos, poucos mestiços) viviam em grandes casas (chamados sobrados) nas cidades; os negros, maioritariamente escravos libertados, viviam em palhotas ou outras casa de construção frágil (a que chamavam mocambos).
Os livros abordam diferentes aspectos das transformações sociais que o nordeste brasileiro testemunhou; os hábitos alimentares, a maneira de vestir, os métodos de trabalho, a organização social, e até as histórias e brincadeiras de crianças. Por detrás da frieza do sociólogo, percebe-se nas entrelinhas que existiram ali muitas e muitas gerações de sofrimento e opressão.
A fusão de culturas assume aspectos muito interessantes; a maneira de falar português das amas negras que tomavam conta das crianças brancas, acaba por influenciar a maneira de falar dessas crianças quando adultas. Algumas histórias contadas às crianças entram definitivamente no imaginário infantil das crianças brasileiras; é o caso da história contada pelos índios sobre o Saci Pererê, um menino só com uma perna que vivia na floresta.
As culturas que se encontraram/confrontam no Brasil acabaram por perder a sua identidade original; formaram uma série de "brasis", dos quais conhecemos muito poucos. O jornal Estadão, na sua edição on-line, apresenta um documento especial sobre jogos e brincadeiras dos índios que ainda subsistem (ver este link). É particularmente interessante, pois as culturas indígenas parecem ter sido as que mais se diluíram nas outras (ou as que foram mais destruídas) no processo de formação do Brasil. É um património cultural que interessa preservar.
Também o Instituto Socioambiental do Brasil possui um site muito interessante sobre os diferentes povos indigenas no Brasil
O primeiro volume descreve a formação do sociedade rural e patriarcal; o senhor e a sua família ficavam na Casa Grande; os negros dormiam na Senzala. O segundo volume aborda a decadência da sociedade rural e a formação das primeiras sociedades urbanas; os burgueses (maioritariamente brancos, poucos mestiços) viviam em grandes casas (chamados sobrados) nas cidades; os negros, maioritariamente escravos libertados, viviam em palhotas ou outras casa de construção frágil (a que chamavam mocambos).
Os livros abordam diferentes aspectos das transformações sociais que o nordeste brasileiro testemunhou; os hábitos alimentares, a maneira de vestir, os métodos de trabalho, a organização social, e até as histórias e brincadeiras de crianças. Por detrás da frieza do sociólogo, percebe-se nas entrelinhas que existiram ali muitas e muitas gerações de sofrimento e opressão.A fusão de culturas assume aspectos muito interessantes; a maneira de falar português das amas negras que tomavam conta das crianças brancas, acaba por influenciar a maneira de falar dessas crianças quando adultas. Algumas histórias contadas às crianças entram definitivamente no imaginário infantil das crianças brasileiras; é o caso da história contada pelos índios sobre o Saci Pererê, um menino só com uma perna que vivia na floresta.
As culturas que se encontraram/confrontam no Brasil acabaram por perder a sua identidade original; formaram uma série de "brasis", dos quais conhecemos muito poucos. O jornal Estadão, na sua edição on-line, apresenta um documento especial sobre jogos e brincadeiras dos índios que ainda subsistem (ver este link). É particularmente interessante, pois as culturas indígenas parecem ter sido as que mais se diluíram nas outras (ou as que foram mais destruídas) no processo de formação do Brasil. É um património cultural que interessa preservar.
Também o Instituto Socioambiental do Brasil possui um site muito interessante sobre os diferentes povos indigenas no Brasil
terça-feira, 1 de junho de 2004
A vantagem de sermos poucos...
Como já referi aqui, a peregrinação bahá'í até hoje tem sido feita em pequenos grupos de 200 crentes. São pessoas provenientes dos mais diversos lugares do mundo. Depois de nos inscrevermos, aguardamos 4 a 5 anos até sermos avisados que no ano seguinte vamos ter oportunidade de fazer a peregrinação. O facto do grupo de peregrinos ser pequeno dá uma certa tranquilidade; a peregrinação consegue ser mais um momento de reflexão sobre a nossa relação com Deus, do que um fenómeno de massas.
Quando fiz a minha peregrinação, um iraniano idoso insistia que, de alguma forma, nós éramos um privilegiados. Estávamos ali num pequeno grupo de peregrinos e podíamos entrar nos túmulos; com sorte até conseguíamos estar a sós lá dentro. No futuro, quando houvesse muitos milhões de bahá'ís, não poderíamos entrar nos túmulos; teríamos apenas a possibilidade de circular ao seu redor.
Em 1992, celebrava-se o centenário do falecimento de Bahá'u'lláh. Para assinalar o evento, realizou-se na Terra Santa uma cerimónia especial de homenagem ao fundador da religião Bahá'í. De cada país foram convidadas 19 pessoas; ao todo éramos mais de 4000 pessoas. E como, tinha antevisto aquele iraniano idoso, não podíamos entrar todos nos túmulos. Tivemos de circular ao seu redor.
A foto seguinte mostra uma imagem aérea do jardim que circunda a ultima residência e o túmulo de Bahá'u'lláh, em Bahji, na Terra Santa.
Quando fiz a minha peregrinação, um iraniano idoso insistia que, de alguma forma, nós éramos um privilegiados. Estávamos ali num pequeno grupo de peregrinos e podíamos entrar nos túmulos; com sorte até conseguíamos estar a sós lá dentro. No futuro, quando houvesse muitos milhões de bahá'ís, não poderíamos entrar nos túmulos; teríamos apenas a possibilidade de circular ao seu redor.
Em 1992, celebrava-se o centenário do falecimento de Bahá'u'lláh. Para assinalar o evento, realizou-se na Terra Santa uma cerimónia especial de homenagem ao fundador da religião Bahá'í. De cada país foram convidadas 19 pessoas; ao todo éramos mais de 4000 pessoas. E como, tinha antevisto aquele iraniano idoso, não podíamos entrar todos nos túmulos. Tivemos de circular ao seu redor.
A foto seguinte mostra uma imagem aérea do jardim que circunda a ultima residência e o túmulo de Bahá'u'lláh, em Bahji, na Terra Santa.
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