sexta-feira, 30 de julho de 2004
Férias
A partir de hoje este blog encontra-se nos chamados "serviços mínimos".
Vou de férias.
É tempo para levar o miúdo e a esposa à praia.
Lá para o final do mês estarei de volta.
Até daqui a 3 semanas!
:-)
quinta-feira, 29 de julho de 2004
Amigo Estrumpfe...
Amigo Estrumpfe,
Se há coisa que eu gosto é de encontrar alguém com ideias diferentes das minhas, mas com quem possa dialogar. E dialogar apenas com o objectivo de perceber qual a perspectiva do nosso interlocutor; nunca o dialogar com o objectivo de influenciar e muito menos "converter".
As nossas trocas de mails começaram com um post teu sobre o Russell. Como te disse, gostei mesmo do post; e fiquei ainda mais impressionado quando me disseste que ele "era agnóstico com tendências ateias -- disse ou escreveu que a posição que tinha sobre Deus era a mesma que tinha sobre os Deuses gregos ou Romanos: estava plenamente convencido que não existiam, mas não tinha nenhum modo de o provar."
É raro alguém admitir isto. Geralmente quando alguém dá o chamado "salto da fé", tende sempre a procurar um suporte científico ou racional para essa fé. A crença na existência, ou na não-existência, de Deus é sempre um acto de fé; não é possível fazer uma demonstração científica que sustente essa fé. Há, no entanto, várias demonstrações filosóficas que podem provar um ou outro dos dois pontos de vista. As discussões sobre este tema são geralmente um interminável diálogo de surdos.
No fundo, a minha crença em Deus é a minha forma de entender o mundo e a nossa existência; de igual modo a tua crença na não existência de Deus é a tua forma de entender o mundo e a nossa existência
Alguém me disse uma vez que a discussão que os seres humanos podem ter sobre a existência de Deus é semelhante à discussão que dois gémeos, antes de nascer, poderiam ter sobre a existência do sol. Após o nascimento, deixa de haver motivo para discussão.
De acordo com o meu entendimento do mundo e da nossa existência, acredito que as sociedades têm um ciclo de vida semelhante a uma planta: germinam, crescem, florescem, dão fruto, envelhecem e morrem. Um bom exemplo deste ciclo é o Islão; deu frutos extraordinários e hoje é o que se vê.
Estes conceitos religiosos ou ateístas quando levados a extremos têm sufocado a humanidade. Vimos que ditaduras cruéis foram instituídas sob uma pretensa herança religiosa e autoridade divina; sabemos que houve regimes totalitários que se basearam em ideologias políticas que se apresentam como substitutos da religião. Como te disse, foram tentativas de controlar o pensamento e a liberdade do ser humano que tiveram resultados trágicos.
E, no entanto, eu continuo a acreditar no potencial do ser humano. No futuro imediato as coisas não vão ser nada fáceis. As próximas gerações vão enfrentar problemas lixados. Mas vamos conseguir ter um mundo melhor. Neste caso faço uma outra analogia: a situação da humanidade é como um ovo antes de um pássaro nascer; se o abrirmos antes de nascer, veremos o aspecto nojento e mal-cheiroso. Mas no meio daquela coisa feia está a nascer uma nova criatura. Da mesma forma, acredito que estamos a assistir à desagregação da velha ordem mundial, e ao surgimento de uma nova civilização, mais justa, mais equilibrada.
É a minha maneira de ver o mundo.
quarta-feira, 28 de julho de 2004
Tolstoy e a religião Bahá'í
Tolstoy tomou conhecimento dos ensinamentos bahá'ís em 1894, numa época em que estes ainda eram pouco ou nada conhecidos no Ocidente, e o seu dirigente estava prisioneiro numa remota colónia penal do Império Otomano.
Em 1901, em resposta a um governante persa, Arfa'u'd-Dawlih, escreveu: "Acredito que em toda a parte, tal como os Bábís entre vós, na Pérsia, existem pessoas que professam a verdadeira religião e que apesar das perseguições que estas pessoas estão expostas, as suas ideias propagam-se cada vez mais e mais, e triunfarão sobre a barbaridade e ferocidade dos Governos, e acima de tudo sobre a mentira em que tentam manter os seus povos"(1)Nesse mesmo ano, recebeu a visita de um médico berlinense, Dr. Cleanthes Nicolaides, que tinha viajado pela Pérsia. Tolstoy disse-lhe sobre os Bahá'ís: "Os ensinamentos do fundador da seita Bábista representam, por um lado, uma posição intermédia entre o Islão e o Cristianismo, e por outro lado pretendem libertar o homem de todos grilhões espirituais. O Bábismo não tem hierarquia, e em vez disso, propõe-se educar cada crente individual a tornar-se uma pessoa na sua totalidade, a ser um combatente da liberdade e do progresso moral da humanidade"(2)
Em 1903 foi publicado o poema dramático O Báb de Isabella Grinevskaya; este chegou às mãos de Tolstoy que depois de o ler, escreveu à autora: "Conheço o Bábismo há muito tempo e estou muito interessado nos seus ensinamentos. Parece-me que eles têm um grande futuro… pois eles desfizeram-se de estruturas artificiais e pretendem unir toda a humanidade numa única religião... E assim, ao educar os homens na fraternidade, na igualdade e no sacrifício dos seus desejos sensuais ao serviço de Deus, eu simpatizo com o Bábismo com todo o meu coração"(3)
No entanto, Tolstoy nem sempre teve palavras elogiosas relativamente à religião bahá'í. Após ler uma tradução francesa do Livro da Certeza que lhe tinha sido oferecido por Hippolyte Dreyfus (um bahá'í francês), respondeu nestes termos: "Agradeço-lhe ter-me enviado o livro de Bahá'u'lláh. Lamento ser obrigado a dizer-lhe que este livro afastou-me completamente dos ensinamentos de Bahá'u'lláh. Este livro contém apenas frases pretensiosas e insignificantes que não têm outro propósito que não seja confirmar antigas superstições, que são completamente vazias de conteúdo moral ou religioso no verdadeiro sentido da palavra. No entanto, agradeço-lhe a sua carta e o livro. Aceite os meus calorosos cumprimentos."(4)
Apesar de ter manifestado diferentes opiniões sobre a religião bahá'í ao longo da sua vida, um dos últimos comentários, poucos meses antes da sua morte em 1910, foi: "Muito profundo. Não conheço nada tão profundo."(5)
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Notas/Referências
(1) – Carta de Tolstoy a Arfa’u’d-Dawlih, 23-Julho-1901. Preservada no Musée de la Paix, Monte Carlo
(2) – Nocolaides "Leo Tolstois Stellung zu Den Religionen" Pags 566-567
(3) – Birukiff, "Tolstoi und der Orient", pags 99-100
(4) – Polnoe Sobranie Sochinenii, vol 75, pag 77
(5) – Makovitsky, "U Tosltogo: 1904-1910; 'Yasnopolyanskie zapiski'"vol.4, pag. 255
As citações foram todas traduzidas a partir do inglês.
Um estudo detalhado das opiniões de Tolstoy sobre a religião bahá'í encontra-se no livro Leo Tolstoy and the Baha'i Faith, de Luigi Stendardo.
The Bábi and Bahá'í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, de Moojan Momen também contém muitas referências às opiniões de Tolstoy.
terça-feira, 27 de julho de 2004
Darfur: acabem com a tragédia!
O Aviz recordou que esta tragédia não é nova, mas só agora aparece com alguma regularidade nos media; e continuou a expressar a sua raiva!
A Stella publicou o seguinte imagem. Tão cruel, tão verdadeira, tão representativa da indiferença e cinismo dos governos mais poderosos do mundo.
"Cerca de 30 mil pessoas foram já assassinadas, e perto de milhão e meio foram vítimas de limpeza étnica, afastados das suas aldeias e terras de cultivo. Centenas de milhar foram encurraladas em campos de concentração, patrulhados por milícias janjaweed, apoiadas pelo governo, que violam mulheres e matam os homens que tentam sair em busca de comida para as suas famílias. Outros vagueiam pela região sem alimentos nem água. Entretanto, Khartoum tem bloqueado e manipulado a ajuda alimentar internacional." (Samantha Power)
Também Nuno Guerreiro nos alertou para este conflito invisível para a opinião pública, acrescentando que "a blogosfera demonstrou já por diversas vezes a sua capacidade de mobilização e sensibilização. Pode ser muito pouco, pode até ser verdade que individualmente todos os nossos esforços possam valer quase nada. Mas o preço do silêncio é demasiado elevado quando temos diante de nós um meio de comunicação com um potencial tão elevado."
O governo português, o governo brasileiro, todos os governos do mundo devem tomar medidas para pôr termo a esta tragédia.
A Comunidade Internacional não são apenas os governos mais poderosos do mundo; a Comunidade Internacional somos todos nós. E todos nós, podemos, e devemos, exigir que se tomem medidas imediatas.
Se a terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos, mostremos aos sudaneses do Darfur que nós, os povos do mundo, nos preocupamos com eles e queremos que eles tenham os mesmos direitos de qualquer outro cidadão do mundo.
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A ver:
O blog "Sudan: The Passion of the Present"
O site Darfur Genocide.
segunda-feira, 26 de julho de 2004
Direitos Humanos
O Nobel da Paz é talvez o que desperta mais atenção. De alguma forma, este prémio tem sido usado para chamar a atenção da comunidade mundial para problemas de alguns povos ou sociedades. Em alguns casos, consegue ser uma alavanca para a resolução de problemas relacionados com a paz e o bem-estar dos povos. Quando o prémio foi atribuído a Ximenes Belo e a Ramos Horta, a Comunidade Internacional passou a prestar muito mais atenção ao problema de Timor-Leste. Passados alguns anos, Timor alcançava a desejada independência. Quando em 1992, o prémio foi atribuído a Rigoberta Menchu, a questão dos índios da Guatemala era um tema desconhecido da comunidade internacional.
Neste ano o Relatório do Desenvolvimento Humano dedica atenção à população indígena da Guatemala e assinala alguns progressos na sua situação. (p.96 RDH-2004)
No ano passado, este prémio foi atribuído a Shirin Ebadi, uma advogada iraniana, tida como activista dos direitos humanos naquele país. É natural que algumas pessoas alimentem expectativas sobre eventuais mudanças naquele país.
O Irão é daqueles países cujas notícias acompanho com interesse; foi ali que nasceu a religião Bahá'í. Confesso que nunca tinha ouvido falar desta advogada. Lembro-me do seu discurso de aceitação do prémio (achei-o espantoso!); mas pouco mais sei sobre os seus ideais. Já vi referências elogiosas e comentários negativos a seu respeito.
Recentemente encontrei este texto de sua autoria que me parece merecedor de maior divulgação:
As pessoas são diferentes, como diferentes são as suas culturas.
As pessoas vivem de modos diferentes e as civilizações também diferem.
As pessoas falam em várias línguas. As pessoas são guiadas por diversas religiões.
As pessoas nascem com cores diferentes e muitas tradições influenciam a sua vida, com cores e sombras variadas.
As pessoas vestem-se de modo diferente e adaptam-se ao seu ambiente de forma diferente.
As pessoas exprimem-se de modo diferente, A música, literatura e a arte também reflectem estilos diferentes.
Mas apesar dessas diferenças, todas as pessoas têm em comum um atributo simples: são seres humanos, nada mais, nada menos.
E por mais diferentes que sejam, todas as culturas incluem certos princípios comuns. Nenhuma cultura tolera a exploração de seres humanos.
Nenhuma religião permite que se mate o inocente.
Nenhuma civilização aceita a violência ou o terror.
A brutalidade e a crueldade são horríveis em todas as tradições.
Em suma, estes princípios comuns, que são partilhados por todas as civilizações, reflectem os nosso direitos humanos fundamentais. Esses direitos são muito apreciados e acarinhados por toda a gente, em toda a parte. Assim, a relatividade cultural nunca devia ser usada como pretexto para violar os direitos humanos, uma vez que estes direitos incorporam os valores mais fundamentais das civilizações humanas. É preciso que a Declaração Universal dos Direitos Humanos seja universal, aplicável tanto a Leste como a Oeste. É compatível com toda a fé e religião. Fracassar no respeito pelos direitos humanos só mina a nossa humanidade.
Não destruamos esta verdade fundamental; se o fizermos, os fracos não terão uma alternativa.
Terra da Alegria
É desta senhora.
É iraniana e chama-se Shirin Ebadi.
Foi prémio Nobel da Paz no ano passado.
O tema do texto é Direitos Humanos.
E também lá estão outros temas muito interessantes.
sexta-feira, 23 de julho de 2004
Governo Chinês censura acesso a sites religiosos
Ainda segundo a mesma fonte, não existe bloqueio aos sites de organismos dirigentes de comunidades religiosas internacionais (como o Vaticano, Patriarcado Ecuménico, Patriarcados Ortodoxos, Adventistas do Sétimo Dia, Bahá'ís e Mormons) e organizações religiosas internacionais (como Muslim World League, Conselho Mundial das Igrejas, Aliança Mundial Evangélica, Federação Mundial Luterana). Também não se encontram bloqueados os sites do Conselho Cristão de Hong Kong (apesar das suas críticas à lei básica de Hong Kong) e da Conferência Cristã da Ásia.
A notícia completa está aqui.
quinta-feira, 22 de julho de 2004
Julho de 1850: os britânicos e o martírio do Báb
"O fundador desta seita foi executado em Tabreez – Foi morto por uma descarga de um grande número de mosquetes, e a sua morte chegou ao ponto de dar à sua religião o sacrifício purificador que incrementará grandemente os seus prosélitos. Quando o fumo e a poeira se dissiparam após a descarga, não se via o Báb, e a populaça proclamou que ele tinha ascendido aos céus. As balas tinham quebrado as cordas que o prendiam, mas ele foi arrastado do recanto onde o encontraram após algumas buscas, e morto a tiro.
A sua morte, segundo a crença dos seus discípulos não fará diferença, pois o Bab existe sempre."
No momento do martírio do Báb, o cônsul britânico R.W.Stevens, estava ausente de Tabriz; o irmão do cônsul assumiu a responsabilidade pelo consulado e não enviou o relatório do evento a Sheil. Apenas no dia 24 de Julho, o Cônsul Stevens, de regresso ao seu posto, rectificou a omissão e acrescentou que o corpo do Báb e do seu discípulo tinham sido "lançados no fosso da cidade onde foram devorados por cães".
Sheil escreveu a Palmerston, em 15 de Agosto, que "Apesar da opinião e conselho de agentes estrangeiros serem, geralmente, desagradáveis ao Ministro Persa, penso, mesmo assim, que é meu dever chamar a sua atenção para qualquer abuso flagrante ou ultraje que chegue ao meu conhecimento. Estou convencido que nestas ocasiões, não obstante a ausência de apreço por parte de Ameer-i-Nizam (o Grão-Vizir) ele poderá, a titulo pessoal, tomar algumas medidas para emendar a situação". Prosseguiu dizendo que o cônsul em Tabriz tinha reportado que o corpo do Báb "por ordem do irmão de Ameer-i-Nizam tinha sido lançado no fosso da cidade e devorado por cães, facto que, na verdade, acontecera". A esta carta anexou uma cópia da carta que escrevera ao Grão-Vizir sobre este assunto. Nessa carta lia-se:
"Vossa Excelência está ciente do caloroso interesse que o Governo Britânico tem em tudo o que respeita a honra, respeitabilidade e crédito deste Governo, e é sobre este ponto que lhe refiro uma ocorrência recente em Tabreez que provavelmente não foi levada ao conhecimento de Vossa Excelência. A execução do Pretendente Bab nessa cidade foi acompanhada por uma circunstância que, se publicada nas Gazetas da Europa, lançaria o maior descrédito sobre os Ministros Persas. Depois dessa pessoa ter sido morta, o seu corpo, por ordem de Vezeer.i.Nizam foi lançado no fosso da cidade e devorado por cães, facto que na realidade aconteceu. Este acto assemelha-se a factos ocorridos em eras muito antigas, e não posso acreditar que possam ocorrer em nenhum país entre a Inglaterra e a China. Satisfeito por acreditar que este acto não recebeu a sanção de Vossa Excelência, e sabendo que sentimentos provocaria na Europa, considerei apropriado escrever esta informação amistosa, para não o deixar na ignorância do sucedido."
Palmerston respondeu a 8 de Outubro: "... o Governo de Sua Majestade aprova o facto de ter chamado a atenção de Ameer-I-izam... para a forma como foi tratado o corpo do pretendente Bab após a sua execução em Tabreez"
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Links/Notas
As perspectivas britânica e russa sobre a execução do Báb podem ser estudadas com detalhe em The Báb, de Hasan Balyuzi e The Bábi and Bahá’í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, de Moojan Momen.
Justin Sheil viria a ser embaixador britânico na Pérsia. A esposa de Justin Sheil é autora de Glimpses of Life and Manners in Persia, onde descreve, entre muitas outras coisas, os comportamentos dos Bábis.
quarta-feira, 21 de julho de 2004
Air India
Um aspecto curioso destes encontros internacionais é perceber o tipo de interesses, divertimentos e piadas que os crentes gostam de contar. Calhou-me uma vez que tivesse por companheiros de mesa uma série de baha'is asiáticos: Tailandeses, Taiwaneses, Sri Lanka, Hong Kong, e Macau. Eu era o único europeu naquela mesa. Quando se começou a falar de piadas, todos eles concordavam num aspecto: contavam-se piadas sobre a Air India. A companhia aérea indiana tinha fama de ser a pior do continente asiático. Diziam que todos os meses tinha acidentes. E contaram a seguinte piada:
Num avião da Air India, em pleno voo, o piloto comunica aos passageiros:
"Senhores passageiros, devido a um problema técnico, estamos neste momento a voar apenas com um único motor; por motivos de segurança, agradecemos que permaneçam sentados nos vossos lugares e com o cinto de segurança apertado. Obrigado."
Instala-se a ansiedade entre os passageiros. Todos se sentam e apertam os cintos. Passados alguns minutos, uma nova comunicação do comandante:
"Senhores passageiros, devido a outro problema técnico o nosso único motor que restava também deixou de funcionar. Vamos ter de efectuar uma aterragem de emergência no mar. Dentro de momentos daremos mais instruções."
A ansiedade dispara. Algumas pessoas começam a rezar; outras choram. Passados alguns minutos, mais uma comunicação do comandante:
"Solicitamos aos passageiro que sabem nadar que se sentem no lado direito do avião; os passageiro que não sabem nadar devem sentar-se no lado esquerdo do avião. Dentro de momentos daremos mais instruções."
Grande agitação entre os passageiros enquanto se procede a trocas de lugares. Quando todos estão novamente sentados, ouve-se mais uma comunicação do piloto:
"Senhores passageiros que sabem nadar: podem neste momento ver através das janelas uma pequena ilha. Vamos tentar aterrar perto dela. Após a aterragem, abrir-se-ão todas as portas do avião. Agradecemos que abandonem o avião com calma e sem precipitações. Uma vez no exterior da aeronave poderão nadar até àquela ilha."
Uma breve pausa e o comandante continua:
"Para os senhores passageiros que não sabem nadar: obrigado por voar na Air India!"
terça-feira, 20 de julho de 2004
Há 134 anos, a França lançava-se no abismo
A queda do império francês impressiona toda a Europa; aquela que era, aparentemente, a grande potência europeia, fica de rastos. (o impacto deste acontecimento em Portugal é descrito nas últimas páginas d'O Crime do Padre Amaro). É a estupefacção geral. Como foi possível aquilo acontecer?
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NAPOLEÃO III
Carlos Luís Napoleão Bonaparte nasceu em Paris em 20 de Abril de 1808. Era o terceiro e último filho do Rei Luís e da Rainha Hortense da Holanda; era, também, sobrinho de Napoleão I. A família Bonaparte tinha sido expulsa de França após a queda do seu tio; assim Luís Napoleão foi cresceu e foi educado na Suíça e na Baviera. Educado sob os valores do mito Napoleónico e incentivado pela mãe a reconquistar o poder da família, escreve uma série de textos e tratados, formulando um programa político e apresentando-se como um liberal, especialista militar e defensor do desenvolvimento industrial e agrícola.
Lidera duas tentativas de derrube do rei Luís Filipe; a primeira, em Estrasburgo (1836), acaba por o levar ao exílio nos Estados Unidos; a segunda, em Boulogne-sur-Mer (1840) vale-lhe uma sentença de prisão perpétua na fortaleza de Ham, no Somme. Consegue evadir-se em 1846 e foge para Inglaterra.

Após a revolução que levou à queda do rei Luís Filipe em Fevereiro de 1848, Luís Napoleão regressa a França e lança-se de novo na arena política ao apresentar-se como candidato à presidência da nova república francesa. O nome e a nostalgia da era napoleónica ajudam-no a vencer as eleições com uma larga maioria de votos. Mas o limite do mandato de presidente e uma vitória monárquica nas eleições legislativas acabam por condicionar a sua acção política; resolve esse problema com um golpe de estado em Dezembro de 1851, assumindo poderes ditatoriais e alargando a duração do seu mandato.
O SEGUNDO IMPÉRIO
Um ano mais tarde, um plebiscito aprova a substituição da Segunda República pelo Segundo Império: assumiu o titulo de Napoleão III, tentando assim invocar uma herança política do anterior imperador. Durante oito anos mantém poderes ditatoriais; simultaneamente, a França assiste a grandes desenvolvimentos industriais e económicos.Os caminhos de ferro expandem-se fortemente; as condições das populações desfavorecidas também melhoram. É no seu reinado que se assiste à reconstrução de Paris, sob a supervisão de Baron Haussman. Vários Bancos de Investimento são autorizados. Mas simultaneamente, o Imperador limitou a liberdade de imprensa e de pensamento; censurou jornais e exilou escritores (Victor Hugo viu os seus trabalhos proibidos).
A partir de 1860, e fruto de uma acentuada queda de popularidade, Napoleão III inicia uma série de reformas liberais; os poderes da Assembleia Legislativa são alargados e muitas liberdades civis são restabelecidas. É criada uma legislação laboral, surgem incentivos ao mercado livre e a permissão de existência de partidos de oposição; a liberdade de associação e de imprensa também surgem nessas reformas. Era o período do "Império Liberal".
A POLÍTICA EXTERNA
Ao seu sucesso interno contrapõem-se uma política externa demasiado ingénua, que coloca a França em situações muito delicadas. Entre 1854 e 1856 a França junta-se ao Reino Unido, ao reino da Sardenha e ao Império Otomano na Guerra de Crimeia contra a Rússia. A participação na construção do Canal do Suez e a intervenção na China (1857-60) levam os franceses a acreditar que a França recuperou o seu poder e prestígio internacional.
Em 1859, a França alia-se à Sardenha numa guerra para expulsar a Áustria da península italiana. Com isso recebeu Nice e Saboia; mas os custos da guerra foram demasiado elevados. A intervenção francesa em Itália teve outras consequências, nomeadamente a unificação italiana (1861): a Itália surgiu como uma nova potência europeia com quem a França tinha de se entender. Uma intervenção no México (1861-67) é desastrada; as tropas francesas deixam o país por exigência norte-americana, e o Imperador Maximiliano é abandonado à sua sorte.
Napoleão III mantém a neutralidade francesa durante a guerra Autro-Prussiana de 1866. A ascensão da Prússia, sob a liderança de Otto von Bismarck, à condição de potência europeia é subestimada por Napoleão III. Contrariando os seus conselheiros, decide assumir uma postura agressiva na questão da sucessão do trono espanhol; é o pretexto que os Prussianos necessitavam para provocar uma guerra com a França.
A guerra Franco-Prussiana lança o segundo Império na ruína. O próprio Napoleão é capturado pelos prussianos após a batalha de Sedan (1 de Setembro de 1870). Uma revolução em Paris declara a sua deposição em 4 de Setembro desse ano.

Libertado após o armistício, parte para o exílio em Inglaterra; o seu único filho morreu ao serviço do exército inglês. Morreu a 9 de Janeiro de 1873 em Chislehurst, Inglaterra.
EPÍSTOLAS DE BAHÁ'U'LLÁH A NAPOLEÃO III
Bahá'u'lláh revelou duas epístolas para Napoleão III. A primeira deve ter sido revelada entre 1866 e 1867, durante o exílio em Adrianópolis; a segunda foi revelada entre 1868 e 1870, na prisão em 'Akká, durante o último exílio. Tal como fez noutras epístolas a reis e governantes, nestas duas epístolas Bahá'u'lláh anuncia o aparecimento de uma nova revelação divina. No entanto, há uma clara diferença de estilos entre as duas epístolas; a primeira chega ser elogiosa e aconselha o Imperador sobre diversos assuntos; a segunda é claramente condenatória e ameaçadora, profetizando a queda do império francês e a humilhação de Napoleão.
Alguns excertos da segunda epístola:
Ó Rei de Paris! Diz ao padre que não toque mais os sinos. O Mais Grandioso Sino apareceu na forma daquele que é o Mais Grandioso Nome, e os dedos da vontade do Teu Senhor, o Excelso, o Altíssimo, fazem-no soar no céu da imortalidade, em Seu Nome, o Todo-Glorioso. Assim os poderosos versículos do Teu Senhor foram enviados de novo para ti, para que pudesses levantar-te para celebrar Deus, o Criador do Céu e da Terra, nestes dias em que todas as tribos da terra se lamentaram e as fundações das cidades tremeram, e o pó da irreligião envolveu todos os homens, salvo aqueles que Deus, o Omnisciente, a Suprema Sabedoria, decidiu poupar.
(...)
Ó Rei! Ouvirmos as palavras que pronunciaste em resposta ao Czar da Rússia a respeito da decisão tomada à cerca da guerra (guerra da Crimeia). O teu Senhor, em verdade, sabe, está informado de tudo. Disseste: "Eu estava adormecido no meu leito, quando o grito dos oprimidos, que eram afogados no Mar Negro, me despertou". Isto foi o que te ouvimos dizer e, em verdade, teu Senhor é testemunha daquilo que digo. Damos testemunho que aquilo que te despertou não foi o seu grito, mas os impulsos das tuas próprias paixões, pois Nós testámo-te e julgamo-te em falta. Compreende o significado das Minhas palavras e sê dos que discernem.
(...)
Tivesses tu sido sincero nas tuas palavras, não terias lançado para trás de ti o Livro de Deus quando te foi enviado por Aquele que é o Todo-Poderoso, o Omnisciente. Através dele te pusemos à prova e encontramo-te diferente do que professas ser. Levanta-te e emenda-te naquilo que te escapou. Em breve, o mundo e tudo o que tu possuis perecerão e o reino será devolvido a Deus, teu Senhor e o Senhor de teus pais de antanho. Não te convém proceder segundo os ditames de teus desejos. Teme os suspiros deste Injuriado e protege-0 contra os dardos daqueles que agem com injustiça. Por causa daquilo que fizeste, o teu reino será lançado na confusão; e o teu império passará das tuas mãos, como punição pelo que perpetraste.
Então saberás que erraste claramente. Uma grande convulsão apossar-se-á de todo o povo dessa terra, a menos que te levantes para ajudar esta Causa e sigas Aquele que é o Espírito de Deus (Jesus Cristo) neste caminho recto. Será que a tua pompa te tornou orgulhoso? Por minha vida! Não perdurará; muito em breve há-de passar, a menos que te segures firmemente a esta Corda forte. Vemos a humilhação aproximar-se de ti rapidamente, enquanto estás desatento.
(...)
Sabe, em verdade, que os teus súbditos são uma responsabilidade que Deus te conferiu. Cuida deles, como cuidas de ti. Acautela-te para que os lobos não se tornem pastores do rebanho, ou o orgulho e a soberba te impeçam de cuidar dos pobres e dos desprotegidos.
(...)
As duas epístolas foram enviadas através de diplomatas franceses em Constantinopla; alguns autores dizem que Napoleão, ao ouvir a tradução da primeira epístola, tê-la-ia atirado para o chão e dito "Se este homem é Deus, então eu sou duas vezes Deus". No entanto, não temos nenhuma confirmação independente sobre esta reacção de Napoleão (ver este esclarecimento).
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Links e Referências
* Biografia de Napoleão III (Encyclopedia Britannica)
* Biografia de Napoleão III (Atrium, em francês)
* Análise comparativa das duas Epistolas a Napoleao III encontra-se aqui.
* O texto completo desta segunda epístola encontra-se aqui.
* Sobre o Rei da Prussia (e Kaiser da Alemanha), ver este post.
segunda-feira, 19 de julho de 2004
Aprofundar a Democracia
O nosso sistema democrático é melhor do que qualquer sistema totalitário. Após uma polémica em torno do apelo ao voto em branco por parte de José Saramago, alguns comentadores políticos recordaram que a democracia não é perfeita mas é o melhor que conseguimos arranjar até hoje. Mas poderá ser melhorado?
Um Sistema Condicionado
As eleições no nosso sistema democrático são, na verdade, actos democráticos condicionados. Na maioria dos actos eleitorais não estamos a votar em pessoas, mas em partidos. O voto num partido, nunca é um voto numa pessoa, mas sim num conjunto de pessoas (poder-se-á ainda dizer que é um voto num conjunto de ideias ou propostas). Temos liberdade de escolha, mas é uma liberdade condicionada.
É como se tivéssemos de escolher entre cabazes de compras.
Imagine-se que ao fazermos compras tínhamos escolher entre um pacote de arroz e um pacote de espaguete. Mas quem comprasse arroz, teria de comprar também um champô, uma frigideira e um pacote de chocolates; quem quisesse comprar o pacote de espaguete teria de comprar um conjunto de pilhas, um tapete e uma lata de salsichas. Além destes condicionalismos existiria outro: seria impossível comprar simultaneamente arroz e espaguete!
Esta situação caricata é no fundo o que acontece na maioria dos nossos actos eleitorais: não podemos escolher os nossos deputados; a nossa escolha está condicionada pelas listas de deputados existentes.
Existem pessoas capazes em todos os partidos; se alguém desejar que algumas personalidades (nas quais reconhece a devida inteligência e competência política) pertencentes a diferentes partidos sejam eleitas, terá sempre dificuldades em votar. Primeiro é necessário que essas personalidades sejam incluídas nas listas de candidatos (e a elaboração das listas nem sempre segue critérios claros); segundo, terá de fazer uma escolha onde irá excluir pessoas que considera capazes e incluir pessoas que não são da sua preferência ou nem sequer conhece.
O Sistema Bahá’í
O sistema eleitoral bahá’í está claramente alguns passos à frente do sistema eleitoral da nossa democracia. Ali não existem listas de candidatos; qualquer membro da comunidade pode ser eleito; no boletim de voto cada crente escreve os nomes dos crentes que considera mais aptos para o cargo a eleger.
Não se pense que um sistema destes apenas funciona em pequenas comunidades. Este sistema funciona nas comunidades em países tão distintos como a Índia (mais de um milhão de crentes), o Uganda (100 mil crentes), a Bolívia (70 mil crentes) ou os Estados Unidos (130 mil crentes). A dimensão da comunidade e as suas raízes culturais não são obstáculo ao funcionamento deste sistema.
Por este motivo, sinto sempre dificuldades para fazer a minha escolha nas eleições da nossa república; é muito mais fácil votar em eleições bahá’ís.
Um sistema combinado
Uma possível combinação destes dois sistemas passaria pela criação de um círculo eleitoral nacional (mantendo-se os círculos eleitorais distritais). Para esse círculo os partidos apresentariam listas de candidatos; o eleitor, porém, poderia escolher alguns nomes de diferentes listas de candidatos. Deste modo, os deputados eleitos pelo círculo nacional seriam escolhidos directamente pelos cidadãos – independentemente da sua cor política e da sua posição na lista de candidatos.
Por exemplo, poderíamos ter 12 deputados eleitos pelo círculo nacional, e cada eleitor poderia escolher 1 a 6 nomes de deputados para esse círculo; poderia escolher o 1º e 3º nomes do partido A, o 5º e 8º nomes do partido B, e assim sucessivamente. O círculo nacional também poderia estar aberto a candidaturas independentes.
O importante aqui é dar ao eleitor a possibilidade de escolha dos deputados com que ele se identifica mais (mesmo que estes tenham diferentes cores políticas). Neste tipo de eleição, o voto do eleitor nunca vai para um partido, mas para o conjunto de pessoas que ele escolhe. Votar em pessoas é a base do processo eleitoral bahá’í.
Esta forma de eleição obrigaria os partidos a uma escolha muito cuidadosa dos deputados do círculo nacional; ao escolher os deputados individualmente, cada eleitor não poderia deixar de se sentir mais próximo das decisões políticas deste país.
Creio que esta combinação dos dois sistemas seria uma forma de aprofundar a nossa democracia.
Aprofundar a Democracia
Uma comparação entre o sistema eleitoral da democracia portuguesa e o sistema eleitoral bahá'í é o tema do meu texto de hoje. Está no Terra da Alegria...
Mas podem comentar aqui.
sexta-feira, 16 de julho de 2004
Desenvolvimento Humano
E percebe-se que estes problemas existem em países de todos os continentes; as questões mais mediatizadas lá estão ao lados de outras desconhecidas ou quase ignoradas.
Fiquei particularmente interessado por um conjunto de conceitos relativos ao desenvolvimento humano e de ideias chave em que este se baseia. Afirma-se por exemplo:
- "Desenvolvimento humano consiste essencialmente e permitir que tenham o tipo de vida que escolheram, e proporcionar-lhes os instrumentos e as oportunidades que lhes permitam fazer essas escolhas."
- "Enquanto os pobres e marginalizados não puderem ter uma voz activa na política local e nacional, também não poderão ter acesso a empregos, escolas, hospitais, justiça, segurança e outros serviços básicos."
- "Rejeita-se a ideia que as diferenças culturais conduzam necessariamente a conflitos sociais, económicos e políticos, ou que os direitos culturais devem sobrepor-se aos direitos políticos e económicos."
- "Não existem regras fáceis ou genéricas para construir sociedades muticulturais."
Enfim, quem quer conhecer o mundo em que vivemos tem necessariamente de ler este documento. Apenas tenho de fazer dois comentários muito pessoais:
- Espero que os media e os responsáveis políticos não reduzam este documento a uma espécie de "Guia Michelin" dos países do mundo. O seu conteúdo não pode ser resumido dessa forma.
- Na página 33, lá está: "In Iran the Baha’i Community – the largest religious minority with 300.000 membrers – is not recognised by the Constitution which essentially considers them «non-persons»". É certo que é um pequeno problema, quando comparado com tantos outros que a humanidade se defronta. Mas é um problema que existe..
quinta-feira, 15 de julho de 2004
A Folha Mais Sagrada
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Bahiyyih Khanum nasceu em 1846, dois anos depois do Seu irmão, 'Abdu'l-Bahá. O seu nome próprio era Fatimih, mas na história bahá'í ficou conhecida como Bahiyyih (em português, "a Folha Mais Sagrada"). Tinha apenas seis anos quando Bahá'u'lláh foi preso e encarcerado no Siyah-Chal. Esta filha de Bahá'u'lláh integrou o grupo de "exilados persas" que ao longo de várias décadas foram sendo sucessivamente deportados no Império Otomano.
Os peregrinos Bahá'ís que a conheceram deixaram relatos de vários episódios que revelam alguns aspectos da sua personalidade. Um peregrino descreveu como ela e o irmão eram parecidos na sua maneira de ser; "pareciam gémeos". Após o casamento de 'Abdu'l-Bahá, a relação de afecto estendeu-se à cunhada, Munírih.
Tal como outros irmãos, a sua preocupação principal era o serviço ao seu pai, Bahá'u'lláh. A ela se devem a preservação de vários objectos de uso pessoal de Bahá'u'lláh: roupas, canetas, livros, malas. Esses objectos que hoje podem ser vistos por peregrinos no Centro Mundial Bahá'í.
Em 1921, quando 'Abdu'l-Bahá faleceu e deixou a liderança da comunidade ao seu neto, Shoghi Effendi, este encontrava-se em Oxford. O choque da notícia da morte do avô deixou-o profundamente consternado. Pediu, então, à sua tia-avó que se encarregasse dos afazeres da comunidade durante algum tempo. Bahíyyih, já com 75 anos, acedeu ao pedido. Durante vários meses geriu os assuntos da comunidade: recebeu peregrinos, esclareceu crentes e comunidades noutros países, resolveu questiúnculas... Uma carta escrita pela sua mão pode ser vista aqui.
Faleceu em 15 de Julho de 1938. Os seus restos mortais repousam hoje nos jardins bahá'ís no Monte Carmelo (ver foto seguinte).
Ma-Schamba
Se isso se confirmar, posso dizer que vai fazer muita falta.
Era uma daquelas visitas diárias obrigatórias...
E agora, José?
Julho de 1850: a preocupação do Embaixador Russo
A opinião da colónia europeia em Teerão, entre 1850-1852, era que os Bábis seriam socialistas, comunistas e anarquistas. Esta perspectiva deve ser entendida no contexto da história europeia da época. A Europa acabava de atravessar um período turbulento. O ano de 1848 ficara conhecido como "o ano das revoluções" promovidas por socialistas e anarquistas. Assim, não é surpreendente que os europeus em Teerão vissem o movimento Bábi sob uma perspectiva semelhante.
As principais embaixadas em Teerão eram a Britânica e a Russa; estes dois países disputavam interesses e zonas de influência na Pérsia. Os arquivos diplomáticos desses dois países revelam o interesse de ambos sobre a natureza e evolução do movimento Bábi.
O embaixador russo na Pérsia, o principe Dolgorukov, preocupava-se com a dimensão do movimento Bábi naquele país. Em 1849 chega mesmo a referir-se aos Bábis como "uma seita que promove o comunismo pela força das armas". O facto do Báb ter ficado preso na fortaleza de Maku, perto da fronteira russa deixa-o ainda mais alarmado. Só passado alguns meses percebe que o movimento Bábi não é uma rebelião armada, mas um movimento religioso.
Em meados de 1850, Dolgorukov toma conhecimento que os ingleses estão a investigar os Bábis. Para tentar obter informações mais fidedignas enviou, em 15 de Julho de 1850, para o cônsul russo em Tabriz, Anitchkov, a seguinte carta:
"A doutrina do Báb todos os dias capta novos aderentes na Pérsia. Por esse motivo deve merecer a nossa mais séria atenção. Consequentemente, solicito-lhe que desenvolva todos os esforços para reunir toda a informação possível sobre os dogmas desta doutrina e movimentos dos seus apoiantes. Depois de me comunicar tudo o que obtiver, farei uma comparação com tudo aquilo que estou em posição de recolher em Teerão.
A presença do Báb em Tabriz pode talvez possibilitar-lhe a recolha da informação mais autêntica sobre este assunto"
No mesmo dia, escreveu para Senivian, o Ministro Russo dos Negócios Estrangeiros:
"Lord Palmerston [o Ministro dos Negócios Estrangeiros Britânico] pediu ao seu Embaixador na Pérsia que lhe enviasse um relatório detalhado sobre as crenças desta seita, e eu próprio espero, num futuro próximo, poder enviar ao Ministro Imperial um livro que foi compilado por um famoso Bábi e que foi posto à minha disposição".
Na data em que estas carta foram escritas, tinham já passado 6 dias sobre o fuzilamento do Báb, facto que provavelmente ainda não era do conhecimento do embaixador. Estas duas cartas são apenas curiosidades históricas. Existem cartas semelhantes redigidas por diplomatas ingleses. Entre os livros e os artigos escritos na época e que referem a nova religião, destacam-se imediatamente os do professor E.G.Browne, A. Nicolas e do Conde Gobineau. Talvez um dia escreva sobre estes autores.
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Referências/Links:
* Todas as citações foram retiradas de The Bábi and Bahá’í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, de Moojan Momen
* Uma breve descrição das referências às religiões Bábi e Bahá'í no Ocidente encontra-se aqui.
quarta-feira, 14 de julho de 2004
terça-feira, 13 de julho de 2004
segunda-feira, 12 de julho de 2004
Nascimento e Morte
O mundo do além é tão diferente deste mundo, quanto este mundo é diferente daquele mundo da criança que ainda está no ventre materno (SEB LXXXI)No ventre materno, o bebé tem de desenvolver as suas qualidades físicas para ficar apto para a fase seguinte da sua existência; de igual modo, o nosso objectivo na vida será desenvolver qualidades espirituais que nos permitam ficar aptos para a fase seguinte da nossa existência.
O bebé no ventre materno não tem possibilidade de escolha sobre o seu desenvolvimento físico; ele não pode escolher se quer desenvolver membros, olhos, e todos os seus órgãos. Nós, porém, nesta fase da nossa existência, temos possibilidade de escolha sobre o nosso desenvolvimento espiritual; podemos escolher se queremos ser honestos, justos, fidedignos... podemos escolher aquele modelo de vida ou outro.
Se o bebé pudesse escolher sobre o seu desenvolvimento físico, talvez se questionasse sobre a necessidade de desenvolver pernas, braços, olhos, e outros órgãos e membros; na verdade, para a forma de existência que ele tem no ventre materno, esse desenvolvimento poderia parecer-lhe desnecessário.
Se o bebé tivesse consciência que aquela existência no ventre teria um fim, para ele isso significaria a morte (era o fim da única forma de existência que ele conhecia); no ventre da mãe ele tem tudo o que necessita. E nós aqui, à espera dele, sabemos que o fim daquela primeira fase de existência é na verdade um nascimento.
E nós, que já estamos nesta segunda fase da nossa existência, nós que temos consciência que um dia isto terá um fim, nós que podemos optar pelo nosso desenvolvimento espiritual, será que o nosso fim físico é, na verdade, um nascimento?
Que características espirituais devemos desenvolver para estarmos aptos para a próxima fase da nossa existência?
Que problemas poderemos ter se não nos desenvolvermos espiritualmente de forma a ficarmos preparados para outro tipo de existência?
Temos alguém "do outro lado" à espera do nosso segundo nascimento?
A resposta a estas questões não é linear quando se acredita que o ser humano é algo mais do que um pedaço de matéria que tomou consciência de si próprio. Por detrás destas questões está outra ainda: "Qual o objectivo da nossa existência?" Alguns esclarecimentos a estas questões foram dados pela maioria dos Profetas fundadores das grandes religiões mundiais e encontram-se registados nas Sagradas Escrituras de praticamente todas as religiões.
Nascimento e Morte
"O mundo do além é tão diferente deste mundo, quanto este mundo é diferente daquele mundo da criança que ainda está no ventre materno"
Esta frase de Bahá'u'lláh é motivo de uma pequena reflexão e pretexto para uma série de questões que ficam por responder. O texto está no Terra da Alegria...
Mas podem comentar aqui.
sexta-feira, 9 de julho de 2004
Em 1850, numa praça de Tabriz...
O chefe da prisão entrou na cela do Báb, num momento em que Ele falava com o Seu secretário. Interrompeu a conversa e forçou o Báb a sair da cela. "Antes de Eu lhe dizer todas aquelas coisas que desejo dizer," disse o Báb ao guarda, "nenhum poder terreno haverá de Me silenciar. Embora o mundo inteiro se arme contra Mim, porém, serão impotentes para Me impedir de cumprir até a última palavra Minha intenção."(1)
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| Tabriz, a cidade onde o Báb foi executado |
Algumas tradições islâmicas afirmavam que o Prometido (Qa’im) seria morto pelos próprios muçulmanos. O Báb tinha afirmado ser Ele o Prometido; para tentar demonstrar a falsidade do Báb, os sacerdotes ordenaram que a execução fosse realizada com um fuzilamento por um regimento arménio (cristão).
O comandante do regimento, o coronel Sam Khan, ficou muito desagradado com a tarefa. Tinha ouvido muitas coisas sobre o Báb e temia que a execução despertasse a ira de Deus. Assim que lhe entregaram o Báb, disse-lhe: "Eu professo a Fé Cristã, e não vos desejo qualquer mal. Se a Vossa Causa for a Causa da Verdade, livrai-me da obrigação de derramar o vosso sangue." O Báb tranquilizou-o: "Segui as vossas instruções, e se a vossa intenção for sincera, o Omnipotente poderá certamente aliviar-vos da Vossa dificuldade."(2)
Pouco tranquilo, Sam Khán prosseguiu a sua tarefa; a execução iria decorrer na praça principal da cidade, que já estava apinhada de gente. Ordenou aos seus homens que colocassem um prego no muro e neste amarrassem duas cordas; nestas cordas o Báb e Anís foram suspensos. Depois, o regimento colocou-se em três fileiras, cada uma com duzentos e cinquenta homem; à ordem de fogo, as fileiras dispararam uma após outra. O barulho e o fumo dos disparos encheram a praça.
Quando o fumo dissipou, a multidão ficou perplexa com o que via. Anís estava em pé diante deles, ileso e sorrindo, e o Báb desaparecera. As balas apenas tinham cortado as cordas em que eles tinham sido suspensos.
Começou então uma frenética busca do Báb. Por fim, encontraram-No sentado na Sua cela, concluindo a conversa, que fora interrompida, com o Seu secretário. "Terminei a Minha conversa. Agora podeis proceder ao cumprimento da Vossa intenção"(3), foram as Suas palavras quando O encontraram.
Profundamente perturbado com o ocorrido, Sám Khán recusou-se a permitir que os seus homens disparassem de novo e ordenou-lhes que abandonassem a praça. Foi então necessário chamar outro regimento para realizar o fuzilamento; para isso foi necessário recorrer a um regimento muçulmano. Uma vez mais o Báb, e Anís foram suspensos no pátio. Quando o regimento se preparava para disparar, o Báb dirigiu estas últimas palavras à multidão que O fitava:
"Se tivésseis acreditado em Mim, ó geração perversa, cada um de vós teria seguido o exemplo deste jovem que, em grau, é superior à maioria de vós, e de bom grado se teria se sacrificado em Meu caminho. Dia virá em que Me tereis reconhecido; nesse dia, Eu terei deixado de estar convosco."(4)
Desta vez as balas acertaram no alvo. Os corpos do Báb e de Anís ficaram cravados de balas e horrivelmente mutilados; mas as suas faces permaneceram quase intactas.
Algumas horas mais tarde, os dois cadáveres foram lançados numa lixeira no exterior da cidade. Durante a noite, alguns Babís conseguiram recuperar o corpo do Báb; este permaneceu escondido em diversos locais do Irão, durante várias décadas. Em 1909, os restos mortais do Báb foram finalmente colocados no Santuário numa encosta do Monte Carmelo. Hoje esse Santuário é um ex-libris da cidade de Haifa (ver foto seguinte).
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| Santuário do Báb no Monte Carmelo |
NOTAS:
(1) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 252
(2) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 254
(3) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 256
(4) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 257
quinta-feira, 8 de julho de 2004
Anís, o Companheiro dos últimos dias
A população da cidade soube da ordem de execução e houve grande agitação; as ruas encheram-se de gente que tentava ver o Báb a ser levado para a fortaleza, antes da execução. Quando os soldados conduziam o Báb e o Seu secretário, Siyyid Husayn, para a fortaleza, um jovem abriu caminho através da multidão e atirou-se aos pés do Báb dizendo:
"Não me afastes de Ti, ó Mestre. Onde quer que Tu vás, permite que eu Te siga."
"Levanta-te", respondeu o Báb, "e tem confiança que estarás Comigo. Amanhã testemunharás o que Deus decretou."(1)
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| Fortaleza de Tabriz, o local onde o Báb passou os Seus últimos dias |
Anís era um dedicado seguidor da mensagem do Báb. Vivia em Tabriz e há muito tempo que desejava conhecer pessoalmente o Báb. Tinha pensado ir até à fortaleza de Chiriq, mas o seu pai proibira-o e trancara-o em casa (apesar de Anís ser adulto, casado e ter um filho!) Anís já tinha ficado fechado em casa durante uma anterior visita do Báb a Tabriz. Mas estas atitudes do pai não esmoreciam a sua fé.
Em conversas com outros Bábis que tinham visitado o Báb nas prisões de Mah-Ku e Chiriq, partilhou com eles uma experiência muito pessoal. Dizia que tinha passado muitas semanas orando e implorando a Deus que lhe permitisse chegar à presença do Prometido; um dia, quando estava imerso em oração, teve uma visão extraordinária. Ele viu o Báb à sua frente chamando-o. Anís atirou-se aos Seus pés. "Regozija-te," disse-lhe o Báb, "aproxima-se a hora em que, nesta mesma cidade, serei suspenso diante dos olhos da multidão, e cairei vítima ao fogo do inimigo. A ninguém escolherei senão a ti para partilhar Comigo da taça do martírio. Tem a certeza que esta promessa que te faço será cumprida."(2) E assim, Anís começou a esperar pacientemente, sabendo que chegaria o dia em que estaria na presença do Báb. Agora, esse dia tinha chegado.
Na noite de 8 para 9 de Julho, o Báb falou aos Seus companheiros de cárcere. Cheio de alegria, disse-lhes: "Amanhã será o dia do Meu martírio. Oxalá pudesse um de vós levantar-se agora, e, com as próprias mãos, pôr fim à Minha vida. Preferia ser chacinado pela mão de um amigo, do que pela mão do inimigo." Todos ficaram consternados; as lágrimas corriam pelas suas faces; ninguém se atrevia a por fim à vida do Báb.
Subitamente, Anis levantou-se deu alguns passos em direcção ao Báb e disse que estava pronto a obedecer a qualquer coisa que Ele ordenasse. Os outros dois companheiros ficaram horrorizados e agarraram-no. Quando as coisas acalmaram, o Báb afirmou: "Esse mesmo jovem que se levantou para aceder à Minha vontade, sofrerá o martírio comigo. Será ele quem Eu escolherei para partilhar essa coroa."(3)
O Báb passou o resto da noite ditando cartas e epístolas para o Seu secretário. O dia seguinte seria o dia do Seu martírio; o Báb escolhera um discípulo para O acompanhar nesse momento.
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NOTAS
(1) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 251
(2) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 58
(3) Os Rompedores da Alvorada, volume II, p. 251
quarta-feira, 7 de julho de 2004
Secularism & Iran
Inteligência Espiritual
Depois de reflectir um pouco, realmente creio que seja lógico que estes homens tenham sido inteligências superiores: afinal conceberam planos que uma inteligência normal dificilmente teria conseguido. Pelo mesmo pressuposto, não será difícil chegar à conclusão que outros como o próprio Hitler, Estaline, etc, também pudessem ter QI's elevados. Pergunto, então, como explicar a diferença entre um homem desses e um Einstein, para citar um exemplo por todos conhecido, ou outros génios do bem? Sim, acho que não é abusivo chamar a uns génios do mal e a outros génios do bem... A resposta parece-me óbvia: a capacidade intelectual, só por si, está longe de ser suficiente para guiar a actividade humana, porque uma mente genial não é forçosamente uma alma genial. A genialidade intelectual, só por si, é condição necessária, mas não suficiente para o saudável bem estar e desenvolvimento da humanidade; igualmente podemos dizer o mesmo para a genialidade moral.
Para suportar esta ideia queria apresentar um conceito do qual tomei conhecimento recentemente, eventualmente já conhecido por alguns, mas acredito não por todos já que se trata de um conceito muito recente. É ele o Coeficiente Espiritual (QS), que vem complementar o Coeficiente Emocional (QE) este já mais conhecido e o tradicional e velhinho QI presente em tantos exames psicológicos. O QE primeiro, e agora o QS, são conceitos que vêm tentar procurar explicações cientificas para comportamentos e características humanas que o QI por si só não consegue suportar.
O QS distingue-se do QI e do QE pela capacidade de transformação. O QI basicamente é responsável pela resolução de problemas lógicos. O QE permite avaliar situações em que nos encontramos e encontrar um comportamento em consonância. O QS permite-nos perguntar se queremos estar numa determinada situação e poderá motivar-nos a criar uma outra diferente. Apesar da conotação que o nome carrega, o QS tem pouca relação com a religião formal. Ateístas e humanistas poderão ter um elevado QS, enquanto um religioso convicto e activo poderá não o ter.
O texto seguinte foi retirado de uma entrevista com a física e filósofa americana Dana Zohar, onde se aborda este tema. Nesta entrevista ela explica sucintamente o que é o QS. Chamo No final do texto, onde são enumeradas as 10 supostas características de uma pessoa espiritualmente inteligente.
No livro QS - Inteligência Espiritual, lançado no ano passado, Dana Zohar aborda um tema tão novo quanto polémico: a existência de um terceiro tipo de inteligência que aumenta os horizontes das pessoas, torna-as mais criativas e se manifesta em sua necessidade de encontrar um significado para a vida. Ela baseia seu trabalho sobre Coeficiente Espiritual (QS) em pesquisas só há pouco divulgadas de cientistas de várias partes do mundo que descobriram o que está sendo chamado "Ponto de Deus" no cérebro, uma área que seria responsável pelas experiências espirituais das pessoas. O assunto é tão actual que foi abordado em recentes reportagens de capa pelas revistas americanas Neewsweek e Fortune. Dana afirma: "A inteligência espiritual colectiva é baixa na sociedade moderna. Vivemos em uma cultura espiritualmente estúpida, mas podemos agir para elevar nosso quociente espiritual".
O que é inteligência espiritual?
É uma terceira inteligência, que coloca nossos actos e experiências num contexto mais amplo de sentido e valor, tornando-os mais efectivos. Ter alto quociente espiritual (QS) implica ser capaz de usar o espiritual para ter uma vida mais rica e mais cheia de sentido, adequado senso de finalidade e direcção pessoal. O QS aumenta nossos horizontes e torna-nos mais criativos. É uma inteligência que nos impulsiona. É com ela que abordamos e solucionamos problemas de sentido e valor. O QS está ligado à necessidade humana de ter propósito na vida. É ele que usamos para desenvolver valores éticos e crenças que vão nortear nossas acções.
[...]
Os cientistas descobriram que temos um "Ponto de Deus" no cérebro, uma área nos lobos temporais que nos faz buscar um significado e valores para nossas vidas. É uma área ligada à experiência espiritual. Tudo que influência a inteligência passa pelo cérebro e seus prolongamentos neuronais. Um tipo de organização neuronal permite ao homem realizar um pensamento racional, lógico. Dá a ele seu QI, ou inteligência intelectual. Outro tipo permite realizar o pensamento associativo, afectado por hábitos, reconhecedor de padrões, emotivo. É o responsável pelo QE, ou inteligência emocional. Um terceiro tipo permite o pensamento criativo, capaz de insights, formulador e revogador de regras. É o pensamento com que se formulam e se transformam os tipos anteriores de pensamento. Esse tipo lhe dá o QS, ou inteligência espiritual.
Qual a diferença entre QE e QS?
É o poder transformador. A inteligência emocional permite-nos julgar em que situação nos encontramos e a nos comportarmos apropriadamente dentro dos limites da situação. A inteligência espiritual permite-nos perguntar se queremos estar nessa situação particular. Implica trabalhar com os limites da situação. Daniel Goleman, o teórico do Quociente Emocional, fala das emoções. Inteligência espiritual fala da alma. O quociente espiritual tem a ver com o que algo significa para nós, e não apenas como as coisas afectam a nossa emoção e como reagimos a isso. A espiritualidade sempre esteve presente na história da humanidade.
No início do século XX, o QI era a medida definitiva da inteligência humana. Só em meados da década de 90, a descoberta da inteligência emocional mostrou que não bastava o sujeito ser um génio se não soubesse lidar com as emoções. A ciência começa o novo milénio com descobertas que apontam para um terceiro quociente, o da inteligência espiritual. Ela nos ajudaria a lidar com questões essenciais e pode ser a chave para uma nova era das actividades humanas.
Os especialistas identificam dez qualidades comuns às pessoas espiritualmente inteligentes. Essas pessoas:
1. Praticam e estimulam o auto conhecimento profundo
2. São levadas por valores. São idealistas
3. Têm capacidade de encarar e utilizar a adversidade
4. São holísticas [capacidade de ver a relação entre coisas diversas]
5. Celebram a diversidade,
6. Têm independência [capacidade de lutar contra as convenções]
7. Perguntam sempre "porquê?"
8. Têm capacidade de colocar as coisas num contexto mais amplo
9. Têm espontaneidade
10.Têm compaixão
Pedro Reis
terça-feira, 6 de julho de 2004
Parabéns, Toquinho!
Podia deixar aqui a letra de qualquer música de Toquinho; mas como um blog por vezes se parece com um caderno de notas, aqui fica "O Caderno".
O CADERNO
Sou eu que vou seguir você
do primeiro rabisco até o bêabá
em todos os desenhos coloridos vou estar
a casa, a montanha, duas nuvens no céu
e um sol a sorrir no papel
Sou eu que vou ser seu colega,
seus problemas ajudar a resolver
te acompanhar nas provas bimestrais, você vai ver
Serei de você confidente fiel,
se seu pranto molhar meu papel
Sou eu que vou ser seu amigo,
vou lhe dar abrigo, se você quiser
quando surgirem seus primeiros raios de mulher
A vida se abrirá num feroz carrossel
e você vai rasgar meu papel
O que está escrito em mim
comigo ficará guardado, se lhe dá prazer
A vida segue sempre em frente, o que se há de fazer
Só peço a você um favor, se puder:
não me esqueça num sítio qualquer.
segunda-feira, 5 de julho de 2004
Idosos Iranianos em Portugal
Com o fluxo de bahá’ís iranianos para o nosso país acabei por conhecer alguns idosos iranianos. Por detrás da barreira linguística, da diferença de idades, dos hábitos culturais consegui perceber neles uma experiência de vida nada fácil no Irão.
Um desses idosos vivia com o filho e alguns netos. Era o avô que andava arrastando os pés, curvado; tinha uma voz rouca. Cumprimentava-me sempre com dois beijos na face como se eu fosse mais um dos netos. Certa vez, quando almoçávamos juntamente com toda a família, a televisão estava ligada; a RTP tinha suspendido a emissão a mostrava apenas a mira técnica ao som de música clássica.
De tempos a tempos, o avô olhava para a televisão; lá estava a mira técnica e a música clássica. A dado momento disse qualquer coisa em persa. Traduziram-me: “O avô diz que no dia da revolução no Irão a televisão também estava assim”. Era a preocupação legitima, normal de quem provavelmente passou as passas do Algarve com a revolução islâmica. Pedi que lhe dissessem que não havia revolução em Portugal; a televisão era mesmo assim. E a preocupação do avô acabou por ali.
A infância do avô começara com perseguições aos bahá’ís. Vivia em Yazd; foi naquela província que as perseguições aos bahá’ís assumiram uma violência inigualável. O pai, que ele nunca conhecera, tinha sido assassinado por ser bahá’í; a porta da casa onde viviam tinha sido arrancada e as autoridades avisaram a mãe dele que viriam acabar o serviço se ela chorasse a morte do marido.
Era difícil imaginar o avô quando era criança, numa família que suportava toda aquela opressão. Era difícil conceber que todos os instantes da sua vida no Irão tivessem sido sob o signo da perseguição. Já com oitenta anos, e pouco antes de sair do Irão, todas as suas propriedades foram queimadas pelos fundamentalistas islâmicos.
Não admira que a mira técnica da RTP o preocupasse.
Em Portimão havia um outro idoso iraniano que morava sozinho. Estava sempre presente em todas as actividades Bahá’ís; sentava-se a um canto e ficava calado a olhar para tudo o que se desenrolava; geralmente pediam-lhe que entoasse uma oração em persa, ao que ele acedia. A língua e a idade eram as maiores barreiras entre ele e os restantes bahá’ís; quando apareciam outros iranianos lá tinha com quem falar; por vezes partilhavam revistas em persa. Quanto mais idosos os iranianos, mais prolongada era a conversa.
Sempre que me cumprimentava, estendia-me a mão e repetia o seu nome: "Haghighi. Haghighi." Alguns iranianos lamentavam-se como aquele homem tinha sido tão activo na comunidade bahá’í no Irão e agora a língua e a idade eram para ele barreiras insuperáveis. Mas em todos os eventos bahá’ís lá estava ele calado e sentado a um canto.
Certa ocasião, numa escola de verão (um encontro bahá’í que dura alguns dias) eu era um dos oradores. Imaginei logo que ele ia estar presente; decidi levar comigo um leitor de CD’s e dois CD’s de música persa antiga (daqueles CD’s que a gente compra mas acaba por nunca ouvir). Com a ajuda de uma amigo iraniano, convidei o Sr Haghighi a escutar aqueles CD’s; aceitou com agrado quando percebeu que era música persa.
Depois era o meu momento de palestrar. Perante uma plateia atenta falei do poder da Palavra de Deus; ao fundo, o Sr. Haghighi, com headphones ouvia música persa; tinha uma expressão de satisfação. Após o almoço, reparei que ele falava animadamente com outros amigos iranianos. Um deles resumiu-me a conversa: "Ele diz que nunca ouviu música tão boa!"
Passados uns anos soube que ele tinha falecido. Longe da sua terra natal, sozinho. Percebi que a única vez que consegui comunicar com ele foi através de dois CD’s de música persa.
Terra da Alegria
O meu texto hoje está no Terra da Alegria...
É sobre idosos iranianos em Portugal.
Podem comentar aqui.
sexta-feira, 2 de julho de 2004
Até os goeses!...
Zimbabwe
A independência de 1980 (antigamente vivia-se num regime de apartheid) tinha permitido o aparecimento de uma classe média multi-racial. Mas já se falava de corrupção e políticos que enriqueciam rapidamente. O desemprego já ia nos 30%. Lembro-me num banco onde o funcionário que me atendia, tinha um computador na sua mesa, mas não o utilizava; fazia todo o trabalho manualmente. Diziam-me que o Estado não despedia funcionários públicos para não aumentar o desemprego; era um custo social que preferiam pagar.
Na altura, um Concorde da British Airways passou por Harare. Uma agência de viagens organizou uma pequena excursão turística para quem tivesse posses. Mas a procura foi tanta, que tiveram de organizar duas excursões. Algumas pessoas foram ao aeroporto só para ver quem eram os endinheirados que tinham acesso àqueles luxos.
Numa outra ocasião, numa viagem entre as cataratas de Victoria e Bulawayo, fizemos uma pequena pausa para comer qualquer coisa. Foi num daqueles pontos de descanso semelhantes aos que existem em algumas das nossas estradas; não havia qualquer restaurante ou bar; apenas alguns locais para estacionar o carro à sombra.
Enquanto comia, reparei num garoto que estava estático junto à saída. Teria 12 ou 13 anos; não acompanhava os movimentos dos carros que passavam ocasionalmente; nem sequer olhava para nós. Mesmo à distância, podia perceber que estava triste e acabrunhado. Aquilo intrigou-me.
O episódio do Concorde e o encontro com aquele miúdo foram imagens dos extremos de pobreza e de riqueza que já se faziam sentir no Zimbabwe. Uma diferença capaz de levar a rupturas sociais e crises tremendas.
Hoje as notícias do Zimbabwe são tristes e deprimentes. Os media fazem eco de um país que vai definhando, de uma população que vai sofrendo a fome, a doença, a repressão... Num país que tem todo o potencial para ser o "celeiro" da África Austral.
Entre as muitas consequências da crise actual, está o aumento enorme na quantidade dos meninos de rua. Algumas organizações humanitárias, entre várias actividades, organizaram um workshop de pintura para 10 crianças que vivem na rua. Os trabalhos das crianças foram expostos na Natonal Galery de Harare, como parte de uma exposição intitulada On the Street Where We Live. Os trabalhos dessas crianças podem ser vistos no site da BBC.





