quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Não era inesperado, mas...

Não era de todo inesperado e acabou mesmo por acontecer. O Tribunal de Justiça Administrativa do Cairo adiou para 13 de Novembro a decisão sobre o processo dos baha’is que não conseguem obter documentos de identificação. Num único dia, vinte e quatro processos foram adiados! Motivo: as rotações e promoções de juízes (que ocorrem anualmente no Egipto no dia 1 de Outubro) provocam inevitavelmente adiamentos nas leituras de sentenças.


Na sala de audiências, a frustração era visível entre as dezenas de pessoas que aguardavam decisões sobre casos que as afectavam directamente. Entre o público presente na sala, encontravam-se bahá’ís egípcios, activistas dos direitos humanos e vários bloggers. Da diversidade de casos em litígio, ficava-se com a sensação que quase todos os ministérios e organismos públicos estavam a ser processados por algum grupo de cidadãos.

Claro que podemos questionar porque é que as leituras de sentenças são marcadas para esta época do ano se frequentemente se torna impossível produzir deliberações. Não será isto uma perda de tempo? Não se estará a denegrir a imagem da justiça?

Enfim. Aguardamos até ao dia 13 de Novembro.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Resolução do Parlamento Europeu sobre o Irão


O Parlamento Europeu aprovou no passado dia 25 uma Resolução onde se apela ao Irão que respeite as suas obrigações internacionais, e se assinalam numerosas violações dos direitos humanos pelas quais o regime de Teerão é responsável.

Entre as várias considerações da resolução escreve-se:
Considerando que os membros da comunidade religiosa baha'i não podem praticar a sua fé, são expostos a duras perseguições e privados de praticamente todos os seus direitos civis (por exemplo, direitos de propriedade ou acesso ao ensino superior), e que os seus lugares de culto estão a ser vandalizados;
E no corpo dos apelos declara-se:
Exorta as autoridades a respeitarem a protecção jurídica internacionalmente reconhecida no que respeita às pessoas pertencentes a minorias religiosas, oficialmente reconhecidas ou não; condena o actual desrespeito dos direitos das minorias e solicita que as minorias possam pôr em prática todos os direitos garantidos pela Constituição iraniana e pela legislação internacional; solicita ainda às autoridades que eliminem todas as formas de discriminação baseada em motivos religiosos ou étnicos ou contra pessoas que pertençam a minorias, como, por exemplo, os Curdos, os Azeris, os Árabes, os Baluchis e os Baha'is; solicita, nomeadamente, que se levante a proibição efectiva de praticar a religião baha'i;
O texto completo encontra-se aqui: Resolução do Parlamento Europeu, de 25 de Outubro de 2007, sobre o Irão

Uma palavrinha de desconforto: apenas um deputado português subscreveu esta Resolução.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Indonésia: o palco da próxima perseguição?

A adesão à religião bahá’í sempre foi uma coisa delicada em países de maioria muçulmana. O abandono da crença no Islão é considerado um acto de apostasia; frequentemente é visto como uma vergonha para a família do convertido, um motivo de escárnio e hostilidade, uma porta para a exclusão social. Tudo isso leva a que, nesses países os novos crentes bahá’ís adoptem uma postura discreta.

Por este motivo, uma notícia divulgada hoje pela Antara – a agência noticiosa da Indonésia, é no mínimo suspeita. Sob o título “31 pessoas abandonam o Islão para se tornarem bahaistas [sic] em Donggala” (link alternativo), a notícia refere as palavras do Directos do Gabinete de Assuntos Religiosos em Palolo segundo o qual 31 residentes locais se teriam convertido à nova religião.

O texto da agência indonésia acrescenta que na localidade a população se preocupa com aquela apostasia, tendo várias casas dos seguidores da Fé Bahá'í sido apedrejadas por pessoas que protestam contra a situação. Entretanto, teria sido organizada uma reunião entre a comunidade e os baha’is onde lhes foi pedido que voltassem à sua anterior religião, estando prevista a realização de uma nova reunião.

Um facto que nunca seria notícia num país onde exista liberdade religiosa, é apresentado pela agência noticiosa da Indonésia – o mais populoso país muçulmano do mundo – como um sinal de escândalo e alarme. Nada se esclarece sobre o que é a nova religião (quais os seus princípios? como vêem as outras religiões?); apenas diz que praticam rituais em segredo e que os baha’is não revelam quem espalhou aquela crença na região (o que sugere que andam à procura de alguém)

Será que depois das perseguições no Irão, do apartheid religioso no Egipto, vamos ter a Indonésia como próximo país a instigar oficialmente discriminar e perseguir baha’is?

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ACTUALIZAÇÃO
O debate prolonga-se aqui no Indonesia Matters.

Uma semana decisiva

Esta será uma semana particularmente importante para a situação de vários bahá'ís no Egipto. Na quarta-feira, o Tribunal de Justiça Administrativa do Cairo apresentará o seu veredicto sobre dois processos relativos ao direito de Bahá’ís Egípcios a possuírem documentos de identidade.

O primeiro processo (no. 18354/58) refere-se ao caso de dois irmãos gémeos de 14 anos - Imad e Nancy Rauf Hindi - que não conseguem obter certidões de nascimento (através do novo sistema informático) a menos que se convertam ao Islão ou ao Cristianismo. O pai destes dois jovens conseguiu obter as certidões de nascimento em 1993, onde se reconhecia a Fé Bahá’í como sendo a sua filiação religiosa; mas a lei actual exige que sejam emitidos novas certidões de nascimento (onde apenas se pode indicar o Judaísmo, o Cristianismo e o Islão como filiação religiosa) e sem este documento os jovens não se podem inscrever numa escola ou receber cuidados básicos de saúde.

O segundo processo (no. 12780/61) foi iniciado pela Egyptian Initiative for Personal Rights, em nome de Hussein Hosni Abdel-Massih, nascido em 1989, um ex-aluno do Instituto de Serviço Social da Universidade do Canal do Suez, expulso devido à sua incapacidade para obter documentos de identificação. Recorde-se que os estudantes baha'is do ensino superior e secundário no Egipto são regularmente confrontados com a possibilidade de expulsão, por não possuírem documentos de identificação, ou documentos que comprovem o pedido de adiamento de serviço militar.

O Governo Egípcio tem a obrigação legal de proteger os seus cidadãos contra a discriminação e coerção religiosa; a Constituição e as várias convenções internacionais de que o Egipto é signatário assim o estipulam. De igual modo, segundo a Carta Africana sobre Direitos Humanos, a Convenção Internacional sobre Direitos Económicos, Sociais e Culturais e a Convenção sobre Direitos das Crianças, o Governo Egípcio também tem a obrigação de garantir o direito à educação, sem fazer qualquer tipo discriminação, incluindo religiosa.

Estamos assim, numa semana decisiva para os bahá'ís do Egipto, mas também para a própria imagem do Egipto perante a Comunidade Internacional. Há algumas semanas o Presidente Mubarak apelava a "uma renovação do discurso religioso, à disseminação dos valores islâmicos da moderação e da tolerância, e à eliminação do extremismo". Nesta semana saberemos se o sistema judicial egípcio foi sensível aos apelos do Presidente ou se preferiu preservar um sistema de apartheid religioso.

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ACTUALIZAÇÃO
Um jornalista Egípcio critica a falta de tolerância no mundo árabe: "Em todos os Estado Árabes falhámos no teste da Liberdade Religiosa"

domingo, 28 de outubro de 2007

Beatificação de 498 mártires em Espanha

Frei Bento Domingues, hoje no Público, a propósito da beatificação de 498 mártires espanhóis do tempo da Guerra Civil naquele país:
Será que a Igreja Católica e a direita espanhola pensam que, entre os republicanos que morreram às mãos dos golpistas, não havia pessoas que professavam, sinceramente, a religião católica? Pensarão que, por serem republicanos já não poderiam ser crentes? Esta exclusão será um castigo que a Igreja aplica ao "bando republicano", pois a sua beatificação poderia significar um reconhecimento desta realidade complexa? E que dizer do assassinato, por Franco, de curas bascos, entre outros? Será pura casualidade a coincidência desta beatificação com a aprovação da Lei da Memória Histórica prevista para os dias 30 e 31 deste mês?

(...)

Em vez de beatificações e maldições, a Espanha religiosa e anti-religiosa talvez precisasse, sobretudo, de silêncio para se interrogar, até ao fundo da alma, como é que foi possível tanta crueldade.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Tradições Religiosas: Convergência versus Cooperação

Uma das mais interessantes intervenções feitas no Colóquio Religiões: Diversidade e Não-Discriminação foi feita pelo Dr. Fernando Soares Loja, membro da Aliança Evangélica Portuguesa e da Comissão de Liberdade Religiosa. Com permissão do autor, aqui fica o texto integral dessa intervenção (os sombreados a amarelo são da minha responsabilidade).

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Senhor Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa
Ilustres convidados

O tema proposto “Tradições Religiosas: Convergência vs. Cooperação” reflecte a constatação de uma realidade plural no cenário religioso na Europa e no mundo.

Não é preciso cursar-se teologia para saber que não há uma única forma de pensar Deus e a Sua relação com o homem, há múltiplas abordagens que concorrem e se excluem umas às outras. Daí que quem faça uma opção religiosa, em regra rejeite as demais.

E porque, pelo menos dentro da tradição judaica-cristã-islâmica, cada perspectiva religiosa se supõe a única verdadeira, a única que conduz a Deus e à vida eterna, natural se torna que este sentido de singularidade, de exclusividade crie alguma incompreensão e até, por vezes, reacções violentas entre os aderentes às diversas propostas. É a diversidade que proporciona o conflito. Digo que proporciona, não que seja responsável.

Fausto Correia, pouco tempo antes de falecer, subscreveu uma petição ao Parlamento Europeu na qual era exposta a situação de perigo vivida pelos cristãos no Médio Oriente, na África e na Ásia, dando conta de que "são regularmente vítimas de chacinas, raptos e actos de violência". Um caso recente, veio tornar mais evidente a pertinência do pedido de reacção por parte da União Europeia à situação dos cristãos:

Rami Ayyad era um árabe cristão que vivia com a sua família na faixa de Gaza. Tinha 32 anos, dirigia uma livraria da Sociedade Bíblica, uma organização sem fins lucrativos que distribui Bíblias e outros livros cristãos. Em Abril deste ano a livraria tinha sido destruída à bomba e após a sua reconstrução Rami Ayyad vinha sendo ameaçado de morte. Foi raptado no dia 6 de Outubro e encontrado morto, com sinais de tortura, na manhã seguinte. Era cristão e em Gaza os cristãos são uma minoria que não ultrapassa as 3200 pessoas no meio de uma população de 1.300.000 muçulmanos.

O ano Europeu da igualdade de oportunidades visa combater a discriminação e valorizar a diversidade.

Mas em pleno séc. XXI, não só em Gaza, a diversidade tem um preço, por vezes muito alto. Por exemplo, no Sri Lanka semanalmente ocorrem actos de violência extrema contra cristãos às mãos da maioria budista, com destruição de igrejas e agressões físicas a cristãos, com a ocorrência aqui e além de mortes.

No Egipto os cidadãos da minoria Bahá’í são perseguidos e vítimas de discriminação por parte das autoridades e no Irão são presos e até assassinados.

Na Índia, sabemos de sacerdotes católicos que têm sido mortos por activistas hindus que querem o seu território livre de quem fez uma opção religiosa diversa da tradicional.

Mas não são apenas muçulmanos ou budistas ou hindus que reagem mal à diversidade religiosa nos territórios em que são a maioria.

Recuando no tempo: Não eram nem muçulmanos, nem budistas, nem hindus os cruzados que nos séculos X, XI e XII combateram os muçulmanos que ameaçavam e acabaram por conquistar Jerusalém matando pelo caminho um milhão de judeus.

Não eram nem muçulmanos, nem budistas, nem hindus aqueles que participaram nos conflitos ferozes na Inglaterra dos Tudores: após a morte de Eduardo VI, único filho varão de Henrique VIII, Maria, ficou conhecida como Bloody Mary por causa do sangue derramado de centenas de anglicanos. Mas quando a sua irmã Isabel herdou o trono, pagou-se quase na mesma moeda prendendo muitos católicos na Torre de Londres e matando boa parte deles.

Já em 2001 viajei pela Bulgária e passando por uma aldeia onde havia dois templos ortodoxos contaram-me que pertenciam a igrejas ortodoxas distintas e inimigas e que os confrontos entre as duas igrejas eram tão ferozes que o padre de uma das igrejas tinha sido assassinado pelos fiéis da igreja inimiga. Quem acabou por perder o conflito foi a igreja que não tinha o apoio do governo búlgaro o qual veio a dissolver uma das igrejas e a confiscar-lhe o património.

Podíamos também falar dos Luteranos que afogaram anabaptistas porque estes baptizavam de novo as pessoas que tinham sido baptizadas em criança, e que com esse gesto invalidavam o baptismo infantil.

Poderíamos ficar aqui o resto da tarde enumerando situações passadas e presentes que servem para ilustrar que em todas as épocas homens dos mais diversas confissões religiosas perseguiram, confiscaram o património, prenderam, torturaram e assassinaram outros só porque as vítimas não pensavam exactamente como eles. E os múltiplos exemplos talvez fundamentem a conclusão de que não é a teologia adoptada que faz a diferença porque, afinal, a intolerância, a reacção negativa àquilo que é diferente historicamente atinge muitas das comunidades religiosas que conhecemos.

Há seguramente vários factores que determinam que o eventual desconforto por se estar perante alguém diferente evolua para uma situação de discriminação, de violência física e até homicídio.

O tempo disponível permite-me apenas aflorar dois factores para nossa reflexão: o primeiro é o da proximidade do agressor de quem detém o poder político efectivo.

As comunidades religiosas opressoras de outras sempre estiveram e continuam a estar ligadas ou muito próximas do poder político porque sem o consentimento ou o poder do Estado não seria possível levar por diante a tarefa de calar e eliminar quem era/ é diferente. E quanto maior for a cumplicidade entre tais comunidades religiosas e os poderes políticos vigentes, mais fácil é o desrespeito pela diversidade, mais fácil é a repressão de quem pensa de modo diverso.

Como dizia Lord Acton, “power corrupts and absolute power corrupts absolutely.Ou seja, quanto maior for a proximidade do poder maior é o risco de se ser intolerante e agressivo para com quem é diferente.

Por esta razão, tendo aprendido com a experiência do velho continente, os colonos ingleses que emigraram para o Novo Mundo viriam a consagrar na Primeira Emenda à Constituição norte-americana o princípio da separação entre o Estado e as igrejas, proibindo que o Congresso legisle favorecendo alguma igreja.

Não sendo possível a convergência como forma de alcançar a paz entre as diversas comunidades religiosas, seria prudente que os povos levassem muito a sério a observação de Lord Acton e implementassem o princípio da separação.

O segundo factor responsável pela violência entre diferentes sensibilidades religiosas é a intolerância por quem pensa de maneira não exactamente igual. Mas a diversidade religiosa é inevitável, decorre de um processo de evolução natural do pensamento. Embora possa surpreender-nos, há uma contínua criação de novas perspectivas religiosas e todas elas conquistam adeptos.

Se a multiplicidade de diferentes opções religiosas é potenciadora de conflitos, poderia pensar-se que a solução seria a contracção das opções e o caminhar para a unificação, para o sincretismo. Tal, porém, não parece viável, pelo menos numa sociedade que respeite a liberdade de consciência.

Vejamos: o judaísmo desenvolveu ao longo de centenas de anos o seu pensamento e gerou dentro de si diversas seitas, ou escolas de pensamento até que há dois mil anos um rabi, Yeshuah bar Yosef fez uma nova leitura dos textos sagrados de tal maneira que os seus seguidores passaram a ser conhecidos como mais uma facção judaica que deu origem a um grupo distinto conhecido como cristãos. Mas o judaísmo não desapareceu do cenário das ideias e manteve adeptos e defensores. Um dos livros mais interessantes da minha biblioteca foi escrito por um professor de Oxford, Shmuley Boteach, e chama-se "Guia do Judaísmo para pessoas inteligentes". Assim, o Judaísmo subsiste a par do cristianismo a que deu origem.

Por sua vez o cristianismo desenvolveu-se e foram-se formando escolas de pensamento dentro de si, algumas inconciliáveis em muitos aspectos.

No século VII surge o islamismo que se vê a si mesmo como evolução do judaísmo e do cristianismo e forma última da revelação de Deus ao homem, mas a verdade é que continuou a haver seguidores do judaísmo e seguidores do cristianismo e passados poucos anos depois da morte de Maomé, surgiram divergências de pensamento nas fileiras do Islão e hoje existem múltiplas formas de islamismo e todas elas com seguidores.

Se a tendência se mantiver, novas escolas de pensamento surgirão ciclicamente, e em vez de se diminuírem as diferenças entre as diversas escolas do judaísmo, do cristianismo e do islamismo elas aumentam e acentuam-se. Sem dúvida com pontos de contacto, mas essas “pontes” não fazem desaparecer o fosso que as separa.

Não parece, portanto, possível encontrar uma solução para os conflitos, a discriminação e até a violência na convergência das teologias de cada confissão religiosa.

O que parece ser possível e desejável como via para a tolerância e a paz é o conhecimento do outro. Não se pode amar aquilo que não se conhece e o conhecimento de como o vizinho é e pensa pode trazer a paz que é o bem último.

Quantos progroms não foram iniciados com base no aproveitamento doloso do desconhecimento sobre o pensamento judaico?

O que é desejável é que quem não pensa como eu tenha o direito de afirmar que é diferente de mim. A busca da paz deve fazer-se no reconhecimento do direito à diferença do outro. Tolerância não pode significar o mero consentimento de que outro exista mas o reconhecimento de que o outro tem tanto direito de pensar como pensa quanto eu tenho o direito de pensar como penso e isso não constitui uma ameaça mas uma riqueza cultural.

Permitam-me que dê um exemplo de tolerante divergência: eu sou cristão. Não sou o único cristão no Mundo, mas se alguém afirmar que é o único cristão no Mundo e que eu não sou cristão eu acho que essa pessoa tem todo o direito de o afirmar e não me ofende ao dizer que, de acordo com o seu critério ele é e eu não sou cristão.

O que é importante para mim é que ele, que no seu entender é o único cristão, defenda o meu direito de ser o que sou e defenda o meu direito à vida, à consciência, à religião, ao culto e a liberdade de tentar converter outros à minha fé que segundo ele não é a cristã e não salva, mas é a minha fé.

Obrigar o meu vizinho que crê que eu não sou cristão a admitir que eu sou cristão, não é tolerância, é uma violência intolerável.

O que é essencial é que quem crê que eu não sou isto ou aquilo defenda com a mesma veemência o direito a não ser o que não sou.

Se existir este sentimento de tolerância e esta aceitação das divergências, não haverá convergência de ideais, mas poderá haver cooperação em diversos domínios.

Num mundo ocidental em que a ideia prevalecente parece ser a de melhor Estado e menos Estado, as naturais deficiências da sociedade exigem um esforço acrescido de cada cidadão e de cada comunidade religiosa no sentido de preencher o vazio da actuação social do Estado e todos beneficiarão se houver cooperação nesse domínio por parte das diversas e divergentes comunidades religiosas.

As teologicamente divergentes comunidades religiosas só poderão cooperar para o bem comum se respeitarem o princípio da separação entre poder político e igrejas e estiverem disponíveis para acolher a salutar e enriquecedora divergência de opiniões e maneiras de ser. Tais requisitos são essenciais ao fim das agressões e de descriminação e ajudarão à paz e à cooperação entre as comunidades religiosas.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

A Propaganda e a Realidade

Uma Igreja Arménia é apresentada como símbolo da tolerância do regime iraniano

Nas últimas horas a agência Reuters divulgou mais uma peça de propaganda do regime iraniano. Segundo o texto desta agência noticiosa, o Governo Iraniano pretende que a Igreja Negra – um retiro cristão arménio situado numa região montanhosa junto à fronteira com a Turquia e a Arménia – seja reconhecido como Património Mundial da Humanidade, à semelhança do que acontece com Persopolis.

No anúncio deste pedido de reconhecimento, as autoridades afirmaram que o monumento é também um símbolo da coexistência de diferentes religiões e etnias no Irão. O próprio bispo arménio em Teerão afirmou à Reuters que os relatos de discriminações contra minorias religiosas são uma "invenção do ocidente", mas reconheceu que os arménios têm alguns problemas com o governo.

O caricato desta situação é que o Governo Iraniano parece estar orgulhosamente só a acreditar na sua própria propaganda. Recordo que várias organizações internacionais têm denunciado perseguições e discriminações contra minorias étnicas e religiosas (não apenas contra bahá’ís).

Preservação de Património Religioso no Irão.
Arménio(esq.) e Bahá'í.


Fica então a questão: se as autoridade iranianas têm tanto cuidado na preservação de uma igreja arménia, porque não o tiveram quando destruíram vários locais considerados sagrados pelos bahá'ís?

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Exemplos mais recentes de destruição de património religioso bahá'í no Irão:
Casa de Mirza Buzurg
Santuário de Quddus
Cemitério de Najafabad

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Para não esquecer a intolerância religiosa!

Muitas das ruas e praças de Lisboa possuem nomes de personalidades de relevo: reis, governantes, conquistadores, escritores, artistas... E em algumas ruas e edifícios existem placas comemorativas que evocam eventos que ocorreram naquele local: Aqui nasceu... Aqui se reuniram os conspiradores... Tudo são sinais que recordam pessoas e momentos considerados importantes na história de Portugal.

Pergunto-me porque é que as ruas e praças de Lisboa não evocam também os momentos e as personagens mais sinistras da nossa história. Veja-se o Terreiro do Paço, por exemplo. Aquele local foi palco de realização de vários autos de fé que vitimaram milhares de portugueses. Os seus carrascos foram outros portugueses que acreditavam na defender a pureza da fé e da religião com os seus actos.

Auto de Fé em Lisboa, de Bernard Picart (1673-1733)

Estamos hoje longe desses tempos de barbárie e de intolerância religiosa. Mas uma das melhores maneiras de evitar que os erros do passado se repitam é recordá-los e estudá-los.

Assim, só posso concordar com a proposta do Prof. Paulo Mendes Pinto: que seja colocada no Terreiro do Paço uma placa ou um monumento evocativo desses tempos de terrível intolerância religiosa que se viveram no nosso país. Para que as vítimas não caiam no esquecimento e que os autos de fé sejam apenas um pesadelo da nossa história colectiva.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Judaísmo e religião Bahá'í

Quais as diferenças e as semelhanças entre a religião Bahá'í e o Judaísmo?
A opinião de um Rabi americano.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Bento XVI e as Religiões do Mundo (10)

Conclusão

O livro Fé, Verdade e Tolerância: o Cristianismo e as Grandes Religiões do Mundo de autoria do actual líder da Igreja Católica foi publicado em 1999. Como já escrevi, reúne um conjunto de palestras proferidas em diferentes ocasiões. Poder-se-ia pensar que se trata de um conjunto de opiniões pessoais, que não reflectem com todo o rigor a posição oficial de Igreja Católica. Mas será mesmo assim?

No ano seguinte, a Congregação para a Doutrina da Fé – presidida pelo Cardeal Ratzinger – publicou o documento "Dominus Iesus", com o objectivo de clarificar e reiterar alguns princípios de do Catolicismo. A essência da sua mensagem poder-se-ia resumir numa frase: as religiões não se podem comparar.


O documento segue a linha do livro de Ratzinger, dando uma atenção especial ao relativismo religioso que se considerava ser uma ameaça para a Fé Católica, nomeadamente no que toca ao carácter completo e definitivo da revelação de Jesus. O texto considera o relativismo como fruto de uma absorção acrítica de ideias existentes em vários sistemas filosóficos e religiosos, sem cuidar da consistência, correlação ou compatibilidade com a “verdade cristã”.

Sobre o carácter completo e definitivo da revelação de Jesus, o documento lembra que a Igreja Católica admite outras religiões frequentemente reflectem um raio de luz dessa Verdade que ilumina todos os homens [Nostra aetate, 2], mas que a designação de livros inspirados está reservada aos textos canónicos do Antigo e Novo Testamento (pois apenas estes são inspirados pelo Espírito Santo). A declaração acrescenta ainda que se deve fazer uma distinção clara entre a fé no Deus Uno e Trino e as crenças de outras religiões que são revelações incompletas onde ainda se procura a verdade absoluta.

O Dominus Iesus relembra seria contrário aos princípios do Catolicismo considerar a Igreja Católica como um caminho para a salvação, à semelhança de outros oferecidos por outras religiões. As várias tradições religiosas contêm e apresentam elementos religiosos cuja eficácia salvífica não é comparável à dos sacramentos cristãos; e acrescenta que nessas religiões existem outros elementos, fruto de superstição e erros, que constituem um obstáculo à salvação.

A Congregação para a Doutrina da Fé considera a Igreja Católica afirma como o instrumento de Deus para a salvação da humanidade. E simultaneamente declara que essa verdade não diminui o sincero respeito que tem por outras religiões do mundo. No entanto, opõe-se frontalmente a uma “mentalidade de indiferentismo” “caracterizada por um relativismo religiosos onde se considera que uma religião é tão boa como qualquer outra” [Redemptoris missio, 36].

O livro de Ratzinger, que abordei ao longo de vários post neste blog, pode não ser a opinião oficial da Igreja Católica; mas a reafirmação das mesmas ideias num documento oficial no ano seguinte, mostram que pelo menos, tratam-se de ideias de uma corrente conservadora com peso considerável no Catolicismo actual.

Como conclusão deixo uma ideia final: as religiões são comparáveis. Comparáveis no humanismo dos seus princípios e valores, comparáveis na forma como têm influenciado a humanidade. Comparáveis na forma como são usadas para inspirar o que há de melhor (e pior!) no ser humano. O nosso planeta mudou imenso nos últimos dois séculos, e a diversidade religiosa da humanidade não é algo que se possa ignorar. E a na Aldeia Global as religiões não podem ser vistas como meras ideologias estanques e hostis entre si. O mundo global não é só aquilo que se vê a partir de Roma; o mundo também se vê a partir de Meca, de Jerusalém, do Ganges, de Amritsar, de Lhasa, ... e até de Haifa.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Epicuro



«O prazer é o começo e o termo de uma vida feliz. Com efeito, é ele que nós podemos reconhecer como o maior dos bens, conforme com a nossa natureza, é dele que partimos para determinar aquilo que é preciso escolher e o que devemos evitar, é a ele que, finalmente, recorremos quando nos servimos das sensações como uma das formas de apreciar todo o bem que se nos pode oferecer.

Ora, precisamente porque é o prazer o nosso principal bem inato, jamais deveremos procurar usufrui-lo na totalidade. Assim, existem casos nos quais nós renunciamos aos grandes prazeres se, para nós, deles resultarem o tédio e a preocupação. E poderemos mesmo considerar certas dores preferíveis aos prazeres sempre que, a partir dos sofrimentos que nos foram endurecendo ao longo dos anos, delas para nós puder resultar um prazer mais elevado.

Todo o prazer é assim, pela sua própria natureza, um bem. Mas prazer algum deverá ser procurado só por si. Paralelamente, a nossa dor é um mal, mas não deve ser evitada a qualquer preço.

Em qualquer caso, convém decidir sobre tudo isto comparando e examinando com atenção o que é útil ou nocivo, uma vez que, muitas vezes, agimos diante de um bem como se ele fosse um mal, e diante de um mal como se ele fosse um bem.»

Epicuro de Samos, 341–270 a.n.e. (Carta a Meneceu sobre a Moral)

(Tradução de Rui Bebiano)

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Religiões, Diversidade e Não-Discriminação

No próximo dia 19 de Outubro de 2007, no Auditório da Fundação Mário Soares, em Lisboa, vai realizar-se o Colóquio RELIGIÕES, DIVERSIDADE E NÃO-DISCRIMINAÇÃO. Trata-se de uma iniciativa da Estrutura de Missão do Ano Europeu da Igualdade de Oportunidades para Todos.

Os trabalhos iniciam-se às 9 horas, e a sessão de encerramento conta com a presença do Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, Jorge Lacão, e do Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa, Mário Soares.

PROGRAMA:

9.00 Recepção dos participantes e distribuição de documentação
9.30 Sessão de Abertura
Vitalino Canas, Deputado e Constitucionalista; Elza Pais, Coordenadora Nacional da Estrutura de Missão do AEIOT
10.00 Comunicação: Uma Aproximação Histórica, António Matos Ferreira, Historiador
10.30 Pausa para café
11.00 Painel 1: Raízes da Diversidade Religiosa em Portugal
Moderador: Luís Pascoal, EMAEIOT
Temas e Oradores:
. Budismo – António Coelho Teixeira
. Cristianismo – Samuel Pinheiro
. Fé Bahá'í – Mário Mota Marques
. Hinduísmo – José Carlos Calazans
. Islamismo – Abdool Karim Vakil
. Judaísmo – Samuel Levy

12.30 Almoço

14.30 Mesa redonda: Intervenção das Religiões na Sociedade Portuguesa
Temas em análise: A Religião face às problemáticas da Imigração, da Multiculturalidade, das Discriminações Múltiplas e da Educação para a Cidadania Moderador: Paulo Mendes Pinto, Universidade Lusófona |
Representantes das Comunidades Religiosas:
. Carlos Jalali, Fé Bahá'í
. Paulo Borges, União Budista Portuguesa
. Peter Stilwell, Igreja Católica
. Mohamed Abed, Islamismo
. Ashok Hansraj, Hinduísmo
. Esther Mucznick, Judaismo

15.45 Pausa para café

16.00 Painel 2: Responsabilidade Social e Desafios para a Construção do Futuro
Moderador: José Martins, ACIDI
. Tradições Religiosas: Convergência versus Cooperação, Fernando Soares Loja, Comissão da Liberdade Religiosa.
. Religião e Igualdade de Género – Isabel Bento, Comunidade de Santo Egídio.
. As Religiões e as Relações Intervenção Social: da Pobreza à Inclusão Social – Fernando Santos, União Budista.
. As Religiões e as Relações com o Estado, Teles Pereira, Magistrado.

17.15 Apresentação das Conclusões, Ana Paula Fitas, EMAEIOT
17.30 Sessão de Encerramento
Jorge Lacão, Secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros;
Mário Soares, Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

O Despertar do Irão

No mundo Ocidental, a imagem de um país como o Irão está associada ao seu regime teocrático, e a diversos atropelos aos direitos humanos, desde ataques à liberdade de imprensa aos direitos das mulheres, dos direitos das crianças, à liberdade política. O que os media ocidentais têm a mostrar sobre o Irão nunca tem nada de agradável; são milhões de pessoas fanatizadas que desfilam de punho erguido, é a opressão das mulheres, são perseguições ou execuções de prisioneiros de consciência, são ameaças dos seus dirigentes contra outros países.

Nos últimos anos, a voz iraniana mais mediática que se levantou contra o rumo dos acontecimentos no seu país foi Shirin Ebadi, a conhecida advogada defensora de mulheres e crianças oprimidas e de diversos prisioneiros de consciência (políticos, estudantes e intelectuais cujo único crime era um delito de opinião). O seu trabalho valeu-lhe o Prémio Nobel da Paz em 2003.

No ano passado, a Sra Ebadi publicou o livro “Iran Awakening – A Memoir of Revolution and Hope”, obra que foi recentemente traduzida e publicada no nosso país com o título O Despertado do Irão – Memórias da Revolução e de Esperança. Este livro é um precioso testemunho de quem viveu as mais recentes transformações no Irão, desde o golpe contra Mossadegh (orquestrado pela CIA em 1953), passando pela revolução de 1979, e até aos nos nossos dias.

Ao longo do livro, percebemos que na transformação do Irão nas últimas décadas, existem vários aspectos que claramente são ignorados pelos media e políticos ocidentais. Por exemplo, o facto do alargamento da educação universitária a uma nova classe de mulheres oriundas de famílias mais humildes (e encorajado pelo regime) se ter revelado uma inesperada fonte de tensões sociais significativas na Republica Islâmica (p.124). Outro aspecto pouco conhecido é o desmembramento de famílias, provocadas por exílios políticos, ou por famílias que preferem enviar os seus filhos para estudar e viver no estrangeiro; a fuga de cérebros está associada a este fenómeno.

Apesar dos esforços reformistas do ex-presidente Khatami - apoiados por clérigo progressistas, intelectuais e filósofos laicos idealizaram a democratização da República Islâmica - terem revelado as limitações da transformação da sociedade iraniana sob jugo do actual regime teocrático (p.208), a Sra. Ebadi continua uma crente firme na compatibilidade entre a democracia e o Islão:
Nos últimos vinte e três anos, desde o dia em que fui afastada da magistratura até aos anos de luta nos tribunais revolucionários em Teerão, eu repetira um único refrão: uma interpretação do Islão em harmonia com a igualdade e com a democracia é uma verdadeira manifestação de fé. Não é a religião que limita as mulheres, mas sim as regras parciais daqueles que pretendem vê-las enclausuradas. Esta crença, juntamente com a convicção de que a transformação do Irão tem de surgir de um modo pacífico e internamente, tem sido o sustentáculo do meu trabalho (p.221)
Mas o seu trabalho de advogada defensora de causas humanitárias não tem sido pacífico. Como ela própria afirma:
Ainda que as palavras sejam armas pacíficas, ao longo dos últimos quinze anos, no percurso da defesa dos direitos humanos e das vítimas de violência no Irão, fui perseguida, ameaçada e levada para a prisão. (p. 227)
Uma nota final: apesar de Shirin Ebadi já ter defendido alguns Bahá'ís em tribunal, a ausência de referências a esta comunidade religiosa do Irão é um elemento interessante neste livro. Na verdade, apesar de serem a maior minoria religiosa do Irão, o nível e intensidade de perseguições de que têm sido alvo é consideravelmente inferior ao que têm sofrido grupos políticos e oposicionistas ao governo.[2]

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NOTAS
[1] – Segundo a autora, 65% dos estudantes iranianos são mulheres, 43% dos trabalhadores assalariados são mulheres
[2] – Uma macabra contabilização de cadáveres aponta para dezenas de milhar de oposicionistas políticos, intelectuais e estudantes mortos ou desaparecidos desde 1979. Entre os Bahá'ís esse número situa-se nas duas centenas.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Sobre Ahmadinejad e o Regime Iraniano

Estimado Professor João César das Neves,

Relativamente à sua crónica de hoje no Diário de Notícias, permita-me alguns comentários:

1 – Penso que a atitude do reitor Lee Bollinger ao receber o Presidente Iraniano foi correcta. Foram palavras duras, é verdade. Mas o presidente Ahmadinejad não é nenhum Mandela ou um Gandhi. Com os ditadores devemos usar a linguagem adequada. Lembro-lhe que a cortesia de Neville Chamberlain para com Adolfo Hitler produziu resultados horríveis.

2 – Não me parece correcto comparar as verdades ditas ao presidente iraniano com a “crise dos cartoons”. A denúncia pública de um ditador nada tem de semelhante com o insulto a uma religião (que pessoalmente considero divinamente inspirada). Por acaso Ahmadinejad é um dirigente religioso ou um teólogo conhecido? É uma figura prestigiada do Islão? Ou será apenas um presidente de um regime pretensamente teocrático?

3 – Acredita realmente que o actual regime iraniano não é uma ditadura desmiolada e se assemelha a uma democracia? Lembro-lhe que o facto de um qualquer regime político usar métodos democráticos não o torna automaticamente uma democracia; até em Portugal, antes do 25 de Abril já se realizavam eleições. Sabe quantos prisioneiros políticos existem hoje no Irão? Sabe quantos prisioneiros de consciência foram executados nestes “30 anos de democracia iraniana”? Eu podia-lhe dar uma lista com os nomes de centenas de baha’is (a maior minoria religiosa daqueles país) que foram executados desde 1979.

4 – Alguns aspectos da vida moral e social do Irão permitem-nos de facto concluir que estamos na presença de um país “desmiolado” (para usar a sua expressão). Recordo-lhe uma lei recente que visa os cães e os respectivos donos. Em Teerão, a polícia criou uma “prisão para cães”. Se algum cidadão passeia um cão em público, corre o risco de ver o seu animal levado preso. Os donos são acusados de passear cães em público e podem libertar os animais mediante o pagamento de uma fiança. Como esta poderia indicar outras leis actualmente vigentes no Irão que roçam a irracionalidade. Acredita mesmo que o Irão não é hoje governado por um regime “desmiolado”?

Sem querer parecer pretensioso, recomendo-lhe a leitura de um livro de Shirin Ebadi, O Despertar do Irão (publicado este ano no nosso país), onde se descreve de forma clara o objectiva o que são as aspirações do iranianos e como têm sido grandes as desilusões destes 30 anos de “democracia iraniana”.

Com os melhores cumprimentos,

Marco Oliveira

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A RESPOSTA RECEBIDA HOJE DE MANHÃ

Agradeço a sua mensagem e permita-me que responda com alguns comentários:

1- Penso que a atitude de Lee Bollinger durante a sessão pode ser muitas coisas. Mas corajosa não vejo como. Ele foi muito corajoso antes, por ter resistido às terríveis pressões contra a visita do presidente. Depois, quando talvez para compensar isso, insultou um convidado em sua casa, debaixo de aplausos dos seus, não vejo onde está coragem.

2- O senhor chama várias vezes a Ahmadinejad «ditador» e protesta com o facto de eu dizer que o Irão é uma democracia. É claro que quando escrevi essa frase era para ser provocador. Evidentemente que no Irão não se trata de uma democracia como nós a entendemos. Mas é uma democracia quando comparada com o resto do mundo muçulmano. Por outro lado, o Irão nem sequer é uma ditadura como nós a entendemos, quando mais na forma de ver dos muçulmanos. Nem Ahmadinejad, que é presidente durante um pequeno mandato e depois volta à vida privada (como aconteceu aos seus antecessores), pode ser classificado como um verdadeiro ditador. É preciso levar em conta as enormes diferenças entre Ahmadinejad e Kadhafi, por exemplo.

Penso que «Democracia» significa coisas diferentes em culturas diferentes e nós queremos impôr a nossa visão como única possível. Por exemplo, o senhor poderia repetir muitas das coisas que diz do Irão ao falar da democracia ateniense ou romana, as quais tinham mais semelhanças com a iraniana do que com a nossa.

O facto de não concordarmos com muitos traços de outras culturas (e eu repudio no Irão exactamente o mesmo que o senhor repudia) não nos dá o direito de insultar essas culturas, como fez Bollinger. Uma coisa é defender uma democracia. Outra muito diferente é achar que o nosso modelo é o único possível. Isso fazem Ahmadinejad e Bollinger e é esse erro que eu critico.

Respeitosamente

João César das Neves

domingo, 7 de outubro de 2007

O Cemitério Israelita de Lisboa

Como todos sabem, há alguns dias atrás o cemitério da Comunidade Israelita de Lisboa foi alvo de uma acto de vandalismo; dois indivíduos ligados a um grupo de extrema direita foram detidos depois de terem pintado suásticas em várias campas. O acto em si foi uma manifestação de irracionalidade que pensamos que apenas acontece noutros países, e sob outros regimes políticos.

Hoje a sociedade civil portuguesa manifestou a sua solidariedade para com os judeus portugueses, numa cerimónia realizada naquele cemitério. Dois Ministros, Deputados, membros da Comissão de Liberdade Religiosa, dirigentes partidários, o Embaixador de Israel, o Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas representantes de diversas comunidades Cristãs, Muçulmanos, Hindus, Bahá’ís, e muitas pessoas de diferentes religiões estiveram presentes.

Estive presente nesta cerimónia como representante da Comunidade Bahá'í, e tive a oportunidade de expressar a minha solidariedade a vários membros da Comunidade Israelita de Lisboa. Das palavras dos diferentes intervenientes, ressaltou uma ideia comum: todos nos sentimos ultrajados com este acto.

Como muitos outros Bahá'ís, não posso deixar de comparar o que aconteceu no Cemitério Israelita com o que aconteceu recentemente num cemitério Bahá’í no Irão (ver vídeo aqui). Há uma diferença substancial; os autores do acto cometido em Lisboa pertencem a um grupo radical que em resultado dos seus actos se tem colocado à margem da sociedade; os autores do acto cometido em Najafabad têm protecção e encorajamento do governo iraniano.

Sporting

Na bancada central de Alvalade o ambiente é interessante. Não se fumam cigarros, mas cigarrilhas; há senhoras com o cabelo e as unhas arranjadas; a miudagem nova usa mocassins e polos de marca. Também a palavra "F...!" é substituída por "Chiça!" e as referências à mãe do árbitro trocam-se por alusões às suas deficiências visuais. É outro ambiente.

Contrasta profundamente com o que se vive atrás de uma claque, onde uma vez em 90 minutos inalei mais haxixe do que durante todo o tempo em que era estudante universitário.

Há ainda os sectores onde se sentam os velhos castiços. Aqueles com uma enorme simplicidade, e cujos comentários são muito originais. Como aquele que uma vez gritou "Ó Sr. Árbitro! Acabe com o jogo antes que o jogo acabe com a gente!"

O jogo de ontem valeu pela segunda parte. As movimentações de Izmailov e o aplauso a Polga.





sábado, 6 de outubro de 2007

Religião ou superstição?

Via Ruth Gledhill, fiquei a saber que a Evangelische Omroep (uma estação de TV holandesa de inspiração evangélica) censurou um documentário de David Attenborough sobre a vida dos mamíferos. Não se tratam de meros erros de tradução, nem de omissões algumas imagens mais fortes, como caçadas violentas ou animais a copular; trata-se de eliminar tudo quanto possa ser apontado como uma evidência da evolução, nomeadamente a datação de fosseis.

O vídeo seguinte mostra-nos uma comparação entre o documentário original da BBC e o documentário da Estação Holandesa.



Mais exemplos deste tipo de censuras podem ser vistos aqui e aqui. Entretanto vários cientistas europeus lançaram uma petição contra estes cortes nos documentários de David Attenborough.

Que se pode pensar pessoas que olham a ciência como uma ameaça às suas convicções religiosas? Caricatas? Perigosas? Fazem uma figura triste, é verdade. Mas quem vê nisto uma prova de que toda a religião se opõe ao progresso científico, também faz figura igualmente triste. A única coisa que se pode concluir é que ainda há pessoas que se dizem religiosas e que preferem viver fechadas no seu pequeno mundo, ignorando coisas como o progresso científico ou o pluralismo religioso.

O princípio da harmonia entre religião e ciência era um assunto frequentemente abordado por 'Abdu'l-Bahá durante a Sua visita aos Estados Unidos (em 1912). Numa ocasião afirmou:
Se a religião não está de acordo com a ciência, então é superstição e ignorância. Deus dotou o homem com a razão para que ele pudesse compreender a realidade. As bases da religião são racionais; Deus criou-nos com inteligência para que as percebêssemos. Se se opõem à ciência e à razão, como se pode acreditar nelas ou segui-las? (The Promulgation of Universal Peace, p. 128)
Em resumo: a religião não serve para avaliar a ciência; pelo contrário, a ciência é que pode avaliar a religião.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

O Hezbollah está atento e odeia os Bahá'ís


"O Hezbollah está atento e odeia os Bahá'ís" lê-se na frase escrita na parede de uma casa em Abadeh no Irão. É um excelente exemplo do ambiente em que vivem hoje os Bahá'ís iranianos. Além dos estudantes impedidos de entrar nas universidades, há cemitérios destruídos, casas incendiadas, estabelecimentos vandalizados, inscrições com ameaças deixadas nas paredes (semelhantes à da foto), detenções arbitrárias, cartas anónimas com ameaças, distribuição de panfletos difamatórios (ver aqui e aqui) contra a religião bahá'í...

Sempre disse que o que a situação dos Bahá'ís não é o problema mais grave que se vive no Irão; mas o conjunto de incidentes que se tem vindo a registar nos últimos meses mais parecem uma campanha organizada destinada a encobrir outros problemas bem mais graves daquele país. E a história Bahá'í no Irão mostra que este tipo de incidentes são o prelúdio de perseguições mais vastas.

Agora no clima de hostilidade contra os baha’is que o governo iraniano tem vindo a fomentar surge um novo protagonista: o Hezbollah.

Considerando que o Hezbollah (que em português significa “Partido de Deus”) é uma invenção iraniana, não surpreende que também quisessem “dedicar algum tempo” aos Bahá’ís. Só não percebo que o ódio ao nosso semelhante possa fazer parte dos ensinamentos de uma religião. É uma enorme contradição. E é também um sinal que os fundamentalistas não aprenderam nada com a história.

Eu não odeio o Hezbollah; mas vou ficar atento.

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ACTUALIZAÇÃO

O vídeo seguinte foi feito no Irão e mostra o resultado da destruição do cemitério de Najafabad, no passado dia 7 de Setembro.



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A ler: Iranian government campaign against Baha'is shows new facets (BWNS)

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

A Liberdade, a Justiça, a Paz!



... o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e dos seus direitos iguais e inalienáveis constitui o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo;

... o desconhecimento e o desprezo dos direitos do Homem conduziram a actos de barbárie que revoltam a consciência da Humanidade;

... é essencial a protecção dos direitos do Homem através de um regime de direito, para que o Homem não seja compelido, em supremo recurso, à revolta contra a tirania e a opressão.

(Declaração Universal dos Direitos Humanos)

Bento XVI e as Religiões do Mundo (9)

Iluminismo

As correntes mais conservadoras do catolicismo costumam descrever o iluminismo como um conjunto de movimentos anti-religiosos, que ambicionavam substituir a fé pela razão, geradores de linhas de pensamento políticos tão nefastos como o comunismo ou o nazismo. Também Bento XVI assume uma posição idêntica; ao ler o livro Fé, Verdade e Tolerância: o Cristianismo e as Grandes Religiões do Mundo, fica-se com a impressão que este foi apenas um movimento filosófico de carácter exclusivista cuja ambição era impor a razão como fonte única de autoridade e conhecimento (p.31). No excerto seguinte, Bento XVI elucida-nos sobre a sua posição
Todo o iluminismo se caracteriza pela vontade de emancipação, primeiro no sentido do lema de Kant: sapere audare – tem a audácia de usar a própria razão. Trata-se, por parte da razão individual, da ruptura com todas as ligações à autoridade, as quais têm todas de ser sujeitas a exame crítico. Apenas o discernimento da razão é aceite como válido. (…) Só a razão é soberana; em última análise, não deve haver outra autoridade a não ser a da razão. Apenas vale o que pode ser compreendido; o que não é razoável, isto é, compreendido, não pode ser obrigatório. (p. 210-211)
Como já aqui escrevi uma vez, esta é uma perspectiva muito redutora da história. Na verdade, a Idade das Luzes foi muito mais do que isso. Os historiadores descrevem o Iluminismo como um movimento intelectual, cultural e filosófico que inspirou diversas correntes de pensamento político, social, científico e religioso. Os seus defensores advogavam que a tirania, as superstições e as tradições que tinham dominado a Europa durante a idade média deviam ser substituídas por valores como a liberdade, a democracia e o uso da razão esclarecida.

Estranhamente, ao longo do livro do então Cardeal Ratzinger não se encontra qualquer referência ao iluminismo enquanto movimento inspirador de ideais como a liberdade e a democracia. Para actual o líder da Igreja Católica, o iluminismo é a “pura religião da razão [que] depressa se desmoronou”; é uma máquina de vapor que está a deixar de funcionar (p. 208); é um ideal que retira importância à religião, “restando-lhe pouco mais do que uma função formal no sentido de um cerimonial político” (p.28-29).

Entre os frutos do iluminismo encontram-se vários movimentos revolucionários que se opunham a sistemas repressivos vigentes em matéria política, religiosa e moral. As revoluções francesa e americana são consideradas como tendo sido inspiradas nos ideais iluministas. É claro que não podemos esquecer que o Iluminismo também gerou as suas violências na forma de teorias políticas dogmáticas tão prejudiciais à humanidade como as ortodoxias religiosas que o precederam.

A hostilidade e repressão enfrentadas por ideólogos e filósofos americanos e franceses que - inspirados por ideais iluministas - lutaram contra a tirania e o absolutismo, são semelhantes aos enfrentados pelos primeiros bahá'ís, no Médio Oriente do Séc. XIX. Ambos enfrentaram restrições à liberdade, perseguições por delitos de opinião, eram impedidos de publicar livros e foram alvos de leis injustas publicadas por governos absolutistas. Não é pois de admirar que ambos apreciassem a liberdade de pensamento, a liberdade de imprensa e valorizassem a democracia e o primado da lei.

Nesta perspectiva, o Iluminismo (e o período de modernidade a que este deu origem) não foi o fim de uma idade de ouro, mas antes uma etapa do processo histórico de evolução colectiva da humanidade. E qualquer observador imparcial não negará que a humanidade vive hoje melhor do que vivia nos tempos que precederam o iluminismo. Só por ignorância ou má fé, se poderia sugerir o contrário.

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Faith in America (NBC)



Ontem nos Estados Unidos, a NBC iniciou uma série de reportagens intitulada "Faith in America". Neste link podem ver a reportagem (depois da publicidade). Durante a reportagem, há uma crente baha'i que é entrevistada frente ao Templo Baha'i de Chicago.

A Velha Questão dos Crucifixos

Ainda no seu artigo Os Capelães, Vital Moreira repete que "são absolutamente interditos os sinais e símbolos religiosos nos estabelecimentos públicos, fora dos espaços dedicados ao culto". É certo que um símbolo religioso, enquanto sinal de uma orientação religiosa de um estabelecimento público é inaceitável. Mas o teor da frase revela algum fundamentalismo anti-religioso; note-se que Vital Moreira não esclarece nem onde, nem a quem é que os símbolos religiosos são interditos.

Será que o Professor de Coimbra também gostaria de proibir a utilização de símbolos religiosos aos alunos? E se numa aula de religião, ou sociologia, o professor tiver de falar sobre as religiões (sobre uma perspectiva historia ou sociológica)? Será que pode mostrar símbolos religiosos? E os livros escolares que abordam essa matéria poderão conter símbolos religiosos? Será que numa Escola não pode material didáctico com símbolos religiosos (tal como pode existir material didáctico com símbolos de outros países)?

Na minha opinião essa proibição de símbolos apenas se deve aplicar às instalações e aos funcionários da escola (no exercício das suas funções).

Só uma nota final: a isenção e neutralidade do Estado face a agentes da sociedade civil é uma necessidade para o normal funcionamento de uma sociedade. Mas não deixa de ser curioso como alguns políticos e analistas se escandalizam com um crucifixo numa escola pública e parecem tão indiferentes aos calendários de construtores civis nas instalações de câmaras municipais.