terça-feira, 28 de fevereiro de 2006
Resposta a um comentário
Essa tua atitude perante a religião é frequentemente designada por “exclusivismo religioso”. Em termos práticos, isso significa acreditar que a verdade religiosa se encontra apenas - e exclusivamente - num único lado. Quem tem essa postura acredita que apenas as suas crenças são verdadeiras e que todas as outras estão erradas. O exclusivismo religioso é uma das causas das tensões e conflitos entre comunidades religiosas. Sobre o tema do exclusivismo religioso já escrevi alguns textos:
-- Exclusivismo
-- Perante o Exclusivismo
-- O meu Profeta sofreu mais que o teu
Analisando a história de todos os povos domundo e estudando as escrituras sagradas de todas as religiões facilmente concluimos que Deus se revela progressivamente à humanidade e que os Seus desígnios raramente coincidem com os desejos dos homens que se consideram versados em temas religiosos. Veja-se como os Profetas fundadores das grandes religiões mundiais sempre foram perseguidos pelo clero das religiões estabelecidas anteriormente.
Se acreditamos que Deus é imensamente Misericordioso, Justo e que as suas Graças são infinitas, porque haveria Ele de se revelar apenas a um povo e apenas num único momento da história? E se Ele é Omnipotente fará sentido pensarmos que Ele é incapaz - ou está impedido - de enviar mais Mensageiros para nos guiar? Por outro lado se a humanidade tem evoluído, e se sua a maturidade e necessidades se têm alterado, porque razão não podem surgir novos Manifestantes de Deus com ensinamentos adequados à maturidade e necessidades dos povos? Sobre este assunto também já escrevi alguns textos:
-- À imagem de quem?
-- As diferenças entre as Religiões
Pelo tuas referências aos milagres de Jesus, percebo ainda que fazes uma interpretação literal das Escrituras. Na minha opinião, essa é uma leitura muito limitativa do texto sagrado. A beleza e sentido mais profundo encontram-se nos simbolismos das Escrituras. Também já escrevi sobre isso:
-- Simbolismo e Historicidade das Escrituras
-- Simbolismo nas Escrituras
-- As interpretações simbólicas de S. Paulo
-- Para que serve o simbolismo nas Escrituras?
Quanto aos teus comentários sobre Maomé, considero que estás profundamente enganado. Como muitas pessoas, fazes uma leitura parcial e distorcida da vida do fundador do Islão. Imagina se alguém dissesse que Cristo era violento e incitou à violência porque agrediu e expulsou os comerciantes que estavam no templo? Sobre Cristo e Maomé também já escrevi:
-- Cristo e Maomé
-- Jesus e Maomé: Palavras Comuns
-- Islão e a Violência (Jihad) (debate com Orlando do blog Letras com Garfos)
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006
Tatuagem Baha'i

(foto via The Blingdom of God)
Eu não faria. Não gosto de tatuagens.
Mas imagino que existam alguns jovens na Comunidade Baha'i de Portugal que fariam uma tatuagem destas.
NOTA: Para quem não sabe, a estrela de 9 pontas é considerado um símbolo baha'i.
domingo, 26 de fevereiro de 2006
Beijing Baha'i
I have no idea why it has a struck a chord here, but I think it is too small at this point for the government to classify it as a cult, or care.
Via billsdue.
Será verdade?
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006
Leituras
Tensions... (Baghdad Burning) -- O ambiente que se vive em Bagdad após o atentado contra o Santuário de Samarra.
Religion plays very different roles in America, Europe (The News Tribune) -- Uma comparação do papel desempenhado pela religião nas sociedades americana e europeias.
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006
A Aliança das Democracias
Apesar de não existir consenso entre os historiadores sobre o significado do conceito de civilização, eu atrevo-me a definir civilização como um conjunto de sociedades que se caracterizam por vários traços comuns de cultura, sabedoria, organização política, valores morais e éticos e valores religiosos. Como todas as definições deste termo, esta também é muito vasta. A civilização em si é difícil de delimitar no espaço e no tempo.
Podendo a civilização ser caracterizada sob múltiplas perspectivas, não consigo entender o significado de "civilização tecnológica"; parece-me muito reducionista ou mesmo simplista. O facto de partilharmos a mesma tecnologia não significa que sejamos uma mesma civilização. Quando muito podemos dizer que há uma plataforma tecnológica comum nas interacções entre os diferentes povos do planeta. De igual modo, também entendo que uma civilização vive e morre, não em função da tecnologia, mas em função da sua capacidade de por em prática os valores que inspiram a sua organização. Os motivos que levam ao seu colapso são diversos.
Quanto à preocupação de criação de uma "aliança de democracias” (um termo que também considero preferível a "aliança de civilizações"), parece-me que lhe está subjacente um reconhecimento de que a actual ordem política mundial é incapaz de responder aos problemas actuais da humanidade. É com frequência que ouvimos expressões como "Nova Ordem Mundial", debatemos a reforma da ONU, e ouvimos apelos a coisas tão inovadoras como o "Direito de Intervenção Humanitário".No Ocidente, as discussões sobre diferentes políticas socio-económico, sobre políticas ambientais, sobre políticas sociais, sobre modelos de cooperação Estado-Religião, são intermináveis e dificilmente serão consensuais. Desta forma, a reorganização da política mundial (a que podemos chamar "aliança de democracias") devia assentar num consenso mínimo entre os países do mundo: a utilização de métodos democráticos na eleição dos representantes políticos e o respeito pelos direitos humanos.
Esta "aliança de democracias" não pode ser diluidora da identidade dos povos; pelo contrário, deve aceitar e preservar a diversidade. Nessa diversidade não podem ser ignorados aspectos de identificação dos povos como nacionalidade ou religião. Estes devem ser vividos de forma saudável e numa óptica de cooperação (e nunca de confrontação).
Talvez esta "aliança de democracias" possa ser mais um primeiro passo em direcção a uma civilização mais humana e verdadeiramente global. Para muita gente poderá parecer algo tão utópico quanto a ideia "União Europeia" era fantasiosa para os povos da Europa há cem anos atrás. Mas é uma utopia preferível à actual ordem mundial, cuja inadequação leva hoje milhões de pessoas ao desespero.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006
Os Intermediários
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A maioria das religiões possuem um conceito segundo o qual entre a Realidade Última - seja o Deus teísta ou a Realidade Absoluta monista - e o mundo que nós habitamos, existem mundos intermédios em que habitam outros seres. Estes mundos são descritos como paraísos ou infernos, e os seres que os habitam descritos como deuses, espíritos, anjos ou demónios. (...) Uma figura que desempenha um papel importante como intermediário entre a Realidade Última, os mundos transcendentes, e o nosso mundo físico é o do fundador de cada uma das religiões mundiais.
Nas muitas formas de Cristianismo, Jesus Cristo é considerado como parte da Divindade, uma das pessoas da Trindade. No Concílio de Niceia, em 325, Cristo foi declarado como sendo “consubstancial (do grego: homoousios) ao Pai”. O debate sobre a natureza exacta de Cristo não ficou concluído neste Concílio, e o teólogos continuam a debater, até aos dias de hoje, a natureza exacta de Cristo. No entanto, todas as escolas de pensamento no Cristianismo concordam em atribuir a Cristo um estatuto supra-humano.
No Islão, ficamos próximos da conceptualização do fundador, Maomé, como um mero ser humano. Em parte, o Alcorão representa isto como uma reacção à excessiva divinização de Cristo no Cristianismo. No Alcorão, Maomé proclamou: “Sou apenas um homem como vós...” (18:110). Apesar desta declaração, algumas escolas do Islão representam Maomé com um estatuto mais elevado. Na filosofia mística xiita, a realidade de Maomé é descrita como a luz que foi a primeira coisa a ser criada antes de ter sido criada o resto da criação. O primeiro imam xiita, ‘Ali, terá afirmado: “Deus é uno; Ele estava só na Sua unicidade, pronunciou uma palavra e fez-se luz, e dessa luz Ele criou Maomé” (1)
Nas Escrituras Bahá’ís, os fundadores das religiões mundiais são chamados Manifestantes de Deus. Isto porque eles são considerados como sendo manifestantes de todos os atributos e nomes de Deus. No entanto, não são incarnações de Deus. A analogia que se encontra nas Escrituras Bahá’ís é a do espelho. Os Manifestantes de Deus são como espelhos que reflectem perfeitamente os atributos de Deus. Estas figuras, porém possuem a autoridade de Deus. Bahá'u'lláh escreveu:
A porta do conhecimento do Ser Antigo sempre esteve, e sempre estará, fechada ante a face dos homens... Como sinal da Sua misericórdia, porém, e prova da Sua amorosa benevolência, Ele manifestou aos homens as Estrelas Matinais da Sua orientação divina... e ordenou que o conhecimento desses Seres santificados fosse igual ao conhecimento do Seu próprio Ser. Quem os reconhecer, terá reconhecido Deus... Cada um deles é o Caminho de Deus que liga este mundo aos reinos do além. (2)No Hinduísmo encontramos o conceito de avatar. Figuras como Krishna e Rama são consideradas como avatares, incarnações da divindade Vishnu. No Bhagavad Gita, Vishnu, falando como Krishna, afirma: “O louco ridiculariza-me quando estou vestido com um corpo humano; eles não conhecem a Minha natureza suprema, nem que eu sou o grande Senhor de todos os seres” (9:11)
No Budismo e no Taoísmo, o autor da maioria das escrituras da religião é visto, não tanto como um intermediário entre o mundo transcendente e este mundo, mas como um descobridor de um caminho ou uma verdade antiga. Buda é visto como tendo alcançado a sua iluminação como resultado dos seus próprios esforços. No entanto, no Budismo Therevada, onde é dada uma grande ênfase ao facto de todos os seres humanos serem capazes de atingir o que Buda atingiu (iluminação e o Nirvana), existem algumas indicações nas Escrituras que indicam que Buda não é como outros seres humanos.... No Budismo Mahayana, esta tendência para elevar a condição de do Buda é levada ainda mais longe. O número de budas no Budismo Mahayana é muito elevado; centenas de budas têm um nome e diz-se que eles são mais do que os grãos de areia do Ganges. No entanto, na sua realidade interior eles são apenas um, pois é a mesma realidade espiritual que está activa em cada um deles.
Moojan Momen, in The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach, pag. 199-202
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NOTAS
(1) - Majlisi, Bihar al-Anwar, citado em Introduction to Shi'i Islam, Moojan Momen, pag. 148
(2) - Selecção dos Escritos de Bahá'u'lláh, sec. 21
terça-feira, 21 de fevereiro de 2006
Cinco Manias
1 - Bica Matinal. Indispensável. Um dia nunca pode correr bem sem o café da manhã.
2 - Visitar livrarias. Dia sim, dia não. Tenho de saber o que há de novo e folhear algum livro.
3 - Fazer comentários sarcásticos. Deve ser um problema genético. Já o meu pai é assim e parece que o meu avô também era. Os alvos deste tipo de comentários costumam ser a minha mulher e vários bahá'ís (grande paciência para me aturar!)
4 - Deixar a mesa de trabalho desarrumada. Em casa ou na empresa. Acontece inevitavelmente ao fim de alguns dias. A partir daí prefiro não arrumar, não vá perder alguma coisa.
5 - Ler outros blogues. Sobretudo de quem vê a realidade com outros olhos.
E agora tenho de passar isto a outros: João Tunes, George Wesley, Elise, Lutz e Husayn Vilar. Façam favor de confessar as vossas cinco manias.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006
Um original das Escrituras Bahá'ís
Sobre estas palavras de Bahá'u'lláh, recomendo a leitura do post A Dupla Condição dos Profetas.
sábado, 18 de fevereiro de 2006
As Escrituras Bahá'ís
O Verbo de Deus revelado na forma de palavras proferidas pelos Profetas é, aparentemente, constituído por palavras comuns; mas, pelo facto de terem sido proferidas por um Mensageiro Divino, estas palavras possuem um poder superior às palavras comuns dos homens. Esse poder permite transformar as nossas vidas, as vidas dos nossos semelhantes e o mundo que nos rodeia. Devido à sua capacidade criativa e regeneradora, as palavras dos Manifestantes, quando registadas, são descritas como Sagrada Escritura. Sobre este assunto, Bahá'u'lláh escreveu: "O homem assemelha-se a uma árvore. Os frutos da árvore humana são primorosos, altamente desejados e estimados com afecto. Entre estes figuram um caracter íntegro, acções virtuosas e palavras bondosas... A água para essas árvores é água vivificadora das Sagradas Palavras..."[1]
Sendo as palavras dos Mensageiros de Deus um reflexo do Verbo de Deus, torna-se óbvio que a revelação da Palavra Divina não está dependente de qualquer forma de conhecimento adquirido. Moisés, Cristo e Maomé não eram homens instruídos; o Báb e Bahá'u'lláh receberem uma instrução elementar.
Epístolas originais escritas pela mão de Bahá'u'lláh
e expostas nos Arquivos Internacionais Bahá'ís no Monte Carmelo
Na Pérsia do século XIX - o cenário onde surgiu a religião bahá'í - a maioria das pessoas eram analfabetas. Apenas existiam dois grupos sociais instruídos: o clero e alguns elementos da nobreza. Na verdade, apenas os clerigos se podiam considerar verdadeiramente instruídos; costumavam passar anos das suas vidas a estudar teologia, lei islâmica, filosofia, medicina, astronomia e - acima de tudo – a língua árabe. Sendo o árabe a língua do Alcorão, o estudo desta língua assumia uma enorme importância; em alguns meios, considerava-se mesmo que nenhum trabalho seria digno de uma atenção e leitura cuidadosas se não estivesse escrito em árabe.
O segundo grupo de pessoas instruídas incluía maioritariamente membros da nobreza, escribas e alguns comerciantes. Durante a infância recebiam uma instrução elementar durante baseada em leitura, escrita, caligrafia, estudo do Alcorão e de poetas persas. Bahá'u'lláh pertencia a este grupo social.
A partir do momento em que anunciou a Sua revelação, as palavras de Bahá'u'lláh começaram a ser registadas por secretários, e, ocasionalmente, por Ele próprio. Em quase todos os momentos algum secretário estava preparado com grandes quantidades de papel, pincéis e tinta, para registar as Suas palavras à medida que iam sendo proferidas.
Depois de registadas as Suas palavras, seguia-se um processo de transcrição; após isso, os textos eram aprovados e autenticados por Bahá'u'lláh, com um dos Seus selos. Depois de uma epístola ter sido transcrita e aprovada, produziam-se várias cópias para divulgação entre os crentes.
Uma das características particulares da religião bahá’í é a vastidão das suas escrituras. Estas são constituídas por livros, epístolas e palestras proferidas pelas suas Figuras Centrais: o Báb, Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá. O Alcorão, o livro sagrado do Islão, consiste em pouco mais de seis mil e trezentos versículos. Foi revelado por Maomé durante um período de vinte e três anos. Segundo o próprio Bahá'u'lláh, se todas as Suas escrituras fossem compiladas formariam mais de cem volumes. Ainda segundo as Suas palavras, "Tão grande é a graça concedida neste dia que se se encontrasse um secretário capaz de acompanhar, num único Dia e noite, o equivalente ao Bayan persa seria enviado do céu da Divina santidade"[2]. O Bayan persa é o principal Livro Sagrado revelado pelo Báb; contém mais de oito mil versículos.
A maioria dos originais das Escrituras Bahá'ís encontram-se hoje no Centro Mundial Bahá'i, em Haifa, na Terra Santa. Desde meados do século XX, tem sido posto em prática um plano sistemático de traduções destes originais (em árabe e persa) para o inglês; essas traduções em inglês, servem de base para as traduções para outras línguas. Graças a este plano de traduções, os mais significativos livros das Escrituras Bahá'ís já encontram-se disponíveis nas línguas mais faladas no mundo.
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NOTAS
[1] - Epístolas de Bahá'u'lláh, pag. 282
[2] - Citado por Shoghi Effendi, God Passes By, pag. 171
quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006
Que liberdade é essa?
É uma boa pergunta que reflecte parte do debate a que se assiste na blogosfera: a liberdade e a responsabilidade. Mas terá o representante do governo iraniano em Lisboa autoridade moral para colocar uma questão destas? Vejamos:
- A Comunidade Baha'i é a maior minoria religiosa do Irão. No Irão os baha'is são considerados cidadãos de terceira categoria; para dezenas de milhares de baha'is iranianos a sua religião foi motivo para serem despedidos dos empregos, privados de pensões de reforma, verem as sua lojas foram confiscadas e lares foram destruídos. Que liberdade é essa?
- Centenas de jovens bahá'ís são impedidos de frequentar as universidades iranianas, a menos que neguem a sua religião. Que liberdade é essa?
- Vários lugares sagrados bahá'is foram destruídos no Irão desde 1979. Que liberdade é essa?
- Cerca de duas centenas de bahá'ís foram executados ou morreram em prisões iranianas desde a revolução islâmica. Que liberdade é essa?
- Várias vezes a Assembleia Geral das Nações Unidas e a Comissão dos Direitos Humanos condenaram as perseguições aos baha'is no Irão e manifestaram profunda preocupação pela situação dos direitos humanos daquela comunidade religiosa. Que liberdade é essa?
- O Relatório de 2005 do Departamento de Estado sobre Liberdade Religiosa no Mundo descreve vários casos de perseguições aos baha'is. A palavra baha'i é mencionada 93 vezes no capitulo dedicado ao Irão. Alguns excertos:
As acções do governo continuaram a criar uma atmosfera ameaçadora contra algumas minorias religiosas, especialmente baha’is, judeus e cristãos evangélicos.
(...)
A maior minoria religiosa não muçulmana no é a comunidade baha’i, que se estima ter entre 300.000 e 350.000 aderentes no país.
(...)
Aderentes de religiões não reconhecidas ela Constituição não usufruem de liberdade para praticar a sua crença. Esta restrição afecta seriamente os aderentes da Fé Baha’i, que o governo considera como um grupo islâmico herético e com uma orientação política que é antagónica à revolução islâmica. No entanto, os baha’is não se consideram muçulmanos, mas antes como uma religião independente, com origens nas tradições islâmicas xiitas. Funcionários governamentais afirmaram que, enquanto indivíduos, todos os baha’is têm direito às suas crenças e estão sob protecção dos artigos da Constituição; no entanto, o governo tem continuado a proibir os baha’is de ensinar e praticar a sua fé
(...)
Segundo a lei, o sangue baha’i é considerado "Mobah", significando isto que pode ser derramado impunemente.Que liberdade é essa?
ALGUMA REFERÊNCIAS:
Portas Fechadas!
Dhabihu'llah Mahrami
Dhabihullah Mahrami: reacção da Amnistia Internacional
Bahais Mourn Iranian Jailed for His Faith (Washington Post)
Pela 18ª vez...
Pela 17ª vez...
Cemitério Bahá'í de Yazd
Desrespeitando os mortos
Apagar a Memória
Santuário Baha'i destruído no Irão
Aquelas dez mulheres de Shiraz
Video sobre Mona Mahmudnizhad
O Islão e as Minorias
Carta ao presidente Khatami
The Situation of Baha'is in Iran
UN calls on Iran to stop persecution of Baha'is
Human Rights Violations Around the World
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006
Uma Realidade Transcendente
Uma das principais diferenças entre as religiões Orientais e Ocidentais é a sua diferença na conceptualização da Realidade Última. Os dois tipos de religiões concebem uma realidade que é maior que este universo físico, mas diferem radicalmente na sua descrição. Esta diferença inicial vai provocar diferenças nos seus relatos da relação do indivíduo com esta realidade mais elevada. Destas distinções surgem diferenças em questões como o mal, o sofrimento, a salvação, a libertação, e até assuntos como o tempo e o espaço.
Nas religiões Ocidentais dá-se o nome de Deus à realidade transcendente; este é entendido como um ser pessoal, omnisciente e omnipotente. Deus, enquanto criador, é concebido como estando totalmente separado da Sua criação. Ele é descrito de muitas formas, algumas das quais contraditórias: colérico e vingativo, mas bondoso e generoso. Deus tem uma vontade e um propósito para os seres humanos que eles devem aceitar ou enfrentar consequências desagradáveis. Mas Deus também é benevolente e amoroso em relação à humanidade, e como consequência é objecto de culto e adoração pela humanidade. O mundo, ou o cosmos, torna-se assim a arena de interacção entre Deus e a humanidade. No que toca à diferença relativamente às religiões Orientais, o aspecto mais saliente está na presença daquelas características mencionadas anteriormente, tais como raiva e generosidade, todas fazem com que Deus pareça ter uma personalidade e aja como uma pessoa. Uma entidade impessoal não teria essas características.
Em contraste, nas religiões Orientais, Budismo, Taoísmo e Hinduísmo da escola Advaita, não existe conceito de Deus enquanto pessoa; em vez disso, possuem um conceito de Realidade Última como um processo, uma verdade ou um estado de existência. Isto é frequentemente afirmado como um conceito de uma Realidade Absoluta. A expressão “Realidade Absoluta” implica que existe uma única Realidade no cosmos; tudo o resto que possa parecer real apenas possui uma realidade contingente ou relativa, ou é ilusão ou não-existência. O Absoluto é, portanto, simultaneamente transcendente e imanente. Não pode ser descrito em termos de conceitos deste mundo físico. Está privado de todas as determinações empíricas. Não é, por exemplo, um Criador omnisciente.
Moojan Momen, in The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach, pag.31-33
domingo, 12 de fevereiro de 2006
Vale do Silêncio

Mesmo quando a relva parece precisar de um pouco mais de chuva, este é um dos locais mais agradáveis do bairro dos Olivais, em Lisboa. Aos fins-de-semana enche-se de jovens a jogar futebol, idosos a jogar à bisca, gente que passeia os cães ou os filhos.
Este post serve de agradecimento a quem um dia trocou o azul deste céu pelo cinzento de Bruxelas.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006
Agostinho da Silva

"Estamos numa fase de pré-anarquia que vai levarnos a uma nova Idade, mais humanista, mais espiritualizada. As doenças serão combatidas, a produtividade e a distribuição alteradas, os rendimentos das pessoas deixarão de provir dos empregos, que acabarão. A sociedade civil alargar-se-á, o poder será descentralizado, o lazer libertará as populações, a palavra voltará a ter mais importância que a imagem, as pessoas do que as coisas. O século XXI será religioso, fraterno. É precisamente nos períodos de anarquia que se refaz a história, se criam ideias, se lançam ideologias".
Citado ontem na revista Visão, por Fernando Dacosta.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006
Kitáb-i-Iqán (13)
A expressão Cidade de Deus remete-nos imediatamente para a obra de Stº Agostinho. Nesse livro, o Bispo de Hipona descreve a história da humanidade como um conflito entre a Cidade de Deus (constituída pelos que abdicam dos prazeres mundanos e se dedicam à promoção dos valores cristãos) e a Cidade dos Homens (constituída pelos que se afastaram da Cidade de Deus). Tratam de representações figurativas das reacções e comportamentos humanos face à revelação divina.
Mas a expressão "Cidade de Deus" também é usada com alguma frequência para descrever um Manifestante de Deus e os Seus ensinamentos. Compreende-se facilmente a analogia: tal como as cidades foram centros de desenvolvimento material das civilizações, também cada Profeta com os Seus ensinamentos foram sementes de desenvolvimento espiritual das civilizações.E assim encontramos referências a uma "cidade espiritual" nas Escrituras Sagradas e em místicos do Islão. Os salmos mencionam a Cidade do Senhor dos Exércitos(48:9); S. Paulo refere-se à "Jerusalém, lá do alto, é livre, e esta é nossa mãe." (Gal 4:22-26) que não é cativa em contraposição a uma Jerusalém física que estava cativa dos Romanos. O livro do Apocalipse anuncia o aparecimento de uma "nova Jerusalém" (21:2). No Mathnavi de Rumi podemos ler: "Nesta cidade dos eventos ele é o Senhor, neste reino Ele é o Rei que planta todos os eventos" (XVI).
No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh refere-Se em termos poéticos à Cidade de Deus (a). Ela é o alvo de qualquer pessoa que procura aprofundar a sua ligação com o Criador, é o centro de todo o conhecimento divino que um ser humano pode alcançar, e renova-se ciclicamente. Essa cidade não está reservada a alguns eleitos; esteve sempre disponível para toda a humanidade. Nas Suas palavras:
Essa Cidade não é senão o Verbo de Deus revelado em cada era. No tempo de Moisés, foi o Pentateuco; no de Jesus, o Evangelho; no de Maomé, o Mensageiro de Deus, o Alcorão; neste dia, o Bayán, e na era d'Aquele que Deus tornará manifesto, o Seu próprio Livro - Livro esse ao qual todos os Livros das eras anteriores se devem referir, o Livro que sobressai entre todos eles, transcendente e supremo.[219]Neste parágrafo Bahá'u'lláh mostra-nos duas coisas. Em primeiro lugar, mostra-nos que o objectivo final de tantos místicos e peregrinos, a chave da transformação dos corações, os alicerces de novas civilizações, se encontra nas Escrituras Sagradas de todas as religiões. Em segundo lugar, reafirma a continuidade da revelação divina. Também 'Abdu'l-Bahá confirmaria a interpretação esta expressão: "Por «aquela grande cidade, a sagrada Jerusalém, descendo do céu vinda de Deus» pretende-se significar a Lei Sagrada de Deus, e esta está exposta em muitas Epístolas e ainda se pode ler nas Escrituras dos Profetas do passado"(b).
O uso desta expressão - com toda a sua carga simbólica anteriormente descrita - é recorrente nas escrituras Bahá'ís. Nos Sete Vales, a expressão "Cidade de Deus" é usada para descrever o objectivo da caminhada de todos os peregrinos que procuram Deus. Na Epístola aos Judeus, Bahá'u'lláh usa este termo para Se referir à Sua própria revelação:
Diz: Este é o Dia em que a Cidade de Deus apareceu e é vista com todos os seus adornos. Esta é a cidade em que o Deus de tudo se tornou manifesto. Reflecti sobre as palavras de João em que ele profetizou sobre a Cidade Santa: "E não vi cordeiro no seu interior, pois o Senhor Deus Omnipotente é o Templo. E a cidade não tinha necessidade de sol, nem de lua, que ali brilhassem, pois a Glória de Deus (Bahá'u'lláh) iluminava-a".---------------------------
Tomai o bordão da renúncia em nome de Deus e guiai o povo errante, com total ruptura, à Cidade de Deus, para que porventura os que se perderam possam alcançar a verdadeira terra natal e os cegos possam receber uma visão perspicaz. Em verdade, Ele é Poderoso para fazer o que deseja. Todas as coisas estão nas mãos do Seu Poder. Em verdade, Ele é o Grandioso!(c)
NOTAS:
(a) - Ver também: A Study of Baha'u'llah's Kitab-i-Iqan, The Book of Certitude
(b) - Selections from the Writings of 'Abdu'l-Baha, p. 165
(c) - Citado em Bahá’í Scriptures, nº 47
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006
Ainda as caricaturas de Maomé (4)
Um não-muçulmano não pode fazer qualquer mal ao Islão ao publicar uma imagem de Maomé, por muito insultuosa que seja. Na verdade, não há nada que um não-muçulmano possa fazer para prejudicar o Islão. O Islão apenas pode ser prejudicado pelos próprios muçulmanos, tal como o Cristianismo apenas pode ser prejudicado pelos cristãos, e a Fé Bahá’í pelos bahá’ís. Nenhuma quantidade de caricaturas ofensivas desenhadas por não-muçulmanos pode alguma vez igualar-se a um único acto de violência cometido por um muçulmano. Esta é a responsabilidade que temos quando pertencemos a uma religião.
terça-feira, 7 de fevereiro de 2006
Ainda as caricaturas de Maomé (3)
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É difícil de admitir que doze cartoons publicados num jornal dinamarquês em Setembro do ano passado possam justificar esta violência, mesmo que possam ter causado a indignação genuína de muitos muçulmanos. Sobretudo quando já se sabe que a divulgação das caricaturas nas capitais do Médio Oriente - devidamente acrescentadas de mais três, bastante mais chocantes, mas que ninguém publicou - foi deliberadamente feita por um grupo de clérigos fundamentalistas radicados na Dinamarca.
Mas é fácil de admitir que, depois dos atentados terroristas cometidos em solo europeu em nome de Alá e do seu profeta, estas imagens alimentem a islamofobia na opinião pública europeia. A questão excede, em muito, o debate sob a liberdade de imprensa.
(...)
Basta pensar dois minutos para entender até que ponto o que vemos é em grande medida o resultado da manipulação política dos sentimentos religiosos de muita gente pelo islamismo radical e pelos governos ditatoriais e teocráticos do mundo islâmico. Os mesmos dois minutos chegam para se concluir que, ofendidos ou não pelas caricaturas do profeta, milhões de muçulmanos não partilham do mesmo sentimento de vingança e de ódio, que muitos têm opiniões diferentes que sabem que não podem exprimir em voz alta, sob pena de repressão violenta.
Querer responder a tudo isto com meia dúzia de considerações politicamente correctas - ou aparentemente sensatas - sobre exageros de parte a parte, que se alimentam mutuamente é confundir tudo. Querer responder a tudo isto com discussões mais ou menos bizantinas sobre os limites à liberdade de imprensa nos países europeus é não compreender a verdadeira dimensão do problema. Se não fossem os cartoons, seria outra coisa qualquer a desencadear a aparente indignação do mundo islâmico conta a islamofobia ocidental. Outros episódios haverá com as mesmas consequências.
(...)
Ainda as caricaturas de Maomé (2)
Este pequeno episódio é bem ilustrativo de uma perversão de raciocínio. Seguindo a lógica de Vasco Rato, só quem publica aquelas caricaturas de Maomé é que está a favor da liberdade de imprensa. Vasco Rato confundiu a liberdade para fazer uma coisa com a obrigação de fazer essa coisa. Não será isto uma atitude radical do tipo "quem não está comigo está contra mim"? Ou será que para defender a liberdade de expressão temos necessariamente de ofender os outros?
A responsabilidade que deve acompanhar a liberdade de expressão nunca deverá ser regulamentada por leis; deve estar presente na consciência de cada indivíduo. E como é óbvio, essa responsabilização não pode ser regulamentada por leis.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006
Ainda as caricaturas de Maomé (1)
Mas, à margem do caso em concreto, que os extremistas empolaram de forma absurda e inaceitável para incitar os muçulmanos à revolta, não era mau que ponderássemos sobre o mau uso que, por vezes, se faz da liberdade de expressão. Ela está erigida em valor sacrossanto numa sociedade à qual o sagrado é cada vez mais estranho e que foi perdendo a noção dos limites, dos valores, e não raro, da razoabilidade e do bom senso.
Eu não teria escrito nem publicado "cartoons" a troçar com Maomé ou com a Nossa Senhora de Fátima. Porque respeito as crenças e sensibilidade religiosa dos outros, por mais absurdas que elas me possam parecer. Mas no meu código de valores – que é a liberdade – não proíbo que outros o façam, porque a falta de gosto ou de sensibilidade também têm liberdade de existir. E depois as pessoas escolhem o que adoptar. (...)
É por isso que eu, que todavia sou um apaixonado pelo mundo árabe e islâmico, quanto toca ao essencial, sou europeu – graças a Deus. Pelo menos, enquanto nos deixarem ser e tivermos orgulho e vontade em continuar a ser a sociedade da liberdade e da tolerância.
- Miguel Sousa Tavares, Expresso, 04-Fev-2006
Qual é a fronteira exacta entre a crítica ao fundamentalismo religioso e o insulto gratuito e permanente a uma cultura?
- Daniel Oliveira, Expresso, 04-Fev-2006
sábado, 4 de fevereiro de 2006
Um fogo que devora o mundo
Ainda na última campanha eleitoral para Presidência da República pudemos testemunhar alguns episódios de manifesta falta de respeito entre alguns candidatos. Alguns políticos tentaram justificar essas atitudes insultuosas como fazendo parte natural do "jogo político". Será mesmo assim? Deve a falta de respeito ser uma prática normal aceitável no relacionamento entre pessoas e povos? Convém recordar que, pelo facto de termos liberdade para fazer qualquer coisa, isso não significa que devemos fazer essa coisa. Com a liberdade vem sempre a responsabilidade.
Existe ainda um outro aspecto: a justiça. Mesmo que no Islão fosse aceitável representar o Profeta, a verdade é que algumas destas caricaturas são baseadas em estereótipos e informação incorrecta sobre o próprio Maomé. Dá para pensar se o autor das caricaturas sabe alguma coisa sobre o Islão ou sobre a história de Maomé. A desinformação sobre estes assuntos tem sido tremenda desde os primórdios do contacto do Islão com o Ocidente; nos dias que correm, nada pode justificar essa desinformação.
Existe, obviamente, o outro lado da moeda. Estes princípios de respeito e justiça também se aplicam para quem é alvo de insultos; nessas situações o melhor é ignorar o caso e não reagir. Frequentemente o silêncio consegue ser uma resposta mais eficaz do que qualquer agressão verbal. Ignorar de um insulto permite muita vezes que ele passe despercebido. Afinal quem é que se lembra do que foi publicado nos jornais dinamarqueses em Setembro do ano passado?
Nos países islâmicos a expressão dos protestos assemelhou-se a motins de rua. Inspirados por grupos radicais, ou, quem sabe, por governos que desejam desviar a atenção dos seus cidadãos dos seus problemas internos, as reacções são o que se tem visto: manifestações de fanatismo e radicalismo na forma de insultos à bandeira dinamarquesa, ameaças a cidadãos europeus, ataques a representações diplomáticas,... Os media dos países islâmicos – tantas vezes alinhados com a voz dos respectivos governos – fazem eco desses protestos.
Este é sem dúvida mais um episódio que ameaça a convivência entre os povos e denigre a imagem da religião; provavelmente, repetir-se-á. Infelizmente, num momento em que são necessárias pontes e diálogo entre os povos, criam-se muros de preconceitos e incompreensão, recorrendo a actos ofensivos e injustos. É impossível não recordar a advertência de Bahá'ú'lláh proferida há mais de cem anos atrás: "O fanatismo e o ódio religioso são um fogo que devora o mundo e cuja violência ninguém consegue apagar."
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006
Flores e Corvo
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006
Mea Culpa de um iraniano

Confesso que fico chateado quando vejo todo o Islão e o mundo islâmico identificado com o fanatismo e terrorismo. Infelizmente vários eventos nos últimos anos tem vindo a levar cada vez mais os povos ocidentais a identificar os muçulmanos com a violência e o ódio de cariz politico-religioso. Para quem costuma fazer esse juízo de valores, recomendo a leitura do artigo: We should be sorry: Iranians and anti-semitism. O autor é um iraniano muçulmano.
Aqui ficam alguns excertos:
As a child growing up in Tehran I was lucky enough to attend school with Iranians from various religious backgrounds. Mostly Jewish, Christian and Bahai kids. It never occurred to us that religion should play any part on how we felt about each other as friends.
It was not until my family moved to the United States when it became apparent to me that many Moslem Iranians are anti-Semitic and anti-Bahai. At the beginning it was a shock to me. It still kills me to say it, but I have come to accept the ugly truth about us as a community.
(...)
It is time for Iranians to face this ugly truth. In my view, Iran's liberation will not begin until we can reconcile with other religious minorities, especially Jewish and Bahai communities. We Moslems need to extend our hands, apologize and beg for their forgiveness.
A propósito da visita do Sr. Gates
A propósito da visita do CEO da Microsoft a Portugal (e de todo o evento mediático que se foi fazendo ao seu redor) ficam umas dúvidas:
Quanto gasta actualmente o Estado Português em licenças Windows e MS-Office?
Quanto pouparia se usasse Linux e Open Office?
Será que o tal choque tecnológico implica que Portugal se torne uma coutada da Microsoft?
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ACTUALIZAÇÃO:
Sobre este assunto recordo um post publicado aqui há cerca de um ano: Linux na Administração Pública?
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006
A intervenção das Religiões
Na edição de hoje também se encontram textos do Zé Filipe, Vitor Mácula, Timshel, Maria da Conceição, Manuel Vieira e Carlos Cunha.
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A necessidade de partilha da experiência religiosa pessoal está na base da formação de comunidades religiosas. E nas dinâmicas comunitárias que estas partilhas suscitam podemos encontrar crentes com dois tipos de atitudes bem distintas: os que se afastam do mundo, tentando criar comunidades perfeitas, tentando seguir um estilo de vida ideal de acordo com os ensinamentos religiosos; e os que tomam o caminho oposto, tentando transformar o mundo num local melhor, e desenvolvendo diversas actividades que visam melhorar a vida dos povos.
Os parágrafos que se seguem são excertos de escrituras e palavras de teólogos de várias religiões, onde se justifica a necessidade da comunidade religiosa intervir no mundo, e de o transformar numa sociedade mais justa e mais equilibrada. As citações foram retiradas do livro The Phenomenon of Religion: A Thematic Aproach de Moojan Momen; a tradução é da minha responsabilidade.
SIKHISMO
... cada Sikh age e ora pela fraternidade universal: o Sikh ora em busca da sarbat da bhala (bem-estar para todos)...
o Sikhismo é muito claro quanto ao tipo de serviço que deve ser prestado e a quem deve ser prestado. O serviço material, assim como o proporcionar de descanso e alívio aos outros, ou a leitura das escrituras para os outros para lhes oferecer conforto espiritual é muito superior aos incontáveis fogos de sacrifício, à prática de cerimónias ou à mera meditação e conhecimento mundano... O sikhismo também contém instruções contra a oferenda de comida ou dinheiro aos chamados "renascidos"; em vez deles, são os pobres e os necessitados que devem ser auxiliados. O Guru Gobind Singh faz uma declaração claramente inequívoca a este respeito: o verdadeiro serviço é o serviço a estas pessoas (vulgares). Não estou inclinado a servir as castas elevadas; a caridade dará frutos neste e noutros mundos apenas se for dada a essas pessoas necessitadas. (Singh, Sikh Theology of Liberation, pag. 124, 127-128)
RELIGIÃO BAHÁ'Í
O quarto princípio ou ensinamento de Bahá'u'lláh é o reajustamento e equilíbrio dos padrões económicos da humanidade. Isto lida com a questão da subsistência humana. É evidente que sob os presentes sistemas e condições de governação, os pobres estão sujeitos a grandes necessidades e miséria, enquanto que outros mais afortunados vivem no luxo e com muito mais do que as suas reais necessidades. Esta desigualdade de quinhão e privilégio é um dos problemas mais profundos e vitais da sociedade humana. Que existe uma necessidade de um equilíbrio e partilha através dos quais todos possuam os confortos e os privilégios da vida, isso é evidente. O remédio é legislar sobre o reajustamento das condições. Os ricos também devem ser misericordiosos com os pobres, contribuindo voluntariamente para as suas necessidades, sem serem forçados ou compelidos a fazê-lo. A tranquilidade do mundo será assegurada através do estabelecimento deste princípio na vida religiosa da humanidade ('Abdu'l-Bahá, Promulgation of Universal Peace, p.107-108)
CRISTIANISMO
A Teologia deve vir dos pobres... A Igreja necessita da reflexão dos pobres. Eles conhecem a morte num nível íntimo que nenhum intelectual conhece.... O ponto de partida da teologia da libertação é o compromisso com os pobres, as “não-pessoas”. As suas ideias vêm das vítimas... O compromisso com os pobres é o verdadeiro local da experiência espiritual. No compromisso com os pobres... encontra-se Deus. [Gutierrez] reconheceu que Deus não é o principal tema na teologia da libertação, mas acrescentou "Estamos a trabalhar nisso"... A teologia da libertação não é optimista. Fala frequentemente de pecado e a situações de pecado. "Não temos a certeza noutra sociedade, mas temos a certeza que a presente sociedade não é viável e devemos mudá-la." (relatório de Gustavo Gutierrez dirigido a uma reunião da Associação de Teologia Católica, Junho 1978, citado em Schall, Liberation Theology in Latin America)
JUDAISMO
A teologia da libertação judaica reconhece que o mundo mudou, e que pela simples aplicação das categorias pré-holocausto e holocausto ao mundo contemporâneo fechamos os nosso olhos e ouvidos à dor e à possibilidade do presente. Ao transportar a nossa própria história, legamos à posteridade uma compreensão das lutas contemporâneas. Se estivermos esmagados, porém, pela história e procuramos esmagar os outros, a nossa memória torna-se um calço de cólera e estreiteza de espírito, um instrumento rude em vez de uma memória delicadamente nutrida... Aqueles que queriam um regresso ao Egipto recusavam o risco do deserto, certamente uma posição compreensível. Mas a liberdade estava noutro local, para lá do conhecido, e novos padrões de vida e culto seriam desenvolvidos na dor e luta pela libertação. (Ellis, Towards a Jewish Theology of Liberation, pag. 121)




