Vou de férias.
...brincar com o meu filho.
...passear a barriga da minha mulher.
...arejar as ideias e tentar esquecer algumas preocupações.
...passar algum tempo com a família.
Volto lá para o fim do mês de Agosto.
sexta-feira, 29 de julho de 2005
Human Rights Violations Around the World
Um press release divulgado pelas Nações Unidas descreve a audição de várias Organizações Não-Governamentais (e alguns países) junto da Sub-Comissão para a Protecção e Promoção dos Direitos Humanos. Este comunicado apresenta um resumo das declarações de cada representante das ONG. O resultado é um retrato da situação dos direitos humanos em todo o mundo. Problemas, dramas e situações inacreditáveis em países e lugares que raramente ouvimos falar.
Apesar de destacar aqui apenas as duas intervenções que referem a situação dos Baha'is no Irão, recomendo vivamente a leitura de todo este comunicado.
Apesar de destacar aqui apenas as duas intervenções que referem a situação dos Baha'is no Irão, recomendo vivamente a leitura de todo este comunicado.
Non-Governmental Organizations Decry Human Rights Violations Around the World
(...)
ALEXANDRA POMEON O'NEIL, of International Federation of Human Rights Leagues, said the League was concerned about the recrudescence of human rights violations, the situation of the Bahai minority and flawed presidential elections in Iran. On 19 July, two boys were publicly hanged in Mashhad, after receiving 228 whips each. Ayaz Marhoni was 18 and Mohamoud Asgari was a minor. They were probably sentenced to death for their sexual orientation. In Uzbekistan, the army had opened fire on thousands of demonstrators on 13 May 2005. About 200 persons were believed to have been killed. Since that incident, many hundred people had sought sanctuary in Russia and Kyrgyzstan. On the Russian Federation, the League deplored the serious regression of the rule of law and human rights in Chechnya. The speaker also highlighted human rights situations in the Israeli-occupied territories, Togo, Côte d'Ivoire and the human rights violations by the United States against prisoners in Guantanamo.
(...)
DIANE ALA'I, of Baha'i International Community, said that the situation of the Baha'is in the Iran had deteriorated. Early this year, persecution against members of this community had intensified. The worst violence occurred in the city of Yazd, where men equipped with batons and communication devices attacked three Baha'i homes in January. A wave of arrests and imprisonments had followed, and most of the prisoners were arbitrarily detained without any charge being filed against them. The Baha'is were not the only people suffering from recurrent human rights violations in Iran, but they were systematically targeted and relentlessly pressured, for only one reason: they would not give up their faith. The situation of human rights in Iran had been absent from the agenda of the Commission for the past three years, and during that time human rights violations against the Bahai's had gradually increased. The Community therefore called upon the Experts of the Sub-Commission to join with civil society in expressing grave concern about the situation in Iran.
(…)
O Desterro do Báb em Mah-Ku (3)
A permanência do Báb em Mah-Ku chegou ao conhecimento de missionários e diplomatas estrangeiros que estavam na Pérsia em 1847. Por exemplo, o ministro russo em Teerão, Príncipe Dolgorukov, alarmado com o crescente fluxo de Babis que ocorriam àquela localidade no noroeste da Pérsia, tão próximo da fronteira com o Império Russo, solicitou ao Governo persa que o Báb fosse levado de Mah-Ku[1]. Este diplomata temia a repetição de distúrbios religiosos nas províncias russas do Cáucaso, bem próximo do Azerbaijão persa.
A mais curiosa referência à presença do Báb em Mah-ku foi feita em 1853, por um missionário americano, Dr. Austin H. Wright. Num artigo, intitulado "A Short Chapter in the History of the Babeeism in Persia" e enviado para a American Oriental Society, escreveu:
NOTAS
[1] – O texto do despacho de Dolgorukov está disponível em The Babi an Baha’i Religions, 1844-1944, Some Contemporary Western Accounts, Moojam Momen, pag 72.
[2] – The Babi an Baha’i Religions, 1844-1944, Some Contemporary Western Accounts, Moojam Momen, pag.10, citando "Bab und seine Sect", p384-385. Este artigo não chegou a ser publicado em inglês; no entanto, a sua tradução foi publicada na Alemanha.
A mais curiosa referência à presença do Báb em Mah-ku foi feita em 1853, por um missionário americano, Dr. Austin H. Wright. Num artigo, intitulado "A Short Chapter in the History of the Babeeism in Persia" e enviado para a American Oriental Society, escreveu:
Há cerca de oito anos, apareceu um homem no sul da Pérsia na região de Shiraz, que afirmou ser o único caminho para alcançar Deus, e de acordo com isso adoptou o nome de Báb (a palavra árabe para "porta" ou "portão"). Encontrou algumas pessoas que acreditaram nele e tornaram-se seus seguidores. Uma das suas doutrinas era que todos os homens devem ser seus súbditos e, portanto, o poder exercido pelo Xá era ilegítimo. Isto continuou a ser disseminado e em breve chegou aos ouvidos do Monarca. Foi chamado à capital, mantido aí durante bastante tempo e depois foi banido para Maku, um distrito remoto, a seis dias de viagem de Urumiyyih, nas fronteiras turcas. Aqui foi mantido sob custódia, mas qualquer pessoa que quisesse vê-lo era admitido e ele podia enviar cartas aos seus amigos que se tinham tornado muito numerosos na Pérsia. Ele foi visitado por várias pessoas de Urumiyyih que se tornaram seus seguidores. Ele ditou a um escriba algo que ele chamou o seu Alcorão, e as frases em árabe fluíam tão rápido da sua boca que muitos persas que testemunharam isso acreditavam que ele era inspirado. Também foi relatado que ele fez milagres e que as massas da população acreditaram neste rumor, pois era sabido que ele vivia uma vida casta e passava a maior parte do seu tempo em oração. Como consequência, ele foi levado para ‘Tschari’ perto de Salmás, apenas a dois dias de viagem de Urumiyyih, aí esteve completamente isolado do mundo. Mas continuou a escrever cartas aos seus amigos, que se espalhavam como efusões de uma inspiração [2]--------------------------------
NOTAS
[1] – O texto do despacho de Dolgorukov está disponível em The Babi an Baha’i Religions, 1844-1944, Some Contemporary Western Accounts, Moojam Momen, pag 72.
[2] – The Babi an Baha’i Religions, 1844-1944, Some Contemporary Western Accounts, Moojam Momen, pag.10, citando "Bab und seine Sect", p384-385. Este artigo não chegou a ser publicado em inglês; no entanto, a sua tradução foi publicada na Alemanha.
quinta-feira, 28 de julho de 2005
O Desterro do Báb em Mah-Ku (2)
Em Julho de 1847, a decisão do primeiro-ministro persa de isolar o Báb no forte de Mah-Ku teve um efeito inesperado. Longe do contacto com familiares e crentes, o Báb teve a tranquilidade necessária para revelar e registar os Seus ensinamentos. Até à data do Seu encarceramento, o Báb tinha revelado o equivalente a cinco mil versículos. Muito desses escritos tinham sido destruídos por pessoas com medo do que lhes pudesse acontecer no caso de serem apanhados com esses documentos na sua posse.
O primeiro Babi a chegar a Mah-Ku deixou um relato da forma como eram revelados os escritos no forte:

Ruínas da Fortaleza de Mah-Ku, onde o Báb esteve desterrado durante nove meses.
Durante aqueles meses, o Báb revelou nove comentários ao Alcorão; também foram escritos várias epístolas ao Xá Muhammad, a vários clérigos das principais cidades persas e ainda de Najaf e Kerbala. Foi também durante esse tempo que foi revelado um trabalho intitulado "As Sete Provas", o Bayan Árabe e o Bayan Persa (este último contém oito mil versículos e é o livro mais importante da religião Babi) [2].
No Bayan (em português, "Expressão" ou "Elocução"), o Báb revoga as leis islâmicas relativas a práticas como oração, jejum, casamento, divórcio e herança, apesar de afirmar repetidamente a divindade de Maomé. Além disso revela um conjunto de leis e afirma repetidamente que quando aparecer "Aquele que Deus tornará Manifesto", Ele poderá aprovar ou alterar as leis reveladas no Bayan. O livro contém explicações sobre termos teológicos como Paraíso, Inferno, Morte, Ressurreição e Juízo Final. Neste livro, o Báb não nomeia qualquer sucessor ou intérprete dos Seus ensinamentos.
Foi também durante o exílio em Mah-Ku, que o Bab recebeu a visita de Mulla Husayn, o Seu primeiro discípulo[3]. Este vivia em Mashad, na província de Khurasan - no extremo nordeste da Pérsia - e decidira viajar a pé até Mah-Ku[4]. Vários crentes em Mashad tentaram persuadi-lo a viajar a cavalo ou numa caravana. Mulla Husayn manteve sempre a sua decisão e apenas permitiu que um crente o acompanhasse. A viagem decorreu sem incidentes; foram sempre recebidos por babis nas várias vilas e cidades por onde passavam; em Teerão, encontrou-se com Bahá'u'lláh.
Na véspera do Naw-Ruz[5] de 1848, estava apenas a um dia viagem de Mah-Ku. Nessa noite, o comandante do forte teve um outro sonho misterioso. Nesse sonho, o Profeta Maomé e um dos Seus companheiros vinham visitar o forte de Mah-Ku. ‘Ali Khan viu o Profeta aparecer na ponte sobre o rio que banha a vila de Mah-Ku; lançou-se aos Seus pés e beijou o manto. Acordou em sobressalto. Vestiu a sua melhor roupa e apressou-se para a ponte. Ao romper do dia, avistou dois vultos (Mulla Husayn e o seu companheiro) sobre a ponte. E tal como no sonho, acreditou tratar-se do Profeta e um dos Seus companheiros; ajoelhou-se e beijou a roupa de Mulla Husayn. Com todo o respeito e humildade e ofereceu-se para os levar a cavalo até ao forte; mas Mulla Husayn quis concluir a caminhada no forte.

Ruínas da Fortaleza de Mah-Ku, onde o Báb esteve desterrado durante nove meses.
O Bab recebeu calorosamente Mulla Husayn e decidiu celebrar aquele Naw-Ruz com aquele Seu primeiro discípulo e os Seus secretários. Com a crescente admiração de 'Ali Khan pelo Báb, foi fácil conseguir autorização para que Mulla Husayn pernoitasse no forte. Durante nove dias, Mulla Husayn permaneceu no forte; teve muitas e prolongadas conversas com o Báb. O Báb foi aconselhando Mulla Husayn sobre as formas de divulgar a nova religião e as cidades que devia visitar. Um dia disse-lhe:
--------------
NOTAS
[1] - The Dawnbreakers, pag. 249.
[2] - Para ter uma ideia do volume do texto é importante ter presente que o Alcorão possui 6616 versículos.
[3] - Ver O Primeiro Acto.
[4] - A distância entre os dois locais é cerca de 1600 Km.
[5] - O ano novo persa, que se celebra em 21 de Março.
[6] - Sobre este sonho e este tipo de experiências ver comentário num post anterior.
[7] - The Dawnbreakers, pag. 259.
O primeiro Babi a chegar a Mah-Ku deixou um relato da forma como eram revelados os escritos no forte:
"A voz do Báb, enquanto Ele ditava os ensinamentos e princípios da Sua Fé, podia ser claramente ouvida por aqueles que moravam perto da montanha. A melodia da Sua entoação, o fluxo rítmico dos versículos que emanavam dos Seus lábios, captava nossos ouvidos e penetrava na nossa própria alma. A montanha e o vale ecoavam a majestade da Sua voz. Os nossos corações vibravam até às profundezas com o apelo das Suas palavras."[1]
Ruínas da Fortaleza de Mah-Ku, onde o Báb esteve desterrado durante nove meses.
Durante aqueles meses, o Báb revelou nove comentários ao Alcorão; também foram escritos várias epístolas ao Xá Muhammad, a vários clérigos das principais cidades persas e ainda de Najaf e Kerbala. Foi também durante esse tempo que foi revelado um trabalho intitulado "As Sete Provas", o Bayan Árabe e o Bayan Persa (este último contém oito mil versículos e é o livro mais importante da religião Babi) [2].
No Bayan (em português, "Expressão" ou "Elocução"), o Báb revoga as leis islâmicas relativas a práticas como oração, jejum, casamento, divórcio e herança, apesar de afirmar repetidamente a divindade de Maomé. Além disso revela um conjunto de leis e afirma repetidamente que quando aparecer "Aquele que Deus tornará Manifesto", Ele poderá aprovar ou alterar as leis reveladas no Bayan. O livro contém explicações sobre termos teológicos como Paraíso, Inferno, Morte, Ressurreição e Juízo Final. Neste livro, o Báb não nomeia qualquer sucessor ou intérprete dos Seus ensinamentos.
Foi também durante o exílio em Mah-Ku, que o Bab recebeu a visita de Mulla Husayn, o Seu primeiro discípulo[3]. Este vivia em Mashad, na província de Khurasan - no extremo nordeste da Pérsia - e decidira viajar a pé até Mah-Ku[4]. Vários crentes em Mashad tentaram persuadi-lo a viajar a cavalo ou numa caravana. Mulla Husayn manteve sempre a sua decisão e apenas permitiu que um crente o acompanhasse. A viagem decorreu sem incidentes; foram sempre recebidos por babis nas várias vilas e cidades por onde passavam; em Teerão, encontrou-se com Bahá'u'lláh.
Na véspera do Naw-Ruz[5] de 1848, estava apenas a um dia viagem de Mah-Ku. Nessa noite, o comandante do forte teve um outro sonho misterioso. Nesse sonho, o Profeta Maomé e um dos Seus companheiros vinham visitar o forte de Mah-Ku. ‘Ali Khan viu o Profeta aparecer na ponte sobre o rio que banha a vila de Mah-Ku; lançou-se aos Seus pés e beijou o manto. Acordou em sobressalto. Vestiu a sua melhor roupa e apressou-se para a ponte. Ao romper do dia, avistou dois vultos (Mulla Husayn e o seu companheiro) sobre a ponte. E tal como no sonho, acreditou tratar-se do Profeta e um dos Seus companheiros; ajoelhou-se e beijou a roupa de Mulla Husayn. Com todo o respeito e humildade e ofereceu-se para os levar a cavalo até ao forte; mas Mulla Husayn quis concluir a caminhada no forte.
Ruínas da Fortaleza de Mah-Ku, onde o Báb esteve desterrado durante nove meses.
O Bab recebeu calorosamente Mulla Husayn e decidiu celebrar aquele Naw-Ruz com aquele Seu primeiro discípulo e os Seus secretários. Com a crescente admiração de 'Ali Khan pelo Báb, foi fácil conseguir autorização para que Mulla Husayn pernoitasse no forte. Durante nove dias, Mulla Husayn permaneceu no forte; teve muitas e prolongadas conversas com o Báb. O Báb foi aconselhando Mulla Husayn sobre as formas de divulgar a nova religião e as cidades que devia visitar. Um dia disse-lhe:
"Os dias da tua estadia nesta região aproximam-se do fim... Alguns dias depois da tua partida deste local, transferir-Nos-ão para outra montanha. Quando chegares ao teu destino, as notícias da Nossa partida de Mah-Ku chegar-te-ão."[7]Aqueles nove dias foram o último encontro entre Mulla Husayn e o Báb. Durante a despedida o Báb profetizou ainda alguns actos heróicos que viriam a ser cometidos por Mulla Husayn. Dias mais tarde, o primeiro-ministro ordenou que o Báb fosse encarcerado em Chiriq, uma outra fortaleza do Azerbaijão persa.
--------------
NOTAS
[1] - The Dawnbreakers, pag. 249.
[2] - Para ter uma ideia do volume do texto é importante ter presente que o Alcorão possui 6616 versículos.
[3] - Ver O Primeiro Acto.
[4] - A distância entre os dois locais é cerca de 1600 Km.
[5] - O ano novo persa, que se celebra em 21 de Março.
[6] - Sobre este sonho e este tipo de experiências ver comentário num post anterior.
[7] - The Dawnbreakers, pag. 259.
quarta-feira, 27 de julho de 2005
Recém-licenciado e Desempregado
“O problema não é o excesso de licenciados, mas a falta de emprego” são palavras de Leopoldo Guimarães, Reitor da Universidade Nova de Lisboa, publicadas ontem num jornal diário, relativamente ao desemprego de jovens recém licenciados. A serem verdade estas palavras (ainda estou para ver se não foram tiradas do contexto) são tão surpreendentes, quanto preocupantes. Surpreendente, porque parte significativa do desemprego de recém-licenciados tem origem num excesso de vagas disponibilizadas em alguns cursos universitários; preocupante, porque a universidade enquanto polo de desenvolvimento de conhecimento e criação de recursos humanos qualificados deve estar atenta às necessidades do meio em que está inserida.O que se infere das palavras do Reitor é uma postura estática da universidade em relação ao mercado de trabalho (do tipo “nós produzimos os licenciados e as empresas é que têm de lhes arranjar trabalho; se as empresas não lhes dão trabalho isso é lá problema deles”). Como pode uma universidade viver isolada do mundo empresarial?
Se o mercado não absorve um determinado número de licenciados numa determinada área, então é obrigação da Universidade reduzir a oferta de vagas nesse curso. De igual modo se se verifica carência de licenciados numa outra área, é dever da Universidade aumentar a oferta de vagas nessa área. O que não é correcto é que a Universidade tenha um comportamento autista em relação ao mercado de trabalho e ao mundo empresarial, não assumindo a sua quota de responsabilidade no desemprego de recém licenciados e persista em manter uma oferta de vagas inadequada em alguns cursos.
Na minha opinião, o número de vagas disponibilizadas nos cursos universitários devia ser proporcional às necessidades do mundo do trabalho; essa quantidade de vagas podia ser revista periodicamente (de cinco em cinco, ou de dez em dez anos). Veja-se o caso de cursos como Relações Internacionais e Medicina. Todos sabemos do problema de falta de médicos com que os estabelecimentos de saúde se debatem; e com alguma facilidade encontramos licenciados em Relações Internacionais no desemprego ou em empregos que nada têm a ver com a sua formação. Será que isto é problema do mercado de trabalho? Ou será um sinal de inadequação Universidade às necessidades sociais?
É certo que estamos a viver uma crise económica e que em todos os ramos de actividade é difícil encontrar um emprego. Mas a tão apregoada competitividade e o almejado desenvolvimento económico passa inevitavelmente pela cooperação Universidade-Empresa. Esta cooperação pode estabelecer-se em muitas áreas e assumir muitas formas (não se resume apenas à mera formação de recursos em quantidade e qualidade de acordo com as necessidades das empresas). Mas a persistência na oferta excessiva de vagas numa determinada área é um sintoma de que algo vai mal nas nossas Universidades.
terça-feira, 26 de julho de 2005
O Desterro do Báb em Mah-Ku (1)
Em meados de 1847, o primeiro-ministro persa, Haji Mirzá Aqasi, convencera o Xá Muhammad a prender o Báb num local remoto do país. Acreditava que o Seu isolamento e a falta de contacto com os crentes poderia fazer esmorecer o entusiasmo e interesse pela nova religião. O local escolhido foi o forte de Mah-Ku, nas montanhas do Azerbaijão persa. Para chegar ao local, depois de percorrer estradas íngremes e sinuosas, é necessário passar pela vila do mesmo nome. Além do isolamento, a região também se caracterizava pela agressividade do clima: calor intenso no verão e frio tremendo no inverno.
O governador do forte de Mah-Ku era 'Alí Khan, um homem rude e simples que ansiava agradar ao primeiro-ministro. Em Julho de 1847, ao receber o Báb no forte, cumpriu as ordens com todo o rigor. Tanto 'Ali Khan como os guardas da prisão pouco se importaram com as condições de detenção do Báb. O facto daquele Prisioneiro ser descendente do Profeta Maomé era mesmo um motivo de maior aversão [1]. Excepcionalmente permitiu que duas pessoas (secretários pessoais) tivessem contacto com o Báb; essas duas pessoas tinham autorização para se deslocar à vila de Mah-Ku para comprar alimentos e outros bens.
Com o passar do tempo, foi-se desvanecendo a antipatia dos guardas e o rigor com que as ordens eram cumpridas. No forte ninguém conseguia ser insensível àquele Prisioneiro e, pouco a pouco, na vila foi-se sabendo do Seu carácter e Sua sabedoria. Vários habitantes de Mah-Ku, começaram a visitar o forte; uns vinham pedir conselhos, outros procuravam ajuda na resolução de diferendos e outros apenas uma benção. Simultaneamente, por essa altura, alguns Babis iam aparecendo na vila e enviavam mensagens para o Báb, através dos Seus secretários que se deslocavam à povoação.
O Báb confirmou a veracidade da visão de ‘Alí Khan e pediu-lhe que abrisse as portas da prisão para todos os que O quisessem visitar. ‘Alí Khan acedeu a esse pedido e passou a tomar todas as providências para minimizar o desconforto do Báb naquele local. Ofertas de frutas dos pomares vizinhos e visitas demoradas às sextas-feiras tornaram-se comuns. Além disso, com as portas da prisão aberta, tornou-se notório o fluxo de peregrinos babis provenientes de toda a Pérsia em direcção a Mah-Ku. O Báb recebia-os durante três dias e depois aconselhava-os sobre o trabalho de divulgação da nova religião.
A tentativa do primeiro-ministro para isolar o Báb fracassara.
----------------------------------
NOTAS
[1] - A maioria dos habitantes da região de Mah-Ku é sunita e de etnia curda. Os sunitas mostram com frequência aversão aos xiitas, e particularmente aos descendentes do Profeta Maomé.
[2] - A experiência de 'Ali Khan deve ser entendida como uma experiência mística pessoal. Existem alguns relatos deste tipo feitos pelos primeiros crentes. No entanto, estes não são apresentados como provas da divindade do Báb ou de Bahá'u'lláh, mas apenas como experiências pessoais.
O primeiro-ministro persa, Haji Mirzá Aqasi (1850)
O governador do forte de Mah-Ku era 'Alí Khan, um homem rude e simples que ansiava agradar ao primeiro-ministro. Em Julho de 1847, ao receber o Báb no forte, cumpriu as ordens com todo o rigor. Tanto 'Ali Khan como os guardas da prisão pouco se importaram com as condições de detenção do Báb. O facto daquele Prisioneiro ser descendente do Profeta Maomé era mesmo um motivo de maior aversão [1]. Excepcionalmente permitiu que duas pessoas (secretários pessoais) tivessem contacto com o Báb; essas duas pessoas tinham autorização para se deslocar à vila de Mah-Ku para comprar alimentos e outros bens.
Com o passar do tempo, foi-se desvanecendo a antipatia dos guardas e o rigor com que as ordens eram cumpridas. No forte ninguém conseguia ser insensível àquele Prisioneiro e, pouco a pouco, na vila foi-se sabendo do Seu carácter e Sua sabedoria. Vários habitantes de Mah-Ku, começaram a visitar o forte; uns vinham pedir conselhos, outros procuravam ajuda na resolução de diferendos e outros apenas uma benção. Simultaneamente, por essa altura, alguns Babis iam aparecendo na vila e enviavam mensagens para o Báb, através dos Seus secretários que se deslocavam à povoação.
A vila de Mah-Ku, no Azerbaijão persa
O Báb confirmou a veracidade da visão de ‘Alí Khan e pediu-lhe que abrisse as portas da prisão para todos os que O quisessem visitar. ‘Alí Khan acedeu a esse pedido e passou a tomar todas as providências para minimizar o desconforto do Báb naquele local. Ofertas de frutas dos pomares vizinhos e visitas demoradas às sextas-feiras tornaram-se comuns. Além disso, com as portas da prisão aberta, tornou-se notório o fluxo de peregrinos babis provenientes de toda a Pérsia em direcção a Mah-Ku. O Báb recebia-os durante três dias e depois aconselhava-os sobre o trabalho de divulgação da nova religião.
A tentativa do primeiro-ministro para isolar o Báb fracassara.
----------------------------------
NOTAS
[1] - A maioria dos habitantes da região de Mah-Ku é sunita e de etnia curda. Os sunitas mostram com frequência aversão aos xiitas, e particularmente aos descendentes do Profeta Maomé.
[2] - A experiência de 'Ali Khan deve ser entendida como uma experiência mística pessoal. Existem alguns relatos deste tipo feitos pelos primeiros crentes. No entanto, estes não são apresentados como provas da divindade do Báb ou de Bahá'u'lláh, mas apenas como experiências pessoais.
segunda-feira, 25 de julho de 2005
sexta-feira, 22 de julho de 2005
Uma Plataforma de Entendimento
A palavra religião pode ser usada com múltiplos significados. Não é raro vê-la invocada para descrever uma corrente religiosa, um modelo teológico, uma organização ou mesmo uma seita (independentemente do carácter pejorativo desta palavra). Nos meus posts e comentários noutros blogs tenho usado a palavra religião como sinónimo de princípios e ensinamentos originais revelados nas escrituras dessa religião; creio que isso já ficou claro. Curiosamente nunca ninguém me perguntou "Se uma religião não pode ser identificada com organizações que rivalizam entre si e disputam a autoridade sobre os crentes e a legitimidade das suas interpretações, então onde está essa religião? Onde está o Judaísmo, o Cristianismo o Budismo, o Islão e outras?"
É praticamente impossível ver cada uma das grandes religiões mundiais como um corpo uniforme de interpretações e instituições. Em vez disso, em cada religião podemos encontrar várias interpretações dos textos originais, dúvidas quanto à legitimidade da autoridade de organizações religiosas, diversas tradições e práticas, tensões e conflitos. É por este motivo que me parece mais correcto identificar a palavra religião com aquilo que está na génese das grandes religiões mundiais; todo o resto são frutos da religião, resultados de condicionantes culturais e evoluções históricas.
Tendo em conta o cenário de diversidade cultural, religiosa e étnica do mundo actual, poderíamos questionar: Até que ponto uma das mais conhecidas religiões mundiais poderia assumir o papel de guia actualizado para os assuntos da vida contemporânea (assumindo que todas as suas correntes de pensamento, modelos teológicos e seitas chegariam a acordo)? Poderia refazer o seu conjunto principal de ensinamentos de forma legítima e de acordo com as suas escrituras originais? E poderia responder adequadamente a tantas e tantas questões colocadas pela evolução social e intelectual?
Não tenho dúvida que é uma questão que suscita as mais variadas especulações e reacções, desde a repetida afirmação da exclusividade e validade de uma determinada crença até a rejeição e afirmação da inutilidade de todo o fenómeno religioso. Na minha opinião, a resposta passa pelo reconhecimento de que há um só Deus, e, consequentemente, a religião é apenas uma (independentemente da diversidade cultural e expressão humana). Com isto não se pretendo desafiar a validade de cada uma das religiões reveladas, mas sim de compreender adequadamente o contributo da religião - nas suas diferentes revelações - para a evolução humana (já abordei este assunto noutros posts).
É no aspecto do reconhecimento da unidade da religião, que os ensinamentos bahá’ís apresentam um conjunto de princípios que me parecem capazes de ajudar a responder às questões anteriores. Poderia tentar resumi-los da seguinte forma:
Este conjunto de ensinamentos (apesar de muito resumidos e expostos de forma simplista) além de se apresentarem como uma plataforma de entendimento inter-religioso, descrevem ainda sucessivas revelações divinas cujo propósito é fazer despertar as capacidades dos seres humanos e da humanidade; mais do que um processo meramente repetitivo, a religião é acima de tudo um processo evolutivo.
É praticamente impossível ver cada uma das grandes religiões mundiais como um corpo uniforme de interpretações e instituições. Em vez disso, em cada religião podemos encontrar várias interpretações dos textos originais, dúvidas quanto à legitimidade da autoridade de organizações religiosas, diversas tradições e práticas, tensões e conflitos. É por este motivo que me parece mais correcto identificar a palavra religião com aquilo que está na génese das grandes religiões mundiais; todo o resto são frutos da religião, resultados de condicionantes culturais e evoluções históricas.Tendo em conta o cenário de diversidade cultural, religiosa e étnica do mundo actual, poderíamos questionar: Até que ponto uma das mais conhecidas religiões mundiais poderia assumir o papel de guia actualizado para os assuntos da vida contemporânea (assumindo que todas as suas correntes de pensamento, modelos teológicos e seitas chegariam a acordo)? Poderia refazer o seu conjunto principal de ensinamentos de forma legítima e de acordo com as suas escrituras originais? E poderia responder adequadamente a tantas e tantas questões colocadas pela evolução social e intelectual?
Não tenho dúvida que é uma questão que suscita as mais variadas especulações e reacções, desde a repetida afirmação da exclusividade e validade de uma determinada crença até a rejeição e afirmação da inutilidade de todo o fenómeno religioso. Na minha opinião, a resposta passa pelo reconhecimento de que há um só Deus, e, consequentemente, a religião é apenas uma (independentemente da diversidade cultural e expressão humana). Com isto não se pretendo desafiar a validade de cada uma das religiões reveladas, mas sim de compreender adequadamente o contributo da religião - nas suas diferentes revelações - para a evolução humana (já abordei este assunto noutros posts).
É no aspecto do reconhecimento da unidade da religião, que os ensinamentos bahá’ís apresentam um conjunto de princípios que me parecem capazes de ajudar a responder às questões anteriores. Poderia tentar resumi-los da seguinte forma:
- Existe apenas um Deus e a Sua Realidade não pode ser partilhada nem compreendida pela Sua Criação;
- Deus manifesta-Se através do aparecimento de Figuras Proféticas que manifestam atributos da Divindade inacessível.
- Não podemos fazer distinções entre essas Figuras Proféticas, ou supor que uma tem qualidades superiores a outra.
Este conjunto de ensinamentos (apesar de muito resumidos e expostos de forma simplista) além de se apresentarem como uma plataforma de entendimento inter-religioso, descrevem ainda sucessivas revelações divinas cujo propósito é fazer despertar as capacidades dos seres humanos e da humanidade; mais do que um processo meramente repetitivo, a religião é acima de tudo um processo evolutivo.
quinta-feira, 21 de julho de 2005
Sondagem do Reader's Digest
Notícia do Público de hoje:
Portugueses são os segundos que mais acreditam em Deus
Os Portugueses são, depois dos polacos, o segundo povo mais crente da Europa. De acordo com uma sondagem de 8600 entrevistas em 14 países do continente, sete em cada dez europeus acreditam em Deus, mas pouco mais de metade crêem na existência de vida depois da morte.
A Polónia é o país onde maior número de pessoas – 97 por cento – diz acreditar em Deus. Em Portugal são 90 por cento e a Rússia vem logo atrás, com 87 por cento. No fundo da lista estão a Bélgica (58%), a Holanda (51%) e a Republica Checa(37%).
Respondendo a outra pergunta, quatro em cada dez europeus afirmaram que a religião é necessária para distinguir o bem e o mal. Esta ideia é mais aceite entre os polacos (86%) e os russos (78%), e menos entre os checos (27%), holandeses (25%) e franceses (24%).
A sondagem, citada pelo Evangelical Times foi encomendada pelo Reader’s Digest alemão. Os alemães, no que respeita à religião, ainda estão divididos entre as antigas Alemanha de Leste (comunista) onde 77 por cento não acreditam em Deus, e a Alemanha Ocidental, onde apenas 22 por cento dizem que não crêem.
Os números reflectem ainda o que os inquiridos pensam da oração: 65 por cento acham que ela é a maneira de estabelecerem diálogo com Deus. Dois terços de todos os crentes afirmam que rezar por “pessoas que são importantes” para eles, colocando em segundo lugar questões que têm a ver com a paz e a justiça.
Só no fim da lista estão as orações pelos "pecados e pela [própria] salvação" (13 por cento) ou pelo trabalho e emprego pessoal (11 por cento).
Muhammad and the Course of Islam
Quando, a propósito dos atentados de Londres no início deste mês, sugeri a leitura de um bom livro sobre o Islão, houve quem me perguntasse qual seria o melhor livro sobre o assunto. É difícil dizê-lo, pois o Islão (como qualquer outra religião) pode ser apresentado de muitas perspectivas. O livro que mais me fascinou sobre a religião muçulmana foi Muhammad and the Course of Islam, de Hasan Balyuzi.O livro publicado em 1976 (e reeditado em 2002), não refere obviamente os mais recentes eventos e transformações associados ao Islão. Mas o facto de apresentar, numa linguagem não académica, uma biografia detalhada de Maomé e uma descrição da história do Islão e da civilização árabe desde a sua fundação até ao sec. XIX, fazem dele um excelente instrumento para melhor compreendermos a religião muçulmana.
O livro está disponível na Amazon e na George Ronald, e - tanto quanto sei - não existe ainda uma tradução portuguesa.
quarta-feira, 20 de julho de 2005
Olivais
Através do Eufigénio, descobri no Olissipo uma série de posts davam a conhecer as história do bairro dos Olivais, em Lisboa. Uma das infra-estruturas recentes deste bairro é a linha de Metro. As fotos seguintes mostram dois pormenores dos azulejos que cobrem o interior da estação de Metro dos Olivais.


Terra da Alegria
Fundamentalistas islâmicos no Speakers Corner, Petróleo, Islão, Tigres e até o PensaBEM, hoje na Terra da Alegria.
terça-feira, 19 de julho de 2005
Badí'
Quando em Adrianópolis, Bahá'u'lláh revelou uma Epístola dirigida ao Xá da Pérsia (ver aqui e aqui), afirmou que o seu portador iria aparecer mais tarde. Durante, os anos seguintes à revelação dessa Epístola houve vários crentes que se ofereceram para a levar ao monarca persa; mas essas ofertas sempre foram recusadas pelo Fundador da religião Bahá'í. O seu portador acabaria por aparecer: Em Julho de 1869, 'Aqa Buzurg, um jovem crente que ficou conhecido por Badí’ viajou da Terra Santa para a Pérsia, e conseguiu fazer chegara Epístola às mãos do Xá. A sua coragem valeu-lhe o martírio. Cento e trinta e seis anos após esse acontecimento, aqui fica uma pequena descrição sobre a história de Badí' [1].
- - - - - - - - - - - - - -
Nabil-i-A'zam, o mais conhecido cronista baha'i do tempo de Bahá'u'lláh, nas suas viagens pelo Irão passou uma vez por Nishabur, uma cidade da província de Khurasan, onde encontrou vários crentes e alguns conhecidos de outras viagens. Numa conversa com um desses crentes, o homem lamentou-se por causa do filho. 'Áqá Buzurg, era um adolescente rebelde, não lhe dava ouvidos, não tinha qualquer interesse na religião; percebia-se que o jovem devia ser motivo de quase desespero para a família.
Nabil pediu para falar com o adolescente. Segundo a sua narrativa, ter-lhe-á falado sobre os sofrimentos e aflições de Bahá'u'lláh e citado algumas das Suas escrituras. Como resultado dessa conversa, o comportamento do jovem alterou-se profundamente. Nos dias seguintes, o pai estranhou a sua calma e várias vezes notou que ele tinha lágrimas no rosto. Quando passados alguns dias, Nabil prosseguiu viagem, o jovem 'Aqa Buzurg quis acompanhá-lo, mas foi impedido pelo pai.
Só alguns meses mais tarde, e após muita insistência, o pai permitiu que o filho viajasse na companhia de outros crentes até Adrianópolis, cidade onde se sabia que Bahá'u'lláh estava exilado. A viagem decorreu com vários incidentes; foram presos e assaltados. Em Mosul tiveram conhecimento que Bahá'u'lláh tinha sido enviado para 'Akká, onde se encontrava preso; a partir daí, 'Áqá Buzurg viajou, a pé e sozinho, até à fortaleza nas costas do Mediterrâneo.
Naquele ano de 1869, os guardas que vigiavam as portas da cidade de 'Akká tinham instruções especiais para impedir a entrada de viajantes persas; pretendia-se evitar que os baha’is contactassem com Bahá'u'lláh. Mas o tempo e as tribulações da viagem tinham-se encarregar de desgastar progressivamente as roupas do adolescente; nada na sua aparência fazia supor que fosse um persa. Assim, entrou na cidade sem dificuldades.
Uma vez no interior da cidade sentiu-se perdido; não conhecia a cidade, não sabia como encontrar outros baha’is e não queria fazer perguntas com receio de ser identificado. Quis o Destino que numa mesquita da cidade, se cruzasse com um grupo de persas, entre os quais reconheceu 'Abdu'l-Bahá. Após os cumprimentos e apresentações, conseguiu , nessa noite, ser levado à fortaleza e esteve na presença de Bahá'u'lláh.
'Áqá Buzurg teve dois encontros particulares com Bahá'u'lláh. Durante esses momentos, o Fundador da religião Baha'i percebeu que nele "respirava o espírito da grandeza e do poder"[2] e atribui-lhe o titulo de Badí' (em português, "Maravilhoso"). No decorrer das suas conversas, referiu-se que a Epístola ao Xá Nasiri'd-Din ainda não tinha sido enviada para aquele monarca. Sem hesitar, Badí' pediu a Bahá'u'lláh a honra de ser o portador da mensagem ao Xá; a missão acarretava enormes riscos e outros baha’is mais velhos já se tinham oferecido para a desempenhar.
O seu pedido foi aceite e dias mais tarde Badí' regressou a Teerão; atravessou o deserto do Iraque e as montanhas do Irão, evitou ter companheiros de viagem e nunca partilhou com ninguém o objectivo da sua viagem. Quando chegou à capital iraniana, no verão de 1869, teve conhecimento que o Xá se encontrava numa das suas residências de verão. Foi para lá que se dirigiu.
Uns dias mais tarde, o Xá examinava com uns binóculos as redondezas da sua residência de verão e viu Badí’ sentado sobre uma rocha; tinha uma pose digna e parecia não se mexer. Imaginou que fosse algum súbdito que vinha pedir-lhe justiça ou ajuda para algum problema; mandou que o fossem buscar e saber o que ele queria. Inquirido pelos guardas, Badí', disse que tinha uma carta de uma pessoa muito importante para o Xá e que devia entregar essa carta pessoalmente. Depois de revistado, foi levado à presença do Xá.[3]
Com cortesia e calma, encarou o Xá, e numa voz clara e audível por todos os presentes disse-lhe: "Ó Rei! Eu vim de Sheba[4] para te entregar uma poderosa mensagem!"[5]. O Xá, que duas décadas antes tinha sido vítima de um atentado por parte de dois Babis, ficou surpreendido pela coragem do jovem. Depois de lhe ser lido o conteúdo da mensagem e percebendo que tinha um teor religioso, pediu a um clérigo conhecido que preparasse uma resposta à Epístola; seguidamente ordenou aos guardas que prendessem e interrogassem - e se necessário, torturassem - Badí' para saber quem eram os outros Babis de Teerão.
Seguidamente, o sacerdote a quem o Xá pedira uma resposta à Epístola de Bahá'u'lláh recomendou que o mensageiro fosse morto por ser um inimigo da religião; no entanto, nunca foi capaz de preparar uma resposta à Epístola.
Durante três dias Badí foi alvo de torturas terríveis. Como era costume nesse tempo, o Xá ordenou que fosse tirada uma foto de Badí', pois gostava de ver fotografias dos prisioneiros. Nessa foto pode ver-se uma braseira acesa onde estão os ferros em brasa que foram usados nas torturas. A expressão de Badí' é difícil de descrever; percebe-se uma certa força no seu olhar; não está assustado, mas tranquilo.
Sabemos que Badí' permaneceu firme na sua fé até falecer. A notícia da sua morte brutal deixou os bahá'ís profundamente consternados. Nos três anos seguintes, Bahá'u'lláh aludiria várias vezes ao seu valor e firmeza espiritual; designou-o como "Fakhru'sh-Shuhada'" (em português, "O Orgulho dos Mártires") e referiu-se ao seu "sublime sacrifício" como "o Sal das Minhas Epístolas".
------------------------------------------------------
NOTAS
[1] – Ler também, Badi' Khurasani, de Moojan Momen.
[2] – Citado em God Passes By, de Shoghi Effendi, pag.199.
[3] – É importante ter presente que na Pérsia do cec.XIX, a simples presença de oficiais do exército e membros do governo suscitavam terror na maioria da população; por esse facto, o acto de Badí é revelador de grande coragem.
[4] - Sheba ou Sabá. Alusão ao Reino de Sabá, cuja raínha teria visitado o rei Salomão.
[5] - Alcorão xxvii, 22. Este versículo é ligeiramente diferente daquilo que Badí' proferiu na presença do Xá. O versículo refere as palavras que foram dirigidas a Salomão por Hoopoe, um pássaro místico que lhe levou notícias de Sheba.
[6] - Ver Bahá'u'lláh, The King of Glory, de Hasan Balyuzi, pags.300-309.
- - - - - - - - - - - - - -
Nabil-i-A'zam, o mais conhecido cronista baha'i do tempo de Bahá'u'lláh, nas suas viagens pelo Irão passou uma vez por Nishabur, uma cidade da província de Khurasan, onde encontrou vários crentes e alguns conhecidos de outras viagens. Numa conversa com um desses crentes, o homem lamentou-se por causa do filho. 'Áqá Buzurg, era um adolescente rebelde, não lhe dava ouvidos, não tinha qualquer interesse na religião; percebia-se que o jovem devia ser motivo de quase desespero para a família.
Nabil pediu para falar com o adolescente. Segundo a sua narrativa, ter-lhe-á falado sobre os sofrimentos e aflições de Bahá'u'lláh e citado algumas das Suas escrituras. Como resultado dessa conversa, o comportamento do jovem alterou-se profundamente. Nos dias seguintes, o pai estranhou a sua calma e várias vezes notou que ele tinha lágrimas no rosto. Quando passados alguns dias, Nabil prosseguiu viagem, o jovem 'Aqa Buzurg quis acompanhá-lo, mas foi impedido pelo pai.
Naquele ano de 1869, os guardas que vigiavam as portas da cidade de 'Akká tinham instruções especiais para impedir a entrada de viajantes persas; pretendia-se evitar que os baha’is contactassem com Bahá'u'lláh. Mas o tempo e as tribulações da viagem tinham-se encarregar de desgastar progressivamente as roupas do adolescente; nada na sua aparência fazia supor que fosse um persa. Assim, entrou na cidade sem dificuldades.
Uma vez no interior da cidade sentiu-se perdido; não conhecia a cidade, não sabia como encontrar outros baha’is e não queria fazer perguntas com receio de ser identificado. Quis o Destino que numa mesquita da cidade, se cruzasse com um grupo de persas, entre os quais reconheceu 'Abdu'l-Bahá. Após os cumprimentos e apresentações, conseguiu , nessa noite, ser levado à fortaleza e esteve na presença de Bahá'u'lláh.
'Áqá Buzurg teve dois encontros particulares com Bahá'u'lláh. Durante esses momentos, o Fundador da religião Baha'i percebeu que nele "respirava o espírito da grandeza e do poder"[2] e atribui-lhe o titulo de Badí' (em português, "Maravilhoso"). No decorrer das suas conversas, referiu-se que a Epístola ao Xá Nasiri'd-Din ainda não tinha sido enviada para aquele monarca. Sem hesitar, Badí' pediu a Bahá'u'lláh a honra de ser o portador da mensagem ao Xá; a missão acarretava enormes riscos e outros baha’is mais velhos já se tinham oferecido para a desempenhar.
O seu pedido foi aceite e dias mais tarde Badí' regressou a Teerão; atravessou o deserto do Iraque e as montanhas do Irão, evitou ter companheiros de viagem e nunca partilhou com ninguém o objectivo da sua viagem. Quando chegou à capital iraniana, no verão de 1869, teve conhecimento que o Xá se encontrava numa das suas residências de verão. Foi para lá que se dirigiu.
Uns dias mais tarde, o Xá examinava com uns binóculos as redondezas da sua residência de verão e viu Badí’ sentado sobre uma rocha; tinha uma pose digna e parecia não se mexer. Imaginou que fosse algum súbdito que vinha pedir-lhe justiça ou ajuda para algum problema; mandou que o fossem buscar e saber o que ele queria. Inquirido pelos guardas, Badí', disse que tinha uma carta de uma pessoa muito importante para o Xá e que devia entregar essa carta pessoalmente. Depois de revistado, foi levado à presença do Xá.[3]
Com cortesia e calma, encarou o Xá, e numa voz clara e audível por todos os presentes disse-lhe: "Ó Rei! Eu vim de Sheba[4] para te entregar uma poderosa mensagem!"[5]. O Xá, que duas décadas antes tinha sido vítima de um atentado por parte de dois Babis, ficou surpreendido pela coragem do jovem. Depois de lhe ser lido o conteúdo da mensagem e percebendo que tinha um teor religioso, pediu a um clérigo conhecido que preparasse uma resposta à Epístola; seguidamente ordenou aos guardas que prendessem e interrogassem - e se necessário, torturassem - Badí' para saber quem eram os outros Babis de Teerão.
Seguidamente, o sacerdote a quem o Xá pedira uma resposta à Epístola de Bahá'u'lláh recomendou que o mensageiro fosse morto por ser um inimigo da religião; no entanto, nunca foi capaz de preparar uma resposta à Epístola.
Durante três dias Badí foi alvo de torturas terríveis. Como era costume nesse tempo, o Xá ordenou que fosse tirada uma foto de Badí', pois gostava de ver fotografias dos prisioneiros. Nessa foto pode ver-se uma braseira acesa onde estão os ferros em brasa que foram usados nas torturas. A expressão de Badí' é difícil de descrever; percebe-se uma certa força no seu olhar; não está assustado, mas tranquilo.
Sabemos que Badí' permaneceu firme na sua fé até falecer. A notícia da sua morte brutal deixou os bahá'ís profundamente consternados. Nos três anos seguintes, Bahá'u'lláh aludiria várias vezes ao seu valor e firmeza espiritual; designou-o como "Fakhru'sh-Shuhada'" (em português, "O Orgulho dos Mártires") e referiu-se ao seu "sublime sacrifício" como "o Sal das Minhas Epístolas".
------------------------------------------------------
NOTAS
[1] – Ler também, Badi' Khurasani, de Moojan Momen.
[2] – Citado em God Passes By, de Shoghi Effendi, pag.199.
[3] – É importante ter presente que na Pérsia do cec.XIX, a simples presença de oficiais do exército e membros do governo suscitavam terror na maioria da população; por esse facto, o acto de Badí é revelador de grande coragem.
[4] - Sheba ou Sabá. Alusão ao Reino de Sabá, cuja raínha teria visitado o rei Salomão.
[5] - Alcorão xxvii, 22. Este versículo é ligeiramente diferente daquilo que Badí' proferiu na presença do Xá. O versículo refere as palavras que foram dirigidas a Salomão por Hoopoe, um pássaro místico que lhe levou notícias de Sheba.
[6] - Ver Bahá'u'lláh, The King of Glory, de Hasan Balyuzi, pags.300-309.
segunda-feira, 18 de julho de 2005
Leituras
Washigton Post - Bahai Center Construction Becomes A Reality (link alternativo)
NBC4 - Former Iran Hostage Dies At Los Angeles Medical Center (link alternativo)
Seacoastline.com - A piligrimage for their purpose (link alternativo)
Seacoastline.com - Relationship with God is ultimate (link alternativo)
NBC4 - Former Iran Hostage Dies At Los Angeles Medical Center (link alternativo)
Seacoastline.com - A piligrimage for their purpose (link alternativo)
Seacoastline.com - Relationship with God is ultimate (link alternativo)
sexta-feira, 15 de julho de 2005
A Casa de Abbúd
A Casa de Abbúd, em 'Akká
(ilustração de Ângela Rodrigues)A casa de Abbúd, em 'Akká, foi a primeira residência de Bahá'u'lláh após ter sido libertado. Durante sete anos, Ele e a Sua família viveram nesta casa, numa espécie de regime de prisão domiciliária. A habitação foi cenário de dois momentos marcantes da história bahá’í: a revelação do Kitáb-i-Aqdas (o livro mais sagrado das Escrituras Baha’is) e o casamento de 'Abdu'l-Bahá.
Durante os anos em que Bahá'u'lláh e a Sua família viveram nesta casa, na cidade de ‘Akká sucediam-se as intrigas sobre a comunidade dos "exilados persas". Foi nesse clima de desconfiança e ameaças levou o Guardião a referir-se a esta casa como "cenário de prolongadas aflições suportadas pelo Fundador da Fé". Mais tarde quando Bahá'u'lláh se mudou para Mazra’ih, 'Abdu'l-Bahá continuou a habitar nesta casa.
Este edifício é hoje propriedade da Comunidade Bahá’í e é local de visita dos peregrinos Bahá’ís que se deslocam à Terra Santa.
quinta-feira, 14 de julho de 2005
Leituras
Rebuilding lives in the shade of a tree - Por iniciativa de um grupo de auto-ajuda, crianças sul-africanas, vítimas de abuso sexual, reúnem-se todas as semanas à sombra de uma árvore. Além do apoio às vítimas, o grupo tem conseguido encorajar a que cada vez mais crimes sexuais sejam denunciados às autoridades.
Bringing relief to Niger's hungry - A seca, as pragas de gafanhotos e as consequentes más colheitas fazem com que o Niger viva hoje a mais dramática crise alimentar dos últimos 20 anos. Há 3,5 milhões de pessoas carentes de alimentos e 150.000 poderão morrer de fome nas próximas semanas. O apoio alimentar tarda a chegar.
125 Questions: What don't we know - Por ocasião dos 125 anos da revista Science, esta publicação apresenta 125 grandes questões que estimulam hoje a ciência. As questões apresentadas relacionam-se com questões tão distintas como Astronomia, Biologia, Matemática, Genética, Física, Química. A resposta a algumas das questões poderão condicionar a vida das futuras gerações. (também em português, no Estadão)
Bringing relief to Niger's hungry - A seca, as pragas de gafanhotos e as consequentes más colheitas fazem com que o Niger viva hoje a mais dramática crise alimentar dos últimos 20 anos. Há 3,5 milhões de pessoas carentes de alimentos e 150.000 poderão morrer de fome nas próximas semanas. O apoio alimentar tarda a chegar.
125 Questions: What don't we know - Por ocasião dos 125 anos da revista Science, esta publicação apresenta 125 grandes questões que estimulam hoje a ciência. As questões apresentadas relacionam-se com questões tão distintas como Astronomia, Biologia, Matemática, Genética, Física, Química. A resposta a algumas das questões poderão condicionar a vida das futuras gerações. (também em português, no Estadão)
quarta-feira, 13 de julho de 2005
Londres, Netanya e Bagdade
Ignoro os critérios com que os media ordenam e apresentam as notícias. É verdade que existem factores comerciais que condicionam esses critérios; mas gostava de ver um pouco mais coerência. Os atentados de ontem em Israel e hoje no Iraque encaixam-se na série de ataques terroristas que, um pouco por todo o mundo, ceifam vidas de civis inocentes. Será que por ocorrerem em países do Médio Oriente estes eventos devem ser tratados como banais?
Foi devido a esta indiferença, esta dualidade de critérios, que o Nuno Guerreiro perguntou: "Hoje somos todos israelitas?"
Não consigo imaginar o que seja a dor de todas as pessoas que nas últimas semanas perderam os seus familiares em actos terroristas um pouco por todo o mundo. Apenas sei que as famílias que sofrem essa dor são famílias como as nossas. Como já escrevi num post anterior, estes actos são um ataque à humanidade. E quando acontecem temos que ser mais do que madrilenos, londrinos, israelitas ou iraquianos. Quando estes ataques ocorrem devemos ser cidadãos do mundo.
O meu Profeta sofreu mais que o teu
Um familiar disse-me há dias: "Como é que o sofrimento de Bahá'u'lláh pode ser comparado à morte de Jesus na cruz? É certo que Bahá'u'lláh sofreu, mas Cristo foi crucificado!". Não é a primeira vez que numa conversa (e até em comentários neste blog) percebo em alguns cristãos uma certa mentalidade de "o meu Profeta sofreu mais que o teu".
É uma postura estranha, mas que se compreende pelo facto da mentalidade religiosa portuguesa durante muito tempo ter sido condicionada por conceitos teológicos em que se considera que a perfeição de Cristo se deve ao Seu sofrimento; este conceito, alargado a toda a actividade humana, pretende levar à conclusão que tudo na vida apenas se consegue com sofrimento.
Olhando para a história das grandes religiões mundiais, percebemos que todos os Profetas enfrentaram oposição, foram rejeitados e perseguidos. Independentemente de qualquer tentativa de quantificação ou tipo do sacrifício, Eles assumem uma missão cujo propósito é regenerar a vida espiritual e material dos povos a que Se dirigem (este objectivo também é descrito em termos como "salvação do mundo" e "remissão dos pecados"); essa missão é o motivo dos sofrimentos a que Eles são sujeitos.
Mas imagine-se, por hipótese académica, que os fundadores das grandes religiões mundiais nunca tinham sofrido? Será que isso alteraria a Sua condição de Profetas? Para mim é claro que mais importante que o sofrimento dos Profetas, são os Seus ensinamentos e os Seus exemplos de vida. É isso que tem o poder de transformar o mundo.
É uma postura estranha, mas que se compreende pelo facto da mentalidade religiosa portuguesa durante muito tempo ter sido condicionada por conceitos teológicos em que se considera que a perfeição de Cristo se deve ao Seu sofrimento; este conceito, alargado a toda a actividade humana, pretende levar à conclusão que tudo na vida apenas se consegue com sofrimento.
Olhando para a história das grandes religiões mundiais, percebemos que todos os Profetas enfrentaram oposição, foram rejeitados e perseguidos. Independentemente de qualquer tentativa de quantificação ou tipo do sacrifício, Eles assumem uma missão cujo propósito é regenerar a vida espiritual e material dos povos a que Se dirigem (este objectivo também é descrito em termos como "salvação do mundo" e "remissão dos pecados"); essa missão é o motivo dos sofrimentos a que Eles são sujeitos.
Mas imagine-se, por hipótese académica, que os fundadores das grandes religiões mundiais nunca tinham sofrido? Será que isso alteraria a Sua condição de Profetas? Para mim é claro que mais importante que o sofrimento dos Profetas, são os Seus ensinamentos e os Seus exemplos de vida. É isso que tem o poder de transformar o mundo.
terça-feira, 12 de julho de 2005
Leituras
BBC - UN debates new Security Council
BBC - Srebrenica: A survivor moves on
Austin-American Statesman - Years after fleeing persecution in Iran, Bahais still know fear (link alternativo)
BWNS - Baha'is address historic UN hearings
BBC - Srebrenica: A survivor moves on
Austin-American Statesman - Years after fleeing persecution in Iran, Bahais still know fear (link alternativo)
BWNS - Baha'is address historic UN hearings
segunda-feira, 11 de julho de 2005
Os Atentados de Londres(3)
As reacções a todos estes medos são diversas. Há quem sonhe num regresso a um passado utópico; há quem prefira refugiar-se em álcool ou drogas; e outros desejam uma solução apocalíptica que simplifique toda a existência. A violência verbal com que hoje se debatem assuntos como manipulação genética, casamento de homossexuais e lésbicas e utilização de energia nuclear, parecem mais uma manifestação de medo e apreensão perante o desconhecido, do que uma postura séria, racional equilibrada perante os factos.
Neste cenário é legítima a pergunta: estará a civilização em risco? É uma pergunta tão velha quanto a própria civilização. Segundo a perspectiva baha’i, a humanidade evolui através de transformações cíclicas (é um conceito que também existe no Hinduísmo e no Budismo). Ao contrário da escatologia cristã onde se aguarda o "fim dos tempos" (e a segunda vinda de Cristo), os ensinamentos baha'is mostram-nos que estes ciclos de transformação se iniciam com um aparecimento de um Profeta; a Sua mensagem é geradora de um novo impulso espiritual e material, a que inevitavelmente se sucedem o declínio e o colapso.
Assim, como baha'i vivendo nesta sociedade aparentemente sitiada pelo medo, é impossível não recordar as palavras de Sto Agostinho aos habitantes de Cartago quando lhe descreviam as invasões bárbaras do império romano como sendo "o fim do mundo". O santo respondia. "Não é o fim do mundo; é o princípio de um mundo novo".
domingo, 10 de julho de 2005
sexta-feira, 8 de julho de 2005
O Atentado de Londres (2)
Após os atentados terroristas de ontem, o desejo de vingança pode ser uma reacção natural; mas, acima de tudo, é uma reacção destrutiva. O desejo de vingança leva a que se atinjam pessoas inocentes ou a que se cometam novos actos de terrorismo. A vingança é um acto impulsivo e irracional. Pelo contrário, a justiça é um acto deliberado que se pretende seja exercido de acordo com os factos. E é ao Estado que compete o exercício da justiça.
Notei como Tony Blair se apressou a fazer a distinção entre os autores dos atentados em Londres e a comunidade muçulmana. Foi uma atitude muito sensata. Na verdade, o Islão, é mal conhecido no Mundo Ocidental. Quanto mais soubermos sobre o Islão e a sua história, melhor compreenderemos que quem comete este tipo de actos não segue os seus ensinamentos, tal como aqueles que colocam bombas em clínicas que praticam abortos invocando o nome de Jesus também não seguem os Seus ensinamentos.
Na ressaca destes actos terroristas em Londres, a ignorância, o preconceito e o desejo de vingança podem ser incentivos para ataques contra muçulmanos inocentes. Depois das famílias afectadas pela tragédia de ontem, a imensa maioria da comunidade muçulmana - que, tal como nós, ficou chocada com o ataque - merece o nosso apoio.
Aos leitores deste blog, convido-os a ler um bom livro sobre o Islão.
Notei como Tony Blair se apressou a fazer a distinção entre os autores dos atentados em Londres e a comunidade muçulmana. Foi uma atitude muito sensata. Na verdade, o Islão, é mal conhecido no Mundo Ocidental. Quanto mais soubermos sobre o Islão e a sua história, melhor compreenderemos que quem comete este tipo de actos não segue os seus ensinamentos, tal como aqueles que colocam bombas em clínicas que praticam abortos invocando o nome de Jesus também não seguem os Seus ensinamentos.
Na ressaca destes actos terroristas em Londres, a ignorância, o preconceito e o desejo de vingança podem ser incentivos para ataques contra muçulmanos inocentes. Depois das famílias afectadas pela tragédia de ontem, a imensa maioria da comunidade muçulmana - que, tal como nós, ficou chocada com o ataque - merece o nosso apoio.
Aos leitores deste blog, convido-os a ler um bom livro sobre o Islão.
O Atentado em Londres(1)
Darfur, Uganda e Zimbabwe, o caos iraquiano e agora mais um ataque terrorista numa grande capital: Londres. Os pormenores da notícia vão surgindo e surge inevitávelmente uma espécie de choque emocional: raiva, ódio, desejo de vingança, dor, e medo.
Por vezes basta ouvir um noticiário ou ler uns títulos de qualquer jornal para pensarmos se a humanidade não está cercada. Estaremos cercados por inimigos mais numerosos e diversificados do que estávamos anteriormente? Ou será que agora estamos mais conscientes destes problemas do que em tempos passados? Provavelmente é um misto das duas coisas.

O terrorismo não é algo de novo. A corrupção e os ciclos económicos também não são novidades. E mesmo os déspotas, tiranos e conflitos internacionais sempre tiveram a sua quota de atenção nos noticiários. Mas de alguma forma estas ameaças parecem ter uma nova dimensão. A tecnologia sempre em evolução e a crescente interdependência entre os povos do mundo alteraram o cenário de tal forma que este tipo de ameaça, apesar de não ser novo, é significativamente diferente no âmbito e na dimensão.
Quem lê regularmente Baghdad Burning perceberá que os atentados terroristas afectam a população civil iraquiana com muita regularidade. Afinal porquê tanta emoção com os sofrimento dos londrinos? Serão eles superiores ao iraquianos ou será que o sofrimento dos civis iraquianos se tornou demasiado rotineiro? É certo que Londres está mais perto de Lisboa do que Bagdade; e também há mais portugueses com ligações e afinidades com os britânicos do que com os iraquianos. Mas o sofrimento humano com um acto destes não deveria merecer igual simpatia de todos nós?
Sejamos claros: um ataque contra civis - seja ele em Londres, Nairobi, Nova Iorque ou Bagdade - é um acto de enorme cobardia. E se considerarmos a diversidade dos povos que habitam nestas cidades, podemos mesmo considerá-los um ataque contra a humanidade. Foi o que aconteceu ontem em Londres.
Por vezes basta ouvir um noticiário ou ler uns títulos de qualquer jornal para pensarmos se a humanidade não está cercada. Estaremos cercados por inimigos mais numerosos e diversificados do que estávamos anteriormente? Ou será que agora estamos mais conscientes destes problemas do que em tempos passados? Provavelmente é um misto das duas coisas.
O terrorismo não é algo de novo. A corrupção e os ciclos económicos também não são novidades. E mesmo os déspotas, tiranos e conflitos internacionais sempre tiveram a sua quota de atenção nos noticiários. Mas de alguma forma estas ameaças parecem ter uma nova dimensão. A tecnologia sempre em evolução e a crescente interdependência entre os povos do mundo alteraram o cenário de tal forma que este tipo de ameaça, apesar de não ser novo, é significativamente diferente no âmbito e na dimensão.
Quem lê regularmente Baghdad Burning perceberá que os atentados terroristas afectam a população civil iraquiana com muita regularidade. Afinal porquê tanta emoção com os sofrimento dos londrinos? Serão eles superiores ao iraquianos ou será que o sofrimento dos civis iraquianos se tornou demasiado rotineiro? É certo que Londres está mais perto de Lisboa do que Bagdade; e também há mais portugueses com ligações e afinidades com os britânicos do que com os iraquianos. Mas o sofrimento humano com um acto destes não deveria merecer igual simpatia de todos nós?
Sejamos claros: um ataque contra civis - seja ele em Londres, Nairobi, Nova Iorque ou Bagdade - é um acto de enorme cobardia. E se considerarmos a diversidade dos povos que habitam nestas cidades, podemos mesmo considerá-los um ataque contra a humanidade. Foi o que aconteceu ontem em Londres.
segunda-feira, 4 de julho de 2005
domingo, 3 de julho de 2005
sexta-feira, 1 de julho de 2005
O Islão e as Minorias
O texto seguinte é uma tradução/adaptação (feita à pressa) de um artigo que surgiu recentemente no Iranian.com. É de autoria de Christopher Buck, professor na Michigan State University. Este texto apresenta apenas os parágrafos iniciais de um artigo mais vasto intitulado Islam & minorities: The case of the Bahais. O texto completo desse artigo encontra-se aqui (em inglês) e aqui (em persa).
- - - - - - - - - - - - - - -
De todas as minorias religiosas no Médio Oriente, os Baha'is são tipicamente os menos capazes de praticar livremente a sua religião. Com algumas excepções notáveis, no Médio Oriente moderno, e nos países Muçulmanos em geral, os baha'is não podem promover abertamente a sua religião.
No entanto, os governos do Paquistão e do Bangla Desh permitem que os Baha’is realizem reuniões públicas, divulguem publicamente a Fé, criem centros baha’is, e elejam conselhos administrativos (conhecidos como "Assembleias Espirituais" nacionais ou locais). Além disso, no Paquistão, representantes de entidades governamentais têm comparecido ocasionalmente em eventos nos centros baha’is. E na Indonésia, após várias décadas de crescimento sereno, a religião está reconhecida legalmente e os seus aderentes são livres para eleger as assembleias espirituais (conselhos administrativos).
Na Turquia, a Fé Baha'i é legal há décadas. A Comunidade Baha'i também tem estatuto legal na Albânia e na maioria das nações da Ásia Central. Durante os últimos anos, uma vaga de artigos e diálogos surgidos nos media de língua persa nos Estados Unidos começaram a falar abertamente sobre a situação dos baha’is no Irão, tendo alguns predito que na futura sociedade civil iraniana, até os baha'is devem ter liberdade de religião. Além disso, vários académicos iranianos não-baha'is estão a começar a falar de uma conspiração de silêncio contra esta religião.
A evidência, na forma de feedback de ouvintes, mostra que uma vasta audiência no Irão ouve diariamente as emissões baha'is, em língua persa, por onda curta e satélite. No entanto, falar de assuntos de estado no que toca a governos que implementaram medidas anti-baha’i é algo sensível e deve ser abordado com um certo grau de delicadeza.
Criticar um estado islâmico onde existe um pequeno enclave baha’i pode literalmente pôr em perigo essa comunidade. A liberdade de religião que possam usufruir é precária. Na melhor das hipóteses, os baha'is poderão levar uma existência virtualmente clandestina. Na pior, nos casos extremos em que as instituições foram proscritas por lei, os baha'is dissolveram os seus conselhos administrativos eleitos em obediência ao princípio baha'i de obediência aos "governos justos" e à lei do país.
Como os baha'is estão proibidos de agir contra os seus respectivos governos, seria imprudente – e até perigoso – fazer um inventário da situação país por país. No entanto, a Republica Islâmica do Irão é um caso especial, pois as suas políticas anti-baha'i são notórias e foram abertamente condenadas pela comunidade internacional durante quase um quarto de século. Esta notoriedade, tal como no caso Salman Rushdie, tem resultado em muita pressão negativa sobre o Irão, enquanto país, e, infelizmente, sobre o Islão, enquanto religião, apesar da prática do Islão no Irão ser peculiar devido à sua forma de Xiismo.
Este artigo mostrará que "a questão baha'i" levanta sérias questões no Ocidente sobre o quão "tolerante" o Islão realmente é. Poder-se-á dizer que as percepções populares do Islão serão crescentemente moldadas pela forma como os países Muçulmanos tratam as suas minorias, especialmente as minorias religiosas. O caso Baha'i, com a possível excepção dos Ahmadiyyah no Paquistão, é o primeiro caso de teste para as pretensões islâmicas de tolerância religiosa.
- - - - - - - - - - - - - - -
ACTUALIZAÇÃO- Exemplos de artigos recentes de autoria de iranianos onde é feita alguma referência à situação dos baha’is no Irão:
* Public Letter for the attention of G-8 summit in Scotland, pelo SMCCDI (estudantes iranianos)
* Why Allah, Oh Why? por Ahmed Simon
- - - - - - - - - - - - - - -
De todas as minorias religiosas no Médio Oriente, os Baha'is são tipicamente os menos capazes de praticar livremente a sua religião. Com algumas excepções notáveis, no Médio Oriente moderno, e nos países Muçulmanos em geral, os baha'is não podem promover abertamente a sua religião.
No entanto, os governos do Paquistão e do Bangla Desh permitem que os Baha’is realizem reuniões públicas, divulguem publicamente a Fé, criem centros baha’is, e elejam conselhos administrativos (conhecidos como "Assembleias Espirituais" nacionais ou locais). Além disso, no Paquistão, representantes de entidades governamentais têm comparecido ocasionalmente em eventos nos centros baha’is. E na Indonésia, após várias décadas de crescimento sereno, a religião está reconhecida legalmente e os seus aderentes são livres para eleger as assembleias espirituais (conselhos administrativos).
Na Turquia, a Fé Baha'i é legal há décadas. A Comunidade Baha'i também tem estatuto legal na Albânia e na maioria das nações da Ásia Central. Durante os últimos anos, uma vaga de artigos e diálogos surgidos nos media de língua persa nos Estados Unidos começaram a falar abertamente sobre a situação dos baha’is no Irão, tendo alguns predito que na futura sociedade civil iraniana, até os baha'is devem ter liberdade de religião. Além disso, vários académicos iranianos não-baha'is estão a começar a falar de uma conspiração de silêncio contra esta religião.
A evidência, na forma de feedback de ouvintes, mostra que uma vasta audiência no Irão ouve diariamente as emissões baha'is, em língua persa, por onda curta e satélite. No entanto, falar de assuntos de estado no que toca a governos que implementaram medidas anti-baha’i é algo sensível e deve ser abordado com um certo grau de delicadeza.
Criticar um estado islâmico onde existe um pequeno enclave baha’i pode literalmente pôr em perigo essa comunidade. A liberdade de religião que possam usufruir é precária. Na melhor das hipóteses, os baha'is poderão levar uma existência virtualmente clandestina. Na pior, nos casos extremos em que as instituições foram proscritas por lei, os baha'is dissolveram os seus conselhos administrativos eleitos em obediência ao princípio baha'i de obediência aos "governos justos" e à lei do país.
Como os baha'is estão proibidos de agir contra os seus respectivos governos, seria imprudente – e até perigoso – fazer um inventário da situação país por país. No entanto, a Republica Islâmica do Irão é um caso especial, pois as suas políticas anti-baha'i são notórias e foram abertamente condenadas pela comunidade internacional durante quase um quarto de século. Esta notoriedade, tal como no caso Salman Rushdie, tem resultado em muita pressão negativa sobre o Irão, enquanto país, e, infelizmente, sobre o Islão, enquanto religião, apesar da prática do Islão no Irão ser peculiar devido à sua forma de Xiismo.
Este artigo mostrará que "a questão baha'i" levanta sérias questões no Ocidente sobre o quão "tolerante" o Islão realmente é. Poder-se-á dizer que as percepções populares do Islão serão crescentemente moldadas pela forma como os países Muçulmanos tratam as suas minorias, especialmente as minorias religiosas. O caso Baha'i, com a possível excepção dos Ahmadiyyah no Paquistão, é o primeiro caso de teste para as pretensões islâmicas de tolerância religiosa.
- - - - - - - - - - - - - - -
ACTUALIZAÇÃO- Exemplos de artigos recentes de autoria de iranianos onde é feita alguma referência à situação dos baha’is no Irão:
* Public Letter for the attention of G-8 summit in Scotland, pelo SMCCDI (estudantes iranianos)
* Why Allah, Oh Why? por Ahmed Simon
Barnabé
O Barnabé vai acabar no domingo. É pena. Era uma das minhas visitas diárias. Fico à espera que alguns dos seus colaboradores (especialmente, o Daniel Oliveira) reapareçam brevemente na blogosfera.
Subscrever:
Mensagens (Atom)








