
"Como não pode haver dignidade se não houver liberdade, naturalmente que eu lutei pela liberdade. Lutei contra todos os regimes prepotentes, lutei contra todas as ditaduras."
Emídio Guerreiro, 1899-2005


Porque a palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante que uma espada de dois gumes; penetra até dividir a alma e o corpo, as junturas e as medulas e discerne os pensamentos e intenções do coração. [Heb 4:12]Talvez fosse à Palavra de Deus - essa linguagem dupla - que Jesus se referiu quando afirmou: "Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada" [Mt 10:34]. Neste versículo, entendo o termo “espada” como simbolizando algo que corta e separa; não como instrumento de guerra ou agressão (mas isto é apenas uma interpretação pessoal).
Num mundo sujeito a uma globalização inelutável, mas desregulada e sem ética, em que os repetidos atentados contra o Planeta são escandalosamente e inconscientemente ignorados, a decisiva importância da ONU avulta como um recurso insubstituível e uma referência.Apesar de concordar com as críticas feitas tenho de reconhecer que as expectativas do Dr. Mário Soares relativamente à reestruturação do Conselho de Segurança e às decisões da próxima Assembleia Geral, mesmo que se concretizem não serão suficientes para que a ONU se torne suficientemente forte no que toca ao seu papel no estabelecimento da paz universal e de regras que controlem a actividade dos grandes grupos económicos mundiais. Mas serão, sem dúvida, um pequeno passo para que a ordem mundial não seja tão injusta.
... a ONU não foi capaz de estabelecer por forma legítima a paz universal (...) , nem nunca conseguiu libertar a Humanidade do medo - e do risco - de concretização das armas nucleares...
... a ONU não teve força para impor regras éticas que assegurassem uma certa ordem nos grandes interesses económicos que dominam e exploram o mundo, com o objectivo único do lucro pelo lucro e ignorando as pessoas e o seu necessário bem-estar.
...pensa-se na necessidade de um governo mundial, ao qual só se pode chegar por via consensual, por uma inteligente reforma da ONU. Não se pode lá chegar, razoavelmente, nem por via do hegemonismo de uma só potência (...), por mais forte que seja militarmente, nem mediante um pseudo-directório de países ricos (o G7 ou o G8) sem legitimidade democrática e que em si mesmo - e pelo que representa - constitui um ultraje para a esmagadora maioria dos Estados que nele não participam.
A ONU ressurge assim como único areópago de carácter mundial a que os povos injustiçados podem recorrer e onde há probabilidades de serem ouvidos.
Veremos se a reforma das Nações Unidas, tão urgente, vai ter finalmente um começo de concretização e países emergentes como o Brasil, a África do Sul e a Indonésia (...) venham a ser admitidos como membros permanentes do Conselho de Segurança.
Veremos se a Assembleia Geral das Nações Unidas será capaz de definir uma estratégia inteligente contra o terrorismo (...) sem pôr em causa o respeito pelos Direitos Humanos e pelas garantias ínsitas na Declaração Universal dos Direitos Humanos.
Não falamos dessas coisas em palavras doutas, de humana sabedoria, mas com aquelas que o espírito ensina e que exprimem as coisas espirituais em termos espirituais. Porque o homem natural não entende as coisas do Espírito de Deus, pois, para ele são loucuras. Não as pode compreender porque devem ser julgadas espiritualmente. [I Cor 2:13-14]As epístolas de S. Paulo contêm algumas interpretações alegóricas do Antigo Testamento, que mostram como a Escritura pode ter múltiplos significados - significados espirituais que podem não ser evidentes ser forem interpretados literalmente. No exemplo seguinte, S. Paulo identifica uma série de simbolismos que não são aparentes no sentido literal:
Pois está escrito que Abraão teve dois filhos: um da escrava e outro da mulher livre. Mas o da escrava nasceu segundo a carne, e o da mulher livre, em virtude da Promessa. Isto foi dito por alegoria, pois as duas mulheres representam as duas alianças: Uma, a do monte Sinai, que gera filhos para a escravidão, é Agar. Ora, o Sinai é um monte da Arábia e corresponde a Jerusalém actual, que é escrava com seus filhos. Mas a Jerusalém, lá do alto, é livre, e esta é nossa mãe. [Gal 4:22-26]S. Paulo refere-se ao livro do Génesis [Cap. 3]. No tempo de S. Paulo, Jerusalém estava sob domínio romano. S. Paulo usa este domínio, ou escravidão, para expressar metaforicamente a escravidão dos Judeus à lei de Moisés. S. Paulo vê Agar como símbolo de Jerusalém, porque Agar era uma escrava, e Jerusalém estava sob jugo romano. S. Paulo via, portanto, em Sarai e Agar, no Monte Sinai e em Jerusalém, significados simbólicos que não são aparentes no sentido literal do texto.
Tendo, pois, esta esperança, agimos com plena segurança. Não fizemos como fazia Moisés, que punha um véu sobre o Seu rosto, a fim de que os filhos de Israel não fixassem o fim que era passageiro. Mas o seu entendimento ficou obscurecido, e ainda hoje quando lêem o Antigo Testamento, esse mesmo véu permanece por levantar, porque é só em Cristo que ele deve ser levantado. Por isso esse véu persiste até hoje nos seus corações, todas as vezes que lêem Moisés. Quando, porém, se converterem ao Senhor, então o véu será tirado. [II Cor 3:12-16]Neste caso, S. Paulo vê o véu na face de Moisés como um símbolo da não aceitação de Cristo e, consequentemente, a sua incapacidade para compreender a verdadeira mensagem das Escrituras.
"A Republica Islâmica do Irão criou um sistema de duplo apartheid baseado no sexo e na crença. Isto resultou num sistema de múltiplas camadas em que o clero xiita masculino goza de direitos quase ilimitados, incluindo o direito de matar (invocando uma fatwa), enquanto que na base da hierarquia baha’is e ateus podem até perder o direito a viver."Até quando?
Compreende-se que uma religião sincretista (penso que podemos designar assim a religião Bahai) prefira, nos textos sagrados que pretende integrar, a linguagem simbólica à linguagem literal. Na verdade, é única forma de conseguir a coerência que pretende. Mas não me parece uma opção intelectualmente corecta. E falo numa perspectiva cristã. Por exemplo, a ressurreição de Cristo. Ela é apresentada ao longo de todo o Novo Testamento como um facto histórico: o túmulo vazio, o encontro dos discípulos com Cristo ressuscitado, o Apóstolo Paulo diz mesmo que se Cristo não ressuscitou é vã a nossa fé (a questão da ressurreição de Jesus foi das primeiras batalhas que a Igreja teve que enfrentar). Concerteza que há lingugem simbólica no Novo Testamento: as parábolas de Jesus, o Apocalipse. Mas aí está bem sinalizado, no próprio texto, o tipo de linguagem utilizada. Fala-se em história, em sonho, etc.Já várias vezes abordei o tema do simbolismo nas Escrituras Sagradas. Mas as questões colocadas, assim como a regularidade e do tipo de comentários deste leitor, justificam que me alongue um pouco neste tema. Para não cansar ninguém, dividi este texto em três partes. Hoje fica aqui a primeira
Já aqui disse que um dos maiores problemas de uma religião tipo Bahai é a incoerência do textos que pretende integrar. Existem contradições insanáveis, como a versão bíblica e corânica do episódio com Agar e Ismael.
Também tornar simbólico todos os textos parece-me um opção calamitosa. Porque podemos afirmar uma coisa e o seu oposto com base nas mesmas palavras escritas. Como sabemos o que os fundadores das religiões quiseram dizer (e isto inclui os próprios profetas bahais)? Se tudo é simbólico cada um acaba por tirar do texto apenas aquilo que quer ouvir. E surge até o questionamento sobre a necessidade de existência dos próprios textos. Se quererem dizer qualquer coisa têm alguma utilidade?
Em verdade, te digo: "Quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus". Disse-Lhe Nicodemos: "Como pode nascer um homem sendo velho? Poderá entrar segunda vez no seio de sua mãe e voltar a nascer?" [Jo 3:3-4]Mesmo muitos dos Seus discípulos não conseguiam compreender e diziam: "Duras são estas palavras! Quem pode escuta-las?"[Jo 6:60] Então, Jesus indicou-lhes que as Suas palavras deviam ser entendidas espiritualmente: "O espírito é que dá vida, a carne não serve para nada. As palavras que Eu vos disse são espírito e vida" [Jo 6:63]. E apesar destas explicações, o Evangelho relata que muitos deixaram de seguir Cristo por causa destes ensinamentos [Jo 6:66]. Isto mostra, claramente, como Cristo usava as palavras de um modo simbólico, ao ponto das pessoas se afastarem d'Ele por não as compreenderem.
Eu sou o pão vivo que desceu do Céu. Se alguém comer deste pão viverá eternamente; e o pão que Eu hei-de dar é a Minha carne pela vida do mundo. Discutiam então os judeus uns com os outros, dizendo: "Como pode Ele dar-nos a comer a Sua carne?" [Jo 6:51]


YELLOW ACCACIA - Imagem obtida no "LITTLE GEMS" EXHIBITION OF PAINTINGS
Quão grande a diferença entre a glória de Cristo e a glória de um conquistador terreno! É relatado pelos historiadores que Napoleão Bonaparte, no Egipto, embarcou em segredo durante a noite. O seu destino era a França. Durante a sua campanha na Palestina, tinha rebentado uma revolução e o governo interno enfrentava sérias dificuldades. O culto cristão tinha sido proibido pelos revolucionários. Os sacerdotes cristãos tinham fugido aterrorizados. A França tinha-se tornado ateia; prevalecia a anarquia. O navio prosseguiu durante a noite sob o luar. Napoleão caminhava no convés de um lado para o outro. Os seus oficiais, sentados, falavam entre si. Um deles falou das semelhanças entre Bonaparte e Cristo. Napoleão parou e disse em tom severo: "Pensas que vou voltar a França para estabelecer uma religião?"[1]Uma leitura cuidadosa destes excertos permite-nos perceber que se trata da condenação de uma certa expressão de Ateísmo (aquela em que o Estado substitui Deus, o Governo substitui as instituições religiosas e toda a afirmação do chefe de estado deve ser considerada um dogma inquestionável). Poderíamos dizer que os ensinamentos bahá'ís condenam o Ateísmo como um todo? Certamente que não. 'Abdu'l-Bahá, numa palestra afirmou:
A filosofia hegeliana que, noutros países tem, sob a forma de um nacionalismo militante e intolerante, insistido em deificar o estado, inculcado um espírito de guerra e incitado ao animosidade racial, tem levado igualmente a um significativo enfraquecimento da Igreja e a uma considerável diminuição da sua influência espiritual. Ao contrário da ousada ofensiva que um movimento ostensivamente ateísta lançou contra ela, tanto na União Soviética como para lá das suas fronteiras, esta filosofia nacionalista, que alguns governantes e governos cristãos têm apoiado, é um ataque directo à Igreja por parte daqueles que previamente eram seus confessos aderentes, uma traição à causa por parte dos seus próprios amigos e parentes. Foi apunhalada por uma forma de ateísmo militante e estranho vindo do exterior, e por pregadores de uma doutrina herética vindos do seu interior. Além disso, estas duas forças, cada uma operando na sua esfera e usando as suas armas e métodos, foram auxiliadas e encorajadas por um espírito de modernismo prevalecente, onde se enfatiza uma filosofia puramente materialista e que, à medida que se espalha, tende cada vez mais a afastar a religião da vida diária do homem.[2]
Se a religião se torna motivo de ódio e inimizade, então é evidente que a abolição da religião é preferível à sua promulgação. A religião é um remédio para as doenças humanas. Se um remédio provoca doença, então é aconselhável que seja abandonado.[3]Reduzir estas frases a meras considerações sobre religião e ateísmo, seria perder o que me parece ser o essencial da sua mensagem: qualquer força social (seja uma organização de cariz político, religioso ou social) que seja um agente de perturbação e aflição da sociedade é condenada pelos Escrituras Baha'is. Aqui é impossível não recordar uma frase de Bahá'u'lláh num entrevista a um académico britânico: "Não desejamos senão o bem-estar do mundo e a tranquilidade das nações". Pegando nesta frase e nas considerações anteriores diria que qualquer instituição que trabalhe para "o bem-estar do mundo e a tranquilidade das nações" é preferível a outra que não tenha esse objectivo.

CLAREMOMT BEACH - Imagem obtida no "LITTLE GEMS" EXHIBITION OF PAINTINGS


CANNA - Imagem obtida no "LITTLE GEMS" EXHIBITION OF PAINTINGS