terça-feira, 30 de novembro de 2004

Protesto Europeu

A União Europeia – através dos embaixadores holandês e britânico - apresentou um protesto formal às autoridades iranianas a propósito da detenção de jornalistas, funcionários de organizações não-governamentais e membros de minorias religiosas. Nesse protesto, apelava-se à libertação imediata de pessoas detidas - em locais desconhecidos - por delito de opinião.

No documento referiam-se os nomes de vários jornalistas e bloggers que foram detidos ou impedidos de viajar. Vale a pena recordar que nos últimos meses as autoridade iranianas têm intensificado os seus ataques à imprensa independente e à própria blogosfera iraniana. Nos casos referidos, os procedimentos legais do próprio sistema judicial iraniano não foram seguidos.

No documento consta ainda um protesto pela demolição de locais sagrados bahá'ís e pela discriminação dos bahá'ís (nomeadamente nas suas possibilidades de acesso à universidade) e um apelo à solução deste problema.

Os embaixadores chamaram a atenção para o facto do Parlamento Europeu ter expressado a sua preocupação sobre a situação dos direitos humanos no Irão, e para o facto de todos os seus 25 estados membros terem apoiado uma resolução sobre direitos humanos adoptada pelas Assembleia Geral das Nações Unidas em 17 de Novembro.

O Irão já rejeitou as críticas europeias, considerando-as "irreais, tendenciosas e não documentadas".

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A notícia deste protesto europeu foi divulgada no passado dia 25 de Novembro pela AFP e surgiu nas edições on-line de algumas publicações iranianas (Persian Journal, IranMania) , no Khaleejtimes (Emirados Árabes) e no Daily News (Paquistão). Não resisto a fazer um pequeno comentário.

Segundo os media ocidentais, a potencial capacidade iraniana para produzir armas nucleares tem merecido uma atenção cuidadosa do Ocidente; também tem sido o ponto fulcral dos contactos diplomáticos que actualmente vão decorrendo entre União Europeia e o Irão. Assim, olhando para este protesto da União Europeia no xadrez político actual, só me resta esperar que os direitos humanos no Irão não sejam um "peão" de troca.

A recuperação da Fortaleza

aqui referi a chegada de Bahá'u'lláh à cidade-fortaleza de 'Akká. Também mencionei a experiência de ter visitado a cela onde Ele esteve encarcerado durante dois anos. O local foi palco de episódios marcantes da história bahá'í. Foi naquela cela que Bahá'u'lláh recebeu o jovem Badí que se ofereceu para viajar até à Pérsia e entregar ao Xá uma epístola de Bahá'u'lláh. Foi também naquela prisão que faleceu o Mirzá Mihdi, o filho mais novo de Bahá'u'lláh.

Durante a última década os peregrinos bahá'ís não tiveram oportunidade de visitar este local, devido à necessidade de obras de conservação. No início dos anos 90, a fortaleza apresentava sinais de degradação muito preocupantes e as autoridades - sempre zelosas na preservação de locais históricos do país - decidiram que era urgente proceder a trabalhos de preservação de todo o edifício. Após mais de 10 anos de negociações, estudos e planeamento, começaram os trabalhos de recuperação.

É importante ter presente que a estrutura tem um significado especial para os israelitas, pois também foi local de detenção de grupos de activistas judeus durante os anos do mandato britânico na Palestina. Houve, assim que coordenar os trabalhos de recuperação de toda a fortaleza com os trabalho de recuperação das celas ocupadas por Bahá'u'lláh e outros exilados persas.

Antes de se iniciarem os trabalhos foram solicitados pareceres ao Instituto Tecnológico de Haifa, e pedida a opinião de um perito em arquitectura otomana. Os estudos revelaram que a cidadela otomana tinha sido construída nos sécs. XVIII e XIX e que a torre nordeste (onde Bahá'u'lláh esteve) se situa sobre os restos de uma fortaleza dos Cavaleiros da Ordem de S. João (do tempo dos cruzados). Durante o domínio otomano, a fortaleza começou por ser residência de governantes locais e posteriormente foi usada com aquartelamento militar.



Os estudos efectuados permitiram concluir que já no tempo de Bahá'u'lláh o edifício se encontrava degradado. Na torre nordeste, além da cela já referida, existiam outros seis quarto ocupados pelos exilados e ainda uma sala onde se recebiam visitantes. Durante a administração britânica, o edifício sofreu várias alterações, nomeadamente para evitar fugas de prisioneiros e para construir uma enfermaria.

Nestes trabalhos de recuperação tentou-se recriar o ambiente mais parecido possível com aquele em que Bahá'u'lláh e os exilados persas viveram naquela prisão. Foram usados materiais tradicionais usados nas construções otomanas do Séc. XIX, e remediados os danos provocados pela colocação de barras de ferro nas janelas durante o mandato britânico. Na cela de Bahá'u'lláh o chão é igual ao original; as janelas voltaram a ter barras horizontais tal como mostram fotografias do início do séc. XX.

As obras terminaram no passado mês de Junho; com o início de uma nova época de peregrinações, a cela volta a estar incluída no roteiro da peregrinação de nove dias realizada pelos bahá'ís; é mais um local dedicado à oração e meditação, tal como o Túmulo de Bahá'u'lláh nos arredores de 'Akká e o Túmulo do Báb, em Haifa.

Notícia completa e muitas fotos no BWNS.

segunda-feira, 29 de novembro de 2004

O Verbo de Deus

De acordo com as Escrituras Bahá'ís, existem três níveis de realidade: o mundo de Deus, o mundo do "Reino"[1] ou do "Mandamento de Deus"[2] e o mundo da criação. Este conceito está espelhado num símbolo bahá’í onde três linhas horizontais representam cada um desses níveis de realidade e uma linha vertical representa o contacto entre os três.

O segundo nível de realidade é também referido como "Verbo de Deus". A expressão Verbo de Deus é frequentemente entendida como sinónimo de "Palavra de Deus" ou "Sagradas Escrituras". Alguns autores usam esta expressão para descrever o poder criativo de Deus ou algum outro aspecto místico da Revelação Divina. O Verbo de Deus actua como um elo de ligação, ou intermediário, entre Deus e a criação.

Segundo Bahá'u'lláh, o Verbo é uma entidade maior do que qualquer ideia que as pessoas possam ter a seu respeito, e está "santificado de qualquer propriedade ou substância"[3] . O Verbo sempre existiu e sempre existirá. É a primeira emanação de Deus. Através do Verbo todas as outras coisas foram criadas.

Este conceito não é totalmente novo; o evangelho de S. João declara nos primeiros versículos que a primeira coisa que emanou de Deus foi o Seu Verbo. No Islão afirma-se que Deus criou o universo através de uma única palavra - "". Bahá'u'lláh também refere isto nas Suas Epístolas[4], e afirma directamente que o Verbo de Deus é a "Causa de toda a criação"[5]. O Verbo possui uma natureza e um poder que está para lá da nossa compreensão.

Apesar do Verbo, tal como o Próprio Deus, ser incognoscível para a humanidade, as Sagradas Escrituras oferecem-nos alguma ajuda para o compreendermos. 'Abdu'l-Bahá descreve a natureza do Verbo comparando-o aos raios do sol[6]. Deus é como o sol; enquanto o sol existir, também existirão os raios de sol. No entanto, a existência dos raios depende apenas do sol. Tal como o sol emana raios sem se dividir, Deus emana o Verbo sem partilhar a Sua essência. Quando os raios brilham sobre um espelho perfeito (o Manifestante), as qualidades do sol aparecem.

As Escrituras Bahá’ís também comparam o Verbo de Deus com os Manifestantes de Deus[7]. O Verbo é também identificado com a posição é comum a todos os Manifestantes. 'Abdu'l-Bahá explica que "a terceira condição [do Manifestante]... é o Verbo de Deus, a Graça Eterna, o Espírito Santo... A realidade da condição de Profeta... é o Verbo de Deus e o estado perfeito e Manifestante..."[8] Os Profetas fundadores das grandes religiões mundiais – como Moisés, Jesus, Maomé, Bahá'u'lláh e outros – são espelhos que reflectem perfeitamente a luz do Verbo[9].

Ciclicamente, o Verbo revela-se à humanidade; esta revelação do Verbo não é feita de forma fulgurante; pelo contrário, é gradual, é como o aparecimento do sol. "Considerai o sol", escreve Bahá'u'lláh, "como são fracos os seus raios quando aparece sobre o horizonte. Como gradualmente a sua potência e calor aumentam, à medida que se aproxima do zénite, permitindo, entretanto, que todas as coisas criadas se adaptem à crescente intensidade da sua luz"[10]. Cada um dos Mensageiros de Deus traz a "luz da Revelação Divina aos homens em proporção directa à sua capacidade espiritual"[11]; a influência dos Seus ensinamentos vai-se sentido de forma gradual; esses ensinamentos, registados nas Sagradas Escrituras, influenciam os destinos da humanidade e cujos ensinamentos servem de base ao surgimento de novas civilizações e culturas.

O gradual despontar da luz também se aplica a cada Revelação. Bahá'u'lláh revelou as Suas leis e ensinamentos durante várias décadas. Ao longo do tempo, estas leis têm vindo a ser aplicadas pelos bahá'ís e os Seus ensinamentos divulgados por todo o mundo. Para os bahá'ís o poder do Verbo de Deus, conforme revelado por Bahá'u'lláh, está a mudar gradualmente a sociedade. Essa mudança continuará a sentir-se até que este planeta seja um só país e a humanidade os seus cidadãos. Neste momento temos ainda um longo caminho à nossa frente para atingir esse objectivo; mas acredito firmemente que chegaremos lá.
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NOTAS
[1] - 'Abdul-Bahá, Respostas a Algumas Perguntas (Esplendor da Verdade), cap. 82, pag. 237
[2] - Epístola da Sabedoria, in Epístolas de Bahá'u'lláh, pag. 157
[3] - Epístola da Sabedoria in Epístolas de Bahá'u'lláh, pag. 157
[4] - Oração Obrigatória Longa; Epístola da Visitação.
[5] - Epístola da Sabedoria in Epístolas de Bahá'u'lláh, pag. 157
[6] - Respostas a Algumas Perguntas (O Esplendor da Verdade), cap. 53, pag. 172-173
[7] - Um Manifestante de Deus é um Mensageiro de Deus através de Quem se manifestam as perfeições e atributos de Deus. Exemplos: Abraão, Moisés, Zoroastro, Buda, Jesus, Maomé, o Báb e Bahá'u'lláh.
[8] - 'Abdu'-Bahá, Respostas a Algumas Perguntas (O Esplendor da Verdade), cap. 38, pag. 134
[9] - Para um estudo detalhado da relação entre o Verbo e o Manifestantes ver The Concept of Manifestation in the Bahá'í Writings, de Juan Ricardo Cole, publicado pela Association for Bahá'í Studies.
[10] - Sel. Escritos de Bahá'u'lláh, XXXVIII, pag. 63
[11] - Sel. Escritos de Bahá'u'lláh, XXXVIII, pag. 63

Terra da Alegria

Hoje há uma nova edição da Terra da Alegria!

domingo, 28 de novembro de 2004

Os 50 Anos da Fé Bahá’í em Cabo Verde

Foi em 1954 que a Comunidade Bahá’í se fixou em Cabo Verde, com a chegada à Cidade da Praia do casal americano Howard e JoAnne Menking. Este artigo apresenta um breve relato desta extraordinária efeméride e da vida deste notável casal, agora que festejamos os 50 anos da Fé Bahá’í em Cabo Verde, que se assinala hoje, 28 de Novembro, na Cidade da Praia.

A história da Fé Bahá'í em Cabo Verde começa curiosamente fora do arquipélago, "dés gronzinho di tera ki Deus spadja na meio di mar". Começa do outro lado do Oceano, na vastidão dos Estados Unidos da América. A história tem, por vezes, destas coisas. Muitos são os cabo-verdianos e cabo-verdianas que, com o seu esforço e labor, contribuíram – e ainda contribuem – para a economia americana. Os padrões de migração entre Cabo Verde e Estados Unidos continuam substanciais. Mas não-recíprocos.

Se este padrão permanece perceptível mesmo nos dias que correm, ele era ainda mais intenso no longínquo ano de 1954. A emigração era na altura uma das poucas estratégias de "saída" (Hirschman, 1970) de um sistema subjugado por um regime colonial e ditatorial, deixado à mercê dos humores voláteis da chuva e do tempo. E nesse contexto, a emigração para os Estados Unidos, a viver os seus “glorious fifties” do pós-guerra, era um destino privilegiado.

Quis contudo a história que o saldo da migração entre os Estados Unidos e Cabo Verde não fosse inteiramente unívoco e unidireccional nesse longínquo ano de 1954. Pois seria em Janeiro desse ano que desembarcaria na Cidade da Praia o casal americano Howard e JoAnne Menking.

Howard Menking tinha apenas 29 anos quando pisou pela primeira vez no solo cabo-verdiano. Nascido em 1925, no estado do Indiana, o seu currículo era já distinguido, tendo servido durante a Segunda Guerra Mundial no "Navy Air Cadet Program" da Marinha americana. Os horrores da guerra por ele testemunhados dificilmente poderiam ser mais intensos – Howard Menking esteve no primeiro barco americano a chegar a Hiroshima depois do fim da Segunda Guerra Mundial, e como tal entre os primeiros a testemunhar a devastação que a guerra provoca.

Após a guerra, Howard regressou aos Estados Unidos onde iniciou uma promissora carreira como gestor de várias empresas (das quais se tornou proprietário), e casou com JoAnne Kinsey em 1945. Por outras palavras, a vida do casal Howard e JoAnne Menking seguia os padrões normais do 'post-war boom' americano.

Mas por vezes a vida tem momentos decisivos, momentos onde somos levados a reflectir sobre o nosso papel perante a humanidade, momentos em que temos a opção de seguir o caminho habitual ou de trilhar o caminho em que acreditamos, o caminho que pode trazer algo ao mundo e à humanidade. Para o casal Menking, esse momento viria a ocorrer em 1949. Foi nesse ano que o casal Menking conheceu a Fé Bahá'í, e foi nesse mesmo ano que o casal Menking abraçou esta Mensagem.


É naturalmente impossível relatar aqui toda a profundidade que o casal Menking encontrou na mensagem de Bahá'u'lláh. Se a Comunidade Bahá'í é hoje em dia um membro respeitado e relevante – apesar de recente – no mundo religioso, tal deve-se exclusivamente à nobreza dos ideais que preconiza. O estatuto consultivo da Comunidade Bahá'í junto à Organização das Nações Unidas (ONU), bem como de outras instituições do sistema das Nações Unidas, ou o facto de ser um elemento activo no diálogo inter-religioso, demonstram amplamente o respeito com que a Comunidade Bahá’í é considerada aos mais variados níveis. De igual modo, o trabalho que a Comunidade Bahá’í tem desenvolvido para a unidade da humanidade, para o avanço do papel da mulher, pelos direitos humanos, pela educação universal ou pela justiça e cooperação mundial, é também largamente reconhecido.

Mas no fundo, a religião também envolve algo mais do que isto. A religião – a verdadeira religião – envolve também uma transformação do ser humano num ser mais nobre, numa nobreza que é demonstrada pelo amor, humildade e generosidade para com todos aqueles com quem partilhamos este pequeno e frágil espaço chamado Terra. Como refere o fundador da Fé Bahá’í, Bahá'u'lláh (1817-1892), é através de "acções puras e dignas, de conduta louvável e digna [que] a melhora do mundo pode ser realizada"; e aquelas virtudes que convêm à dignidade do ser humano "são a tolerância, a misericórdia, a compaixão e a benevolência para com todos os povos e raças da terra", porque no fundo "a terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos". Palavras belas certamente; mas palavras que implicam não só reflexão mas também acção (e é interessante notar aqui a instrução de Bahá’u’lláh que "Sejam actos, e não palavras, o vosso adorno").

Abandonar uma carreira profissional promissora nos "glorious fifties" para se radicar em Cabo Verde seria algo de impensável para muitos dos contemporâneos do casal Menking. Mas o casal Menking demonstrou essa capacidade de colocar os interesses dos outros acima dos seus. Impelidos por esta nova mensagem, pelo princípio da unidade da humanidade, pela visão da terra como um só país, pela visão de todos os seres humanos – independentemente de classe, cor, religião ou nação – como membros da mesma família humana, o casal Menking abandonou os seus negócios por Cabo Verde. Se hoje temos o privilégio de celebrar 50 anos da Comunidade Bahá'í em Cabo Verde, tal deve-se ao desprendimento que este casal demonstrou em 1954.

Pouco depois da vinda do casal Menking, começa a nascer a Comunidade Bahá'í de Cabo Verde. No início de 1956 dá-se um momento histórico, com o primeiro cabo-verdeano (de seu nome Frutuoso) a abraçar a mensagem de Bahá'u'lláh. A ele seguem-se vários outros, e em Abril de 1956 existe um número suficiente de Bahá'ís para eleger a primeira Assembleia Espiritual Local de Cabo Verde[1], na Cidade da Praia. Um dos membros eleitos para esta primeira Assembleia Espiritual Local foi o saudoso Sr. Avelino Barros, que recentemente abandonou esta vida terrestre.

O casal Menking deixou Cabo Verde em 1957, quando sentiu que Comunidade Bahá’í de Cabo Verde era já suficientemente forte para caminhar por si só. O facto deste ano se celebrarem os 50 anos da Fé neste país demonstra que a sua percepção não estava errada, apesar das saudades que deixaram. Hoje, a Comunidade Bahá’í continua galvanizada por uma visão da prosperidade humana no mais pleno sentido da palavra – um despertar para as possibilidades de bem-estar material mas também espiritual e humano. Pois apesar de importantes, os benefícios materiais por si só não elevam o espírito do homem.

Num mundo em que os valores materialistas cada vez mais se sobrepõem à dimensão humana e espiritual do ser humano, a Comunidade Bahá'í de Cabo Verde apresenta três actividades que contribuem para este vital reequilibrar, numa perspectiva holística do que é o Homem. A primeira destas actividades são os círculos de estudo, que através de uma metodologia profundamente interactiva exploram as questões mais profundas que o ser humano se coloca, como a vida depois da morte, a oração, e a vida do espírito. A segunda são reuniões devocionais, de modo a ter oásis de reflexão nas nossas vidas cada vez mais conturbadas. Como refere Bahá'u'lláh, "Cada palavra que procede dos lábios de Deus é dotada de tal potência que pode instilar nova vida em todo corpo humano". A terceira abarca a educação espiritual das crianças, mais uma vez numa dinâmica interactiva e aberta, que ajude as crianças a desenvolverem virtudes universais como a honestidade, a misericórdia, a amizade, o serviço, a compaixão, a bondade e o amor para com todos os povos. Todas estas actividades são abertas à comunidade em geral, de modo serem um contributo à sociedade e a contribuírem para "levar avante uma civilização em progresso contínuo" – aquele que é o objectivo central da Comunidade Bahá’í, nos mais de 230 países e territórios onde existe [2].

Quis o destino que a mensagem de Bahá'u'lláh fosse trazida a Cabo Verde por um casal americano. A história tem por vezes destas ironias. Mas a ligação do casal Menking ao nosso arquipélago não acabou com o seu regresso aos Estados Unidos. A filha mais velha do casal Menking, Cristina, nasceu em a 25 de Dezembro de 1955 em solo cabo-verdeano, na Cidade da Praia. Como os amigos caboverdeanos do casal diziam na altura, Cristina Menking era a "bebé caboverdeana", e estes são elos que nunca são perdidos.

JoAnne Kinsey viria a falecer em Maio de 1988, vítima de cancro. Uma vida singela, numa vida que perdura, porque o serviço ao seu semelhante nunca é esquecido. O seu marido ainda está entre nós, e apesar da idade avançada (Howard Menking irá celebrar o seu octogésimo aniversário em 2005), continua activo no serviço à humanidade. Esperamos que as forças lhe permitam vir a Cabo Verde para este 50º aniversário da Fé – para ver como a semente que lançou se tornou numa planta firme, e que em breve dará os frutos mais gloriosos.

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NOTAS
[1] - Na Fé Bahá'í não existe clero, sendo a administração da comunidade feita através de órgãos eleitos pela comunidade geral a nível local, nacional e internacional. A eleição da primeira Assembleia Espiritual Local demonstra bem o alcance da Mensagem de Bahá'u'lláh e o reconhecimento da igualdade intrínseca do ser humano que ela implica.
[2] - De acordo com a Enciclopedia Britannica – que é, como se sabe, a enciclopédia de maior renome a nível mundial – a Fé Bahá'í é a segunda maior religião do mundo em termos de distribuição geográfica, dando uma clara ideia da sua dimensão mundial.

Varqa Jalali

sexta-feira, 26 de novembro de 2004

La Nacion: Nuevo hito urbano para Santiago

Na edição chilena do jornal La Nacion da passada segunda-feira, saiu um artigo sobre a construção do Templo Baháí de Santiago do Chile. Sob o título Nuevo hito urbano para Santiago, escreve-se:

Se le considera una obra de arte y un hito ecológico, turístico y urbano para nuestra capital. De allí que la Comisión Bicentenario lo patrocinara. Se trata de la construcción del Templo Bahá'í, una iglesia persa que cree en el origen común de todas las religiones. La edificación, que será emplazada en Vitacura y tendrá mil metros cuadrados y 22 hectáreas de áreas verdes, será pública, gratuita y sin discursos ni actividades religiosas. Sólo un lugar para meditar y encontrarse con la naturaleza.

É pena designarem a Comunidade Bahá’í como "Igreja Persa", mas enfim. Vale a pena ler todo o artigo.

Uma gaffe em Kiev

Ontem no telejornal da SIC, e após mais de vinte minutos de reportagens e entrevistas sobre o julgamento das celebridades do processo Casa Pia, lá vieram as notícias importantes: a crise na Ucrânia. O país está dividido sobre os resultados eleitorais, a União Europeia e a Rússia divergem na leitura dos acontecimentos, de vários sectores se vão fazendo apelos à calma. Para uma análise mais actualizada dos acontecimentos, é feita uma ligação directa ao enviado especial da SIC que se encontra em Kiev. Este enviado especial, José Milhases, vai acrescentando mais alguns pormenores da crise ucraniana. No meio das suas palavras retenho que há provas muito concretas de fraude em várias "circuncisões eleitorais"... Ops! Que grande gaffe...

quinta-feira, 25 de novembro de 2004

Lidia Zamenhof

É sabido que o Esperanto é uma das línguas desenvolvidas com o objectivo de auxiliar à comunicação entre os povos. O seu sucesso, tanto quanto julgo saber, deve-se essencialmente à sua simplicidade.

O Esperanto tem uma relação curiosa com a religião Bahá'í. Bahá'u'lláh apelou à adopção de uma língua auxiliar internacional, língua essa que deverá ser ensinadas nas escolas de todo o mundo. Ludwik Zamenhof, o médico polaco, criador do Esperanto, publicou o seu primeiro trabalho em 1887 sobre esta língua. No início do século XX, 'Abdu'l-Bahá chamou várias vezes a atenção para o Esperanto e chegou mesmo a encorajar os bahá'ís a aprendê-lo e a não descartar a possibilidade desta se vir a tornar uma verdadeira língua auxiliar internacional.


Lidia, a filha do Dr. Zamenhof, teve conhecimento da religião bahá'í através de Martha Root[1], uma conhecida crente americana. Aceitou a nova religião e em 1937 foi convidada pela comunidade bahá’í americana a deslocar-se aos Estados Unidos; o objectivo dessa viagem era promover e ensinar o Esperanto. Em Dezembro de 1938, regressou à Polónia onde continuou a ensinar o Esperanto e a promover a religião Bahá'í. Nos anos que se seguiram foi apanhada pelo turbilhão da 2ª Guerra Mundial; foi presa pelos nazis e enviada para o gueto de Varsóvia tendo acabado por falecer no campo de extermínio de Treblinka durante o verão de 1942.

O esforço e a dedicação de Lídia Zamenhof em prol do Esperanto e da religião Bahá'í passaram a escrito num livro (Lidia: Life of Lidia Zamenhof, Daughter of Esperanto) e deram os seus frutos. Em 1973, foi fundada a Liga Bahá'í do Esperanto.

Em alguns encontros bahá'ís já tive a oportunidade de testemunhar conversas animadas sobre o Esperanto e a adopção de uma língua auxiliar internacional. Pessoalmente, acredito que um dia a humanidade terá de pensar seriamente nesta questão. Para já temos um leque de problemas políticos, sociais e económicos muito graves e cuja resolução é prioritária.

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Notas/Referências
[1] – Martha Root visitou Portugal em 1927 e organizou as primeiras actividades Bahá'is no nosso país.
Sobre Lidia Zamenhof, ver também:

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Notes on the life of Lidia Zamenhof, por John Dale
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Lidia Zamenhof, por John Dale

terça-feira, 23 de novembro de 2004

Religião Bahá'í e Islão

O Orlando deixou num comentário a seguinte questão: "o Povo de Bahá tem alguma coisa a ver, ainda que remotamente, com o Islão? Vai "beber" alguns ensinamentos ao Islão? Muita gente pensa que é uma evolução do islamismo." Aqui fica a minha resposta

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A relação que há entre a religião bahá'í e a religião islâmica é muito semelhante à que existe entre o judaísmo e o cristianismo; o cristianismo nasceu num meio judaico, mas é uma religião independente do judaísmo, tendo inclusive "herdado" alguns dos seus livros sagrados. A religião bahá'í nasceu num meio islâmico, mas não é resultado de um cisma no islão. Tem os seus próprios livros sagrados, leis, ensinamentos. A sua estrutura administrativa (em que não existe clero) é totalmente diferente das outras religiões.

Por estes motivos costuma-se dizer que a religião bahá'í é uma religião independente.

Hoje em dia os bahá'ís encontram-se espalhados um pouco por todo o mundo. Os países onde existem mais crentes são a Índia, o Irão, a Bolívia, o Uganda, os Estados Unidos. Desta forma é difícil dizer que os bahá'ís culturalmente são mais orientais ou ocidentais. Creio que englobamos todas as culturas.

É evidente que, mesmo sendo uma religião independente, não foi estanque a influências culturais do meio onde nasceu (tal como o cristianismo assimilou várias coisas do judaísmo). As escrituras bahá'ís estão escritas em árabe e persa; nestas encontram-se, ocasionalmente, algumas expressões e termos que são mais fáceis de entender para quem provém de um meio islâmico. No entanto, também se encontram com frequência referências a temas cristãos e mesmo à Bíblia.

Há quem tenha uma visão "simplista" da religião e a considere apenas um conjunto de instituições e leis (do tipo "não se pode fazer isto" ou "fazer aquilo é pecado"); sob essa perspectiva "naif" é fácil pensar existe uma influência islâmica na religião bahá'í só pelo facto de nos ensinamentos bahá'ís está prescrito o jejum (durante 19 dias) e também devido ao facto dos bahá’ís não tomarem bebidas alcoólicas.

Para obter informação isenta sobre a religião bahá'í recomendo o site da BBC.

Actualização

O site Islam and the Baha'i Faith tem informação mais detalhada e aprofundada sobre este assunto.

segunda-feira, 22 de novembro de 2004

Eu, Cláudio

No final dos anos 70, a RTP brindou-nos com conjunto de séries que, de alguma forma, marcaram uma época. Dessas séries, as primeiras que me lembro de seguir com regularidade foram "Eduardo VII" e “A Queda da Águias”; nelas retratavam-se os corredores do poder nas famílias reais e chancelarias europeias durante o séc. XIX. Mas houve uma outra que me fascinou: Eu, Cláudio. Baseada num romance de Robert Graves, esta série romanceia a vida do Imperador Cláudio, e todas a intrigas políticas e familiares que se poderiam viver nos círculos ligados ao Imperador.

Depois de ter visto esta série, lembro-me de ter "devorado" o livro. Naturalmente era diferente, mais completo e com tantos episódios e pormenores que dificilmente teriam espaço numa série. Vem tudo isto a propósito de ter encontrado na FNAC a série completa editada em DVD. Quem gosta de história do Império Romano e tem saudades de uma boa série britânica, já sabe o que tem a fazer.

domingo, 21 de novembro de 2004

O Imperador Francisco José

No final do séc. XIX a vida de milhões de seres humanos estava nas mãos de uma dezena de famílias reais; entra estas contavam-se os Habsburgos. Hoje, que passam 88 anos sobre o falecimento do penúltimo monarca dos Habsburgos, Francisco José, vale a pena recordar um pouco do que foi a vida deste governante e a epístola que Bahá'u'lláh lhe dirigiu.

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Francisco José[1] nasceu em 18 de Agosto de 1830, Schloss Schönbrunn, perto de Viena. Era o filho mais velho do Arquiduque Francisco Carlos e sobrinho do Imperador austríaco, Ferdinando I. O seu tio abdicou durante a revolução de 1848, e o seu pai renunciou ao seu direito ao trono; Francisco José era o seguinte na linha de sucessão; tinha apenas dezoito anos. Com a ajuda do Império Russo, ele e o seu primeiro ministro, o príncipe Felix zu Schwarzenberg, restauraram a ordem no império e restabeleceram o domínio austríaco na Confederação Germânica.

Em 1854, Francisco José casou com Isabel (conhecida por Sissi), filha do duque Maximiliano da Baviera, de quem teria quatro descendentes; um rapaz e três raparigas.

A sua incapacidade para auxiliar a Rússia durante a Guerra da Crimeia (1853-1856) degradaram irremediavelmente as suas relações com o Império Russo. Naquela que foi chamada a Guerra Italiana de 1859, foi derrotado por franceses (liderados por Napoleão III) e italianos (liderados por Victor Emanuel); o tratado de paz assinado em Villafranca di Verona, retira aos Austríacos o domínio sobre a Lombardia. Na guerra com a Prússia, em 1866, perde Veneza para os Italianos; esta derrota provocou o seu enfraquecimento político no seio da Confederação Germânica e a consequente ascensão prussiana. Com o passar dos anos, o Império Austro-Hungaro foi-se tornando cada vez mais subserviente ao vizinho Império Alemão.

Na mesma época, Francisco José começou a negociar as exigências autonómicas da Hungria. Em 1866, a Transilvânia juntou-se à Hungria, e no ano seguinte a Áustria e a Hungria chegaram a acordo sobre a criação de uma monarquia dual, sob a qual os dois países eram parceiros iguais. Assim, e após 1867, a Hungria tornou-se completamente independente nos seus assuntos internos, mas partilhava uma política externa comum à Áustria. Também nesse ano, Francisco José foi coroado Rei da Hungria.

Francisco José planeou conceder alguma autonomia aos povos eslavos do Império, mas as elites que governavam o Império opuseram-se ao plano; como consequência, a insatisfação começou a crescer entre Checos e Sérvios; simultaneamente intensificaram-se as fricções com a Rússia (que se apresentava com a grande defensora dos povos eslavos). Em 1908, o Império Austro-Hungaro anexou a Bósnia, facto que gerou uma enorme crise política e quase provocou uma guerra europeia. A crise foi resolvida, mas o ressentimento Sérvio aumentou.

Os últimos anos da vida de Francisco José foram marcados por várias tragédias familiares. O seu irmão Maximiliano foi executado no México em 1867, por revolucionários republicanos. Em 1889, o seu único filho e herdeiro, o Arquiduque Rudolfo, suicidou-se por motivos passionais; em 1898, a sua esposa foi assassinada em Genebra, por um anarquista italiano. Em 1914, o seu sobrinho, e sucessor, Francisco Ferdinando foi assassinado por um nacionalista sérvio. Este assassinato precipita uma crise entre os Impérios Austro-Hungaro e Alemão, por um lado, e a Sérvia e o Império Russo por outro; essa crise degenerou na Primeira Guerra Mundial.

Francisco José faleceu no dia 21 de Novembro de 1916, em Schloss Schönbrunn. Não assistiu à derrota e extinção do seu Império [2].

O Império Austro-Hungaro em 1911


A Epistola de Bahá'u'lláh

Como escrevi no início, o imperador Francisco José seria um dos destinatários das epístolas de Bahá'u'lláh dirigidas a reis e governantes do Seu tempo. O embaixador austríaco em Constantinopla tinha conhecimento da situação de Bahá'u'lláh e dos "exilados persas", e tinha tomado várias iniciativas para minimizar o Seu sofrimento. É de admitir que tivesse informado o governo austro-hungaro da situação de Bahá'u'lláh. O Imperador Francisco José visitou Jerusalém em 1869, na época em que Bahá'u'lláh se encontrava detido em 'Akká. No entanto, não tomou qualquer iniciativa junto das autoridades otomanas para saber da situação de Bahá'u'lláh, Sua família e companheiros.

O texto da epístola de Bahá'u'lláh integra o Kitab-i-Aqdas, o Livro mais importante das Escrituras Bahá'ís.

Ó IMPERADOR DA ÁUSTRIA ! Aquele que é o Amanhecer da Luz de Deus residia na prisão de Akká quando te dirigiste em visita à Mesquita de Aqsá (Jerusalém)[3]. Passaste por Ele, não indagaste por Ele; Ele, cuja Presença exalta toda a casa, e para quem o mais majestoso portão se descerra. Nós, em verdade fizemos dela (Jerusalém) um lugar para o qual o mundo deve voltar, a fim de Me recordar, e tu, no entanto, rejeitaste Aquele que é o objecto dessa recordação, quando Ele apareceu com o Reino de Deus, teu Senhor e Senhor dos Mundos. Temos estado contigo em todos os tempos e encontramo-te preso ao Ramo sem atenderes à Raiz. O teu senhor, em verdade, é testemunha do que digo. Lamentamos ver como te volvias ao redor do Nosso Nome, continuavas inconsciente de Nós, embora Nós estivéssemos ante a tua face. Abre os teus olhos para que possas contemplar esta Visão gloriosa e reconhecer Aquele a quem invocas durante o dia e noite, e contemplar a Luz que brilha acima deste horizonte luminoso.[4]
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NOTAS

[1] - Sobre o imperador Francisco José, ver também uma biografia em Francis Joseph I (1848-1916) e o livro Twilight of the Habsburgs: The Life and Times of Emperor Francis Joseph .

[2] - Shoghi Effendi refere-se ao Imperador Francisco José e aos Habsburgos: "The House of Hapsburg, in which the Imperial Title had remained practically hereditary for almost five centuries, was, ever since those words were uttered, being increasingly menaced by the forces of internal disintegration, and was sowing the seeds of an external conflict, to both of which it ultimately succumbed. Francis Joseph, Emperor of Austria, King of Hungary, a reactionary ruler, reestablished old abuses, ignored the rights of nationalities, and restored that bureaucratic centralization that proved in the end so injurious to his empire." (The Promised Day is Come, p. 58)
[3] - Mesquita de Al-Aqsa, significa “A Mesquita Mais Distante” é referida no Alcorão (17:1) e identificada com o Monte do Templo em Jerusalém.
[4] - The Proclamation of Bahá'u'lláh, pag. 40

sexta-feira, 19 de novembro de 2004

Bielorússia

Em 2002 o governo da Bielorússia publicou uma lei que obrigava todas as comunidades religiosas a reiniciar um processo de legalização. Esta lei foi considerada por vários organismos internacionais como restritiva; apesar de exigir a legalização das comunidades religiosas, não garante a liberdade de culto às comunidades que concluam o processo de legalização. Segundo esta lei qualquer actividade religiosa que seja exercida por uma comunidade que não tenha obtido o reconhecimento legal, será considerada ilegal e proibida.

A nova lei confere um reconhecimento especial às igrejas ortodoxa, católica luterana, ao judaísmo e ao islão. Além disso exige que as comunidades religiosas nacionais sejam constituídas por dez ou mais comunidades locais e que, pelo menos uma destas exista no país há mais de vinte anos. Apenas as organizações religiosas nacionais que cumpram a lei poderão fundar comunidades monásticas, missões ou instituições educativas.

No início deste mês já tinham concluído o processo de legalização 1256 paróquias ortodoxas, mais de 400 paróquias católicas, 23 comunidades muçulmanas, 14 comunidades judaicas, 17 comunidades luteranas, 460 comunidades protestantes pentecostais, 239 comunidades baptistas. Entre os grupos religiosos de menor dimensão, assinalo a legalização de 5 comunidades bahá'ís locais.

Se é verdade que a maioria das comunidades religiosas conseguiu atravessar este processo burocrático de "re-legalização" (cuja data limite era o passado dia 16 de Novembro), também não deixa de ser estranho o facto que sejam protestantes a maioria das comunidade religiosas que viram rejeitados os seus pedidos de "re-legalização". Alguns dirigentes religiosos temem que, concluídos o referendo e as eleições do mês passado, o governo venha forçar a dissolução das comunidades religiosas que não concluíram o processo de "re-legalização".

Noticia completa no Forum 18.

quinta-feira, 18 de novembro de 2004

Cristo e Maomé

Pediu-me o Paulo para que desse a minha opinião sobre as diferenças entre Cristo e Maomé. Aqui vai.
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Segundo os ensinamentos bahá'ís, existem três níveis de realidade: Deus, os Profetas, e a Criação. Deus é inacessível e incognoscível para a Criação. Para conhecer a vontade e os ensinamentos de Deus, apenas o podemos fazer através dos Profetas; entre estes profetas estão Abraão, Moisés, Jesus, Maomé, Zoroastro, Krishna, Buda, o Báb e Bahá'u'lláh.

Segundo a religião bahá'í, Deus tem enviado ciclicamente Profetas à humanidade com o objectivo de nos fazer evoluir. Esses Profetas surgem em diferentes épocas com ensinamentos adequados à capacidade e necessidades de diferentes povos. Poderíamos fazer a analogia com uma escola: enquanto frequentámos a escola fomos tendo uma sucessão de professores que nos ensinaram matérias diferentes; o conteúdo das suas aulas e a forma como iam leccionando evoluía de ano para ano, tal como nós, alunos, íamos evoluindo em maturidade e necessidades de aprendizagem.

À semelhança de um bom sistema de ensino, onde um professor nunca nega o que disseram os professores dos anos anteriores, e nos prepara para os anos seguintes, também os Profetas fundadores das grandes religiões mundiais nunca negam o que foi dito pelos Profetas anteriores e sempre nos preparam para uma nova fase da nossa evolução.

Os Profetas têm dois tipos de ensinamentos: espirituais e sociais. Os ensinamentos espirituais são comuns a todas as religiões; abordam questões espirituais, como a existência de Deus, a adoração a Deus, o respeito pelos Seus Mensageiros, o amor ao próximo, entre outras coisas. Os ensinamentos éticos e sociais variam consoante as necessidades de cada povo e de cada época. Por exemplo, Cristo proibiu o divórcio, como resposta à deturpação da lei do casamento que os hebreus do Seu tempo faziam; Maomé proibiu o consumo de carne de porco, pois na Arábia daquele tempo as condições de higiene existentes tornavam muito perigoso para a saúde o consumo desse tipo de alimento.

Paralelismo entre as duas religiões

Sob esta perspectiva conseguimos perceber que os ensinamentos dos Profetas fundadores do Cristianismo e do Islão concordam no essencial e apenas divergem no acessório. Além disso, as duas religiões serviram de base a duas civilizações notáveis, que muito contribuíram para o progresso da humanidade (a herança científica e cultural que cada uma desta civilizações nos deixou é verdadeiramente extraordinária).

Tanto o Cristianismo como o Islão acreditam em Deus e na Sua orientação moral e religiosa para o ser humano. Parte desta orientação já existia no Antigo Testamento e tornou-se indispensável na base do pensamento cristão. Os árabes não tinham essa base e por isso o Alcorão está tão cheio de ensinamentos éticos e sociais. O Novo Testamento leva a mensagem divina mais além: "Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem" (Mt5:44). Jesus não Se limitou a ensinar isto; praticou-o até à morte.

A doutrina fundamental do Islão assenta na afirmação da unidade e transcendência de Deus. Deus é o Criador Supremo; a Sua natureza é descrita por vários atributos como "Misericordioso", "Compassivo", "Omnisciente", "Todo-Poderoso", "Sublime", "Todo-Generoso", "O que Perdoa", "O que Ouve" (o início de cada capítulo do Alcorão inclui vários desses atributos). O ser humano deve estar grato ao Criador pois todo o poder que possui foi concedido por Deus.

Talvez a maior diferença teológica esteja no facto do Islão não aceitar o conceito de Deus Trinitário. Deus é Uno; não devemos associar-Lhe outros seres, nem construir imagens d'Ele. Neste aspecto, os ensinamentos bahá'ís estão muito próximo do Islão.

Há uma característica comum a estas duas religiões com a qual não estou de acordo. Tanto os muçulmanos como os cristãos acreditam que o Profeta fundador da sua religião foi o último e depois d'Ele não houve outros profetas. Os Cristãos acreditam que depois de Jesus, a humanidade tem sido guiada pelo Espirito Santo (que se manifesta de diferentes formas); os muçulmanos agarram-se à sua interpretação da expressão "Sêlo do Profetas". Eu acredito que houve mais profetas, nomeadamente o Báb e Bahá'u'lláh, e mais virão. Também acredito que a humanidade continuará a evoluir e Deus continuará a guiar-nos da mesma maneira de sempre.

Referências a Cristo no Alcorão

Um dos aspecto impressionante no antagonismo entre cristãos e muçulmanos é o desconhecimento que, regra geral, o muçulmano tem do cristão e o cristão tem do muçulmano. O muçulmano, numa interpretação literal do Alcorão, acredita que os livros sagrados do cristianismo foram alterados; o cristão ignora as palavras de Maomé sobre Jesus Cristo.

Jesus é mencionado em 15 capítulos do Alcorão; nesse livro sagrado, o Seu nome é referido em 93 versículos (de um total de mais de 6200). Nesse Livro Sagrado o nome de Jesus é mencionado com enorme reverência: por onze vezes é referido como o "Messias". É também chamado "Filho de Maria", "um sinal para todos os seres" (21:91) indica-se que a Sua família foi eleita "acima dos mundos"(3:30-33) e que Ele próprio foi enviado "para que façamos dele um sinal para os homens" (19:21).

No entanto, o Alcorão não descreve todos os Seus ensinamentos, nem relata a história da Sua paixão. Apesar de Lhe serem atribuídos muitos títulos, Ele é apenas um numa sequência de Profetas que Deus enviou à humanidade (e os ensinamentos sobre os Profetas são apenas uma pequena parte do Alcorão).

Concluindo

No Islão e no Cristianismo houve épocas brilhantes e episódios trágicos. Houve heróis e loucos; houve quem vivesse a Mensagem Divina até às ultimas consequências; houve quem recordasse apenas o Mensageiro e esquecesse a Mensagem. Invocando Jesus ou Maomé houve quem cometesse actos de enorme bravura e houve quem cometesse as maiores barbáries. Jesus e Maomé conseguiram transformar a alma de milhões de pessoas, inspirando a realização dos mais puros e nobres actos entre os seres humanos; mas Jesus e Maomé não podem ser culpados pelos actos tresloucados de alguns que se dizem Seus seguidores.

Hoje em dia, é impossível falar do Islão ou do Cristianismo como comunidades religiosas homogéneas; em ambas encontramos as mais diversas tendências e correntes teológicas; em ambas encontramos atitudes progressistas e conservadoras. Pessoalmente, temo que este trágico despertar do radicalismo e extremismo islâmico ofusque prolongadamente a antiga glória da civilização muçulmana. Quanto ao Cristianismo, e talvez por ser filho de pais católicos, vou acompanhando com atenção a um certo cristianismo que me parece a caminho da renovação; grandes pensadores e activistas cristãos (Kung, Boff, Samuel Ruiz) têm vindo a dar uma nova leitura ao Evangelho à luz das condições e necessidades do mundo.

quarta-feira, 17 de novembro de 2004

Terra da Alegria

Sim, é quarta-feira e há uma nova edição da Terra da Alegria! Hoje participam o Fernando, o José e o Timóteo.

terça-feira, 16 de novembro de 2004

Hackers

Tinha lido há dias como a Net está a ser usada para a divulgação do islamismo radical. São cada vez mais os sites a defender posições extremistas e actos tresloucados que nada têm a ver o verdadeiro Islão. A notícia até não tinha nada de novo. Mas hoje fui surpreendido ao ver que um dos meus sites bahá'ís preferidos – bahaindex.com - foi atacado por hackers iranianos. De facto, os bahá'ís (ou este site) devem ser muito poderosos para serem assim tão temidos pelos radicais iranianos.

Em vez das funcionalidades habituais daquele site, encontrei ali insultos contra os Estados Unidos, Israel, Bush e Sharon. Alguns de vocês poderão ficar intrigados sobre o porquê de um ataque a um site bahá'í e a colocação destas mensagens. Apesar dos bahá'ís não se envolverem na política, é convicção dos radicais islâmicos (sobretudo, os iranianos) que os bahá'ís têm motivações políticas e andam feitos com os "sionistas"; tudo isto porque os lugares sagrados bahá'ís estão situados em Haifa, no norte de Israel.

A mentalidade deste hackers também se reflecte na pobreza da mensagem: na mesma página, a invocação "'Allah'u'Akbar" (Deus é o Mais Grandioso!) está misturada com a palavra "FUCK". Ao misturar invocações ao Criador com insultos, estes hackers mostram a sua pobreza de mentalidade. Ao menos que tentassem mostrar que a religião bahá'í está errada; mas duvido que fossem capazes.

sábado, 13 de novembro de 2004

Outra vez, o pesadelo...

O triste reality show da agonia e morte de Yasser Arafat desviaram a atenção dos nossos media do que se vai passando em África. No Sudão, as populações do Darfur vão vivendo um calvário na luta pela sobrevivência; desta vez houve jornalistas e observadores internacionais que testemunharam ataques da policia sudanesa a campos de refugiados. No Uganda, o norte do país vive uma situação humanitária considerada por várias ONG's como a pior que se vive em África. E na Costa do Marfim eclodiram conflitos e motins em vários locais.

Este último caso deixa-me particularmente triste. Ainda recentemente tinha manifestado aqui o meu agrado por um passo simbólico de reconciliação a que se assistira naquele país (LINK). De repente, e sem percebermos exactamente porquê, tudo se precipitou com a morte de vários soldados franceses e a consequente retaliação francesa. Os media centraram a sua atenção na evacuação dos cidadãos estrangeiros e os seus relatos de terror.

Foi necessário pesquisar no site da BBC para perceber a cronologia da crise. As crispações entre o governo e os rebeldes foram-se sucedendo e crescendo em tom. O Parlamento não avançou com as prometidas reformas políticas, os rebeldes não cumpriram o prazo de desarmamento e retiraram-se do governo de unidade nacional. Depois começaram os conflitos e os soldados franceses foram atingidos.

Em Portugal, só a partir desse momento é que começámos a ter notícias sobre esta crise. Mas há muitas questões que permanecem sem resposta. O renovar do conflito não foi antecipado pelas forças da ONU? Se sim, foram tomadas algumas medidas para reduzir os riscos de um novo conflito? Porque motivo foram os franceses atacados? A reacção francesa foi exagerada? O sentimento anti-francês é recente ou é antigo?

Para saber algo mais é mesmo necessário ler os jornais franceses; estes culpam os políticos marfinenses e criticam o exagero da retaliação francesa. A própria política francesa em relação à Costa do Marfim tem sido duramente criticada. Independentemente das conclusões que cada um de nós possa tirar da leituras desses jornais, fica a questão: como é que se pode resolver isto? Pobres Marfinenses...

sexta-feira, 12 de novembro de 2004

Nascimento de Bahá'u'lláh

Hoje os bahá'ís celebram um feriado especial; o nascimento de Bahá'u'lláh. Tal como o Báb, não existem relatos detalhados sobre as circunstâncias do Seu nascimento. No entanto, há registo de uma série de episódios ocorridos durante a Sua infância e juventude que merecem ser recordados neste dia.

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Ao nascer do sol do dia 12 de Novembro de 1817, nascia em Teerão, mais um filho de Mirzá 'Abbás (também conhecido como Mirzá Buzurg) e da sua segunda esposa Khadijih Khanum. A criança nasceu numa casa grande, perto do Porta de Shimran, na zona oriental da cidade; era lá que Mirzá Buzurg passava o inverno juntamente com a família. Em casa todos se regozijaram com aquele nascimento; o parto decorrera dentro da normalidade possível, e a mãe estava de boa saúde. Os pais, que já tinham uma filha e um filho, deram a esta terceira criança, o nome de Husayn 'Alí. Para a história ficaria conhecido como Bahá'u'lláh.

Teerão, a porta Meidan Machke
Os filhos da nobreza persa eram educados por professores particulares; mas tratava-se de uma educação muito limitada. Aprendiam a andar a cavalo, a caçar, a manejar armas de fogo e espadas. A isto juntavam-se aulas sobre técnicas básicas de caligrafia, estudo da língua árabe, poesia persa e estudo do Alcorão.

O pequeno Husayn 'Alí era diferentes dos restantes irmãos; era tranquilo, sossegado, não chorava, nem fazia birras. Após as primeiras aulas com professores particulares começou a constar que aquela criança não necessitava de professores; respondia a questões que eram domínio dos homens que estudavam teologia, filosofia e lei religiosa. O pai, que pouca atenção prestava aos filhos, não podia deixar de notar o contraste; a sua admiração por aquele filho foi crescendo. Conta-se que um dia, quando Husayn 'Alí tinha sete anos, os pais observaram-No a caminhar e a mãe comentou que Ele era um pouco baixo. Mirza Buzurg respondeu: "Isso não importa. Não viste como Ele é inteligente e a mente maravilhosa que Ele tem? E que percepção! É como uma chama de fogo. É tão novo e já é superior a homens adultos."

A esta capacidade intelectual juntavam-se qualidades pessoais que não passavam despercebidas a quem O conhecia. Delicadeza, eloquência, humildade, paciência, generosidade e sentido de humor são as mais referidas. Várias actividades filantrópicas valeram-lhe o título de "Pai dos Pobres" devido à Sua extraordinária generosidade e atenção para com os carenciados. Parecia que a riqueza tinha pouca importância para Ele, apesar de ter estado sempre rodeado por esta. As preocupações espirituais eram o centro da Sua vida.

UM SONHO

Quando Husayn 'Alí tinha cinco ou seis anos, teve um sonho que contou ao Seu pai. No sonho, Ele estava num jardim quando pássaros enormes O atacaram por todos os lados; mas nenhum O magoou. Depois foi até ao mar, onde foi atacado por pássaros e por peixes, mas mais uma vez não O conseguiram magoar.

Intrigado com o sonho do filho, Mirzá Buzurg mandou chamar um homem que dizia ser intérprete de sonhos; este disse-lhe que o mar representava todo o mundo, que os pássaros e os peixes representavam todos os povos do mundo que atacariam o seu filho, pois Ele proclamaria algo muito importante para toda a humanidade. Mas todos os povos do mundo, não Lhe conseguiriam fazer mal; e Ele seria vitorioso sobre todos.


Praça da Artilharia, frente à porta sul do palácio do Xá, em Teerão.
Gravura datada de 1840


SABEDORIA

Testemunhos da sabedoria e espiritualidade do jovem Husayn Alí também ficaram registados. Conta-se que Ele sabia resolver problemas como ninguém e que o Seu profundo conhecimento do Alcorão e das Hadiths (tradições islâmicas) surpreendiam muitos homens instruídos.

Um sábio famoso, Shaykh Muhammad-Taqí, pediu uma vez a uma centena de alunos que lhe explicassem o significado de uma certa Hadith. Segundo essa tradição islâmica, "Fátima é a melhor das mulheres neste mundo, com excepção da filha de Maria". Mas Maria não teve nenhuma filha; o que significava esta tradição?

Bahá'u'lláh respondeu que a afirmação inicial afirma a impossibilidade da alternativa, e portanto não existia outra mulher comparável a Fátima. Era o mesmo que dizer que um certo monarca é o maior dos reis deste mundo, com excepção daquele que desceu do céu. Como nenhum monarca desceu do céu, está-se a afirmar o carácter único do monarca.

O Shaykh ficou silencioso durante uns momentos. Depois repreendeu os seus alunos: "Instrui-vos durante vários anos e agora desiludiram-me. Vejo que vos falta compreensão, enquanto que este jovem sem formação tem uma explicação brilhante para o problema que vos apresentei".


Teerão, Dervazek Dovlette, uma das portas da cidade


O RESPEITO PELOS MENSAGEIROS DE DEUS

A única coisa que incomodava Bahá'u'lláh profundamente eram faltas de respeito pelos Mensageiros de Deus; mas mesmo nessas situações, advertia o Seu interlocutor com calma e gentileza.

Numa ocasião, realizava-se uma reunião com várias pessoas, em que estavam Bahá'u'lláh e um conhecido sábio sufi, Nazar-'Ali, de Qazvin; este último falou muito, enaltecendo a condição espiritual que um ser humano pode atingir. E referindo-se a si próprio, o sábio sufi declarou: "Sou tão desprendido que se o meu servo me dissesse que Jesus Cristo estava à minha porta, à minha procura, eu não mostraria qualquer desejo em vê-Lo". A maioria dos presentes ficou em silencio; alguns murmuraram admiração pelas palavras do sábio.

Bahá'u'lláh sentiu nas palavras uma enorme falta de respeito por um Mensageiro de Deus. Perguntou-lhe: "És uma pessoa muito próximo do nosso soberano, o Xá Muhammad, e ele aprecia muito a tua sabedoria. Mas se o chefe da prisão viesse bater à tua porta, acompanhado por dez homens e te dissesse que o monarca queria falar contigo, ficarias calmo ou perturbado?"[1]

Nazar-'Ali pensou um pouco e respondeu: "Na verdade, ficaria muito ansioso".

"Nesse caso, também não deves proferir essas afirmações", retorquiu Bahá'u'lláh.


Teerão, gravura datada de 1850

MATURIDADE

Em Outubro de 1835, Bahá'u'lláh, já tinha quase 18 anos, quando casou com Asiyih Khanum, filha de uma outra família da nobreza persa de Yalrud (Mazindaran). Deste casamento nasceram vários filhos que ficaram conhecidos na história da religião bahá'í: 'Abdu'l-Bahá, Mirzá Mihdhi e Bahiyyih Khanum.

Em Agosto de 1844, Mullá Husayn, o primeiro discípulo do Báb, viajou até Teerão. O Báb pedira-lhe que levasse um documento à capital; não lhe disse a quem deveria entregar o documento. Adiantou apenas que "encontra-se oculto um segredo nessa cidade" e que Mullá Husayn encontraria a pessoa que deveria receber o documento.

Em Teerão teve conhecimento da existência do Husayn 'Ali, do Seu carácter e modo de vida. Compreendeu que era Ele o destinatário daquele documento. Dirigiu-se à casa junto da Porta de Shimran e encontrou-se com Mirzá Musá, um dos irmãos de Bahá'u'lláh. Entregou-lhe o documento com a recomendação que o fizesse chegar às mãos de Bahá'u'lláh.

Quando Bahá'u'lláh recebeu o documento das mãos do Seu irmão, abriu e leu-o; alguns dos excertos foi lendo em voz alta. Quando terminou voltou-se par ao irmão e perguntou: "Musá, que dizes disto? Em verdade te digo, quem acredita no Alcorão e reconhece a sua origem divina, mas hesita por um momento que seja em admitir que estas palavras extraordinárias estão dotadas do mesmo poder regenerador, essa pessoa errou no seu juízo e afastou-se do caminho da justiça". Com estas palavras, Bahá'u'lláh declarava a Sua adesão à Mensagem do Báb. A partir desse momento ia dedicar todo o Seu tempo e energia à divulgação daquela Causa. Era o início do fim da Sua vida tranquila e privilegiada.

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NOTAS
[1] - Palavras atribuídas a Bahá'u'lláh

terça-feira, 9 de novembro de 2004

Charlie don't Surf!

Ciclicamente o Timóteo brinda-nos com letras de algumas canções. Devo agradecer-lhe a forma como ele me recorda alguns temas que marcaram a minha juventude ou tiveram um significado especial para mim. Mas hoje é a minha vez de escrever sobre uma música especial. Quando, há cerca de dois anos reuni numa cassete uma pequena compilação dos meus temas preferidos, tive de incluir uma faixa do álbum Sandinista, dos Clash: Charlie don't surf! Esta cassete está no meu carro e oiço-a com alguma regularidade.

Os Clash eram uma banda verdadeiramente punk; não eram arrasadores como os Sex Pistols, nem comerciais como os Ramones. Víamos neles uma certa pureza dos punks. Álbuns como London Calling (LP duplo) e Sandinista (LP triplo) devem ter sido dos que mais ouvi enquanto vivi em casa dos meu pais.

No início dos anos 80, em Portugal, conseguir um álbum dos Clash era uma proeza. A editora da banda era a CBS que em Portugal era representada pela Radio Triunfo (a tal que fazia umas capas horríveis, que se descolavam só de olhar para elas!). Pouco depois da publicação do London Calling, a Rádio Triunfo perdeu a representação da CBS; como consequência, o London Calling esgotou-se e não houve novas edições; quando saiu o Sandinista, a CBS ainda não tinha representação em Portugal. O Rock em Stock ia passando várias faixas desse álbum, e nós bem podíamos sonhar em conseguir esse álbum.

Felizmente, sempre aparecia alguém que tinha um familiar ou amigo que conhecia alguém que ia a Londres... e depois lá se entregava uma cassete ao dono do álbum a quem quase suplicávamos que nos gravasse o LP. Foi assim que conheci o álbum Sandinista.

Uma das faixas que sempre gostei (e acho que nunca enjoei!) foi Charlie don't Surf. Trata-se de um verdadeiro hino pacifista, bem característico de uma época em que o mundo era dominado por duas superpotências. Tanto quanto me lembro, o título da canção é uma frase célebre do filme "Apocalipse Now" (lembram-se quando o comandante dos helicópteros decide atacar a aldeia junto ao mar porque tinha umas ondas boas para o surf? Alguns oficiais começaram a dizer que era perigoso e ele interrompeu: "CHARLIE DON'T SURF!")

Fica aqui a letra:

Chorus
Charlie don’t surf and we think he should
Charlie don’t surf and you know that it ain’t no good
Charlie don’t surf for his hamburger momma
Charlie’s gonna be a napalm star

Everybody wants to rule the world
Must be something we get from birth
One truth is we never learn
Satellites will make space burn

We’ve been told to keep the strangers out
We don’t like them starting to hang around
We don’t like them all over town
Across the world we are going to blow them down

Chorus

The reign of the super powers must be over
So many armies can’t free the earth
Soon the rock will roll over
Africa is choking on their coca cola

It’s a one a way street in a one horse town
One way people starting to brag around
You can laugh, put them down
These one way people gonna blow us down

Chorus

Charlie don’t surf he’ll never learn
Charlie don’t surf though he’s got a gun
Charlie don’t surf think that he should
Charlie don’t surf we really think he should
Charlie don’t surf

Charlie don’t surf and we think he should
Charlie don’t surf and you know that it ain’t no good
Charlie don’t surf for his hamburger momma
Charlie don’t surf

segunda-feira, 8 de novembro de 2004

Bom Senso

Recentemente um documentário do Canal História referia as vítimas esquecidas do Franquismo. Tratavam-se de casos de violações de direitos humanos (prisões sem julgamento, campos de concentração, discriminação por motivos políticos, etc.) sob os quais parece cair um véu de amnésia colectiva da sociedade espanhola. Num dos casos referidos, abordavam-se a situação de várias mulheres que tinham ficado presas após o final da guerra civil; eram comunistas, socialistas, anarquistas, ou apenas esposas de republicanos. Os maus tratos e as terríveis condições de detenção eram repetidamente referidas pelas antigas detidas. A situação assumia dimensões dramáticas quando essas mulheres tinham filhos. Algumas religiosas eram responsáveis pelas condições de detenção; nada pareciam fazer para minimizar o suplício das detidas ou dos seus filhos (alguns recém-nascidos!). Algumas chegavam mesmo a comportar-se como carrascos. E se falecia o filho de alguma reclusa, cercavam o cadáver e regozijavam-se por estar na presença de "um anjinho".

Poderá a atitude destas religiosas ser confundido com o Catolicismo?

Em 1852 três jovens babís, que tinham sido alvo de perseguições pelo clero xiita iraniano, concluíram que o Xá Nasiri'd-Din era o responsável pelos infortúnios que lhes haviam sucedido. Apesar de todas as advertências que lhes foram feitas, planearam o assassinato do Xá. No mês de Agosto, quando o Xá e a sua comitiva abandonavam o Palácio de verão para realizar uma caçada, os três aproximaram-se do Xá, como peticionários que pediam justiça. Os jovens não tinham qualquer experiência militar nem sequer eram assassinos profissionais; as suas armas eram duas pistolas velhas e pequenas adagas. Tentaram derrubar o Xá do seu cavalo e dispararam contra ele; os tiros apenas provocaram ferimentos leves. A comitiva do Xá foi rápida a proteger o soberano e dominar os atacantes. Um deles foi morto no local; os outros seriam mortos poucas horas depois.

Esta tentativa de assassinato agitou a capital e as principais cidades persas. A família real exigiu vingança; o clero xiita encorajou o apoio popular a essa exigência real. Os ataques ao babís, que até então eram pontuais, passaram a ser sistemáticos e de um brutalidade sem paralelo.
Poderá o acto destes três babís ser confundido com as religiões Babí e Bahá'í?

Na década de 1970 os Khmers Vermelhos tomaram o poder no Cambodja. Pretendem construir uma sociedade de camponeses, igualitária, sem hierarquias. Proclamam que Deus morreu e defendem que apenas o partido no poder deve guiar o povo; não há espaço para a religião, educação, família, propriedade privada ou mesmo vida individual; pretende-se a regeneração da sociedade cambodjana pura e livre de todas as “contaminações”. Os campos da morte instituídos pelo regime são palco de morte de milhões de cambodjanos; intelectuais e religiosos são massacrados.

Poderão os actos dos Khmers Vermelhos ser confundidos com o ateísmo?

Este tipo de actos e as questões que se colocam merecem uma reflexão de qualquer pessoa que se preste a atacar ou a confrontar qualquer sistema de crenças. Ao confundir-se os actos tresloucados de crentes/apoiantes de qualquer sistema de crença com os próprios ensinamentos desse sistema de crença, estamos claramente a distorcer qualquer debate de ideias. Só por infantilidade (ou má fé!) se poderia fazer essa confusão. Para qualquer pessoa de bom senso, os actos acima referidos são condenáveis.

Infelizmente vários debates na blogosfera começam com confusões deste género e degeneram numa troca de insultos e insinuações profundamente desagradáveis. E depois sabemos como é... escrevem-se coisas que eram desnecessárias, recordam-se sempre azedumes anteriores, e um espaço de debate torna-se um espaço de agressão verbal. Alguns bloggers até se referem uns aos outros como “inimigos”. Se os debates na blogosfera são uma guerra, então talvez todos tenhamos inimigos; mas se são apenas palco de confrontação de ideias antagónicas, então será mais correcto dizermos que todos temos adversários.

Numa das suas Palestras em Paris, 'Abdu'l-Bahá afirmou "A maior de todas as dádivas de Deus ao homem é a do intelecto". Essa dádiva divina (ou, para os ateus, essa característica humana) não pode ser desperdiçada num debate de ideias. Se não fizermos uso dela, não estaremos a cair numa certa irracionalidade? Costuma-se dizer que o insulto é a arma de quem já não tem argumentos. Na verdade, uma ideia que nos desagrada (ou que nos pareça absurda!) não se desmonta com insultos; não há nada como a força da razão num debate de ideias.

Tenhamos, pois, bom senso e maturidade nos nossos debates.

Terra da Alegria

Hoje há uma nova edição da Terra da Alegria!

domingo, 7 de novembro de 2004

Palestra

Hoje fui o palestrante no Centro Bahá'í, em Lisboa. Sala quase cheia, caras conhecidas e caras novas, pessoas de todas as idades e diferentes raças. Apresento uma perspectiva bahá’ís sobre o Verbo de Deus, o Seu poder criativo e a forma como este se revela à humanidade. Segundo as escrituras bahá’ís, o Verbo foi a primeira coisa que emanou de Deus e é a causa de toda a criação. Tem um enorme poder criativo e regenerador sobre a humanidade; é-nos revelado ciclicamente através de profetas que fundam as grandes religiões mundiais. Questiono a minha audiência se a fé será um dom de Deus ou se todos temos capacidade para reconhecer a revelação divina. Dá-se um debate animado. Prossigo dando exemplos de como o Verbo revelado reflecte a cultura dos povos a quem é revelado, as respectivas necessidades e capacidades de entendimento. Termino mostrando como a compreensão das Sagradas Escrituras não depende da formação académica de cada pessoa.

Chega o intervalo e toma-se um chá e uma fatia de bolo. Alguém pergunta se já li um novo livro que acabou de ser publicado. "Não, nem sabia que já o tinham traduzido..." O meu filho passeia entre todas aquelas pessoas crescidas; já lhe passou a timidez que tinha à chegada. Tem uma bolacha na mão e vai espalhando migalhas.

Começam a formar-se pequenos grupos que debatem diversos temas: uma língua auxiliar internacional, a revelação progressiva, a necessidade de uma nova ordem mundial… Um crente iraniano, que viveu 30 anos nos Estados Unidos confessa-me que percebeu praticamente tudo o que eu disse, mas ainda não domina bem o português; prefere falar em inglês. Outro crente, que não conhecia, apresenta-se; ao ouvir o seu nome percebi que era um dos primeiros bahá'ís de Portugal. Perguntam-me se vou aparecer na comemoração do Aniversário de Bahá'u'lláh. "Não sei… com o miúdo fica complicado sair à noite". No meio das despedidas agradecem-me o tema e a minha palestra.

Foram algumas horas que parecem ter passado depressa. Gostava de ter falado mais com algumas das pessoas que lá estavam. Para a próxima, talvez.

sexta-feira, 5 de novembro de 2004

Na Cidade de ‘Abbás, o Grande

No Outono de 1846, a fama do Báb na cidade de Shiraz incomodava profundamente o clero muçulmano. O governador da cidade, sensível às preocupações da hierarquia religiosa dominante estimulou a repressão contra a recém-nascida comunidade Babí. Alguns crentes e familiares do Báb começaram a ser ameaçados; outro viram os seus bens saqueados. O povo de Shiraz foi avisado que se uma única folha dos escritos do Báb fosse encontrada na posse de alguém, as consequências seriam muito severas.

O Báb decidiu então mudar-se para Isfáhan[1]. Conhecida também como a Cidade de 'Abbás, o Grande, Isfáhan tinha sido a capital da Pérsia nos tempos da dinastia Safavid (1501-1732). O Xá 'Abbás é recordado entre os persas como um dos seus mais ilustres monarcas dessa dinastia, e, também, por ter expulso os portugueses do golfo pérsico. Na cidade existem ainda vários edifícios e monumentos imponentes que datam do reinado de 'Abbás.

Naquela época, a cidade já tinha perdido o esplendor de outros tempos. O governador era um eunuco de origem georgiana, Manuchihr Khan. Tinha sido vendido como escravo em criança e educado como muçulmano. Como muitos outros eunucos, tornou-se funcionário governamental. As suas qualidades pessoais levaram-no a ser merecedor da confiança do Xá e a ser nomeado governador da província de Isfáhan. Era temido pela sua crueldade, mas reconheciam-lhe a justiça e a capacidade de proteger os mais fracos.

Quando o Báb se ia aproximando da cidade de Isfáhan, escreveu uma carta ao Governador Manuchihr Khan solicitando-lhe que indicasse o local onde pudesse viver. Sensibilizado com a cortesia e o estilo da carta do Báb, o Governador deu ordens ao mais importante líder religioso da província, o Imam Jumih, para receber o Báb na Sua casa e acolhê-Lo de forma calorosa e generosa. Ordenou ainda a várias pessoas que tratassem de escoltar o Báb.

Na época, já existia em Isfáhan um número considerável de Bábís. Durante a estadia do Báb em Isfáhan, a Sua fama espalhou-se ainda mais por toda cidade. Todos os dias uma multidão de pessoas vinha vê-Lo e ouvir as Suas palavras. Existem relatos de vários episódios passados nesses dias em Isfáhan; desde as pessoas que queriam guardar a água usada pelo Báb antes das suas orações, até aos comentários sobre capítulos do Alcorão revelados em resposta a pedidos de alguns clérigos.

A crescente popularidade do Báb, começou a incomodar o clero da cidade, que ficava com medo de perder o seu prestígio e poder. Começaram a espalhar rumores sobre Ele, na esperança de levantar suspeitas a Seu respeito. Com os boatos e as acusações crescentes contra o Jovem de Shiraz, o Governador, preocupado com a situação, decidiu convocar uma reunião com o clero muçulmano e o Báb. Nessa reunião foram-Lhe colocadas várias questões; abordavam assuntos como a filosofia, a teologia, e a jurisprudência islâmica. O Báb respondeu a todas em termos simples, mas eloquentes.

Manuchihr Khan, que assistiu à reunião e impediu que os clérigos avançassem com insultos contra o Jovem, percebeu que os sacerdotes não se iam dar por vencidos. Após a reunião convidou o Báb a mudar-se para a sua própria residência e a ficar sob sua protecção pessoal. Na verdade, alguns dias após essa reunião, os clérigos muçulmanos reuniram-se e decretaram a pena de morte para o Báb.

Em casa, durante longas horas de conversa com o Báb, Manuchihr Khan começou gradualmente a compreender a grandeza da Sua Revelação. Um dia, quando estava sentado com o Báb no jardim da sua casa, o Governador dirigiu-Lhe estas palavras:


"O Todo-Poderoso dotou-me de grandes riquezas. Não sei como melhor usá-las. Agora que fui levado, pela ajuda de Deus, a reconhecer esta Revelação, é meu ardente desejo consagrar todas os meus bens à promoção dos Seus interesses e à difusão do Seu Nome. É minha intenção dirigir-me, com a Vossa permissão, a Teerão, e fazer todo possível para que Xá Muhammad, cuja confiança em mim é firme e inabalável, aceite esta Causa."[2]
A esta demonstração de fé e devoção, o Báb respondeu:

"Que Deus vos recompense pelas vossas nobres intenções. Tão elevado propósito é para Mim ainda mais precioso do que o próprio acto. No entanto, os vossos dias e os Meus estão contados; são demasiadamente curtos para ser possível que Eu os presencie e para permitir que atinjais a realização das vossas esperanças. Não será pelos meios que vós ingenuamente imaginais que uma Providência omnipotente conseguirá o triunfo da Sua Fé. Por intermédio dos pobres e humildes desta terra, pelo sangue que eles derramarão no Seu caminho, é que o Soberano Omnipotente assegurará a preservação e a consolidação dos alicerces da Sua Causa. Esse mesmo Deus, no mundo vindouro, colocará sobre a vossa cabeça a coroa de glória imortal e derramará sobre vós as Suas bênçãos inestimáveis. Da duração da Vossa vida terrena restam apenas três meses e nove dias, após os quais, com fé e certeza, vos apressareis à vossa morada eterna."[3]
Três meses e nove dias mais tarde, o governador faleceu tal como o Báb havia predito. Poucos dias depois da sua morte, o seu sucessor enviou uma mensagem ao Xá em Teerão perguntando-lhe o que deveria fazer com o Báb. O Xá ordenou-lhe que enviasse o Báb, disfarçado, para a capital, onde pretendia encontrá-Lo. Assim, acompanhado por uma escolta montada, o Báb iniciou Sua viagem para Teerão.

Aqueles quatro meses que o Báb passou na residência privada do Governador de Isfahan, foram os mais tranquilos do Seu ministério.




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NOTAS
[1] – Sobre Isfahan, ver tambem esta página no Iran Chamber.

[2] – The Dawnbreakers, pag. 107
[3] – The Dawnbreakers, pag. 107-108

quinta-feira, 4 de novembro de 2004

A praga

"Ontem esta árvore estava cheia de folhas verdes. Depois vieram os gafanhotos. Eles comeram tudo no nosso campo. Desapareceu tudo - não apenas para a minha família, mas para toda a aldeia. Se uma família não tem que comer, o resto da aldeia partilha alguma coisa. Mas o que vamos comer quando todos nós estamos sem nada?"



O desespero do povo da Mauritânia perante a praga dos gafanhotos numa foto-reportagem da BBC.

terça-feira, 2 de novembro de 2004

Unity by Division

Recomendo a leitura de Unity by Division, um artigo de Kathleen Lehman no Planet Bahá'í.

Fica aqui o "aperitivo":

The step from separation of church and state to the unity of religions is breathtakingly short. If no religion is preferred, if none is supported by preferential tax laws, compulsory education, health and welfare services, or any of the other instruments of governance, each individual is free to follow the dictates of his own conscience and choose in what way he will worship God. Followers of all religions will soon live side-by-side. Tolerance will be encouraged; plurality will thrive. Ecumenical movements will arise, and multifaith organizations spring up. The mystery and alienness of the other's religion will vanish, for one will see and understand that the other's religion similarly impels him to worship, to live a goodly life, to work for the betterment of all. The similarities, rather than the dissimilarities, of all faiths will be emphasized.

segunda-feira, 1 de novembro de 2004

Há 159 anos: a primeira notícia no Times

Há algumas semanas atrás, no Terra da Alegria, publiquei um texto mencionando aquilo que os bahá'ís americanos gostam de designar como a primeira referência à fé bahá'í no Ocidente. Os bahá'ís na Europa discordam, naturalmente, desta perspectiva americana; antes daquela referência outras houve na Europa, em livros jornais e revistas. A primeira referência que surgiu na Europa foi no The Times, de Londres.

O Times é daqueles jornais que estão irremediavelmente associados à imagem do Reino Unido. É quase um ex-libris britânico. O próprio Eça de Queirós, descreveu o Times com "um diário que inspira orgulho a todo o inglês sinceramente patriota, e que aos olhos respeitosos do estrangeiro aparece como uma das mais fortes colunas da sociedade inglesa, como a própria consciência da Inglaterra posta em letra redonda... esta austera gazeta que preferiria despedaçar as suas magníficas máquinas a consentir que elas imprimissem um bon-mot, uma pilhéria, uma linda bagatela, ou uma jovial anedota; este papel tão pudico que evita o nome de Zola como uma indecência..."[1]

Pois foi no venerado Times que, em 1 de Novembro de 1845, se publicou a primeira notícia sobre o surgimento de um novo movimento religioso e se descreveram as primeiras perseguições religiosas vividas pelos babís da Pérsia:

Pérsia
Recebemos a seguinte carta de Bushire, datada de 10 de Agosto:
Um mercador persa, que regressou recentemente de um peregrinação a Meca, tem estado desde há algum tempo a esforçar-se por provar que ele é um sucessor de Maomé, e portanto, tem o direito de exigir a todos os verdadeiros muçulmanos que o mencionem como tal na sua profissão de fé; já conseguiu reunir um bom número de seguidores que secretamente o ajudam a espalhar as suas ideias. Ao fim do passado dia 23 de Junho, fui informado por uma fonte fidedigna, que quatro pessoas, que foram ouvidas em Shiraz a repetir a profissão de fé de acordo com a forma prescrita pelo novo impostor, tunham sido detidas, julgadas e considerados culpados de blasfémia imperdoável. Foram condenados a ter as barbas queimadas com fogo. A pena foi executada com todo o zelo e fanatismo de verdadeiros crentes em Maomé. Considerando que perder as barbas não era uma punição suficiente para os crentes no impostor, foram ainda condenados a ter as suas caras pintadas de preto e expostas pela cidade. Cada um deles foi levado por um Mirgazah (carrasco) que lhes fez um furo no nariz e por onde lhes passou uma corrente, que puxava por vezes com uma tal violência que levava os seus companheiros a gritar por misericórdia do carrasco ou por vingança do Céu. É costume na Pérsia, nestas ocasiões, os carrascos recolherem dinheiro dos espectadores , particularmente dos lojistas no bazar. Ao fim do dia, quando os bolsos dos carrascos estão cheios de dinheiro, levam as infelizes até às portas a cidade (…)

Depois disto, os Mollahs em Shiraz enviaram homens a Bushire com ordens para deter o impostor e levá-lo para Shiraz, onde, ao ser julgado ele muito sabiamente negou a acusação de apostasia que lhe era feita, e assim escapou à punição
[2]
O autor da notícia não é indicado. Mas a notícia contém um conjunto de elementos conhecidos de historiadores bahá'ís, nomeadamente a peregrinação do Báb a Meca, a prisão dos Seus seguidores e consequente punição e exílio decretado pelo governador da província de Fars, o envio de homens a Bushir para prender o Báb e o Seu julgamento em Shiraz.

À data de publicação desta notícia tinha passado pouco mais de ano e meio sobre a declaração do Báb em Shiraz; poucos persas tinham conhecimento da Sua existência ou das Suas pretensões. Sendo um jornal de referência para os britânicos quase fica a impressão que as notícias do aparecimento do Báb chegaram mais rapidamente aos britânicos do que aos persas.

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Referências
[1] – Cartas de Inglaterra e Crónicas de Londres, Ed. Livros do Brasil, pag. 183
[2] – Citado em The Babi and Bahá'í Religions, Some Contemporary Western Accounts, Moojan Momen, pag. 69
Sobre as primeiras referências à religião bahá’í no ocidente ver Early Western Accounts of Bahá'í (and Bábí) Faith.

Terra da Alegria

Hoje há Terra da Alegria! Um texto muito, muito interessante do Zé Filipe.