terça-feira, 31 de maio de 2005

As diferenças entre as Religiões

Afirmar que, se Deus é único então a religião também é apenas uma (com as suas diversas expressões humanas e culturais) é algo que suscita várias objecções. A maioria destas sustenta que as leis e ensinamentos reveladas em cada religião são tão diferentes entre si que dificilmente se poderia conceber alguma espécie de reconciliação. Trata-se de um argumento compreensível se pensarmos na confusão que por vezes se cria em torno do significado da palavra "religião".

As diferenças apontadas surgem tanto em aspectos doutrinários, como em aspectos sociais. Começando por estes últimos, podemos perceber que as leis religiosas que abordam aspectos práticos das sociedades se referem a temas como higiene, vestuário, medicina, alimentação e actividades laborais e económicas. As leis que abordam estes aspectos devem sempre ser consideradas em função das envolventes culturais em que surgiram as diferentes religiões. Actualmente muitas destas expressões culturais e religiosas estão num considerável estado de fluidez devido às pressões resultantes da integração planetária. Para um observador atento e equidistante, não faz sentido considerar as práticas ou rituais como o propósito essencial da religião; isso seria confundir os aspectos eternos com os aspectos efémeros de uma religião.

Quanto às diferenças doutrinárias são, na verdade, diferenças entre modelos teológicos. Tratam-se de interpretações dos textos sagrados que - na ausência de uma autoridade institucional inquestionável - reivindicam um controlo exclusivo sobre a interpretação da Vontade Divina. Os efeitos práticos da maioria destes modelos de interpretação resultam no desencorajar da actividade intelectual, no focar de atenção em rituais minuciosos e no estimular do preconceito religioso contra os que não seguem o mesmo caminho dos auto-proclamados lideres religiosos. Independentemente do valor dos ensinamentos originais que lhe estão subjacentes, conceitos como ressurreição física, paraíso para satisfação de prazeres carnais e fantásticas reencarnações panteístas constituem hoje barreiras que provocam tensões e conflitos num tempo em que a terra se tornou um só país e os seres humanos devem tornar-se os seus cidadãos.

domingo, 29 de maio de 2005

Falecimento de Bahá'u'lláh



Às primeiras horas do dia hoje, os Baha’is, em todo o mundo, recordaram o Falecimento de Bahá'u'lláh. O fundador da Religião Baha’i faleceu na Terra Santa em 1892, na sua casa de Bahji. O Seu Santuário é hoje considerado pelos Baha'is como o local mais sagrado do planeta. As celebrações incluíram leituras de orações e das escrituras Baha'is.

ACTUALIZAÇÃO

Ver aqui uma pequena apresentação (em Flash) feita pelos Baha'is de Nova Iorque a propósto deste dia.


sábado, 28 de maio de 2005

Laventie, na retaguarda das linhas portuguesas

Em Fevereiro de 1917, o meu avô desembarcou em França integrando o primeiro contingente de tropas portuguesas que constituiriam o CEP. Fiel aos seus hábitos continuou a coleccionar postais de várias localidades por onde passava. Hoje no Antigamente..., publico uma primeira colecção de postais europeus: a vila de Laventie, situada na retaguarda das linhas portuguesas.


sexta-feira, 27 de maio de 2005

Linux ou Windows?

Ouvi na passada 4ª feira, Jerónimo de Sousa questionar o nosso Primeiro-Ministro sobre vários aspectos das medidas tomadas para conter o défice das finanças públicas. Entre as muitas coisas, perguntou "Quanto paga o Estado à Microsoft?" Apesar de não ter simpatia pelos comunistas, gostei de ouvir aquela questão colocada ao Governo. Eu próprio também já aqui questionei quanto é que o Estado Português gasta em licenças de Windows e Office.

A opção pelo Linux, em detrimento do Windows, permitiria várias coisas:
  • Redução dos custos de aquisição de software;
  • Redução dos custos de manutenção de software;
  • Várias empresas poderia orientar os seus serviços para esta área (criando uma concorrência sempre saudável ao mercado e quebrando-se o monopólio);
  • Algum alívio no mercado de trabalho da informática (surgiria maior procura por técnicos de Linux).
Por outras palavras, reduzia-se a despesa pública e dava-se um pequeno impulso ao famigerado "choque tecnológico".

A ler: LINUX vs. WINDOWS, A comparison of Linux and Windows de Michael Horowitz.

Dizzy Gillespie

A propósito de uma biografia de Dizzy Gillespie recentemente publicada: Biography is a testament to Dizzy Gillespie's greatness. (texto também disponível aqui)

quarta-feira, 25 de maio de 2005

Liberdade de Expressão

A propósito de um post do Ricardo Alves sobre a "Liberdade de Expressão e Blasfémia" aqui fica uma pequena reflexão.
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Felizmente já passou em Portugal o tempo em que “não se discutia Deus, a Pátria e a Família”. Hoje, na nossa sociedade estamos habituados a debater e a questionar tudo e mais alguma coisa. Há quem considere isto uma crise social, uma época de transição ou uma evolução normal no processo de amadurecimento social.

Não deixa de ser curioso é a forma como hoje invocamos a liberdade de expressão, sem nos apercebermos como ela pode ser um pau de dois bicos. Veja-se a seguinte situação: se eu disser cobras e lagartos de uma religião diferente da minha, isso é liberdade de expressão; se alguém disser cobras e lagartos da minha religião (ou crença religiosa) isso é blasfémia? Manifestação de intolerância e preconceito religioso? Ou será apenas exercício da mesma liberdade de expressão?

Esta dualidade de critérios com que se invoca a liberdade de expressão pode ser ainda aplicada nas outras áreas: se alguém critica a homossexualidade isso é liberdade de expressão ou uma manifestação de homofobia? Se alguém contar uma piada sobre outro povo, isso é liberdade de expressão ou uma manifestação de etnocentrismo? Se alguém critica uma obra de um qualquer artista isso é liberdade de expressão ou uma evidência de analfabetismo cultural?

E as questões não se ficam por aqui: até que ponto um cidadão comum e um cidadão conhecido (alguém com responsabilidade ou visibilidade numa organização política, social ou religiosa) podem estar em pé de igualdade ao usufruir da liberdade de expressão? Não poderá a responsabilidade social do segundo ser um condicionante da sua liberdade de expressão?

Acima de o uso da liberdade de expressão deve ser feito com bom senso; e naturalmente, sem que sob pretexto dessa liberdade se enverede por caminhos de violência verbal. Podemos questionar tudo, mas não há necessidade de ofender ninguém.

Terra da Alegria

Terra da Alegria, a edição de 4ª feira.



Bird Sanctuary - Imagem obtida no BOAB ART GALLERY

terça-feira, 24 de maio de 2005

Epístola de Maqsúd (5)

O quinto (e último) post sobre a Epístola de Maqsud. Entre parentesis rectos indicam-se os números dos parágrafos. O primeiro parágrafo começa com as palavras "Ele é Deus, excelso é Ele, o Senhor de Majestade e poder".
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REVELAÇÃO E A RELIGIÃO

Na epístola de Maqsúd, além de resumir alguns conceitos teológicos já abordados noutras epístolas, Bahá'u'lláh aponta também o papel da religião na resolução dos problemas dos povos.

O segundo parágrafo da Epístola a Maqsúd contém um resumo daquilo que na terminologia baha'i se designa por "revelação progressiva". De acordo com este conceito, Deus envia ciclicamente Mensageiros Divinos à humanidade. Esses Mensageiros - os fundadores das grandes religiões mundiais - trazem ensinamentos cujo objectivo é guiar e esclarecer os povos. E sempre que apareceu algum Mensageiro divino, Ele foi perseguido e acusado de ser instigador da miséria e aflição entre os povos (a).

A epístola de Maqsúd descreve o Verbo de Deus como a força mais poderosa entre a criação: “...a sua influência penetrante é incalculável. Sempre dominou e para sempre continuará a dominar o reino da existência[32]. Apesar de Bahá'u'lláh não Se alargar muito sobre este assunto nesta epístola, ainda assim utiliza metáforas interessantes que descrevem o poder do Verbo Divino: “...um oceano cujas riquezas são inesgotáveis[32]...chave mestra para o mundo inteiro[32].

Para descrever o papel da religião na transformação do mundo, a Epístola de Maqsúd mostra-nos quais devem ser os objectivos da religião e quais as suas potencialidades. Assim, segundo o fundador da religião Bahá’í, o propósito da religião é a “salvaguarda dos interesses, a promoção da unidade do género humano e nutrir entre os homens o espírito de amor e amizade. Não permitimos que se torne fonte de dissensão, discórdia ou inimizade[15]. Bahá'u'lláh acrescenta uma breve referência aos dirigentes religiosos, os quais devem consultar com os governantes sobre o que melhor sirva os interesse da humanidade; os dirigentes religiosos também têm o seu papel a desempenhar na reabilitação da condição humana.

Na mitigação das tribulações que afectam a humanidade, a religião tem um papel que não pode ser ignorado. Segundo Bahá'u'lláh, a chave para a resolução dos problemas humanos está contida nas escrituras. Para referir este aspecto, utiliza a metáfora “frutos da árvore da sabedoria[27] para se referir aos ensinamentos de Deus contidos nas escrituras, e acrescenta que os povos do mundo parecem incapazes de apreciar o paladar desses frutos devido à “febre da negligência e da insensatez[33] (b).

Segundo Bahá'u'lláh, a origem de muitos dos problemas da humanidade parece estar na incapacidade dos seres humanos para por verdadeiramente em prática os ensinamentos de qualquer religião. Quando uma pessoa põe em prática os ensinamentos de uma religião, ela transforma-se e afecta de forma positiva todos os que a rodeiam; a mera transformação política e social também defendida nesta epístola, só por si não surtirá grandes efeitos. É necessária também uma transformação ao nível individual. Como alguém escreveu, não é possível fazer uma sociedade de ouro com pessoas de chumbo.

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NOTAS
(a) - Este tema já tinha sido largamente abordado no Kitáb-i-Íqán.
(b) – Sobre este assunto, Bahá'u'lláh escreveu também : "A religião é o maior de todos os meios para o estabelecimento de ordem no mundo e para o contentamento pacífico de todos os que aí habitam. O enfraquecimento dos pilares da religião fortaleceu as mãos dos ignorantes e tornou-os ousados e arrogantes." E noutra epístola : "A religião é uma luz radiante e uma fortaleza inexpugnável para a protecção e bem-estar dos povos do mundo, pois o temos a Deus impele o homem a segurar-se firmemente àquilo que é bom e a repelir todo o mal. Se a lâmpada for obscurecida, caos e confusão reinarão, e as luzes da equidade, da justiça, da tranquilidade e da paz deixarão de brilhar. " [Bahá'u'lláh citado em World Order of Bahá'u'lláh, 186-187]

segunda-feira, 23 de maio de 2005

Feriado!



Hoje é feriado Baha'i. Comemoramos o dia em que o Báb declarou a sua missão ao seu primeiro discípulo. Foi na Pérsia, na cidade de Shiraz, que em 1844, na noite de 22 para 23 de Maio se viveu o primeiro acto das religiões Babi e Baha'i.


ACTUALIZAÇÃO

Ver aqui uma pequena apresentação (em Flash) feita pelos Baha'is de Nova Iorque a propósto deste dia.

Sete Mártires de Yazd: o testemunho holandês

Em 1891, enquanto na legação britânica se acompanhava com alguma preocupação os motins contra os babís em várias cidades da Pérsia, o encarregados de negócios daquela missão diplomática recebeu de um diplomata holandês, um relato de um comerciante holandês que testemunhara os eventos em Yazd:
Na passada segunda-feira, dia 18 de Maio, 7 Babis foram executados de forma inesperada. Um foi enforcado na presença do Príncipe e seis outros foram mortos em diferentes bairros da cidade. É a primeira vez que os babis são mortos aqui e a sua execução provocou algum tumulto. Os corpos foram sepultados pela multidão sob um monte de pedras. O Príncipe deu ordens para que nas noites de segunda e terça-feira os bazares estivessem iluminados e ele próprio apareceria ao final da tarde de terça-feira. Na terça-feira de manhã ele deu ordens para que as iluminações não fossem retiradas e que todos os que dissessem alguma coisa sobre os Babis teriam a língua cortada. Desde a passada terça-feira que as perseguições têm prosseguido. O sacerdote dos Babis, o Mollah Ibrahim foi preso e escoltado esta manhã de Taft até Yazd ao som de música. Um comerciante de seda de Yazd e quatro homens dos arredores também foram detidos. Creio que estas seis pessoas serão mortas nesta semana. A maioria dos comerciantes aqui são Babis e a maior parte deles encontra-se em perigo; especialmente Haji Mirza Md. Taki, Shirazi e o seu filho Haji Mirza Md, Haji Seyed Mirza, Shirazi, Haji Md Ibrahim, Haji Md. Jadegh, Afsahdi. Diz-se que o Príncipe já há algum tempo tinha dado ordens para que eles obtivessem passaportes assinados pelos primeiros Mollahs. A situação é muito crítica e há medo que havendo mais ocorrências sérias os negócios fiquem parados.

Os Mollahs que provocaram as execuções e perseguições são Shaikh Hassan e seu filho Shakh Taqi, Mirza Seyed Ali, Mollah Hassan e Mollah Husein. Os nomes das pessoas mortas são:
1. Mollah Mehti (de Getki)
2. Mollah Ali (de Sabsevar)
3. Ashghar (de Yazd)
4. Muhammad Baker (de Yazd)
5. Ashghar (de Yazd)
6. Hassan (de Yazd)
7. Ali (de Yazd)
todos excepto o nº 5 são casados e têm filhos. As suas propriedades foram confiscadas e os Babis neste momento têm muito medo de os ajudar. As mulheres e os filhos das vítimas foram insultados pela multidão. Os Mollahs que têm grande influência sobre o Príncipe são Shakh Hassan e o seu filho Shakh Takki. Enviaram a várias pessoas conhecidas como Babis, ameaças de denúncia caso não recebessem quantias de 25, 50 ou 100 tomans. Os Babis morreram como verdadeiros mártires, sem medo e dizendo apenas bem da sua religião. O Príncipe queria apenas que eles falassem contra a religião babi; sete recusaram; dois homens, porém, filhos do Mollah Mehti, fizeram-no e foram libertados[1].

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NOTA
[1]- Citado em The Bábi and Bahá'í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, pag 302-303

sábado, 21 de maio de 2005

Sete Mártires de Yazd: o testemunho inglês

Os acontecimentos de Yazd em 1891 foram o pico da última grande perseguição aos baha'is no tempo em que Bahá'u'lláh era vivo. Outras perseguições com semelhante grau de brutalidade repetir-se-iam em 1903. O Capitão HenryVaughan, oficial britânico do do 7º Regimento de Infantaria de Bengala, passou por Yazd alguns dias após o evento e nos relatos das suas viagens referiu-se aos martírios nos seguintes termos:

... dois dias mais tarde estive em Yazd, onde soube que havia um movimento contra os Babis[1], tendo três deles sido executados em público por um carrasco, e posteriormente apedrejados pela populaça, após o que os seus cadáveres mutilados foram estraçalhados e exibidos às esposas e filhos das vítimas. Ouvi que os homens supliciados mostraram grande coragem e que apesar de lhes ter sido dito que apenas tinham de confessar que acreditavam na verdadeira religião Maometana e que o seu profeta era falso para que as suas vidas fossem poupadas, desprezaram essa possibilidade. Também ouvi que estas perseguições darão um grande ímpeto ao movimento e que cada uma das mortes causará muitas conversões.[2]


Para a legação britânica em Teerão Vaughan enviou um breve telegrama onde se lia "Há três dias atrás, sete pessoas da seita Babi foram mortas em Yazd"[3]. Mas temendo que o telegrama pudesse ser interceptado, enviou um segundo relatório através de um sistema de telégrafo Indo-Europeu[4]:
Segue-se o datado do dia 22 acabado de receber do Capitão Vaughan em Yazd e solicitando-me que lhe enviasse. Inicio: telegrafado de Yazd no dia vinte e um para a Legação que sete Babis foram executados no dia dezanove de Maio, mas acredito que os persas terão interceptado a mensagem. Execuções foram ordenadas pelo Governador[5]. Vítimas tiveram garganta cortada e foram apedrejados até à morte em intervalos, nos bazares. Mais detenções feitas ontem e prevêem-se mais execuções. Há uma grande agitação. A firma Hotz and Co. não fez negócios na semana passada. Haji Mirza Muhammad Taki, o agente russo em situação insegura e outros comerciantes foram ameaçados. Moolah Shaikh Hussan e seu filho Shaikh Taki são os principais instigadores da perseguição. Supõe-se que as execuções foram aprovadas pelo Xá. Continuam rumores de execuções em Teerão e outros locais. Por favor informe o Ministro. Fim. E acrescenta: aqui estamos um pouco às cegas quanto ao que se passa noutros locais, mas a opinião que prevalece é que os Babis vão ser atacados em toda a parte devido ao facto de um deles ter ameaçado o Xá. Provavelmente vou ficar aqui até que as coisas acalmem.[6]
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NOTAS:
[1] - Neste tempo as palavras Babi e Baha’i eram usadas como sinónimos.
[2] - Citado em
The Bábi and Bahá'í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, pag. 301.
[3] - Idem
[4] - Esta empresa de telégrafos
era controlada pelos ingleses.
[5] - Sultão Husayn Mirzá Jalálu’d-Dawlih
[6] - Citado em
The Bábi and Bahá'í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, pag. 301-302.

quinta-feira, 19 de maio de 2005

Yazd

Há alguns anos atrás, quando num noite de sábado cumpria o típico programa "jantar e cinema", um dos amigos bahá'ís comentou o facto de uma moça da comunidade já com quase vinte anos, nunca ter autorização para sair de casa. Era estranho, mas era verdade. Os pais não autorizavam que ela se juntasse àquele grupo que se reunia ao sábado à noite para comer uma pizza e ver um filme. Uma outra rapariga do grupo, de origem iraniana, esclareceu: "Pois... os pais dela são de Yazd". Ninguém percebeu o que aquilo queria dizer. Por fim esclareceu: "As pessoas de Yazd têm fama de ser muito duros. Foi lá que ocorreram os martírios mais brutais da história bahá'í."

Não sei até que ponto esta descrição é realidade ou um mero estereotipo. Hoje ao recordar um dos mais brutais dos martírios que ocorreram em Yazd, não pude deixar de recordar esta conversa.

OS SETE MÁRTIRES DE YAZD

O ano de 1891 foi particularmente violento para os bahá'ís da Pérsia. Um pouco por todo o país vários crentes foram martirizados, assustando a comunidade e levando-a a passar a uma situação de semi-clandestinidade. A cidade de Yazd[1] foi palco de um dos mais horríveis martírios desse ano: num único dia, sete crentes foram assassinados de forma incrivelmente cruel.

No dia 19 de Maio daquele ano, por ordem do governador e encorajamento do mujtahid local[2], sete crentes foram acorrentados e obrigados a desfilar pelos bazares, pelas principais ruas e praças da cidade. Eram acompanhados por uma multidão eufórica que gritava e cantava, aguardando freneticamente as suas execuções. Foram martirizados em diferentes locais da cidade. Alguns bahá'ís[3] que testemunharam os martírios foram obrigados a decorar as suas lojas para celebrar o evento.




O primeiro destes sete mártires foi 'Ali-Asghar, um jovem de vinte e sete anos. Depois de ser estrangulado, os restantes seis companheiros foram obrigados a arrastar o seu corpo pelas ruas da cidade. Um pouco mais à frente, Mullah Mihdi, um idoso de oitenta e cinco anos foi decapitado. Mais uma vez, os restantes companheiros foram obrigados a arrastar o seu cadáver até outro bairro da cidade onde executaram outro companheiro 'Aqa Alí. Todos estes crimes foram cometidos perante uma multidão entusiasmada que os insultava, agredia e festejava a sua morte.

Posteriormente seguiram até à casa do mujtahid local onde foi degolado um quarto companheiro, Mullá 'Alíy-i-Sabzivári; o seu corpo foi despedaçado perante os gritos da multidão eufórica. Logo a seguir, num outro bairro, perto das Portas de Mihriz, Muhmmad-Baqir sucumbiu aos suplícios. O cortejo dirigiu-se, então, para o Maydan-i-Khan onde os últimos condenados, os dois irmãos com pouco mais de vinte anos, 'Alí Ashgar e Muhhammad-Hasan, foram decapitados. A cabeça de um deles foi colocada numa lança, exibida como troféu e posteriormente apedrejada; o seu cadáver foi lançado contra a porta da casa da sua mãe, onde várias mulheres entraram para dançar e celebrar.

Ao final da tarde, os cadáveres arrastados para fora da cidade onde foram amontoados e apedrejados; os judeus da cidade foram obrigados a levar o que restava dos seus corpos e a lançá-los num fosso na planície de Salsabil.

Ante o entusiasmo da população, o governador decretou feriado para o povo; o comércio foi encerrado e várias ruas iluminadas para que os festejos pudessem prosseguir durante a noite.

Este foi um mais bárbaros actos cometidos contra a comunidade bahá’í durante os chamados tempos heróicos[4]. É relativamente fácil encontrar referências a este massacre em vários livros bahá'ís. Nos próximos posts apresentarei testemunhos de ocidentais que testemunharam o evento.

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NOTAS
[1] - Sobre a história das perseguições em Yazd ver também YAZD, IRAN e Persecutions of Babis in 1888-1891 at Isfahan and Yazd.
[2] - Doutor de Lei Islâmica
[3] - Existe um relato de um comerciante, chamado Haji Mirza, que afirma que, quando a multidão passou na rua, o próprio Bahá'u'lláh teria passado em frente à sua loja, pouco metros atrás dos mártires (na época Bahá'u'lláh estava exilado em ‘Akká). Haji Mirza saiu imediatamente do estabelecimento para seguir Bahá'u'lláh; Este terá feito um gesto apontado na direcção da loja, indicando que ele devia voltar para trás. Haji Mirza regressou à loja e dali viu que Bahá'u'lláh estava próximo do grupo de mártires quando um deles foi executado. Esta estranha visão fê-lo perceber que os mártires não estavam sós no momento da execução. Para mais pormenores, ver Adib Taherzadeh, The Revelation of Baha'u'llah, vol. 3, p. 194
[4] - Yazd voltaria a ser palco de perseguições ainda mais intensas em 1903.

terça-feira, 17 de maio de 2005

Epístola de Maqsúd (4)

O quarto post sobre a Epístola de Maqsud. Entre parentesis rectos indicam-se os números dos parágrafos. O primeiro parágrafo começa com as palavras "Ele é Deus, excelso é Ele, o Senhor de Majestade e poder".
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O SER HUMANO

Nas escrituras baha'is, o homem é considerado como a mais valiosa jóia da criação. Na epístola de Maqsúd, Bahá'u'lláh descreve o ser humano como um "talismã supremo"[3] e "uma mina rica em jóias de inestimável valor[3]. A falta de educação tem impedido os seres humanos de revelar todo o seu potencial. Como expoente máximo da criação, o ser humano deve manifestar um "belo carácter, acções puras e uma conduta decorosa e louvável"[28]. E se o ser humano possui um estatuto elevado aos olhos de Deus, também elevados devem ser os seus esforços com vista a reabilitar o mundo e a trabalhar pelo bem-estar das nações[36].

Bahá'u'lláh enfatiza que as crianças devem estudar as ciências e letras que "resultarão em vantagem para o homem, lhe assegurem o progresso e lhe elevem o grau"[17]. Os sábios da terra são encorajados a partilhar o seu conhecimento com toda a humanidade. "Os estudos académicos que começam com palavras e terminam com palavras nunca tiveram e jamais terão valor algum"[18]. E seguidamente refere como tantos doutores da Pérsia cujos estudos nada produzem senão palavras (a).

A necessidade de diálogo e moderação nas actividades humanas é também muito enfatizada nesta epístola. Esta é uma recomendação não apenas para o cidadão comum, mas também para qualquer pessoa que exerça um cargo de autoridade: "O que passar além dos limites da moderação deixará de exercer uma influência benéfica"[19]. A moderação deve ser aplicada também nas palavras, juntamente com tacto e sabedoria [29, 30]. Para descrever o poder das palavras humanas, Bahá'u'lláh, usa várias metáforas: "Uma palavra pode ser comparada ao fogo, e outra à luz, e a influência que ambas exercem no mundo está manifesta"[31]; "Assemelha-se uma palavra à primavera, a qual torna verdejante e florescentes os tenros arbustos do roseiral do conhecimento, assim como outra palavra é veneno mortal"[31]. Cada pessoa ao expressar-se deve fazê-lo de maneira a causar no seu ouvinte o que seja digno da condição humana. Por outras palavras podem levar o homem a cometer actos louváveis ou actos indignos da sua condição (b).

À semelhança de outras epístolas, Bahá'u'lláh também aqui se refere aos "sábios e eruditos", enfatizando a sua importância na sociedade: "o homem de consumada erudição e o sábio dotado de sabedoria penetrante são os dois olhos do corpo da humanidade. Queira Deis, a terra jamais se veja privada destas duas maiores dádivas"[24] (c). O seu papel na educação do povo e disseminação do conhecimento, coloca-os como agentes fundamentais de regeneração social; o serviço destes homens deve ser dedicado a todos os povo da terra.

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NOTAS
(a) - Pessoalmente, parece-me que a referência a estudos que "começam com palavras e terminam com palavras" pode ser entendida como uma alusão à teologia especulativa. O episódio do encontro de Mirza-Abdu’l Fadl com um ferreiro analfabeto é um exemplo do desmoronar desse tipo de conhecimento.
(b) - Sobre este assunto, Bahá'u'lláh escreveu no Kitáb-i-Íqán: "... a língua é um fogo em brasa e o excesso de palavras é veneno mortal. O fogo material consome o corpo, enquanto que o fogo da língua devora tanto o coração como a alma. A força do primeiro dura apenas pouco tempo, mas os efeitos do último persistem por um século"
(c) - Também já tinham sido referidos na Epístola aos Reis.

segunda-feira, 16 de maio de 2005

Quanto vale a nossa herança espiritual?

Aqui fica o meu texto publicado hoje na Terra da Alegria.
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Ao longo da história, as religiões funcionaram como pólos de desenvolvimento espiritual dos povos. O seu alicerce principal foram as escrituras sagradas que se apresentam como testemunhos de uma vivência espiritual, agentes inspiradores de valores morais e éticos e repositórios de leis que visam regular e enaltecer o relacionamento entre os seres humanos. A própria vida dos Fundadores das grandes religiões e dos Seus seguidores mais conhecidos estão repletas de exemplos de heroísmo, sacrifício e auto-disciplina que inspiraram realizações extraordinárias no campo da arquitectura, da música e de outras artes. Torna-se óbvio que as grandes religiões foram dinamizadores do processo civilizacional.

Se considerarmos que vivemos um ressurgimento do fenómeno religioso, podemos então questionar-nos: porque é que esta extraordinária herança espiritual não é o objectivo central de quem tem “fome espiritual”? Como explicar que tantas pessoas procurem fenómenos de teor obscurantista ou de religiosidade questionável?

A vida dos Profetas não tem hoje menos significado do que tinham há alguns séculos atrás; as escrituras sagradas não mudaram; os princípios morais que contêm não perderam a sua validade. Quem procura a sua identidade espiritual poderá encontrar conforto nos Salmos ou nos Upanishads; quem acredita que existe algo mais que transcende a realidade material pode ficar profundamente emocionado com as palavras que Jesus ou Buda falam ao coração humano. Desta forma, é estranho que a pesquisa pela verdade espiritual não tenha levado a maioria das pessoas aos percursos religiosos tradicionais.

A sociedade em que hoje vivemos é profundamente diferente das sociedades em que surgiram as grandes religiões mundiais. Extraordinários progressos científicos e tecnológicos alteraram o funcionamento (e o conceito) da sociedade e até da própria existência. A nossa atitude e relacionamento com a autoridade mudou profundamente desde a adopção de processos democráticos de tomada de decisão. Temos hoje preocupações totalmente diferentes do que existiam há séculos atrás: engenharia genética, energia nuclear, problemas ambientais, identidade sexual… Em grande medida, a falta de fé na religião tradicional foi uma consequência inevitável da incapacidade para lhe descobrir a orientação necessária para viver a modernidade de forma coerente.

Além disto houve a chamada globalização e integração de culturas. Um pouco por toda a parte, pessoas que foram educadas de acordo com um determinado modelo religioso viram-se em contacto regular e frequente com outras pessoas cujas crenças e práticas religiosas são totalmente irreconciliáveis com as suas. Daqui surgiram tensões e conflitos; mas também surgiu o reavaliar dos valores religiosos recebidos e a descoberta de valores comuns (o diálogo e as actividades inter-religiosas!).

É assim que neste mundo multi-cultural, multi-étnico, multi-religioso, que muitas pessoas se podem questionar: Se alguém tem crenças que parecem profundamente diferentes das minhas, mas os seus valores éticos e morais merecem a minha admiração, o que é que me poderá levar a afirmar a superioridade da minha religião? Por outro lado, se as grandes religiões partilham valores básicos comuns não serão apenas as interpretações sectárias que erguem barreiras artificiais entre o indivíduo e os seus vizinhos?

domingo, 15 de maio de 2005

sexta-feira, 13 de maio de 2005

Jazz @ IST



Jay Corre no Técnico! No Pavilhão de Civil. Entrada Livre.

Darfur e Norte do Uganda

Segundo uma noticia do jornal ugandês The Monitor citado pelo All Africa, uma delegação de dirigentes das religiões Baha’i, Budista, Cristã, Hindu, Islâmica, Judaica e Rasfatariana deverá deslocar-se ao Sudão. Esta delegação inter-religiosa deverá encontrar-se com o presidente sudanês Umar El Bashir e várias organizações sudanesas para perceber porque persiste o conflito no Darfur e que contributo podem dar para a paz.

A mesma delegação manifestou a sua enorme preocupação pela continuação da guerra no Uganda. O "Lord Resistance Army" além de usar o sul do Sudão como base para ataques contra civis e tropas governamentais, alargou as suas actividades ao sul do país (onde já se registaram raptos de crianças).

Poderão os lideres religiosos dar um contributo para ajudar ao fim dos conflitos nos Darfur e no norte do Uganda?

quinta-feira, 12 de maio de 2005

Materialismo e Identidade Espiritual

Durante o século XX, no Ocidente, a interpretação meramente materialista da realidade tornou-se dominante. As sociedades tornaram-se cada vez mais confiantes nas explicações técnicas e científicas e no progresso material que estas proporcionam. Seriam quase intermináveis os exemplos de como o progresso científico contribuiu para o bem-estar da maioria dos povos do mundo. Melhores condições de vida, melhor alimentação, melhor saúde, melhor educação...

Felizmente, no Ocidente, a maioria das pessoas é livre de acreditar no que quiser e manter a relação que entender com o que acredita transcender a realidade material. E, não obstante várias gerações de "doutrinação materialista" assistimos nos últimos anos a um ressurgimento do fenómeno religioso. Como poderemos explicar isto? Aos poucos vamos vendo que assuntos espirituais, velhos sectarismos religiosos, fenómenos milagrosos (e até paranormais!) e dogmas teológicos foram recuperados como antigas relíquias e são explorados pelos media, escritores e comentadores. Este ressurgimento assume tais dimensões que alguns analistas não hesitam em classificar com "guerra de civilizações" alguns conflitos cujas raízes parecem assentar em velhos e irreconciliáveis ódios religiosos.

Os motivos para este tipo de fenómenos merecem um reflexão cuidadosa. É certo que esta "fome espiritual" tem levado ao aparecimento de alguns fenómenos de teor obscurantista ou de religiosidade questionável; mas também tem despertado um interesse renovado pelas religiões tradicionais como o Judaísmo, o Cristianismo, o Hinduísmo, o Budismo e o Islão. Desta forma, seria importante analisar até que ponto várias décadas de interpretação materialista da realidade não terão criado um sentimento de "vazio espiritual" que originou essa sede de informação e vivência religiosa.

Quando uma pessoa tem uma interpretação não-materialista da realidade, quando professa uma religião, então poderemos dizer que possui uma identidade espiritual; é dessa forma que a religião se transforma numa espécie de autoridade que regula vários aspectos da sua vida. Talvez um das lições do século XX seja o facto de não se poder ignorar a identidade espiritual de cada ser humano, pois corremos o risco de dar azo a desequilíbrios e tensões provocados por quem, em desespero, procura a sua identidade espiritual ou a felicidade na sua relação com o transcendente.

terça-feira, 10 de maio de 2005

Epístola de Maqsúd (3)

O terceiro post sobre a Epístola de Maqsud. Entre parentesis rectos indicam-se os números dos parágrafos. O primeiro parágrafo começa com as palavras "Ele é Deus, excelso é Ele, o Senhor de Majestade e poder".
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UMA NOVA ORDEM MUNDIAL

Depois de caracterizar os problemas da ordem política e social que afectam os povos da terra, Bahá'u'lláh sugere uma fórmula para se alcançar a paz e a tranquilidade entre os povos do mundo:
"Há de vir o tempo em que se compreenda universalmente a necessidade imperiosa de se convocar uma vasta assembleia de homens – assembleia essa, que a todos abranja. Os governantes e reis da terra devem forçosamente assisti-la e, participando das suas deliberações, considerar aqueles meios necessários e modos que possam lançar entre os homens os alicerces da Grande Paz do mundo. Tal paz exige que as Grandes Potências resolvam, para tranquilidade dos povos da terra, reconciliar-se plenamente entre si. Se algum rei recorrer a armas contra outro, todos unidos, deverão levantar-se e impedi-lo. Se isto for feito, as nações do mundo não mais precisarão de armamentos , excepto a fim de preservar a segurança de seus domínios e manter a ordem interna dentro de seus territórios. Isto assegurará a paz e o sossego de cada povo, governo e nação"[8].(a)
Será que podemos identificar a actual ONU
com a "vasta assembleia de homens..." preconizada por Bahá'u'lláh?

O parágrafo anterior é um dos mais citados na literatura baha'i. Contém uma fórmula que parece óbvia aos olhos de qualquer pessoa com um pouco de bom senso, nos dias de hoje. Na história recente já assistimos a algumas tentativas de pôr em prática planos semelhantes a este. A Liga das Nações e a Organização das Nações Unidas são os exemplos que mais rapidamente nos ocorrem. Estas duas organizações foram criadas na ressaca de Guerras Mundiais. De alguma forma, reflectiam um desequilíbrio mundial da época em que foram criadas; com o passar do tempo tornaram-se desajustadas às necessidades mundiais. Neste sentido, não é de admirar que hoje se clame por uma ONU mais equilibrada, mais interventiva, e mais representativa dos actuais equilíbrios mundiais. Na minha interpretação pessoal das palavras de Bahá'u'lláh, noto que este tipo organização mundial deveria reflectir o equilíbrio desejável entre as nações e não o equilíbrio vigente numa determinada época da história da humanidade (mas isto é uma interpretação muito pessoal!).

Os governantes são, de acordo com as palavras de Bahá'u'lláh, responsáveis pelo bem-estar e tranquilidade dos povos. Para qualquer homem de estado, a justiça deve ser a pedra angular dos seus actos; o objectivo de qualquer governante deve ser “o bem-estar, a protecção, a segurança e a protecção do género humano e salvaguardar vidas humanas[12]. Não deixa de ser interessante notar que, nesta Epístola, Bahá'u'lláh se refere aos reis e governantes como "símbolos do poder de Deus"[6], e lamenta que "o tabernáculo da justiça tenha caído nas garras da tirania e opressão"[10]. O reconhecimento da importância do estatuto dos governantes e a condenação dos tiranos são assuntos que já tinham sido abordado na Epístola aos Reis.

Na Epístola de Maqsúd, Bahá'u'lláh acrescenta que os governantes devem ter uma visão mundialmente abrangente. O serviço ao estado e à governação não pode ser feito apenas tendo como por objectivo levar benefícios a um determinado povo em detrimento de outros, beneficiar apenas um segmento da sociedade ou uma certa classe social. Bahá'u'lláh esclarece: "É homem, verdadeiramente, quem hoje se dedica ao serviço da humanidade inteira"[13]. E quanto aos nacionalismos vigentes: "que não se vanglorie quem ama o seu próprio país, mas sim quem ama o mundo inteiro. A terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos"[13]. Os Governantes devem estar conscientes deste sentido de justiça e de serviço à humanidade para levar os povos a perceber quais os seus melhores interesses.

Outro ensinamento apresentado nesta Epístola consiste na adopção de uma língua auxiliar internacional: "Aproxima-se o dia em que todos os povos terão adoptado um idioma universal e uma escrita comum. Quando isto for realizado, não importa a que cidade um homem viajar, será como se estivesse entrando em sua própria casa"[10]. Trata-se de mais uma medida destinada a aumentar o entendimento e a concórdia entre os povos do mundo. As nações da terra devem nomear homens de sabedoria que, mediante diálogo e consulta, deverão escolher "uma língua entre as várias línguas existentes, ou criarem uma nova, a ser ensinada às crianças em todas as escolas do mundo"[9]. (b)

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NOTAS
(a) – 'Abdu'l-Bahá reitera este ensinamento : "Os soberanos do mundo devem firmar um tratado obrigatório e estabelecer um convénio, cujas disposições serão claras, invioláveis e definitivas. Devem proclamá-lo a todo o mundo e obter a sanção da raça humana... Todas as forças da humanidade devem ser mobilizadas para assegurar a estabilidade e permanência deste Mais Grandioso Convénio... O princípio fundamental subjacente a este Pacto solene deve ser tão forte que, se qualquer governo, mais tarde, violar qualquer das suas provisões, todos os governos da terra se devem levantar para o reduzir à absoluta submissão, ou melhor, a raça humana como um todo deve decidir, com todo o poder ao seu dispor, destruir esse governo." 'Abdu'l-Bahá citado em World Order of Bahá'u'lláh, 192
(b) - Este ensinamento tem sido motivo de aproximação entre bahá’ís e esperantistas. Ver post sobre Lidia Zamenhof.

segunda-feira, 9 de maio de 2005

Uma Fé Comum

As diversas actividades de movimentos inter-religiosos têm merecido a atenção e o apoio de muita gente. A necessidade de nos conhecermos melhor, de combatermos o preconceito religioso, é suficiente para dar coragem a muitos crentes e instituições religiosas a libertarem-se de hábitos e conceitos herdados do passado. Pode parecer um mero acto de bom senso, mas temos de reconhecer que para alguns foi um acto corajoso.

Mas há algo mais neste movimentos inter-religiosos: as suas expressões deixam implícito o reconhecimento de que só há um Deus e que Ele é a fonte de todas as religiões. É aqui que podemos antecipar o próximo passo: o reconhecimento de que a religião - independentemente da diversidade cultural e expressão humana - também é apenas uma. Não se trata de desafiar a validade de cada uma das religiões reveladas, mas sim de compreender adequadamente o contributo da religião - nas suas diferentes revelações - para a evolução humana.

É óbvio que não será fácil o reconhecimento desta realidade por parte das diferentes hierarquias e comunidades religiosas. No entanto, num mundo cada vez mais globalizado, onde a diversidade nos impele à busca de novas explicações, esta verdade terá de ser assumida se a religião pretende voltar a ser um factor dinamizador das sociedades.

Terra da Alegria

Terra da Alegria, a edição de 2ª feira.



City scape, ART-VOLGA Gallery - Imagem obtida no CREATIVITY AND VISUAL ART

domingo, 8 de maio de 2005

60 anos


Há 60 anos assistíamos ao fim de "uma tempestade de violência inédita", um "cataclismo titânico" em que "se desintegraram nações, destruíram-se lares e povos e arrasaram-se cidades", como afirmou Shoghi Effendi. Se pensarmos no que eram os países, os povos e as cidades europeias há 60 anos e considerarmos o que são hoje, não podemos deixar de perceber quão valiosa é a paz, o desenvolvimento e a justiça. É importante nunca esquecer isso.

O fim do conflito fica associado à criação da Organização das Nações Unidas. Foi um primeiro passo na construção de uma Ordem Mundial que se pretendia mais justa e equilibrada. Passados 60 anos percebemos que ciclicamente devemos recordar aos povos do mundo e aos dirigentes mundiais que não devem hesitar em continuar a caminhar nesse sentido. É que uma longa caminhada começa sempre com um primeiro passo.

Congo Belga

A primeira parte de um conjunto de postais do Congo Belga. No Antigamente...


sábado, 7 de maio de 2005

sexta-feira, 6 de maio de 2005

Abrupto

Parabéns ao Abrupto que faz hoje dois anos. Todos sabemos que é um dos blogs de referência da blogosfera portuguesa; é visita diária obrigatória para muitos bloggers e leitores de blogs. Tenho a impressão que re-aproximou muita gente do debate político e do debate de ideias. Foi o primeiro (e durante algum tempo o único) blog que conheci. Um dia enviei ao Pacheco Pereira um comentário sobre a polémica do véu islâmico nas escolas francesas. E o comentário foi publicado. Depois comecei a pensar que talvez pudesse criar um blog. Passadas umas semanas nascia o Povo de Bahá. Parabéns ao Abrupto.

Sporting!



Hoje tenho mesmo de falar de futebol! Quando já suspirávamos e pensávamos "Enfim...", "Pois é...", e "Pelo menos fomos até às meias-finais..." a sorte sorriu-nos. E ainda bem. Hoje toda a gente fala e escreve sobre o jogo. Eu também não resisto a fazer uns comentários e provocações.

1 - Existe um núcleo da central da equipa do Sporting que merece uma alegria destas: Sá Pinto, Beto, Pedro Barbosa, Rui Jorge. Sempre mostraram dedicação e orgulho pelo clube.

2 - José Peseiro. Chegou ao Sporting e foi sempre olhado com desconfiança. Ontem mostrou frutos do seu trabalho. E esteve bem ao reconhecer que a sorte esteve do lado do Sporting, esteve bem ao evitar polémicas sobre as condições do estádio holandês, e ao recordar que recentemente Portugal perdeu em casa a final do Euro 2004 contra a Grécia. Foi humilde e correcto no momento da vitória.

3 – Os comentários de Dias da Cunha após o jogo. Foi mais uma vez infeliz. É pena...

4 - Aos meus amigos benfiquistas que me têm felicitado com um grande sorriso de quem diz "Vocês fica com a taça UEFA e nós com o campeonato. Não querem ganhar tudo, pois não...?" digo-vos: "Vocês ficam com a Taça de Portugal e chega. Para que é que querem dois troféus na mesma época?"

5 - Aos meus amigos portistas que gostam de insistir que o Sporting só ganhou porque teve sorte recordo que no ano passado o FCP também só ganhou ao Manchester por sorte. O tal golo do Costinha...

6 - E agora vem a festa da final. Lembro-me da final de Sevilha, há dois anos, dirigentes de vários clubes portugueses estiveram presentes e usaram com orgulho o cachecol do FC Porto. Espero que no próximo dia 18 os mesmos dirigentes (incluindo os do FC Porto) estejam em Alvalade com um cachecol do Sporting.

7 – Só uma provocaçãozinha para terminar: quantos deputados estarão já a preparar "trabalho político" para o dia 18 de Maio?

Acima de tudo fico contente porque pelo terceiro ano consecutivo temos uma equipa portuguesa numa final das provas de clubes da UEFA. Pelo terceiro ano consecutivo temos um treinador português a liderar uma equipa que atinge essa final (este ano Mourinho atingiu o “limite de mandatos” :-) ). Uma palavra de apreço para os vários jogadores brasileiros integram estas equipas; é também uma vitória o talento sul-americano (eu sei que há ali jogadores de outras nacionalidades, mas a minha costela brasileira obriga-me a esta referência...).

quinta-feira, 5 de maio de 2005

Dia da Lembrança

Costumo dizer que em Israel até a mais pequena pedra tem pelo menos 1000 anos de história. Das três vezes que tive a oportunidade de visitar a Terra Santa (sempre por ocasião de algum evento baha'i), fiz questão de ir um pouco mais cedo de modo a ter possibilidade de visitar alguns locais históricos.

Jerusalém, o Muro das Lamentações, a Esplanada das Mesquitas, o Mar Morto, Masada Nazaré, Belém, o Lago Tiberíades... são alguns dos destinos mais conhecidos. Sempre procurei conhecer novos lugares de interesse histórico e cultural naquela que é uma Terra Santa para comunidades religiosas. Mas houve um local que impressionou profundamente e onde me desloquei em cada uma das minhas três visitas: o Yad Vashem, o Museu do Holocausto.

Este museu contém um conjunto de testemunhos impressionantes de uma das páginas mais negras da história recente da humanidade. É impossível não passar ali sem nos sentirmos esmagados por um turbilhão de emoções. As roupas e os sapatos dos prisioneiros, réplicas do interior das camaratas dos campos de concentração, filmes, imagens, números e tantas outras coisas ajudam a preservar a lembrança do holocausto.

Talvez o mais impressionante seja a Ala das Crianças (foi renovada recentemente). Numa sala escura estão afixados fotos de crianças entre os 3 e os 10 anos. Têm o sorriso inocente e encantador de qualquer criança. E na sala apenas se ouve uma voz que vai dizendo o nome, a idade e o campo de concentração onde a criança morreu. Sente-se um aperto no estômago, um nó na garganta, e faz-se força para conter as lágrimas...

Não se consegue esquecer.

Se voltar a visitar a Terra Santa, irei novamente ao Yad Vashem.

quarta-feira, 4 de maio de 2005

Infância perdida

No Chade, nos campos de refugiados junto à fronteira sudanesa, elementos da organização Human Rights Watch deram às crianças cadernos e lápis para os manter ocupados enquanto falavam com os pais. Sem qualquer sugestão ou orientação, algumas das crianças desenharam cenas que retratam as suas experiências dramáticas vividas no Sudão.

Salah, Age 13
"There were soldiers from Sudan, Janjaweed, and planes and bombs. I saw the Janjaweed take girls and women. The women were screaming. They seized them, they took them by force. The pretty ones were taken away…Girls were taken, small girls too, I think 5 and 7 and 14. Some came back after four or five hours... some we haven’t seen again."



A ler e ver: The Conflict in Darfur Through the Chidren's Eyes

É impossível não sentir revolta, raiva e ódio.
É impossível não ficar a pensar "O que posso fazer por esta gente?"

Terra da Alegria

Terra da Alegria, a edição de 4ª feira.



SEA SCOUTS JETTY - Imagem obtida no BOAB ART GALLERY

terça-feira, 3 de maio de 2005

Epístola de Maqsúd (2)

O segundo post sobre a Epístola de Maqsud. Entre parentesis rectos indicam-se os números dos parágrafos. O primeiro parágrafo começa com as palavras "Ele é Deus, excelso é Ele, o Senhor de Majestade e poder".
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TEMAS DA EPÍSTOLA

Como já escrevi uma vez, a análise de uma epístola de Bahá'u'lláh não é simples; podemos identificar os principais temas e perceber como estes se relacionam entre si. Mas existem sempre alguns temas secundários – referidos por vezes numa pequena frase ou metáfora – que nos podem passar despercebidos. Além disso o estilo da escrita e a estrutura do texto - sem uma divisão em parágrafos e com os temas intercalados entre si - a que se acresce o facto deste geralmente ser revelado em resposta a uma ou mais perguntas - que nem sempre conhecemos - dificultam a contextualização dos assuntos expostos.

Não obstante estes obstáculos, na Epístola de Maqsúd parece-me ser possível identificar alguns temas centrais:
  • a situação da humanidade;
  • a criação de uma nova ordem mundial;
  • a religião:
  • o papel do ser humano na transformação social.
Estes temas são intercalados por palavras dirigidas a Maqsúd, invocações ao Criador e orações.

EQUACIONANDO OS PROBLEMAS

Segundo Bahá'u'lláh, a humanidade tem sido afligida por várias convulsões, e no entanto, ninguém parece ter parado para reflectir um momento sobre os motivos da intranquilidade dos povos [6]. Os seres humanos parecem estar divididos uns contra os outros e sempre dispostos à luta e contenda. A humanidade, que foi criada para a unidade, entrega-se a actos condenáveis; e Bahá'u'lláh recorda: "Sois os frutos de uma só árvore e as folhas de um mesmo ramo"[6]

O Ser Humano, enquanto criatura racional tem todas as capacidades para resolver os seus problemas; mas, estranhamente, não parece querer fazer uso dessas capacidades para resolver esses problemas. "Os ventos do desespero, lastimavelmente, sopram de todos os lados e aumenta dia a dia a contenda que divide o género humano"[27]. Toda a organização social e política parece irremediavelmente defeituosa.

Ao olhar para a sucessão de conflitos e barbáries, e a persistência de alguns dirigentes nesse tipo de actos, Bahá'u'lláh deixa uma lamentação: “Por quanto tempo haverá a injustiça de continuar? Até quando reinará entre os homens o caos e a confusão? Até quando haverá a discórdia de agitar a face da sociedade? [26] Apesar do nosso planeta ter mudado muito - para melhor e para pior - desde o momento da revelação desta epístola até aos dias de hoje, estas questões não podem deixar de nos fazer pensar um pouco.

Os problemas que Bahá'u'lláh aponta não são apenas os existentes na Sua época(a); as palavras do fundador da religião bahá’í nesta epístola aplicam-se à história da civilização humana. No decorrer do texto podemos perceber algumas soluções para os tribulações da humanidade. Essas soluções passam pelo definição de uma ordem mundial justa e equilibrada, pelo renascer da religião enquanto força criadora e inspiradora dos povos, e pela consciencialização de cada indivíduo do seu papel numa sociedade global e em constante progresso.

As propostas descritas nesta epístola não são as únicas que Bahá'u'lláh apresentou; existem mais escritos onde se apresentam outros princípios destinados à transformação humana, social e política do planeta(b). Pessoalmente acredito que estes princípios não devem ser vistos como uma panaceia; parecem mais as linhas mestras que permitem transformar um mundo de nações e impérios numa aldeia global, justa, equilibrada e em constante progresso.

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NOTAS
(a) – Nos anos anteriores à revelação da Epístola de Maqsúd tinha-se assistido à invasão do Egipto e à guerra Russo-Otomana; estes acontecimentos lançaram muita perturbação no mundo islâmico em que se movimentava a recém-nascida comunidade Bahá’í.
(b) - Princípios como a educação obrigatória universal, a igualdade de direitos entre homens e mulheres, e a eliminação de preconceitos são abordados noutros textos.

segunda-feira, 2 de maio de 2005