quinta-feira, 30 de setembro de 2004

A Baía de Haifa

Ainda a propósito da presença de Bahá'u'lláh na Terra Santa, achei interessantes as seguintes palavras atribuídas a 'Abdu'l-Bahá, e a comparação entre as imagens.

A Baia de Haifa, numa foto do início do século XX
Em Fevereiro de 1914, um Bahá'í que visitava 'Abdu'l-Bahá na Terra Santa, conversou demoradamente com o Mestre. De acordo com os seus apontamentos de viagem, quando contemplavam a baia de Haifa, 'Abdu'l-Bahá teria dito:

(...) No futuro, por toda a distância que separa 'Akká e Haifa, haverá construções e as cidades unir-se-ão, apertarão as mãos e tornar-se-ão extremos de uma poderosa metrópole… Esta grande baía semicircular será transformada no mais belo porto do mundo, no qual navios de todas as nações procurarão abrigo e refúgio…Indústrias serão fundadas e várias instituições filantrópicas serão criadas. As flores da civilização e cultura de todas as nações serão trazidas aqui para unir as suas fragrâncias e preparar o caminho para a fraternidade dos homens. Jardins maravilhosos, pomares, parques e alamedas serão feitos por toda a parte. À noite, a grande cidade será iluminada por electricidade. A baía inteira de 'Akká a Haifa será uma vereda de luz... O próprio Monte Carmelo, do cume até à base será submerso num mar de luzes...

quarta-feira, 29 de setembro de 2004

segunda-feira, 27 de setembro de 2004

Os Filhos da Nação

O domingo de ontem foi de arromba para as cores portuguesas. O ego português tinha bons motivos para ficar inchado. Mas os media portugueses preferiram dar atenção ao caso da menina que se julga ter sido assassinada, aos futebois e a questiúnculas políticas. Os resultados dos nossos atletas paralímpicos, tal como os deficientes, ficaram para segundo plano.

Imagino o que seria se nos jogos olímpicos de Agosto, os nossos atletas tivessem conseguido cinco medalhas num único dia. Seriam aberturas de telejornais, directos de casa dos familiares dos atletas, os medalhados elevados à condição de heróis nacionais, revistas que publicariam as histórias pormenorizadas das suas vidas... Quando regressassem estariam um mar de gente no aeroporto. Os seus rostos tornar-se-iam familiares e frequentemente seriam referidos como exemplos para muitos de nós.

Mas estes eram deficientes. Na prática, cidadãos de segunda. As notícias das suas proezas também reflectem isso. É certo que alguns jornais de hoje publicam uma foto na primeira página. Mas que aconteceu às televisões no dia de ontem? Porque perderam esta oportunidade?

Não consigo esconder a minha admiração pelos nossos atletas paralímpicos. Lutam contra dificuldades que mal consigo imaginar. São discriminados em coisas que para nós são tão elementares como acessos a edifícios públicos. Mas mesmo contra essa montanha de dificuldades, aí estão eles, medalhados, eufóricos, orgulhosos...

Fica então o nome dos heróis de domingo:

* João Paulo Fernandes (medalha de ouro no torneio individual de Boccia da classe BC1)
* Pedro Silva (medalha de prata no torneio individual de Boccia na classe BC2)
* Bruno Valentim (medalha de prata no torneio individual de Boccia na classe BC4)
* Fernando Ferreira (medalha de bronze no torneio individual de Boccia na classe BC2)
* Carlos Ferreira (medalha de prata na maratona T11 [cegos totais])

E os heróis de hoje são:
* João Martins (medalha de bronze no 50 m costas, categoria S1)
* Susana Barroso (medalha de bronze no 50 m costas, categoria S3 [deficiência locomotora])

Estes sim, são os filhos da nação!

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NOTAS
O Boccia é um desporto exclusivo para atletas com deficiência (paralisia cerebral e doenças neuro-musculares) e assemelha-se à petanca, tendo como objectivo colocar pequenas bolas de pele, azuis ou vermelhas, o mais próximo possível de uma bola alvo.

Site da FDDA:
www.portugal-paralimpicos.org

A primeira referência pública no Ocidente

Em 1893, realizou-se nos Estados Unidos o primeiro Parlamento Mundial das Religiões. O evento teve lugar durante a Exposição Colombiana, que assinalava o 4º Centenário da Descoberta da América. Pode parecer apenas mais uma das muitas exposições e conferências que se iam realizando ao longo do final do séc. XIX, nos Estados Unidos e na Europa. Mas para os bahá'ís assinala um momento importante: era a primeira vez que em público se fazia um referência à religião fundada por Bahá'u'lláh.


Naturalmente que o episódio passou despercebido a muita gente dessa época. Os registos da conferência assinalam uma palestra proferida pelo Reverendo George A. Ford. Este missionário, cuja actividade se centrava na Síria, leu uma comunicação preparada por outro missionário, o Reverendo Henry H. Jessup (que também trabalhava na Síria).

A palestra teve lugar no dia 23 de Setembro; fez 111 anos na passada 5ª feira. Ali, perante uma plateia ocidental, o aquele ministro Presbiteriano referiu pela primeira vez o nome de Bahá'u'lláh e mencionou as Suas palavras. Ao concluir a sua palestra declarou:

No Palácio de Bahji, ou Deleite, no exterior da Fortaleza de 'Akká, na costa da Síria, faleceu há alguns meses atrás um famosos sábio persa[1], um santo Babi, chamado Bahá'u'lláh – a Glória de Deus – o chefe desse vasto partido reformador dos muçulmanos persas, que aceitam o Novo Testamento como Palavra de Deus e Cristo como Redentor dos homens, que vêem todas as nações como uma só, e todos os homens como irmãos. Há três anos, ele foi visitado por um académico de Cambridge[2], e expressou sentimentos tão nobres, tão semelhantes aos cristãos, que os repetimos como palavras finais:

«Que todas as nações se tornem uma em fé e todos os homens irmãos; que os laços de afecto unidade entre os filhos dos homens sejam fortalecidos; que o antagonismo entre religiões cesse e as diferenças entre raças sejam anuladas. Que mal há nisso? No entanto assim será. Estas lutas infrutíferas, estas guerras ruinosas cessarão e a «Mais Grandiosa Paz» virá. Não necessitam também disso na Europa? Que o homem não se vanglorie de amar seu país; que o homem se vanglorie de amar o seu semelhante»[3]


Alguns historiadores bahá'ís dizem que nesse dia, a religião Bahá’í chegou ao Ocidente. Curiosamente, surgiu pela boca de um cristão.

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NOTAS
[1] – Bahá'u'lláh faleceu em 29 de Maio de 1892.

[2] –
Edward Granville Browne. A visita teve lugar em Abril de 1891.
[3] – World Parliament of Religions, vol. II, pag. 1125-6.

Outros documentos relacionados:
* Interfaith and the Future, John Hick (palestra comemorativa do centenário do primeiro Parlamento Mundial das Religiões).
* Alguns autores consideram que no Ocidente as primeiras referências públicas à religião Bahá'í foram feitas no Reino Unido; ver
First Public Mentions Of The Bahá'í Faith.

Terra da Alegria

Há uma nova edição da Terra da Alegria!



Textos sobre o Santo Graal, Sete Lições de Moral e a primeira referência à religião bahá'í no Ocidente.

sábado, 25 de setembro de 2004

Peopleware

A propósito do problema da colocação de professores, e para quem quer saber o que geralmente pode correr mal num projecto informático, recomendo vivamente a leitura do livro Peopleware. O autor é o conhecido Tom Demarco.

O livro é um clássico da gestão de projectos informáticos, que nos mostra como os problemas do desenvolvimento de software são humanos e não técnicos. É importante termos uma noção do tipo de problemas que geralmente arrasam um projecto.

João Martins



O nadador português João Martins conquistou a medalha de bronze na
final dos 50 metros costas S1 (paralisa cerebral), nos Jogos Paralímpicos de Atenas'2004.

Ao obter um resultado destes e ao lutar contra tantas dificuldades na vida, não poderemos considerar este homem um duplo campeão ?

José Alves

O atleta português José Alves conquistou a medalha de bronze nos 400 m, categoria T13 (amblíopes) dos Jogos Paralímpicos de Atenas'2004, terminando a prova com 50,86 segundos.

Onde é que este homem foi buscar tanta coragem?

PS – Não consegui encontrar na NET uma foto deste atleta. Se alguém souber, avise-me. Obrigado.

sexta-feira, 24 de setembro de 2004

Um dia bom para a Costa do Marfim

As notícias que nos chegam de África são, geralmente, trágicas. É o Darfur, é o Uganda, são os Grandes Lagos... São nomes de países ou regiões que nos habituámos a associar a massacres e barbáries. Parece que não há coisas boas que surjam no continente africano. Talvez por isso, quando descobrimos uma boa notícia vinda de África, quase que a encaramos como uma curiosidade.

Desta vez a boa notícia vem da Costa do Marfim. Este país viveu durante vários anos em guerra civil (há alguns meses atrás abordei a situação que ali se vive; ver este post). Algumas das atrocidades ali cometidas mereceram destaque nos nossos telejornais. Mas nos últimos anos as coisas acalmaram. Houve conversações entre governo e rebeldes; chegou uma força de manutenção de paz; e a vida foi retomando a normalidade possível.

Segundo a BBC, nos últimos dois anos houve troca de insultos e, ocasionalmente, de balas. Mas um sinal que há uma mudança de atitude dos antigos beligerantes foi a realização de um jogo de futebol na capital Yamoussoukro. Uma equipa do exército governamental defrontou uma equipa dos rebeldes; o árbitro foi um francês, membro das forças de manutenção de Paz.

O comandante do exército Governamental afirmou: "Há militares que se conhecem há mais de vinte anos. Apesar da situação do país neste momento... eles não se esqueceram que ainda são irmãos". Por seu lado, o comandante rebelde, coronel Soumaila Bakayoko disse: "A atmosfera estava tremenda, muito amigável. Os filhos deste país encontraram-se de novo, em alegria, para se divertirem. Estou muito contente com isto."

O coronel francês, Alexander Monart, responsável pela organização do jogo, ficou satisfeito pelo ambiente vivido no estádio, entre jogadores e adeptos. Resumiu o evento a uma pequena frase: "Acho que hoje é um dia bom"

Esperemos que este dia bom, seja um auspício de dias ainda melhores para os marfinenses.

Notícia completa aqui.

quinta-feira, 23 de setembro de 2004

Terra Santa



Por vontade dos Seus opositores, Bahá'u'lláh foi levado para a Terra Santa (o primeiro exílio levara-O para Bagdade, próximo dos bastiões da ortodoxia xiita; o segundo levara-O à capital Otomana, a sede do poder Sunita).

Esta é a Terra prometida por Deus a Abraão.
Esta é a Terra santificada pela revelação de Moisés.
Esta é a Terra honrada pela vida de patriarcas e profetas hebreus.
Esta é a Terra onde Zoroastro conversou com alguns do profetas de Israel.
Esta é a Terra reverenciada como berço da cristandade.
Esta é a Terra que Maomé visitou quando, segundo a tradição, viajou pelos sete céus até ao trono do Altíssimo.

Esta Terra recebeu Bahá'u'lláh no Seu último exílio. Seria o clímax da Sua revelação.

Nessa Terra passaria um terço da sua vida.
Nessa Terra revelaria a maioria dos livros sagrados bahá'ís.
Nessa Terra concluiria uma série de epístolas dirigidas a reis e governantes do Seu tempo.
Nessa Terra passaria a liderança da comunidade para o Seu filho, 'Abdu'l-Bahá.
Nessa Terra o Báb (o Seu precursor) seria sepultado.

É uma Terra onde se cruzam os caminhos de muitas religiões.

terça-feira, 21 de setembro de 2004

Exílio em ‘Akká: Reacções(2)

'Akká, numa gravura de 1875

A correspondência entre o embaixador francês em Teerão, o Conde Gobineau, e o embaixador austríaco em Constantinopla, Prokesch-Osten, abordou várias vezes o tema dos babís e a questão dos exilados Persas. Em Novembro de 1868, Gobineau teve conhecimento que Bahá'u'lláh se encontrava preso em 'Akká e escreveu ao embaixador austríaco:

Recebi uma longa carta do Báb [1]. Ele encontra-se em S. João do Acre, prisioneiro num aquartelamento em ruínas com um grupo de homens mulheres e crianças; falta-lhes água e vêem o seu mundo cair na miséria. Os guardas que os acompanham espoliaram-nos completamente. Um grupo dos seus fiéis foi enviado para Chipre, onde as condições não são muito melhores.

Quero acreditar, tal como Fu'ad Pashá [2] lhe disse, que o dinheiro e as intrigas da Legação Persa não têm nada a ver com este assunto; mas fica então uma brutalidade turca, para a qual eles não têm o menor pretexto de a cometerem. Quanto à suspeita que os Babís desejam tornar-se Cristãos, isso também é ridículo.

Quando alguém acredita que é Deus e companheiro de um Deus, e abandona o seu país e é sujeito a todo o tipo de perseguições no mundo por causa disso, esse alguém não se vai converter a outro culto.

Estou a tentar fazer o que posso para libertar estas infelizes pessoas da sua terrível situação. Mas não sei que possibilidades tenho de ser compreendido. É sobretudo a si, Excelência, que continuo a pedir ajuda. O Báb escreveu-me para lhe dizer quanto ele, assim como o seu povo, estão sensibilizados pelas evidências do seu interesse. Seria bom se conseguisse obter a liberdade para eles e dar-lhes alguma compensação pelas perdas a que têm sido sujeitos; e por fim, que se permitisse àqueles que estão em Chipre poderem juntar-se de novo ao seu líder e amigos. Se se pensar ser é necessário mantê-los sob vigilância, que sejam colocados numa cidade onde os consulados europeus possam ver que eles não são atormentados. Não posso elogiar este assunto demasiadamente, Excelência, pois temo que o meu livro [3] ao chamar a atenção para Mirzá 'Ali Husayn [4] e seus seguidores, tenha sido um factor na sua perseguição, e a minha consciência ficaria perturbada.
[5]

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NOTAS
[1] - Gobineau atribui o título de Bab a Bahá'u'lláh
[2] - Diplomata e estadista turco. Serviu em várias embaixadas turcas no ocidente e com Grão Vizir; advogada a modernização do estado otomano e foi muito influente no desenvolvimento da língua turca. Foi um dos responsáveis pelo exílio de Bahá'u'lláh para 'Akká, ao acreditar nos boatos que diziam que Bahá'u'lláh tinha ligações ao independentistas búlgaros.
[3] - Les Religions et les Philosophies dans l'Asie Centrale, publicado pouco depois de ter abandonado a Pérsia.
[4] - Nome próprio de Bahá'u'lláh
[5] – Correspondance, pag. 336-7

segunda-feira, 20 de setembro de 2004

Carlos Ferreira



Carlos Ferreira, atleta português paralímpico, medalha de prata nos 10 mil metros na categoria de T11 (cegos totais); conseguiu também o recorde europeu.

Quem é que ainda tem uma bandeira na janela?

Oração Preferida

Várias pessoas na comunidade bahá'í sabem que eu tenho um gosto especial por uma oração do Báb. Sabem que se me pedirem para eu ler alguma oração, a minha escolha será sempre a mesma. É daquelas preferências que apenas quando estou com bahá’ís.
Trata-se de uma oração onde se confessa a omnipotência do Criador e a nossa fragilidade, a nossa total dependência da vontade de Deus. É como se nós fossemos apenas uma folha que é levada pelo vento da vontade de Deus.
Por vezes penso que sou viciado nesta oração.
Glorificado és Tu, ó Senhor meu Deus!És, em verdade, o Rei dos Reis.Conferes soberania a quem quer que desejes e dela privas qualquer um que Tu queiras.Exaltas a quem quer que desejes e rebaixas qualquer um que Tu queiras.Tornas vitorioso quem quer que desejes e humilhas qualquer um que Tu queiras.Concedes riqueza a quem quer que desejes e reduzes à pobreza qualquer um que Tu queiras.Fazes que quem quer que desejes prevaleça sobre qualquer um que Tu queiras.Em Tuas mãos seguras o império de todas as coisas criadas, e através da potência de Teu mandamento soberano chamas à existência quem quer que Tu desejes.Em verdade, Tu és o Omnisciente, o Omnipotente, o Senhor de Poder.
Para quem contacta pela primeira vez com as escrituras bahá’ís, recomendo que não interpretem o texto de forma literal. Pensem um pouco no que podem simbolizar palavras como “soberania”, “exaltação”, “rebaixamento”, “riqueza”, “pobreza”. A multiplicidade de significados dessas palavras e frases apenas aumenta a beleza da oração.

Terra da Alegria

Na Terra da Alegria estão três textos: da Marvi, de Luís Almeida, e um texto meu.

domingo, 19 de setembro de 2004

Shirin Ebadi, outra vez

Já uma vez publiquei um texto de Shirin Ebadi na Terra da Alegria. Admiro esta mulher. Transmite a imagem de uma lutadora. Usando a lei, ela desafia os poderes politico-religiosos instituídos no Irão. É um exemplo para outras mulheres; é uma lição para os homens. É uma fonte de esperança para muitos oprimidos. Gostava de ter 10% da coragem dela...

Recentemente o Persian Journal publicou dois artigos (France Ban Fuels Extremism, No Country Needs Atomic Bomb) que referem intervenções suas na Áustria a propósito de vários assuntos. Leiam, que vale a pena.

sábado, 18 de setembro de 2004

Outros blogs

De uma forma geral todos conhecemos um conjunto de blogs que consideramos bons ou interessantes, e outros que são de leitura obrigatória; creio que cada um de nós acaba sempre por encontrar um conjunto de blogs que são simultaneamente bons e de leitura obrigatória.

Vem isto a propósito de blogs que descobri recentemente e tenho de recomendar.

O Local e Blogal. Passou-me despercebido até hoje. É um dos melhores blogs que conheci. Apresenta um olhar cuidadoso sobre as raízes árabes da nossa cultura. É bom e é de leitura obrigatória!

A Voz do Deficiente. Ainda está no começo. Tem espaço para crescer e muita coisa para dizer. Creio que facilmente terá o apoio da maioria de nós.

O Iranian Truth, que já conhecia há alguns meses, tem um blogger bahá’í que vive no Irão; o seu nome é Iraj. Fico a aguardar os seus posts.

quinta-feira, 16 de setembro de 2004

Três Fronteiras

Santos Passos publicou uma série de fotos das Cataratas do Iguaçu. Tive a oportunidade de visitar o local por duas vezes. As cataratas só por si são um local de manifestação da força da natureza; o ruido da água, a humidade no ar, a vegetação circundante... Ali no rio podemos fazer um passeio de barco e chegar bem perto do "chuveirinho" da catarata.

Perto das cataratas encontram-se as fronteiras do Brasil, Argentina e Paraguai. O local chama-se "Três Fronteiras" ou "Fronteira Triplice". A foto seguinte foi tirada nesse local, no lado argentinho.




Pois é. As fotos do Santos Passos deram-me cá umas saudades do Brasil!!!

quarta-feira, 15 de setembro de 2004

Terra da Alegria

Hoje é dia de mais uma edição da Terra da Alegria.

A não perder!

Mirza Buzurg

A propósito da destruição da casa de Mirzá Buzurg no Irão, aqui fica um pequeno apontamento sobre o pai de Bahá'u'lláh.

Mirza Buzurg, o pai de Bahá'u'lláh. Ilustração datada de 1820
O pai de Bahá'u'lláh, Mirza Abbas Nuri, provinha de Nur, na província de Mazandaran (norte da Pérsia, junto ao Mar Cáspio); descendia de vários monarcas iranianos pré-islâmicos, nomeadamente, Khosrau I e Yazdegred III da dinastia Sassânida.

Conta-se que um dia alguém mostrou ao rei um requintado trabalho de caligrafia (uma arte muito considerada nos países de cultura islâmica); o monarca, maravilhado com a obra, perguntou se algum ser vivo poderia igualar aquela perfeição. Um dos seus filhos mencionou-lhe, então, o nome de Mirza Abbas Nuri. Consequentemente, decidiram chamá-lo ao palácio e pediram-lhe que reproduzisse um trabalho semelhante. Quando concluiu o trabalho, o rei ficou profundamente impressionado; foi o início da sua associação aos círculos governamentais.

Durante algum tempo serviu como ministro de um dos filhos do rei Fath-'Ali Shah (r. 1797-1834), e mais tarde como governador de Burujird e Lorestan. Mirza Buzurg frequentava o círculo do vizir Mirza Abu'l-Qasim, e o próprio rei concedeu-lhe o título de Mirza Buzurg.

Quando em 1834, o velho rei faleceu, subiu ao trono o seu neto Muhammad-Shah (r. 1834-1848). O início do seu reinado ficou marcado pelo afastamento e execução do vizir Abu'l-Qasim, por ordem do jovem monarca. O novo vizir, Haji Mirza Aqasi, não poupou esforços para eliminar os seus rivais na cena política. Mirzá Buzurg, acabou por cair em desgraça, sendo demitido do cargo de governador e ficando privado de várias fontes de rendimento.

Seguidamente, o novo vizir, planeou várias esquemas para prejudicar Mirzá Buzurg, nomeadamente forçando um umas das esposas a divorciar-se do pai de Bahá'u'lláh e obrigando-o a conceder-lhe uma elevada indemnização. Como consequência Mirza Buzurg teve de vender a sua casa e outras propriedades. Numa das suas epístolas, Bahá'u'lláh refere que estas propriedades foram vendidas em leilão por uma quantia irrisória a dois filhos do antigo rei.

Mirza Buzurg faleceu em 1839; o seu corpo foi levado para o Iraque e sepultado em Najaf. Em Junho de 1942, a sua antiga casa foi adquirida pela comunidade bahá'í do Irão. Passados alguns anos, os jardins adjacentes também foram adquiridos. Posteriormente, foram feitos trabalhos de recuperação com o objectivo de devolver à casa o seu antigo aspecto.

terça-feira, 14 de setembro de 2004

O verdadeiro Islão

O mapa seguinte ilustra a localização e o tipo de ataques que a comunidade bahá'í no Irão tem sofrido nos últimos 25 anos.



As notícias dos atropelos aos direitos humanos no Irão já nem são grande novidade. O que espanta é que as atitudes do governo iraniano possam de alguma forma ser confundidos com o Islão. Os que defendem o fundamentalismo islâmico, ou os que o consideram que todo o Islão é fundamentalista, bem se podiam recordar as palavras do poeta Ibn Arabi ao descrever o que é a sua religião:

O meu coração abriu-se a todas as formas: é uma pastagem para gazelas, um claustro para monges cristãos, um templo de ídolos, a Caaba do peregrino, as tábuas da Tora e o Alcorão. Pratico a religião do Amor; qualquer que seja a direcção em que as caravanas avancem, a religião do Amor será sempre o meu credo e a minha fé.
Onde está o verdadeiro Islão? O que aconteceu ao fulgor antigo da civilização islâmica? Onde estão os Ibn Arabi de hoje?

segunda-feira, 13 de setembro de 2004

Terra da Alegria

Na Terra da Alegria está uma pequena reflexão sobre o Sofrimento...

Mas podem comentar aqui.

Pensando no Sofrimento

Há muita coisa na vida que não compreendemos, e que nunca chegaremos a compreender. Mas nem por isso deixamos de tentar perceber o porquê das coisas. O ser humano é incansável na sua busca de uma explicação para tudo ao seu redor.
Desde o inÍcio da nossa existência quisemos saber o porquê da existência das trovoadas, das chuvas, das marés, dos ventos. À medida que nos organizávamos em comunidades fomos questionando aspectos da nossa organização social. Com o desenvolvimento da filosofia e da religião, a quantidade de "porquês" que se podem colocar aumentou ainda mais.

Quando as nossas questões se colocam no plano filosófico ou religioso, as respostas estão sempre longe de ser definitivas; para cada pergunta pode haver mais do que uma resposta, que por sua vez geram ainda mais perguntas...

Vem isto a propósito do tema do sofrimento. Muita gente se questiona o porquê do sofrimento na vida humana. Ao sermos bombardeados diariamente pelos media com imagens de sofrimento um pouco por todo o mundo, ainda parecem existir mais motivos para que as pessoas se questionem: "Se Deus existe, porque é que ele deixa que isto aconteça?"; há ainda os que se resignam: "Deus abandonou-nos! Esqueceu-se de nós..."
Eu não tenho resposta para todas estas perguntas (e desconfiaria de quem dissesse tê-la!). Tenho algumas respostas para mim; algumas baseiam-se na minha experiência de vida e no que observo ao meu redor; outras provêem do meu entendimento do mundo e da vida à luz dos ensinamentos bahá’ís. Naturalmente, estas minhas respostas poderão suscitar mais dúvidas.

Assim, vamos ao tema do sofrimento.

Creio que devemos distinguir o sofrimento pelas suas causas.
Em primeiro lugar, parece-me que o sofrimento é inerente à condição humana; não é possível viver sem alguma espécie de sofrimento. A vida pode ser bela, mas é muito frágil. Nada nos impede de ser vítimas de um acidente natural, ou de uma doença. A vida está feita mesmo assim.

Imagine-se que um sismo provoca a morte várias pessoas; poderíamos concluir que isso é a vontade de Deus? Certamente que não. Mas a vida está feita de forma a que podemos ser vítimas de catástrofes naturais. Talvez numa concepção teológica muito básica poderíamos pensar que Deus deveria intervir sempre que um ser-humano está em perigo. Na minha opinião isso nunca aconteceu, nem vejo motivos para que aconteça.
Para o melhor e para o pior a vida assume verdadeiros aspectos de lotaria; podem sair-nos coisas boas ou coisas terríveis.

Depois há o sofrimento infligido pelos nossos semelhantes. Esse é resultado do livre arbítrio concedido ao ser humano. A guerra, o roubo e a violência são exemplos deste tipo de sofrimento. Neste tipo de sofrimento podemos ter uma intervenção preventiva; sabemos que as origem dos conflitos reside em factores como preconceitos, diferença exagerada entre ricos e pobres, favorecimento de um sector social em detrimento de outro, ambição desmedida de poder, nacionalismo desenfreado. Na prevenção deste problema está a educação.

Uma educação universal obrigatória baseada, por exemplo, nos princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos (e noutras declarações da ONU) poderão ser uma das chaves para a minimização dos conflitos no nosso planeta. Imaginem o que seria este mundo se os valores éticos desta declaração fossem incutidos em todas as crianças desde a mais tenra idade!

A questão do sofrimento e do livre arbítrio recordou-me imediatamente as seguintes palavras de 'Abdu'l-Bahá': «Algumas coisas estão sujeitas ao livre arbítrio do homem, tais como justiça, equidade, tirania e injustiça; por outras palavras, boas e más acções. É evidente e claro que estas acções, na sua grande maioria são deixadas à vontade do homem. Mas há certas coisas a que o homem é forçado e obrigado, tais como, o sono, a morte, a doença, a perda de poder, as injúrias e os acidentes; estas não estão sujeitas à vontade do homem, e ele não é responsável por elas, pois é obrigado a suportá-las. Mas na escolha das boas e das más acções ele é livre, e comete-as de acordo com a sua vontade».

O tema do sofrimento não se esgota por aqui. Há outras questões que ainda se podem colocar. Por exemplo: Será sempre necessário sofrimento para conseguir qualquer coisa na vida? Poderemos encarar o sofrimento como um teste? Que outras soluções existirão para minimizar o sofrimento resultante do livre arbítrio? Talvez estas questões possam servir de tema para outras reflexões e outros posts.

Apagar a Memória

A destruição de mais um lugar sagrado bahá’í no Irão está a levantar protestos de bahá'ís em todo o mundo, que vêem que o governo iraniano persiste numa campanha de perseguição cujo fanatismo o leva a destruir bens valiosos que pertencem à própria herança cultural do país. Desta vez o caso ocorreu no passado ms de Junho; a casa destruída foi propriedade de Mirza Abbas Nuri (também conhecido como Mirza Buzurg), o pai de Bahá'u'lláh. Mirza Abbas Nuri foi um famoso governador provincial e era muito respeitado por sido um dos maiores calígrafos do Irão.

Demolição da casa de Mirza Abbas Nuri, em Junho de 2004, em Teerão
Em 13 de Julho, o jornal iraniano Hamshahri publicou um longo artigo sobre a vida de Mirza Abbas Nuri e a arquitectura da sua casa. "Ele tinha um bom gosto para as artes e para a beleza; desenhou a sua própria casa num tal estilo que se tornou uma das mais belas casas desse período", escreveu Iman Mihdizadih. "As obras em estuque e os ladrilhos nos quartos, a verdejante varanda coberta, o pátio com um lago central, e as árvores plantadas em canteiros, tudo isso criava uma atmosfera de tranquilidade."

A demolição foi decretada em Abril pelo Ayatollah Kani, director da Escola Marvi, com o pressuposto de que se pretendia criar um cemitério islâmico. Quando a demolição se iniciou em 20 de Junho estiveram presentes funcionários do Ministério da Informação; em 19 de Junho, mais de 70% da estrutura estava destruída.

A destruição da casa de Mirza Abbas Nuri's segue-se à destruição do Santuário de Quddus que já tinha recebido a atenção de vários media internacionais.

Para chamar a atenção da opinião pública mundial foi publicado no New York Times um anúncio onde se lia : "O ódio dos mulláhs extremistas contra os bahá'ís é tamanho que eles, tal como os Taliban do Afeganistão que destruíram as enormes esculturas budistas de Bamiyam, pretendem não só erradicar a religião, mas também eliminar todos os vestígios da sua existência no seu país de origem."

O anúncio publicado no NYT salienta que a casa de Mirza Abbas Nuri era um "monumento histórico e um precioso exemplo da arquitectura islamico-iraniana", "um modelo inigualável de arte, espiritualidade e arquitectura". "Na sua determinação para livrar o Irão da comunidade bahá'í e apagar a sua própria memória, os fundamentalistas no poder estão preparados até para destruir a herança cultural do seu próprio país", continua a declaração.

Aspecto do interior da casa de Mirza Abbas Nuri durante a demoliçãoO director de comunicação da Comunidade Bahá'í dos Estados Unidos, Glen Fullmer, justificou a publicação deste anúncio no NYT com a necessidade de chamar a atenção mundial para a destruição de bens culturais que são pertença de toda a humanidade. "Os locais destruídos são importantes para toda a humanidade. Reflectem aspectos únicos da história cultural do Irão. Por esse motivo apelamos aos Iranianos em todo o mundo que protestem contra a destruição da sua própria cultura."

O anúncio também será publicado nos principais jornais franceses, pois naquele país reside uma vasta comunidade iraniana. "Queremos alertar os iranianos residentes em França que a sua própria herança cultural está em perigo. Por esse motivo apelamos aos iranianos em todo o mundo que protestem contra a destruição da sua cultura", afirmou Brenda Abrar, porta-voz da comunidade bahá’í francesa.

"Vemos tudo isto como um plano concertado do governo iraniano para gradualmente extinguir a Fé Bahá'í como força cultural e entidade coesa", afirmou a Srª Dugal, representante da Comunidade Bahá'í nas Nações Unidas. "Ao longo do anos, a estratégia tem mudado de assassinatos para métodos menos capazes de chamar a atenção internacional, nomeadamente a destruição de lugares sagrados. Mas o resultado final é o mesmo: destruir a comunidade Bahá’í do Irão, juntamente com a sua história e herança."

(Notícia completa no BWNS)

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REFERÊNCIAS
Cópia do anúncio publicado no NYT:
http://www.bahai.org/pdf/ad20040912.pdf.
Comunicado de Imprensa da Comunidade Bahá'í dos EUA:
http://www.bahai.org/pdf/pr20040912.pdf.
Artigo sobre a situação actual dos Bahá’ís no Irão:
http://bahai.org/article-1-8-3-6.html.
História das Perseguições aos Bahá’ís no Irão:
http://bahai.org/article-1-8-3-7.html.

domingo, 12 de setembro de 2004

Reflectindo...

Recentemente, um post do Rui A., do Blasfémias, apresentava uma interessante reflexão sobre temas como Deus e o sentido da vida. Algumas das ideias ali expressas mexeram comigo; não consegui resistir a dar a minha opinião. Assim, sem querer dar lições ou apresentar respostas definitivas, aqui vai a minha perspectiva. Acredito que outros bahá'ís poderiam ter respostas de ligeiramente diferentes das que expresso aqui.

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"Deus, a existir, não terá privilegiado uns tantos em detrimento de muitos outros, a quem não foi dada a graça de O escutar pela forma romano-católica da revelação, ou não a tenham sabido ou, mesmo até, querido ouvir"

"A grandeza de Deus, a existir, não faria depender a Sua graça da geografia, da cultura, da sensibilidade ou do tempo de cada um"


Estou plenamente de acordo. Acredito que Deus se revela de tempos a tempos à humanidade. Fá-lo através de Profetas (ex: Abraão, Moisés, Jesus, Maomé, Buda e outros). Estes Profetas (que fundam as grandes religiões mundiais) trazem ensinamentos adequados à capacidade e necessidade dos povos. São os ensinamentos desses profetas que estão na génese das grandes civilizações e servem de orientação divina a vários povos e sociedades que se formam nessas civilizações.

Poderá haver outras formas de manifestação divina? Talvez. Mas não creio que possam servir de orientação divina para a humanidade. Há quem afirme ter tido experiências de carácter místico, mas creio que se tratam de experiências pessoais, apenas são importantes para quem passa por elas.

"No Deus humanizado das religiões reveladas, não é fácil crer. No Deus bom e misericordioso, que olha por cada um de nós, não. Definitivamente, não. Não existe qualquer ordem moral objectiva no mundo que o confirme, nem a eternidade poderá justificar o que neste mundo se vive"

O que se vive neste mundo pode ser entendido como resultado da acção simultânea de dois processos: a construção de uma nova ordem mundial (a tal ordem em que a terra será um só país e a humanidade os seus cidadãos) e a desintegração da velha ordem. Desta forma vamos sentindo as convulsões de um mundo que vai morrendo e a as dores de parto de um mundo que está a nascer. É doloroso. Tremendamente doloroso.

A nível individual, o que vivemos durante a nossa existência neste mundo pode ser entendido se compararmos a vida neste mundo com a vida de um bebé no ventre materno. Tal como um bebé no ventre materno tem de desenvolver uma série de características físicas para se preparar para o mundo seguinte, nós neste mundo temos de desenvolver características espirituais para o mundo que se segue depois deste.

Não teremos um Deus que olha e nos protege a cada instante, mas sim um Deus que nos lança neste mundo tal como um agricultor lança sementes num campo à espera que sestas germinem, cresçam e produzam alguma coisa.

"A nossa forma de vida é humana, excessivamente humana, para que nela possamos ver a centelha divina"

Pois é nesta forma de vida excessivamente humana que eu consigo discernir a centelha divina. Na nossa capacidade de amar o próximo, na vontade de ajudar o nosso semelhante, na capacidade de ser solidário... Nada na criação reflecte tão bem a centelha divina como o ser humano.

É certo que o ser humano é capaz do melhor e do pior. Mas aí entra a questão do livre arbítrio. Temos possibilidade de escolha. Não é uma simples questão maniqueísta de escolha entre o bem e o mal. Se não tivéssemos livre-arbítrio, que sentido teria a vida? Como se distinguiria a rectidão da injustiça?

"Sempre achei que a dimensão de Cristo, a Sua grandeza e a Sua tragédia, é humana, demasiadamente humana, para poder ser divina."

Pois eu considero a dimensão de Cristo, a Sua grandeza e a Sua tragédia profundamente divinas. Essa sua dimensão expressou-a o evangelista ao atribuir-lhe as palavras "Meu Deus, Meu Deus, porque me abandonaste?" (Mt 27:46) numa alusão ao salmo 22, um salmo vitorioso. É que da aparente derrota que foi a Sua morte, surgiu a civilização cristã; com esta, a humanidade transformou-se e evoluiu. Como se poderia explicar esta transformação na humanidade senão fosse pelo carácter divino do fundador do Cristianismo? Como se poderiam explicar tantas e tão nobres causas e iniciativas que se tomam ainda hoje ao abrigo dos ideais pregados por Jesus Cristo? Não consigo aceitar que tudo isso seja um mero acaso ou capricho da história.

quarta-feira, 8 de setembro de 2004

A cela



Um dos locais de visita dos peregrinos bahá'ís, na Terra Santa é a Fortaleza de 'Akká. Quando fiz a minha peregrinação, em 1991, também visitei este local, e tive a oportunidade de entrar na cela onde Bahá'u'lláh esteve detido durante mais de dois anos. À entrada da cela uma placa indicava que se trata de um local sagrado para os bahá'ís; o interior tinha apenas um tapete no chão.

Dez anos após essa visita a recordação mais forte que guardo desse local, foi o silêncio que se fazendo entre o grupo de peregrinos (cerca de 50 pessoas) à medida que nos aproximávamos da cela. No interior, o silêncio foi total. Uns sentavam-se no chão e faziam as suas orações; outros contemplavam aquele espaço vazio. Creio que todos tentámos imaginar o que deve ter sido a vida de Bahá'u'lláh naquele pequeno espaço.

Aquele local era diferente de todos os outros que nós, peregrinos, visitámos. A ausência de mobiliário dava uma tremenda sensação de vazio; apenas paredes espessas e umas janelas de onde se podia ver o mar. Tudo isto nos levava a perceber o que deve ter sido o isolamento a que Ele ficou sujeito.

terça-feira, 7 de setembro de 2004

Exílio em ‘Akká: Reacções (1)

O início do exílio de Bahá'u'lláh em 'Akká em Agosto de 1868 iniciou-se com um período de tempo em que Ele ficou quase incontactável pelo mundo exterior. Primeiramente os crentes desconheciam o Seu destino. Esta situação deu origem a vários rumores; chegou a dizer-se que Ele se teria afogado em Chipre. Mas a chegada dos exilados persas a 'Akká também fez correr uma série de boatos sobre um misterioso e importante prisioneiro que estaria naquela cidade.

Fortaleza de 'Akká

Alguns dos poucos crentes que nesse período estiveram pessoalmente na presença de Bahá'u'lláh, funcionaram como "correio" entre os exilados e o mundo exterior. 'Abdu'l-Bahá enviou uma carta ao Reverendo Leon Rosenberg (um missionário austríaco de origem judaica que trabalhava com judeus em Adrianópolis) descrevendo a chegada a 'Akká e as condições de encarceramento. Rosenberg, por sua vez enviou, em Novembro de 1868, essa carta ao Cônsul Britânico em Adrianópiolis, John Blunt, com a seguinte nota:

Em anexo envio uma carta que recebi do chefe do Babis que está agora no Acre, na Síria.

Tomo a liberdade de lhe solicitar que apresente esta carta a Sua Excelência, o Embaixador Elliot em Constantinopla, cuja poderosa influência solicito, por humanidade e em nome do desafortunado Sheik e seu povo, com o objectivo de induzir o Governo Otomano a aliviar a dureza e até o tratamento cruel a que estão sujeitos pelas autoridades do Acre. Estarei sempre grato a sua Excelência e rezo ao Todo-Poderoso para que o abençoe nos seus esforços.

Lamento profundamente que a doença me impeça de lhe entregar imediatamente cópias destas cartas; além disso, por erro do representante da nossa Comunidade Protestante, os originais - e não as cópias - foram entregues ao Vice-Consul Austríaco. O Sr. Camerloher, não pôde copiá-las a tempo para seguirem no correio, e enviou-as a sua Excelência, o Embaixador Austríaco em Constantinopla, e apenas em 12 de Fevereiro lhe foram devolvidas.[1]

Constantinopla. O embaixador britânico preferiu não interceder a favor de Bahá'u'lláh junto da Porta Sublime.

Blunt enviou esta carta e o anexo para a Embaixada Britânica em Istambul. Nessa cidade, Bahá'u'lláh e os seu companheiros tinham vivido durante cerca de 4 meses; Durante esse breve período de tempo, a embaixada persa espalhou uma série de boatos sobre Bahá'u'lláh e conseguiu criar nos meios diplomáticos alguma desconfiança em relação ao exilados. A resposta do embaixador britânico, Henry Elliot, reflecte essa desconfiança:

Procedi a algumas averiguações relativamente aos Babís persas no Acre, em favor dos quais, e a pedido do Sr. Rosemberg, solicitou a minha intervenção... e tenho garantias que não são tratados com dureza, apesar de não lhes ser permitido espalhar as suas doutrinas para lá dos limites da fortaleza.

Os esforços de proselitismo desta seita entre a população muçulmana e a forte mistura de elementos políticos no seu meio, impede-me de exercer qualquer esforço em seu nome, facto que faria com todo o agrado se eles pudessem ser justamente considerados como sendo perseguidos apenas devido às suas convicções religiosas.

A sua adopção de algumas frases de sentido místico, e de alguns excertos da moralidade cristã, constituem, tanto quanto sei, a sua única pretensão a abordar o protestantismo, facto que parece ser um motivo para promover a sua defesa.
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NOTAS
[1] Citado em The Bábi and Bahá'í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, de Moojan Momen, pag. 206
[2] Citado em The Bábi and Bahá'í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, de Moojan Momen, pag. 207

segunda-feira, 6 de setembro de 2004

Eco da Tragédia

Depois do choque e da estupefacção pela tragédia na escola da Beslan, na Ossétia do Norte, sinto um choque por esta reacção: Cleric supports targeting children.

Ao ler este artigo, lembrei-me de uma frase ouvida vezes sem conta entre os bahá'ís : a grande tragédia da religião consiste no facto dos crentes recordarem o Mensageiro e esquecerem a mensagem.

sexta-feira, 3 de setembro de 2004

Porquê as Crianças?



Barbárie… Carnificina… Massacre… Chacina…

São estas as palavras mais repetidas pelos jornalistas e comentadores.

O fim da angústia para uns e uma dor do tamanho do mundo para outros.

Termina o pesadelo para umas famílias; desfazem-se sonhos e projectos de futuro para outras.

Com aquelas crianças também morreu um pouco da sociedade russa, um pouco de cada um de nós e um pouco da humanidade.

Nenhuma causa justifica um acto destes. Nenhuma ideologia ou religião pode fundamentar uma coisa destas.

O terrorismo atacou o inatacável, atingiu o que uma sociedade tem de mais sagrado.

Hoje foi um dia terrível para todos nós.


Brincar às guerras

Quando eu era miúdo gostava de brincar às guerras. Com espadas e escudos improvisados, ou pistolas e cabos de vassoura transformados em metralhadoras, consoante a imaginação. O jardim de casa dos meus pais tinha árvores e recantos que permitiam organizar emboscadas ou serviam de esconderijos. A restante miudagem lá da rua alinhava naquelas guerras de fantasia.

Sempre o fizemos tranquilamente. Nunca tivemos noção do que era mesmo uma guerra. A verdadeira guerra era uma coisa séria de adultos que se passava em qualquer outro país; a nossa guerra eram filmes como O Dia Mais Longo ou série do tipo Capitão Kloss (alguém ainda se lembra dessas série polacas que a RTP passava a seguir ao 25 de Abril?).

As poucas vezes que vi operações militares foi durante o 11 de Março de 1975. Os aviões que atacaram o RALIS sobrevoavam a nossa escola; as mães correram para lá em pânico, para ir buscar os filhos. Ouviam-se tiros ao longe; na televisão liam-se comunicados Ao fim do dia, uma coluna militar atravessou o bairro. Vinham alguns veículos; e muitos soldados que caminhavam junto aos edifícios. Foi a única vez que, no meu país, a verdadeira guerra passou perto de mim.



Ontem, deparei com esta foto no site da BBC. Trata-se de um miúdo iraquiano que, tal como eu fazia há 30 anos, também brinca às guerras. Tal como eu, tenta imitar aquele jogo emocionante dos adultos que andam aos tiros. Infelizmente, é aquilo é uma brincadeira extremamente perigosa no país dele. A verdadeira guerra está muito próximo dele. Apontar uma arma de brinquedo a um soldado é um risco enorme. Foi o que ele fez à passagem de uma patrulha britânica.

Esperemos que algum adulto lhe tenha chamado a atenção para isso. Esperemos que um dia ele possa brincar tranquilamente.

(A foto faz parte de uma reportagem fotográfica de um soldado britânico em serviço no Iraque. Vale a pena ver.)

quinta-feira, 2 de setembro de 2004

A minha estrada de Damasco

Há vinte anos andava pela minha estrada de Damasco. Tinha vinte anos quando entrei naquela barbearia dos Olivais (insistem em chamar-lhe Salão de Cabeleireiro). Tradicionalmente, a conversa de um barbeiro cai sobre dois assuntos: futebol e mulheres. Ali, estranhei o tema: o cliente antes de mim trocava impressões com o barbeiro, sobre religião, a bíblia e outra religião que não percebia exactamente o que era.

O homem da tesoura reparou que eu acompanhava a conversa e começou a questionar-me e a integrar-me naquela conversa. Andava a investigar a religião bahá'í. A vida dele tinha sido uma aventura: emigrara para a Alemanha para escapar à guerra colonial, militara em vários partidos e organizações de esquerda e extrema-esquerda, iludira-se e desiludira-se com sucessivas organizações políticas. "O 25 de Abril para mim foi uma perfeita terapia política" repetia-me várias vezes. Sentia-se vacinado contra todo o tipo de demagogias.

Este artista do cabelo era também um adepto de artes marciais. Recentemente, o contacto com um iraniano mestre de kung-fu dera-lhe a conhecer uma nova maneira de encarar as artes marciais e também uma nova religião.

Durante algumas semanas contactei com aquele "cabeleireiro de homens"; trocámos ideias, frequentei algumas reuniões, questionei diversas aspectos. Passados alguns meses concluí que os ideais bahá'ís eram os meus ideais; reconheci que Bahá'u'lláh era o profeta de Deus para os nossos dias. Em 2 de Setembro de 1984, tornei-me membro da Comunidade Bahá'í de Portugal (não houve nenhuma cerimónia, nenhum espécie de baptismo; limitei-me a preencher um cartão de adesão).

Os meus pais já acompanhavam com alguma preocupação o meu envolvimento nas actividades Bahá'ís; mas desconheciam os seus princípios e valores. Quando lhes contei que tinha aceite uma nova religião, a minha mãe disse-me que preferia estava chocada, mas preferia ter um filho com alguns valores religiosos (mesmo que não fossem os dela) do que ter um filho que "fingisse" ser católico. Outros familiares reagiram com interesse à minha "nova religião".

Em vinte anos o meu envolvimento teve períodos de maior e de menor intensidade. O momento espiritualmente mais intenso foi quando fiz a minha peregrinação em 1991 e tive a oportunidade de visitar os lugares sagrados na Terra Santa. A participação no Congresso Mundial de Nova Iorque em 1992 foi outro momento de grande intensidade.

Algumas pessoas perguntam-me: "o que é que ganhaste em ter-te tornado bahá'í?" Não creio que esta seja uma pergunta bem enquadrada. Seria incorrecto ver a aceitação de valores espirituais e a adesão a uma comunidade como algo que é motivado por alguma vantagem (neste ou noutro mundo) para o novo crente.

Aceitei a Fé Bahá'í porque os valores e princípios desta se identificam com os meus valores. O meu entendimento do mundo e da realidade em que vivemos são mais claros para mim quando os vejo sob uma perspectiva bahá'í.

Mas é difícil ser bahá'í, é difícil pôr em prática os ensinamentos de Bahá'u'lláh. Lembro-me de alguém um dia me ter dito, que o Ser Humano é suprema obra de arte do Criador. Se alguém entrasse num museu e destruísse uma obra de arte, isso seria um insulto ao autor da obra. Da mesma forma, ao agredirmos, ou insultarmos, o nosso semelhante estamos a insultar o nosso Criador. E como é fácil esquecer que o nosso semelhante também é obra do Criador!

É assim que passados 20 anos sobre a minha aceitação da religião bahá'í, continuo a minha caminhada, cruzando-me com muitas pessoas, novas ideias, novos problemas, novas preocupações. Ao olhar para o mundo que nos rodeia, constato que vivemos sob efeito de dois processos paralelos. Um desses processos leva à destruição da velha ordem mundial (o mundo em que as nações se combatiam apenas satisfazer apenas as suas necessidades, ou necessidades dos seus governantes); o outro processo conduz à criação de uma nova ordem mundial (uma comunidade de nações, interessadas no bem-estar e tranquilidade de toda a humanidade).

É com essa visão, da terra sendo um só país e a humanidade os seus cidadãos, que vou seguindo nesta caminhada.

quarta-feira, 1 de setembro de 2004

Um vazio difícil de preencher

Numa semana desaparecem dois blog: o Bisturi e o Bota Acima. Vão fazer falta.

O Bisturi conseguia resumir em algumas linhas ideias, pensamentos e análises a tantas coisas que nos rodeavam. Certeiro na argumentação e elegante na escrita. Tive a oportunidade de conhecer o autor, a esposa e o filho. São gente muito boa.

O Bota era uma experiência de vida. Um homem que ainda respirava África. Que argumentava e contra-argumentava. Que era capaz de nos fazer compreender outros pontos de vista. Que não se cansava de clamar por justiça para os presos cubanos.

Dois dos blogs que eu mais gostava...
Em bom português, diria "Porra para isto, pá!"
Espero que não seja definitivo.
Espero que voltem um dia.

Afinal... o Ma-Schamba também ressuscitou (e veio ainda melhor!).

Liberdade Religiosa na Geórgia

Numa análise à liberdade religiosa na Geórgia desde que o Presidente Saakashvili subiu ao poder, o Forum 18 identificou um conjunto de obstáculos à actividade das minorias religiosas. Naquele país do Cáucaso, a intolerância religiosa manifesta-se de diferentes formas: vandalismo contra cemitérios católicos, exigências a livrarias para que retirem os livros de religião que não sejam publicados pelo Patriarcado Ortodoxo e impossibilidade de construção de locais de culto.

Os dirigentes das minorias religiosas afirmam que seria importante obter o reconhecimento legal, mas os ministros contradizem-se no que toca à publicação da lei de religião; o Primeiro Ministro Zurab Jvania já declarou que a lei deve permitir a existência de organizações religiosas. O cepticismo de alguns lideres religiosos parece ser fundamentado. O actual presidente era ministro da justiça no tempo em que ocorreram violentos ataques contra as minorias religiosas.


A situação da liberdade religiosa melhorou? Segundo um representante do International Centre on Conflict and Negotiation (ICCN), o ambiente político parece ser menos tenso do que no tempo de Shevardnadze. O governo quer mostrar que é contra os extremismos, e a favor da tolerância religiosa; mas, por outro lado, o governo também considera muito importante manter boas relações com o Patriarcado Ortodoxo.

Luteranos e Católicos concordam que não houve qualquer evolução. Outros pastores consideram que se verificaram alguns progressos, pois conseguiram organizar convenções em espaços alugados sem que se verificassem ataques violentos por "vigilantes ortodoxos". A construção de locais de culto tem sido impedida em algumas cidades. Segundo um dirigente religioso, "as autoridades não colocam obstáculos à realização de serviços religiosos em casas particulares, mas a existência de um local de culto é um assunto diferente; não é dada permissão pois é um assunto da competência do Patriarcado".

S.Jorge, santo padroeiro da GeórgiaUm membro da comunidade bahá'í afirmou: "O governo tem estado muito ocupado com o assunto da Adjaria e o conflito na Ossétia do Sul para pensar em questões religiosas". A produção de literatura religiosa não é uma actividade totalmente segura. O representante bahá'í refere que não é fácil, acrescentando que "algumas empresas não gostam de imprimir o nosso material. Têm medo que o governo descubra e possam ter problemas"

O ensino da religião nas escolas é uma outra vertente da intolerância. As minorias religiosas pretendem que o ensino da religião não seja feito apenas sob uma perspectiva ortodoxa. Os programas oficiais sofreram algumas alterações, mas não foram implementados em todas as escolas. As aulas obrigatórias em igrejas ortodoxas parecem estar a desaparecer. "A minha filha de oito anos, foi levada várias vezes à igreja e foi-lhe ensinado a rezar", declarou o bahá'í. "Neste ano está numa escola diferente e isso nunca aconteceu. Com o passar do tempo as escolas e os professores tentam ser mais tolerantes".

O Bispo Songulashvili, líder da Igreja Baptista, acredita que as comunidades religiosas têm três grandes necessidades: obter reconhecimento jurídico, obter direito de realizar cultos e actividades sociais, e educar os seus seguidores em escolas e nos seus próprias colégios. "Se houver uma lei que responda a estas três necessidades, ficaremos felizes".

Notícia completa aqui.