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Feliz Ano Novo!Não... a sério!
Como lidar o Ano Novo?
No que diz respeito à celebração do feriado cristão pelos crentes, é certamente preferível e mesmo altamente aconselhável que os amigos devem, em relação a estes, deixar de observar tais feriados como o Natal e o Ano Novo, e que tenham os seus encontros festivos desta natureza durante os Dias Intercalares e o Naw-Rúz ....Ummmmm...
(Shoghi Effendi, Directives from the Guardian, p. 38)
Para ser franco, tenho imensos de problemas com o Naw-Rúz. Não me parece bem. Não parece Primavera, muito menos o início do ano. Embora os festivais do equinócio da Primavera seja oriundos da antiguidade remota, o equinócio da Primavera nunca me pareceu um bom momento para iniciar o ano. O que se pode começar nesse momento? Sendo eu oriunda do norte do país espero que, em Março, haja neve no chão (muito provavelmente haverá). A geada é uma possibilidade real e a terra dificilmente se pode trabalhar. Na minha cidade, em Março ainda é inverno independentemente do que as estrelas digam. Celebrar o Ano Novo no primeiro dia da Primavera é esquisito.
Vamos parar por momentos e olhar para o céu. Existem quatro eventos astronómicos que assinalam os quatro trimestres do ano - equinócio da primavera, solstício de verão, equinócio de outono e solstício de inverno. Conhecê-mo-los como os primeiros dias de cada estação; caem à volta do dia vinte e um de Março, Junho, Setembro e Dezembro, respectivamente. Mas estes eventos estão apenas ligeiramente relacionados com o ano agrícola; este depende de uma ampla variedade de factores, incluindo a latitude, o clima, a precipitação, e assim por diante.
Os antigos habitantes do Médio Oriente eram agricultores. Naturalmente, consideravam que o plantio atempado como sendo de imensa importância e fariam tudo para garantir o sucesso de uma colheita. Não é difícil perceber como a estação rapidamente atingiu um significado religioso. Resquícios desta tradição persistem em diversos dias sagrados que estão associados ao equinócio da Primavera – Páscoa cristã , Páscoa judaica, e Naw-Rúz entre estes. A Igreja Católica continuou a assinalar a Páscoa como início do ano até à Idade Média.Por outro lado, os antigos britânicos consideravam que o Ano Novo ocorria no equinócio de Outono. Alem disso, existem quatro dias no calendário judaico designados como “ano novo”, mas o ano começa oficialmente no Rosh Hashaná, quando termina a época seca e a chuva permite a actividade agrícola. O Ano Novo chinês ocorre entre 21 de Janeiro e 20 de Fevereiro. Há provavelmente muitos outros que não consigo indicar. O calendário islâmico é plenamente lunar, o calendário hebraico luni-solar e, como sabemos, o calendário Bahá'í é solar.
Feliz…ummmm… Ano Novo?
É fácil perceber por que razão os Bahá'ís não devem celebrar o Natal; presumivelmente é um dia sagrado cristão. Mas o Natal em si é uma síntese, pois colocou o nascimento de Cristo no mesmo dia que o Sol Invictus, o feriado do solstício dos antigos romanos. Da mesma forma, o Naw-Rúz Bahá’í traz consigo um dia sagrado da antiga da Mesopotmia, que provavelmente tinha muito a ver com o calendário agrícola
Sinceramente, eu realmente não compreendo a ênfase em evitar Ano Novo, excepto talvez para proteger os Bahá'ís da tentação de beber! Mas os Bahá'ís nos Estados Unidos também comemoram o Quatro de Julho, Dia de Acção de Graças, o Memorial Day, Halloween, os aniversários da família, e toda uma série de outros, desde o Dia dos Namorados até ao Dia do Trabalhador. O objectivo de evitar o feriado do Ano Novo será para impedir os Bahá'ís de celebrar o Ano Novo duas vezes? Então e todos os outros? Ainda posso celebrar o St. Patrick's Day? Pode um alemão posso celebrar o Oktoberfest em Cincinnati? É suposto que apenas devemos celebrar Será que apenas podemos celebrar os Dias Sagrados e não os feriados? Certamente que não estamos destinados a ser tristonhos, pois não?
Há aqui um aspecto cultural. A citação acima referida refere “Natal” e “Ano Novo” numa única frase. Quantos de nós associam a expressão “Feliz Ano Novo” com “Feliz Natal”? Apesar do Natal e do Ano Novo estarem associados por causa dos Doze Dias de Natal, que vão desde o dia 25 de Dezembro a 6 de Janeiro, estes realmente não estão relacionados entre si. A décima segunda noite – Dia de Reis no calendário da Igreja – é segundo a tradição, o momento da chegada dos Reis Magos.
Na Idade Média, as tradições da Saturnália de troca de oferendas e grandes festejos foram transferidas para a décima segunda noite, e assim permaneceram até ao Renascimento. Em última análise, o Ano Novo não tem nada a ver com o Natal; é uma questão de proximidade, não de natureza. O ano Romano começava em 1 de Janeiro. É lógico que os romanos daqueles tempos gostassem de celebrar o início do ano de muitas maneiras: ficando acordados até tarde, cantando, e beijando-se à meia-noite... O Naw-Rúz é assim, um costume estrangeiro, com formas estranhas de celebração (tabuleiros com sementes de erva germinada em casa, ovos, livros sagrados, etc.)
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Para os romanos (isto é, os Ocidentais), o Ano Novo e outros dias feriados (S. Valentim, "o dia do amor"; St. Patrick's "O Dia para comemorar o ser irlandês", o 4 de Julho "ser americana", e tudo o que você tenha) são uma parte intrínseca da nossa cultura. Se nos propomos proteger a diversidade cultural, talvez deva deixar de Ano Novo em paz. Podemos ter ambas as coisas? Penso que sim. No fundo os católicos estão familiarizados com o conceito de Dia Santo (aqueles em que é exigida a presença na Missa). Quando eu era criança ia à missa no Dia de Todos os Santos, mas na véspera ia brincar ao Hallowen. Talvez possamos pensar no Ano Novo como pensamos o Natal; um dia para celebrar com aqueles que não celebram os nossos dias. Podemos divertir-nos do 31 de Dezembro e celebrar o 21 de Março.
É claro, este Ano Novo coisa é apenas uma das coisas estranhas do calendário Bahá'í que me custa compreender. O início do dia ao pôr do sol também é profundamente contra intuitivo. Há vinte e seis anos que sou Baha’i e quando tento explicar isto a outras pessoas digo que é semelhante ao “dia Judaico”. Uma amiga minha (que não é judia!) uma vez referiu-me que tudo isto depende se acreditamos que foi a luz ou as trevas que surgiram primeiro (livro de Genesis). Mas para os seres humanos faz pouco sentido começar o dia no momento de adormecer e não no momento de despertar. Se pudéssemos perguntar gatos e gambás, talvez eles nos ajudassem a esclarecer a questão. Nós acabámos com o problema ao decretar que o dia começa à meia-noite. Mas, para todos os efeitos práticos, o meu dia começa ao amanhecer.

Isto traz-nos de volta à nossa primeira pergunta: os Bahá'ís devem celebrar o Ano Novo no dia 1 de Janeiro? Eu celebro. Ficamos acordados até tarde, vemos as celebrações na Times Square, bebemos eggnog, cantamos e beijamo-nos à meia-noite. E no dia 21 de Março vamos a casa de alguém e recitamos orações.
Em última análise o meu argumento é o seguinte: o calendário bahá’í é um calendário religioso e o calendário gregoriano é um calendário secular. Ambos têm dias feriados. E no fundo, a escolha de um dia de “Ano Novo” é arbitrária. Talvez um dia alguém descubra como fundir as tradições Ocidentais e Persas (Zoroastriana?) ou rejeitem tudo isso e comecem algo de novo... Lembro ainda que Shoghi Effendi não disse como é que devíamos "ter... encontros estivos desta natureza". Parece-me que podemos ser flexíveis. Quer ficar acordado até à meia-noite de 31 de Dezembro? Porque não? Feliz Ano Novo.
Sugestão de Leitura:
O Sagrado e o Profano, Mircea Eliade.






























