quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Nelson Évora, O Menino da Fé Bahá’í

Reportagem da jornalista Marisa Carvalho, publicada no jornal 24Horas de 29 de Agosto de 2007.
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Começou a treinar-se na rua, em brincadeiras de amigos, mas depressa os seus dotes deram nas vistas. Esteve para ser futebolista, mas escolheu o atletismo. O campeão do mundo guia-se por uma religião que se baseia nas boas acções.

Determinado, humilde, bem-disposto, amigo dos seus amigos. Quem conhece Nelson Évora não lhe poupa elogios nem disfarça a emoção. “Chorei, berrei, saltei”. Foi assim que David Ganço, um dos melhores amigos do novo campeão do mundo do triplo salto, celebrou a sua vitória. "Ele está no seu melhor e é muito profissional. A sua determinação é admirável", conta.

Um ano mais velho, os dois conheceram-se na infância, aos 6 anos. “O Nelson tinha acabado de chegar da Costa do Marfim e foi morar para o andar por cima do nosso”, explica o filho de João Ganço, o treinador de Nelson Évora. “Ele só falava francês e eu só falava português, mas lá nos entendemos e ficámos amigos”, revela. “Ainda não falei com ele, mas trocámos logo mensagens, é mais fácil, afinal ele está no Japão…” revela, bem-disposto.

Menino muito competitivo

David e Nelson começaram a treinar na rua. “Chateávamos o meu pai e ele mandava-nos dar voltas ao quarteirão”, explica David. Mas Nelson adorava o desporto. “Ele jogava muito bem futebol, até foi prestar provas no Benfica e passou, andámos na natação e no judo. Ele era bom em tudo”, revela o amigo. “Ele é muito competitivo. Desafiávamo-nos, das corridas aos jogos de computador. Mas nunca nos zangámos”, explica.

O suporte da fé

Quando conheceu a família Ganço, Nelson cruzou-se com a fé Bahá’í, doutrina seguida por estes. “Os princípios básicos centram-se na prática de boas acções e na excelência do desempenho, associado ao conhecimento consciente da pessoa”, explica David. Esta fé considera Bahá'u'lláh como o novo enviado de Deus e seguem os seus ideais. “Sem dúvida que o desempenho de Nelson ilustra a sua fé, pois ele tenta sempre dar o seu melhor em tudo o que faz”, acrescenta o amigo. Na comunidade Bahá’í há orações e ensinamentos, mas não padres, igrejas, ou hierarquias religiosas, há um só Deus mas todas as religiões são válidas, pois os princípios são semelhantes.

“Acredita-se que a pessoa atinge o conhecimento por si própria, através das acções, e somos todos iguais”, explica David. Em vez de irem à missa, os Bahá’í[s] fazem encontros entre membros e em determinadas alturas praticam o jejum.

Uma vida de grandes saltos

Filho de pais cabo-verdianos, Nelson nasceu na Costa do Marfim, que deixou aos 6 anos, quando a família Évora se fixou em Portugal, mais concretamente em Odivelas, onde começou a treinar. Representou depois o Benfica, o FC Porto, tendo regressado à Luz.

Até 2002, data em que se naturalizou português, representou Cabo Verde, detendo ainda o recorde no salto em comprimento e o triplo salto daquele país.

Habitualmente treina-se no Estádio Universitário, no Jamor e na Sobreda da Caparica. No Inverno, usa um corredor do Estádio da Luz, sem caixa de areia ou qualquer outra facilidade, para evitar a chuva.

Já entrou na universidade, frequentando o curso de Marketing e Publicidade, na Escola Superior de Comunicação de Benfica. A família é muito unida e os pais, Paulo e Elida, encontram-se na Bélgica onde foram visitar outro dos seus filhos. A mãe é familiar da cantora Cesária Évora. Sempre fez muito sucesso entre as raparigas, mas as suas prioridades estão bem estabelecidas. “Agora ele só pensa no atletismo”, assegura David Ganço.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

A falsidade do Regime Iraniano

A Comunidade Internacional Bahá’í divulgou a cópia de uma carta confidencial enviada pelo Ministério da Ciência Investigação e Tecnologia (MCIT) do Irão, ordenando a todas as universidades que expulsem qualquer estudante que se descubra ser Bahá’í.

A carta contradiz afirmações recentes de responsáveis iranianos que afirmam que os estudantes iranianos não sofrem qualquer discriminação, apesar do facto de mais de metade dos estudantes universitários Bahá’ís inscritos no Outono do ano passado terem sido gradualmente expulsos ao longo do ano lectivo 2006/07.

"Este último documento - que afirma claramente que os estudantes Bahá’ís devem ser expulsos das universidades assim que forem descobertos - demonstra de forma inequívoca que as autoridade iranianas mantêm a sua intenção de impedir o desenvolvimento dos Bahá’ís iranianos, apesar das suas declarações para o exterior" afirmou Bani Dugal, a principal representante da Comunidade Internacional Bahá’í nas Nações Unidas.

"À semelhança de outros relatórios e documentos recebidos recentemente, a carta expõe uma campanha dupla do Irão, ao pretender que não viola o direito à educação - reconhecido internacionalmente – e simultaneamente continua a implementar um plano secreto a longo prazo que impede os estudantes Bahá’ís de obterem educação superior" afirmou.



A carta do governo iraniano dirigida a 81 universidades
onde se ordena a expulsão de estudantes baha'is
"Juntamente com relatórios actuais de hostilização física e económica dirigida contra Bahá’ís de todas as idades e em todas as regiões do país, este último desenvolvimento serve para lembrar aqueles que se importam com os direitos humanos que os 300.000 Bahá’ís do Irão continuam profundamente ameaçados" acrescentou.

A carta de 2006 foi enviada pelo Gabinete de Central de Segurança do MCIT - que supervisiona todas as universidades -, assinada pelo respectivo director geral, Asghar Zarei, para 81 universidades em todo o país. Está classificada como "Confidencial". Apesar da data exacta ser ilegível, o conteúdo é bem legível (ver Documento nº 1).

"Se a identidade de indivíduos Bahá’ís se tornar conhecida no momento da inscrição ou no decorrer dos seus estudos, eles devem ser expulsos da universidade" afirma a carta assinada pelo Sr. Zarei. Trata-se de uma directiva que contradiz totalmente declarações oficiais do governo iraniano ao longo dos últimos anos, que sempre pretendeu mostrar que o sistema de ensino está aberto aos Bahá’ís e não faz descriminações religiosas.

No início de Março deste ano, vários jornais publicaram a notícia de que cerca de 70 estudantes Bahá’ís já tinham sido expulsos desde o início do ano lectivo. Mas numa notícia posterior divulgada pela agência Reuters, representante do governo iraniano junto das Nações Unidas foi citado: "Ninguém no Irão é impedido de estudar por causa da sua religião". Entretanto o número de expulsões foi aumentando e, no final do ano lectivo, cifrava-se nos 200.

O Memorando Golpaygani

Apesar de todas as refutações das autoridades iranianas, torna-se evidente que está em vigor o chamado "memorando Golpaygani". Este documento foi elaborado em 1991 e contém um plano detalhado para impedir o desenvolvimento da comunidade Bahá’í do Irão. Ali se declara que aos Bahá’ís deve ser negado qualquer “cargo de influência” e também que “deve ser recusado emprego a pessoas que se identifiquem como Bahá’ís”.

O memorando acrescenta ainda que "os Bahá’ís devem ser expulsos das universidades, seja no processo de admissão ou no decorrer dos seus estudos, assim que se torne conhecido que são Bahá’ís".

Recorde-se que este documento está assinado pelo Hujjatu'l Islam Seyyed Mohammad Golpaygani, o secretário do Supremo Conselho Cultural Revolucionário do Irão, e foi aprovado pelo Ayatollah Ali Khamenei, o então Líder supremo da República Islâmica do Irão. Em 1993, este documento foi divulgado publicamente por uma fonte das Nações Unidas (ver documento nº 5).

Aos olhos da Comunidade Bahá’í, enquanto as políticas perversas contidas neste documento estiverem em vigor, pouca esperança haverá para que os Bahá’ís do Irão sejam tratados com justiça.

Os Documentos Iranianos

Vários documentos oficiais iranianos agora divulgados mostram claramente que a política delineada em 2006 continua a ser activamente implementada. Entre estes documentos contam-se os seguintes:

  • Uma segunda carta do Gabinete de Central de Segurança do MCIT para responsáveis da Universidade Payame Noor, datada de 17 de Março de 2007, instruindo-os para "impedir a inscrição de candidatos Bahá’ís" (Documento nº 2)
  • Uma carta de 18 de Maio de 2007 do Conselho Académico e Gabinete de Ensino da Superior da Universidade de Guilan para o director dos assuntos académicos da universidade, pedindo a expulsão imediata de uma estudante Bahá’í. (Documento nº 4)
  • Uma carta de 27 de Maio de 2007 também do Conselho Académico e Gabinete de Ensino da Superior da Universidade de Guilan, para a estudante Bahá’í referida anteriormente, notificando-a de que foi "desqualificada" para estudar em Guilan, conforme era requerido pelo memorando Golpaygani (Documento nº3)
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Fontes:
Confidential Iran memo exposes policy to deny Baha'i students university education (BWNS)
Iran Accused of Expelling Baha'i Students (Radio Free Europe)

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Nelson Évora, na imprensa





Não gosto deste título na capa e num artigo do jornal O Jogo.

Nelson Évora não ganhou uma medalha de ouro graças às suas convicções religiosas. Ganhou porque foi melhor que os adversários. Ganhou e deu uma alegria enorme a todos os portugueses.

A fé religiosa pode ajudar a moldar o carácter de uma pessoa; pode estimular o desenvolvimento espiritual de um ser humano; pode dar uma pessoa uma compreensão sobre o propósito da vida e o relacionamento com o Transcendente.

Mas dizer - ou sugerir - que se ganha uma medalha de ouro num Campeonato do Mundo de Atletismo devido a uma qualquer convicção religiosa é, sem dúvida, um disparate.

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ACTUALIZAÇÃO (29-Agosto-2007 23H41):
Aqui fica o texto publicado neste jornal:

Valeu a Fé Bahá’i

Nelson Évora é campeão do Mundo de triplo salto! Arrasou a concorrência em apenas três saltos, o melhor a 17,74 metros. Mesmo assim, o seu semblante manteve-se sereno. E foi sem grande euforia – ao menos aparente – que festejou o principal feito de uma carreira com mais de 10 anos….

Évora nasceu na Costa do Marfim em Abril de 1984. Filho de pais cabo-verdianos, rumou a Portugal em 1989. Tinha cinco anos. Todo o seu percurso desportivo foi feito em solo português. A naturalização? Obteve-a em Dezembro de 2001, pouco depois de Francis Obikwelu

O desporto sempre foi a sua paixão. Bem mais do que os livros. Na escola praticou de tudo um pouco, mas apaixonou-se pelo atletismo. Desde logo pelos saltos, parecia querer voar. Iniciou-se como tantos outros no desporto escolar e, imagine-se, no salto em altura!

Por sorte, o vizinho de cima, João Ganço – ainda hoje seu treinador - cedo percebeu a habilidade do rapaz para os saltos. Ganço fora o primeiro português a passar a fasquia dos dois metros no salto em altura, corria o ano de 1972. E antes de Nelson de lhe chegar às mãos como pupilo, havia acumulado a experiência de treinar o próprio filho, David, um ano mais velho do que o nosso campeão. Entre as dúvidas típicas da tenra idade, o técnico começou por convencer Évora a dedicar-se aos saltos horizontais -comprimento e triplo – e que bela aposta se revelou o conselho.

A ligação de ambos é forte. Tão forte que o atleta tem resistido aos inúmeros convites de universidades norte-americanas, sempre ávidas em contratar os melhores atletas jovens que brilham pelo Mundo. Mas Évora tem recusado todos os convites. Pensa, e com legítimas razões, reunir por cá condições para se preparar para as mais ambiciosas metas…

Évora espelho da religião da... Unidade

A fé faz parte do dia-a-dia deste pacato jovem lisboeta. Hoje benfiquista, Nelson foi campeão europeu de juniores pelo FC Porto em 2003. A dedicação ao treino tem sido exemplar e saídas à noite não constam dos seus roteiros - a não ser em férias. E, embora não tão brilhante como a desportiva, nem a carreira académica saiu descurada: foi admitido num curso superior de marketing que pensa exercer quando deixar a alta competição.

Na religião, Évora e Ganço seguem as leis de uma religião chamada Fé Bahá'í, regida pela Unidade. Ensina que a Terra é um só país e a Humanidade os seus cidadãos. Sobre a importância da religião não sua carreira Évora diz: “A religião ajuda-nos no equilíbrio do nosso interior e a sabermos enfrentar a realidade. E a olhar mais para as coisas positivas do que negativas”. Mais palavras para quê?…

Mãe, não vou conseguir cumprir a minha promessa...

Escrito por um estudante Bahá'í iraniano e publicado no site Iranian.com.
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Desde 1979, o governo iraniano tem sistematicamente procurado privar a sua maior minoria religiosa do direito a uma educação completa. Especificamente, a República Islâmica do Irão há mais de 25 anos que tem impedido a Comunidade Bahá’i – 300.000 pessoas – de aceder ao ensino superior, recusando aos jovens Bahá’ís a entrada na universidade e outros estabelecimentos de ensino superior.

Posteriormente, em resposta a um protesto internacional contra este comportamento opressivo, o governo anunciou oficialmente no final de 2004 que iria retirar a declaração de filiação religiosa das candidaturas ao exame nacional de admissão na universidade. Consequentemente, os Bahá’ís puderam fazer o exame em 2004 e em 2005. No entanto, no processo de admissão, os jovens Bahá’ís foram postos de lado e não foram aceites.

Em 2006, pela primeira vez em 29 anos, mais de 200 estudantes Bahá’ís puderam entrar nas universidades públicas. Porém, desde o início do ano lectivo, os estudantes foram gradualmente sendo expulsos de acordo com uma estratégia previamente planeada.

Neste ano (2007), o governo usou uma nova táctica. A maioria dos estudantes Bahá’ís não recebeu os seus cartões com as classificações das provas. Ao não receber os seus resultados, nem sequer sabem se passaram ou chumbaram no exame.

Segundo o site da Internet da Organização Nacional para Avaliação da Educação, 800 estudantes Bahá’ís cujos cartões ainda não foram emitidos, não possuem toda a documentação necessária. Foram feitos contactos com as entidades responsáveis pelo processo, mas apesar disso não se conseguiu uma resposta razoável. Neste momento, os estudantes Bahá’ís que ainda não foram informados sobre o resultado dos seus exames enfrentam uma situação incerta.

Quando eu era criança falava sobre os meus sonhos com a minha mãe. Num dia queria ser professora; no outro queria ser cientista ou médica. A minha mãe olhava para mim e dizia-me: “Tenta amar toda a gente. O que quer que sejas, tenta ajudar os outros.”

Assim, há sete anos atrás decidi ser médica. Tinha a certeza que trataria os meus doentes com amor. Os dias passaram e eu aprendi muito. No início, o sonho de ser médica era o sonho mais real e mais belo da minha vida. No entanto, acabei por saber que a minha mãe tinha sido impedida de concluir o último semestre dos seus estudos na universidade. Vi os meus irmãos que nem sequer puderam fazer o exame nacional de admissão na universidade.

Então, um dia ouvi uma voz de esperança de um dos meus amigos que tinha uma nova história para mim. Falou-me das suas aulas, do exame de admissão que ia fazer, e das aulas de preparação. Partilhou comigo os seus sonhos, esperanças, preocupações e medos. Senti o seu entusiasmo. Senti a sua preocupação e ansiedade. Eu estava feliz pelo facto de que ser Bahá’i já não ser um obstáculo para prosseguir a minha educação.

Hoje, o meu amigo telefonou-se e falou com uma voz que não mostrava qualquer ansiedade. Falou-me do seu cartão de classificações que ainda não tinha sido emitido, e que o seu resultado não era claro. Falou-me das respostas que lhe tinham dado. Falou-me da sua determinação cada vez maior em revitalizar o seu país, o Irão.

Chorei. Chorei até não ter mais lágrimas para chorar. Chorei, não por causa da minha mão que não conseguiu realizar o seu sonho; dos meus irmãos que nem por um segundo invejaram os seus amigos não-bahá’ís; do meu amigo que se via impedido de prosseguir a sua educação; nem por minha causa, e pelo meu sonho perdido de vir a ser médica. Chorei porque ainda me lembro do dia – na minha infância – em que prometi à minha mãe que ia amar toda a gente. Foi só então que percebi porque tinha feito aquela promessa no auge dos meus sonhos. Chorei porque temi não ser capaz de cumprir a minha promessa.

Mas estas pessoas – que eu tento amar – não foram crianças? Não prometeram às suas mães que iam amar-me?

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Medalha de Ouro!!!

Nélson Évora campeão do mundo do triplo-salto



O atleta português Nélson Évora sagrou-se hoje campeão do mundo no triplo salto, nos Campeonatos do Mundo de Osaca, no Japão. Com esta marca, Nélson Évora bateu o recorde nacional da modalidade, acrescentando 23 centímetros à sua antiga melhor marca.

Depois de ter saltado para a liderança do concurso logo na primeira tentativa, com 17,44 metros, Évora fez um salto nulo, antes de chegar ao ensaio que lhe deu a medalha de ouro nos campeonatos. Com a liderança assegurada, o atleta português abdicou do quarto salto, fez um nulo na quinta tentativa e, já com o título mundial conquistado, fez mais um excelente último salto, com 17,39 metros (quarto melhor do concurso).

Com um salto de 17,74 metros no terceiro ensaio, Évora, 23 anos, ultrapassou o brasileiro Jadel Gregorio (17,59 metros) e o norte-americano Walter Davis (17,33 metros), antigo detentor do título.

Percurso de Nélson Évora

Nascido na Costa do Marfim a 20 de Abril de 1984, filho de cabo-verdianos, Nelson Évora veio viver para Portugal aos seis anos de idade e começou logo a ser notado nos escalões jovens do atletismo. Em 1999, aos 15 anos, já saltava 14,35m no triplo; progrediu de forma sensível nos anos imediatos e, em 2002, esteve presente nos Mundiais de juniores, não se apurando para a final no comprimento e acabando sexto no triplo, esta já uma classificação promissora.

No seu último ano como júnior, em 2003, sagra-se campeão europeu tanto no comprimento como no triplo, reeditando de forma ampliada o feito do barreirista Carlos Silva anos antes, ao tornar-se pioneiro a vencer por Portugal fora do sector do meio fundo e fundo. Os seus recordes pessoais chegaram, nesse ano, a 7,83m e 16,43m no triplo e bastante se especulou sobre qual seria a melhor disciplina para se focalizar no futuro. No ano olímpico imediato esteve em Atenas no triplo salto, mas não se conseguiu qualificar para a final. Tinha, no início do ano, progredido largamente, com 16,85m em pista coberta em Moscovo, mas uma lesão subsequente dissipou-lhe boa parte da temporada ao ar livre.

Foi ganhar experiência para 2005, quando obteve mínimos para os que seriam os primeiros Mundiais absolutos, em Helsínquia. Também não pôde passar da qualificação do triplo, mas bem mais acima, com o 14.º melhor salto contra o 40.º lugar na capital grega. Aproximou-se dos 17 metros (16,89m) e precisou a sua opção preferencial pelo triplo, tomada em acordo com o seu técnico João Ganço, um antigo saltador em altura de classe nacional.

Em 2006 bateu pela primeira vez a barreira dos 17 metros, com 17,19m em pista coberta em Janeiro, em Moscovo, e o segundo máximo nacional da época fê-lo na qualificação dos Europeus de Gotemburgo, o que significou um salto em frente qualitativo face às qualificações anteriores nos maiores eventos. Na final seria quarto, com 17,07m, atrás do sueco Olosson, do britânico Douglas e do romeno Oprea.

Já em 2007 foi quinto nos Europeus de Birmingham em pista coberta e, na entrada para a temporada de ar livre, rapidamente entrou numa rota de progresso. Competiu na Liga Dourada em Oslo, Paris e Roma, e na segunda daquelas provas, a 6 de Julho, melhorou o seu recorde nacional para 17,28m.

De permeio, a 24 de Junho, tinha feito 17,35m com vento um pouco acima do limite na Taça da Europa de Milão e nessa ocasião também bateu no comprimento, com um recorde pessoal de 8,10m, o campeão europeu dessa disciplina, o italiano Andrew Howe, confirmando-se como um dos melhores de sempre na soma das duas especialidades. Antes, na terceira ronda da Liga Dourada, em Roma, esteve pior (16,52m) de resto como todos os outros, mas em Madrid encontrou as condições ideais para os 17,51m do novo máximo. Recorde que hoje caiu em Osaca, onde Nelson Évora atingiu o ponto mais alto da sua carreira: saltou 17,74m e conquistou a medalha de ouro.

(texto de Luís Lopes, jornal Público)

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Bento XVI e as Religiões do Mundo (7)

Relativismo e Diálogo Inter-Religioso

Ao ler o livro Fé, Verdade e Tolerância: o Cristianismo e as Grandes Religiões do Mundo fica-se com a ideia que na perspectiva de Bento XVI, o relativismo religioso é o maior problema que a Igreja Católica enfrenta hoje em dia. As religiões são colocadas em iguais planos e aparecem como tendo uma missão comum e todos os dogmas se podem questionar. Segundo o autor, …" A atitude relativista consiste em reconhecer que não sabemos o que é a verdade, mas sabemos o que temos de fazer: criar uma sociedade melhor, ou seja, o «Reino» … Eclesiocentrismo, cristocentrismo teocentrismo parecem agora todos ultrapassados pelo reinocentrismo – colocar no centro o Reino enquanto missão comum das religiões, e só sob esta perspectiva e segundo este critério deveriam encontrar-se." (p.68-69)

A faceta particularmente perversa do Relativismo enquanto estimulante do diálogo inter-religioso é apontada por Bento XVI. Veja-se por exemplo, este pequeno excerto da pag. 110:
”O diálogo, no entendimento relativista, significa colocar a posição própria, ou a própria fé, ao nível das convicções dos outros, não lhe cabendo, em princípio, mais verdade que à posição do outro. Apenas se eu, de princípio, presumir que o outro pode ter tanta ou mais razão do que eu, pode ter lugar um verdadeiro diálogo”(p.110).
O surpreendente destas palavras é que afirmam que o cristão nunca deve deixar de sentir que as suas convicções são superiores às dos outros. Não sei como é que alguém se pode dialogar ou relacionar-se com outros quando se proclama a superioridade das suas convicções. Conheço quem afirme a originalidade, a beleza, e a actualidade das suas convicções. Mas nunca vi ninguém que proclamasse a superioridade das suas convicções e com isso conseguisse ter uma relação serena com os outros. Daí a minha surpresa com as palavras de Bento XVI.

É verdade que o diálogo inter-religioso é um fenómeno relativamente recente; tornou-se uma necessidade num mundo globalizado onde o encontro de culturas e povos é inevitável. Para quem vive num gueto mental (ou físico) o diálogo inter-religioso é visto como blasfémia ou deslealdade. Não creio que este seja o problema de Bento XVI; prefiro acreditar que ele desconhece o que é o verdadeiro diálogo inter-religioso.

No diálogo procuramos as semelhanças, as empatias e as diferenças entre comunidades e confissões sem nunca as adoptarmos como nossas. No diálogo não serve apenas para nos sentirmos melhor em relação aos outros, mas também para ficarmos mais conscientes de nós próprios ao descobrirmos um campo de verdades comuns e de diferenças. Obviamente que um diálogo onde uma das partes não age de boa fé – estando convencido da superioridade das suas convicções ou convicto de possuir o exclusivo da verdade – é um diálogo que não dará frutos.

O diálogo inter-religioso não é um processo de conversão do outro que tem uma fé diferente da nossa; E não se limita ao debate académico ou intelectual; assenta, sobretudo na partilha de experiências entre crentes sinceros, crentes que querem aprofundar a sua fé com a ajuda de outros sem caírem em sincretismos ou e não se aconselha ninguém a mudar de religião.

OS TEÓLOGOS DO RELATIVISMO CRISTÃO

Apesar de nunca citar directamente o John Hick, Bento XVI mostra-se conhecedor das ideias da viragem de pensamento coperniciana deste teólogo presbiteriano – a mudança de um paradigma cristocêntrico para um teocêntrico. Para o líder da Igreja Católica, as ideias de Hick relativizam Jesus como um génio religioso entre outros e são uma ameaça ao “carácter incondicional”da “Igreja dos dogmas e dos sacramentos”. E lamenta-se que na perspectiva relativista, a fé da Igreja na “única figura histórica” e Jesus de Nazaré como “Deus vivo” seja qualificada como fundamentalista e uma ameaça “à tolerância e à liberdade” (p.109)

Outro conhecido teólogo do relativismo cristão, Paul Knitter, é acusado por Bento XVI de procurar uma nova síntese entre a Ásia e a Europa, dando à religião um novo valor por meio de uma associação à teologia pluralista da religião com as teologias da libertação. O fantasma da suposta inspiração marxista das ideias destes teólogos também é referido. (p. 112)

Pessoalmente considero estes dois teólogos cristãos como grandes obreiros do diálogo inter-religioso. Tal como outros (Hans Kung, Leonado Boff, Gustavo Gutierrez, Raimon Panikkar), vejo-os como sinais de um Cristianismo destinado a renovar-se e a sobreviver as actuais convulsões mundiais, tal como está profetizado nas Escrituras Bahá’ís. Por esse motivo, também esta é uma matéria em que discordo de Bento XVI.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

A Fatalidade da Religião

Um breve comentário ao artigo – intitulado A Fatalidade da Religião - de Pedro Lomba, publicado hoje no Diário de Notícias:

É verdade que o ideal de um mundo sem religião é uma ideia absurda. A história mostra que as tentativas de criar uma sociedade sem religião degeneraram em situações tão desumanas quanto aquelas criadas pelas ortodoxias religiosas. Mas a importância da religião é inegável; apresenta um sentido de vida para cada ser humano e tem inspirado sociedade civilizações.

Assim, se necessitamos de religião e tememos as antigas fórmulas (as suas instituições e dogmas) teremos de concordar que o grande desafio que actualmente se coloca à religião (instituições, teólogos, e outros agentes) consiste em procurar caminhos mais racionais e humanos. Este desafio de evolução, terá de ser obrigatoriamente respondido por todas as religiões, que não pretendam ser consideradas doutrinas obsoletas.

Quanto a Richard Dawkins, e Sam Harris sabemos que estes autores rejeitam as fórmulas religiosas actuais; mas nos seus textos reconhecem a necessidade de procurar um sentido para a existência humana (chegando mesmo a designá-lo por “espiritualidade”). Veja-se, por exemplo a entrevista do primeiro com o Bispo de Oxford, Richard Harries, e a defesa que o segundo faz de algumas práticas de meditação budista. Poder-se-ia dizer que estes dois autores pretendem procurar uma espiritualidade descartando a possibilidade da existência de Deus.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Raimon Panikkar

Uma das mais agradáveis surpresas deste verão foi encontrar numa livraria a tradução portuguesa do livro de Raimon Panikkar, O Diálogo Indispensável: Paz entre as Religiões. O autor, filho de mãe espanhola e pai indiano, é doutorado em Filosofia, Ciências e Teologia, e tornou-se um dos nomes mais conhecidos do diálogo inter-religioso.

O livro em si, é um breve manifesto sobre o diálogo inter-religioso e inter-cultural, fenómenos considerados inevitáveis e indispensáveis no mundo actual. Quem conhece a obra de Panikkar, sabe o valor do seu contributo para a mudança de mentalidade que se exige à humanidade neste momento da sua história, em que se tornou evidente que todas as culturas e todas as religiões necessitam umas das outras para permanecerem fieis à melhor parte de cada uma delas.

Deixo aqui alguns excertos das palavras de Panikkar, para vos “abrir o apetite” para este livro.
O encontro entre as religiões é tão vital que, de facto, mais ou menos, todas as religiões actuais são fruto destes encontros. Que seria do cristianismo sem o profundo sincretismo que brotou das suas raízes hebraicas, gregas romanas e germânicas?

Sem diálogo, as religiões enredam-se em si mesmas ou adormecem nas amarras e naufragam. Verdadeiramente, hoje vai-se tornando claro que nenhuma tradição tem poder suficiente para, por si só, levar à prática o papel que se auto-atribui. Ou se abrem umas às outras, ou degeneram e dão lugar a reacções fanáticas de todo o tipo.

O diálogo entre as religiões não é só um tema académico ou ainda uma questão eclesiástica ou oficialmente “religiosa”, e menos ainda uma nova moda porque as cerimónias religiosas se tornaram aborrecidas ou diminui o número de assistentes.

Ninguém é perito em diálogo inter-religioso, porque todo o diálogo é único. Não nos podemos especializar em diálogo inter-religioso; este pertence à própria vida religiosa actual.

Cada religião pode crer que representa a mais alta verdade e que interpreta o papel principal, mas deve estar, também, disposta a ouvir a outra e a permitir que o jogo da vida se desenrole sem violência nem armadilhas.

O diálogo hindu-cristão… constrói uma linguagem que não é adequada para o diálogo hebreu-cristão. Devemos resistir à tentação moderna, originada nas ciências naturais, de querer chegar a leis universais obrigando todos os fenómenos a adaptarem-se a parâmetros científicos.

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

O Caminho em Frente



"Baha'i Faith: A Way Forward" (Fé Bahá'í: Um Caminho em Frente) é o título de um documentário produzido a pedido da televisão sul-africana (SABC) e que foi emitido ontem na África do Sul, e será emitido noutros países da África austral. O programa, com duração de uma hora, foi produzido por Ryan e Leyla Haidarian, e tem por objectivo mostrar o que a Fé Bahá’í tem para oferecer, a um nível prático, ao mundo.

O documentário contém uma introdução à religião Bahá’í e centra-se em três cidadãos sul-africanos, e na forma como a sua fé se reflecte no serviço aos outros. Além disso, são ainda apresentados documentos históricos dos tempos em que a Comunidade Bahá'í da África do Sul vivia sob o regime do apartheid. “Nesses dias, os Bahá'ís seguiam a letra da lei, mas não se agarravam ao espírito das leis”, afirma-se no filme. Entre os princípios fundamentais da Fé Bahá'í estão a unidade racial e a eliminação de preconceitos.

A eleição da primeira Assembleia Espiritual Nacional dos Bahá'ís da África do Sul, foi realizada com muitas precauções. O local escolhido para o evento foi um celeiro; os brancos entravam pela porta da frente e os negros entraram pelas traseiras. “Se a polícia se aproximava, os negros começavam a fazer limpezas e a cozinhar, enquanto que os brancos jogavam às cartas e conviviam”, relata o narrador.

O documentário está disponível neste link.

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FONTES:
South African film shows faith in action (BWNS)
Documentary on SABC (Baha'is of South Africa)

domingo, 19 de agosto de 2007

A crise contemporânea

Anselmo Borges, na edição de ontem do Diário de Notícias, refere alguns tópicos da intervenção de Eduardo Lourenço, na conferência “Religiões, Violência e Razão”:

A crise contemporânea é estranha. Enquanto o Ocidente se encontra desertificado de Deus, noutras culturas não só não há morte de Deus como, em vez da laicização, continuam na sua Idade Média, acreditando que o seu Deus é o verdadeiro e o Ocidente está em vias de perdição.

De facto, o Ocidente teve um dinamismo incomparável, e a razão disso é que o seu debate foi sempre à volta de Deus. Noutras culturas, Deus é um dado e está no centro de tudo; no Ocidente, Deus tem sido uma interpelação infinita. Deus não é uma evidência, porque não é um objecto. Deus é o nome, precisamente enquanto antinome, da nossa incapacidade de captar o Absoluto, o modo de designarmos a nossa incapacidade de ocuparmos o seu lugar. O Ocidente é a procura e o debate à volta desta questão. É-se contra a objectivação de Deus, porque Deus-pessoa não é objectivável. Deste modo, o Ocidente afirma-se como procura da liberdade. Quando, noutras culturas, se dá a pretensão de apoderar-se de Deus, temos fanatismo.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

An answer to a Malaysian blogger

I found this post on a blog by Mr. Saidul A Shaari, from Malaysia.

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The Baha’i Faith organization is spreading their teachings to Malaysia?
Wednesday, August 15, 2007

Let’s not waste too much on this.

To all Malaysian Malay (Melayu) Muslims, I have a quickie warning to be given to every one of you today. It is very important so please bear with me on this.

It has come to my attention that the Baha’i Faith organization is now attempting to spread their teachings here in Malaysia. I stumbled upon their ambition by accident earlier today. I realized it when I saw a Google-based online advertisement promoting their teachings in the internet.

It seems that the Baha’i Faith organization has all ready secured a very strong footing in Sarawak. As matter of fact, they have opened a few Baha’i Faith centers over there. They even have an office, suspiciously named as Sarawak National Spiritual Assembly Office located in Kuching.

Please forward this finding to our Religious Departments as soon as possible. I will of course do the same but let us all do that in numbers. Only then they would look into this with some fair commitment.

My fears are with our naïve and some time stupid Malaysian Malay Muslim teenagers. I sincerely hope that we are not too late in relaying this warning to our Malaysian Malay community.

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OK! Here we go again!

Now we have a Malaysian blog warning about the spread of the Bahá'í Faith in Malaysia. A post with a few paragraphs, reflecting a mix of ignorance and fear. In Europe, if anyone publishes a similar “warning” concerning the growth of Islam, and the establishment of a Mosque in some city, such “warning” would be described as “Islamophobia”. But let me try to answer this post.

The Bahá'í Faith is trying to spread it’s teachings in Malaysia. So what? It is doing that in every country and territory. And when they have some success (meaning that a few hundred people accept this religion) then Bahá'í institutions are established. These institutions are named “Spiritual Assemblies”, and are supposed to work on national and local level.

Note that some times Bahá'í national institutions are established in some territories that are not and independent country. For instance, Alaska has a Baha’i National Spiritual Assembly. The same thing happens in Canary Islands (part of Spain); and I hope one day it happens in Azores and Madeira Islands (both part of Portugal). This is not a support of separatism (Bahá'ís stay out of politics!); it is just the way Bahá'ís organize their communities.

I meet a few Malasyian in my life. I don’t know what their religion was; I just remember they were decent and intelligent people. So it is hard for me to imagine that “stupid Malaysian Malay Muslim teenagers” exists. Youth are just youth; they are the same all over the world. We are all human beings, correct?

But let us suppose that in fact people who accept the Bahá'í Faith are stupid, and that the teachings of this religion are a threat. Consider, for instance, the Bahá'í teaching of equality of opportunities for man and woman. Is this a threat? People who accept it are stupid? And the teaching concerning universal and obligatory education; is this another threat that naïve people a ready to accept? May be that the teaching on elimination of all forms of prejudice is just another Bahá'í teaching that only idiots accept.

My dear Saidul A Shaari! No one should be forced to accept a religion. I know many people who got in touch with the Bahá'í Faith, investigated their teachings and decided not to accept it as their religion. But such a decision was the result of a free investigation of truth; it was not the fruit of ignorance or prejudice. So please, try to find out what the Baha’i Faith is about, in order to have a more solid ground for your comments.

Why do we blog?

Esra'a raised the question: "Why do we blog?"

Probably, every blogger has one or more answers. And every reader will make a judgment on every blog: are we narcissistic, “citizen journalist” or just wasting time. Blogging has it’s own limitations. The cultural background of every blogger sets the limits of his/her activity. For instance, as I write mostly in Portuguese, most of my audience comes from Portugal, Brazil, Angola and Mozambique; I can not expect to reach an Arabic speaking audience.

Writing in English it certainly enables us to reach a wider audience, not only to English speaking countries, but also to millions of people who use it as a secondary language. And software tools sometimes it is possible to provide rough translations.

Sharing experiences and exchanging ideas with bloggers from such different countries as Brazil, Zambia, Iran, Korea or Bahrain allow us to gain awareness of different interest, needs, and problems in different parts of the world. Such an interaction, in fact, enables a cross-cultural understanding and dialogue. In a sense, it gives us a kind a global conscience.

But this feeling of “global citizenship” was just an unexpected consequence of blogging.

But let’s go back to your question: “Why do we blog?”

My two blogs provide two answers: in this blog my purpose is to relate the Baha’i Faith with world current events, to present some ideas on comparative religion and social issues. In my other blog (Antigamente) I try to preserve the memories of my grandfather (he was a medical officer in the Portuguese Army and fought in World War I). His collection of postcards is an interesting visual memory.

May by that blogging has become a sort of an addiction; but it is not the most important thing in life. I am the father of two young children and most of my activities are limited by their needs. My time to blog occurs mostly when the children are sleeping.

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Egipto: Um Sistema de Castas Religiosas

Bilo, autor do blog Baha'i Faith in Egypt, conta que o mais importante jornal egípcio, Al-Ahram, publicou um artigo no passado dia 8 de Agosto, em que descrevia os planos do governo para a implementação geral do novo sistema de documentos de identidade – o tal em que os cidadãos são obrigados a registar a sua filiação religiosa e apenas dispõe de três escolhas – e o abandono do antigo sistema de documentos de identidade.



O Primeiro-Ministro, Dr. Ahmed Nazeef, exigiu que fosse estabelecido um prazo para o fim da utilização dos antigos bilhetes de identidade. A data exacta será anunciada pelo Ministro do Interior, prevendo-se que isso aconteça em breve, quando 90% da população já tiver recebido o novo documento.

Entretanto alguns Ministérios e organismos públicos já exigem a apresentação do novo documento para a prestação de qualquer serviço. Os efeitos destas medidas já se fazem sentir sobre os bahá’ís e outras minorias religiosas. É impossível conseguir acesso aos cuidados de saúde e as crianças não podem ser vacinadas em hospitais e centros de saúde; também há relatos de alunos bahá’ís que foram expulsos da universidade por não conseguirem fazer prova do adiamento do serviço militar (para o qual é exigido o novo bilhete de identidade).

É um sistema de castas religiosas que se instala do outro lado do Mediterrâneo. Foi para isto que o Egipto foi eleito membro do Conselho dos Direitos Humanos da ONU? E a União Europeia cala-se?

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Capelanias Militares

Uma potencial violação da Lei da Liberdade Religiosa?

Segundo a edição de hoje do Correio da Manhã, a “Igreja Católica vai manter uma posição privilegiada nos serviços de assistência religiosa nas Forças Armadas e de Segurança, apesar de a revisão ao Estatuto ter como objectivo dar cumprimento à Lei de Liberdade Religiosa. Até porque será a Igreja a apreciar os pedidos de prestação de assistência religiosa de confissões não católicas e a estabelecer as condições para o seu exercício.”

A jornalista (Ana Patrícia Dias) autora do texto afirma ter tido acesso ao anteprojecto de revisão do Estatuto dos Serviços de Assistência Religiosa das Forças Armadas e de Segurança enviado pelo Ministério da Defesa às chefias militares. E de acordo com a jornalista, o Bispo das Forças Armadas e de Segurança (membro da Igreja Católica), seria responsável pela organização e garantia da assistência religiosa católica a militares e polícias, assim como pela apreciação dos pedidos formulados por outras confissões para prestar assistência religiosa e “propor as condições mais adequadas ao seu exercício”.

A jornalista lembra ainda que actualmente existem 41 capelães da Igreja Católica no quadro permanente das Forças Armadas. Estes têm direito a uma verdadeira carreira militar, incluindo postos, vencimentos, formação, reforma e promoções; tais condições, porém, não se aplicam aos membros de outras religiões. A jornalista afirma ter tentado – sem sucesso – contactar o Ministério da Defesa; mas nada diz se tentou contactar a Igreja Católica.

A confirmar-se esta notícia, e a manter-se o conteúdo deste documento, estaremos na presença de uma potencial violação da Lei da Liberdade Religiosa. É uma situação que afecta duas entidades, a quem se pede uma reacção:
  • A Comissão da Liberdade Religiosa (que por enquanto apenas sabemos ser dirigida por Mário Soares, mas cuja restante composição desconhecemos) que deveria ter uma reacção rápida e inequívoca, exigindo o cumprimento da LLR, e dos princípios da Constituição da República.
  • A Igreja Católica, a quem ficaria bem ser a primeira a rejeitar esta situação; seria a recusa de um potencial monolitismo religioso no meio castrense, e um sinal claro da sua anuência à Lei da Liberdade Religiosa.

E agora, a humilhação!

O sofrimento do cidadão comum iraquiano é algo que me deixa profundamente incomodado. Após anos de opressão sob uma ditadura cruel, sofrem agora as consequências de uma invasão e várias guerras civis. As estatísticas sobre a violência, os mortos, os feridos, os refugiados surgem regularmente; são números. Mas quando os números são pessoas, e os relatos são dados em primeira-mão, percebemos a dimensão da tragédia.



Recentemente, (via Esra'a, do Mideastyouth) encontrei este post (The Jail) no blog The Last of Iraqis. Descreve a forma desumana e cruel como muitos iraquianos são tratados no aeroporto de Aman, na Jordânia. Naquele país vizinho do Iraque, o último obstáculo que os iraquianos que tentam fugir ao caos têm de enfrentar é a humilhação.

Não há um Aristides Sousa Mendes que ajude os iraquianos?

domingo, 12 de agosto de 2007

Miguel Torga



Torga nasceu há 100 anos.

A sensação mais curiosa que tive com Miguel Torga passou-se há alguns anos. Durante algumas semanas perdi-me a ler a saga de Erico Veríssimo “O Tempo e o Vento” (todos os volumes); quando terminei peguei nos “Novos Contos da Montanha” e tive a sensação de regressar a Portugal. Era como se a escrita destes autores reflectisse o respectivo universo cultural. E tão intenso era esse reflexo que me deu a sensação de regresso.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Nelson Évora



Excerto de uma entrevista de Nelson Évora, ao DN-Sport, publicada na semana passada.

(...)

É possível ser atleta de alta competição e sair à noite?

Impossível. Porque a noite perdida corresponde a uma semana de recuperação. Um atleta não pode fazer noitadas, tem de descansar. Sei que quando recupero bem posso fazer bons resultados. Saídas à noite só quando estou de férias.

Como passa os tempos livres?

Estar com amigos. Conviver. Passear. Ir ao cinema.

Costuma ler jornais?

Jornais desportivos. Também leio o Diário de Notícias, por causa do meu pai, que é um leitor fiel. Não leio todos os dias, mas quando tenho tempo... convém estar informado.

Navega muito na Net?

Procuro ver os sites de atletismo, os rankings, as competições, mas gosto de procurar informação geral, vídeos, música.

Qual o papel da religião na sua vida?

A religião faz-nos enfrentar a vida e ver para além do quotidiano, dos bens materiais. A religião ajuda-nos também no equilíbrio do nosso interior e a sabermos enfrentar a realidade. E a olhar mais para as coisas positivas do que negativas.

É católico?

Eu e o meu treinador seguimos a fé Bahá’í, uma religião independente e monoteísta, fundada por Bahá’u’lláh. Tem as suas próprias Escrituras Sagradas, no entanto aceita e reconhece outros livros sagrados como a Bíblia e o Alcorão.

Pode aprofundar um pouco mais os princípios da sua religião?

O tema principal é a Unidade. Ensina que a terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos. Os seus princípios baseiam-se em: um só Deus; existe apenas uma religião, eterna e em progressiva evolução; cada indivíduo tem a liberdade e a responsabilidade de pesquisar a verdade; eliminação de preconceitos como raça ou classe; igualdade entre homens e mulheres; a instrução universal e a aquisição de uma língua universal; o estabelecimento de um sistema federal baseado na segurança colectiva; reconhecimento que a religião está em harmonia com a razão e o conhecimento científico.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Bento XVI e as Religiões do Mundo (6)

Relativismo

Se se tivesse de eleger uma preocupação central de Bento XVI nos seus textos reunidos no livro Fé, Verdade e Tolerância: o Cristianismo e as Grandes Religiões do Mundo a escolha recairia sobre o relativismo. O actual líder da Igreja Católica descreve o relativismo religioso como uma atitude em que “...nunca podemos ver a realidade última em si mesma, mas sempre e só o seu aparecimento no nosso modo de percepção através de várias «lentes». Tudo o percepcionamos não é a verdade em si mesma, mas um reflexo à nossa medida.” (p.109)

Esta descrição é consistente com uma outra definição apresentada por um académico baha’i que descreveu o relativismo como “a posição de que a Realidade Última é incognoscível, está além da capacidade humana para a conceptualizar. O conhecimento (seja do mundo físico ou metafísico) é sempre o conhecimento de uma perspectiva particular, e portanto é relativo a esse ponto de vista. Não é possível proferir nada que seja uma verdade absoluta. Todos os conceitos são meras perspectivas da verdade, sendo cada uma correcta do seu próprio ponto de vista. Isto representa um relativismo cognitivo.”

O relativismo pode-se debater e questionar em diferentes áreas da vivência humana: ética e moral, política, religião, cultura. Naturalmente que relativismo religioso é uma matéria distinta de relativismo moral; é possível apoiar o relativismo religioso e condenar o relativismo moral. Não faz sentido falar do relativismo como um todo ou misturar diferentes áreas onde o relativismo se pode manifestar. Na minha opinião, Bento XVI cai neste erro ao referir-se ao relativismo.
Enquanto sinal de encontro de culturas, o relativismo parece apresentar-se aqui como uma verdadeira filosofia da humanidade, e isso dá-lhe, como já foi indicado, um tão visível poder de imposição, tanto a Oriente como a Ocidente, que na prática, já não parece ser admissível qualquer resistência. Quem se lhe oponha, não se opõe apenas à democracia e à tolerância, e portanto às imposições fundamentais da convivência humana; persiste ainda obstinadamente na afirmação da primazia da sua própria cultura, a ocidental, recusando-se ao convívio de culturas, o que é notoriamente a necessidade do momento. Quem quer permanecer na fé da Bíblia e na Igreja, vê-se para já banido para uma terra-de-ninguém cultural; tem de ambientar-se de novo à «loucura de Deus» (ICor 1,18), para reconhecer nela a verdadeira sabedoria. (p.111)
Neste pequeno excerto Bento XVI aborda o relativismo como um todo; implícita nas suas palavras está a sugestão de que o cristão deve resistir isolado no seu mundo, imune a intercâmbios culturais, indiferente a outras realidades religiosas. O crente na bíblia deve acreditar que o mundo não evolui e se necessário manter-se “orgulhosamente só” numa afirmação de uma fé eclesiocêntrica.

É certo que Bento XVI considera que “...não se pode negar ao relativismo uma certa validade no campo político-social; o problema é que ele se que impor sem limites. E agora é aplicado com inteira consciência também no campo da religião e da ética...”(p.107) Desta forma, o relativismo tornou-se de facto o problema central para a fé no nosso tempo (p.107), um inimigo da cristologia (p.109), que se manifesta na forma de teologia pluralistas das religiões, que se tornou uma filosofia universal da humanidade, e ocupa o lugar que nos anos 80 pertenceu à Teologia da Libertação, estando mesmo relacionado com ela de diversas formas (p. 108).

Mesmo para um observador externo à Igreja Católica, a imagem que fica é que esta é a perspectiva de quem não consegue acompanhar a modernidade, de quem tem dificuldade em dialogar e não se dá muito bem com a diferença. Nesta perspectiva, entende-se o apelo lançado recentemente por Frei Bento Domingues, a propósito das diferentes correntes teológicas no seio da Igreja Católica: “Diferentes sensibilidades são uma riqueza. As tensões são inevitáveis. Mas, em vez da mútua exclusão, não será possível dialogar, conversar e cooperar? Que sentido tem falar de amor, se, em nome da verdade, as pessoas e os grupos não se escutam?” (Público, 24/Junho/2007)

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Direitos Humanos

... foi o tema da minha pequena entrevista no programa "A Fé dos Homens" transmitido ontem no canal 2 da RTP.

Pouco mais de 6 minutos é muito pouco para falar deste tema. Ficou muita coisa por dizer. Quem sabe um dia haja um programa maior.

O video da entrevista também está disponível aqui.











segunda-feira, 6 de agosto de 2007

The Power of Internet

Recently, a reader from Iran spent almost 45 minutes reading this blog.
He/she used the translation tool, of course.

It is the power of internet shrinking our world!



sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Tragédias

Em Novembro de 1911, um acidente ferroviário em França vitimou várias pessoas. O caso despertou a atenção da opinião pública, tendo os jornais dedicado muito espaço ao assunto. A tragédia (e com a toda a emoção com que os jornais a descreviam) levou mesmo a que o responsável pelo SNCF fosse chamado ao Parlamento Francês. 'Abdu'l-Bahá, que na ocasião visitava França, comentou:
Acabaram de me contar que houve um terrível acidente neste país. Um comboio caiu no rio e pelo menos vinte pessoas morreram. Isto vai ser matéria de discussão hoje no parlamento francês e o director dos caminhos-de-ferro do Estado será convocado para falar. Ele será inquirido a respeito da condição da linha, do motivo do acidente, e haverá um debate acalorado. Fico cheio de admiração e surpresa ao observar o interesse e excitação se levantaram por todo o país devido à morte de vinte pessoas, enquanto há indiferença pelo facto de milhares de italianos, turcos e árabes serem mortos em Tripoli! O horror dessa carnificina em tão grande escala não perturbou o Governo de forma alguma! E, contudo, essas pessoas desafortunadas são também seres humanos!
A mensagem era simples: se pensamos que um acidente à nossa porta é maior que uma enorme tragédia que se vive noutra parte do mundo, então o nosso conceito de solidariedade para com os nosso semelhantes é muito limitado.

Mais de 90 anos passados, continuamos a assistir a situações semelhantes. Ontem, a queda de uma ponte sobre o rio Mississipi, nos EUA fez várias vítimas, tendo as televisões e os jornais on-line dado enorme destaque. Citam uma autoridade local dizendo que se trata de uma "tragédia histórica". Entretanto lá longe, os atentados e as guerras civis no Iraque deixaram há algum tempo de merecer o destaque nos media. Quantos atentados foram noticiados desta a últimas semana? Quantos foram as vítimas? A maioria de nós já nem sabe; um dia destes mostrar-nos-ão a estatística. Correrá a sua dor o risco de cair na nossa indiferença?

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Bento XVI e as Religiões do Mundo (5)

O "amável" teólogo e o homem moderno

No livro livro Fé, Verdade e Tolerância, ao descrever as religiões no mundo actual, Bento XVI sugere a forma como o homem moderno vê os teólogos:
"...o teólogo cristão surge como um dogmático estagnado, que não consegue libertar-se da sua teimosia, independentemente de se manifestar ao modo conflituoso dos antigos apologetas ou à maneira amável dos teólogos modernos que garante ao outro que ele já é cristão sem o saber" (p. 25)
Neste pequeno excerto, encontro dois pontos de que discordo do líder da Igreja Católica.

O primeiro consiste em generalizar que todo o homem moderno tem má opinião sobre os teólogos cristãos. É como se o homem moderno, incapaz de distinguir diferentes perspectivas religiosas, considerasse a religião um fenómeno ultrapassado, um obstáculo ao desenvolvimento civilizacional. Por outras palavras, o homem moderno, por muitos elevados que sejam os seus valores éticos e morais, é visto como uma espécie de ateu radical. Como se todas as pessoas que não se identificam com o catolicismo inclusivista fossem apenas ateus radicais...

Poderíamos questionar até que ponto esta tentativa de tenta estereotipar as atitudes do homem moderno reflecte, no fundo, uma incapacidade para compreender um mundo em mudança. Na verdade, se o homem moderno fosse aquilo que Bento XVI descreve, então não se compreenderia o despertar do interesse pela religião no mundo ocidental.

Na minha opinião, o homem moderno tem consciência de que em todas as áreas da actividade humana existem diferentes tipos de pessoas. A criação de estereótipos é um entrave ao relacionamento e ao diálogo entre as pessoas. O homem moderno sabe disto; se não soubesse, então não seria moderno.

O segundo ponto em que discordo consiste em considerar como "amável" a postura do teólogo inclusivista. A esmagadora maioria das pessoas identifica-se com uma religião. Sugerir que a religião de uma pessoa é outra é atentar contra a sua identidade. Aos olhos de um cristão este tipo de comentário pode parecer um elogio; mas em muitos casos esse pretenso elogio pode ser entendido como uma atitude de sobranceria paternalista, ou mesmo, um insulto.

Parece-me que neste excerto as palavras de Bento XVI podiam ter sido mais cuidadosas. Na minha opinião, o amável teólogo não é aquele que tenta identificar os outros com a sua própria religião, mas sim aquele que respeita a diversidade e é sincero quando pretende conhecer as convicções do outro; o amável teólogo é aquele que percebe que a vida religiosa da humanidade não se esgota, nem se centra, numa igreja, mas sim na Palavra revelada; o amável teólogo até é capaz de ajudar pessoas de outras crenças a perceber a riqueza das suas religiões. Acima de tudo, o amável teólogo é capaz de mostrar mais do que simples tolerância para com os seus semelhantes; ele é capaz de mostrar amor por todos os seres humanos.