quinta-feira, 30 de março de 2006

Casa Branca

Pode parecer estranho (ou mesmo maçador) a alguns leitores que nos últimos tempos tenha referido tantas vezes a situação dos bahá’ís no Irão. Sei que corro o risco de passar a imagem que este blog é uma espécie de debate Baha'is-Irão. Claro que eu preferia não ter de abordar estes assuntos; mas não consigo ficar calado. E é sobre este assunto que houve mais um pequeno desenvolvimento. Na passada terça-feira, 28 de Março, o agravamento da situação dos bahá'ís no Irão foi referido pelo secretário de imprensa da Casa Branca, Scott McClellan. Aqui fica a tradução do excerto dessa conferência de imprensa.
(...)
PERGUNTA: Scott, a Relatora Especial das Nações Unidas para a Liberdade de Religião e Crença afirmou que estava altamente preocupada com o facto do governo do Irão estar a aumentar as suas perseguições aos 300.000 membros da fé Bahá’í naquele país. Qual é a mensagem do Presidente ao governo do Irão sobre este assunto?

SR. McCLELLAN: Bem, tal como você disse, ela expressou a sua preocupação pela situação relativa a minorias religiosas no Irão – os Baha’i – que está, de facto a agravar-se. Partilhamos estas preocupações. Apelamos ao regime iraniano para respeitar a liberdade religiosa de todas as suas minorias, e a garantir que essas minorias religiosas são livres de praticar a sua crença religiosa sem discriminações ou medo. E continuaremos a acompanhar de muito perto a situação do Bahá'ís, e a falar sempre que os seus direitos sejam negados.

PERGUNTA: Que pressões instaria, por exemplo, outros países a colocar sobre o Irão?

SR. McCLELLAN: Bem, penso que falaremos com embaixadores de outros países na região e vamos levantar o assunto com eles e com os seus governos. Continuaremos a falar e a levantar o assunto do tratamento dos Baha’is nas Nações Unidas e noutros organismos, e pediremos a todos os que têm algum tipo de influência em Teerão que continuem a defender os direitos dos Bahá’í e de outras minorias religiosas.
(...)
A segunda pergunta também me leva a questionar o que é que o governo português tem feito sobre este assunto. Haverá uma tomada de posição pública? Ou ficará tudo no segredo dos corredores do Palácio das Necessidades?

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LINKS:
Texto completo Conferência Imprensa na Casa Branca (em inglês)
Bahá'ís face yet more persecution in Iran (Ruth Gledhill)
Bahá'ís do Irão: o pior está para vir?

quarta-feira, 29 de março de 2006

Teísmo e Monismo

O texto seguinte é a minha colaboração de hoje na Terra da Alegria.
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O quadro seguinte apresenta uma sistematização simplificada de alguns dos mais importantes aspectos do pensamento religioso nas religiões Ocidentais e Orientais.

Ocidental/Teísta
Oriental/Monista
Um Deus Criador que actua como uma pessoa .
Um conceito de Realidade Última indiferenciada e impessoal.
O ser humano é fundamentalmente diferente e distinto de Deus.
Ou o ser humano é uma realidade idêntica à Realidade Absoluta: Atman é Brahman (monismo); ou, tal como acontece no Budismo, nada se pode dizer sobre a pessoa que atingiu o Nivana.
O mal e o sofrimento resultam do pecado contra a Lei de Deus.
O Mal e o Sofrimento devem-se à ignorância e auto-ilusão humana.
O caminho para a salvação depende das boas obras e da adesão à Lei de Deus, ou é simplesmente uma matéria de fé e graça de Deus.
O Caminho para a salvação é percorrido através da aquisição de conhecimento e sabedoria, isto é, a capacidade de ver as coisas como elas realmente são.
O propósito da salvação é escapar da ameaça do inferno e alcançar a meta do paraíso.
O propósito da salvação é escapar ao sofrimento deste mundo e alcançar um estado de felicidade surprema, o Nirvana ou moksha.
Os elementos mais importantes de um ritual giram em torno da adoração e dos sacramentos.
Os elementos mais importantes de um ritual giram em torno da meditação e estados de consciência alterados.
O tempo histórico é progressivo, tem um princípio e um fim.
O tempo é cíclico; não tem princípio nem fim.


Apesar de sabermos que as principais correntes ortodoxas do Islão, do Cristianismo e do Judaísmo possuem uma natureza claramente teísta, podemos encontrar alguns místicos nestas religiões que defendiam ideias comuns ao monismo oriental. Por exemplo, Zohar fala da alma como uma emanação de Deus que pretende reunir-se com a sua fonte criadora; S. João da Cruz também falou também se referiu à união da alma com Deus como sendo o objectivo final de quem segue um caminho místico. Os sufis seguidores de Ibn-Arabi defendem o conceito de wahdat al-wujud (unicidade do ser), tendo evoluído para uma abordagem claramente monista.

Por seu lado na Índia, têm surgido várias correntes de pensamento teísta. A seitas bhakti possuem uma conceptualização teísta de vários deuses – particularmente Shiva e Vishnu. Também no em algumas seitas do Budismo Mahayana encontramos elementos de teísmo; Buda é visto como salvador e fonte de graça, que pode ser adorado e a quem se pode orar.

Resumindo: teísmo e monismo ocorrem tanto nas religiões orientais como ocidentais. O Teísmo é predominante nas religiões ocidentais e o monismo nas religiões orientais, mas nenhum é o exclusivo de nenhuma delas

Moojan Momen, in The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach, pag. 36-37

Comentário:
Como o próprio autor assume, o quadro apresentado é contém várias simplificações e generalizações. No entanto, parece-me particularmente útil como uma base para qualquer comparação entre os sistemas de pensamento desenvolvidos nas religiões ocidentais (abraâmicas) e as religiões orientais.

terça-feira, 28 de março de 2006

Talk sparks ire at interfaith event

By MAYA KREMEN (STAFF WRITER)

HASBROUCK HEIGHTS -- The mood at the annual Interfaith Brotherhood-Sisterhood brunch on Sunday was mostly one of unity.

Women in headscarves chatted with women in saris.

A minister gamely shouted out "Shalom" to a rabbi.

A founding member called the brunch, which is in its 20th year, "a rainbow coalition."

But when 350 people from six different faiths gather in the same hotel ballroom, there is bound to be some disagreement.

And there was, when a keynote speaker's address about the persecution of Baha'is in Iran touched off anger among some Muslim attendees. Adherents of the Baha'i religion, who number 5 million worldwide, claim that hundreds in Iran have been killed or imprisoned or prevented from practicing basic tenets since the 1970s. The monotheistic religion originated in Persia in 1844 and is now Iran's biggest minority group.

William L. H. Roberts, a national Baha'i leader, spoke about "Freedom to Believe." He condemned the Iranian government's "policy of slow, constant strangulation, discrimination and persecution." Roberts called for those gathered to speak out against all religious persecution, and used as another example an Afghan man who had been facing possible execution for converting from Islam to Christianity.

A court has dismissed the case, which set off an outcry in the United States and other nations. An official in Afghanistan said the man, Abdul Rahman, could soon walk free, perhaps as early as today.

Several Muslims said after the speech that they were offended by what they saw as Roberts' singling out of Islam as a persecuting religion.

"I felt that he's bashing Islam indirectly," said Mehdi Eliefifi, president of the New Jersey Outreach Group, which works to bring different faiths together.

"It feeds into the stereotype, putting examples of bad behavior of individuals and governments as being the main theme of Islam," he said.

Besides religious persecution, Roberts asked members to speak out against genocide in Darfur. He spoke about freedom to worship as a "basic human right," and used as another example of the abuse of this right the persecution of a native religious group in Brazil.

Joy Kurland, an organizer of the brunch and director of the Jewish Community Relations Council of the UJA Federation of Northern New Jersey, said that she did not think Roberts meant to be divisive.

"Because he is a Baha'i, and because he's involved in the national Baha'i community, he's connected to the issues that resonate with his people," she said.
She added that differences in opinion between groups are a natural occurrence of the growth of the Brotherhood-Sisterhood coalition.

The group, which started as a coalition of North Jersey Jews, Protestants and Catholics in 1987, has grown to encompass Muslims, Hindus, Jains, Sikhs and Baha'is.
Since its advent, members have come together to pray for peace in the Middle East and organized an interfaith Seder dinner. The organization has spawned grass-roots programs, such as one in which members of a church and a mosque visit a soup kitchen together.

As the organization has grown, disagreement has occasionally been a part of life, said Rabbi Joshua Finkelstein of Temple Emanuel in Franklin Lakes. Finkelstein said that he often disagrees with Waheed Khalid of Darul Islah, a Teaneck mosque, when they talk about Israel.

"Sometimes conversations are quite pointed," he said. "Sometimes it's like a marriage. But if we can connect here, there's a hope that we can do that in the state, in the nation and in the world."

For Sulekha Kalyan of Ridgewood, the brunch is a time to forget about differences and sectarian conflicts.

"Here we bring what's common between us," said Kalyan, a Hindu woman sitting at a table of Muslims and Sikhs. "From here you see why it's happening, and why it shouldn't be happening. Your horizon broadens."

Darul Islah Imam Saeed Qureshi, who spoke after Roberts, apologized for the persecution of Baha'is in Iran, but also asked those gathered not to judge all Muslims by the actions of a few.

"Today we are together with Muslims who you see and experience as peaceful humans. There are others that call themselves terrorists." If you judge all Muslims by the actions of the terrorists, he said, "there will never be peace."


Publicado no NorthJersey.com, em 27 de Março de 2006


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COMENTÁRIO: É natural que os muçulmanos se sintam incomodados quando se refere as perseguições contra os baha’is, ou contra outros grupos minoritários que vivem no seio de sociedades islâmicas. Mas o que é estranho é que alguns muçulmanos se sintam mais ofendidos com os protestos de baha’is (que clamam apenas por justiça e respeito pelos direitos humanos) do que com actos praticados seus irmãos de fé que perseguem as minorias. Esperemos que ninguém caia na tentação de rotular de “islamofobia” qualquer crítica contra os actos de fundamentalistas islâmicos ou regimes totalitários islâmicos.

Ruth Gledhill - Articles of Faith

Excerto de um artigo de Ruth Gledhill, publicado ontem no Times.
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Bahá'ís face yet more persecution in Iran

On the site of Holocaust survivor Alexander Kimel is a fairly comprehensive overview of the factors of anti-Semitism and demonisation of the Jewish people that culminated in the murder of six million Jews, along with many thousands of people from Romany, gay, disabled and other minority communities. Kimel concludes that for many reasons, a Holocaust could not happen again today. One reason that he doubts this is because it would necessitate the recurrence of a particular set of conditions, including the 'silence and indifference of the whole world toward the fate of the Jews.' It is for that reason among other obvious ones that I am highlighting here the current fate of the Baha'i community in Iran. (See this photo of Bahá'í temple in Delhi and others on this site.)

I do not want to be part of another 'conspiracy of silence'. And some Bahá'ís believe that aspects of what they are experiencing in Iran - the officially sanctioned recording of their existence and religious affiliation - bear terrifying comparisons with what happened to Jewish people in Germany in the run-up to their slaughter at Auschwitz and elsewhere.

segunda-feira, 27 de março de 2006

Será que um Baha'i deve acreditar cegamente em Bahá'u'lláh?

Uma questão que coloquei a vários bahá'ís. Aqui ficam as respostas.
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Claro que deve acreditar cegamente em Bahá'u'lláh, pois Ele tem em si os nossos olhos!

(JMF)


É pá a tua pergunta, de alguma forma deveria ser melhor explicada, mas segundo aquilo que entendi, a minha resposta é a seguinte:

Se estás a falar de um bahá'í apronfundado nas Escrituras Sagradas, idealmente não só as Escrituras Bahá'ís, com experiência, e que tenha aceitado Bahá'u'lláh quer pela razão mas também pelo coração, deve ou não acreditar em Bahá'u'lláh cegamente, eu respondo que sim. Não há razão para persistir na dúvida depois de se fazer uma descoberta intensa e bem estruturada. Muita gente hoje em dia caí no erro de se viciarem no processo de busca, pelo que mesmo quando encontram o que procuram, não querem acreditar e seguem procurando porque de alguma forma dão mais valor ao processo de busca do que ao objectivo dele.

Agora, para um novo bahá'í que ainda não conhece bem as leis bahá'ís, e a própria Revelação de Bahá'u'lláh, acho de alguma forma justificável e aceitável que hajam dúvidas na sua Fé. O processo de desenvolvimento espiritual de um bahá'í, é em tudo idêntico ao dos outros crentes das outras religiões, requer tempo, desejo e empenho da própria pessoa. É claro, uns precisam mais tempo do que outros.

Em resumo: Acho que o resultado final do processo de busca e conhecimento do Manifestante Divino é chegar ao ponto de não haver dúvidas sobre a realidade do Manifestante Dívino, neste caso falamos de Bahá'u'lláh, logo acreditar cegamente nas Suas palavras e leis. Mas isso só é válido se a busca for verdadeira e pura, o que a meu ver significa, ser impulsionada pelo coração e suportada pela razão.

(Pedro Reis)


Marco, para mim é claro. Acreditamos com toda a visão dos nossos olhos interiores em Bahá'u'lláh! O "cegamente" é paleio de quem só usa os olhos limitados que estão imbutidos na face. Estes dão-nos a perspectiva de uma realidade limitada e incompleta.

Beijinhos!

(Stella)


Em princípio, penso que sim, mas aí tudo depende da Fé de cada um.

Antes de nos tornarmos baha'is, como é natural, temos todo o direito de O questionarmos, mas uma vez que O aceitemos como um Mensageiro de Deus, então creio que isso deixa de fazer sentido.

Porém, como não somos perfeitos, nossa fé costuma ter altos e baixos, e às vezes fraquejamos.

(Coriolano J. S. Corrêa)


Questão dificil Marco, porque acho que acima de tudo é uma questão de Fé e coração e não puramente intelectual e da mente. Duvido que alguem se torna Baha'i meramente via debate intelectual ou provas materiais. A dada altura, ou algo nos toca a alma e coração ou nada ...achamos tudo muito bonito e até podemos achar os principio validos mas isso em si não prova divinidade a ninguem :-)

(Navid)


Não penso que seja essa a Sua vontade.

(JMoutinho)


Se Bahá'u'llah ensinou a livre investigação da verdade, teria querido que todas as pessoas que O conhecessem viessem a pôr em causa algumas das coisas sobre as quais falou, escreveu e que fazem parte integrante da Sua Mensagem. Um Bahá'i deve ser alguém que aceita conscientemente os princípios da Fé Bahá'i.

Como é evidente, há coisas que nós não entendemos e que nos parece que não se aplicam aos nossos dias, mas deve haver boas razões, por parte do Manifestante de Deus para as ter citado como parte de um código de vida. Essas coisas, têm a ver mais com o desenvolvimento da Sociedade em que nos inserimos, pois os princípios espirituais são imutáveis e muito semelhantes a tudo o que os outros Manifestantes de Deus disseram. Portanto, acho que alguém que acredita em Bahá'u'llah não O aceitou "cegamente". Reconheceu nele as qualidades ensinadas pelos Manifestantes que O precederam e acredita que os ensinamentos que nos deixou, levarão à construção de um mundo mais equilibrado onde a Humanidade seja como as "ondas de um só mar" e "as flores de um só jardim".

Ser bahá'i não é abdicar dos ensinamentos dos outros Manifestantes de Deus, é conseguir um "valor acrescentado" à Mensagem Divina, ao aceitar Bahá'u'llah!

(Maria Lagos)


Great question! The answer is, I believe, no. Here are a few quotes and links:

A humanity which has come of age no longer needs the language of parable and allegory; faith is not a matter of blind belief, but of conscious knowledge. Nor is the guidance of an ecclesiastical elite any longer required: the gift of reason confers on each individual in this new age of enlightenment and education the capacity to respond to Divine guidance."(Baha'i International Community Office of Public Information, Baha'u'llah, 1991, p. 5)

"[Baha'i]Apologetics must show that faith is not blind belief but is the culmination of the full exercise of humankind's essential nature as 'the rational soul'." (Ian Klug "Apologetics: A Personal Vision")

"I believe that reason and faith do not contradict each other but are two mutually reinforcing means to comprehend reality. The Baha'i principle of the harmony between science and religion highlights this matter. According to this principle, Science, without religion, will lead mankind into an age of materialism and can be abused to produce dangerous and destructive developments that are in contrast to the purpose of science, which is to be of benefit to humankind.
Pursue of religion on the other hand, without a belief in science, is going to result in blind superstition." (Carlo Schroeder, "My Faith and Me")

(George Dannells)


I'm not sure the question really applies. Because Baha'u'llah says that we should seek out the truth for ourselves, we must be educated. At the same time, we must have faith that if we believe in Him, we must follow His laws, regardless of whether we understand all of the reasons behind them. Faith and reason must go hand in hand, otherwise religion becomes superstition.

(Please don't use my name. :-))


Creo que un bahá'í debe creer en Bahá'u'lláh con tanta certeza como cree que el agua es fluida, que el fuego consume, y que el sol saldrá mañana, pero debe buscar respuestas, así como un verdadero investigador busca conocer y entender la naturaleza del agua, del fuego, y el movimiento de rotación de la tierra.

(Husayn Villar)

sexta-feira, 24 de março de 2006

quinta-feira, 23 de março de 2006

Kitáb-i-Iqán (15)

O Regresso de Cristo

Num post anterior sobre o Kitáb-i-Íqán referi que, na perspectiva baha'i, os Manifestantes de Deus podem ser vistos sob duas perspectivas distintas: uma perspectiva divina e uma perspectiva histórica. Na perspectiva divina, percebemos que todos Eles possuem as mesmas características, desempenham o mesmo papel de intermediários entre o Criador e a criação. Na perspectiva histórica podemos perceber que cada um deles possui um nome e uma individualidade própria; expressam os Seus ensinamentos de acordo com as necessidades e maturidade dos povos a quem se dirigem (sendo este o motivo para as diferenças entre os ensinamentos éticos e sociais das religiões).

Se considerarmos apenas a perspectiva divina, percebemos que os Manifestantes possuem a mesma essência e os mesmos poderes. Sob esta perspectiva não é possível fazer distinção entre os Mensageiros de Deus. O facto dos Profetas partilharem os mesmos atributos divinos, permite que se identifiquem uns com os outros, e inclusive sejam identificados pelo mesmo nome. Desta forma, cada vez que surge um novo Profeta, é correcto dizer que ele é o regresso dos Profetas anteriores.
É claro e evidente a ti, que todos os Profetas são Templos da Causa de Deus, embora tenham aparecido vestidos com diferentes adornos. Se observares com discernimento, verás que todos habitam no mesmo tabernáculo, voam no mesmo céu, sentam-se no mesmo trono, proferem o mesmo discurso e proclamam a mesma Fé. Tal é a unidade destas Essências da Existência, destes Luminares de infinito e imensurável esplendor. Assim, se um destes Manifestantes da Santidade proclamasse, dizendo: "Sou o regresso de todos os Profetas", Ele diria, realmente, a verdade. De igual modo, em cada Revelação subsequente, o regresso da Revelação anterior é um facto cuja verdade está firmemente estabelecida. Visto que o regresso dos Profetas de Deus, conforme atestam os versículos e as tradições, foi convincentemente demonstrado, também o regresso dos Seus eleitos está definitivamente provado. [162]
Uma analogia recorrente em muitos livros baha'is consiste em comparar os Manifestantes de Deus com o sol. Tal como o vemos, o sol surge sobre o horizonte e ilumina as diferentes regiões do planeta. Todos os dias a sua influência faz-se sentir. Algumas pessoas até podem fazer distinções entre os efeitos do sol que vêem hoje com o sol que viram ontem. Mas a verdade é que é sempre o mesmo sol.

É importante ainda referir que se insistimos numa interpretação literal das escrituras no que toca ao regresso de Cristo, encontramos descrições inconsistentes com a ciência e a razão. Foi isso que 'Abdu'l-Bahá referiu numa entrevista com uma das primeiras crentes ocidentais:
... os sinais e condições que foram referidas [para a segunda vinda de Cristo] têm um sentido simbólico, e não devem ser entendidas literalmente. Entre outras coisas, diz-se que as estrelas cairão sobre a terra. As estrelas são incontáveis, infinitas, e, os matemáticos modernos definiram e provaram cientificamente que o globo solar é cerca de um milhão e meio de vezes maior que a terra, e cada uma das estrelas fixas é mil vezes maior que o sol. Se fossem cair sobre a superfície da terra, onde iriam essas estrelas encontrar lugar? Seria como se mil milhões de Himalaias caíssem em cima de um grão de mostarda! De acordo com a razão e a ciência, isto é absolutamente impossível. (Respostas a Algumas Perguntas, cap. XXVI)
Nas escatologias cristãs e islâmicas, a ressurreição dos mortos e o regresso de Cristo são dois eventos que quase sempre foram entendidos literalmente. Para quem foi educado na religião cristã, esta perspectiva sobre o regresso de Cristo, que descrevi nos parágrafos anteriores, pode ser surpreendente (e até incompreensível!). Mas quem acompanha este blog com regularidade já deve ter percebido uma das características essenciais do modelo baha’i de interpretação das escrituras: quando a interpretação literal dos textos sagrados vai contra a ciência, então devemos procurar os significados simbólicos do texto.

Tentar perceber os muitos significados simbólicos das escrituras não é fácil; exige uma reflexão desapaixonada sobre os textos e um esforço para nos libertarmos de ideias pré-concebidas. No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh encorajou o destinatário a reflectir cuidadosamente sobre os significados simbólicos das Escrituras; e anunciou-lhe o resultado desses esforços:
Esforça-te, pois, a fim de compreender o significado de "regresso", que, apesar de tão explicitamente revelado no próprio Alcorão, ninguém até agora entendeu. Que dizes? Se disseres que Maomé foi a "Regresso" dos Profetas da Antiguidade, assim como atesta este versículo, também devem os Seus Companheiros ser o "regresso" dos Companheiros antigos, do mesmo modo que o "regresso" do povo anterior é claramente afirmado pelo texto dos versículos acima mencionados. E se a isto negares, terás repudiado, certamente, a verdade do Alcorão, o mais seguro testemunho de Deus aos homens. Esforça-te também para compreender o que significam "regresso", "revelação" e "ressurreição", verificadas nos dias dos Manifestantes da Essência Divina, para que possas contemplar com os teus próprios olhos o "regresso" das almas santas em corpos santificados e iluminados, e possas eliminar a poeira da ignorância e, com as águas da misericórdia que emanam da Fonte do Conhecimento divino, limpar o ego obscurecido, de modo a conseguires, porventura, através do poder de Deus e da iluminação divina, distinguir entre a tenebrosa noite do erro e o Amanhecer do esplendor imperecível. [160]

Letters from Elise

Letters from Elise é o meu blog preferido.
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Letters from Elise é o meu blog preferido.
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Esclarecimento aos leitores: isto é o resultado de uma aposta!

terça-feira, 21 de março de 2006

Bahá'ís do Irão: o pior está para vir?

É triste publicar um post destes num dia festivo, mas tem mesmo de ser.

Ontem, um documento apresentado pela Relatora Especial das Nações Unidas para a Liberdade Religiosa, Asma Jahangir, fez soar o alarme entre os representantes da Comunidade Internacional Baha'i junto da ONU. Ao descrever as acções do governo iraniano contra os Baha'is daquele país, a Relatora afirmou estar profundamente preocupada e expressou a sua preocupação num comunicado à imprensa relativo a "uma carta confidencial enviada em 29 de Outubro de 2005 pelo presidente do Quartel-General das Forças Armadas Iranianas a várias organismos governamentais".

"A carta", declarou a Sra Jahangir, "que é dirigida ao Ministério da Informação, aos Guardas da Revolução e às forças policiais, afirma que o Líder supremo, o Ayatollah Khamenei, deu instruções ao Quartel-General para identificar as pessoas que aderem à Fé Bahá’í e monitorizar as suas actividades. A carta prossegue solicitando aos destinatários para que recolham toda e qualquer informação sobre membros da Fé Bahá’i." A Sra. Jahangir também afirmou que "considera que uma tal monitorização constitui uma intolerável e inaceitável interferência com os direitos dos membros das minorias religiosas."

Bani Dugal, a representante da Comunidade Internacional Baha’i junto da ONU, reagiu: "Estamos gratos à Sra. Jahangir por ter dado a conhecer esta actividade. Partilhamos a sua preocupação pelo bem-estar dos baha’is e receamos pensar no que isto pode significar. Tratando-se de uma acção governamental sem precedentes, dirigimos ao Embaixador Iraniano um pedido de explicações." E acrescentou: "A preocupação da Relatora Especial no sentido de que essa informação possa ser «usada como base para um aumento das perseguições e discriminações contra membros da Fé Bahá'í» está claramente bem fundamentada".

"Sabemos bem a que é que a propaganda de ódio pode levar; a história recente apresenta muitos exemplos dessas horríveis consequências. E em nome dos baha’is iranianos, apelamos a todas as nações e povos para que não permitam que esta comunidade pacífica enfrente as consequências de um ódio cego", disse a Sra Dugal. "Não devemos permitir que os actos horríveis que surgiram de circunstâncias similares no passado, se repitam novamente. Nunca mais".

ATAQUES NOS MEDIA IRANIANOS

Nos últimos meses, vários jornais e programas de rádio têm prosseguido uma intensa campanha anti-Baha'i. Entre Setembro e Novembro de 2005, o influente jornal governamental Kayhan publicou mais de trinta artigos difamando a Fé Bahá'í com a clara intenção de suscitar entre os leitores o preconceito, a suspeita e o ódio contra comunidade baha’i do Irão. Esses artigos fazem uma deliberada distorção histórica, apresentam documentos históricos forjados, e descrevem os baha’is como tendo princípios morais ofensivos para os muçulmanos.

Em 1955 e 1979, o governo iraniano organizou violentos ataques contra os Bahá’ís daquele país. Estes ataques sempre foram precedidos de campanhas nos jornais e na rádio que fizeram crescer a animosidade e preconceito, aparentemente com o objectivo de preparar o público com o que estava para vir.

A SOCIEDADE HOJJATIEH

A crescente influência nos meios governamentais da Hojjatieh (link Wikipedia) - uma organização assumidamente empenhada na destruição da Fé Bahá'í -, apenas aumenta os receios sobre o futuro dos baha’is. Esta organização, fundada em 1953, por um clérigo muçulmano xiita, desempenhou durante a revolução iraniana de 1979, um importante papel ao acicatar a animosidade contra os baha’is. No entanto, devido a algumas diferenças teológicas - entre outras coisas, a Hojjatieh acredita que um estado verdadeiramente islâmico não pode ser estabelecido antes do regresso do 12º Imam - a Sociedade caiu em desgraça e foi proibida pelo regime em 1984.

Alguns observadores externos têm associado o ressurgimento da Sociedade com o regresso dos extremistas aos meios governamentais, incluindo o Presidente que afirmou frequentemente que esperava para breve o regresso do 12º Imam.

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LINKS:

UN Religious Freedom Official expresses fears for Baha'is in Iran (notícia original no BWNS)
UN warns against moves to monitor Iran Bahais (IranMania.com)
Summary and Analysis of Recent Media Attack against Baha'is in Iran (bahai.org)
The press in Iran (BBC)


Naw-Ruz (Ano Novo)

Ontem foi o último dia de jejum.

No último mês do calendário baha'i, os baha'is adultos devem abster-se de ingerir líquidos e alimentos entre o nascer e o pôr-do-sol. Longe de ser encarado como um sacrifício ou acto penitencial, o jejum deve ser um período de meditação, oração e preparação de um novo ano; é um acto profundamente espiritual, em que a abstinência de alimentos simboliza o controle sobre o ego; pessoalmente, sinto-o sempre como um teste ao meu desprendimento: levantar muito cedo, alterar horários de refeições e ter muito tempo disponível à hora de almoço, constituem uma mudança de hábitos significativa.

E hoje, é dia de Naw-Ruz (a palavra persa para "Ano Novo"). É um dia festivo que assinala o início do ano 163 do calendário baha’i. Curiosamente, é o único feriado baha'i que não está associada a algum evento ocorrido com a vida do Báb ou de Bahá'u'lláh.

Será estranho um calendário em que o ano se inicia com a primavera? A julgar por um calendário inter-religioso que encontrei recentemente, diria que não é assim tão estranho; o equinócio de primavera sempre teve um significado especial em muitas culturas e religiões do mundo.

O Naw-Ruz, propriamente dito, não é uma criação baha'i. Na antiga Pérsia esta data assinalava o início do ano Zoroastriano (e o dia em que Zoroastro recebeu a revelação de Deus). Mas alguns historiadores dizem que o Naw-Ruz tem origens anteriores a Zoroastro. Também é interessante notar que apesar do Naw-Ruz nunca ter sido uma festividade islâmica, manteve-se na Pérsia após esta ter caído sob domínio muçulmano. Na religião baha'i, tanto o Báb como Bahá'u'lláh proclamaram aos Seus seguidores a adopção do chamado calendário Badi, onde o Naw-Ruz, o primeiro dia do ano, é celebrado no primeiro dia de Primavera.

Nas celebrações de Naw-Ruz, alguns baha'is iranianos têm por hábito preparar a "mesa de Naw-Ruz"; ali se encontram sete travessas de que contêm coisas que na língua persa começam por "S" ou "SH"; a maioria das coisas colocadas nas travessas simboliza a paz, a prosperidade, o crescimento e outros bons desejos de ano novo. Entre os baha’is ocidentais, o Naw-Ruz é celebrado com uma festa que assinala o fim do jejum; ainda é muito cedo para terem surgido formas tradicionais de celebração desta data.

Feliz ano novo para todos os meus leitores.


(Esta apresentação é da autoria dos Bahá's de Nova Iorque)


NOTA: Sobre o Naw-Ruz, ver esta página na Wikipedia.

segunda-feira, 20 de março de 2006

Barnabas Quotidianus






Another of my favorite baha'i blogs is one year old today!
Happy birthday Barnabas Quotidianus!
Congratulations Barney Leith!

sábado, 18 de março de 2006

Miguel Sousa Tavares

Excerto do artigo de Miguel Sousa Tavares, hoje no Expresso:
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(...)
Se depois de sucessivas fusões e aquisições, só restam praticamente três bancos privados portugueses, não é mau para a concorrência e para os consumidores que um deles engula outro? Com mais de meio milhão de desempregados, não é pior que as anunciadas OPA resultem também em já anunciados despedimentos? Quando se quer impor um aumento da idade da reforma, é saudável que se anunciem, como resultante da OPA, reformas antecipadas, chamadas tecnicamente de «aproveitamento de sinergias»?

E, já agora, o principal: de onde é que vem tanto dinheiro? À custa de quem foram obtidos os astronómicos lucros da EDP? É sem dúvida louvável que o presidente-cessante da empresa de despeça dando um bónus de 120 euros a cada um dos seus 8000 trabalhadores (...); mas não seria mais louvável se tivéssemos a electricidade mais barata, conforme foi solenemente prometido quando se privatizou a EDP? E o que andava a PT a fazer com tanto dinheiro que, só agora, sob ameaça, resolveu dobrar o dividendo dos accionistas, assim como só agora se dispõe a aceitar o fim do seu confortável monopólio de facto na rede fixa? Não teria sido possível, sem OPA, ter aberto o sector à concorrência muito antes, para que o telefone tivesse deixado de ser entre nós um produto de luxo e os portugueses fossem obrigados a sofrer o pior e mais caro serviço de telefone fixo de toda a Europa?

E os lucros dos bancos, santo Deus?! Como é que num país onde o PIB cresce 0,5% e os depósitos dos clientes, geridos «private» e profissionalmente, pouco mais valorizam do que a taxa de inflação (e vá lá, vá lá...), os bancos conseguem apresentar lucros de 60 e 70%? E como podem pagar em média 10% de IRC sobre os lucros - graças ao «off-shore» da Madeira, à «consolidação fiscal» e a uma série de bonificações e isenções - enquanto os seus clientes pagam até 42% de IRS e o porteiro do banco alguns 20%? Onde está a riqueza do país correspondente à riqueza destes gigantes nacionais? Onde estão as empresas que crescem e criam empregos e riqueza graças ao financiamento acessível, energia a preços concorrenciais e telecomunicações eficientes e baratas?
(...)

Um pequeno filme

Recebi isto por email. A primeira coisa que saltou à vista foi a palavra baha'i mal escrita. Mas enfim, acontece a todos.

Depois até achei interessante (apesar deste pequeno filme ser feito com imagens estáticas). Pelo menos mostra alguns lugares baha'is na Terra Santa.


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quinta-feira, 16 de março de 2006

Iran Nobel laureate faces death threats

TEHRAN, Iran (AFP) - Iran's Nobel peace laureate Shirin Ebadi, long a thorn in the side of the clerical regime in Tehran, said she had received death threats from an extremist group.

"You have been warned several times about your declarations but despite that you are continuing with your actions," the group said in a fax sent to AFP by Ebadi, an outspoken human rights lawyer.

"We are warning you for the last time, if you continue you will pay for committing treason against your country and Islam," said the letter, signed by "The Association Hostile to Apostate Bahais."

Ebadi, who was awarded the Nobel peace prize in 2003 for her work promoting women's and children's rights in Iran, said she has been on the receiving end of a number of death threats over the past few years.

The monotheist Bahai faith was founded in Iran in the 19th century but its practice is now barred in the Shiite Muslim nation.

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Comentário:
Imagino que esta não é a primeira vez que Shirin Ebadi é ameaçado por algum grupo radical. Para mim a surpresa é um grupo desses intitular-se como "Associação Hostil aos Apóstatas Bahais".

Links:
Notícia Original (divulgada pela AFP)
Shirin Ebadi: A collection of newspaper articles (Baha'i Library)
Shirin Ebadi: Biography (Academia Nobel)
Direitos Humanos (inclui um texto de Shirin Ebadi)

A Professora M.

- Tio... hoje bateram na professora M.
- Como foi isso?
- Foram uns tipos que não são lá da escola.
- Mas sabes como é que a coisa aconteceu?
- Contaram-me que ela viu-os lá dentro. Agarrou num deles pelo braço e disse que eles não eram lá da escola. E então houve um que lhe deu uma estalada... Há um da minha turma que os conhece. Já foi chamado ao Conselho Directivo...

No dia seguinte, quando deixei o meu sobrinho na escola, notei a presença do carro da RTP junto ao portão. Percebi logo que o caso ia assumir alguma dimensão mediática. E assim foi: ontem alguns canais de televisão referiram o incidente e hoje há jornais que mencionam o caso.


Quem conhece a escola sabe que neste ano lectivo os problemas de segurança se agravaram. Os alunos queixam-se com mais frequência de roubos e agressões; os pais fazem eco desses incidentes nas reuniões com directores de turma; mas infelizmente a escola parece não ter feito muita coisa para impedir este tipo de eventos. Talvez com a divulgação deste caso, as coisas mudem um pouco.

Conheci pessoalmente a professora M. no passado ano lectivo e desde o início simpatizei com ela. Jovem professora de informática, sempre teve como uma das suas preocupações criar nos alunos o gosto pela informática. Foi graças ao seu entusiasmo que um dia fui convidado para ir à escola fazer uma pequena apresentação para os alunos sobre o que é trabalhar em informática e a importância das disciplinas que estudavam. Foi uma conversa muito interessante que envolveu alunos e professores.

Quando recentemente encontrei novamente a professora M. aproveitei para lhe agradecer o que fez pelo meu sobrinho e falámos de repetir a sessão com alunos e professores. Espero que este incidente não lhe tire o entusiasmo que lhe conhecemos.

Leituras...

Interfaith group finds shared aims (PoughkeepsieJournal.Com)

Baha'i faithful to observe time of fasting and prayer
(SouthCoastToday.com)

Baha’i faith believes in unity
(The Edmond Sun)

Sporting bate Académica e segue para "meias"
(TSF)

quarta-feira, 15 de março de 2006

Revelação e Iluminação

Aqui fica a "minha" colaboração de hoje na Terra da Alegria. Também podem lá encontrar um texto do Timshel sobre a Oração.
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De forma análoga à diferença entre as religiões teístas ocidentais e as religiões monistas orientais na forma como vêem os seus fundadores, está a diferença como vêem as suas escrituras. Para as religiões teístas, a escritura é considerada como sendo a palavra de Deus ou a vontade de Deus revelada ao mundo através da mediação do fundador/profeta da religião. No Islão, Maomé e os outros profetas são vistos como transmissores passivos das escrituras. A palavra "revelação" transmite um sentido de desvendar à humanidade algo que sempre existiu. Isto é mais saliente no Islão, onde o Alcorão é considerado como tendo uma preexistência celestial cujo arquétipo, o Alcorão terreno é apenas uma cópia. Assim, a função de Maomé foi revelar, ou desvendar o texto do Alcorão celestial.

O processo da revelação nas religiões teístas é visto com tendo quatro aspectos principais:
  • a origem da mensagem (Deus)
  • o transmissor da mensagem (o profeta)
  • os destinatários da mensagem (a humanidade)
  • a própria mensagem (as escrituras)

Existem várias elaborações sobre este padrão básico nas diferentes religiões. No Cristianismo, Cristo é simultaneamente transmissor e parte da mensagem. Ele é o Verbo que se fez carne. No Islão, o anjo Gabriel, através de quem Maomé recebeu a escritura, partilha o papel de transmissor.

Nas religiões teístas existe ainda um significado mais genérico para a palavra "revelação". Pode tratar-se de qualquer auto-descoberta divina. Desta forma, visões e sonhos experimentados pelos santos são consideradas, neste sentido, revelações. De facto, todo o mundo natural é, em alguma medida, revelador de Deus.

No Budismo, por contraste, as palavras de Buda que estão contidas nas várias escrituras budistas não são consideradas como tendo sido transmitidas por Buda e provenientes de uma fonte transcendente. Elas são resultado da visão e sabedoria do próprio Buda, da iluminação que atingiu através dos seus próprios esforços.

O Hinduísmo tem neste contexto, talvez, uma posição intermédia entre o Budismo e as religiões teístas. Parte das suas escrituras podem-se dizer ter sido reveladas. Estas são os Vedas e os Upanishads, que são designados por escrituras shruti (escutadas). Estas são tidas como tendo sido uma revelação divina directa aos rishis (videntes) de tempos antigos. As restantes escrituras hindus, chamadas smriti (lembranças), são atribuídas a tradições e são trabalho de sábios e estudiosos humanos.

Moojan Momen, in The Phenomenon of Religion: A Thematic Approach, pag. 203-204

terça-feira, 14 de março de 2006

domingo, 12 de março de 2006

A Última Heterodoxia

Segue-se a transcrição do artigo publicado ontem no caderno "Actual" do jornal Expresso. O texto é da autoria da jornalista Ana Cristina Leonardo. Acrescentei links e algumas referências entre parêntesis rectos para comentários no final do texto.





A Última Heterodoxia

Nascida no Irão quando este ainda se chamava Pérsia, em 1844, a fé bahá’i foi desde o início sujeita a perseguições. Discriminada pelo regime do Xá Reza Pahlevi, e já antes de seu pai, não teve melhor sorte com o regressado «ayatollah» Khomeini. Chegou a Portugal em 1926. Texto de Ana Cristina Leonardo.

John Birks Gillespie(1917-1993), que ficou para a história do jazz como Dizzy Gillespie, tornou-se bahá’i na década de 70, pouco tempo após o assassínio de Martin Luther King, em 1968. Os princípios professados pelos seguidores de Bahá'u'lláh pareceram ao trompetista, na altura em valente crise de alcoolismo, estar significativamente de acordo com a sua visão do mundo. Assim como ele mostrava convicto de que «chegam profetas à música e depois da sua influência se impor vem outro com um nova ideia, conseguindo muitos seguidores, também a fé bahá’i apontava para a unidade essencial entre profetas e religiões: «Cremos queDeus é uno, tem apenas uma religião, a qual nos é revelada progressivamente». E por isso preferem falar em fé.

Ao trazer o evolucionismo para o interior das religiões reveladas, os bahá’is ensaiam um sincretismo[1] que se traduz na aceitação daquilo a que chamam «os manifestantes de Deus» (professores de inspiração divina cujo ensinamento depende do nível em que os alunos se encontram), de Krishna a Buda, de Abraão a Zoroastro, de Moisés a Jesus Cristo ou Maomé. O Báb (1819-1850), em português "A Porta", e Bahá'u'lláh (1817-1892) , «A Glória de Deus», são aqueles que lhe são próprios.

Se o habitual é cada religião ter os seus mártires, Báb (de nome Siyi Ali-Muhammad) e Bahá'u'lláh (Mirzá Husayn Ali) estarão para os bahá’is como João Baptista e Jesus, respectivamente, estão para o cristianismo (descontada a pretensão de Jesus à divindade) [2]. À imagem do profeta que autenticou o filho de Maria e José como o Messias, também o Báb sofreu um final trágico. Aos 31 anos é fuzilado a instâncias dos «mullahs», indignados com a sua insistência na chegada iminente do Mensageiro de Deus. 13 anos depois, Bahá'u'lláh, seu acólito, proclama ser o prometido pelo Báb e demais religiões. Também nascido na Pérsia, oriundo de uma destacada família nobre, suportara uma série de prisões e exílios, primeiro para Bagdade, depois para Constantinopla, Adrianópolis e, finalmente, para Akka (hoje em Israel), tendo falecido numa povoação próxima, Bahji. Aí se ergue o seu sepulcro, que conjuntamente com o Centro Mundial Bahá'i, em Haifa, são lugares de peregrinação obrigatória.

Mapa dos exílios de Bahá'u'lláh

Desde a sua fundação que a fé bahá'i tem estado na mira das autoridades persas. Ainda no século XIX, calcula-se que cerca de 20 mil aderentes tenham sido mortos em diversos massacres. Em 1903 regista-se a chacina de uma centena na cidade de Yazd. A perseguição continuou até hoje. Ao testemunhar a possibilidade de profetas posteriores a Maomé torna-se uma heresia no mundo islâmico. Residirá aí a razão teológica subjacente à caça feroz a que vem sendo sujeita, em particular no Irão.

Durante a dinastia Pahlevi, que dirigiu o país entre 1925 e 1979, foram promulgadas uma série de leis discriminatórias. Em 1933 (dois anos antes de a Pérsia ter adoptado oficialmente o nome de Irão), a literatura bahá'i será proibida, os casamentos deixam de ser reconhecidos, os funcionários de Estado demitidos e as escolas encerradas. Uma nova onda de violência surge em 1955 quando, fruto de uma aliança oportunista entre o Xá e o Xeique Taqi Falsafi, os bahá'is são caluniados na rádio e a cúpula da sua sede nacional demolida à picareta pelas forças do exército dirigidas pelo general Batmangelich. Com todas as actividades proibidas, vivem um período de terror que não fará mais que prolongar-se com a queda do Xá e a promulgação da República Islâmica em 1979.




Destruição da casa do Báb, em Shiraz(Irão), em 1979

Um mês antes de Khomeini subir ao poder, a Casa do Báb, o santuário mais sagrado do país, é entregue a um «mullah» conhecido pelo seu fanatismo anti-bahá'i; em Setembro seria completamente destruída por uma multidão em cólera. Em Agosto do ano seguinte, o governo de Khomeini decide decapitar a liderança da comunidade. Os nove membros da Assembleia Nacional são dados como desaparecidos, um eufemismo a que as ditaduras recorrem ad nauseum. Três anos depois, a 18/6/1983, em Shiraz, terá lugar um dos acontecimentos mais chocantes: 10 mulheres bahá’i, entre os 17 e os 57 anos, são enforcadas uma à uma, obrigadas a assistir por ordem decrescente das idades, à agonia das congéneres. O crime? Ensinar a sua fé em aulas dirigidas a crianças.

Calcula-se que entre 1979 e 1998 tenham sido executados cerca de 200 bahá’is no Irão e sujeitos à tortura milhares deles. Mas a fúria persecutória não tem de chegar à morte para se mostrar eficaz. Depois de ter despedido sem indemnização todos os funcionários públicos bahá’i, o Estado adita em 1984 que estes teriam de devolver os salários pagos pelo governo. As actividades profissionais privadas também são vivamente combatidas. Durante o ano de 2003 foram muitos os empresários que viram, em tribunal, serem-lhe recusados alvarás ou licenças de actividade. Em 2004 e 2005 as prisões arbitrárias multiplicaram-se, assim como a confiscação de bens, incluindo as casas para habitação.


Membros da Assembleia Nacional Bahá'í do Irão, desaparecidos em 1980

O Conselho da União Europeia, no «Relatório Anual sobre os Direitos Humanos» (2004), chamou a atenção para o tema, afirmando continuar «preocupado com as constantes violações dos direitos humanos (no Irão), que incluem detenções arbitrárias, desaparecimentos na sequência de detenção, tortura e amputações, discriminação contra minorias religiosas, incluindo os bahá’is(...) Foram igualmente reafirmadas as preocupações pela destruição do santuário bahá’i de Babol, e pela recusa das autoridades em autorizarem que os restos mortais que nele se encontram voltem a ser condignamente enterrados»

Já o ano passado, o caso que teria maior visibilidade foi o que envolveu cerca de mil estudantes bahá'is impossibilitados de aceder ao ensino superior por discriminação religiosa. Desde os anos 90, em grande parte devido a pressões internacionais, era-lhes permitido frequentar escolas primárias e secundárias. Mas os cursos superiores continuavam-lhes vetados por ser obrigatório declarar a confissão religiosa e a fé bahá'i não constar na lista das religiões admitidas. Em 2004, as autoridades retiraram essa menção, introduzindo, contudo, um exame em que era solicitado aos estudantes um trabalho sobre um de quatro temas: judaísmo, cristianismo, zoroastrismo e islamismo. A maioria dos candidatos bahá'i optou pelo islamismo (a religião do país), e quando os resultados foram divulgados viu que havia sido acrescentada a palavra Islão no espaço reservado à religião do aluno. Muitos protestos e petições depois, dos 800 admitidos inicialmente apenas 10 constaram das listas finais. Toda esta trapaça discriminatória foi repetida no ano lectivo seguinte (o actual), resultando, na prática, numa recusa do direito à educação dos jovens bahá’i iranianos.

Deste e de outros assuntos falaríamos com Mário Mota Marques, director de Assuntos Externos da Comunidade Bahá'i de Portugal. Oriundo de uma família agnóstica, entrou para a comunidade ainda adolescente, há 43 anos. Dificilmente disfarça algum orgulho por pertencer à mais jovem religião reconhecida, cujo número de membros portugueses avalia em nove mil e cuja origem recua a 1926. No mundo existirão mais de quatro milhões espalhados por 166 países. Sem clero, organizam-se segundo uma estrutura piramidal, com conselhos locais, nacionais e internacional, sempre constituídos por nove membros - um número considerado sagrado[3]: a fé bahá’i é a nona na linha das revelações e Bahá'u'lláh é o nono profeta. Será o último? Mário Mota Marques confessa que haverá alguma tentação responder que sim, preferindo concluir que esse é um assunto em aberto[4].

Hoje é dia de jejum, o que se repete anualmente entre 2 e 20-3 (cada mês bahá’i tem 19 dias e um ano 19 meses), com abstinência de alimentos e bebidas do nascer ao pôr-do-sol. O objectivo é contrariar o ego, enfatizando a meditação e a prece. A privação não atrapalha a memória do meu interlocutor, que de Teerão salta para o Portugal de antes do 25 de Abril, quando as suas visitas à António Maria Cardoso não eram assim tão raras; o mesmo para as visitas à casa dos bahá'is, onde costumava limitar-se à apreensão de livros e documentos. Mário Soares e Vasco da Gama Fernandes chegaram a ser advogados da comunidade. E em defesa dela, embora não jurídica, também saiu Eça de Queirós em Correspondência de Fradique Mendes. Já à porta da sede lisboeta, na Avenida Ventura Terra (uma moradia de espaço lotado, dizem-nos), Mário Mota Marques recorda o dia em que a polícia política lá apareceu apreendendo as folhas de papel-cenário que as crianças da comunidade usavam para dar livre curso ao seu fulgor artístico: «Não acreditaram. Julgaram que os gatafunhos eram planos criptados para assaltar quarteis».

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COMENTÁRIOS

É sempre interessante ver a imagem que a religião baha’i projecta para os media. Apesar deste artigo ser muito interessante, possui, na sua versão impressa, uma incorrecção óbvia: a foto de 'Abdu'l-Bahá possui uma legenda que indica tratar-se de Bahá'u'lláh. Para além disso existem apenas pequenos pormenores merecedores de comentário.

[1] - Sincretismo. Este é uma das expressões frequentemente usadas para descrever a religião baha’i. Trata-se de um termo costuma ser usado num sentido depreciativo como significando uma mistura artificial e algo confusa de diferentes doutrinas, numa tentativa de as forçar a um entendimento. À semelhança das grandes religiões mundiais, a religião bahá’í defende que existe um processo evolutivo e uma harmonia de ensinamentos nas religiões que a antecederam. Da mesma forma, o Islão aceita Cristo, Moisés e Abraão; o Cristianismo aceita Moisés e Abraão. Desta forma, se classificamos a religião bahá’í com sincretismo, então todas as grandes religiões mundiais também merecem essa classificação.
[2] - A pretensão de Jesus à divindade. Algumas frases que o Novo Testamento atribui a Jesus Cristo, levaram muitos cristãos a acreditar que Ele e Deus eram consubstanciais. Isto, apesar de existirem outras frases onde Ele se assume como claramente distinto do Criador. Desta forma, parece-me mais correcto falar da pretensão dos cristãos do que da pretensão de Cristo. Ver o meu post : A Dupla Condição dos Profetas.
[3] - Um número sagrado. Parece-me mais correcto dizer que é um número com uma forte carga simbólica.
[4] - Bahá'u'lláh será o último dos profetas. Os ensinamentos baha’is são muito claros sobre este assunto. O fundador da religião baha’i não é o último, mas sim, o mais recente de uma série de Mensageiros Divinos que Deus tem enviado à humanidade. À medida que a humanidade vai evoluindo, os ensinamentos adequados à nossa evolução espiritual também devem evoluir. E por esse motivo, novos Manifestantes Divinos devem surgir com ensinamentos adequados às necessidades futuras da humanidade.

sexta-feira, 10 de março de 2006

Um beijo lambusado



Todos os dias da semana têm um momento especial. Quando chego a casa, o meu filho mais velho, assim que me ouve a abrir a porta, começa a chamar por mim "O pai! O pai!..." e corre para a porta, abraça-se às minhas pernas, e tenta dar-me o beijinho de boas vindas. É aquele momento quase mágico em que todos os problemas e o stress do emprego se desvanecem e só existe a família.

Ontem ao fim do dia, quando vivi esse momento estranhei que o beijinho do meu filho fosse tão lambusado. Não é costume... Depois de um abracinho, perguntei-lhe "Então? Como foi a escola? Portaste-te bem?"

Quase imediatamente surgiu a minha mulher que, num tom severo de mãe, me contou: "O teu filho acabou de apanhar uma palmada!..."

"Então filho? O que fizeste?" Ele ignorou a minha pergunta e começou a brincar com uns carrinhos, como se não quisesse responder à minha pergunta. Ainda insisti, mas não me respondeu.

A minha mulher esclareceu o motivo da palmada: "Apanhei-o agora mesmo a beber água das cadelas!"

Percebi então o porquê daquele beijo lambusado.

quinta-feira, 9 de março de 2006

Alma de Mulher

A propósito do Dia da Mulher assinalado ontem, recebi por email este texto (cuja autoria desconheço) mas que me parece muito bonito.

Alma de Mulher

Nada mais contraditório do que "ser mulher"...
Mulher que pensa com o coração, age pela emoção e vence pelo amor.
Que vive milhões de emoções num só dia e transmite cada uma delas, num único olhar.
Que cobra de si a perfeição e vive arrumando desculpas para os erros, daqueles a quem ama.
Que hospeda no ventre outras almas, dá a luz e depois fica cega, diante da beleza dos filhos que gerou.
Que dá as asas, ensina a voar mas não quer ver partir os pássaros, mesmo sabendo que eles não lhe pertencem.
Que se enfeita toda e perfuma o leito, ainda que seu amor nem perceba mais tais detalhes.
Que como uma feiticeira transforma em luz e sorriso as dores que sente na alma, só pra ninguém notar.
E ainda tem que ser forte, pra dar os ombros para quem neles precise chorar.
Feliz do homem que por um dia souber, entender a alma da mulher!

Benfica!

Simão remata para o primeiro golo do Benfica

Quando se trata de competições europeias, tenho mesmo de torcer por todas as equipas portuguesas. E ontem fui benfiquista durante 90 e tal minutos. Sofri e vibrei com a vitória do Benfica sobre o Liverpool. E uma vitória de uma equipa portuguesa, no Anfield Road, a casa do actual campeão europeu não acontece todos os anos.

Aliás nas últimas duas semanas tenho tido alguns períodos de benfiquismo. Primeiro foi o jogo contra o Liverpool, aqui em Lisboa; depois foi o jogo contra o FC Porto. E ontem foi este jogo. Os próximos jogos do Benfica na Champions prometem mais 180 minutos de benfiquismo.

Um aspecto curioso do jogo de ontem foram os cânticos dos adeptos do Liverpool após o segundo golo do Benfica. Era como se estivessem a dizer aos jogadores que os continuavam a apoiar, apesar da derrota que era inevitável. Uma forma muito bonita de apoiar a equipa.

Resumindo: gostei tanto de ver o Benfica ganhar ao Liverpool, como há algumas semanas atrás gostei de ver o meu Sporting ganhar ao Benfica no Estádio da Luz. Como diz aquele ditado árabe: "Eu e o meu irmão contra o meu primo; eu, o meu irmão e o meu primo contra o estrangeiro".

A título de curiosidade: já reparei que sempre que desejo boa sorte ao João Tunes nas vésperas de um jogo do Benfica, o clube da Luz vence. Eu não sou supersticioso, mas… :-)

terça-feira, 7 de março de 2006

Kitáb-i-Iqán (14)

A Ressurreição dos Mortos

A ressurreição dos mortos é um conceito comum às escatologias cristãs e islâmicas; ambas sustentam que um dia, no "fim dos tempos", todos os seres humanos ressuscitarão e serão chamados a responder pelos seus actos. Tratam-se interpretações literais dos textos sagrados que há muitos séculos são aceites pelos crentes.

No Kitáb-i-Íqán, Bahá'u'lláh afirma que o significado desta expressão está muito longe da interpretação literal que lhe é atribuída. [114]; essa interpretação literal leva-nos a um acto de utilidade questionável para os seres humanos. Pelo contrário, o fundador da religião Bahá'í considera que a ressurreição dos mortos consiste num processo de regeneração espiritual que ocorre sempre que surge um novo Mensageiro de Deus [51]. Esse transformação dos seres humanos é algo muito mais poderoso do que uma ressurreição física.


A Ressurreição dos Mortos, de Luca Signorelli.
Este pintor renascentista acreditava na ressurreição física.

Bahá'u'lláh acrescenta ainda que o Dia da Ressurreição se deu com todos os Manifestantes de Deus, e afirma explicitamente que a ressurreição dos mortos se deu com o aparecimento de Jesus[88] e com o aparecimento de Maomé[121]. Além disso, Bahá'u'lláh recorda que todos os Manifestantes tentaram explicar o sentido simbólico desta expressão: "Em cada era e século, os Profetas de Deus e Seus eleitos não tiveram outro objectivo senão o de afirmar o sentido espiritual dos termos «vida», «ressurreição» e «juízo»"[128]. E apresenta alguns exemplos:

Essas coisas sucederam nos dias de cada um dos Manifestantes de Deus. Assim disse Jesus: "Importa-vos nascer outra vez." (Jo 3:7) E ainda: "Quem não renascer da água e do Espírito Santo, não poderá entrar no Reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito." (Jo 3:56) O intuito destas palavras é que, em cada era, quem nasce do Espírito e se vivifica pelo alento do Manifestante da Santidade, é, em verdade, dos que atingiram a "vida" e a "ressurreição", e entraram no "paraíso" do amor de Deus. [125]

(...)

Noutra passagem do Evangelho está escrito: "E aconteceu que, certo dia, morrera o pai de um dos discípulos de Jesus. Esse discípulo, relatando a Jesus a morte do pai, pediu que lhe fosse permitido ir enterrá-lo. A isso respondeu Jesus, aquela Essência do Desprendimento, dizendo: «Deixa que os mortos enterrem os seus mortos.» (Lc 9:60) [125]
Também no Alcorão se refere um exemplo de crentes que não entendiam o significado da expressão “ressurreição”: "E se disseres «Após a morte sereis seguramente ressuscitados», os infiéis responderão: «Isto nada mais é que manifesta magia»"(11:7)

O Dia da Ressurreição é ainda referido como “o Dia do Juízo”; o simbolismo de Ressurreição também está muito próximo de um outro referido anteriormente: a Presença de Deus [149]. Ambas as expressões descrevem a aceitação de uma nova Mensagem Divina, um acto que nos exige que abandonemos ideias, valores e conceitos antigos e que adoptemos novos valores e ensinamentos revelados pelo novo Manifestante de Deus.

Com o aparecimento de um novo Mensageiro de Deus todos somos testados. Ao surgir a nova mensagem divina, cuja fonte é a mesma de todas as religiões anteriores, Deus avalia se a nossa fé se baseia na essência do que foi revelado ou apenas em aspectos exteriores e secundários da religião[182]. É nesse teste que o Criador nos faz, que podemos viver uma ressurreição espiritual ao entender os ensinamentos de uma nova mensagem divina.

segunda-feira, 6 de março de 2006

Liberdade vs. Susceptibilidade

"A minha liberdade tem um limite na tua. Na tua liberdade sim, mas não na tua susceptibilidade. Posso gozar com a tua fé que não interdito praticá-la. (...) Se se estabelece o princípio que não é lícito ofender uma qualquer fé, atribuem-se as chaves da liberdade à susceptibilidade do crente."

Paolo Flores d'Arcais, citado por Augusto M. Seabra no Público de ontem.

sexta-feira, 3 de março de 2006

Dois anos a blogar...




Obrigado pelos desenhos, Dina.

Rotary Club

Teve lugar na passada quarta-feira num Hotel de Lisboa uma jantar do Rotary Club que convidou representantes das Confissões Religiosas: Católica, Bahá'i, Hindu, Islâmica, Judaica e Budista a estar presentes. No final do jantar, cada representante fez uma alocução sobre a sua própria Confissão Religiosa e também da contribuição para a Paz e Solidariedade para um Mundo Melhor.

quinta-feira, 2 de março de 2006

Mais uma tatuagem...

Ainda a propósito de tatuagens bahá'ís, R. Emory Lundberg, um leitor de Rodhe Island, enviou-me um link com foto da sua tatuagem com outro símbolo bahá'í. Apesar de ser original, não me convence a mudar de opinião sobre as tatuagens. Aqui fica a foto:


O significado do símbolo é o seguinte: a linha horizontal inferior representa a humanidade; a linha horizontal superior representa Deus e a linha intermédia representa os Manifestantes de Deus. A linha vertical representa a ligação entre Deus, os Manifestantes e a humanidade. Por fim, as duas estrelas simbolizam o Báb e Bahá'u'lláh.

É com alguma facilidade que se vê este símbolo em anéis, capas de livros pinturas e em alguns templos baha'is. Seguem-se alguns exemplos.




Esta última foto apresenta um pormenor do Santuário do Báb, no Monte Carmelo.

quarta-feira, 1 de março de 2006

Terra da Alegria

Mais uma edição da Terra da Alegria.

Mais uma língua oficial na ONU?

Está disponível na internet uma petição cujo objectivo é solicitar à ONU que a língua portuguesa seja adoptada como língua oficial daquela organização (a par do árabe, chinês, espanhol, francês, inglês e russo). As referências a esta petição têm-se vindo a multiplicar em blogs e em correntes de mails.

Não posso deixar de ter alguma simpatia por esta petição. Afinal é a minha língua. É a língua da minha família e da comunidade onde me insiro. É um elemento muito importante da minha identificação cultural. O mesmo se passa com 250 milhões de seres humanos neste planeta.

O mundo lusófono até pode ver um acto destes com muito orgulho; mas que vantagens teria um acto destes para aquela organização? Em termos práticos as consequências seriam um acréscimo de custos, pois seria necessário aumentar o batalhão de tradutores que actualmente ali trabalham. E o orçamento da ONU já suporta tantos custos administrativos… Talvez valha a pena pensar um pouco antes de assinar uma petição destas.


Ao considerar as acções de um organismo internacional como a ONU, devemos ter presente as vantagens que essas acções têm para todos os povos do mundo e não para apenas um povo ou outro. Uma visão sectária das vantagens e desvantagens apenas serve para bloquear - ou dificultar - as acções deste tipo de organizações. Por outras palavras, temos de ter uma visão global, e não sectária.

Poder-se-á dizer que a visão sectária é comum à enorme maioria dos intervenientes nestes organismos. É verdade. Mas não é essa falta de visão global a causa da maioria dos problemas destes organismos?

A alternativa à existência de várias línguas oficiais nos organismos internacionais está na adopção de uma língua auxiliar internacional; pode ser uma das línguas existentes, ou uma língua "artificial" como o esperanto. Se depois de adoptada pelos organismos internacionais, essa língua fosse ensinada em todas as escolas do mundo, não só reduziríamos os custos de tradução, como melhoraríamos significativamente a comunicação entre os povos do mundo.

Por estes motivos, não vou assinar esta petição.

Parabéns



Dois anos de Blasfémias!