quinta-feira, 31 de março de 2005

Não mexe!

Esta é a frase mais pronunciada lá em casa e onde quer que levemos o nosso cachopo. Com quase 20 meses é um miúdo cheio de vitalidade. Quer experimentar tudo, tocar em todas as coisas, descobrir tudo no mundo que o rodeia. Já começa a perceber algumas brincadeiras como as escondidas e a apanhada. Quando chega a hora da sesta é um sossego para nós.

Já vi muitos pais e avós surpreendidos (e por vezes à beira do desespero) com a vitalidade dos miúdos. Existem muitas expressões para caracterizar esse comportamento habitual das crianças. A mais engraçada dessas expressões que ouvi até hoje foi: "Parece o diabo num monte de folhas!" É mesmo isso. O meu pequeno "diabinho" costuma deixar tudo de pantanas. A foto abaixo é um flagrante de uma dessas diabruras.

quarta-feira, 30 de março de 2005

"Não sou de esquerda, nem de direita; sou do 4-3-3"

José Mourinho é o tipo de pessoa que dificilmente deixa alguém indiferente. Ouvi falar dele pela primeira vez quando era tradutor de Bobby Robson no Sporting e foi despedido pelo então presidente Sousa Cintra. Desde então foi crescendo e evoluindo, sendo hoje uma figura sobejamente conhecida no mundo do futebol. É verdade que se ele tivesse treinado o Sporting, talvez eu tivesse apreciado o seu talento mais cedo. É assim mesmo: quando se fala de futebol, sou faccioso!

A primeira vez que admirei o seu conhecimento foi durante o Euro 2004, quando comentou um jogo de Portugal; ao contrário dos tradicionais comentadores, as suas palavras eram esclarecedoras sobre as opções tácticas e os méritos de cada jogador português em campo. Lembro-me que nos dias a seguir a esse jogo, muitos colegas e amigos referiam que tinham aprendido muito com os comentários do Mourinho.

Depois seguiu-se este sucesso em Inglaterra. Deu um certo gozo, ver um Português triunfar daquela maneira. É giro saber que os jogos do Chelsea têm uma audiência na TV Portuguesa semelhante aos jogos dos “três grandes”.

Nesta semana, a SIC e a RTP surpreenderam-me com reportagens sobre a visita do treinador português a Israel. Feita a convite do Centro Peres para a Paz esta visita incluiu várias actividades, nomeadamente palestras para treinadores israelitas e palestinianos, e actividades com crianças israelitas e palestinianas. Retive uma frase dele que parece reveladora de uma certa humildade: "O futebol é muito menos importante do que certas causas como a Paz"; e no Haaretz encontrei outra frase a reter: "Não sou de esquerda, nem de direita; sou do 4-3-3".

Fico feliz pela mensagem que Mourinho transmitiu e pelo gesto que teve em prol do entendimento entre israelitas e palestinianos.

Terra da Alegria

Terra da Alegria, a edição de 4ª feira.



Daubigny sunset - Imagem obtida no BOABOBLOG

terça-feira, 29 de março de 2005

Liya Kiara

Nasceu a Liya Kiara.
É linda. Já vi as fotos.
Parabéns aos pais "Pifas" e Marjan (agora é que a vossa vida mudou a valer!) e aos avós (imagino que seja óptimo ser avô!).
Que essa menina encha a vossa família com muitas e muitas alegrias!!!
A propósito da expectativa com que muitos baha'is aguardavam o nascimento da Liya Kiara fica aqui a minha nota de admiração pelo facto da mocita já ter conta de email. Vai ter muitos mails atrasados para ler daqui a uns anos...

Terry Schiavo

Nos EUA aproxima-se do fim o terrível drama de Terry Schiavo. Como em todos estes casos que recebem atenção mediática, o drama pessoal de Terry foi ficando encoberto por um conflito de interesses entre o marido e a família de Terry. Ambas as partes foram apoiadas por diferentes grupos de pressão que inevitavelmente assumem posturas quase fanáticas em torno da vida de Terry. Quantas destas pessoas que opinam sobre o assunto sabem o que é enfrentar um dilemas destes? Quem nunca passou por este problema conseguirá imaginar o desgaste emocional desta situação para todos os envolvidos?

Até hoje fui poupado a um drama destas dimensões. E peço a Deus para nunca ter de suportar uma tal situação. Estranhamente, no meio desta história, percebo a um importância de um ensinamento baha'i: a necessidade de redigir um testamento. Se esse testamento contemplar a nossa vontade sobre o que fazer numa situação de morte cerebral, ou existência vegetativa, talvez isso minimize o desgaste emocional e o sofrimento dos meus familiares se alguma vez me encontrar numa situação destas.

segunda-feira, 28 de março de 2005

quinta-feira, 24 de março de 2005

Raquel

A Raquel já teve azares na vida. O pai foi assassinado pouco depois dela nascer; a mãe, profundamente perturbada desde então, descurou a atenção com ela e com todos os outros filhos. Viveram vários anos em terríveis condições de higiene e eram mal alimentados.

"Aquilo era uma imundice!", dizem os vizinhos. Faltavam muito à escola.

Há um ano, a mãe faleceu e a Raquel foi entregue a uma vizinha que a recebeu como família de acolhimento. E tudo mudou na vida dela.

Passou a andar mais limpa e arranjada. Gosta de ir à escola. Tem 10 anos e concluiu a 2ª classe; neste ano talvez faça a 3ª e a 4ª simultaneamente. Quando vivia com a mãe, os outros meninos da escola não brincavam com ela; diziam que estava suja e cheirava mal.

Hoje todos brincam com ela. E chega mesmo a dizer sobre um colega: "Há lá um miúdo da escola que tem piolhos!"

Perguntei-lhe: "o que é mais importante: ser bonita ou ser inteligente?"

Respondeu: "Ser inteligente. E para isso tenho de ir à escola, porque quando for grande quero ser professora".

Oxalá o consiga.

terça-feira, 22 de março de 2005

A Música em Pessoa



Uma pequena lembrança de familiares regressados do Brasil, revelou-se uma bela surpresa. Trata-se de um CD, com o título A Música em Pessoa; contém uma compilação de trabalhos de vários autores brasileiros (a quem se juntou ainda a Eugénia Melo e Castro) com textos de Fernando Pessoa. Os trabalhos são muito interessantes; mas há um que tenho de salientar: Jô Soares, a declamar "Cruzou por mim, veio ter comigo numa rua da Baixa" de Álvaro de Campos. Faz lembrar João Villaret...

Este CD foi lançado em 1985. Alguém sabe se alguma vez esteve à venda cá em Portugal?

segunda-feira, 21 de março de 2005

Naw Ruz

Celebra-se hoje o Naw Ruz, o Ano Novo Baha'i; entrámos no ano 162.

À semelhança das grandes religiões mundiais, também a religião bahá’í tem o seu próprio calendário. O facto do Ano Novo coincidir com o início da primavera (aqui no hemisfério norte!) não é uma originalidade. No Zoroastrismo, o Ano Novo também é celebrado neste dia, pois segundo a tradição, Zoroastro recebeu a Revelação neste dia. Mas existem fortes indícios que esta data já era celebrada, muitos séculos antes de Zoroastro. E apesar de não ser uma celebração islâmica, não deixa de ser curioso que se tenha mantido na Pérsia depois desta cair sob domínio muçulmano.

E porque a religião Bahá'í tem as suas raizes na Pérsia, esta celebração do Ano Novo manteve-se neste dia. Para a maior parte dos bahá'ís, este é também o dia em que termina o jejum. Um pouco por todo o mundo houve diferentes tipos de festas e celebrações assinalam esta data. Ontem, em Lisboa, assistimos a uma das melhores festas de Naw-Ruz de sempre. José Lopes (o homem é um talento!), Rão Kyao (foi brilhante a mistura do som das flautas com o saltério), Shahryar Mazgani (grande voz!), Coro Presbiteriano de Algés (talvez por terem entoado dois temas em umbundo, foram os únicos com direito a "encorre"!).

Aqui ficam as fotos:


José Lopes




Shahryar Mazgani




Rao Kyao e Fedros Imani




Rao Kyao e Renato




Coro Presbiteriano de Algés


Parabéns à organização deste evento.

Feliz Ano Novo!

Terra da Alegria

Terra da Alegria, a edição de 2ª feira.



Street Corner - Imagem obtida no BOABOBLOG

sexta-feira, 18 de março de 2005

Desrespeitando os mortos

"Vi com grande interesse as imagens da destruição de sepulturas baha'is em Yazd. Não fiquei chocado ou surpreendido, talvez porque incidentes semelhantes aconteceram com os túmulos dos meus parentes que faleceram no Irão, antes e depois da revolução."

"O principal cemitério baha'i de Teerão, por exemplo, que tinha milhares de túmulos, e parecia mais um jardim meticulosamente arranjado do que um cemitério, com flores e árvores alinhadas (e era apropriadamente designado "Golestan-e Javid" ou Jardim Eterno), pouco depois do triunfo da Revolução Islâmica, foi confiscado pelo novo governo que alegremente destruiu as sepulturas e ordenou a construção de um edifício governamental"
Com estas palavras começa um texto de Cyrus Iranzad, intitulado Thanks to Khomeini - Disrespecting the dead, publicado no Iranian.com (também reproduzido no Monte Carmelo).

A ler.

O Brasil, o software livre e o MIT

MIT Backs Brazil's Free Software Over Microsoft

Esta noticia surgiu ontem e tem vários aspectos positivos. O Brasil prepara-se para tomar uma decisão importante relativamente a computadores pessoais que serão vendidos a baixo preço. Trata-se de cerca de um milhão de computadores pessoais, cujo custo será subsidiado pelo Governo e que se destinam aos brasileiros da baixa classe média. A grande questão do momento é: deverão estes computadores ter instalado uma versão simplificada do Windows ou um sistema operativo do chamado "open software" (tipo Linux)?

O debate ainda prossegue com opiniões que se dividem entre deixar que seja o consumidor final a escolher entre um computador com "open software" ou um computador um pouco mais caro com uma versão simplificada do Windows, e outras opiniões que acreditam pura e simplesmente que a Microsoft deve ser excluída. É importante ter presente que no Brasil (o quinto país mais populoso do mundo) existe uma forte corrente em favor do “open software”; vários organismos governamentais já mudaram os seus operativos para Linux, conseguindo poupanças significativas no que toca aos custos de licenciamento.

O aspecto mais interessante desta notícia é o facto do MIT ter vindo a público apoiar a opção a favor do "open software". Numa carta dirigida ao governo Brasileiro, responsáveis desta prestigiada universidade americana não hesitaram em afirmar: "O software livre é bem melhor no que toca às dimensões custo, poder e qualidade". Talvez o mais interessante é o facto de uma instituição americana defender uma posição que prejudica directamente uma grande empresa americana. A imagem que nos fica é que defenderam uma posição que lhes parece a mais correcta e mais vantajosa para o Brasil, independentemente dos interesses económicos americanos.

Faço votos que o prometido choque tecnológico para o nosso país, inclua alguma decisão deste tipo para a nossa administração pública. Como já aqui referi, parece-me uma questão que devia merecer a atenção dos nossos governantes.

quinta-feira, 17 de março de 2005

Dia da Mulher na ONU


"Os Estados não podem continuar a negligenciar das suas responsabilidades sob o pretexto da jurisdição interna ou relativismo cultural. Não existem fundamentos - morais, práticos ou biológicos – que justifiquem a negação dos direitos das mulheres. As consequências da inacção e discriminação continuada contra metade da população mundial são uma afronta à dignidade humana e uma negação dos próprios princípios das Nações Unidas."

"A plena igualdade entre homens e mulheres não é um fim; é um pré-requisito para os objectivos que as Nações Unidas foram criadas. [As Nações Unidas] declararam inequivocamente que os direitos das mulheres são direitos humanos e estes são fulcrais no desenvolvimento e democracia de qualquer nação"

São palavras de Bani Dugal, a representante da Comunidade Internacional Baha’i nas Nações Unidas, durante a celebração do Dia Internacional da Mulher nas Nações Unidas. Entre as presentes contavam-se Rigoberta Menchu e Wangari Maathai.

Notíca completa no BWNS e no site da ONU.

quarta-feira, 16 de março de 2005

A minha farmácia

Precisar de uma farmácia/farmacêutico para comprar medicamentos que não necessitam de receita médica, é o mesmo que precisar de uma softwarehouse/engenheiro informático para afixar uns posts num blog.

De certa forma era engraçado que isso acontecesse.

Imaginem se eu, engenheiro informático, tivesse a minha "farmácia-informática". Lá estaria eu de bata branca, atrás de um balcão, pronto a receber os pedidos de publicação de textos e imagens. Imagino alguns bloggers a aparecerem ali para aviar uns textos e umas imagens

Aparecia o Marujo com um texto de ferroada nalgum político e uma imagem de uma tipa boazuda. E eu daria o meu sábio conselho técnico: "Tenha cuidado para não afixar a imagem depois da refeição" ou "Há agora outras imagens de moças com linha de anca mais pronunciada. Não quer experimentar?"

Seguia-se o Lutz. Um texto com um poema em alemão e a playmate semanal. Olhava cuidadosamente para o material e diria: "Este poema só com receita. Traz-me depois, está bem?"

Posteriormente uma freguesa: a Ana Gomes: "Ó Sr. Engenheiro-Farmacêutico! Na semana passada coloquei um post sobre as poucas mulheres no governo e houve por aí imensa azia. Não tem aí nenhum post a sugerir o nome de algumas mulheres para o Governo?" E a minha sábia resposta: "No seu caso talvez fosse melhor um genérico. Porque é que não publica antes uma coisa genérica sobre a igualdade de direitos entre homens e mulheres?"

Surgia então o João Miranda. Trazia-me um daqueles posts defendendo argumentos liberais em vários parágrafos, numerados sequencialmente. Eu examinaia o material, e diria "Sim senhor... vamos lá a publicar isto... Já não é a primeira vez que você defende uma coisa destas, hein?... Sabe que pode sentir uma irritaçãozinha ao ler os comentários, certo?"

Por fim, lá vinha o Daniel Oliveira, trazendo o Nuno Sousa pela mão. E dizia-me: "Sabe o que é? O moço afixou um texto sobre a saúde do Papa e isso provocou convulsões. Tem alguma coisa para agitar ainda mais a situação?" E da minha sabedoria técnica viria o conselho sábio: "Bem... vamos lá a ver... você podia colocar um post ligando a Igreja Católica ao caso do Apito Dourado..." "Mas como é que eu faço isso?" perguntava o Daniel já com os olhinhos a brilhar. "É simples. Você pode sempre associar o Cónego Melo com o Sporting de Braga. A partir daí é simples insinuar que se não fosse a Concordata, o Sp. Braga estaria no meio da tabela..."

Terra da Alegria

Terra da Alegria, a edição de 4ª feira.



Les Laveuses, Daubigney - Imagem obtida no BOABOBLOG

terça-feira, 15 de março de 2005

Albert Einstein (1879-1955)


Na Rua da Judiaria, um post magnífico!

O Pinga

Depois de 20 anos a cortar o cabelo sempre no mesmo local, achei que podia variar um pouco. No último verão, aproveitei as férias para conhecer um barbeiro de aldeia. O meu sogro serviu-me de guia e levou-me ao Sr. Albino. "Este senhor é o Marco; é casado com a minha filha que tá lá para Lisboa."

Enquanto o Sr. Albino ajeitava a cadeira, reparei na pequena sala. O aparador tinha a pintura gasta em redor dos puxadores. Por cima do espelho estava um calendário do F.C. Porto e um cartaz com uma mulher mostrando seios enormes; na parede oposta um quadro com a aparição da N. Sr.ª de Fátima.

Os velhos não se viam há alguns meses; tentaram contar novidades um ao outro. Quem casou, quem morreu, como estão os filhos de cada um... Depois seguiram-se recordações de outros tempos. O vernáculo era parte indissociável da linguagem. "O seu sogro foi um grande músico, c...!", dizia-me ele para me envolver na conversa.

Quando o corte de cabelo começou, o Sr. Albino comentou para o meu sogro: "Pois é, Sr. Rodrigues! Não costumam vir aqui fidalgos...". Passou a mão pelo meu cabelo - com o mesmo jeito com que eu faço uma festa às minhas cadelas - e disse-me "Vou-lhe fazer um corte melhor do que qualquer filho da p... lá de Lisboa. E depois há de dizer-me se tenho razão ou não..." E voltou a passar-me a mão pelo cabelo e dizendo para o meu sogro: "Categoria de cabelo, ó Sr. Rodrigues!"

O Sr. Albino é conhecido como o "Pinga"; a alcunha deve-se às valente bebedeiras que apanhava quando se deslocava à casa dos seus clientes; depois do corte ofereciam-lhe uma broa e um copito; e um copito arrasta um pouco a conversa e chama outro copito. Quando chegava ao último cliente tinha dificuldade em distinguir as portas e as janelas da casa. Ao descrever esses tempos diz: "Apanhava cada p..., c...! Ainda rebentava comigo..."

Aos setenta e sete anos, o "Pinga" deixou de beber tanto; já tem poucos dentes. Não quis mais nenhuma mulher desde que enviuvou. "O meu pai deixou este ofício quando tinha 77 anos. Depois eu fiquei com isto". Aos sábados há muita rapaziada nova que faz fila à sua porta só para dar um toque no cabelo. Para ele o corte de cabelo é mais uma actividade social do que profissional; é uma maneira de saber o que se passa na terra.

A conversa entre os velhos prosseguiu animada. "Daqui a uns anos venho morar aqui para perto de si. Depois venho cá visitá-lo mais vezes..." "Para onde?" "Ao fundo da rua onde tá aquele portão verde..." (refere-se ao cemitério) "C...! Nem brinque com isso, f...!" e riem os dois.

O corte chegou ao fim e o Pinga tentou mostrar-me a excelência do mesmo com outro espelho. E aproveitou para insultar mais uma vez os barbeiros de Lisboa. Para mim os cortes parecem-me todos iguais, mas concordei com ele: "Tá óptimo!" Ainda queria cobrar-me 3 euros e 50, mas "como é para si" são apenas 3 euros; afinal eu estava ai como genro do Rodrigues. Ainda insisti que não fazia sentido dar-me um desconto. O Pinga fez uma cara séria. "Pronto, não se discute mais...". Em Lisboa costumo pagar 10 euros.

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Achei o Pinga um castiço. Genuinamente castiço. No Natal voltei a visitá-lo; e todo o episódio anterior se repetiu. Ontem soube que o Pinga morreu.

Até sempre, Sr. Albino.

segunda-feira, 14 de março de 2005

11-M.- Representantes de las 3 religiones se concentran en Valencia para recordar a las víctimas y contra la violencia

VALENCIA, 12 (EUROPA PRESS)

Un centenar de personas se concentró hoy en la Plaza de la Virgen de Valencia para recordar a las víctimas de los atentados del 11-M y mostrar su rechazo ante el terrorismo y ante cualquier forma de violencia. Al acto, convocado por el Centro Cultural Islámico de la Comunidad Valenciana (CCIV) junto con la Cátedra de las tres religiones y otras entidades, asistieron representantes de las tres confesiones (cristiana, judía y musulmana), así como miembros de la comunidad budista y bahai.

Los asistentes a la concentración, que se desarrolló sin que se registraran incidentes, portaban dos pancartas en las que se podía leer 'Unidos por la paz' y 'Juntos podremos', ambas firmadas por el CCIV. Asimismo, en el suelo descansaban tres grandes letras que formaban la palabra 'Paz', sobre las que unos niños colocaron decenas de velas que recordaban a las víctimas de los atentados del 11-M cometidos ahora hace un año.

Los participantes en el acto corearon cánticos como 'No al terrorismo, sí a la paz' y 'Viva la paz', con los que mostraron su más firme rechazo ante cualquier forma de violencia.

El acto contó con la participación de representantes de las tres religiones, que leyeron textos, interpretaron cánticos y recitaron poesías en favor de la paz. Así, la concentración comenzó con la llamada a la oración en árabe que, según comentó uno de los presentes, "también encierra una llamada a la paz".

El presidente del CCIV, Ridha El Barouni, destacó que se encontraban allí para decir "alto y claro que estamos con la Comunidad Valenciana y con la sociedad española". "Nos consideramos --añadió-- una parte de esa comunidad y denunciamos todos los actos de violencia y terrorismo".

Asimismo, el presidente del CCIV manifestó que "el Islam es un camino de paz" y que "juntos podemos llegar a nuestra meta que es la convivencia". La Cátedra de las tres religiones también se sumó a la concentración a través de un manifiesto, que fue leído por el hermano Youssef.

A continuación fue el turno para un texto de la fe Bahai, que correspondía a su fundador Baha'u''llah. Además, los miembros del coro infantil del CCIV también se sumaron al acto con sus cánticos "para decirle al mundo que viva en paz, pureza y amor, y que no desaparezca la sonrisa", tal y como decían algunos de los estribillos que corearon.

Tras los cánticos se recitaron una serie de poesías "por la paz y contra la violencia", que contenían el mismo mensaje que quisieron transmitir los representantes de la Comunidad Judía, así como el representante del Centro de Estudios para la Integración y la Formación de Inmigrantes (CEIM), que leyó una oración de San Francisco de Asís.

La concentración terminó con la lectura de un 'Manifiesto por la paz y contra los atentados terroristas del 11-M. El texto señalaba lo "afectados" que los musulmanes se han sentido por los cientos de inocentes que murieron en Madrid en los atentados terroristas del 11-M.

Asimismo, indicaba que "se ha cometido un acto incalificable y reprobable utilizando el adjetivo 'islámico', estableciendo un nexo entre el terror y el Islam, algo que ha tenido serias y negativas consecuencias para toda la comunidad musulmana".

Por todo ello, señalaba que "las entidades que convocamos esta concentración hemos querido tener un acto dedicado a la paz y a la interreligiosidad". Así, estas entidades señalaban en el manifiesto que "rechazamos categóricamente todo acto de violencia y toda actitud que incite o justifique la misma", y añadían que "el Islam es un camino de paz contrario a la violencia".

Asimismo, mostraban su solidaridad con las víctimas del 11-M, con las sus familias y con el pueblo de Madrid, y reivindicaban "la educación y la integración plena de todas las personas en la sociedad para evitar el camino de la marginación, que puede terminar en actitudes radicales o violentas".

MUSULMANES DETENIDOS

En otro orden de cosas, el presidente del CCIV respondió, en el transcurso del acto, a las preguntas que le formularon los medios de comunicación allí congregados respecto a la posible relación del centro islámico con grupos extremistas. Al respecto, señaló que "el CCIV goza de la confianza de las autoridades, así como de la subvención de la Generalitat y de la confianza de toda la Comunidad Valenciana". Asimismo, calificó de "falsa" cualquier información que relacione a radicales islámicos con el CCIV, y añadió que "no hay ningún informe policial que pueda decir esto".

Preguntado acerca de los dos musulmanes detenidos ayer tras interrumpir un acto por la paz que se celebraba en la mezquita de Xúquer en Valencia, Ridha El Barouni dijo que se trata de "gente ignorante que no entiende el mensaje del Islam", y añadió que representan "una minoría insignificante dentro de la Comunidad Musulmana".

"Todos los musulmanes que están viviendo aquí --comentó-- están rechazando rotundamente el terrorismo y la violencia, y están trabajando y esforzándose para conseguir la convivencia pacífica dentro de la Comunidad Valenciana".

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Artigo publicado no Yahoo! Noticias(Espanha), em 12 de Março de 2005
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Terra da Alegria

Terra da Alegria, a edição de 2ª feira.



Autumn Scene, Sergei Bongart - Imagem obtida no BOABOBLOG

domingo, 13 de março de 2005

O Czar Alexandre II

Há 126 anos, no dia 13 de Março, o Czar Alexandre II era assassinado. Terminava um reinado que muitos historiadores, consideram simultaneamente despótico e modernizador. Pouco conhecido a respeito de Alexandre II é o facto de ele também ter sido o destinatário de uma epístola de Bahá'u'lláh.

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Aleksandr Nikolayevich, conhecido nos livros de história como Czar Alexandre II, era o filho mais velho do Grão-Duque Nikolay Pavlovich (Nicolau I) e de Alexandra Fyodorovna. A sua infância e juventude foram vividas sob a personalidade dominante e autoritária do pai, e pelos incentivos da mãe ao seu desenvolvimento moral e intelectual. Alexandre sobiu ao trono em Fevereiro de 1855, em plena Guerra da Crimeia. A derrota russa nessa guerra provocou entre a elite militar um enorme desejo de mudança; a este desejo o novo Czar respondeu com uma série de reformas destinadas a modernizar o país e a colocá-lo entre os mais avançados do mundo.

Logo após a assinatura do tratado de paz em Paris (1865), Alexandre II lançou um programa de construção de linhas de caminho de ferro (foram construídos mais de 20.000 km durante o seu reinado); estas infra-estruturas fizeram despertar a economia numa sociedade que até então era predominantemente agrícola e feudal. Uma outra medida de modernização foi a abolição da servidão; a Acta da Emancipação publicada, de 1861, concedeu liberdade pessoal a dezenas de milhões de pessoas. Esse acto foi classificado por alguns historiadores como "a maior revolução social desde a revolução francesa". No entanto, isso só por si não permitiu o surgimento de uma nova classe de camponeses proprietários.

Foi também criado um sistema judicial comparável aos ocidentais; as reformas administrativas do estado levaram à criação de assembleias eleitas a nível local; os poderes dessas assembleias permitiram algumas melhorias no bem-estar social (educação, cuidados básicos de higiene e saúde e redução do analfabetismo). A reestruturação do exército em 1874 introduziu o recrutamento obrigatório, fazendo com que os jovens de todas as classes sociais prestassem serviço militar.

Alguns prisioneiros políticos foram libertados e foi permitido o regresso de exilados na Sibéria; foram também atenuadas as perseguições às minorias étnicas e religiosas do Império, e aboliram-se os castigos corporais. Como consequência destas tímidas reformas políticas, na Polónia surgiram manifestações nacionalistas. Mas Alexandre II não era propriamente um liberal. Continuou a reger-se por métodos autocráticos, convencido que seu poder tinha origem divina; a própria Rússia não parecia estar preparada para um governo constitucional ou representativo. Após escapar a um atentado em 1866, Alexandre II tomou medidas repressivas. Em 1877, entra em guerra com o Império Otomano (que já estava em guerra com a Sérvia); após uma série de derrotas iniciais, o exército russo acaba por triunfar e alcançar o mar de Marmara. Como consequência dessa guerra, a Bulgária separa-se do jugo Otomano e torna-se independente[1].

Em 1879, o ressurgimento do terrorismo revolucionário foca-se na pessoa do próprio Czar; Alexandre II foi alvo de vários atentados e respondeu com novas medidas ainda mais repressivas. Em 13 de Março de 1881, quando, após muitas hesitações, decidiu proclamar uma nova constituição (que conciliava algumas opiniões politicamente moderadas), foi assassinado num atentado à bomba.

Alguns historiadores descrevem Alexandre II simultaneamente como déspota e autor da modernização da Rússia no séc. XIX (apesar de nem todas as suas reformas terem sido bem sucedidas). Foi ele que abriu as portas para o declínio do imperialismo russo na Ásia: a venda do Alasca aos EUA (1867) foi "compensada" pela aquisição de territórios na China, pela fundação de Vladivostok como capital do extremo oriente (1860), pela subjugação definitiva do Cáucaso (1860’s) e pela conquista da Ásia Central (1870’s).

Os Bahá'ís e a Rússia

A Pérsia do século XIX, vivia sobre pressão britânica e russa. Já aqui referi como uma série de eventos que rodearam o surgimento da religião Babí não passou despercebido aos representantes diplomáticos russos e britânicos. Alguns crentes chegaram a refugiar-se na Rússia quando as perseguições se acentuavam na Pérsia; foi também na Rússia, na cidade de Isqabad[2], que se construiu o primeiro templo baha'i.


O Templo Bahá'í de Isqabad, na Rússia

Após o atentado ao Xá da Pérsia, iniciaram-se uma série de perseguições aos Babís. Bahá’u’lláh era um conhecido apoiante da causa do Báb. A Sua posição social (filho de um governador do antigo Xá) aumentava ainda mais os riscos que corria perante as perseguições que se avolumavam. Um dos Seus cunhados, funcionário da embaixada russa em Teerão, sugeriu-Lhe que Se refugiasse temporariamente na Rússia. Essa oferta foi reiterada pelo próprio embaixador russo que durante algum tempo tentou influenciar o governo persa a rever as suas decisões relativamente a Bahá'u'lláh.

No entanto, Bahá'u'lláh preferiu ficar em Teerão. Nos meses que se seguiram, Ele foi encarcerado na tristemente célebre Syha-Chal (em português, "o fosso escuro"). A atitude do embaixador russo foi recordada durante muito tempo, como um acto de generosidade para com o Fundador da religião baha’i.

A EPÍSTOLA DE BAHÁ'U'LLÁH

O Czar Alexandre II foi um dos foi um dos monarcas a quem Bahá'u'lláh dirigiu uma epístola. Essa missiva, em língua árabe, foi revelada durante o exílio em ‘Akká; o tom dessa epístola é semelhante de outras epístolas reveladas para outros reis e governantes do Seu tempo[3]. No texto Bahá'u'lláh anuncia abertamente a Sua condição e missão de Profeta, identifica-Se como o Pai Celestial e apela ao monarca para que aceite a nova Causa Divina.

Alguns excertos dessa epístola:

Ó Czar da Rússia! Dá ouvidos à voz de Deus, o Rei, o Santíssimo, e volve-te para o Paraíso, Lugar onde habita Aquele que, entre a Assembleia no Alto, possui os mais excelsos títulos e que, no reino da criação, é chamado pelo Nome de Deus, o Esplendoroso, o Todo-Glorioso. Acautela-te para que o teu desejo não te impeça de te volveres para a face do teu Senhor, o Compassivo, o Mais Misericordioso. Nós, em verdade, ouvimos aquilo que suplicaste ao teu Senhor enquanto comungavas secretamente com Ele. Por conseguinte, as brisas da Minha misericórdia agitaram-se e o mar da Minha mercê encapelou-se, e Nós respondemo-te, em verdade. O teu Senhor, verdadeiramente, é o Omnisciente, o Sapientíssimo. Enquanto Eu estava acorrentado e algemado na prisão, um dos teus ministros estendeu-Me o seu auxílio. Por esse motivo, Deus ordenou-te uma posição que o conhecimento de pessoa alguma pode compreender, salvo o Seu conhecimento. Guarda-te de desprezar essa posição sublime...

Acautela-te para que a tua soberania não te prive Daquele que é o Soberano Supremo. Em verdade, Ele veio com o Seu Reino, e todos os átomos clamam em voz alta: "Eis! O Senhor veio na Sua grande majestade!" Aquele que é o Pai já veio, e o Filho[4], no vale santo, exclama: "Eis-me, eis-me, ó Senhor meu Deus!" enquanto Sinai circula ao redor da Casa e a Sarça Ardente clama: "Veio o Todo-Generoso, montado sobre as nuvens! Bem-aventurado quem Dele se aproximar, e ai dos que estão afastados".[5]

Levanta-te entre os homens em nome desta Causa irresistível e convoca, então, as nações a Deus, o Excelso, o Grande. Não sejas dos que invocaram Deus por um dos Seus Nomes mas que, ao aparecer Aquele que é Objecto de todos os nomes, O negaram e Dele se afastaram, e, por fim, decretaram a Sua condenação, com injustiça manifesta. Considera e recorda os dias em que apareceu o Espírito de Deus[6], e Herodes O condenou. Deus, porém, ajudou-O com as hostes do invisível, protegeu-O com a verdade, e mandou-O para outra terra, segundo a Sua promessa. Ele, em verdade, ordena o que Lhe apraz. O teu senhor preserva, verdadeiramente, a quem Ele deseja, quer se ache no meio dos mares, na garganta da serpente ou debaixo da espada do opressor...[7]

Nunca houve resposta do Czar.

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NOTAS
[1] - A guerra Russo-Otomana é descrita por Eça de Queirós nas Cartas de Inglaterra e Crónicas de Londres. Eça manifestava um enorme desprezo político pelo Czar e pelo Sultão e não escondia a sua simpatia pelo povo russo.
[2] - A cidade de Isqabad pertence hoje ao Turquemenistão. O templo em causa foi confiscado após a revolução soviética e posteriormente destruído por um terramoto nos anos 30.
[3] - Ver Epístolas a
Napoleão III, à Rainha Vitória, ao Kaiser Guilherme I, ao Imperador Francisco José e ao Papa Pio IX.
[4] - Jesus
[5] – Note-se as imagens utilizadas por Bahá'u'lláh para mostrar que Ele é o Prometido de todas as religiões.
[6] - Jesus
[7] - O texto completo desta epístola encontra-se na Baha'i Reference Library.

sexta-feira, 11 de março de 2005

Uma piada para o Confessionário

Um dos blogs que descobri nas últimas semanas e rapidamente incluí nas minhas preferências é o Confessionário dum Padre. O lado humano do sacerdote/blogger, a sua energia, as suas alegrias e tristezas são notórias em cada post. O mais recente destes posts tinha uma piada sobre padres; nos comentários já lá estão outras. Assim, dedicado a esse padre confessor, e porque rir faz bem à saúde, aqui fica a minha contribuição:

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Lenine morreu e foi para o Inferno. Ao entrar, o diabo dava saltos de alegria por receber aquele inquilino prestigiado, e Deus lamentou que mais uma alma se tivesse perdido.

Passados 15 dias, o diabo aparece a bater à porta do Paraíso e suplica ao Criador:

- Senhor! Fica com o Lenine durante uns dias... Já não aguento mais o homem... São tantas greves, tantas manifestações, cadernos reivindicativos... ninguém cumpre horários... está tudo numa enorme confusão. O meu inferno está num verdadeiro inferno. Será que podes ficar com ele só por uns dias enquanto eu reorganizo aquilo...

E Deus, que é infinito na Sua compreensão e misericórdia, aceitou receber o Lenine por uns dias.

Passado o prazo acordado, o diabo, a contragosto, lá foi bater à porta do Paraíso para levar o Lenine de volta para o inferno. Bateu à porta e chamou:

- Deus! Deus! Sou eu. Vim buscar o Lenine...

O Criador abriu a porta e disse:

- Deus, não! A partir de agora tratas-me por "Camarada". E essa história de Deus tem muito que se lhe diga...

quinta-feira, 10 de março de 2005

Direitos Humanos na Tunísia

Um excerto do relatório do Departamento de Estado Norte-americano sobre a situação dos Direitos Humanos na Tunísia.
(...)

Christians and Jews living in the country, including foreigners, constituted less than 1 percent of the population. The Government permitted Christians and Jews, who did not proselytize, to worship as they wished, and it allowed Jewish communities to operate private religious schools. Jewish children on the island of Djerba were permitted to divide their academic day between secular public schools and private religious schools. The Government also encouraged Jewish expatriates to return for the annual pilgrimage to the historic El-Ghriba Synagogue on the island.

The Government took a wide range of security measures to protect synagogues, particularly during Jewish holidays, and Jewish community leaders said that the level of protection that the Government provided them increased during the year. Government officials and private citizens alike often cited the country's tradition of religious tolerance as one of its strengths.

While Baha'is do not consider themselves Muslims, the Government regarded the Baha'i faith as a heretical sect of Islam, and permitted its adherents to only practice their faith in private. Ministry of Interior officials periodically met with prominent citizens of the Baha'i faith to discuss their activities, and Baha'i leaders asserted that, as a result, their community's relationship with the Government improved during the year.

Muslims who converted to another religion faced social ostracism. There were reports that the Government did not allow married couples to register the birth of their children, or receive birth certificates if the mother was Christian and the father was Muslim, and if the parents tried to give their children non-Muslim names.

(...)
Notícia completa no Reveil Tunisien.

quarta-feira, 9 de março de 2005

O Papel da Religião na Sociedade: uma perspectiva bahá'í

O texto que se segue é da autoria do Varqa Jalali e foi publicado na passada segunda-feira na Terra da Alegria. "A pedido de várias famílias" decidi publicá-lo aqui também.
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Os últimos cem a cento e cinquenta anos da humanidade têm sido palco de transformações enormes na vida humana. Estruturas que eram consideradas durante gerações como factos imutáveis, como dados adquiridos, ruíram num curto espaço de tempo. Podemos ver isso em várias esferas da vida humana – o papel da mulher na sociedade; a gradual mas completa substituição da organização feudal da sociedade; a expansão e democratização da educação; ou o predomínio de valores democráticos e liberais na organização política da sociedade.

Vivemos portanto numa sociedade em mutação, e a religião não escapa a esse fenómeno. Por um lado, vemos que a religião – na acepção comum do termo – perde importância, e as taxas de participação em serviços religiosos é cada vez menor (para dados relativos a Portugal, ver por exemplo dados no Inquérito pós-eleitoral de 2002, ou bem como inquéritos anteriores). Esse padrão é igualmente perceptível nos comentários que se ouve de as religiões provocam guerras (e para isso nem precisamos de ir ao Médio Oriente, tendo vários exemplos na própria Europa), ou de desconfiança em relação à "religião organizada".

Mas por outro, parece sobressair a necessidade de uma vivência religiosa por parte das pessoas. Os dados de um recente estudo em Portugal, realizado em 1999, são particularmente elucidativos. Assim, se apenas metade dos inquiridos participava em serviços religiosos pelo menos uma vez por mês, 82% das pessoas considerava-se religiosa; 93% acreditava em Deus; para a maioria destas, Deus tinha "muita importância" nas suas vidas; e 71% afirmou que orava e meditava.

Ora, isto é interessante, na medida em que sugere que as pessoas sentem a necessidade de uma ligação com uma outra realidade que transcende a dimensão material. E talvez por isso constata-se o crescimento de novas formas de exprimir essa necessidade: vemos cada vez mais pessoas interessadas em "espiritualidade", na meditação, em fenómenos paranormais – enfim, fenómenos que até há bem pouco tempo não eram particularmente bem-vistos e limitavam-se a uma pequena minoria.

Isto é interessante, e confirma o a afirmação de um eminente historiador de que a religião é "uma faculdade da natureza humana". O que os padrões existentes sugerem é que os meios de exercer essa faculdade são insuficientes para o exercício pleno dessa faculdade. Aquilo que proponho é que isso se deve em larga medida a uma má compreensão do que é realmente a religião.

O que é então a religião? Para que serve a religião?

DEFINIÇÃO DE RELIGIÃO

Bahá'u'lláh escreve que "o propósito fundamental que anima a Fé de Deus e Sua Religião é a salvaguarda dos interesses e a promoção da unidade da raça humana...". Creio que isto clarifica muita coisa: a religião tem como objectivo salvaguardar os nossos interesses e promover a unidade da raça humana, e é um instrumento para se conseguir isto.

Sabemos que Bahá'u'lláh falou explicitamente do reconhecimento da unidade da raça humana como o objectivo central da humanidade nesta sua fase de desenvolvimento. Mas de uma forma ou de outra, todas as religiões falam da unidade da raça humana, como se confirma nas suas "regras de ouro":

- "Age como gostarias que agissem contigo." (Zoroastrianismo)
- "Tudo o que desejais que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles, pois é nisto que consistem a Lei e os Profetas" (Cristianismo)
- "Não magoeis os outros de formas que vos magoariam a vós" (Budismo)
- "Nenhum de vós é um crente, enquanto não amar o seu irmão como ama a si mesmo" (Islão)
- "Não faças ao teu companheiro aquilo que para ti é odioso: nisto se resume toda a Lei; o resto é um seu comentário" (Judaísmo)
- "O dever mais elevado consiste em não fazermos aos outros o que nos causaria sofrimento se nos fosse feito a nós" (Hinduísmo)
- "Bem-aventurado quem prefere seu irmão antes de si próprio" (Fé Baha'i)

Ora, nenhuma destas "regras de ouro", destas regras de comportamento, tem um asterisco ou nota de rodapé a dizer que não se aplica a pessoas do tipo x ou y. Elas são, verdadeiramente, universais, e como tal reafirma este conceito de unidade – ao qual subjacente está um conceito de igualdade – do género humano.

HISTÓRIA

De igual modo, historicamente vemos que as religiões têm de facto servido para o avanço da humanidade. As grandes civilizações surgiram de ímpetos e novas revelações divinas: não precisamos mais do que considerar o avanço da comunidade judaica após o aparecimento de Moisés, tendo sido capaz de escapar ao jugo opressivo dos egípcios; ou o impacto de um jovem aparentemente destituído de poder terreno, como Jesus, mas que na realidade era movido por um poder divino.

Contudo, quando falamos da história das religiões, existe de facto a percepção de que a religião é também uma causa de conflitos. Em relação a isto, vejamos as seguintes palavras de ‘Abdu’l-Bahá:

"A religião deve unir todos os corações e fazer com que as guerras e disputas desapareçam da face da terra, dar origem à espiritualidade e trazer vida e luz a cada coração. Se a religião torna-se causa de aversão, ódio e divisão, melhor seria deixá-la, e tirar-se de tal religião constituiria ato verdadeiramente religioso. Pois é claro que o propósito de um remédio é curar; mas se o remédio agrava a doença, é melhor deixá-lo de lado. Qualquer religião que não seja fonte do amor e da unidade, não é verdadeira religião. Todos os santos profetas foram como médicos para a alma; deram prescrições para a cura da humanidade; assim qualquer remédio que cause doença não provém do grande e supremo Médico."

Esta citação é extraordinariamente clara e directa, deixando um padrão muito claro de avaliação da religião. A religião é de facto um instrumento extremamente poderoso, porque vai de encontro ao que de mais profundo e eterno que nós temos – a nossa dimensão humana, espiritual, a alma – como quisermos chamá-lo. Como tal, pode ser explorada para criar ódio onde deveria haver amor, desunião onde deveria reinar a unidade.

É neste sentido que a explicação de Bahá'u'lláh sobre a revelação de Deus se torna tão coerente. A religião não é uma coisa estática, tendo que ser renovada, para que a força da superstição e ignorância sejam combatidas. E só o poder de Deus pode realmente renovar este instrumento tão poderoso. Aliás, essa dimensão confirma-se no facto de todos os Manifestantes de Deus anunciarem a vinda de outro Manifestante de Deus. Nenhum deles disse "Meus amigos, a revelação de Deus acaba aqui". Nem seria tal plausível quando todos Eles são movidos a reconhecer a sua incapacidade perante a imensidão e infinidade Divina.

Este é, alias, este um dos conceitos centrais da Fé, perceptível na afirmação de Bahá'u'lláh no Livro Mais Sagrado de que "Esta é a Fé imutável de Deus, eterna no passado, eterna no futuro."

A RELIGIÃO À LA CARTE E A VERDADEIRA LIBERDADE

Hoje em dia os sociólogos falam do fenómeno da religião à la carte. O que é então este fenómeno? Basicamente, que a religião torna-se mais uma escolha pessoal, moldável aos interesses do indivíduo. Tal como num restaurante, as pessoas escolhem se querem comer carne ou peixe, se querem acompanhar o prato com batatas ou arroz, as pessoas “escolhem” de entre as diferentes religiões o que mais gostam, e criam a sua própria religião.

Ora, se isto é apelativo – especialmente dentro do modelo de sociedade de consumo em que vivemos, onde o poder de escolha é tão importante (e atenção, que enquanto consumidor gosto de ter escolha) – não deixa de ser interessante notar também que vai inteiramente contra um dos princípios centrais de todas as grande religiões – de que a verdade espiritual é imutável e não-relativa. Isto é perceptível, a título de exemplo, no que Cristo disse quando afirmou "Eu sou o caminho, a verdade e a luz"; e afirmações semelhantes podem ser encontradas nas escrituras de outros Manifestantes de Deus também.

Estas frases servem amiúde como a justificação de posições dogmáticas, senão mesmo fanáticas. Mas o que elas reflectem, a meu ver, é a noção de que existe um padrão, que existe uma verdade absoluta, de que Eles são transmissores. Até porque a visão fanática não faz muito sentido no contexto do resto do que os Mensageiros disseram, e até do seu contexto histórico. Todos os Manifestantes sucederam um outro Manifestante, todos Eles afirmaram a sua crença nesse Manifestante; e todos eles anunciaram a continuidade, de uma forma ou outra, da revelação divina à humanidade.

Ao mesmo tempo, vale a pena explorar até que ponto é que o conceito de religião à la carte é realmente sinónimo de liberdade. Numa das suas Epístolas, Bahá'u'lláh afirma que:

"A verdadeira liberdade consiste na submissão do homem aos mandamentos. Observassem os homens o que Nós lhes enviamos do Céu da Revelação, eles, com toda certeza, atingiriam a liberdade perfeita. Feliz quem apreende o Desígnio de Deus em tudo o que Ele revelou do Céu de Sua Vontade. A liberdade que vos é proveitosa só se encontra em completa servitude a Deus, a Verdade Eterna. Quem experimentar a sua doçura recusará trocá-la por todo o domínio da terra e do céu."

É evidente nesta citação que Bahá'u'lláh dissocia a liberdade da nossa alma da liberdade de escolha de princípios. Dito isto, vale a pena salientar a centralidade da liberdade na Mensagem de Bahá'u'lláh, confirmada por exemplo no conceito absolutamente central da livre e independente busca da verdade, ou a clara proibição de Bahá'u'lláh ao proselitismo (ou até mesmo a ausência de clero, mas isso fica para outra altura).

NOTAS DE VIOLINO

Em 2003 esteve em Portugal um dos mais conceituados violinistas europeus, Bijan Khadem-Missagh, e ele deu um exemplo que eu achei fabuloso. Como sabem, os sons que ouvimos são provocados por vibrações. Num violino, como numa guitarra, é a vibração da corda que produz o som, a nota. Mas de igual modo, nem todas os sons produzidos são iguais: as vibrações podem ser mais ou menos puras, que é o que nós conhecemos pela nota estar mais ou menos afinada.

O exemplo que ele deixou é este: os seres humanos são como as notas. E a humanidade tornar-se-á bela quando essas notas estiverem integradas e a trabalharem juntas, como as notas numa sinfonia, que estão em acordo umas com as outras. Não é sempre a mesma nota, algumas duram mais, outras são mais curtas, mas todas elas são essenciais para que sinfonia seja sublime.

Mas para que isso aconteça, é também necessário que as notas sejam afinadas, que as vibrações sonoras sejam puras. Por outras palavras, é necessário que nós nos tornemos cada vez mais puros, de modo a que a nossa nota soe melhor ao lado das outras; e quanto mais afinados estivermos, melhor iremos poder nos integrar com as outras notas.

Eu acrescentaria a este exemplo o seguinte: a religião, a mensagem que os Manifestantes de Deus trazem à humanidade, é como que o diapasão que nos permite afinar as nossas notas. É no fundo algo de bem mais simples do que muitas vezes pensamos; mas algo que tem que ser posto em prática durante toda a vida.

CONCLUSÃO

Queria acabar por partilhar uma frase de Bahá'u'lláh que acho absolutamente incrível:

"Queríamos esperar que o povo de Bahá seja guiado pelas benditas palavras: «Dize: todas as coisas são de Deus». Esta excelsa afirmação é como água para extinguir o fogo do ódio e da inimizade latente dentro dos corações e peitos dos homens. Por esta afirmação, simplesmente, povos e raças em conflito atingirão a luz da verdadeira unidade. Ele, deveras, diz a verdade e mostra o caminho."

Voltamos então ao verdadeiro propósito da religião. A religião serve-nos para lembrar que todas as coisas são de Deus, e portanto a nossa relação com todas as coisas – desde as outras pessoas ao meio ambiente, passando até pelo nosso trabalho – deve ser como a nossa relação com Deus – devemos ver (e procurar ver) o divino que há em todas as coisas.

(Varqa Jalali)

Terra da Alegria

Terra da Alegria, a edição de 4ª feira.


terça-feira, 8 de março de 2005

Munirih Khanum

No dia 8 de Março de 1873 realizou-se o casamento de 'Abdu'l-Bahá com Munirih Khanum. Para assinalar essa efeméride que hoje se assinala, aqui fica um breve apontamento biográfico sobre a esposa de 'Abdu'l-Bahá.

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Na Pérsia do séc. XIX era normais os casamentos arranjados entre as famílias – especialmente entre a nobreza persa; a maioria destes casamentos eram acordados entre as famílias e os noivos (ainda crianças) nada podiam objectar às decisões dos progenitores. Quando 'Abdu'l-Bahá era criança, em Teerão, a família escolheu uma para Sua noiva, Shahr-banu. Era filha de um meio-irmão mais velho de Bahá'u'lláh. Após o exílio de Bahá'u'lláh e família para o Iraque, Shahr-banu continuou a viver em Mazindaran (junto ao mar Cáspio).

Em 1868, Bahá'u'lláh deu instruções a um dos seus tios para que levasse Shahr-banu para Teerão e aí se tratassem de todos os requisitos para a sua viagem até Adrianópolis. Uma das meio-irmãs de Bahá'u'lláh, que Lhe tinha grande inimizade, ao saber deste pedido, levou Shahr-banu para sua casa em Teerão e obrigou-a a casar com o filho do primeiro-ministro[1]. Esta situação deixou Shahr-banu profundamente abalada e deprimida; algum tempo mais tarde acabaria por morrer devido a uma tuberculose.

Conta-se que, pouco depois deste acontecimento, Bahá'u'lláh terá tido um sonho que descreveu a alguns crentes: "Sonhei que a face de uma linda moça que vive em Teerão e cuja mão foi pedida por Mirza Hasan para o Mais Grandioso Ramo[2], se tornou escura. E ao mesmo tempo apareceu a face de outra moça, cujo semblante era luminoso e cujo coração radiante. Escolhemo-la para esposa do Mais Grandioso Ramo".[3]

Fatimih Khanum nasceu numa das mais conhecidas famílias de Isfahan. O pai era descendente do Profeta Maomé; a mãe era filha de comerciantes abastados daquela cidade. Desde a sua infância, Fatimih Khanum viu-se envolvida em alguns dos principais eventos da história babi e baha'i. O seu pai, Mirza Muhammad-'Ali, tornara-se babi pouco depois da declaração do Báb, e conheceu-O pessoalmente em Isfahan; foi também um dos participantes na conferência de Badasht. Fatimih cresceu neste período em que a comunidade Babi se transformava em comunidade Baha'i. Isfahan tinha uma importante comunidade e a sua família era, em muitos aspectos, o pivot dessa comunidade.

Fatimih Kahnum, mais conhecida por Munirih Khanum,
a esposa de 'Abdu'l-Bahá (1880)

Em 1872, chegou a Isfahan um mensageiro de 'Akká. Dirigiu-se à casa onde morava a família de Fatimih Khanum e disse-lhes: "Trago-vos novidades maravilhosas. Estou encarregado de levar a filha do falecido Mirzá Muhammad 'Ali para a Terra Santa; faremos o caminho dos peregrinos que seguem para Meca. Deveis fazer os preparativos para deixar Isfahan no momento da Hajj, e viajaremos por Shiraz e Bushir. Os preparativos da viagem devem ser feitos discretamente de forma a que ninguém saiba da vossa viagem a não ser alguns dias antes da partida." Na data combinada, Fatimih Khanum, o seu irmão, o mensageiro e um criado partiram em direcção a Shiraz.

Nessa cidade foram recebidos por familiares do Báb. Seguidamente, e sempre acompanhando os peregrinos que iam para Meca, seguiram para Bushir, de onde iniciaram uma viagem por mar durante 18 dias, até Jeddah. Foram a Meca, onde cumpriram os rituais da peregrinação, e no regresso a Jeddah receberam uma mensagem que os aconselhava a ficar naquela cidade até que todos os peregrinos partissem; só depois deveriam seguir para Alexandria, onde deviam aguardar até receber novas instruções. Nessa cidade do Egipto, enquanto aguardavam, conheceram os baha’is locais; todos estavam céptícos sobre a possibilidade daqueles quatro viajantes conseguirem entrar na cidade de 'Akká. Por fim, surgiram instruções que diziam que deviam apanhar um vapor austríaco até 'Akká.

O desembarque nessa cidade também teve os seus percalços, com vários desencontros e sempre sob receio de serem reconhecidos pelas autoridades otomanas. É importante ter presente que se viviam os anos de isolamento quase total da pequena comunidade de exilados em 'Akká. Ninguém conseguia entrar naquela cidade (as autoridades otomanas tinham dado instruções especiais aos guardas para impedir a entrada de viajantes persas na cidadela).

Nos meses seguintes em 'Akká, a possibilidade de contacto directo com Bahá'u'lláh e Sua família dava-lhes uma enorme alegria. Nas suas memórias, Fatimih Khanum descreve que umas das primeiras coisas que Bahá'u'lláh lhes disse quando os recebeu foi: "Trouxemo-vos à Prisão, num momento em que as portas do encontro estão fechadas para todos os crentes. Isto por nenhum outro motivo senão o de mostrar o Poder e Força de Deus".[5]

Os preparativos para o casamento foram decorrendo durante os meses seguintes. Foi também durante esse tempo que Fatimih, à semelhança de outros crentes, recebeu um título: Munirih (Iluminada).

Da cerimónia de casamento pouco se encontra nos relatos da época. Apenas sabemos que a irmã de 'Abdu'l-Bahá ofereceu a Munirih um vestido branco, e três horas após o pôr do sol, Munirih entrou na casa da família de Bahá'u'lláh, onde foi calorosamente acolhida.

A partir desse momento Munirih passou a ser uma testemunha directa dos principais eventos da história bahá'í, até 1938, ano do seu falecimento. 'Abdu'l-Bahá e Munirih Khanum estiveram casados durante 48 anos e tiveram vários filhos, dos quais apenas sobreviveram quatro meninas. Ao longo da sua vida conseguiu financiar e encorajar a criação de escolas para raparigas na Pérsia.

Túmulo de Munirih Khanum, nos jardins bahá'ís , em Haifa.
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NOTAS
[1] - Episódio descrito na Epístola ao Filho do Lobo.
[2] - Mais Grandioso Ramo é um titulo pelo qual também é conhecido 'Abdu'l-Bahá. Nas Suas escrituras, Bahá'u'lláh costuma designar os Seus descendentes masculinos por "Ramos" e os descendentes femininos por "Folhas".
[3] - Munirih Khanum: Memoirs and Letters, pag.25
[4] - Baha'u'llah - The King of Glory, H.M. Balyuzi, , p. 346
[5] - Munirih Khanum: Memoirs and Letters, pag. 44

sexta-feira, 4 de março de 2005

Jejum: estou a tentar...

Estes dias do jejum dão-nos sempre a oportunidade de ser olhados como um "bicho estranho". Na verdade, para quem tem sempre bolachas e chocolates junto à mesa de trabalho, o facto de se fazer jejum dá um pouco nas vistas. Depois são as perguntas e comentários do costume: "Mas não tens fome?", "Porque é que fazes Jejum?", "Como é que consegues?" e também "Ainda cais para o lado!".

Creio que todas as religiões têm leis ou mandamentos sobre o jejum. As mais conhecidas devem ser o Ramadão (30 dias) e o Yom Kippur (aproximadamente 25 horas). No Cristianismo, apesar de não existirem leis prescritas delimitando o jejum, existe o relato do jejum de Jesus (durante 40 dias, antes de iniciar a Sua Missão); mas sabemos que existem dias de jejum e abstinência durante a quaresma.

O jejum baha'i consiste em abstinência de alimentos sólidos e líquidos, entre o nascer e o pôr do sol, durante 19 dias. Em termos práticos representa uma mudança de hábitos: almoço mais cedo e não como nem bebo nada durante o dia. Mas o jejum é mais do que esta mudança de hábitos alimentares: trata-se de um período de preparação espiritual para o novo ano (que se inicia a 21 de Março). De certa forma, o jejum é um acto de desprendimento e abstinência dos apetites do ego.

Nesta atitude espiritual subjacente ao jejum, está implícita a abstinência de comentários desagradáveis sobre qualquer outro ser humano. E aqui é que eu tenho dificuldade. Aliás, acho que qualquer pessoa tem essa dificuldade. O insulto, a provocação e o bota-abaixo quase fazem parte da nossa cultura. No nosso dia a dia, nas relações pessoais, nos contactos profissionais, e até numa simples consulta a um blog, encontramo-nos quase inconscientemente a proferir comentários desses.

Por este motivo, em vez de dizer que estou a fazer seja mais correcto dizer que estou "a tentar fazer jejum".

Agradecimentos

A propósito do aniversário deste blog, aqui ficam os agradecimentos a:
José Flávio (a tua escrita faz falta, sabias?),
Nuno Guerreiro,
Lutz,
Marujo,
Zé Filipe,
Leonel Vicente,
Fernando Macedo,
José,
Filinto,
DAD,
Afonso Cruz,
Eclético
Blasfémias
João Tunes
Filipe Alves

(em actualização)

quinta-feira, 3 de março de 2005

António Silva

Passam hoje 34 anos que este Senhor do cinema português nos deixou.
Continuamos à espera que surja outro igual.

Um ano

E assim se passou um ano.
Obrigado a todos os que têm paciência de ler o que aqui escrevo.
Vou continuar a bloggar enquanto tiver tempo, paciência e inspiração.

quarta-feira, 2 de março de 2005

A saúde do Papa

Nos últimos dias um post de um Nuno Sousa, no Barnabé, sobre a saúde débil do Papa provocou acesa polémica. Na verdade, foi muito infeliz nas palavras que escolheu; e posteriormente defendeu-se, acrescentando que se tratava de uma piada. Confesso que não sinto simpatia nenhuma por estas formas de anti-catolicismo primário. Na sua vertente mais básica parecem seguir a máxima : "Se alguém contar uma piada a respeito da saúde do Papa, isso é comédia; mas se algum católico contar um piada a respeito de um não-católico, isso será intolerância".

Quem já assistiu ao lento definhar da vida humana, quem já viu amigos ou familiares envelhecidos e afectados por uma senilidade crescente, sabe que este é um momento intenso no ocaso das nossas vidas. É um momento em que mais do que nunca, o ser humano necessita de todo o carinho, de toda a compreensão dos seus semelhantes. Só mesmo quem tem muita falta de bom senso pode pensar que este é um pretexto para qualquer tipo de ataque, ou mesmo para fazer uma piada.

Todos os sistemas de ideias, sejam políticos, religiosos ou outros, podem (e devem!) ser debatidos e questionados. A história dos actos praticados pelos adeptos de todos as religiões e de todas as ideologias políticas apresentam episódios profundamente condenáveis. Mas poderá a condenação desses actos ou o debate de ideias justificar a falta de respeito pela dignidade humana?

Terra da Alegria

Terra da Alegria, a edição de 4ª feira.


terça-feira, 1 de março de 2005

Blasfémias

Passou um ano em que os Blasfemos se conseguiram impor. É obra! Criaram um blog de referência na blogosfera lusa. E como qualquer blog de referência, arrecadaram admiradores e adversários. O Blasfémias completa hoje um ano. Foi um dos primeiros blogues que descobri e rapidamente o coloquei na minha lista de preferências. Faz parte da minha lista de visitas diárias. Espero que continuem o vosso trabalho e melhorem sempre. Parabéns, blasfemos!

Turquemenistão

Segundo o Forum18, no Turquemenistão, as comunidades religiosas (Adventistas do Sétimo Dia, alguns Baptistas, Baha'is, Hare Krishna e Muçulmanos) que conseguiram obter o reconhecimento legal conseguiram alguma liberdade para a realização de serviços religiosos; no entanto, ainda sentem muitas limitações no que toca à realização de serviços religiosos fora de locais aprovados e produção (ou importação) de literatura religiosa. Sobre esta situação, um dirigente de uma comunidade religiosa não legalizada questionava: "Para que serve a legalização? Mesmo obtendo o reconhecimento legal, existem muitas coisas que não se podem fazer".

Entre os entraves colocados às comunidades religiosas legalizadas, conta-se ainda a proibição de abrir contas bancárias e de receber fundos do estrangeiro. A isto junta-se a imposição do culto da personalidade do presidente Niyazov. Até mesmo a segunda comunidade religiosa do país, a igreja ortodoxa russa, não pode importar livros, jornais, ícones ou qualquer item religioso. Um crente confirmou que há mais de dois anos que não tem acesso a qualquer novo livro ou revista.

O presidente Niyazov terá afirmado a funcionários do Ministério da Justiça que apenas as comunidades religiosas que cooperarem com a Polícia Secreta poderão obter a legalização. E assim prossegue a perseguição a comunidades não legalizadas, nomeadamente às Testemunhas de Jeová.

Recorde-se que as restrições ao processo de legalização das comunidades religiosas apenas foram aliviadas na primavera de 2004, após intensa pressão internacional. Na altura a lei foi alterada, tendo exigido que todas as comunidades religiosas já legalizadas (Muçulmanos e Ortodoxos), se sujeitassem a este processo e permitindo que outras pequenas comunidades religiosas se registassem (Baptistas, Adventistas, Baha'is e Hare Krishna)

Notícia completa no Forum18: TURKMENISTAN: What's the point of registering?