quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Colóquio "Mulheres na Religião"

Por iniciativa do Departamento Nacional das Mulheres Socialistas, do Partido Socialista, realizou-se na passada terça-feira um colóquio sobre o tema «Mulheres na Religião». O evento contou com a presença de representantes de várias confissões religiosas e também de Mário Soares na qualidade de Presidente da Comissão para Liberdade Religiosa.

Afazeres profissionais impediram-me de assistir a este evento; a informação que tenho do que se passou foi-me transmitida por alguns amigos. Os jornais que mencionaram o evento referiram a intervenção de Mário Soares, e destacaram a sua manifestação de desagrado pelo facto das religiões sempre terem rebaixado as mulheres.

Mário Soares tem toda a razão. Num breve olhar pela história das religiões encontramos de episódios que denigrem a posição da mulher; e em todas as religiões encontramos filósofos e teólogos que consideraram a mulher como um ser subalterno ou inferior, e mesmo um fonte de pecado e tentação.

Bastaria ao Presidente da Comissão para a Liberdade Religiosa apontar alguns desses exemplos para fazer valer o seu ponto de vista. Mas o ex-Presidente da República preferiu citar uns versículos da Bíblia e dedicar-se à exegese. E aqui considero que cometeu um erro.

Mário Soares citou o versículo «Não cobiçarás a mulher do próximo, nem o escravo, o boi, o burro, nem nada que lhe pertença» e considerou que neste mandamento a mulher é posta ao nível do boi e do burro.

Mário Soares fez uma interpretação literal do texto sagrado. Ignorou o contexto socio-cultural em que o texto surgiu e os possíveis simbolismos que este contém. Leu-o e entendeu-o como se fosse um texto elaborado por alguém escrito do seu tempo e do seu hemisfério cultural. Tal como os fundamentalistas cristãos e muçulmanos que ele tanto detesta, Mário Soares não consegue entender num texto sagrado algo mais do que o seu significado literal.

Mário Soares deve ser a personagem mais notável da 3ª República. Tem todo o direito de afirmar que «as revelações divinas são fruto da imaginação de quem as escreveu», ou que «não foi Deus que criou o Homem, mas sim o Homem que criou Deus». Mas é triste que o Presidente da Comissão da Liberdade Religiosa se entregue à interpretação de textos sagrados dando mostras de uma gritante ignorância em matéria religiosa.

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SOBRE ESTE ASSUNTO: Mário Soares lamenta que «religiões rebaixem as mulheres» (O Sol) (também no Diário Digital e no Portugal Diário)

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Sam Harris e o Fim da Fé (3)

CRENTES MODERADOS

Imagine que alguém lhe afirmava que os aviões são máquinas diabólicas que apenas servem para matar pessoas e que apenas têm trazidos enormes desgraças à humanidade. Depois de escutar isto, você invocava os benefícios da aviação comercial no progresso das comunicações, do transporte e do bem-estar dos os povos. Mas o seu interlocutor responderia que mesmo os aviões civis usados são máquinas terríveis que facilmente se convertem em máquinas de guerra; e mesmo que não o façam, alguns podem cair vitimando centenas de inocentes. Em resumo, toda a actividade da aviação se devia proibir, para evitar que novas calamidades se sucedessem.

O absurdo deste tipo de argumentação é óbvio.

Imagine agora que em vez de aviação se falava de religião. O seu interlocutor defende que toda a religião é maligna e como tal deve ser extinta; e mesmo a religião moderada deve ser evitada, pois ela possui em si os germes do fundamentalismo e do fanatismo que tanto mal têm causado à humanidade.

Igualmente ridículo? Para Sam Harris, isto não é ridículo. É uma realidade óbvia. Veja-se este excerto do seu livro O Fim da Fé:
Muitos dos religiosos moderados seguiram a supostamente grande via do pluralismo, afirmando a igual validade de todos os credos. Contudo, ao fazê-lo esqueceram-se de referir os axiomas irremediavelmente sectários que estão na base de cada um deles. Enquanto um cristão acreditar que só os seus irmãos se salvarão no Dia do Juízo Final, jamais respeitará as crenças dos outros; afinal, as chamas do inferno foram ateadas por essas mesmas ideias e continuam ainda hoje a receber os seus discípulos. Tanto muçulmanos com judeus têm, em geral uma visão arrogante acerca das suas próprias tradições e há mais de mil anos que persistem em apontar os erros das outras religiões. (p. 18-19)
O que imediatamente se estranha nestas palavras é a redução das religiões às suas expressões exclusivistas ("axiomas irremediavelmente sectários"). Será possível que Sam Harris nunca tenha ouvido falar de inclusivismo, ou mesmo de pluralismo religioso? Não sabe que todas estas atitudes são transversais a todas as religiões? Para quem advoga o uso da razão na análise do fenómeno religioso, é caso para perguntar porque é que o autor não consegue ser um pouco mais racional nas suas análises. Será ignorância ou má fé?

O que prevalece destas palavras é a incapacidade do autor de O Fim da Fé para compreender fenómenos como o pluralismo religioso, uma incapacidade igual à dos fundamentalistas religiosos que preferem viver isolados em guetos mentais (ou físicos), ignorando (e evitando conhecer!) as crenças dos outros. Como já escrevi uma vez, as atitudes fundamentalistas religiosas e anti-religiosas caracterizam-se por atitudes mentais muito semelhantes.

Sam Harris nem sequer se demora uma linha para reflectir de que forma poderia existir alguma "igual validade de todos os credos". A ingenuidade do autor suscita várias questões: Será que ele preferia que uma religião asfixiasse todas as outras, resolvendo, assim, o problema do pluralismo? O facto de nem todas as pessoas crentes serem adeptas do pluralismo religioso por acaso invalida o fenómeno religioso como um todo? E por acaso na base de todas as religiões apenas existem axiomas sectários? E qual o contexto em que surgiram as declarações consideradas sectárias?
O problema que a moderação religiosa nos coloca é que não admite qualquer crítica à literalidade religiosa. Não podemos dizer que os fundamentalistas estão loucos, já que eles estão apenas a exercer a sua liberdade de culto; não podemos sequer afirmar que eles estão enganados em matéria de religião, porque o seu conhecimento das escrituras é, regra geral, inigualável. (…) A moderação religiosa é um produto do conhecimento secular e da ignorância das escrituras – e, em termos religiosos, não tem bona fides que a coloque em pé de igualdade com o fundamentalismo. (…) A moderação religiosa, na medida em que representa uma tentativa de nos concentrarmos naquilo que a ortodoxia sagrada ainda pode ter de útil, fecha a porta a outras abordagens mais sofisticadas da espiritualidade, da ética e da construção de comunidades fortes. (p.23)
Sinceramente, não percebo que o que significa uma moderação onde não à espaço para “crítica à literalidade religiosa”. Será que este homem alguma vez leu algum texto do John Hick? Saberá que sabe quem é Leonardo Boff? E desconhecer correntes religiosas moderadas (ou religiões!) que criticam o literalismo religioso é motivo para questionarmos o que é que Sam Harris realmente sabe sobre religião.

A última frase consegue ainda ser mais surpreendente além de confirmar que não percebe o que é a moderação religiosa, insinua a necessidade de “outras abordagens mais sofisticadas da espiritualidade, da ética e da construção de comunidades fortes”. Afinal o que pretende ele? Denunciar a religião como fonte de todos os males do mundo moderno, ou procurar novas fontes de espiritualidade?

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Desafios da Contemporaneidade às Religiões

Dia 3 de Dezembro: Desafios ao Catolicismo

Oradores:

* D. Januário Torgal Ferreira, bispo castrense

* Frei Bento Domingues, teólogo, dominicano

* Prof. Alfredo Teixeira, UCP

Local: FNAC do C C Colombo, pelas 18.30h do dia 3 de Dezembro.

Horizontes a várias escalas: Desafios, Solidariedades, Resistências

CONFERÊNCIA – ENCONTRO – DIÁLOGO

Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007
Fórum Lisboa - Antigo Cinema Roma
Av. de Roma, nº 14 L, 1000-265 Lisboa


Organização: European Muslim Network (EMN) e Comunidade Islâmica de Lisboa (CIL); com o patrocínio do Alto Representante das Nações Unidas para a Iniciativa da Aliança de Civilizações, Forum Abraâmico de Portugal, e MEL-Net (Rede de Estudos sobre Muçulmanos em Espaços Lusófonos)

9:30 - Acolhimento e requisição de equipamento de tradução simultânea Inglês-Português

9:45 - Abertura da Conferência
* Recitação do Corão: Sheikh David Munir, Imam da Mesquita Central de Lisboa
* Boas Vindas: Abdool Magid Vakil, Presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa

10:00 - O mundo à nossa medida: Desafios contemporâneos – respostas solidárias
* Moderador: Guilherme d’Oliveira Martins, Presidente do Centro Nacional de Cultura
* Teresa Martinho Toldy, CECLICO, Universidade Fernando Pessoa, Porto e Centro de Estudos Sociais, Coimbra
* Tariq Ramadan, St Antony’s College, Universidade de Oxford, e European Muslim Network

11:25 - Pausa para café

11:45 - Actos de Fé: Comunidade e Convivialidade
* Painel organizado em associação com o Forum Abraâmico de Portugal
* Moderador: Alfredo Teixeira, Faculdade de Teologia, Universidade Católica Portuguesa

Intervenções:
* Rabia Malik, Terapeuta de Família, Marlborough Family Service, Londres, e Assessora da linha SOS Muslim Youth Helpline
* Marcos Prist, Director Executivo da Comunidade Israelita de Lisboa
* Isabel Monteiro, Caritas Diocesana de Setúbal
* Mery Ruah, Secretária-geral da Associação Portuguesa de Estudos Judaicos (APEJ)
* José António Falcão, Director do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja
* Unaiza Karim, Artista e Educadora, Reino Unido

13:30 - Intervalo para almoço e oração de Sexta-feira (Juma)

15:00 - Conferência: Novas Guerras Frias? Para além do discurso das Civilizações - em associação com a iniciativa das Nações Unidas para a Aliança de Civilizações
* Moderador: Jorge Sampaio, Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança de Civilizações
* Orador: Kemal Kirişci, Professor da Cátedra Jean Monet e de Relações Internacionais, e Director do Centro de Estudos Europeus, Universidade do Bosforo
* Comentário: José Manuel Pureza, Coordenador do Núcleo de Estudos para a Paz, Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra

16:05 - Pausa para café

16:25 - Cidadania, e Transnacionalidade para além do Imaginário do Imigrante
* Moderador: Fernando Luís Machado, Centro de Investigação e Estudos de Sociologia, ISCTE
* Rui Marques, Alto Comissário para a Imigração e Diálogo Intercultural
* S. Sayyid, Director do Centro de Estudos sobre Etnicidade e Racismo da Universidade de Leeds

17:40 - Encerramento
* Abdool Magid Vakil, Presidente da Comunidade Islâmica de Lisboa
* Tariq Ramadan, Presidente do European Muslim Network

domingo, 25 de novembro de 2007

Quem esquece o passado...



"A proposta de edificação de um memorial às vítimas do massacre judaico de Lisboa de 1506, agendada para discussão e aprovação pela Câmara Municipal de Lisboa para o passado dia 31 de Outubro, foi adiada "sine die" e corre o risco de ficar esquecida ou subvertida no seu sentido cívico. Em nome da memória do horrendo crime cometido em Lisboa nos dias 19, 20 e 21 de Abril de 1506, que vitimou milhares de cristãos-novos baptizados à força pelo Rei D. Manuel I em 1497, os cidadãos signatários desta petição reclamam da Câmara Municipal de Lisboa que mantenha e execute a proposta tal como foi concebida e na simbólica data prevista de 19 de Abril de 2008."

Assinemos a petição!

O Acordo Ortográfico

Há mais de dez anos que vivemos com esta espada suspensa sobre a cabeça: quando não têm mais nada com que se entreter para exibir a sua importância, os senhores da Academia das Ciências e os ministros dos Estrangeiros gostam de nos ameaçar com o acordo ortográfico, cujo único objectivo é pôr-nos a escrever como os brasileiros... Como disse Vasco Graça Moura, o acordo é um «diktat» neo-colonial, em que o mais forte (o Brasil) determina a sua vontade ao mais fraco (Portugal). Alguém imagina os Estados Unidos a ditarem à Inglaterra as regras ortográficas da língua inglesa? Ou o Canadá a ditar as do francês à França ou a Venezuela as do espanhol a Espanha?

Miguel Sousa Tavares, Expresso, 24-Novembro-2007

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Violência sexual contra mulheres



Nesta semana houve duas notícias que me perturbaram. A primeira veio da Arábia Saudita e referia que uma vítima de violação tinha sido condenada a seis meses de prisão e 200 chicotadas; a segunda veio do Brasil e descrevia o caso de uma jovem brasileira que esteve presa com mais de 20 homens na mesma cela e foi violada durante um mês.

A barbaridade é um denominador comum destas notícias. E em ambos os casos, grupos de Direitos Humanos afirma que não se tratam de casos isolados nestes países.

O que pode a Comunidade Internacional fazer para por fim à violência sexual contra mulheres e menores? O que pode cada país fazer eliminar estas actos cruéis e desumanos? O que pode cada um de nós fazer?

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Ota ou... Ota?


Na Barbearia descobri esta curiosidade. O site da NAER tem um banner onde se lê a palavra OTA, como se fosse uma sombra omnipresente. Será isto um mero descuido do administrado do site? Diz-se hoje que os sites reflectem a imagem das organizações; com este banner, a NAER dá-nos uma imagem de pouco rigor. E se considerarmos isto como um descuido, teremos de associar o amadorismo à imagem da NAER.

O que podemos esperar de uma empresa assim? Se nos lembrarmos que se trata de uma empresa criada e gerida pelo Governo Português, que rigor e objectividade se pode esperar na decisão sobre a futura localização do novo aeroporto de Lisboa? Já está tudo decidido?

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Hipocrisia ao mais alto nível!

O IRÃO PROTESTA CONTRA AS VIOLAÇÕES DOS DIREITOS HUMANOS NA UNIÃO EUROPEIA

O Encarregado de Negócios da Embaixada Portuguesa em Teerão foi chamado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros Iraniano para receber um protesto do Governo Iraniano contra as violações dos direitos humanos na União Europeia. Durante o encontro, foi apresentada uma extensa uma extensa lista de violações de direitos humanos em países europeus.

Entre as violações referidas pelos responsáveis iranianos contam-se o tráfico de menores perpetrado por uma organização não-governamental francesa no Chade, a continuação de voos secretos da CIA, a violação da liberdade de expressão em França e a detenção de estudantes universitários naquele país.

Segundo os media iranianos, durante a reunião foi pedido à presidência rotativa da União Europeia que enviasse uma delegação independente ao Chade e ao Sudão para avaliar as medidas desumanas adoptadas naqueles países, e que encontrasse uma forma adequada de levar os responsáveis a tribunal de forma a impedir que aqueles actos horrendos se repetissem.

COMENTÁRIO: Com esta jogada diplomática os iranianos tentam lançar poeira para os olhos dos europeus.Em matéria de direitos humanos, o objectivo do regime iraniano parece ser confundir. E para isso mistura-se a situação no Chade e no Sudão, com os famosos voos da CIA e algumas das tensões sociais em França. Só falta mesmo falar de agressões esporádicas em algumas esquadras portuguesas!

É verdade que nenhum país possui um cadastro limpo no que toca às violações de Direitos Humanos. Mas o que os iranianos parecem querer confundir é o âmbito, a dimensão do que se passa na Europa com o que se passa no Irão. Senão vejamos:
  • Quantas minorias religiosas têm sido perseguidas sistematicamente em países da União Europeia (UE)?
  • Quantos jornais foram encerrados por governos da UE?
  • Quantos países da UE possuem um código civil onde se discrimina as mulheres?
  • Quantos países da UE ainda aplicam a pena de morte? E quantos a aplicam a crianças?
  • Quantos países da UE censuram a internet para os seus cidadãos?
  • Em quantos países da UE existem prisioneiros de consciência?


Conta-se no Irão que um dia o governante da Índia enviou ao Xá um jogo de xadrez. Depois de ensinadas as regras, o emissário indiano desafiou o persa para um jogo. A inteligência do monarca permitiu-lhe derrotar o enviado indiano.

O mundo da diplomacia mundial pode ser um complexo jogo de xadrez. O regime teocrático iraniano pode até ter aprendido algumas jogadas que confundem os adversários. Mas é importante que a Comunidade Internacional – e em particular, a União Europeia – não use os Direitos Humanos como um peão que se troca por outro no xadrez da diplomacia internacional.

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A ler:
Iran Protests Against Violation of Human Rights in EU (IRNA)

Violações de Direitos Humanos no Irão

PAINEL DAS NAÇÕES UNIDAS EXPRESSA PROFUNDA PREOCUPAÇÃO

Uma comissão da Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou ontem (terça-feira) uma resolução onde expressa “profunda preocupação” pelas “correntes e sistemáticas violações” de direitos humanos e liberdades fundamentais no Irão. Com uma votação de 72 votos a favor, 55 abstenções e 50 contra, a moção afirma a “muito séria preocupação” por confirmadas ocorrências de “torturas, tratamentos ou punições desumanos, cruéis e degradantes, que incluem bastonadas e amputações”.

Apoiada pelo Canadá, países europeus, Estados Unidos Austrália, Nova Zelândia, Israel e Palau, a moção também denuncia os apedrejamentos e a "crescente discriminação e outras violações dos direitos humanos contra pessoas pertencentes a minorias religiosas, étnicas e linguísticas” no Irão.

O texto dá um destaque especial aos ataques contra a comunidade Bahá'í feitos pelos media controlados pelo governo, assim como às "crescentes evidências de esforços por parte do Estado para identificar e monitorizar os Bahá'ís, e impedir que os baha'is de ingressar na universidade ou obter sustentabilidade económica".

Antes da votação, o embaixador iraniano na ONU, Mohammad Khazaee, afirmou ao painel que "era pena que a manipulação e abuso dos mecanismos de direitos humanos das Nações Unidas se tenha tornado uma tradição prevalecente e um exercício de certos Estados em levar avante os seus propósitos políticos".

O diplomata foi particularmente duro com o Canadá, o principal patrocinador da resolução, acusando-o de se arrogar "o direito de liderar um papel global na defesa dos direitos humanos, enquanto certas partes da sua população, especialmente as minorias, imigrantes, estrangeiros e povos indígenas sofrem violações de direitos humanos sob o seu olhar".

Mas Bani Dugal, a porta-voz da Comunidade Internacional Bahá'í nas Nações Unidas, saudou o resultado da votação: "Estamos satisfeitos pelo facto da Assembleia Geral não se ter demitido das suas responsabilidades na protecção dos direitos humanos e liberdades fundamentais, conforme estão definidas na Carta das Nações Unidas".

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A ler:
UN panel voices deep concern at rights violations in Iran (AFP)
Iran's Human Rights Concern UN Committee (AP)
U.N. committee passes resolution about human rights violations in Iran (BWNS)
Une commission de l’Assemblée générale des Nations Unies approuve une résolution soulignant le caractère préoccupant des violations de droits de l’Homme en Iran
La ONU expresa su preocupación por la situación de derechos humanos en Irán (EFE)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Angola: os filhos do conflito



Em 2006, John Keane visitou Angola com a agência humanitária Christian Aid. Durante essa visita produziu várias obras relacionadas com as crianças e a guerra. Parte dessas obras estão disponíveis no site da BBC.

Entre essas obras encontra-se esta gravura, onde se vêem uns rapazes que brincam no que resta daquilo que outrora foi uma escola. Para o artista, este é um símbolo da situação da educação num país onde faltam as mais elementares infra-estruturas.

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A ler:
Children in conflict - Angola by John Keane
Children in Conflict exhibition

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

O Piano: um sonho de infância...

Ruth Gledhill, na sua coluna regular no The Times, refere a situação dos baha’is no Irão e no Egipto. E apresenta o depoimento de uma estudante bahá'í iraniana cuja paixão é a música; na edição online do artigo está disponível um vídeo que nos mostra um pouco do talento desta jovem.



"Desde criança que queria dedicar-me à música. Adorava tocar piano. Mas após concluir o ensino secundário, não fui aceite na universidade no Irão. (...) Decidi ir estudar música para Moscovo. Foi fantástico. Pude viver o sonho da minha infância e licenciar-me com distinção. Mal podia esperar pelo meu regresso ao Irão e começar a trabalhar como profissional."

"Para actuar em público é necessário preencher um impresso onde se pergunta a religião do artista. Tal como os impressos para entrar na universidade, apenas se pode optar entre Muçulmano, Cristão, Judeu e Zoroastriano, Quando coloquei Baha'i, a autorização foi-me negada. Não podia actuar em público, não podia tocar numa orquestra e não podia dar aulas de piano. Foi por isso que saí [do Irão]. Vim para o Reino Unido onde continuei os meus estudos até ao momento. Aqui aprecio todas estas liberdades como artista e estou muito grata. Mas, ao mesmo tempo, fico triste quando penso nos meus irmãos e irmãs no Irão. Sei que se voltar vou ter de abdicar da minha maior paixão e do meu sonho. Espero um dia poder actuar num palco iraniano."

"Muitos amigos me perguntam porque é que eu não neguei a minha fé para entrar na universidade. «Sabes que és baha’i no teu coração» dizem eles. Tentei explicar e alguns deles entendem. Seria a maior das mentiras. A honestidade é um dos mais importantes ensinamentos na Fé Baha’i. Se eu mentisse sobre a minha fé, ela já não estaria no meu coração."

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A ler: Iran ruthless in persecution of peace-loving Baha'is

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Sam Harris e o Fim da Fé (2)

O USO DA RAZÃO

Se há uma ideia válida no livro O Fim da Fé, essa é a da necessidade de uso da razão na abordagem do fenómeno religioso (p.79-85). O autor apresenta exemplos sobre a facilidade com que a maioria das pessoas tende a abdicar do uso da razão ao receber informação sobre religião. Veja-se o seguinte exemplo
  1. O apresentador do noticiário da noite diz que há um grande incêndio no estado do Colorado. Vinte mil hectares já arderam e o fogo continua completamente fora de controlo.
  2. Os biólogos dizem que o ADN é a base molecular para a reprodução sexual. Cada um de nós assemelha-se aos nosso pais porque herdamos um complemento do seu ADN. Cada um de nós tem braços e pernas porque o nosso ADN codificou as proteínas que os produziram durante o nosso desenvolvimento inicial.
  3. O papa diz que Jesus nasceu de uma mãe virgem e que ressuscitou fisicamente depois de morto. Ele é o Filho de Deus, que criou o universo em seis dias. Se acreditarmos nisto, iremos para o Céu depois de morrermos; caso contrário iremos para o inferno onde sofreremos para toda a eternidade. (p.80)
Serão estas informações igualmente válidas? Que confiança merecem estas informações face ao que conhecemos hoje sobre o mundo em que vivemos? Claramente estes argumentos são um bom desafio para todos os que se afirma religioso. E existem muitas afirmações semelhantes à terceira que merecem a reflexão dos crentes.

Mas será que Sam Harris consegue ele próprio ser racional na análise do fenómeno religioso? Consideremos a sua atitude face às Escrituras Sagradas. Seria de esperar que o uso da razão permitisse ao autor perceber o tipo de linguagem da literatura religiosa. Certamente que poderia demorar-se reflectindo sobre os significados, os simbolismos e as imagens contidas nos Textos.

Na verdade, o autor de O Fim da Fé, não usa a razão ao analisar as Sagradas Escrituras; Sam Harris limita-se a fazer meras interpretações literais, e quando encontra algo que seja contrário ao senso comum, declara imediatamente que está na presença de mais uma prova da falsidade ou inadequação dessa religião. Poderá o uso da razão limitar-se a uma análise tão simplista da validade do fenómeno religioso? Será assim tão difícil perceber que os textos dos Livros Sagrados possuem uma linguagem própria (tal como muitas outras áreas de conhecimento e actividade humana)?

Mas voltemos à necessidade do uso da razão no fenómeno religioso.

Entre os princípios bahá'ís encontram-se a livre e independente pesquisa da verdade e a necessidade de harmonia entre fé e razão. À luz destes princípios – e lembrando que 'Abdu'l-Bahá afirmou que "qualquer religião contrária à ciência não é verdadeira" – é natural que os bahá’ís simpatizem com a ideia do usa da razão na análise do fenómeno religioso. Mas estarão os bahá'ís imunes a esta atitude de abdicar da razão quando se fala de religião?

Os bahá'ís é suposto acreditarem – tal como os cristãos – que Cristo nasceu de uma virgem (ver este post). É uma verdade oficial que, quando questionada, recebe invariavelmente uma justificação do género: "Deus é omnipotente; não há nenhuma impossibilidade nisso." Não é este tipo de resposta um convite a abdicarmos da razão? Não se está com isto a sugerir que troquemos uma "verdade oficial" por dois princípios essenciais da religião revelada por Bahá'u'lláh?

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Quem diria? Mais um adiamento!

Um dia depois dos media internacionais terem dedicado significativa atenção à situação dos bahá'ís no Egipto, o Tribunal de Justiça Administrativa do Cairo dedicou ontem parte da sua atenção a dois processos iniciados por bahá'ís egípcios que tentam desesperadamente obter os seus direitos civis.

Aqui fica o relato de uma pessoa presente na sala de audiências:

"Hoje fora reapreciados novamente os casos do Dr. Raouf Hindy e Hosni Hussein. O Dr. Raouf foi o primeiro; o juiz perguntou-lhe se tinha alguma coisa a acrescentar ao caso. O Dr. Raouf repetiu o apelo para que seja permitido «dizer a verdade e não seja necessário negar a nossa fé». A resposta do juiz foi uma surpresa para todos os presentes; afirmou que é bem sabido que os Bahá'ís tem Muçulmanos e cristãos entre eles, que existem muçulmanos bahá'ís e cristãos bahá'ís; cada um deve declarar a sua religião original. O Dr. Raouf afirmou «não ser Muçulmano nem Cristão» declarando que isto é uma forma de forçar os Bahá'ís a converterem-se a outra religião. A isto o juiz replicou que «o Ministério do Interior não está a forçá-lo a mudar a sua crença... forçar significava pedir que deixasse de ser Bahá'í e acreditasse em qualquer outra coisa. O Ministério apenas permite que três religiões sejam registadas em documentos oficiais, mas uma pessoa é livre de acreditar no que quiser».

Seguidamente o juiz preferiu interromper a discussão e perguntou se existiam novos documentos ou memos que alguma das partes desejasse adicionar ao processo; obteve respostas negativas. Disse então que a sua decisão seria anunciada no final da sessão.

Chamou o Sr. Hussein, pai de Hosni, e disse num tom jocoso: «Claro que você está a gostar do que o Dr. Raoul está a dizer... o seu caso é o mesmo... no final da sessão terão a vossa resposta».

A atitude do juiz foi uma desilusão e era claro qual seria o seu veredicto. No entanto, no final da sessão – os baha’is aguardaram no tribunal até às 17H00 - o juiz anunciou que o veredicto final será anunciado no dia 25 de Dezembro.”

Esta descrição podia levar-me a discorrer sobre este tipo de juízes que negam a identidade religiosa dos cidadãos (os bahá'ís não são muçulmanos, nem cristãos) e que brincam com a situação de pessoas a quem são negados os mais elementares direitos.

Mas penso que há um enquadramento geral desta situação que poucas vezes é referido que merece atenção. A situação social e política que hoje se vive no Egipto é bastante complexa; entre as muitas tensões e crises em que o país vive, destaca-se os graves atritos entre os poderes judicial e executivo no Egipto. Tem havido manifestações e protestos de juizes contra o governo.

Pergunto-me, até que ponto estes sucessivos adiamentos dos processo que envolvem baha'is, não são uma mera jogada dos juízes egípcios nas suas fricções com o governo? Não estarão eles a querer passar para o governo a responsabilidade de uma decisão "sensível"? Não será então chegado o momento do governo egípcio mostrar coragem e alterar de forma adequada as leis e procedimentos que impedem os baha'is de obter bilhetes de identidade?

A ler: "Egypt: the Judge Mocks the Baha’is then Delays his Verdict"

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Egipto: as minorias condenadas à não-existência

É amanhã - terça-feira - que o Tribunal de Justiça Administrativa do Cairo deve apresentar o seu veredicto sobre dois processos relativos ao direito de Bahá’ís Egípcios a possuírem documentos de identidade. Se não houver mais adiamentos, é claro...

Entretanto, algumas organizações de direitos humanos têm feito ouvir a sua voz nos media internacionais. Relatam o que todos estamos cansados de saber: o apartheid religioso no Egipto e a forma como baha’is e ex-muçulmanos são impedidos de obter documento de identificação, a atitude dos funcionários do Ministério do Interior em todos estes processos (ameaças e sugestões de suborno).



Um artigo publicado no International Heral Tribune (IHT) destaca as implicações pessoais da discriminação religiosa no Egipto. O jornalista falou com Wafaa Hindy - baha’i e gestora de um hotel – que lhe afirmou que ela e o marido não possuem bilhetes de identidade, e temem que o seu filho possa ser expulso da universidade por também não possuir esse documento. “Não preciso que o governo concorde com o facto de eu ser baha’i... mas preciso que o governo me dê um bilhete de identidade porque sou egípcia. Isto é totalmente diferente da minha religião”, afirmou Hindy

Segundo o IHT, no próximo mês, o Supremo Tribunal Administrativo do Egipto deve apresentar uma decisão final sobre sete pessoas que se converteram do Cristianismo par ao Islão e pretendem voltara ser considerados cristãos. E em Janeiro, aguarda-se uma decisão sobre o reconhecimento oficial da minoria baha’i naquele país.

Também a Human Rights Watch (HRW), publicou um relatório com o titulo Prohibited Identities: State Interference with Religious Freedom, e divulgou um press release. A HRW salienta que a atitude das autoridades egípcias não está de acordo com a lei egípcia, mas que se baseia apenas em interpretações da sharia (lei islâmica). Um dos testemunhos citados no relatório da HRW é de Nayer Nabil, um baha’i egípcio:

"Tentei pedir um bilhete de identidade. No formulário, escrevi que a minha religião era Baha'i. O funcionário recusou-se a aceitar o formulário e pediu-me que lhe mostrasse a minha certidão de nascimento. Mostrei-a. Indicava que eu era baha’i e que os meus pais também. Mesmo assim ele recusou-se a aceitar o formulário e disse que eu devia fazer o pedido no Cairo. Quando fui ao Cairo, encontrei-me com um funcionário chamado Wa'il. Ele abriu uma gaveta na sua mesa, tirou uma enorme pilha de papeis e disse-me «Está a ver… tudo isto são pedidos de Baha’is que querem Bilhetes de Identidade. Nunca os irão receber»"

Outra situação registada pela HRW é o Salwa Iskandar Hanna, uma baha’i que faleceu em Outubro de 2005. A sua família pôde realizar o funeral, mas até hoje ainda não recebeu a certidão de óbito, pois o Estado Egípcio exige que ela se converta postumamente a uma das três religiões reconhecidas oficialmente.

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A LER:



Egypt forcing converts from Islam, members of Bahai faith to conceal their religion, watchdogs say (IHT) [link alternativo]
Egypt: Allow Citizens to List Actual Religion on ID Cards (HRW)

Egypt 'denies minority beliefs' (BBC) [link alternativo]
Egypt ID cards sentence minorities to non-life: report (AFP) [link alternativo]
Egypt recognizes only three religions (UPI) [link alternativo]
Egypt denies ID papers to Baha'is, converts (Reuters) [link alternativo]
Egypt authorities forces converts from Islam and members of Bahai to conceal their religion (AP, Pravda) [link alternativo]
Human Rights Report Says Egypt Violating Religious Freedoms (VOA)
HRW denuncia que Egito viola direito à liberdade religiosa de minorias (Ultimo Segundo - Brazil)
Egypte: la mention de la religion sur la carte d'identité discriminatoire (La Croix, France)

domingo, 11 de novembro de 2007

Los inmigrantes son presa fácil para las religiones

Artigo publicado ontem no DiarioSur (Espanha).
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Regina Covarrubiasa, mexicana afincada en España: «Los inmigrantes son presa fácil para las religiones»

La residente admite que algunos credos tratan de controlar la vida de las personas a las que quieren captar
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Regina Covarrubias descubrió que los sacerdotes no se diferencian demasiado del resto de los mortales. Según cuenta, la desagradable conversación con un cura inquisitivo en el ejercicio del sacramento de la confesión supuso el primer paso de un progresivo alejamiento de la Iglesia católica, a la que había pertenecido desde siempre. En su México natal, la educación es laica, pero, aún mediados los años setenta, la jerarquía mantenía un notable ascendiente sobre la población creyente.

Cuando llegó a España, casada con un compatriota ateo, empezó a frecuentar los templos a hurtadillas. «Él no quería que fuera», recuerda. A partir de entonces, sus crisis matrimoniales provocaban, generalmente, la búsqueda de una respuesta religiosa y alivio personal. Sin embargo, aquella decepción inicial la llevó a desligarse de las creencias infantiles y provocó un recorrido incesante por otras manifestaciones de fe. Así se acercó a la iglesia mormona, conoció la doctrina de los Testigos de Jehová y también fue a reuniones con los evangelistas.

En todos los casos se sintió defraudada en sus expectativas. «Todas eran muy legalistas», asegura. Las luchas internas y la habitual relación de fe y política la desalentaron. «En alguna, también pretendían controlar tu vida», recuerda. Prudente, en todas sus incursiones mantuvo cierta distancia para evitar implicarse demasiado: «No tomaba parte activa, iba a aprender, pero reconozco que, a veces, alejarte no era fácil».

Paralelamente, Regina comenzó a desarrolló una labor militante en el campo de la inmigración. Junto a otras compañeras, fundó hace siete años Mujeres del Mundo, una asociación que reúne a personas de muy diverso origen y que promueve un espacio común donde también es posible compartir habilidades, testimonios y experiencias.

También en el plano religioso, aunque las musulmanes se muestran reacias a esa puesta en común. «Se niegan a hablar del tema cuando las invitamos», indica. «No quieren referirse a sus prácticas religiosas ni tampoco explayarse en cuestiones de su vida personal», confiesa.

Comida por obediencia

Sí supo de otros inmigrantes latinoamericanos que habían contactado con varias iglesias. «Muchas se nutren de inmigrantes porque son vulnerables», explica. En su opinión, las carencias materiales, la falta de vivienda y recursos materiales, incluso de trabajo, los impulsa a acercarse a los diversos credos: «Ocurre con la Iglesia católica, que ayuda económicamente, pero también con otras evangélicas, por ejemplo, que dan comida».

Y es que, a juicio de Covarrubias, la necesidad se vuelve virtud. «No se trata de una cuestión de fe, de una búsqueda espiritual. Aquí cada uno se arrima al árbol que mejor cobija». En contrapartida, algunas congregaciones requieren determinadas prestaciones. «Unas te exigen colaboración y otras tratan de atraparte e, incluso, apartarte de tu ambiente y los tuyos. Luego, quieren que no razones, que no pienses, que sigas fielmente sus postulados», prosigue. Ella señala a las sectas como las grandes beneficiadas de la vulnerabilidad de los recién llegados y, especialmente, a las mujeres como víctimas más propicias: «La gente está muy sola y ansía formar parte de un grupo, son presa fácil porque están muy falta de apoyo».

A pesar de los desengaños, Regina sigue buscando respuestas para sus preocupaciones espirituales. La última estación en ese peregrinaje la ha llevado hasta la fe Bahai, credo monoteísta surgida en el seno del islam. «Las reuniones son en casas particulares y sus miembros te dejan pensar, no exigen que te apartes de tus creencias», valora.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Sam Harris e o Fim da Fé (1)

INTRODUÇÃO

Imagine-se um livro sobre o Japão. O autor é americano e começou a escrevê-lo no dia 8 de Dezembro de 1941. Facilmente poderemos imaginar o teor do livro. É óbvio que um livro dedicado ao mesmo tema, escrito por um autor de outra nacionalidade, ou noutra época, teria um teor consideravelmente diferente.

Imagine-se agora um livro que tenta denunciar o fenómeno religioso (e principalmente o Islão) enquanto fonte de todo o mal do mundo moderno. O autor é americano e começou a escrevê-lo no dia 12 de Setembro de 2001. O livro tem por título O Fim da Fé e foi escrito por Sam Harris; foi publicado há alguns meses no nosso país, e aclamado como uma das obras mais relevantes do pensamento ateu radical dos nossos dias.

O que há de tão especial num livro que tem subjacente a ideia de que as religiões são fontes de mal e meros sistemas de crença em conflito entre si? Na diversidade de temas abordados pelo autor, encontramos coisas como:
  • Descrições de perseguições cristãs contra judeus e bruxas (p.96);
  • Argumentos que pretendem provar que o Islão é um “culto de morte” (p.119);
  • A denúncia da perversidade da influência do Conservadorismo Cristão na política americana e os erros da actual administração norte-americana em relação ao Médio Oriente (p.169);
  • A defesa do consumo de marijuana (p.177-181);
  • A defesa do uso de tortura (217-219);
  • Críticas à religião moderada (p.118), aos movimentos pacifistas (p.219) e aos movimentos políticos de esquerda (p. 146,150) por fazerem o jogo dos fundamentalistas.
  • A defesa do uso da razão na análise do fenómeno religioso (p.79-85);
  • O único caminho possível para uma evolução espiritual baseia-se num misticismo (descrito como um empreendimento racional) (p.244).
Torna-se inevitável perguntar o que leva uma pessoa a formular uma espécie de manifesto ateísta moderno onde se misturam ideias que apelam ao senso comum, com ideias que merecem ser debatidas, com outras que são perfeitamente inaceitáveis? Será que as pessoas que aclamaram a publicação deste livro em Portugal alguma vez o leram? Se o fizeram, porque não se demarcam de algumas posições deste autor? Lembro que esta amálgama de ideias ético-politico-religiosas recebeu fortes críticas de meios ateístas como o New Humanist e a Free Inquiry.

Ao longo do livro percebemos que Sam Harris não ataca o fenómeno religioso como um todo; as suas críticas vão para as religiões abraâmicas, acabando o autor por reconhecer a sua admiração pelo Hinduísmo e pelo Budismo (p.313). Por este motivo, não faltou que considerasse “O Fim da Fé” como uma defesa envergonhada do Budismo; recordo que o autor é praticante de técnicas de meditação inspiradas no Budismo. A este propósito a edição portuguesa desta obra (Editora Tinta da China) merece um reparo: sendo o Judaísmo, o Cristianismo e o Islão o centro das críticas deste livro, porque é que a folha de rosto deste livro, além de apresentar os símbolos destas três religiões, também inclui um símbolo hindu?

Mesmo quando expostas num livro que parte do pressuposto que os extremistas religiosos são os que seguem mais correctamente os cânones das suas religiões, as ideias de Sam Harris merecem ser discutidas e debatidas. Não obstante a fragilidade de alguns dos seus argumentos, ou a forma preconceituosa como analisa algumas questões, a impressão com que fiquei quando acabei de ler "O Fim da Fé" é que este livro merece ser lido, pois é um desafio a qualquer pessoa que se afirme religiosa ou crente. Ao longo das próximas semanas vou abordar aqui alguns dos temas deste livro.

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ACTUALIZAÇÃO: Diga-se, em abono da verdade, que quando este livro foi publicado, o Ricardo Alves, no Diário Ateísta, manifestou a sua discordância em relação a questões de ordem científica e política.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Erich Maria Remarque



"Enquanto lhe ignorar o nome, poderei talvez esquecê-lo; o tempo apagará a sua imagem."

A Oeste Nada de Novo, Ed. Europa-América

Recebi o desafio do Rui e agora passo ao Pedro Fontela, ao João Moutinho, ao Elfo, à Dad e à Dina.

Regras:
1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica aleatoriedade, não tente escolher o livro;
2. Abra o livro na página 161;
3. Na referida página procurar a 5.ª frase completa;
4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada;
5. Aumentar, de forma exponencial, a improdutividade, fazendo passar o desafio a mais 5 bloggers à escolha.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Um desafio a Khatami

Sam Qandchi, editor do Iranscope, publicou hoje um vigoroso editorial onde desafia o governo iraniano a reconhecer a Fé Bahá'í. O texto coloca uma questão muito simples ao antigo presidente iraniano, Khatami, que é agora o representante iraniano no "Aliança de Civilizações": "Sr. Khatami, nos seus esforços em prol de uma maior unidade nacional, estará disposta a ajudar com o reconhecimento da Fé Baha'i na República islâmica do Irão?"

Qandchi lembra que há já alguns anos que Khatami fala do diálogo entre as civilizações. Mas é irónico que ele viva num país que nos últimos 28 anos negou o reconhecimento da Fé Baha'i, uma das grandes religiões mundiais e a maior comunidade religiosa do Irão, logo após os Xiitas. A ausência de reconhecimento está implícita na Constituição Iraniana que apenas garante o reconhecimento dos Cristãos e dos Judeus como "povos do Livro"; e também reconhece superficialmente os Zoroastrianos.

O argumento do regime islâmico tem sido que os Baha’is não são mencionados no Alcorão, e por esse motivo não podem ser reconhecidos.

O editorialista prossegue com a seguinte questão: os Xiitas são mencionados no Alcorão?

Claro que não! Em nenhuma parte do Alcorão se referem os Xiitas, uma corrente que foi criada depois do Alcorão ter sido revelado. E, de facto, de acordo com as tradições sunitas aceites em todos os países árabes e em algumas partes do Irão. Os Xiitas são infiéis e hereges. Esta é a opinião de 90% dos muçulmanos do mundo.

Qandchi interroga-se, então, sobre o que leva uma seita - que foi formada após o Alcorão e não é mencionada no Livro Sagrado, e é considerada herética pela maioria do mundo islâmico - a negar o reconhecimento de outra religião, apenas com base no argumento de que a Fé Baha'i não é referida no Alcorão!

O texto conclui com um apelo a Khatami – que está empenhado na reconciliação entre o Islão e o Cristianismo – a começar por curar as feridas da sua própria nação. Se após 160 anos de perseguições sistemáticas e massacres de Baha'is, o Irão não consegue libertar-se dos seus preconceitos e da sua profunda ignorância que manifesta no seu ódio aos baha'is, então como pode ter a ousadia de falar em reconciliação com outras nações?

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COMENTÁRIO: Jorge Sampaio é o Alto Representante para a Aliança das Civilizações. Será que o ex-presidente português terá coragem para colocar uma questão destas ao ex-presidente iraniano? É que os problemas de direitos humanos não são questões internas de nenhum país. São questões de toda a humanidade.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

L'Atlas des Religions



Já há alguns dias que estava para referir o L’Atlas des Religions. Frei Bento Domingues fê-lo ontem, na edição do Público:
Se uns insistem no deserto religioso do nosso tempo, outros mostram a superabundância de religiões, de espiritualidades, de antigas e novas correntes e movimentos, num mundo cada vez mais global. Quem pensa que as religiões estão a acabar percorra devagar o magnífico L'Atlas des Religions e verá que o mais urgente é o diálogo inter-religioso e também entre crentes e não crentes. Não perdeu actualidade a repetida exigência de Hans Kung: "Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos global, um ethos mundial". Isso está à vista e só os cegos por interesses imediatos não querem ver.

Por outro lado, o diálogo não existe nem para abolir identidades nem para a sua pura afirmação. Num diálogo verdadeiro, todos mudam sem se anularem. É, por isso, necessário que cada um se torne responsável pela sua religião, pelas imagens que faz de Deus e do ser humano.

Como se diz em vários blogs: gostaria de ter escrito isto!

domingo, 4 de novembro de 2007

Shoghi Effendi faleceu há 50 anos

Dois vídeos, a propósito desta data.

O primeiro com uma sequência de fotos de Shoghi Effendi, desde os seus primeiros anos, até 1957. O segundo para ilustrar as sas palavras sobre o futuro da humanidade e o seu doloroso amadurecimento colectivo.



sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Raizes da Diversidade Religiosa em Portugal

Quando no colóquio Religiões: Diversidade e não-Discriminação, o Dr. Samuel Levy concluiu a sua intervenção, pensei imediatamente que gostaria de publicar o texto integral da sua intervenção neste blog. A minha amiga Esther Mucznik teve a amabilidade de me enviar esse texto e aqui o deixo. Espero que o apreciem tanto como eu.

Mas a publicação deste texto é também uma prenda de aniversário: para o Nuno Guerreiro pelo quarto aniversário da Rua da Judiaria. Depois de quatro anos a mostrar-nos as raízes judaicas da história de Portugal, aqui fica o meu "muito obrigado" (תּוֹדָה רַבָּה).

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RAIZES DA DIVERSIDADE RELIGIOSA EM PORTUGAL

Colóquio Religiões – Diversidade e não discriminação

Lisboa, 19 de Outubro de 2007

Judaísmo – Samuel Levy

A igualdade de oportunidades que se deseja para todo o ser humano é, felizmente, hoje, uma preocupação das sociedades democráticas. Elas não tem existido, sobretudo, pela discriminação que é feita aos seres humanos pelos mais variados motivos desde a cor da pele, ao nível social, religião e convicções, em geral, nacionalidade, etc etc. Essa discriminação é uma tendência das sociedades, que cumpre combater, até porque, muitas vezes, ironicamente essas sociedades vem a ser prejudicadas por essa discriminação.

Deve ser um combate permanente, pois, infelizmente, a discriminação tende a renovar-se a cada geração. Uma forma de a combater é conhecer a História e verificar os sofrimentos que foram infligidos a tantos seres humanos, a maior parte das vezes com terrível crueldade. Por isso relembraremos alguns factos.

No caso concreto da História de Portugal não faltam os exemplos de que foram vítimas os povos de crença ou raça diferente dos poderes instituídos. É certo que, no passado, a mentalidade e a cultura eram diferentes mas, infelizmente, nos dias de hoje eles repetem-se. No caso dos judeus, mal se saiu do holocausto nazi, já se ouve as arengas do presidente do Irão a querer destruir o Estado de Israel. Desgraçadamente, temos que contar, sempre, com estas “erupções” de ódio em todas as gerações.

Os judeus vieram, para a Península Ibérica, em tempos bastante remotos, possivelmente já no séc. IX a.C. com a vinda dos fenícios (um povo semítico da sua região) e com os cartagineses e gregos no séc. VI a.C.(destruição do 1º templo e exílio na Babilónia). O fluxo de judeus ter-se-á repetido em eras posteriores, aquando das invasões dos seus Estados (Israel e Judah), como por exemplo, com Alexandre Magno (322 a.C.), destruição do 2º templo (70 d.C.) pelo Imperador romano Tito e expulsão dos judeus de Jerusalém, por Adriano (138 d.C.).

A título de curiosidade: os nomes de muitas cidades da Península Ibérica teriam nomes a sua origem origem em expressões hebraicas. Exemplos: Barcelona – Bar chelanu (a nossa costa); Sevilha – Shevil –yah (linha de Deus) , transformada mais tarde em Ishbilia, em árabe; Granada – Ger anat (colónia de peregrinos); mais tarde os árabes chamaram-lhe Garnatat-ul Yahud (Garnata dos judeus); Toledo - toledot (gerações) que inicialmente se chamou Taltel (desterro); Calatayud – Calat el yahud (castelo dos judeus, em árabe).

Os judeus tiveram a cidadania romana tal como os outros povos que Roma submeteu. (legislação de Caracala - 211-217). Viviam nas urbes como nos campos e dedicavam-se à agricultura (sobretudo vinho) ao comércio, aos ofícios e á navegação nas costas africanas .

Há 3 factos importantes a salientar na presença dos judeus na Península Ibérica:

1º - Os judeus eram, então, o único povo de religião monoteísta (no início não existia nem o Cristianismo nem o Islamismo).
2º - Os judeus nunca exerceram o poder temporal, apesar de serem numerosos.
3º - Os judeus nunca quiseram impor a sua religião aos outros (não faziam proselitismo) e sempre respeitaram os povos que os acolhiam e, até, os dominavam.

A História da relação entre os judeus e os povos de outras religiões teve sempre, ao longo dos séculos, uma alternância de períodos de ódio e perseguições ferozes com períodos de acalmia e profunda colaboração, que, aliás, e mostrou sempre benéfica para todos.

Com o advento do Cristianismo a situação começou a modificar-se. Logo no tempo dos apóstolos Paulo e Santiago a religião de Cristo começou a chegar à Península. A Igreja sofreu bastantes perseguições nos primeiros tempos da sua existência por parte dos romanos (Diocleciano, séc. III). Nos primeiros tempos do Cristianismo houve um clima de amizade entre judeus e cristãos (em grande parte de origem judaica antes da conversão de Roma). No entanto, e apesar disso, o clima de intolerância da Igreja não tardou a manifestar-se (concílio de Elvira 303 a 404 d.C, reunido em Granada) que tomou diversas medidas impedindo, sob pena de excomunhão, todo o convívio dos cristãos com judeus (não comer juntos, não casar, etc,) possivelmente com receio de uma “contaminação” ideológica. Estas medidas revelam que a população judaica devia ser bastante numerosa.

A partir do princípio do séc. V, a Península foi invadida pelos Suevos, Vândalos e Alanos povos bárbaros e logo a seguir pelos Visigodos. Governaram a sangue e fogo. Em relação aos judeus a situação agravou-se, a partir de 587, com a conversão do rei visigodo Recaredo que, perante o III Concílio de Toledo abjurou a fé ariana e adoptou a fé cristã. Novas medidas foram tomadas contra os judeus.. Essa política foi seguida por outros reis o que provocou a fuga de muitos judeus para França e para a Àfrica do Norte. Em finais do séc. VII os que haviam ficado, fartos do tratamento que recebiam, planearam uma subversão geral apoiada pelos seus correligionários de várias tribos berberes do Norte de África.

Esses planos foram descobertos e os judeus tornados escravos. Contudo, o poder dos visigodos chegava ao fim, em especial, quando Rodrigo, o seu último rei, usurpou o trono das mãos de Witiza provocando inúmeras divisões e uma grande vulnerabilidade à invasão muçulmana.

Com efeito, em 711 dá-se a invasão de um exército de quase 7.000 muçulmanos, quase todos berberes sob comando de Taric Ibn Zyiad (o que deu o nome a Gibraltar, Gabal Taric – o monte de Taric) logo seguido por 5.000 homens comandados por Musa ibn Nosair que acabou por aniquilar os visigodos derrotados na batalha de Guadalete, onde Rodrigo morreu. Grande número de soldados judeus participou nestes combates do lado muçulmano.

No início do seu domínio, os muçulmanos demonstraram grande tolerância perante povos de outras religiões. Os judeus recuperaram, então, a maior parte das suas liberdades. (tinham de pagar a gyzia, imposto que era devido pelos dhimma (protegidos). Em 756 Abdul-Rahman o “Justo”, sobrevivente da dinastia Omníada de Damasco, destronada pelos Abasidas fundou o Emirato ou Califado de Córdova.

A partir daí e em especial no reinado de Abdul-Rahman III (912-961) 8º emir independente de Córdova, os reinos muçulmanos atingiram o maior brilho. Foi uma época de ouro na civilização na Península Ibérica, que durou cerca de 300 anos. Toda esta época teve a participação dos judeus que adoptaram a língua árabe (e numerosas vezes traduziram várias obras para hebraico).

As famosas Academias Judaicas de Córdova tornaram-se nos mais importantes centros judaicos do Mundo rivalizando com os centros talmúdicos da Babilónia e de Toledo. Com os judeus, viveu-se uma idade de Ouro, na cultura (principalmente no campo da literatura e da poesia, em especial), das ciências (em especial das matemáticas e da medicina), da indústria e do comércio (sobretudo das sedas): os judeus desempenharam, também, importantes funções públicas, tais como as de grão-vizir (o equivalente a primeiro-ministro)., como foi o caso de Hasdai ben Isaac ben Sharput (915-970) que foi médico e grão-vizir.

Abdul Rahman III manteve, contudo, guerras sangrentas com os reis de Castela e Leão.

Com a morte de Al Mansur em 1002, a guerra civil que se lhe seguiu e a extinção da dinastia Omníada, o Califado desmembrou-se e dividiu-se em numerosos reinos. Isto constituiu um forte revés para os judeus que se dispersaram pelos diversos reinos, em especial no reino de Granada, onde Samuel Ishmael ben Nagrela (995-1055) assumiu a direcção das comunidades judaicas (Samuel Há-Naguid) e dirigiu os Negócios Estrangeiros, como vizir (ministro) de Al Kasim ibn Al-Arif, grão-vizir do rei Habus.

Já o filho de Samuel, que sucedera ao pai como vizir pereceu, crucificado, em 1066 às portas de Granada. AÍ começou a matança dos judeus. Sucedeu a época dos Almorávidas, que vieram a desenvolver uma Guerra Santa contra os Cristãos. Mais tarde, os judeus viveram melhores tempos com o rei almorávida Ali, sucessor de Ibn Tashfin (1106-1143) que voltou a rodear-se de conselheiros judeus, no campo da poesia, da medicina, da astronomia, na diplomacia, etc.

Quando o Império Almorávida foi conquistado por Abdul Mamen, almohada (Unitários) foi instaurado um clima de fanatismo e terror, o que chamaríamos hoje de fundamentalismo islâmico. Os almohadas preconizavam uma vida austera e Abdalla ibn Tuymmart, antecessor daquele, considerava-se Mahdi (Messias esperado pelos muçulmanos) e foi proclamado Imam-ul-Islam (vigário de Deus para todo o Islão). Aí de novo, os judeus eram obrigados a adoptar a religião islâmica ou morrer.

Em suma os muçulmanos dominaram uns 8 séculos em Espanha e uns 7 em Portugal.

Com a fundação de Portugal os judeus desempenharam um papel importante junto dos nossos reis, na 1ª dinastia. D. Afonso Henriques teve como conselheiro de estratégia militar Yahia ben Yaish e que foi nomeado Arrabi-Mor de Santarém onde havia uma comunidade judaica mais importante que a de Lisboa. Yahia ben Yaish terá morrido na batalha pela conquista de Alcácer do Sal. Os judeus viveram em Portugal com uma relativa tolerância durante a 1ª dinastia e com os primeiros reis da 2ª dinastia, desempenhando funções na medicina, na gestão das finanças reais, nas ciências (botânica, matemáticas, astronomia, navegação, etc.) . São conhecidos os nomes de Isaac Abravanel, Pedro Nunes, Abrahão Zacuto, Garcia de Orta, Ribeiro Sanches e, de muitos outros judeus.

Com a pressão do Clero e da Nobreza os reis começaram gradualmente a tomar medidas contra os judeus que atingiram o seu expoente máximo com a expulsão (logo impedida pelo Rei) em 1496 e a conversão forçada, com o massacre do Rossio em 1506 e instauração da Inquisição em 1536. Embora devesse ser mais conhecida, não me vou alongar sobre essa época negra da História de Portugal que durou mais de 300 anos.

Só com o Marquês de Pombal se começou a abrir as portas para a concessão de oportunidades iguais a todos os cidadãos e o fim da discriminação dos vários credos.
Com efeito acabou-se com a distinção entre cristãos novos e cristãos velhos abolindo-se o impedimento de aqueles ocuparem funções públicas. Com a extinção formal da Inquisição em 1821 concedeu-se a liberdade de culto aos cidadãos estrangeiros (dada a união Estado/Igreja). Só com a implantação da República. Se tornou possível ser português e judeu e ter liberdade de culto.

Com a revolução de 1974 abriu-se uma nova era para o estabelecimento de legislação para a concessão da liberdade religiosa. Não se trata apenas de tolerância (que pressupõe uma certa superioridade em relação ao outro) perante os diversos credos. É preciso, sobretudo, respeito, porque isso já coloca as pessoas num plano de igualdade que se deseja.

A liberdade religiosa, que felizmente já se pratica, entre nós, é preciso ser adoptada pela mentalidade de cada um. E é preciso, para isso, que se conheça a História para estarmos prevenidos dos altos e baixos por que estes ideais passam e que podem causar tanto prejuízo à Humanidade. Devemos saber que nunca podemos estar tranquilos quanto aos riscos da alternância da liberdade religiosa com os períodos de perseguições.

Termino com as palavras de Jorge Sampaio que, como Presidente da República, as pronunciou na Sinagoga de Lisboa em 2002:
A nossa vocação universalista reforçou-se sempre nos períodos de tolerância e recuou nos períodos de intolerância. Nos primeiros, Portugal progrediu e afirmou-se, nos segundos decaiu e negou-se. (Jorge Sampaio, Presidente da República, 2002)

Samuel Levy

Dísticos coloridos para Políticos

Os jornais noticiaram hoje que o Ministério da Administração Interna está a estudar a criação de um sistema de atribuição de dísticos coloridos aos condutores de acordo com o número de acidentes que já tenham provocado. Apesar de ninguém explicar o que fazer quando o automobilista não é proprietário do veículo que conduz, a notícia é inspiradora. Penso mesmo que o conceito pode ser levado mais longe. Imagine-se um sistema semelhante aplicado aos nossos políticos.

Tal como para os automobilistas, também aqui teríamos dísticos de três cores distintas que seriam exibidos sempre que a figura política em causa aparecesse em público, para que os cidadãos pudessem facilmente identificar os políticos que mais estragos provocam.

Atribuir-se-ia um dístico de cor verde aos políticos de risco mínimo, isto é, aqueles que nos últimos três anos não estiveram na origem de nenhuma escandaleira, ou que nos últimos dez anos não tenham sido os impulsionadores da construção de nenhuma rotunda em qualquer autarquia.

O segundo nível, o do político de risco médio, seria identificável, por um dístico amarelo. Os políticos que circulassem com este símbolo seriam obrigatoriamente aqueles que: no último ano tiveram responsabilidade na viciação da admissão de pelo menos duas pessoas na Função Pública (cargos de assessores ou consultores bem remunerados!); os que foram declarados culpados por tráfico de influências em pelo menos três processos judiciais nos últimos cinco anos; os que mudaram de cor partidária pelo menos uma vez nos últimos dez anos.

Por fim surgiriam os políticos de risco máximo, identificados com a cor vermelha. Estes seriam os que já tivessem provocado a sua própria demissão de cargos no Governo (da República ou Regionais), e que nos últimas dez anos as suas alegadas actividades ilícitas tivessem sido denunciadas em pelo menos 4 ocasiões pela comunicação social. Também se incluiriam nesta categoria os responsáveis por tentativas de assassinato político, e aqueles que tivessem pelo menos duas ligações pouco claras ao mundo do futebol ou a empresas de construção civil.

Neste momento isto é apenas um draft; claro ainda vou arranjar aí uns amigos para formar uma empresa de consultoria (com nome em inglês, pois claro!) e vamos formalizar isto tudo num Powerpoint com estilo. Mas entretanto, devo sossegar os eventuais políticos que lêem este blog: neste sistema, a reclassificação deverá ser possível mediante as “travessias do deserto” em conselhos de administração de empresas públicas, cargos de embaixador em organismos internacionais, ou como professor convidado em universidades privadas.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Os Filhos do Profeta sem Rosto


Por Mário Robalo, Expresso, 01-Novembro-1986

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Estão em Portugal como estiveram com João Paulo II em Assis: adorando um profeta cujo rosto não conhecem e pregando a paz e o universalismo. São os bahá'ís, perseguidos no Irão como espiões e aceites na ONU como interlocutores
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A humanidade «exige que as Grandes Potências resolvam, para a tranquilidade dos povos da terra, reconciliar-se plenamente entre si(...) Ajustai as vossas diferenças e reduzi os vossos armamentos (...) Isto assegurará a Paz e o sossego de cada povo, governo e nação».

Esta mensagem poderia ser parte do conteúdo de uma petição endereçada aos actuais líderes das duas superpotências que, em Reykyavik, mais uma vez não conseguiram chegar a um acordo. Mas não é. Curiosamente, estas palavras foram escritas há quase um século por um persa chamado Mirzá Husayn-Ali, que se proclamou encarregue do estabelecimento da verdadeira religião[1]. Actualmente denominado «profeta Bahá'u'lláh» (a glória de Deus) pelos seus quatro milhões de seguidores, este homem anunciou «o princípio evolutivo da religião», dizendo-a «revelada por etapas, de acordo com as necessidades de cada época e capacidade dos povos».

Mas antes da fé bahá'í ter sido introduzida em Portugal, já Eça de Queirós escrevia em Ccorrespondência de Fradique Mendes: "E Fradique, com toda a singeleza, confessou que se demorara tanto nas margens do Eufrates, por se achar casualmente ligado a um movimento religioso que, desde 1849, tomava na Pérsia um desenvolvimento quase triunfal e que se chamava babismo»". Não deixa porém de ser interessante referir que Eça de Queirós era conhecedor dos princípios que enformam a fé bahá’í. De tal modo que, neste mesmo livro, ele «interroga-se» se não deveria aventurar-se com Fradique «nessa campanha espiritual», tanto que seria mais nobre «encetar no Oriente uma carreira de evangelista» do que «banalmente recolher à banal Lisboa, a escrevinhar tiras de papel, sob um bico de gás, na ‘Gazeta de Portugal’»

Não tendo enveredado pelo apostolado Bahá’í, em 1926, porém, e conforme noticiaram os jornais da época, Lisboa parecia receptiva às palestras que duas missionárias proferiram no Clube Rotário. E dado o sucesso destas conferências, o «Diário de Notícias» e o «Diário de Lisboa» apressaram-se a solicitar entrevistas às duas mulheres que, perante a admiração geral, anunciavam «o estabelecimento de uma comunidade mundial» na qual desapareceriam «as rivalidades nacionais (...), as causas de lutas religiosas (...), e a grande acumulação de propriedades».

Sensivelmente vinte anos após esta primeira proclamação da fé bahá’í, fixavam-se no país – concretamente em 1947 – os primeiros «pioneiros». E dois anos mais tarde, em Lisboa, formava-se a primeira Assembleia Espiritual Local. Mas o governo de Salazar não permitiu a sua legalização. Desta forma, alguns crentes viram as suas casas devassadas pela polícia política. Só em 1975, após várias tentativas, os bahá’ís foram reconhecidos oficialmente como comunidade religiosa.

Com cerca de dois mil membros, a organização bahá’í portuguesa é actualmente governada por uma Assembleia Espiritual Nacional composta por nove membros eleitos todos os anos pelos delegados de vinte e oito Assembleias Locais, dispersas por todo o país.

Perseguição e extermínio

Recusando «entrar na arena da política partidária» por considerarem-na «prejudicial aos melhores interessas da Fé», os bahá'ís portugueses apresentaram, recentemente, um relatório ao Provedor de Justiça no qual denunciam as perseguições feitas contra os seus irmãos de fé no Irão. Esperam, desta forma, que Almeida Ribeiro, na sua qualidade de relator especial da Comissão de Direitos Humanos da ONU, interceda junto deste organismo pelos cerca de trezentos mil crentes bahá’ís que têm vindo a ser privados dos mais elementares direitos, quando não são executados sumariamente – tal como relatam e confirmam diversas resoluções do Parlamento Europeu e da Comissão de Direitos Humanos da ONU a que tivemos acesso.

Mas o primeiro-secretário da Embaixada do Irão em Lisboa, Bahadourvand, nega que alguém no seu país seja preso por causa das suas convicções religiosas. Reconhece, contudo, que «alguns elementos dessa seita foram presos por constituírem uma força de pressão com interesses anti-nacionais». Este diplomata afirmou mesmo que «eles (os bahá’ís) foram o maior suporte da Savak, a polícia secreta do Xá». Por sua vez, os bahá’ís negam tal acusação, afirmando que «tão fundamental é o princípio de não aceitarmos cargos políticos que, num único caso sob o regime de Pahlevi, quando um bahá'í foi nomeado para ministro, teve de imediato a sua expulsão decretada pela comunidade».


Mas não é somente após a chegada do ayatollah Khomenei ao poder que a comunidade bahá’í é perseguida. Desde 1847, altura em que Bahá'u'lláh iniciou a sua pregação, anunciando-se o último dos mensageiros de Deus[2], que as autoridades persas vêm promovendo a intolerância contra o seus seguidores . E a propósito, a literatura distribuída pelo movimento justifica: «o clero muçulmano do Irão, sentindo-se ameaçado por ideias que lhe contestavam a autoridade e o poder, exigiu insistentemente o extermínio dos Bahá’ís.»

Um governo mundial

Afirmando ser o descendente espiritual dos profetas das principais religiões (hinduísmo, judaísmo, zoroastrismo, budismo, cristianismo e islamismo) Bahá'u'lláh foi banido pelos governos da Pérsia e da Turquia que lhe decretaram sucessivos exílios. O último exílio que o «profeta» cumpriu foi na prisão de ‘Akká, na baía de Haifa, onde permaneceu até 1892, altura em que faleceu[3]. É ali, na sede internacional do movimento baha’i, que se encontra a única fotografia de Bahá'u'lláh, a qual não pode ser reproduzida «para que não exista o perigo de se vir a propagar um culto de adoração personificada, o que iria contra os nossos princípios»[4], dizem-nos os responsáveis portugueses.

A mensagem de Bahá'u'lláh preconiza a existência de «uma vasta assembleia que abranja todos os homens», por forma a poderem ser lançados «os alicerces da grande paz mundial». Reclamando a necessidade de um entendimento de todas as nações, para tornar possível o aparecimento de um governo mundial que detivesse poderes legislativos e executivos, Bahá'u'lláh reafirmou ainda que todas as matérias primas «pertencem à comunidade internacional». Conforme afirmam os dirigentes baha'is portugueses, ele sempre «pugnou por uma planificação a nível mundial, da produção do consumo e modo a eliminar a acumulação de riqueza apenas por parte de alguns países»[5].

Dos princípios e leis da fé baha’i que se encontram dispersos em mais de cem volumes, escritos pelo «último mensageiro de Deus» durante quarenta anos de exílio e cativeiro, destacam-se: a abolição de «quaisquer preconceitos, sejam de religião, raça, de pátria ou de política», porque «enquanto não forem eliminados o progresso do mundo será impossível»; a igualdade entre homem e mulher: «o mundo possui duas asas – o homem e a mulher. Enquanto estas duas asas não forem igualmente firmes, o pássaro não voará»; «ampliação das invenções humanas e desenvolvimento técnico; e exploração dos recursos do planeta ainda não utilizados».

Mas Bahá'u'lláh procurou também cativar homens influentes a nível internacional para a sua doutrina universalista. E a forma que encontrou foi o envio de mensagens pessoais. Primeiramente escreveu uma carta colectiva «aos reis da terra». Nela solicitava-lhes que governassem «com a mais meticulosa justiça» e conciliassem nas dissensões. «até poderem dispensar os exércitos». Posteriormente enviou cartas individuais a Napoleão III, ao Papa Pio IX, à rainha Vitória de Inglaterra e ao czar Alexandre solicitando a este último «colaboração para estabelecer entre os povos o Reino de Deus». A Napoleão III explicou que a sua missão consistia em «unificar a espécie humana»; asseverou «ser necessário abandonar a força» e que «os monges deveriam deixar os mosteiros, casar e participar na vida do povo». Por sua vez, na carta dirigida a Pio IX, escreveu: «Vende todos os elaborados ornamentos que possuis e despende-os no caminho de Deus». Incitou ainda o sumo pontífice a abandonar o seu «reino», numa clara alusão ao Vaticano.

Lideres Infalíveis

Convictos que no futuro estabelecimento de uma nova ordem mundial «a ciência e a religião, as duas forças mais poderosas da vida humana, cooperarão mutuamente e harmoniosamente se desenvolverão», os baha’is têm actualmente todas as suas actividades coordenadas pela Casa Universal de Justiça, sediada em Haifa, e cujo membros são considerados infalíveis em matéria de fé[6]. Segundo 'Abdu'l-Bahá, filho do «profeta», os membros deste órgão central devem «deliberar sobre todos os problemas que causam diferenças, questões obscuras (...). E aquilo que esse corpo decidir (...) é verdadeiramente a Verdade e o propósito de Deus».

Entre outros princípios, e tendo em conta a sua doutrina de unidade universal, os bahá'ís necessitam de ter o consentimento dos pais para se casarem. Se os progenitores de algum dos membros se opuserem à celebração do matrimónio, este não se poderá efectuar. Por outro lado, o divórcio só é permitido após o casal se separar durante um ano, considerado necessário para que ambos reflictam se pretendem ou não separar-se. Proibidos de se envolverem na vida política do seu país, os crentes têm o dever de respeitar «os pontos de vista daqueles que representam a autoridade». Contudo, não lhes é vedada a participação em actividades sindicais. Refira-se ainda que os ensinamentos do «profeta» não permitem aos baha’is ingerirem qualquer bebida que contenha álcool.

A Comunidade Internacional Bahá'í está acreditada, como organização não governamental junto do Conselho Económico e Social da ONU e da UNICEF. Está ainda associada ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e ao Departamento de Informações Públicas das Nações Unidas, com representações em Nova Iorque, Genebra, Viena e Nairobi. Todo este empenhamento, segundo os dirigentes portugueses, «faz parte da essência» da sua fé, através da qual acreditam «que a religião progressiva contribuirá permanentemente para o aperfeiçoamento do ser humano e consequentemente da ordem mundial».

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COMENTÁRIO
Passam hoje vinte e um anos sobre a publicação deste artigo. De certa forma foi um momento que assinalou um início de uma maior visibilidade pública da Comunidade Bahá'í de Portugal. Como o próprio Mário Robalo contou, até essa altura ninguém tinha ouvido falar dos baha’is no Expresso. O texto aqui transcrito (e cujas as frases a bold estão conforme o original) reflecte naturalmente a imagem que os bahá’ís conseguiram passar, e aquilo que o jornalista captou e considerou relevante no manancial de informação que lhe foi transmitido.

O que se seguem são algumas observações sobre aspectos do texto que não estão totalmente correctos.
[1] – A fé Bahá'í não se considera “a verdadeira religião”; esse sentimento de exclusividade está ausente das Escrituras Bahá’ís. Isso equivalia e negar o valor e a veracidade das outras religiões, facto que seria contrário aos ensinamentos bahá'ís. O mais correcto seria dizer que os bahá'ís consideram a sua religião a mais adequada aos dias de hoje.
[2] – Bahá'u'lláh nunca se proclamou “o último Mensageiro de Deus”; segundo os ensinamentos bahá’ís, Ele é o mais recente. No futuro, surgirão outros Mensageiros.
[3] – Bahá'u'lláh não faleceu na prisão de ‘Akká, mas sim na sua residência em Bahji. Na prisão de ‘Akká esteve pouco mais de dois anos. A Sua estadia na residência de Bahji – já no final da Sua vida – era uma espécie de “prisão domiciliária”.
[4] – A não divulgação de fotografias de Bahá'u'lláh é, acima de tudo, uma atitude de reverência e respeito pela pessoa do Manifestante. Alguns baha’is possuem fotos de Bahá'u'lláh mas nunca as mostram em público e apenas as mostram a outros crentes em ocasiões muito especiais. Em relação às fotografias de 'Abdu'l-Bahá (o filho de Bahá'u'lláh) não existem restrições, mas apenas recomendações para que estas sejam exibidas de forma digna.
[5] – Um sistema centralizado de planificação mundial da produção seria obviamente um absurdo. Esta ideia não faz sentido mesmo no contexto da criação de um governo mundial.
[6] – A questão da infalibilidade acabou por ser o tópico mais polémico deste artigo. A infalibilidade da Casa Universal de Justiça foi decretada por Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá; não é um dogma criado pelos crentes. Aplica-se apenas às competências definidas para esta instituição (legislação sobre temas omisso nas Escrituras e interpretação dos Textos Sagrados). No entanto, a infalibilidade da instituição não significa que os seus membros individuais também sejam infalíveis. Sobre este assunto ver o artigo The Infallibility of the Universal House of Justice.