quinta-feira, 30 de novembro de 2006

A liberdade de expressão e as religiões em debate

Lisboa cruza-se por estes dias com as polémicas dos cartoons e do discurso de Bento XVI em Ratisbona, por iniciativa do departamento de Ciência das Religiões da Universidade Lusófona. A 4 de Dezembro, o colóquio «Religião e Ofensa: As Religiões e a Liberdade de Expressão» leva a esta universidade diversos especialistas, que discutirão o tema em sucessivas mesas.

A partir das 9h30 de segunda-feira, em debates que se prolongam pela tarde, será possível ouvir as opiniões sobre as fronteiras da ofensa e os limites das religiões, a partir do olhar das artes (por José Sousa Machado, crítico e editor de arte, Pedro Proença, pintor, e Tolentino Mendonça, poeta e padre), da comunicacão social (com Jorge Wemans, director da Dois, e Mário Robalo, jornalista do Expresso), das igrejas (por Manuel Clemente, bispo auxiliar de Lisboa, e Arifo Amada, da Direcção da Comunidade Islâmica de Lisboa), do mundo académico (com Viriato Soromenho-Marques, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Carlos Silva, da Universidade Católica e José Bragança de Miranda, da Universidade Nova e da Lusófona) e da política (com Fernando Pereira Marques, do PS, antigo presidente da Comissão Parlamentar de Cultura e Miguel Portas, eurodeputado do Bloco de Esquerda, numa sessão presidida pelo ministro da Presidência, Pedro Silva Pereira).

(texto copiado do Lx Reporter)

Evangelhos 2007 Comentados

Sai hoje.

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Escravatura



Recentemente Tony Blair expressou a sua profunda tristeza pelo papel desempenhado pela Grã-Bretanha no comércio de escravos, dizendo que se sentia "profundamente envergonhado". As suas palavras provocaram as mais diversas reacções, desde os que sustentam que não há que pedir desculpas por actos cometidos pelos nossos antepassados, até às organizações Pan-Africanas que afirmaram que as palavras do Primeiro Ministro britânico não têm qualquer significado e exigem compensações financeiras para os descendentes dos povos vítimas de escravatura.

O debate alargou-se aos leitores no site da BBC e não faltou quem recordasse que outras nações se dedicaram ao tráfico de escravos antes dos britânicos e prosseguiram essa actividade depois da Rainha Vitória a ter proibido. O debate está lançado entre os britânicos.

Para a mentalidade ocidental de hoje, deve ser difícil encontrar uma nação que não tenha um episódio negro na sua história. Nessa perspectiva todos encontraremos algo que nos incomoda na história dos nossos antepassados, algo que preferíamos que não existisse e nos incomoda sempre que é mencionado ou recordado. Há quem diga que são os "fantasmas do nosso passado colectivo". Haverá maneira de exorcizar esses fantasmas? Não sei.

Há alguns anos atrás, quando Mário Soares era Presidente da República lembro-me de, pelo menos duas vezes, o ter ouvido a pedir desculpa aos judeus pelas perseguições que sofreram em Portugal. Foi um momento simbólico especial, um assumir pesaroso de um episódio passado que todos preferíamos que não tivesse existido. Ainda hoje tenho a sensação que aquelas palavras do nosso ex-Presidente da República eram mais importantes para os portugueses do que para os judeus.

Então porque não podem os actuais dirigentes políticos portugueses fazer o mesmo em relação à escravatura? É que a maturidade de uma sociedade também vê na sua capacidade de reconhecer os erros do passado.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Asma Jahangir

Excerto de uma entrevista de Asma Jahangir (a relatora da ONU para a Liberdade Religiosa) à Radio Free Europe.

(...)

RFE/RL: Em Março você expressou preocupação sobre relatórios que diziam que o governo iraniano havia tomado medidas para identificar membros da comunidade Baha’i e vigiar as suas actividades. Tem alguma informação nova sobre a situação?

Jahangir: A situação é grave e estou extremamente preocupada pois recebemos alegações de que existia uma carta e uma cópia de uma carta onde era solicitado que os membros da comunidade Baha'i fossem identificados pela mais alta autoridade no país. Tenho acompanhado a situação e acredito que não houve nenhum recuo neste aspecto; ainda persiste e naturalmente existe medo entre a comunidade porque tem de haver uma razão para os identificarem. Tem havido uma campanha de difamação contra eles nos media e jornais fortemente controlados pelo governo e por esse motivo parece que estão a preparar algum tipo de acção contra eles

(...)

Entrevista completa aqui: UN: Rapporteur For Religious Freedom Sees Slow Progress

Fotos da Reuters

A agência noticiosa Reuters divulgou ontem estas fotos do Santuário Bahá'í de Haifa.

Numa delas há um pormenor curioso que também tive a oportunidade de testemunhar há alguns anos: os noivos em Haifa gostam sempre de tirar fotos nos jardins Bahá'ís.











As fotos também estão publicadas no Yahoo.

---------------------------------------------
ACTUALIZAÇÃO
Também hoje foi divulgado pela Reuters: World's Baha'i connect with past in Israel (também disponível no Yahoo!)

domingo, 26 de novembro de 2006

O Poder

"O poder exerce um grande fascínio entre os portugueses. Quem o tem gosta ainda mais de o exibir do que de o exercer. Quem não o tem do ponto de vista formal trata de descobrir de que forma poderá arranjar algum, porque talvez não haja nada pior em Portugal do que ser alguém que «não manda nada» ou que simplesmente é visto como tal".

João Cândido Silva, Público, 25-Novembro-2006

quinta-feira, 23 de novembro de 2006

Uma resolução a votar pela Assembleia Geral da ONU



A Assembleia Geral da ONU irá votar em Dezembro uma resolução aprovada ontem pelo Terceiro Comité, onde se expressa profunda preocupação pela situação dos direitos humanos no Irão, incluindo a escalada de perseguições contra os Bahá’ís. A resolução do Terceiro Comité - responsável por questões de direitos humanos - foi aprovada no dia 21 de Novembro, por 70 votos contra 48.

Apresentada pelo Canadá e patrocinada por 43 países, a resolução apela ao Irão para “eliminar na lei e na prática, todas as formas de discriminação baseadas na religião, etnia ou língua, e outras violações de direitos humanos contra pessoas pertencentes a minorias, incluindo Árabes, Bahá’ís, Baluchis, Curdos, Cristãos, Judeus, Sufis e Muçulmanos Sunitas.

A resolução refere o agravamento da situação da comunidade Baha’i do Irão, notando a existência de “relatórios de planos do Estado para identificar e monitorizar os Baha’is”, “um aumento dos casos de detenções arbitrárias” e “a negação de liberdade de religião ou de realização de actividades comunitárias”.

A resolução também expressa preocupação pela “destruição de lugares de importância religiosa” para os Baha’is e “a suspensão de actividades comunitárias, sociais e educativas, a negação de acesso ao ensino superior, emprego, pensões, alojamento condigno e outros benefícios" aos Bahá’ís.

Notícia completa: UN expresses "serious concern" over human rights in Iran, including the situation of Baha'is (BWNS)

segunda-feira, 20 de novembro de 2006

Egipto: mais um adiamento...

Na sua sessão de hoje, o Supremo Tribunal Administrativo do Egipto decidiu adiar mais uma vez a decisão sobre o direito dos bahá'ís em verem correctamente identificada a sua religião em documentos de identificação oficiais. Foi marcada uma nova audiência para o próximo dia 2 de Dezembro.

Não foi uma decisão totalmente inesperada, atendendo à complexidade do caso e aos esforços de várias entidades, nomeadamente do Governo Egípcio que pretende mostrar perante o mundo que está empenhado em promover a democracia, garantir os direitos cívicos a todos os cidadãos, assegurar a liberdade religiosa e iniciar várias reformas constitucionais. O próprio Presidente Mubarak já tinha dado sinais neste sentido.

Mas em termos práticos o que acontece é que com mais este adiamento, os Bahá’ís Egípcios continuam a ver negada a atribuição de documentos de identificação oficiais. Lembro que a data limite para a renovação deste documentos é o dia 31 de Dezembro; após essa data, todos os cidadãos egípcios deverão possuir documentos de identificação emitidos pelo novo sistema informático (o tal onde é obrigatório registar a filiação religiosa e para o qual apenas existem três opções: Judaísmo, Cristianismo e Islão)

Ou seja: enquanto o tribunal vai adiando a sua decisão, os bahá’ís egípcios continuam a ver negados os seus direitos que supostamente são garantidos pela Constituição. A ausência de decisão apenas alimenta a injustiça.

------------------------------------
ACTUALIZAÇÃO:
Bilo, no blog Baha'i Faith in Egypt refere as reacções da imprensa egípcia a esta sessão do tribunal.

domingo, 19 de novembro de 2006

África do Sul

Uma mensagem do Presidente Thabo Mbeki

Não tenho por hábito publicar aqui mensagens de líderes políticos dirigidas à Comunidade Bahá'í. Mas esta é especial. Foi dirigida pelo Presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, à Comunidade Bahá’í daquele país, por ocasião do 50º aniversário da formação da Assembleia Espiritual Nacional dos Baha’is daquele país (geralmente, a criação de uma Assembleia Nacional é um sinal de maturidade e crescimento de uma comunidade Bahá’í).

Sempre tive um carinho especial pelos Bahá’ís sul-africanos. Conheci alguns durante uma convenção internacional em 1993 que me deixaram uma excelente impressão. Durante os tempos sombrios do apartheid, quando foi imposta a segregação racial a todas as instituições religiosas do país, os brancos abdicavam dos seus lugares sempre que eram eleitos para as instituições bahá’ís. Era a forma digna de se oporem à segregação racial, sem se envolverem em batalhas políticas.

Por isso, não consigo deixar de publicar esta mensagem.

--------------------------------------------------

À Assembleia Espiritual Nacional
dos Bahá’ís da África do Sul

É com muita honra que aproveito esta oportunidade para enviar calorosas saudações à Assembleia Espiritual Nacional dos Baha’is da África do Sul neste importante dia, 11 de Novembro de 1956, em que celebrais o vosso 50º aniversário.

Aquilo que sois hoje ao completar cinquenta anos testemunha claramente a vossa firmeza e papel crucial que desempenhastes e indubitavelmente continuareis a desempenhar no progresso da causa da unidade e amizade do nosso amado país, a África do Sul.

Desde a sua formação, há meio século atrás, em 11 de Novembro de 1956, a Assembleia Espiritual doa Bahá’ís da África do Sul promoveu infatigavelmente o desenvolvimento espiritual, moral e material dos Baha’is neste país assim como na sociedade Sul Africana em geral. Neste aspecto, a vossa participação no Fórum Nacional de Lideres Religiosos tem contribuído imensamente para anunciar uma era de esperança no nosso país.

O facto do vosso aniversário coincidir com a mesma ocasião em que comemoramos eventos importantes para o nosso país, como o décimo aniversário da nossa constituição democrática que reconhece e promove a liberdade religiosa, salienta ainda mais a posição histórica que ocupais no nosso país.

Assim, em nome do Governo e Povo da África do Sul, felicitamos e fazemos votos de sucesso à Assembleia Espiritual dos Bahá’ís da África do Sul pelo seu 50º aniversário.

Que tenhais mais décadas de sucessos e realizações no futuro!

Thabo Mbeki

sábado, 18 de novembro de 2006

Uma resolução do Parlamento Europeu



Na passada quinta feira, o Parlamento Europeu adoptou um resolução em que apela "às autoridades iranianas que eliminem todas as formas de discriminação baseadas em fundamentos religiosos" e exige o levantamento da proibição de facto da Fé Bahá’í.

A declaração afirma que o exercício de direitos civis e liberdades políticas se deteriorou consideravelmente desde as eleições presidenciais de Junho de 2005, apesar de vários compromissos das autoridades iranianas no sentido de promover valores universais. Este documento refere ainda que apesar dos direitos das minorias estarem protegidos pela Constituição, na prática isso não acontece. É mencionada explicitamente a situação de minorias étnicas como os Azeris, Curdos árabes e Baluchis, e minorias religiosas como os Bahá’ís e os Sufis.

Outros parágrafos do documento referem também:
  • Preocupação pela aplicação da pena de morte e execuções por apedrejamento de jovens;
  • O facto das mulheres iranianas continuarem privadas de direitos elementares;
  • As purgas realizadas nas universidades contra professores e alunos liberais e seculares;
  • As prisões arbitrárias de jornalistas e bloggers;
  • A existência de bloqueios e filtros de sites na internet contendo publicações de caracter político, social e cultural;
  • A necessidade de acelerar a investigação das mortes suspeitas de intelectuais e activistas políticos.
A declaração na íntegra pode ser lida aqui: European Parliament resolution on Iran

sexta-feira, 17 de novembro de 2006

Aguardamos...

CairoÉ já na próxima segunda feira que um tribunal egípcio se vai pronunciar sobre o caso de um casal Baha'í egípcio que pretende obter documentos de identificação oficiais sem ter de negar ou falsificar a sua religião. Actualmente no Egipto todos os cidadãos devem obter e transportar sempre consigo um bilhete de identidade; neste documento indica-se a filiação religiosa de cada cidadão, sendo para o efeito consideradas apenas três possibilidades: Judaísmo, Cristianismo e Islão.

Como já referi várias vezes neste blog, a actual política do Governo Egípcio é altamente discriminatória, pois na prática priva os Bahá'ís de direitos cívicos. Recorde-se que no Egipto, quem não tem bilhete de identidade não pode fazer coisas tão banais como abrir uma conta num banco, inscrever os filhos numa escola pública ou tirar uma carta de condução.

Sobre esta política pode-se ainda dizer:

  • que é contrária ao artigo 40 da Constituição Egípcia onde se declara: "Todos os cidadãos são iguais perante a lei. Têm direitos e deveres públicos iguais sem qualquer discriminação entre eles devido a raça, origem étnica, língua religião ou credo."
  • que viola o artigo 18 da Convenção Internacional dos Direitos Cívicos e Políticos, de que o Egipto é signatário. A própria Comissão dos Direitos Humanos da ONU declarou que ninguém pode ser "forçado a revelar a sua adesão a uma religião ou crença". Num relatório de 2004, a relatora especial da ONU para a Liberdade Religiosa afirmou que a menção da religião em documentos oficiais de identificação está em "desacordo com a liberdade de religião e crença que é internacionalmente reconhecida e protegida" e que a política do Egipto ao excluir "qualquer menção de outras religiões além do Islão, Cristianismo Judaísmo é uma violação da lei internacional".
  • que não encontra paralelo com a prática de muitos países da região onde o Islão é religião oficial e fonte de inspiração legislativa. É o que se passa na Argélia, Bahrain, Iraque, Kuwait, Qatar, Oman, Sudão, Tunísia e Emirados Árabes Unidos.

Na próxima segunda feira saberemos se o Egipto aproveita esta oportunidade para alterar a sua política, omitindo – ou tornando facultativa – a identificação religiosa nos documento de identificação oficiais. Será também um momento para saber se as recentes declarações do Sheikh Tantawi da universidade de al-Azhar sobre tolerância e aceitação de outras religiões, ou as palavras de Gamal El-Banna (um conhecido académico islâmico liberal) em defesa dos direitos dos Bahá'ís, surtiram algum efeito na sociedade egípcia.

Enfim... aguardamos.

----------------------------
A ler sobre este assunto: Declaração da U.S. Commission on International Religious Freedom: Egypt:
USCIRF Calls for New Policy on National Identity Cards

quarta-feira, 15 de novembro de 2006

Se me sucede algo que seja realmente mau...


...eu confio que o mundo não possa ser ilógico, não possa estar mal organizado, que as coisas sucedem por qualquer motivo. Como quando chego ao fim de um cálculo matemático, se ele não dá certo, alguma asneira fiz pelo caminho – multipliquei mal, somei mal alguma fracção, alguma coisa fiz. E, portanto, se algo me sucede na vida que seja realmente mau, que atrapalha tudo – em alguma coisa errei na minha maneira de ser e só me convém e compete reflectir sobre isso para ver se para o futuro não faço nada semelhante, sempre achando que algo posso fazer, que não tenho imunidade nenhuma. Tenho de ser ao mesmo tempo um ser forte com a noção exacta da minha fragilidade.

Agostinho da Silva, Vida Conversável, pag. 70

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Aborto



Este foi um dos melhores momentos do Gato Fedorento. Um crítica bem mordaz às atitudes radicais e exageradas que se fazem ouvir a propósito do anunciado referendo sobre a despenalização do aborto. É impossível conter o riso perante isto. Mas depois de umas saudáveis gargalhadas é importante reflectir um pouco sobre o é que leva tantos agentes sociais e comentadores a insultarem-se ou rotularem-se mutuamente de “criminosos” ou “liberais hedonistas” quando se aborda este assunto. O oportunismo político de alguns intervenientes é óbvio; e quando isto acontece torna-se difícil ter um debate calmo e objectivo sobre o assunto.

Uma das questões chave por detrás da polémica do aborto está na resposta à pergunta “quando é que se pode dizer que tem início a vida humana?”. Há os que defendem que o início da vida se dá no momento da concepção, outros que sustentam que a vida só existe depois da formação do sistema nervoso, e por aí diante. A única coisa que parece certa na resposta a esta questão é que não entre a comunidade científica não há consenso sobre esta matéria.

Estando em causa um assunto que lida com temas da vida e da morte, é natural que as comunidades religiosas tomem posições públicas sobre o assunto. E a sua posição tem sido quase consensual: a vida humana começa no momento da concepção e a prática do aborto apenas deve ser permitida em situações excepcionais.

Nas escrituras bahá'ís pouco se encontra em relação à prática do aborto. Desta forma, este é um dos assuntos sobre os quais a Casa Universal de Justiça deverá legislar. Apesar da Instituição suprema da Comunidade Bahá’í não ter considerado oportuno até hoje produzir essa legislação, tem esclarecido crentes e instituições baha’is sobre o assunto. O texto seguinte é um desses esclarecimentos:
A prática do aborto apenas com o intuito de impedir o nascimento de crianças indesejadas é estritamente proibida na Fé. No entanto, podem existir circunstâncias em que um aborto se justifique por razões médicas, e a legislação sobre este assunto foi deixada à Casa Universal de Justiça. No momento presente, porém, a Casa de Justiça não pretende legislar sobre este assunto tão delicado; por esse motivo, é deixado à consciência dos envolvidos que devem considerar cuidadosamente o conselho médico à luz das orientações gerais contidas nos ensinamentos.

(Carta escrita em nome da Casa Universal de Justiça à Assembleia Espiritual Nacional da Irlanda, 16 de Março de 1983, citada no Lights of Guidance, nº 1154)
No caso da actual legislação portuguesa é interessante notar que estão contemplados um conjunto de circunstâncias em que é permitida a interrupção da gravidez. Segundo o art.º 140 do Código Penal, a prática do aborto é permitida nas seguintes situações:
  1. Constitua o único meio de remover perigo de morte ou de grave e irreversível lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida;
  2. Se mostre indicado para evitar perigo de morte ou de grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida, e seja realizado nas primeiras 12 semanas de gravidez;
  3. Haja seguros motivos para prever que o nascituro venha a sofrer de forma incurável, de grave doença ou mal formação, e seja realizado nas primeiras 16 semanas de gravidez;
  4. Haja sérios indícios de que a gravidez resultou de violação da mulher, e seja realizado nas primeiras 12 semanas de gravidez.
Percebe-se, portanto, que a actual legislação portuguesa está em sintonia com as orientações que os baha’is recebem da Casa Universal de Justiça.

Para o referendo que se avizinha, a Assembleia da República aprovou que este tomasse forma na seguinte pergunta:
«Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras 10 semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?»
Em termos práticos, o que se pergunta aqui é se os portugueses concordam que a interrupção voluntária da gravidez possa vir a ser usada como mais um prática de controlo da natalidade, um método para uma mulher, ou um casal, se livrar de uma criança indesejada.

Assim, a minha resposta ao referendo será um NÃO.

------------------------------------------------
A LER SOBRE ESTE ASSUNTO:
Religion and Ethics - Abortion (BBC)
Abortion--forbidden, discouraged, or permitted? (debate no Baha'i Library Forum)
Respect for Life (artigo no Planet Baha'i)
Reproduction and other Biological Subjects (Compilação do Dep. Pesquisa da Casa Universal de Justiça)
Legislating on Morality (carta da Casa Universal de Justiça)

domingo, 12 de novembro de 2006

quinta-feira, 9 de novembro de 2006

Além dos lucros no curto prazo

  • Poderá a aplicação de valores espirituais ajudar a definir o conceito de sucesso no local de trabalho?

  • Haverá forma de transformar os valores bahá'ís em "ferramentas" que possam ajudar a melhorar as práticas de negócios em todo o mundo?

  • De que forma pode a “responsabilidade social das empresas” - traduzida na forma de um conjunto de princípios éticos - contribuir para melhorar a competitividade das cada vez mais globalizadas e integradas economias nacionais?
  • Estas foram algumas das questões a que tentaram responder os participantes da 16ª conferência anual do European Baha’i Business Forum (EBBF), que se realizou em DePoort, na Holanda.

    Notícia completa: Looking beyond short term profits (BWNS)

    quarta-feira, 8 de novembro de 2006

    Os envelopes

    Mais outra foto conhecida da viagem de 'Abdu'l-Bahá na América. Até há pouco tempo não tinha reparado que algumas das crianças nesta foto têm envelopes nas mãos.


    Num domingo de Maio de 1912, 'Abdu'l-Bahá encontrou-se com as crianças que frequentavam a Escola Dominical Baha'i de Chicago. Falou pessoalmente com cada uma delas e, como lembrança, ofereceu a cada uma um envelope com pétalas de flores que tinham estado no Seu quarto. Após esse encontro, levou as crianças ao Lincoln Park . Nessa ocasião foram tiradas algumas das fotos mais conhecidas da Sua viagem aos Estados Unidos. O fotógrafo era A.C. Killius.

    Depois de tirar uma foto apenas com as crianças, foi tirada esta com as crianças e os adultos que estavam presentes. Aqui vêem-se claramente os envelopes nas mãos de algumas crianças.

    Também presente nesta foto está Grace Robarts (a mulher à direita com um véu na cabeça). Ela cuidava do apartamento onde 'Abdu'l-Bahá estava alojado. Nesta foto, ela tem nas mãos um cesto que continha os envelopes que foram entregues às crianças; no cesto ainda se vêem algumas flores que vieram do quarto de 'Abdu'l-Bahá. O Mestre tinha pedido mais flores para a reunião com as crianças, não fosse dar-se o caso de não haver envelopes suficientes.

    Quando fiz a minha peregrinação à Terra Santa há cerca de 15 anos, era hábito oferecer aos peregrinos bahá'ís um envelope com pétalas de flores que tinha estado no túmulo de 'Abdu'l-Bahá ou do Báb. Era uma lembrança simples mas com um significado tremendo para um bahá'í. Naturalmente que ainda conservo essa lembrança. Mas quando soube a história desta foto, não pude deixar de pensar que aquelas crianças tiveram muita sorte em receber aquelas flores das mãos do próprio 'Abdu'l-Bahá.

    segunda-feira, 6 de novembro de 2006

    Oceano

    "Imergi-vos no oceano de Minhas palavras, para que possais desvendar-lhe os segredos e descobrir todas as pérolas de sabedoria que jazem ocultas nas suas profundezas."
    (Bahá'u'lláh, Kitáb-i-Aqdas, parag. 182)
    A analogia entre as Escrituras Sagradas e o Oceano é das mais interessantes que existem nas Escrituras Baha’is. Quando pensamos em oceano vêem imediatamente à ideia duas das suas principais características: a vastidão e a profundidade. O mesmo acontece com as Escrituras de Bahá'u'lláh; com mais de cem volumes, abordando um vasto leque de assuntos, temos de reconhecer a sua vastidão e profundidade.

    Mas não serão estas características das Escrituras Sagradas de todas as religiões? A resposta depende da forma como se encaram as Escrituras. Quando as lemos devemos ter presente que estas possuem significados profundos; por isso não nos devemos contentar com o que existe à superfície, mesmo quando os significados superficiais possam ser importantes.

    Que mais nos pode dizer esta analogia sobre a Palavra de Deus? O que é que outras características do oceano nos podem dizer sobre a Palavra de Deus?

    O oceano não é uma massa de água estagnada; é um sistema dinâmico. Os oceanógrafos já identificaram os fluxo das correntes marítimas entre as regiões tropicais, temperadas e polares. Desde há alguns séculos que as embarcações, ao cruzarem os oceanos, se aproveitam destas correntes marítimas para chegar aos seus destinos. Poderá a Palavra de Deus ser uma entidade dinâmica, que podemos usar para alcançar um determinado objectivo na vida?

    Sabemos também que existe uma relação entre as temperaturas e correntes marítimas e o clima. Nos últimos anos, os media deram a conhecer fenómenos com El Niño e La Niña e os seus efeitos nos padrões do clima mundial. Também sabemos que existe uma relação de dependência entre as correntes oceânicas no Golfo de México e o clima nas Ilhas Britânicas. Pegando na analogia de Bahá'u'lláh, poderemos perguntar: que papel tem a Palavra de Deus no equilíbrio do nosso “clima espiritual” colectivo e pessoal?

    E as perguntas não ficam por aqui. A ciência diz-nos que a vida na Terra teve origem nos oceanos. Os mares estão repletos de criaturas vivas e provavelmente a vida nos continentes não seria possível sem o mar. A atmosfera, outrora uma mistura de gases tóxicos, transformou-se ao longo do tempo numa fonte rica em oxigénio devido à influência do mar. Não haverá aqui características semelhantes com a Palavra de Deus? Não é ela a fonte de vida espiritual, capaz de transformar entidades espiritualmente mortas em criaturas espiritualmente vivas?

    Entre os tesouros dos oceanos, as pérolas são usadas nas Sagradas Escrituras como símbolo do que há de mais precioso ("Não deiteis pérolas a porcos..." [Mt 7:6]). Até as ondas, uma característica constante da superfície do mar, se encontra referidas nas Sagradas Escrituras de tantas religiões.

    Uma simples palavra como "oceano" é na literatura religiosa uma analogia de uma riqueza extraordinária. Nos parágrafos anteriores apresentei apenas alguns dos significados possíveis para esta analogia. Mas quantos mais existirão?

    sábado, 4 de novembro de 2006

    quinta-feira, 2 de novembro de 2006

    A caminho das novas Leis de Nuremberga

    Foi hoje divulgado mais um documento oficial do Governo Iraniano onde se pede a vários agentes governamentais que supervisionem e acompanhem cuidadosamente todas as actividades sociais dos Bahá’ís. Este documento - uma carta data de 19 de Agosto - é o mais recente de uma série de documentos oficiais onde se pode perceber um esforço a nível nacional para identificar e monitorizar os Bahá'ís do Irão.

    Nessa carta [ver tradução em baixo], o Ministério do Interior ordena aos seus agentes que iniciassem actividades de vigilância dos Bahá’ís, em particular das actividades comunitárias. Nesse sentido, o Ministério solicitou às suas delegações provinciais que preenchessem um questionário detalhado sobre as características e actividades dos Bahá'ís locais, incluindo a sua "situação financeira", "interacções sociais" e "relações com assembleias estrangeiras".

    "O aparecimento desta nova carta enfatiza a gravidade da situação que os Bahá’ís do Irão enfrentam", afirmou Bani Dugal, a representante da Comunidade Internacional Bahá'í nas Nações Unidas. "Esta carta confirma que o Governo Iraniano tomou os Bahá'ís como alvo de vigilância. Também revela pela primeira vez o tipo de informação que o Governo tenta recolher, quer sobre indivíduos, quer sobre a Comunidade Bahá'í como um todo; esta informação na maioria das sociedades seria considerada privada e altamente sensível".

    "Esta carta também contém elementos de desinformação. Por exemplo, a carta pede informações sobre as «actividades socio-políticas» dos Bahá’ís, apesar de ser bem conhecido das autoridades que as actividades Bahá'ís são inteiramente não-políticas, pois as Escrituras Sagradas Bahá’ís salientam a importância do não envolvimento em política assim como a não violência".

    Alguns observadores compararam o esforço do governo em identificar e monitorizar os Bahá’ís com a situação dos Judeus no início da era Nazi. Em Abril, a Liga Anti-Difamação afirmou que as ordens transmitidas numa outra carta datada de 29 de Outubro do ano passado eram "uma reminiscência das acções tomadas contra os judeus na Europa e um passo perigoso em direcção ao estabelecimento de «leis tipo Nuremberga»".

    Nos últimos dois anos 129 Bahá’ís foram detidos, libertados a troco de elevadíssimas cauções, e aguardam agora julgamento.

    * * * * * * * * * * * * * * * * *

    Tradução da carta do Ministério do Interior Iraniano


    28 Murdad 1385 [19 Agosto 2006]
    República islâmica do Irão
    Numero: 70878/43
    Ministério do Interior

    Em nome de Deus

    Aos honrosos delegados dos gabinetes de segurança política dos Governadores Gerais do país

    Saudações,

    Respeitosamente, recebemos relatórios de que alguns elementos da perversa seita do Bahaismo estão a tentar ensinar e espalhar a ideologia do Bahaismo a coberto de actividades sociais e económicas. Tendo em conta que esta seita é ilegal e que é explorada por organizações internacionais e sionistas contra o governo da Repúblicas islâmica do Irão, solicitamo-vos que dêem ordens aos serviços relevantes no sentido de monitorizar cautelosa e cuidadosamente as suas actividades sociais. Além disso devem preencher o formulário em anexo e enviá-lo para este gabinete até 15 Shahrivar [6 de Setembro de 2006].

    Siyyid Muḥammad-Riḍa Mavválízádih
    Director do Gabinete Político
    (assinatura)

    * * * * * * * * * * * * * * * * *

    Notícia Original: Iran steps up secret monitoring of Bahá’ís (BWNS)
    Versão Original completa da carta do Ministério do Interior do Irão