segunda-feira, 31 de outubro de 2005

Portas Fechadas!

Uma campanha subtil contra o acesso de Bahá'ís às Universidades Iranianas

Quem conhece um pouco sobre a religião bahá'í sabe como os seus ensinamentos básicos enfatizam a importância da educação; a aplicação prática desse princípio durante algumas gerações fez com que, no Irão, os bahá'ís se tornassem um dos grupos sociais com maior instrução e formação intelectual.

Desde a revolução de 1979, que as autoridades iranianas têm a vindo a colocar sucessivos obstáculos para os jovens bahá'ís que pretendem ingressar no ensino superior. Ao manter prolongadamente uma política que impede os jovens bahá'ís de aceder à universidade, o governo iraniano demonstra os seus objectivos de estrangulamento social da maior minoria religiosa do seu país. Além de produzir um efeito profundamente desmoralizador entre os jovens bahá'ís, estas medidas têm provocado o empobrecimento cultural e intelectual da maior minoria religiosa daquele país.

Há cerca de um ano publiquei neste blog um texto sobre a situação de várias centenas de jovens bahá'ís iranianos que pretendiam ingressar nas universidades públicas daquele país. A atitude das autoridades iranianas em relação a estes candidatos a cursos superiores podia resumir-se nas seguintes palavras: podem entrar na universidade, mas têm de fingir que são muçulmanos.

Recentemente tive conhecimento que esta campanha do governo iraniano prosseguiu no decorrer do mais recente processo de candidaturas à Universidade. Em Agosto deste ano, quando foram publicados os resultados das provas de acesso à universidade, várias centenas de jovens bahá’ís iranianos viram que as autoridades colocaram a palavra “Islão” como sendo a sua identificação religiosa. Vale a pena referir que muitos dos bahá’ís tiveram excelentes notas nos exames de admissão; todo este processo montado pelas autoridades barrou-lhes o acesso à Universidade, e estes promissores candidatos foram substituídos por muçulmanos com notas inferiores.

Para os bahá'ís, trata-se de um processo calculado de forma cínica e com múltiplos objectivos. Por um lado tenta desmoralizar os jovens bahá'ís iranianos induzindo-os a abandonar o país para prosseguir os seus estudos. Por outro lado, permite que o governo iraniano afirme perante os monitores internacionais dos direitos humanos que foi dada uma oportunidade aos bahá’ís para entrar na universidade, e que foram os próprios bahá’ís que recusaram essa oportunidade.

No entanto, o governo iraniano sabe, há muito tempo, que os bahá'ís têm por hábito não negar ou falsear, as suas convicções religiosas. Torna-se claro que as acções das autoridades iranianas são uma política concertada cujo objectivo é privar toda uma geração de bahá'ís do seu direito de acesso ao ensino superior.

Mais informação (em inglês) no site: Closed Doors: Iran's Campaign to Deny higher Education to Bahá'ís.


Actualização:

O mesmo site apresentado pela Comunidade Baha'i do Brasil: Portas Fechadas

sexta-feira, 28 de outubro de 2005

Kitáb-i-Iqán (7)

A Dupla Condição dos Profetas

No Novo Testamento, as seguintes palavras são atribuídas a Jesus Cristo: “Eu e o Pai somos Um”(Jo 10:30) e “O Meu Pai é maior do que Eu”(Jo 14:28). No Alcorão, estão registadas as seguintes palavras de Maomé: “Sou o Servo de Deus”(19:31) e “Sou apenas um homem como vós”(18:110). A comparação de frases como estas é frequente por parte de cristãos e muçulmanos ao argumentar sobre a superioridade do Profeta fundador da sua religião, ou sobre a Sua condição divina. É o tipo de discussão que facilmente se torna interminável.

Relativamente a este tipo de diferenças, os ensinamentos baha’is consideram que é possível olhar para os Profetas sob duas perspectivas: a condição divina e a condição humana. Ao considerarmos os Profetas olhando à Sua condição divina, percebemos que Eles possuem as mesmas características, desempenham o mesmo papel de intermediários entre o Criador e a humanidade, e não é possível fazer distinção entre Eles.

No entanto, é com facilidade que se encontra quem faça distinção entre os Profetas, apontando alguma(s) característica(s) que um parece evidenciar e outros não. A esse respeito, Bahá'u'lláh escreveu no Kitáb-i-Íqán:
Estes atributos de Deus não são, e nunca foram, concedidos especialmente a certos Profetas e negados a outros. Não, todos os Profetas de Deus, Seus favorecidos, santos e escolhidos Mensageiros, são, sem excepção, portadores dos Seus nomes e incorporam os Seus atributos... Por não haverem estas Essências do Desprendimento manifestado, aparentemente, certo atributo de Deus, não se deve inferir, em absoluto, que estas Auroras dos Seus atributos, os Tesouros dos Seussantos nomes, realmente não o tivessem possuído. [110]
Assim, segundo os ensinamentos baha’is, ao considerarmos a condição divina dos Profetas não podemos encontrar diferenças entre Eles. O facto dos Profetas partilharem os mesmos atributos divinos, permite que se identifiquem uns com os outros, e inclusive sejam identificados pelo mesmo nome. Desta forma, cada vez que surge um novo Profeta, é correcto dizer que Ele é o regresso dos Profetas anteriores [162]. Ainda sobre este assunto é possível fazer a seguinte analogia: os Mensageiros de Deus são como o sol que surge em dias diferentes, mas é sempre o mesmo sol.

Sob uma perspectiva humana, podemos identificar alguns aspectos distintos de cada Profeta. Cada um possui um nome, uma individualidade própria, e uma Missão específica (apresentando ensinamentos de acordo com as necessidades e capacidades dos povos a quem se dirige). Desta forma, os ensinamentos éticos e sociais de cada religião apresentam diferenças entre si. Sob esta distinção material que se pode fazer entre os Profetas, Bahá'u'lláh escreveu no Kitáb-i-Íqán:
É por causa desta diferença na sua condição e missão, que as palavras e afirmações provenientes desses Mananciais do Conhecimento Divino parecem divergir... Como a maioria dos homens não soube apreciar essas condições a que Nos referimos, sente-se, portanto, confusa e perplexa perante afirmações divergentes pronunciadas por Manifestantes que são, essencialmente, um e o mesmo.[192]
Desta forma, se algum Profeta afirma “Eu sou Deus” isso é uma metáfora perfeitamente consistente com a sua condição divina; o Profeta não é fisicamente semelhante ao Omnipotente (reflectem os Seus atributos, mas não possuem a Sua Essência); e se algum Profeta afirma “Sou apenas um homem” essa afirmação deve ser considerada de acordo com a sua condição material. É extremamente importante ter presente a dupla condição dos Profetas para podermos compreender as Suas palavras e ensinamentos.

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

quarta-feira, 26 de outubro de 2005

Sala de Espera

As salas de espera para consultas de obstetrícia têm um ambiente muito especial. As grávidas comparam as respectivas barrigas e parece que se medem umas às outras pela quantidade de semanas de gestação; algumas metem conversa e falam das sensações, das ansiedades, dos sonhos e expectativas. As mãos que fazem festas às barrigas e o "andar à pinguim" são também imagens comuns destes locais.

Mas da última vez foi diferente. Do gabinete de consultas saiu outro casal; ele estava branco como cal, e ela chorava agarrada a ele. Um choro de desespero que interrompeu as conversas e despertou todas as atenções. Lembrei-me que nem sempre o ser humano consegue realizar os seus mais belos sonhos. Oxalá este casal consiga forças para superar este momento tão difícil.

Terra da Alegria

Mais uma edição da Terra.

terça-feira, 25 de outubro de 2005

O conceito de religião

"A nível social, devemos reconhecer que a tendência do Ocidente para conceptualizar a religião como um aspecto social da vida da humanidade, separado do governo e da cultura, é algo estranho em relação àquilo que muitas vezes se designa por religião noutras partes do mundo. A maioria das pessoas no mundo vê a sua religião, cultura e, frequentemente, a ordem política como um todo indivisível. Numa sociedade, a religião pode dar a justificação para a ordem social (o sistema de castas na Índia, por exemplo); noutras até pode proporcionar a legitimação da estrutura política (por exemplo, o califado no Islão até ao início do século vinte); e na maioria das sociedades, a cultura e a religião são indistintas."

Moojan Momen, in The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach.

segunda-feira, 24 de outubro de 2005

Sondagem de Opinião

Aqui, e na Terra da Alegria de hoje, uma BD obtida na revista Le Monde des Religions. Clic na imagem para aumentar.

sábado, 22 de outubro de 2005

O Ranking das Escolas

Foi hoje publicado no jornal Expresso um auto-intitulado "ranking das escolas". Trata-se de uma análise e ordenação das escolas com base nas notas obtidas pelos alunos. Outra comunicação social já fez eco desse ranking; entrevistam-se professores e alunos das escolas no topo e no fim da lista e tentam-se perceber o porquê dos resultados obtidos pelos alunos dessas escolas.

Na verdade, este "ranking" consiste numa simples análise das notas dos alunos. Fará sentido comparar notas de alunos provenientes de famílias da alta classe média que vivem em bairros elegantes, com as notas de alunos provenientes bairros degradados, cujas famílias vivem com grandes dificuldades? E porque razão a composição e habilitações literárias do agregado familiar não são tidas em conta quando se tenta fazer um estudo destes? Poder-se-á comparar as notas do filho do doutor com as notas do filho do operário que tem uma instrução elementar?

Poderíamos ainda referir outros aspectos que de alguma forma condicionam a avaliação de uma escola (formação dos professores, instalações, etc.). Mas parece-me óbvio que com critérios de classificação tão simplistas, o "ranking" apenas consegue ser uma visão distorcida e parcial do nosso mundo escolar. Esperemos que no próximo ano o Expresso nos consiga apresentar um ranking mais elaborado e consistente.

Paris-Plage

Postais antigos de Paris-Plage, no Antigamente...

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Kitáb-i-Iqán (6)

A Revelação Progressiva
E que os mortos ressuscitam, até Moisés o deu a entender no episódio da sarça quando chama ao Senhor o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob. (Lc 20:37)

Dizei: «Cremos em Deus, na revelação que nos enviou, e no que foi revelado a Abraão, Ismael, Isaac, Jacob e às Tribos, no que foi revelado a Moisés e a Jesus, no que foi revelado aos Profetas pelo seu Senhor. Não fazemos distinções entre qualquer um deles. Submetemo-nos a Deus. (Alcorão 2:130)
As citações anteriores, além de evidenciarem o tronco comum do Cristianismo e do Islão, mostram um conceito que é hoje enfatizado pela religião bahá'í: Deus tem-Se revelando progressivamente à humanidade. No entanto, a maioria dos seguidores destas religiões acredita que a revelação divina terminou (ou teve o apogeu) com o aparecimento do Profeta fundador da sua religião.

Mas num mundo cada vez mais multi-cultural e globalizado estas ideias são questionadas com frequência crescente. Porque é que Deus escolheria apenas um único povo e um único momento na história da humanidade para Se manifestar e dar a conhecer a Sua Vontade? Porque é que a enorme maioria dos adeptos de todas as religiões acredita que o seu Profeta foi o último que Deus enviou?

Na tentativa de procurar respostas a este tipo de questões podemos destacar dois tipos de reacções: o diálogo inter-religioso (procurando compreender as diferentes convicções e expressões religiosas) e a criação de comunidades e doutrinas religiosas estanques voltadas sobre si próprias e, de alguma forma, desajustada das realidades sociais que hoje vivemos.

Relativamente a este segundo tipo de reacção, é de notar que nestas comunidades religiosas estanques os adeptos reclamam duas coisas: a exclusividade (ou superioridade) da revelação divina proclamada pelo Profeta fundador da sua religião, e o fim da revelação divina (Deus não enviará mais Profetas). Esta perspectiva exclusivista e derradeira sob a natureza da mensagem religiosa fomentou durante muito tempo mal-entendidos, tensões e conflitos entre adeptos de diferentes religiões.

Esta atitude em relação ao fenómeno religioso enferma de várias contradições:

  • Fará sentido acreditar num Deus Omnipotente que "tem as mãos atadas"(a) e não pode enviar mais Mensageiros?
  • Fará sentido acreditar num Deus Misericordioso, cuja Mensagem nunca chegaria a determinados povos do mundo?
  • Todos os Profetas elogiaram os Seus antecessores. Porque devem os Seus seguidores entrar em contenda?
  • Todas as religiões anunciam uma nova revelação e um Prometido em termos profundamente elogiosos. Porque haveremos de pensar que a intervenção divina terminou?


No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh descreve como a revelação divina é contínua, e que nunca a humanidade esteve, ou estará, privada dos Seus Mensageiros:
... em todos os tempos, as múltiplas graças do Senhor de todos os seres têm abrangido a terra e todos os que nela habitam, através dos Manifestantes de Sua Essência Divina. Nem por um momento sequer, negou Ele a Sua graça; jamais as chuvas da Sua benevolência cessaram de cair sobre a humanidade.[14]
Tal como os alunos de uma escola que vão adquirindo conhecimentos ao longo dos anos, através de sucessivos professores, também a humanidade vai amadurecendo e evoluindo ao longo dos séculos, graças aos ensinamentos de sucessivos Profetas. E semelhante a uma escola, onde os professores continuam o trabalho dos anteriores e anunciam novos professores, também os Profetas continuam o trabalho dos Seus antecessores e anunciam um Sucessor.

O tema da revelação progressiva é recorrente nos livros e epístolas do fundador da religião baha'i(b). Um único Deus é a fonte de todos os Profetas fundadores das grandes religiões mundiais; a sequência de Profetas enviados pelo Criador deve ser vista como um processo evolutivo destinado a inspirar o progresso humano e civilizacional.

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NOTAS
(a) – "A mão de Deus está presa por correntes" (Alcorão 5:64) Esta era a resposta dados pelos Judeus da Arábia perante a pretensão de Maomé ser Profeta. Curiosamente, hoje a grande maioria dos muçulmanos acredita que a Revelação Divina terminou com Maomé.
(b) – Um dos excertos mais citados das escrituras Bahá'ís sobre este assunto é a seguinte: "Contempla tu com a vista interior a corrente de sucessivas Revelações que ligou a Manifestação de Adão com a do Báb. Dou testemunho perante Deus de que cada um desses Manifestantes foi enviado através da operação da Vontade e Desígnios Divinos, que cada um foi o Portador de uma Mensagem específica, que a cada um se confiou um Livro divinamente revelado e foi incumbido de desvendar os mistérios de uma Epístola poderosa." (Selecção dos Escritos de Bahá'u'lláh, XXXI).

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Feriado


Santuário do Báb, no Monte Carmelo, em Haifa
(ilustração de Ângela Rodrigues)

O dia 20 de Outubro é um feriado no calendário baha'i. Celebra-se o nascimento do Báb (1819-1850), o Profeta-Mártir da religião baha'i. Nascido em Shiraz, na Pérsia, o Báb anunciou a Sua missão em 1844, proclamando o iminente aparecimento de Bahá'u'lláh (referia-se a Ele como "Aquele que Deus tornará Manifesto"). Neste dia os baha'is não trabalham e organizam celebrações abertas a toda a gente. Não existe qualquer ritual prescrito para estas celebrações; geralmente incluem leitura das sagradas escrituras, orações, música e momentos de convívio.

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

A caminho de uma Paz Menor?

Notícia da edição de hoje no jornal Metro:

Menos guerras do que há uma década

Um estudo realizado pelo Human Security Centre, da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, revelou que os conflitos bélicos em todo o mundo são menos frequentes e causam menos mortos do que há 10 anos, noticiou a BBC.

O documento afirma que a incidência de guerras civis, genocídio e crises internacionais sofreu uma redução de 40 por cento desde o fim da Guerra Fria e as despesas em compra de armamento desceram um terço nos últimos 13 anos. A única forma de violência que não registou uma queda é o terrorismo.

ONU contribui para a paz
Para o decréscimo das guerras no mundo contribuíram, segundo os investigadores, as operações de manutenção de paz e intervenções das Nações Unidas, assim como, a distribuição de ajuda humanitária. O estudo revela que o número mais baixo de conflitos internacionais deu espaço para um aumento de confrontos étnicos dentro dos países.

A maioria dos conflitos ocorre actualmente em África, onde também foi registado uma redução de número e de intensidade.


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Só um comentário: porque é que esta notícia não é tema de capa?

Terra da Alegria

Terra da Alegria!

terça-feira, 18 de outubro de 2005

Porquoi le XXIe siècle est religieux

A edição Setembro-Outubro da revista francesa Le Monde des Religions, apresenta um conjunto de artigos e uma sondagem sobre o renascer do sentimento religioso em França. Deixo aqui alguns destaques de um dos artigos, assim como a sondagem publicada.

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Qui aurait pu imaginer, il y a une trentaine d'années, que le XXI siècle s'ouvrirait sur une telle omniprésent planétaire du religieux ? En Europe, le déclin des Eglises ne faisait que s'accentuer, la religion s'individualisait et se cantonnait de plus en plus à la sphère privée et on était convaincu que le modèle européen allait gagner le monde entier. Force est de constater qu'en ce début de siècle, le religieux est présent en l'Occident comme dans le reste du monde, de multiples manières: réaffirmations identitaires, développement du fondamentalisme et de l'intégrisme, renouveaux spirituels, multiplication des secte, succès de l'ésotérisme, etc.
(...)
Ce serait toutefois une erreur de réduire de réveil religieux à ses seules manifestations identitaires et à ses débordements extrémistes. On assiste également depuis une trentaine d'années à un renouveau spirituel qui renvoie quant à lui aux besoins individuels de sens et de transcendance, mais aussi de mystère et de symboles. Cette seconde manifestation du réveil religieux est d'abord apparue en Occident aux lendemains de l'effondrement des grandes idéologies politiques, dans le mouvement même de la contre-culture et du rejet des valeurs socio-économiques dominantes, qui accordaient plus de place à la réussite matérielle et sociale au détriment des valeurs d'accomplissement de soi valorisant la dimension spirituelle.

Or des individus, de plus en plus nombreux, cherchent à donner un sens à leur vie personnelle au-delà de la simple réussite sociale, à développer leur potentiel créatif, à trouver une paix e une sérénité intérieure, à mieux gérer les relations interpersonnelles. S'exprime aussi, dans un monde sans doute trop désenchanté, un besoin de mythes, de symboles, de rites initiatiques. La spiritualité, qui constitue un quelque sorte le versant individuel et intérieur des traditions religieuses, offre des méthodes, des rituels, un univers symbolique, des livre, des maîtres expérimentés, favorisant ce travail sur soi et répondant à ce besoin de sacré.
(...)


Frédéric Lenoir, Dieu dans tous ses états, Le Monde des Religions, septembre-octobre 2005

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segunda-feira, 17 de outubro de 2005

Clichés Discriminatórios

"A frequência da utilização de clichés discriminatórios por agentes políticos e por profissionais da comunicação social, exprime de uma forma dramática a baixa estima a que chegámos, a avaliação negativa, muitas vezes injustificadamente negativa que fazemos de nós e, sobretudo, de Portugal. Nós não nos comparamos com países com maior nível de desenvolvimento humano, não nos propomos convictamente alcançá-los de forma organizada e eficaz."

José Leitão, no Inclusão e Cidadania.

Leituras...

Iran: EU Demands Halt To Nuclear Work, Attacks Tehran's Human Rights Record (RFE)

Soldiers of the Hidden Imam (NY Review of Books)

Interfaith group discusses fasting (The Daily Texan)

TURKEY: Is there religious freedom in Turkey? (Forum18)

ROMANIA: Too much power for the state and recognized communities? (Forum18)

ROMANIA: Concerns about draft religion law (Forum18)

Terra da Alegria

A homossexualidade continua a ser tema de conversa. Veja-se a Terra da Alegria de hoje.

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Kitáb-i-Iqán (5)

Deus e a Criação

Tão antigas quanto a consciência humana, são as questões "Porque é que existimos? Seremos obra do acaso ou de uma qualquer Vontade Suprema?" Sábios, filósofos e Profetas foram apresentado respostas. O fundador da religião baha'i descreve toda a existência como resultado da vontade de um Criador; e acrescenta: "...a obra da Sua Mão não conhece princípio, nem fim"[178]

Segundo os ensinamentos bahá'ís, toda a criação reflecte, de alguma forma, os "atributos" e "nomes" de Deus, desde o mais pequeno átomo à mais grandiosa galáxia. "...qualquer coisa que esteja nos céus e qualquer coisa que esteja sobre a terra, é evidência directa da revelação, no seu imo, dos atributos e nomes de Deus, já que dentro de cada átomo estão encerrados os sinais que dão testemunho eloquente da revelação daquela mais grandiosa Luz."[107] Tal como numa obra de arte em que podemos identificar características do autor, também na criação podemos identificar o cunho pessoal do Criador. Este conceito é por vezes referido como a "Revelação Universal". No Alcorão declara-se: "Não há coisa alguma que não celebre o Seu louvor"[17:44].

O ser humano é "de todas as coisas criadas a mais nobre e mais perfeita" [109]; reflecte, potencialmente, todos os nomes e atributos de Deus; São muitos os textos dos Livros Sagrados que descrevem este tema e descrevem o ser humano como a mais nobre e perfeita de todas as coisas criadas: "Quem se tiver conhecido a si próprio, terá conhecido Deus"[107].

Tal como a obra de arte que nunca conseguirá compreender a vontade, nem a essência, do seu artista criador, também a inteligência humana não pode compreender toda a vastidão e implicações da vontade divina, nem esta pode ser descrita por qualquer língua humana. Deus transcende todos os elogios e concepções que o ser humano possa fazer a Seu respeito.

É esta situação em que o ser humano aparece como o expoente máximo da criação divina, mas em que simultaneamente não tem acesso directo ao Criador, levam Bahá'u'lláh a citar no Kitáb-i-Iqán uma tradição islâmica segundo a qual Deus teria afirmado: "O Homem é o Meu mistério e Eu sou o seu Mistério".[107]

Devemos ter presente que apesar de não termos acesso directo ao Criador, nem por isso Ele nos abandonou à nossa sorte. A benevolência de Deus sempre atingiu a humanidade; nunca estivemos privados da Sua Graça. Ele nunca a negou a qualquer povo da Terra. De tempos a tempos, um Profeta tem surgido entre os povos com o objectivo de elevar a sua condição social e espiritual. A maior graça concedida por Deus ao Ser Humano é a possibilidade de O reconhecermos através dos Seus Manifestantes. Quem o consegue, alcança uma posição suprema, referida frequentemente como "a presença de Deus".

Sobre a criação, a vontade de Deus e os Profetas (frequentemente designados nas escrituras baha'is como "Manifestantes de Deus"), Bahá'u'lláh revelou no Kitáb-i-Iqán:
O domínio de Seu decreto é vasto demais para ser descrito pela língua dos mortais, ou atravessado pela ave da mente humana; e as dispensações de Sua providência são tão misteriosas que a inteligência do homem não as pode compreender. Nenhum fim atingiu à Sua criação e desde o "Princípio que não tem princípio", ela existe; e os Manifestantes de Sua Beleza, princípio algum os viu, e eles continuarão até o "Fim que não conhece fim".[178]
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Entre parêntesis rectos indica-se o nº do parágrafo citado. Sobre a numeração dos parágrafos do Kitáb-í-Iqan, ver Notes on paragraph numbering of the Kitab-i-Iqan.
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terça-feira, 11 de outubro de 2005

Conceptualizar a religião

"No século vinte, as outras religiões [não-cristãs], sob a influência de cristãos e desafio de missionários cristãos, procuraram sistematizar as suas crenças, para que se pudessem apresentar a par do Cristianismo. (...) Estas representações não são um produto natural destas religiões, mas algo que foi imposto pelo Ocidente nos tempos modernos. Em parte é uma resposta, e, em parte, é uma defesa contra o que foi designado por «imperialismo cultural do Ocidente». Representa uma intelectualização que pode ser suficiente para quem pretende livros organizados, mas ainda é insuficiente para quem deseja perceber o que é a religião."

Moojan Momen in The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach.

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

domingo, 9 de outubro de 2005

Sentimentos

...de Tristeza!




Pelos paquistaneses e indianos!
Que foram afectados pelo sismo em Cachemira e no norte do Paquistão, cujo sofrimento, muito provavelmente, cairá em breve no esquecimento dos media ocidentais. Se ali estivessem alguns milhares de turistas endinheirados, ou se a tragédia tivesse ocorrido na Europa ou nos Estados Unidos, provavelmente o auxílio seria diferente.

...de Alegria!



Pelos Palancas Negras!
Que ganharam 1-0 no Ruanda e se qualificaram para o Campeonato do Mundo na Alemanha. Porque será que eu vibrei mais com a vitória dos angolanos do que com a vitória dos portugueses?

sábado, 8 de outubro de 2005

A Busca de Valores numa Era de Transição

Por ocasião do sexagésimo aniversário das Nações Unidas, a Comunidade Internacional Bahá’í publicou um documento onde se enfatiza a importância da unidade da humanidade e da liberdade religiosa como valores no processo de reforma da ONU.

"O desacerto dos interesses nacionais face às crises globais mostrou - para lá de qualquer dúvida - que o corpo da humanidade representa um todo orgânico" afirma-se neste documento intitulado A Busca de Valores numa Era de Transição. Desta forma a unicidade da humanidade deve tornar-se o foco primordial da procura de soluções para desafios globais como a pobreza, a SIDA, a degradação ambiental, o terrorismo e a proliferação de armas.

"É claro que nenhum dos problemas enfrentados pela humanidade pode ser adequadamente abordado se for isolado dos restantes", afirma-se no documento. "A cada vez mais notória interdependência entre desenvolvimento, segurança e direitos humanos a uma escala global, confirma que a paz e a prosperidade são indivisíveis - que nenhum benefício sustentável pode ser conferido a qualquer nação ou comunidade, se o bem-estar das nações como um todo for ignorado".

Além disso, o documento agora publicado sustenta que os assuntos em torno da religião e da liberdade de crença foram agora elevados à categoria de "excepcional importância global, que as Nações Unidas não podem ignorar". E acrescenta: "Enquanto a Assembleia Geral aprovou um número de resoluções abordando o papel da religião na promoção da paz e apelando à eliminação da intolerância religiosa, debate-se para compreender o papel positivo que a religião pode desempenhar na criação de uma ordem pacífica global, e o impacto destrutivo que o fanatismo religioso pode ter na estabilidade e progresso do mundo".

"Um crescente número de dirigentes e corpos deliberativos reconhece que essas considerações devem deslocar-se da periferia para o centro do debate - reconhecendo que o pleno impacto das variáveis relacionadas com a religião, em assuntos como a governação, a diplomacia, os direitos humanos, o desenvolvimento, as noções de justiça, e a segurança colectiva devem ser melhor compreendidas".

Na linha destas ideias, a declaração apresenta um número de recomendações concretas às Nações Unidas. Estas recomendações caem em quatro grandes áreas: direitos humanos, desenvolvimento, democracia e segurança colectiva. Entre essas recomendações encontram-se:

  • Um apelo para que "as Nações Unidas afirmem inequivocamente o direito do individuo a mudar a sua religião, sob a lei internacional"
  • O estabelecimento de um calendário para a ratificação universal dos tratados de direitos humanos.
  • Que o Gabinete do Alto Comissariado dos Direitos Humanos se torne "o porta-estandarte no campo dos direitos humanos e um instrumento efectivo no aliviar do sofrimento de indivíduos e grupos cujos direitos são negados".
  • Uma ênfase na educação nos programas de desenvolvimento da ONU, pois a "capacidade dos povos participarem na geração e aplicação de conhecimento é uma componente essencial do desenvolvimento humano", devendo ser dada uma atenção especial deve ser dada à educação das raparigas.
  • Que os países ricos do mundo têm uma obrigação moral em remover as barreiras alfandegárias e comerciais que impedem a entrada de outros países no mercado global.
  • Que a ONU desenvolva formas de "envolvimento construtivo e sistemático com organizações da sociedade civil (incluindo organizações comerciais e religiosas)".
  • Que "a democracia saudável seja baseada no princípio da igualdade de direitos entre homem e mulheres" e consequentemente que os esforços dos estados membros sejam "um trabalho vigilante de inclusão das mulheres em todos os aspectos da governação dos respectivos países".
  • Que "no nosso mundo interligado, uma ameaça a um seja uma ameaça a todos" e que o princípio da segurança colectiva signifique que "as Nações Unidas devam, em devido tempo adoptar os procedimentos para eliminação do estatuto de membro permanente e do direito de veto" no Conselho de Segurança.


  • A Comunidade Internacional Bahá'í já tinha publicado várias declarações por ocasião dos aniversários da fundação das Nações Unidas. No 10º aniversário, em 1955, a comunidade emitiu a declaração "Propostas para revisão da Carta das Nações Unidas", e em 1995, por ocasião do 50º aniversário, publicou o documento "Um Ponto de Viragem para Todas as Nações".

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    LINKS:
    Notícia original no BWNS.
    Texto completo (em inglês) do documento
    The Search for Values in an Age of Transition.

    quinta-feira, 6 de outubro de 2005

    Rosh Hashanah e Ramadão

    Como lembrou Juan Cole, é curioso poder, simultaneamente, desejar L'Shana Tova e Ramadan Mubarak! Que maravilha seria se Judeus e Muçulmanos estivem tão próximos uns dos outros quanto estas datas no calendário.

    Kitáb-i-Iqán (4)

    Deus e os Profetas

    Num post anterior, apresentei alguns conceitos sobre Deus que se encontram nos ensinamentos baha'is. Poderia resumir esses ensinamentos da seguinte forma:
    1. A essência de Deus é incognoscível e transcende todas as características humanas;
    2. Não existe qualquer relação directa entre Ele e a Sua Criação;
    3. A compreensão humana também é limitada para compreender Deus (ninguém O consegue descrever).
    Estes tópicos resumem alguns ensinamentos baha'is mas, naturalmente, não respondem a todas as questões que se pode fazer sobre Deus, e muito provavelmente suscitam outras interrogações. Se Deus é incognoscível, como nos podemos aproximar dele? Qual o papel dos Profetas na relação entre Deus e a criação?

    Segundo Bahá'u'lláh, por não ser possível ao ser humano conseguir uma relação directa com a Essência do Criador, Ele faz aparecer entre nós os Profetas, que nos dão conta da Sua Vontade apresentando provas claras do Seu conhecimento e poder. Semelhantes a espelhos perfeitos e límpidos que reflectem a imagem e a luz do sol, os Profetas reflectem os atributos de Deus. E tal como quem olha para a imagem do sol reflectida num espelho poderá dizer que vê o sol, também quem olha para as características de um Profeta poderá dizer que vê Deus. No entanto, tal como o sol e o espelho não possuem a mesma essência, também Deus e os Profetas possuem essências diferentes.

    Sobre este assunto, Bahá'u'lláh escreveu no Kitáb-i-Iqán:
    Estando a porta do conhecimento do Ancião dos Dias assim fechada ante a face de todos os seres, determinou Aquele Que é a Fonte da graça infinita... que aparecessem do reino do espírito, aquelas luminosas Jóias da Santidade na nobre forma do templo humano, manifestando-se a todos os homens, para que dessem ao mundo o conhecimento dos mistérios do Ser Imutável e relatassem as subtilezas da Sua Essência imperecedoura. Esses Espelhos santificados, essas Auroras da glória antiga, são – cada um e todos – os Expoentes na terra d'Aquele Que é o Orbe central do universo, a sua Essência e o seu Propósito final. D'Ele recebem o conhecimento e o poder; d'Ele derivam a soberania... São os Tesouros do conhecimento divino e os Repositórios da sabedoria celestial. Por eles é transmitida uma graça que é infinita, e revelada a luz que jamais se esvairá...[106]
    A distinção entre a essência de Deus e a essência dos Profetas é particularmente importante nos ensinamentos baha’is. Numa outra epístola, Bahá'u'lláh descreveu a impossibilidade dos Profetas terem acesso directo a Deus, ou conhecimento da Sua essência.
    Dez mil Profetas, cada um deles um Moisés, acham-se atónitos no Sinai da busca, perante Sua Voz proibitiva: "Nunca tu haverás de Me contemplar!"; enquanto miríades de Mensageiros, cada um tão grande como Jesus, estão pasmados, nos seus tronos celestiais, diante da interdição: "Minha Essência, tu jamais a haverás de perceber!" Desde tempos imemoriais, está Ele velado na santidade inefável de Seu sublime Ser; e eternamente permanecerá Ele envolto no impenetrável mistério de Sua Essência incognoscível. Toda tentativa de alcançar a compreensão de Sua inatingível Realidade tem terminado em confusão completa; todo esforço por se aproximar de Seu Ser excelso e formar um conceito de Sua Essência, teve como resultado desespero e malogro.(a)
    No que toca aos ensinamentos sobre o Criador, encontramos aqui uma diferença clara entre a maioria das teologias cristãs e os ensinamentos baha'is. No Credo, afirma-se que Jesus é "consubstancial ao Pai"; nos ensinamentos baha'is, reitera-se que Deus e os Profetas possuem essências diferentes e que nem sequer os Profetas possuem acesso à essência de Deus.

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    NOTAS
    (a) - Bahá'u'lláh, Selecção dos Escritos de Baha'u'llah, XXVI

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    Entre parêntesis rectos indica-se o nº do parágrafo citado. Sobre a numeração dos parágrafos do Kitáb-í-Iqan, ver Notes on paragraph numbering of the Kitab-i-Iqan.
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    terça-feira, 4 de outubro de 2005

    Homo Religiosus

    "A humanidade tem vindo a percorrer um longo caminho, social e intelectualmente, ao longo de muitos milhares de anos. Muitas instituições sociais e sistemas intelectuais, que eram de importância fulcral para a actividade humana, passaram agora para a obscuridade. E, no entanto, a religião, apesar de também ter mudado e evoluído, ainda desempenha um papel central no mundo da humanidade. Como resultado, alguns chegaram ao ponto de a considerar uma característica essencial para descrever o ser humano. Até chegaram a sugerir que o Homo Sapiens fosse designado Homo Religiosus."

    Moojan Momen, in The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach.