quinta-feira, 30 de junho de 2005

Emídio Guerreiro




"Como não pode haver dignidade se não houver liberdade, naturalmente que eu lutei pela liberdade. Lutei contra todos os regimes prepotentes, lutei contra todas as ditaduras."


Emídio Guerreiro, 1899-2005


quarta-feira, 29 de junho de 2005

Vahid

Em 29 de Junho de 1850, Vahid foi martirizado. Trata-se de uma das figuras mais conhecidas dos primeiros tempos das religiões Babi e Baha'i. Bahá'u'lláh referiu-se a ele como "essa figura única e incomparável do seu tempo". Para assinalar esta data, aqui fica um pequeno relato do que foram os seus encontros com o Báb.

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Quando em meados do século XIX, a religião do Báb se começou a espalhar pela Pérsia, vários elementos do clero e do governo quiseram averiguar a natureza daquele movimento. O Xá Muhammad (pai do Xá Nasiri'd-Din) pretendeu avaliar a veracidade das informações que ia recebendo; para esse fim pediu a uma das pessoas em quem mais confiava que se deslocasse a Shiraz e entrevistasse pessoalmente o Báb, e lhe desse uma opinião mais formulada sobre a natureza e propósitos daquela nova religião.

O homem escolhido para essa missão foi Siyyid Yahyay-i-Darabi[1], para os baha'is ficou conhecido como Vahid. O monarca confiava na imparcialidade, competência e visão espiritual deste homem; muitos dirigentes religiosos admiravam a sua eloquência e conhecimentos. Dizia-se que conhecia quase todo o Alcorão do cor e que tinha memorizado mais de trinta mil tradições islâmicas.


Em Shiraz, graças a um amigo que se tinha convertido à religião babi, Vahid conseguiu ser recebido várias vezes pelo Báb. No primeiro encontro, começou por falar durante mais de duas horas sobre temas metafísicos do Islão, excertos mais obscuros do Alcorão, e tradições e profecias misteriosas sobre os Imans[2]. O Báb foi ouvindo todas as suas questões e foi dando respostas breves e concisas; Vahid não conseguia evitar um crescendo de admiração com a lucidez das repostas. Os seus sentimentos iniciais de orgulho e superioridade intelectuais desvaneceram-se lentamente. Quando a entrevista terminou, confidenciou ao amigo: "Ele consegue responder com palavras simples às minhas questões e maiores perplexidades. Senti-me tão humilhado que só pensava em vir-me embora".

Ao iniciar-se a segunda entrevista, Vahid (que tinha uma memória prodigiosa) percebeu que se tinha esquecido de todas as questões que queria colocar ao Báb. Começou a falar de assuntos irrelevantes para o inquérito; mas imediatamente percebeu que o Báb estava a responder, com a mesma lucidez e simplicidade, às questões que ele se havia esquecido. Estranhando a coincidência, pediu para se retirar.

Para a terceira entrevista desejou que o Báb revelasse um comentário ao Sura de Kwathar[3]. Aquilo seria para ele uma derradeira prova da divindade do Báb. Pensou para si próprio que se Ele, sem ser solicitado, revelasse um tal comentário, e de forma diferente dos tradicionais comentadores do Alcorão, então isso seria um prova inequívoca do carácter divino da Sua missão; caso contrário recusaria reconhecer-Lhe esse estatuto.

Assim que entrou na presença d’Ele foi tomado por um invulgar sentimento de medo. O Báb levantou-Se segurou-lhe na mão e disse-lhe: "Procura em Mim o que quer que seja o desejo do teu coração. Eu to revelarei." E perguntou-lhe: "Se eu revelasse um comentário ao Sura de Kawthar, reconhecerias as Minhas palavras como nascidas do Espírito de Deus?" As lágrimas correram pelo rosto de Vahid e apenas conseguiu balbuciar umas palavras.

Pouco depois, o Báb pediu um estojo de canetas e papel e começou a revelar um comentário ao Sura de Kawthar. Vahid foi testemunha da revelação desse comentário; o Báb murmurava as palavras rapidamente e a caneta, em igual ritmo, registava essas palavras. E assim continuou até ao pôr do sol, quando o Báb deu o comentário por completo. Nessa ocasião pousou as canetas e pediu chá; pouco depois começou a ler o texto em voz alta.

O estilo das Suas palavras, o vigor dos argumentos e o tom poético do texto deixaram Vahid profundamente impressionado. Quando terminou a leitura, o Báb pediu a Vahid e a um secretário que procedessem à transcrição rigorosa do texto, validando as referências às tradições islâmicas citadas. Foi tarefa que os ocupou durante três dias.

Aqueles três encontros de Vahid com o fundador da religião babí alteraram o rumo da sua vida. Aceitou de forma plena e sincera a Mensagem do Báb e passou então a dedicar-se à divulgação da nova religião, viajando pela Pérsia. Vários milhares de pessoas aceitaram a Fé depois de ouvirem as suas palavras; alguns dos primeiros crentes desses tempos também tomaram conhecimento da nova religião graças aos seus esforços. No decorrer de uma dessas viagens chegou mesmo a encontrar-se com Bahá'u'lláh, em Teerão.

Vahid escreveu um relato detalhado dos seus encontros com o Báb e entregou-o ao camareiro do Xá, para que fosse apresentado ao monarca. Quando este soube da conversão de Vahid, comentou com o primeiro ministro: "Fomos informados que Siyyid Yahyay-i-Darabi se tornou babi. Se isto é verdade, então temos que deixar de menosprezar a Causa deste Siyyid[4]".

Os seus dias terminariam durante os massacres que se seguiram após o cerco ao forte de Khajih, em Nayriz. Vahid foi estrangulado e o seu cadáver, arrastado por um cavalo foi exibido pela cidade. Dez dias mais tarde, o próprio Báb seria martirizado em Tabriz.

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NOTAS
[1] - O termo Darabi indica a proveniência. Vahid nasceu em Darab.
[2] - Sucessores de Maomé
[3] - O capítulo mas pequeno do Alcorão
[4] – Refere-se ao Báb

Terra da Alegria

Quarta-feira, dia de Terra da Alegria.

terça-feira, 28 de junho de 2005

Fiel ou Infiel?

A mais recente aberração televisiva chama-se "Fiel ou Infiel". Trata-se um programa em que um elemento de um casal pretende testar a fidelidade do seu parceiro(a). A equipa do programa cria uma situação em que o elemento a testar é colocado perante uma situação de sedução. Invariavelmente, o elemento "apanhado" cai vítima da sedução de um actor/actriz. Posteriormente, dá-se o encontro em palco do parceiro enganado com o parceiro seduzido, uma cena que acaba com insultos e com seguranças tentando evitar agressões entre o casal.

Podíamos discutir se este é o tipo de programas que o povo gosta ou o tipo de programas que uma estação de televisão sabe fazer. Mas um programa de entretenimento em que o espectador é reduzido à condição de mirone de uma "traição amorosa" induzida - e consequentes cenas de peixeirada - deixa muito a desejar.

Um amigo meu tem uma teoria curiosa sobre este programa: "Se é lixo, então deve ser reciclado!" E sugere que a ideia base deste programa seja aplicada à actividade de figuras públicas. "Imagina o que seria um programa destes em que se testa se um político, um dirigente desportivo ou qualquer outra personalidade conhecida é corrupto ou não..."

Para quase todo o grupo de amigos que ouviu esta ideia foi impossível não imaginar ver na TV um político conhecido ser sujeito à tentação de conseguir benefícios pessoais à custa da aceitação de uma proposta desvantajosa para o interesse público, um dirigente desportivo aceitar viciar o resultado de um jogo, um director de jornal negociar uma primeira página,...

Lembro-me que houve um programa nos EUA que fez algo semelhante com um senador ou um congressista. No final da sua carreira política impoluta, o senhor aceitou fazer uns favores a um pretenso príncipe saudita que pretendia refugiar-se nos Estados Unidos. O programa causou enorme polémica e questionava-se até que ponto era legítimo por em causa a reputação de alguém com um facto criado artificialmente, e que legitimidade tinham os autores do programa para fazer uma coisa daquelas.

Sabemos que a televisão é um reflexo da nossa sociedade. Ali vemos o melhor e o pior daquilo que somos capazes. Este tipo de programas parece-me reflectir o pior: a ganância pelo lucro numa guerra de audiências legitima que a podridão (independentemente de ser induzida, ou não) seja transformada em espectáculo. Apetece citar Pacheco Pereira: "Pobre país, o nosso..."

domingo, 26 de junho de 2005

Fauquembergue - 1917



No interior deste envelope encontrei a maior colecção de postais do meu avô. Ao todo eram 28 postais ilustrados de Fauquemberge, uma pequena povoação na retaguarda das linhas portuguesas. O primeiro conjunto destes postais está hoje no Antigamente...

sexta-feira, 24 de junho de 2005

Notas breves

O Guru Baha'iUm jornal da Tanzânia (link alternativo) refere a visita de um baha'i indiano que descreve como "guru baha'i". É difícil evitar um sorriso perante esta expressão, pois que não existem autoridades individuais. Mas a interacção com os media tem coisas destas; por vezes aquilo que somos não é exactamente igual à imagem que transmitimos. E se o jornalista tiver algumas ideias preconcebidas, então é fácil encontrar coisas destas.

Native Americans - Baha'is host international gathering in Navajoland. (link alternativo)
Um encontro de representantes de 25 tribos dos "Native Americans" (o termo politicamente correcto) organizado pelo Native American Baha'i Institute. Isto é evento a que gostava de assistir.

Voices of Bahá - Não sabia da existência do Voices of Bahá, um grupo coral com 200 baha’is de várias nacionalidades. Um jornal de Porto Rico (link alternativo) refere um espectáculo deste grupo.

quinta-feira, 23 de junho de 2005

Insegurança

A insegurança tornou-se o tema predilecto dos media sensacionalistas. É assalto no comboio, esticão na avenida, pancadaria num bairro de subúrbio... tudo serve para as primeiras páginas e até abertura de telejornais. Infelizmente, e como seria de esperar, políticos menos escrupulosos não hesitam em fazer aproveitamento do tema.

Quem viveu os anos 70 e 80 no bairro dos Olivais, em Lisboa, sabe o que é insegurança. Desde cedo sabíamos que se levávamos dinheiro para comprar um bolo na escola, havia sempre uma certa probabilidade de algum grupo de miúdos - a quem chamávamos "ciganos" - o roubarem; levar umas estaladas ou apanhar com uma pedrada na cabeça também eram probabilidades. Com o passar do tempo, fenómenos como droga, assaltos violentos e roubo de carros também se tornaram ocorrências regulares.

Até há pouco tempo morei na Pontinha - bem próximo da Azinhaga dos Besouros, que é tido hoje pelos media como um dos bairros mais inseguros da periferia de Lisboa. Também ali encontrei o sentimento de insegurança: roubos, assaltos e actos de vandalismo eram frequentes. A única diferença em relação aos Olivais pareceu-me ser a cor da pele dos miúdos que arranjavam problemas.

Assim, comparando o caso dos Olivais com o que os media nos relatam hoje, consigo identificar duas questões: qual deve ser o papel dos media e quais são as raízes deste tipo de problemas. Por exemplo, se os media de então tivessem feito eco daquele ambiente de insegurança que se vivia no Olivais, isso seria um contributo para a minimizar ou apenas aumentaria e generalizaria ainda mais esse sentimento? E se os chamados "ciganos" fossem miúdos de um grupo étnico diferente do nosso, até que ponto este problema não passaria a ser considerado um "clima de tensão racial"?

terça-feira, 21 de junho de 2005

Nayriz

Há exactamente 155 anos, no dia 21 de Junho, várias centenas de Babis foram massacrados em Nayriz, no sul da Pérsia. Foi um dos poucos momentos em que na história da religião Babi, os crentes pegaram em armas para se defender. Foi também um dos eventos trágicos daquele ano de 1850, que culminaria com o fuzilamento do Báb.

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O episódio de Nayriz está profundamente ligado a um dos mais distintos discípulos do Báb: Siyyid Yahyay-i-Darabi, mais conhecido por Vahid (em português, "Incomparável"). Vahid era um homem de confiança do Xá que tinha sido encarregado por este de investigar as actividades do Báb e dos Seus seguidores e que acabou por aceitar a religião babi. O seu prestígio na Pérsia e, especialmente, entre os Babis era enorme. Para onde quer que viajasse a sua presença era sempre aguardada com grande interesse.

No início de 1850, depois de passar por Yazd - onde proclamou abertamente o aparecimento do Qaim na pessoa do Báb - seguiu viagem para a região de Nayriz. A sua fama e influência precedia-o e numa das povoações da região - Chinar-Sukhtih – onde a maioria da população tinha aceite a nova religião, a sua chegada era aguardada com expectativa. Ao contrário, o governador de Nayriz, Zaynu'l-'Abidin Khan, encorajado pelo clero muçulmano, estava determinado a impedir a sua permanência na região; chegaram mesmo a ameaçar os habitantes com severas represálias se permitissem a estadia de Vahid naquelas terras. Esta ameaça foi reforçada com a preparação de mil soldados para enfrentar a chegada de Vahid.



As ameaças do governador esmoreceram a fé de alguns babis e estimularam o entusiasmo de outros. Ao ter conhecimento das ameaças e intenções do governador, Vahid preocupou-se primeiramente com a segurança dos Babis que viajavam consigo. Decidiu ocupar o pequeno forte de Khajih nas imediações de Chinar-Sukhtih, onde outros babis se juntaram ao seu grupo; seguidamente ordenou que se reforçassem os muros do forte e da povoação.

Alguns dias mais tarde os soldados do Governador cercaram o forte. Após os primeiros confrontos (em que foi morto o irmão do governador e dois dos seus sobrinhos foram feitos prisioneiros), o governador pediu um reforço militar (canhões e cavalaria) ao Governador-Geral de Shiraz. Mas a determinação dos babis era enorme e nem a chegada desses reforços - com ordem para exterminar os sitiados - foi suficiente para tomar o forte.

O governador de Nayriz tentou outro método: a traição. Enviou uma mensagem aos sitiados onde afirmava ter sido induzido a atacar os babis por pessoas indignas; que começava agora a conhecer o verdadeiro carácter dos ensinamentos daquela religião quem em nada denegria o Islão, nem encontrava motivações políticas entre os babis que pudessem meter pôr em causa a segurança do país; e para dissipar todas as dúvidas e evitar mais derramamento de sangue, solicitava que os chefes babis viessem a falar com as autoridades no exterior do forte.

Apesar de perceber as intenções do Governador, Vahid abandonou o forte, na companhia de cinco babis e dirigiu-se ao acampamento militar, onde durante três dias foi saudado com grandes celebrações. Durante esses dias os oficiais fingiram grande interesse pelaspalavras de Vahid e satisfizeram todos os seus pedidos. Exteriormente manifestavam respeito e admiração pelas suas palavras, mas em segredo engendravam um estratagema para tomar o forte.

Pediram a Vahid que escrevesse uma mensagem aos companheiros que ainda estavam no forte, solicitando-lhes que abandonassem o local, pois a tropa não lhes faria qualquer mal. Vahid decidiu escrever duas mensagens; a primeira correspondeu aos pedidos dos sitiantes; a segunda alertava os babis para não se deixarem enganar pelas maquinações do Governador. No entanto, o portador desta segunda mensagem acabou por a levar às mãos do Governador e nunca foi entregue aos Babis. Apenas a primeira mensagem chegou ao forte.

Após aqueles três dias, os babis sitiados aguardavam com ansiedade instruções de Vahid; ao lerem a única mensagem que lhes foi entregue, abandonaram o forte e dirigiram-se a Chinar-Sukhtih. Logo à entrada dessa localidade foram emboscados e começaram a ser massacrados. Entretanto, no campo dos sitiantes começaram a insultar Vahid e a recordar-lhe os nomes dos familiares do Governador que tinha morrido nos combates. O tom agressivo da linguagem foi subindo e acabaram por amarrar Vahid e sujeitá-lo a várias humilhações.

Em Chinar-Sukhtih a população pôs-se em fuga; várias famílias, com crianças e idosos, tentaram fugir para as montanhas; outros esconderam-se onde podiam na povoação. Várias casas foram incendiadas e outras saqueadas. A maioria dos homens capturados foi executada; as mulheres e crianças, agredidas e aprisionadas. Parte dos cativos foi obrigada a desfilar pelas ruas de Nayriz, no meio de insultos e espancamentos; outros foram levados para Shiraz, onde, perante os cadáveres desmembrados dos seus entes queridos, também foram obrigados a desfilar pelas ruas da cidade.



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NOTAS
Descrições mais detalhadas do Episódio de Nayriz:
* Narrative of Mulla Muhammad Shafi' Nayrizi (inclui os incidentes de 1850 e 1853)
* The Nayriz Upheaval (The Dawnbreakers)
* If Walls Could Speak - An eyewitness account of the Bábís of Nayriz

segunda-feira, 20 de junho de 2005

Tiago Monteiro



Duas visões da mesma realidade:

Na Gazeta Esportiva: Português comemora sozinho no pódio da corrida da vergonha

No Record: Governo felicita Tiago Monteiro pelo terceiro lugar

Para que serve o simbolismo nas Escrituras?

Aqui fica o meu texto de hoje na Terra da Alegria.
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Em posts no Povo de Bahá, anteriores mencionei os simbolismos nas palavras que os evangelistas atribuem a Jesus e as interpretações simbólicas de S. Paulo. Mas é óbvio que alguns versículos das Escrituras contêm um significado literal. Por exemplo: "Não matarás" [Ex. 20:13] tem um significado literal. No entanto, o significado e a razão desta lei envolvem um significado espiritual intrínseco.

Existem outras passagens dos textos sagrados em que podemos reconhecer simbolismos, mas dificilmente compreendemos os respectivos significados. Por exemplo, quando Cristo se refere à Sua segunda vinda, são-lhe atribuidas as seguintes palavras: "Logo após a aflição daqueles dias, o Sol obscurecer-se-á, a Lua não dará a sua luz, as estrelas cairão do céu e as forças do céu serão abaladas" [Mt 24:29]. Os Cristãos discordam entre si sobre o significado deste versículo, demonstrando com isso - tal como disse Bahá'u'lláh - que o seu significado está oculto e velado. Neste caso específico, é impossível aceitar um significado literal, a menos que deixemos de acreditar na ciência. E mesmo que um Cristão reconheça que estas palavras são simbólicas, é difícil determinar com absoluta certeza o que elas significam.

Para nos ajudar a compreender os significados interiores das Escrituras, Bahá'u'lláh explicou-nos que os Manifestantes de Deus e os Apóstolos têm uma linguagem dupla: "É evidente a ti que as Aves do Céu e as pombas da eternidade falam um linguagem dupla". Uma, explica Bahá'u'lláh, é "a linguagem exterior", que é "destituída de alusões, ocultação ou véu". A outra linguagem é "velada e oculta".

Podemos então questionar: Para que servem os simbolismos? Não serão apenas meras figuras de estilo literário? E porque é que o texto sagrado não indica claramente quais são as passagens que devem ser interpretadas simbolicamente e quais devem ser interpretadas literalmente? A resposta a estas questões encontram-se nos próprios Livros Sagrados.

Cristo afirmou que falava em parábolas para que aqueles que têm sensibilidade espiritual e aqueles que procuram a verdade divina possam descobrir o seu significado, e aqueles que não são receptivos ou não procuram conhecimento espiritual não consigam apreciar o significado dos Seus ensinamentos [Mc 4:10-12; Mt 13:13- 16]. Por outro lado, o autor da Epístola aos Hebreus assegura que existe um propósito no modo como a Escritura é apresentada, isto é, mostrar as intenções do coração:
Porque a palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante que uma espada de dois gumes; penetra até dividir a alma e o corpo, as junturas e as medulas e discerne os pensamentos e intenções do coração. [Heb 4:12]
Talvez fosse à Palavra de Deus - essa linguagem dupla - que Jesus se referiu quando afirmou: "Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada" [Mt 10:34]. Neste versículo, entendo o termo “espada” como simbolizando algo que corta e separa; não como instrumento de guerra ou agressão (mas isto é apenas uma interpretação pessoal).

Tal como a Bíblia, também as Escrituras Bahá'ís asseguram que Deus utiliza linguagem simbólica e alegórica para testar os Seus servos, e não para os confundir ou impedir de compreender. Deus deu às Escrituras significados ocultos e dotou os seres humanos de capacidade para as compreender.

Além deste objectivo da linguagem simbólica, devemos ter presente outro aspecto: uma decisão de fé baseia-se no exercício da livre vontade do indivíduo. Se todo o texto sagrado tivesse apenas significados literais, isso implicaria a ocorrência de fenómenos tão extraordinários, que todos os seres humanos que os testemunhassem se veriam impedidos de exercer o livre exercício da sua livre vontade.

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NOTA
[1] - Bahá'u'lláh, O Livro da Certeza, pag 155.

domingo, 19 de junho de 2005

A Decisiva Importância da ONU

No Expresso de ontem uma crónica assinada por Mário Soares sob o título "A decisiva importância da ONU". Algumas frases e ideias a reter:
Num mundo sujeito a uma globalização inelutável, mas desregulada e sem ética, em que os repetidos atentados contra o Planeta são escandalosamente e inconscientemente ignorados, a decisiva importância da ONU avulta como um recurso insubstituível e uma referência.

... a ONU não foi capaz de estabelecer por forma legítima a paz universal (...) , nem nunca conseguiu libertar a Humanidade do medo - e do risco - de concretização das armas nucleares...

... a ONU não teve força para impor regras éticas que assegurassem uma certa ordem nos grandes interesses económicos que dominam e exploram o mundo, com o objectivo único do lucro pelo lucro e ignorando as pessoas e o seu necessário bem-estar.

...pensa-se na necessidade de um governo mundial, ao qual só se pode chegar por via consensual, por uma inteligente reforma da ONU. Não se pode lá chegar, razoavelmente, nem por via do hegemonismo de uma só potência (...), por mais forte que seja militarmente, nem mediante um pseudo-directório de países ricos (o G7 ou o G8) sem legitimidade democrática e que em si mesmo - e pelo que representa - constitui um ultraje para a esmagadora maioria dos Estados que nele não participam.

A ONU ressurge assim como único areópago de carácter mundial a que os povos injustiçados podem recorrer e onde há probabilidades de serem ouvidos.

Veremos se a reforma das Nações Unidas, tão urgente, vai ter finalmente um começo de concretização e países emergentes como o Brasil, a África do Sul e a Indonésia (...) venham a ser admitidos como membros permanentes do Conselho de Segurança.

Veremos se a Assembleia Geral das Nações Unidas será capaz de definir uma estratégia inteligente contra o terrorismo (...) sem pôr em causa o respeito pelos Direitos Humanos e pelas garantias ínsitas na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Apesar de concordar com as críticas feitas tenho de reconhecer que as expectativas do Dr. Mário Soares relativamente à reestruturação do Conselho de Segurança e às decisões da próxima Assembleia Geral, mesmo que se concretizem não serão suficientes para que a ONU se torne suficientemente forte no que toca ao seu papel no estabelecimento da paz universal e de regras que controlem a actividade dos grandes grupos económicos mundiais. Mas serão, sem dúvida, um pequeno passo para que a ordem mundial não seja tão injusta.

quinta-feira, 16 de junho de 2005

As interpretações simbólicas de S. Paulo

Como mostrei no post anterior, a ênfase no simbolismo não é uma inovação baha’i. Depois do simbolismo nas palavras atribuídas a Jesus, encontramos outros simbolismos nas palavras de S. Paulo. Na sua Primeira Epístola aos Coríntios, ele enfatizou a importância de captar o sentido espiritual das escrituras:
Não falamos dessas coisas em palavras doutas, de humana sabedoria, mas com aquelas que o espírito ensina e que exprimem as coisas espirituais em termos espirituais. Porque o homem natural não entende as coisas do Espírito de Deus, pois, para ele são loucuras. Não as pode compreender porque devem ser julgadas espiritualmente. [I Cor 2:13-14]
As epístolas de S. Paulo contêm algumas interpretações alegóricas do Antigo Testamento, que mostram como a Escritura pode ter múltiplos significados - significados espirituais que podem não ser evidentes ser forem interpretados literalmente. No exemplo seguinte, S. Paulo identifica uma série de simbolismos que não são aparentes no sentido literal:
Pois está escrito que Abraão teve dois filhos: um da escrava e outro da mulher livre. Mas o da escrava nasceu segundo a carne, e o da mulher livre, em virtude da Promessa. Isto foi dito por alegoria, pois as duas mulheres representam as duas alianças: Uma, a do monte Sinai, que gera filhos para a escravidão, é Agar. Ora, o Sinai é um monte da Arábia e corresponde a Jerusalém actual, que é escrava com seus filhos. Mas a Jerusalém, lá do alto, é livre, e esta é nossa mãe. [Gal 4:22-26]
S. Paulo refere-se ao livro do Génesis [Cap. 3]. No tempo de S. Paulo, Jerusalém estava sob domínio romano. S. Paulo usa este domínio, ou escravidão, para expressar metaforicamente a escravidão dos Judeus à lei de Moisés. S. Paulo vê Agar como símbolo de Jerusalém, porque Agar era uma escrava, e Jerusalém estava sob jugo romano. S. Paulo via, portanto, em Sarai e Agar, no Monte Sinai e em Jerusalém, significados simbólicos que não são aparentes no sentido literal do texto.

Outro exemplo: «Eu estarei diante de ti sobre o rochedo de Horeb. Baterás no rochedo e dele jorrará água: então, o povo poderá beber». Moisés assim fez na presença dos anciãos de Israel. [Ex. 17:6]

S. Paulo ultrapassa o sentido literal e mostra-nos os significados espirituais deste versículo: Não quero que ignoreis, irmãos, que os nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem e que todos passaram através do mar. Todos foram baptizados em Moisés, na nuvem e no mar: todos comeram do mesmo alimento espiritual e todos comeram da mesma comida espiritual. De facto, todos bebiam de um rochedo espiritual que os seguia, que era Cristo. [I Cor 10:1-4]

S. Paulo vê Cristo neste relato do Êxodo, apesar do autor do Livro do Êxodo não dar qualquer indicação de que aquelas frases são simbólicas ou que não devem ser entendidas num sentido exclusivamente literal.

Também no Êxodo encontramos outra história, aparentemente literal, que S. Paulo interpreta simbolicamente. Aí, descreve-se como Moisés depois de falar com Deus, a Sua face brilhava tão intensamente que o povo de Israel tinha medo de se aproximar d'Ele. Isto fez com que Moisés colocasse um véu na face quando falava aos Israelitas [Ex., 34]. S. Paulo interpreta simbolicamente este relato do Êxodo, explicando porque é que os Judeus não compreendem as Escrituras tal como os Cristão as compreendem:
Tendo, pois, esta esperança, agimos com plena segurança. Não fizemos como fazia Moisés, que punha um véu sobre o Seu rosto, a fim de que os filhos de Israel não fixassem o fim que era passageiro. Mas o seu entendimento ficou obscurecido, e ainda hoje quando lêem o Antigo Testamento, esse mesmo véu permanece por levantar, porque é só em Cristo que ele deve ser levantado. Por isso esse véu persiste até hoje nos seus corações, todas as vezes que lêem Moisés. Quando, porém, se converterem ao Senhor, então o véu será tirado. [II Cor 3:12-16]
Neste caso, S. Paulo vê o véu na face de Moisés como um símbolo da não aceitação de Cristo e, consequentemente, a sua incapacidade para compreender a verdadeira mensagem das Escrituras.

Concluindo: em cada um deste exemplos S. Paulo ultrapassa o significado literal e revela um significado oculto. No entanto, não há indicação no texto de que essas passagens devem ser interpretadas de um modo que não o literal. Tal como hoje na perspectiva baha'i, S. Paulo acreditava que as Escrituras continham significa dos ocultos, mesmo quando pareciam perfeitamente literais.

quarta-feira, 15 de junho de 2005

Um Sistema de Duplo Apartheid

No parlamento sueco, durante um seminário sobre Direitos Humanos no Irão organizado pelo Partido Liberal, o Dr. Hossein Bagher Zadeh - um iraniano activista dos direitos humanos - apresentou um texto intitulado Lack of Human Rights in Iran. Num dos primeiros parágrafos lê-se:
"A Republica Islâmica do Irão criou um sistema de duplo apartheid baseado no sexo e na crença. Isto resultou num sistema de múltiplas camadas em que o clero xiita masculino goza de direitos quase ilimitados, incluindo o direito de matar (invocando uma fatwa), enquanto que na base da hierarquia baha’is e ateus podem até perder o direito a viver."
Até quando?

Terra da Alegria

Hoje há Terra da Alegria.



terça-feira, 14 de junho de 2005

Simbolismo nas Escrituras

Quando há alguns dias atrás "postei" sobre as Diferenças entre as Religiões, um comentário de um leitor já habitual (Anonymous #2) foi suficientemente interessante para que eu prometesse um post de resposta. O comentário foi o seguinte:
Compreende-se que uma religião sincretista (penso que podemos designar assim a religião Bahai) prefira, nos textos sagrados que pretende integrar, a linguagem simbólica à linguagem literal. Na verdade, é única forma de conseguir a coerência que pretende. Mas não me parece uma opção intelectualmente corecta. E falo numa perspectiva cristã. Por exemplo, a ressurreição de Cristo. Ela é apresentada ao longo de todo o Novo Testamento como um facto histórico: o túmulo vazio, o encontro dos discípulos com Cristo ressuscitado, o Apóstolo Paulo diz mesmo que se Cristo não ressuscitou é vã a nossa fé (a questão da ressurreição de Jesus foi das primeiras batalhas que a Igreja teve que enfrentar). Concerteza que há lingugem simbólica no Novo Testamento: as parábolas de Jesus, o Apocalipse. Mas aí está bem sinalizado, no próprio texto, o tipo de linguagem utilizada. Fala-se em história, em sonho, etc.
Já aqui disse que um dos maiores problemas de uma religião tipo Bahai é a incoerência do textos que pretende integrar. Existem contradições insanáveis, como a versão bíblica e corânica do episódio com Agar e Ismael.
Também tornar simbólico todos os textos parece-me um opção calamitosa. Porque podemos afirmar uma coisa e o seu oposto com base nas mesmas palavras escritas. Como sabemos o que os fundadores das religiões quiseram dizer (e isto inclui os próprios profetas bahais)? Se tudo é simbólico cada um acaba por tirar do texto apenas aquilo que quer ouvir. E surge até o questionamento sobre a necessidade de existência dos próprios textos. Se quererem dizer qualquer coisa têm alguma utilidade?
Já várias vezes abordei o tema do simbolismo nas Escrituras Sagradas. Mas as questões colocadas, assim como a regularidade e do tipo de comentários deste leitor, justificam que me alongue um pouco neste tema. Para não cansar ninguém, dividi este texto em três partes. Hoje fica aqui a primeira

Apenas como preâmbulo, devo dizer que a religião baha'i possui as suas próprias escrituras, leis e ensinamentos. Não é uma seita ou divisão dentro de outra religião. Também não é uma mistura de religiões. Por esse motivo, não me parece que o termo sincretismo seja o mais adequado para descrever esta religião.

Qualquer religião quando surge, apresenta uma nova perspectiva sobre os princípios, ensinamentos e escrituras das religiões anteriores. Sabemos, por exemplo, que os textos do Antigo Testamento assumiram vários significado diferentes para os cristãos, do que tinham para os Judeus. Desta forma, a ênfase baha'i nos aspectos simbólicos das Escrituras Sagradas de todas as religiões, mais do que uma atitude sincretista, ou esforço por compatibilizar perspectivas antagónicas, é o resultado natural de um processo de evolução religiosa.

O Simbolismo nas Palavras de Jesus

Olhando para o texto dos Evangelhos percebemos que existem uma série de simbolismos cujos significado não é explicado. Veja-se por exemplo as seguintes palavras atribuídas a Jesus: "E [Jesus] disse a outro: «Segue-Me». Mas ele respondeu: «Senhor, deixa-me ir primeiro sepultar o meu pai» Jesus disse-lhe: «Deixa que os mortos sepultem os seus mortos»" [Lc 9:59-60]

O texto não explica o que Cristo queria dizer com estas palavras. O senso comum diz-nos que Jesus não se referia a pessoas mortas que deviam enterrar outras pessoas mortas. Assim, somos forçados a raciocinar para compreender o seu significado. Reflectindo sobre estes versículos encontramos simbolismos: aqueles que estava espiritualmente mortos podiam sepultar o pai do discípulo, enquanto o discípulo seguia Jesus. Isto parece ser uma interpretação aceitável, pois ao usar a morte física como símbolo da descrença, Jesus dá uma grande ênfase à privação resultante da descrença.

Este exemplo não é difícil de entender, mas há simbolismos que são difíceis de detectar e compreender. Durante a vida do próprio Jesus, a interpretação literal das Suas palavras impediu muita gente de O reconhecer. Vejam-se os seguintes exemplos:

Em verdade, te digo: "Quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus". Disse-Lhe Nicodemos: "Como pode nascer um homem sendo velho? Poderá entrar segunda vez no seio de sua mãe e voltar a nascer?" [Jo 3:3-4]

Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Se alguém comer deste pão viverá eternamente; e o pão que Eu hei-de dar é a Minha carne pela vida do mundo. Discutiam então os judeus uns com os outros, dizendo: "Como pode Ele dar-nos a comer a Sua carne?" [Jo 6:51]
Mesmo muitos dos Seus discípulos não conseguiam compreender e diziam: "Duras são estas palavras! Quem pode escuta-las?"[Jo 6:60] Então, Jesus indicou-lhes que as Suas palavras deviam ser entendidas espiritualmente: "O espírito é que dá vida, a carne não serve para nada. As palavras que Eu vos disse são espírito e vida" [Jo 6:63]. E apesar destas explicações, o Evangelho relata que muitos deixaram de seguir Cristo por causa destes ensinamentos [Jo 6:66]. Isto mostra, claramente, como Cristo usava as palavras de um modo simbólico, ao ponto das pessoas se afastarem d'Ele por não as compreenderem.

Lendo o Evangelho encontramos várias parábolas. São histórias alegóricas que ilustram verdades espirituais. Em alguns casos é-nos dada uma explicação sobre o significado da parábola (o semeador e do joio [Mt 13:18-23, 36-43]; a rede de pesca [Mt 13:47-50]), noutros casos não é apresentada qualquer explicação (os vinhateiros [Mc 12:1-12]; as bodas do filho do rei [Mt 22:1-14]; o grande banquete [Lc 14:16-24]). Mas mesmo quando não é dada uma explicação, o significado do simbolismo não é difícil de entender.

Temos assim, uma indicação clara que Jesus usava símbolos para explicar realidades espirituais. A opção de Jesus por uma linguagem simbólica não foi calamitosa (excepto para quem a compreendeu). Esses mesmos símbolos conferem às Suas palavras uma riqueza e uma força espiritual extraordinárias. E é verdade que nesses símbolos até podemos encontrar múltiplos significados que se complementam; mas isso é apenas mais um reflexo do poder da Palavra de Deus. Quanto à utilidade das Suas palavras essa está bem patente na transformação de milhões e milhões de vidas individuais, nas transformações sociais que originou e na civilização que inspirou.

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OUTROS POSTS SOBRE SIMBOLISMO NAS ESCRITURAS:
* Simbolismo e Historicidade das Escrituras
* A Primeira Páscoa
* A Ressurreição de Cristo

segunda-feira, 13 de junho de 2005

Terra da Alegria

Hoje há Terra da Alegria.



Cuba




Cuba é um país onde só há alguns anos a religião baha'i passou a ser tolerada pelo regime. No mês passado a inauguração do reconstruído Centro Baha'i de Havana foi pretexto para um encontro inter-religioso que contou com a presença de Judeus, cristãos, muçulmanos e da representantes da religião Yoruba. Vários membros do governo, ligados ao gabinete dos assuntos religiosos também estiveram presentes.

A notícia completa está no BWNS : Government officials visit Baha'i center.

Estaires

A segunda parte de um conjunto de postais da vila de Estaires. No Antigamente...


quinta-feira, 9 de junho de 2005

En nombre de Cristo, dejen en paz a los Baha’i y la mezquita

Transcrição de um texto publicado ontem, 8 de Junho, no ElMostrador.cl (Chile), a propósito da polémica que rodeou a escolha do local de contrução do futuro Templo Baha'i de Santiago do Chile.
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por Esteban Valenzuela Van Treek

El "Señor" debe estar enojado con sus modernos "cruzados de Santiago" que se opusieron a que se construyera un templo Baha’i en el Cerro San Cristóbal y ahora las emprenden contra la incipiente construcción de mezquitas en Santiago, Coquimbo o Iquique. ¡No, en nombre de Cristo, no hablen!. Él fue claro en que su Reino no era de este mundo (no a la religión oficial), en el diálogo con todos (los hombres de buena voluntad), en romper la tradición de mil normas (un solo mandamiento, el amor al prójimo), en que no había un pueblo escogido (todos los pueblos), encarnado sin temor en su tradición judía (ecumenismo) y consciente de las debilidades y las dudas (como las propias en el huerto de Getsemanì).

Es una grosería sin límites molestar a los Baha'i, que son un pacifista corriente ecuménica con origen en la tradición islámica, pero nacida en Irán en contraposición al fundamentalismo de las sectas. Tuve un gran alumno Baha'i, y sé de sus aportes a la cultura y la educación, como lo han hecho en la Universidad Bolivariana. Lo de oponerse a las mezquitas se parece a los fundamentalistas terroristas que destruyen iglesias y persiguen cristianos en Pakistán o en Indonesia. Algunos de los anti-musulmanes chilenos son colaboradores de grupos católicos que parecen olvidar los propios gestos concretos del Papa Juan Pablo II de pedir perdón por las persecuciones religiosas y la intolerancia contra judíos, ortodoxos, protestantes y los propios musulmanes. Les recomiendo leer al Nobel egipcio, Mafuz, para comprender que en todas las latitudes hay hombres de inspiración religiosa abierta y amorosa, y otros que traicionan su fe para apelar a "identidades homogéneas" y perseguir a "los distintos".

La Virgen del Cerro San Cristóbal estaría más alegre con las reflexiones de los pacíficos Baha'i, que con las antenas del capitalismo salvaje y la contaminación de los conservadores que no quieren regulaciones, pero buscan defender por decreto "religiones de Estado", que se apartan del testimonio del propio Jesús de Nazaret.

En una carta de chilenos de origen judío y palestino (cristianos y musulmanes) se recordaba no sólo la importancia del diálogo en el Medio Oriente, sino la urgencia en Chile de una ley contra la discriminación que no ha logrado la prioridad en la agenda pública que se merece. En nombre de Cristo, hermanos y amigos Baha’i y musulmanes, les pido disculpas, y les expreso nuestro compromiso para defenderlos de estos fundamentalismos, sutiles algunos, extremistas e inconsecuentes, otros. La "copia feliz del edén" y el "asilo contra la opresión" es el Chile fraterno, cooperador, amable y respetuoso de su diversidad, que hoy debemos potenciar y no agraviar.

Terra da Alegria

Quase me esquecia que ontem houve Terra da Alegria.



YELLOW ACCACIA - Imagem obtida no "LITTLE GEMS" EXHIBITION OF PAINTINGS

quarta-feira, 8 de junho de 2005

Earl Cameron

Earl Cameron, baha'i e actor reformado, estava a participar numa actividade da comunidade baha'i do Reino Unido quando recebeu um telefonema do seu agente. Ficou então a saber que Sidney Pollack (o realizador de "Tootsie" e "África Minha") estava interessado na sua participação no filme The Interpreter, um triller político. Não hesitou muito até aceitar o papel.

No filme, Earl Cameron desempenha o papel de Edmund Zuwanie, um presidente corrupto de um país africano fictício e contracena com Nicole Kidman and Sean Penn.

Parte deste triller teve a particularidade de ser filmado no edifício das Nações Unidas, em Nova Iorque, e descreve a história de uma intérprete que toma conhecimento de uma conspiração para assassinar o presidente Zuwanie no momento em que ele se dirige à Assembleia Geral das Nações Unidas.


Uma cena do filme The Interpreter em que o Presidente Zuwanie (Earl Cameron)
se dirige à Assembleia Geral das Nações Unidas. À esquerda está Nicole Kidman.
Foto da Universal Studios.


Segundo Earl Cameron, não o incomodou ter de representar uma personagem desagradável; o que mais o tocou foi falar na tribuna das Nações Unidas. "Ali estava eu perante uma plateia de 2000 figurantes que faziam de embaixadores. Ver os nomes de todos os países naquelas mesas deu-me uma percepção real da importância das Nações Unidas. O mundo está desesperado por paz e não existe outro modo de progredir a não ser em direcção a uma maior cooperação global. As soluções a procurar devem ser encontradas acima dos interesses nacionais - e até agora não existe qualquer organização que consiga dar esses primeiros passos em direcção a uma paz duradoura".

Notícia completa no BWNS: Hollywood role for veteran Baha'i actor.

terça-feira, 7 de junho de 2005

A Escola da Vida

Cada vez mais crianças moçambicanas ficam órfãs, à medida que os pais vão morrendo com Sida. As Nações Unidas estimam que existam 47.000 "órfãos de Sida" naquele país. Como consequência, em algumas áreas rurais, as crianças não sabem como cultivar a comida que necessitam para sobreviver. Nas províncias de Manica e Sofala foram criadas várias escolas para ensinar a estas crianças algumas técnicas agrícolas elementares. Uma foto-reportagem da BBC: Life School.


segunda-feira, 6 de junho de 2005

Ateísmo numa perspectiva Bahá'í

Recentemente, ano Diário Ateísta, a Palmira colocou-me a questão: porquê o combate ao ateísmo sempre foi o denominador comum de todas as religiões? Aqui fica uma resposta em jeito de reflexão.

A pergunta começa por ser redutora; e como todas as pergunta redutoras é susceptível de mal-entendidos. O que é que podemos considerar como religião? As doutrinas contidas nos livros sagrados? As grandes correntes de pensamento religioso? Modelos teológicos específicos? Organizações e instituições religiosas? A massa dos crentes?

E o que podemos considerar como Ateísmo? Sistemas totalitários como comunismo e nazismo, onde Deus foi substituído pelo Estado? O pensamento humanista ou racionalista? O pensamento clássico de Epicuro de Samos? Ou mesmo uma certa maneira de pensar inerente ao capitalismo financeiro em que Deus é substituído pelo dinheiro, as instituições religiosas pelas empresas e os sacerdotes pelos gestores?

A história está repleta casos em que conceitos religiosos ou ateístas foram levados a extremos a ponto de sufocarem a humanidade. Houve que ditaduras cruéis que foram instituídas sob uma pretensa herança religiosa e autoridade divina; e houve regimes totalitários que se basearam em ideologias políticas que se apresentam como substitutos da religião. Mais do que um conflito entre religião e ateísmo, foram tentativas de controlar o pensamento e a liberdade do ser humano. E os resultados foram sempre trágicos.

Mas deixemos estes conflitos políticos e sociais é passemos para o plano dos ensinamentos originais de cada religião. Qual é a religião cujas sagradas escrituras possuem referências inequívocas ao ateísmo? Usando o Ocean encontrei essas referências apenas nas Escrituras Bahá'ís (e esta, hein?!...). Aqui estão as mais significativas:
Quão grande a diferença entre a glória de Cristo e a glória de um conquistador terreno! É relatado pelos historiadores que Napoleão Bonaparte, no Egipto, embarcou em segredo durante a noite. O seu destino era a França. Durante a sua campanha na Palestina, tinha rebentado uma revolução e o governo interno enfrentava sérias dificuldades. O culto cristão tinha sido proibido pelos revolucionários. Os sacerdotes cristãos tinham fugido aterrorizados. A França tinha-se tornado ateia; prevalecia a anarquia. O navio prosseguiu durante a noite sob o luar. Napoleão caminhava no convés de um lado para o outro. Os seus oficiais, sentados, falavam entre si. Um deles falou das semelhanças entre Bonaparte e Cristo. Napoleão parou e disse em tom severo: "Pensas que vou voltar a França para estabelecer uma religião?"[1]

A filosofia hegeliana que, noutros países tem, sob a forma de um nacionalismo militante e intolerante, insistido em deificar o estado, inculcado um espírito de guerra e incitado ao animosidade racial, tem levado igualmente a um significativo enfraquecimento da Igreja e a uma considerável diminuição da sua influência espiritual. Ao contrário da ousada ofensiva que um movimento ostensivamente ateísta lançou contra ela, tanto na União Soviética como para lá das suas fronteiras, esta filosofia nacionalista, que alguns governantes e governos cristãos têm apoiado, é um ataque directo à Igreja por parte daqueles que previamente eram seus confessos aderentes, uma traição à causa por parte dos seus próprios amigos e parentes. Foi apunhalada por uma forma de ateísmo militante e estranho vindo do exterior, e por pregadores de uma doutrina herética vindos do seu interior. Além disso, estas duas forças, cada uma operando na sua esfera e usando as suas armas e métodos, foram auxiliadas e encorajadas por um espírito de modernismo prevalecente, onde se enfatiza uma filosofia puramente materialista e que, à medida que se espalha, tende cada vez mais a afastar a religião da vida diária do homem.[2]
Uma leitura cuidadosa destes excertos permite-nos perceber que se trata da condenação de uma certa expressão de Ateísmo (aquela em que o Estado substitui Deus, o Governo substitui as instituições religiosas e toda a afirmação do chefe de estado deve ser considerada um dogma inquestionável). Poderíamos dizer que os ensinamentos bahá'ís condenam o Ateísmo como um todo? Certamente que não. 'Abdu'l-Bahá, numa palestra afirmou:
Se a religião se torna motivo de ódio e inimizade, então é evidente que a abolição da religião é preferível à sua promulgação. A religião é um remédio para as doenças humanas. Se um remédio provoca doença, então é aconselhável que seja abandonado.[3]
Reduzir estas frases a meras considerações sobre religião e ateísmo, seria perder o que me parece ser o essencial da sua mensagem: qualquer força social (seja uma organização de cariz político, religioso ou social) que seja um agente de perturbação e aflição da sociedade é condenada pelos Escrituras Baha'is. Aqui é impossível não recordar uma frase de Bahá'u'lláh num entrevista a um académico britânico: "Não desejamos senão o bem-estar do mundo e a tranquilidade das nações". Pegando nesta frase e nas considerações anteriores diria que qualquer instituição que trabalhe para "o bem-estar do mundo e a tranquilidade das nações" é preferível a outra que não tenha esse objectivo.

Na minha interpretação pessoal sobre estas citações e sobre outros ensinamentos bahá’ís, parece-me óbvio que, numa perspectiva bahá’í, é preferível um Ateísmo em que os povos vivem em paz do que uma Religião que lança os povos no conflito. No entanto, a história mostra que as civilizações sempre se desenvolveram à sombra de uma religião; não se conhece uma civilização que tenha subsistido sem uma religião. Por outras palavras, a religião - quando cumpre os objectivos a que está destinada pelos seus Fundadores - tem uma capacidade de transformação da sociedade que nenhuma outra ideologia ou filosofia pode rivalizar. Como disse Bahá'u'lláh, "A religião é o principal instrumento para o estabelecimento da ordem no mundo e tranquilidade entre os seus povos"[4].

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NOTAS

[1] - 'Abdu'l-Baha, The Promulgation of Universal Peace, p. 210.
[2] - Shoghi Effendi, The World Order of Baha'u'llah, p. 182.
[3] - 'Abdu'l-Baha, The Promulgation of Universal Peace, p. 373. Este tipo de comentário foi repetido várias vezes por Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá, encontrando-se registado em vários textos das Escrituras Baha’is.
[4] - Baha'u'llah, Tablets of Baha'u'llah, p. 63.

Terra da Alegria

Terra da Alegria, a edição de 2ª feira.



CLAREMOMT BEACH - Imagem obtida no "LITTLE GEMS" EXHIBITION OF PAINTINGS

domingo, 5 de junho de 2005

Estaires

O que se pode encontrar no interior de um envelope destes?



Postais antigos da vila de Estaires, uma localidade francesa na retaguarda das linhas portuguesas, em 1917. No Antigamente...

sábado, 4 de junho de 2005

Uma Novidade!



Tem 13 semanas. Ainda não sabemos se é rapaz ou rapariga. Mas é responsável por uns quantos enjoos e indisposições. Por causa dele já tive de andar à procura de batatas fritas com sabor a queijo!!!

sexta-feira, 3 de junho de 2005

O Centenário Alemão

Os Bahá'ís da Alemanha estão a celebrar o seu centenário. Foi em 1905 que o primeiro baha'i se estabeleceu naquele país; chamava-se Edwin Fisher e era americano de origem alemã. As suas iniciativas e actividades levaram à criação de uma pequena comunidade de crentes que em 1913 recebeu a visita de 'Abdu'l-Bahá. Entre 1937 e 1945 as actividades baha’is estiveram proibidas pelo regime nazi; vários crentes foram interrogados, outros foram detidos e até deportados; alguns baha'is de origem judaica foram mortos.

Após a Segunda Guerra Mundial, os baha'is reiniciaram as suas actividades; na Alemanha do Leste, as actividades baha'is estiveram proibidas até à queda do Muro de Berlim. Espalhados por mais de 90 localidade do território alemão, os baha'is alemães são hoje particularmente activos no diálogo inter-religioso, em actos de promoção dos direitos humanos e defesa do desenvolvimento sustentável.

Para assinalar o centenário têm sido organizadas diversas actividades. Entre estas destacam-se um seminário dedicado ao tema "Requisitos da Coesão Social" em que estiveram presentes ministros, membros do parlamento federal, académicos e representantes de várias comunidades religiosas, e uma recepção - no Centro Baha'i em Berlim – para membros dos parlamentos alemão e europeu, governadores de estado, presidentes de municípios e representantes de partidos políticos.

A notícia completa está no BWNS: Senior government minister praises Baha'i contributions.

quinta-feira, 2 de junho de 2005

À imagem de quem?

Aqui fica um tradução/adaptação resumida do artigo In Whose Image? publicado do Planet Baha'i. Recomendo a leitura do artigo original (tanto mais que esta tradução/adaptação foi feita um pouco à pressa).

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A primeira vez que o ser humano é mencionado na Bíblia é quando Deus se propõe criá-lo; Com a frase "Façamo-lo à nossa imagem e semelhança..." (Gen 1:26) Deus expressa o Seu propósito. O Alcorão menciona o relato bíblico da criação e proclama Deus como Criador da humanidade. Outras tradições religiosas transmitem esta ideia em diferentes palavras; mas o aspecto comum é que todas as religiões (nas suas Escrituras ou tradições) apontam para a existência de um Criador. As escrituras bahá’ís não fogem a esta regra e declaram que Deus é o nosso Criador, acrescentando que a Sua imagem está "gravada" em nós; também referem que os seres humanos têm potencial para reflectir os atributos de Deus.

Mas também há quem se interrogue se não terá sido ao contrário: teriam as pessoas criado Deus à sua imagem e semelhança? Talvez Deus seja uma ficção... talvez as nossas ideias sobre Deus - ou imagem que temos d'Ele - sejam um reflexo daquilo que conhecemos de nós próprios. Numa perspectiva mais crítica, há mesmo quem afirme que as dificuldades em compreender o que Deus é, ou as descrições que as Escrituras fazem d'Ele, são uma prova que se trata de uma personagem de ficção.

Tenho outra perspectiva: a maioria das religiões não nos dá uma imagem correcta de Deus. A mente humana não tem capacidade para entender a realidade do seu Criador. Vejam-se os seguinte exemplos:
  • A Bíblia refere o poder e as qualidades superiores de Deus. O que quer que os seres humanos façam ou pensem, é sempre ultrapassado pelas capacidades de Deus. Isto significa que qualquer concepção humana sobre Deus será sempre inadequada.
  • O Alcorão condena a "associação de parceiros a Deus", isto é, tornar qualquer coisa igual a Deus. A Sua natureza superior desafia todas as tentativas para o compreender.
  • O Bhagavad-Gita descreve o "Não-Criado" e "Não Formado" que está em toda a parte, que se movimenta e tudo sustenta (cap.13), mas que os poderes dos sentidos humanos não conseguem perceber.
  • Buda, que geralmente evitava as discussões de teologia, deixou ensinamentos sobre um "Não-Nascido, Não-Gerado, Não-Criado, Não-Formado", resumindo assim a existência de um Deus que está para lá da compreensão humana.
  • As Escrituras Baha'is afirmam explicitamente que Deus está para lá da compreensão humana, e que qualquer imagem ou ideia que possamos ter da Sua Realidade é sempre incorrecta.
Resumindo: a questão colocada "à imagem de quem?" pode ser respondida de diferentes formas dependendo do contexto. Fomos criados à imagem de Deus, mas as nossas ideias sobre Deus são criadas à nossa própria imagem. Ao longo da história Ele tem-nos mostrado que as nossas ideias não podem ser senão aproximações. É importante ter sempre isto presente.