sábado, 29 de dezembro de 2007

Feliz Ano Novo!

Kathleen Lehman assinou no Planet Baha’i um artigo muito interessante (e provocador!) sobre os Baha’is que celebram Ano Novo em 31 de Dezembro. Aqui fica a tradução.
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Feliz Ano Novo!

Não... a sério!

Como lidar o Ano Novo?
No que diz respeito à celebração do feriado cristão pelos crentes, é certamente preferível e mesmo altamente aconselhável que os amigos devem, em relação a estes, deixar de observar tais feriados como o Natal e o Ano Novo, e que tenham os seus encontros festivos desta natureza durante os Dias Intercalares e o Naw-Rúz ....
(Shoghi Effendi, Directives from the Guardian, p. 38)
Ummmmm...

Para ser franco, tenho imensos de problemas com o Naw-Rúz. Não me parece bem. Não parece Primavera, muito menos o início do ano. Embora os festivais do equinócio da Primavera seja oriundos da antiguidade remota, o equinócio da Primavera nunca me pareceu um bom momento para iniciar o ano. O que se pode começar nesse momento? Sendo eu oriunda do norte do país espero que, em Março, haja neve no chão (muito provavelmente haverá). A geada é uma possibilidade real e a terra dificilmente se pode trabalhar. Na minha cidade, em Março ainda é inverno independentemente do que as estrelas digam. Celebrar o Ano Novo no primeiro dia da Primavera é esquisito.

Vamos parar por momentos e olhar para o céu. Existem quatro eventos astronómicos que assinalam os quatro trimestres do ano - equinócio da primavera, solstício de verão, equinócio de outono e solstício de inverno. Conhecê-mo-los como os primeiros dias de cada estação; caem à volta do dia vinte e um de Março, Junho, Setembro e Dezembro, respectivamente. Mas estes eventos estão apenas ligeiramente relacionados com o ano agrícola; este depende de uma ampla variedade de factores, incluindo a latitude, o clima, a precipitação, e assim por diante.

Calendário MedievalOs antigos habitantes do Médio Oriente eram agricultores. Naturalmente, consideravam que o plantio atempado como sendo de imensa importância e fariam tudo para garantir o sucesso de uma colheita. Não é difícil perceber como a estação rapidamente atingiu um significado religioso. Resquícios desta tradição persistem em diversos dias sagrados que estão associados ao equinócio da Primavera – Páscoa cristã , Páscoa judaica, e Naw-Rúz entre estes. A Igreja Católica continuou a assinalar a Páscoa como início do ano até à Idade Média.

Por outro lado, os antigos britânicos consideravam que o Ano Novo ocorria no equinócio de Outono. Alem disso, existem quatro dias no calendário judaico designados como “ano novo”, mas o ano começa oficialmente no Rosh Hashaná, quando termina a época seca e a chuva permite a actividade agrícola. O Ano Novo chinês ocorre entre 21 de Janeiro e 20 de Fevereiro. Há provavelmente muitos outros que não consigo indicar. O calendário islâmico é plenamente lunar, o calendário hebraico luni-solar e, como sabemos, o calendário Bahá'í é solar.

Feliz…ummmm… Ano Novo?

É fácil perceber por que razão os Bahá'ís não devem celebrar o Natal; presumivelmente é um dia sagrado cristão. Mas o Natal em si é uma síntese, pois colocou o nascimento de Cristo no mesmo dia que o Sol Invictus, o feriado do solstício dos antigos romanos. Da mesma forma, o Naw-Rúz Bahá’í traz consigo um dia sagrado da antiga da Mesopotmia, que provavelmente tinha muito a ver com o calendário agrícola

Sinceramente, eu realmente não compreendo a ênfase em evitar Ano Novo, excepto talvez para proteger os Bahá'ís da tentação de beber! Mas os Bahá'ís nos Estados Unidos também comemoram o Quatro de Julho, Dia de Acção de Graças, o Memorial Day, Halloween, os aniversários da família, e toda uma série de outros, desde o Dia dos Namorados até ao Dia do Trabalhador. O objectivo de evitar o feriado do Ano Novo será para impedir os Bahá'ís de celebrar o Ano Novo duas vezes? Então e todos os outros? Ainda posso celebrar o St. Patrick's Day? Pode um alemão posso celebrar o Oktoberfest em Cincinnati? É suposto que apenas devemos celebrar Será que apenas podemos celebrar os Dias Sagrados e não os feriados? Certamente que não estamos destinados a ser tristonhos, pois não?

Há aqui um aspecto cultural. A citação acima referida refere “Natal” e “Ano Novo” numa única frase. Quantos de nós associam a expressão “Feliz Ano Novo” com “Feliz Natal”? Apesar do Natal e do Ano Novo estarem associados por causa dos Doze Dias de Natal, que vão desde o dia 25 de Dezembro a 6 de Janeiro, estes realmente não estão relacionados entre si. A décima segunda noite – Dia de Reis no calendário da Igreja – é segundo a tradição, o momento da chegada dos Reis Magos.

Na Idade Média, as tradições da Saturnália de troca de oferendas e grandes festejos foram transferidas para a décima segunda noite, e assim permaneceram até ao Renascimento. Em última análise, o Ano Novo não tem nada a ver com o Natal; é uma questão de proximidade, não de natureza. O ano Romano começava em 1 de Janeiro. É lógico que os romanos daqueles tempos gostassem de celebrar o início do ano de muitas maneiras: ficando acordados até tarde, cantando, e beijando-se à meia-noite... O Naw-Rúz é assim, um costume estrangeiro, com formas estranhas de celebração (tabuleiros com sementes de erva germinada em casa, ovos, livros sagrados, etc.)

(...)

Para os romanos (isto é, os Ocidentais), o Ano Novo e outros dias feriados (S. Valentim, "o dia do amor"; St. Patrick's "O Dia para comemorar o ser irlandês", o 4 de Julho "ser americana", e tudo o que você tenha) são uma parte intrínseca da nossa cultura. Se nos propomos proteger a diversidade cultural, talvez deva deixar de Ano Novo em paz. Podemos ter ambas as coisas? Penso que sim. No fundo os católicos estão familiarizados com o conceito de Dia Santo (aqueles em que é exigida a presença na Missa). Quando eu era criança ia à missa no Dia de Todos os Santos, mas na véspera ia brincar ao Hallowen. Talvez possamos pensar no Ano Novo como pensamos o Natal; um dia para celebrar com aqueles que não celebram os nossos dias. Podemos divertir-nos do 31 de Dezembro e celebrar o 21 de Março.

É claro, este Ano Novo coisa é apenas uma das coisas estranhas do calendário Bahá'í que me custa compreender. O início do dia ao pôr do sol também é profundamente contra intuitivo. Há vinte e seis anos que sou Baha’i e quando tento explicar isto a outras pessoas digo que é semelhante ao “dia Judaico”. Uma amiga minha (que não é judia!) uma vez referiu-me que tudo isto depende se acreditamos que foi a luz ou as trevas que surgiram primeiro (livro de Genesis). Mas para os seres humanos faz pouco sentido começar o dia no momento de adormecer e não no momento de despertar. Se pudéssemos perguntar gatos e gambás, talvez eles nos ajudassem a esclarecer a questão. Nós acabámos com o problema ao decretar que o dia começa à meia-noite. Mas, para todos os efeitos práticos, o meu dia começa ao amanhecer.

Fim de Ano no Rio de Janeiro
Isto traz-nos de volta à nossa primeira pergunta: os Bahá'ís devem celebrar o Ano Novo no dia 1 de Janeiro? Eu celebro. Ficamos acordados até tarde, vemos as celebrações na Times Square, bebemos eggnog, cantamos e beijamo-nos à meia-noite. E no dia 21 de Março vamos a casa de alguém e recitamos orações.

Em última análise o meu argumento é o seguinte: o calendário bahá’í é um calendário religioso e o calendário gregoriano é um calendário secular. Ambos têm dias feriados. E no fundo, a escolha de um dia de “Ano Novo” é arbitrária. Talvez um dia alguém descubra como fundir as tradições Ocidentais e Persas (Zoroastriana?) ou rejeitem tudo isso e comecem algo de novo... Lembro ainda que Shoghi Effendi não disse como é que devíamos "ter... encontros estivos desta natureza". Parece-me que podemos ser flexíveis. Quer ficar acordado até à meia-noite de 31 de Dezembro? Porque não? Feliz Ano Novo.


Sugestão de Leitura:
O Sagrado e o Profano, Mircea Eliade.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Como a Fé resiste à Descrença

Outro excerto do artigo Como a Fé resiste à Descrença (do jornalista André Petry, revista VEJA) onde se refere as transformações na identidade religiosa da população brasileira. O sombreado amarelo é da minha responsabilidade.
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Em maio passado, o instituto Datafolha fez uma pesquisa sobre religiosidade por ocasião da visita ao país do papa Bento XVI. A pesquisa relevou a dimensão impressionante da fé brasileira: 97% disseram acreditar na existência de Deus, 93% informaram crer que Jesus Cristo ressuscitou depois de morrer crucificado e 86% concordaram que Maria deu à luz sendo virgem. Com números tão possantes, não há dúvida de que o Brasil figura entre os países mais crédulos do mundo – e isso abre um paradoxo. São cada vez mais abundantes as descobertas científicas sobre a origem do universo e das espécies. Se a credulidade não se abala diante disso, é lícito questionar que talvez nenhuma prova científica, por mais sólida e contundente, seja capaz de reduzir a pó o teísmo, a crença no divino

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De 1940 a 1970, a turma dos brasileiros sem religião ficou praticamente do mesmo tamanho, atolada em menos de 1% da população. Nas últimas três décadas, saltou de 1,6% para 7,3% (gráficos e mapa ainda não disponíveis online). Os sem-religião já são o terceiro maior grupo, atrás de católicos e de evangélicos. Pelos dados do último censo, os sem-religião eram 12,5 milhões, mais que um Portugal inteiro. Não são todos ateus, é claro. Entre eles, há agnósticos, secularistas, céticos e até quem acredita em Deus, mas não pratica nenhuma religião. O IBGE não pergunta aos entrevistados se são ateus ou não. Calcula-se, no entanto, que os ateus sejam uns 2%. Nos Estados Unidos, eles oscilam nessa faixa, mas os sem-religião de lá chegam aos 15%. No mundo, os ateus são uns 4%. São poucos, sobretudo se comparados aos bilhões de cristãos, muçulmanos e judeus, para ficar apenas nas três grandes religiões monoteístas, mas é uma massa crescente, principalmente nos países desenvolvidos. Na Espanha, Alemanha e Inglaterra, menos da metade da população acredita em Deus. Na França, os crentes não chegam a 30%.



Entre os brasileiros sem religião, a maior curiosidade está na Bahia de Todos os Santos, terra onde frei Henrique de Coimbra rezou a mítica primeira missa, em 26 de abril de 1500. A Bahia, que abriga Nova Ibiá e seu esquadrão de sem-religião, é o terceiro estado com o maior contingente de brasileiros sem filiação religiosa. E Salvador, entre as capitais, é a campeã nacional: 18% dos soteropolitanos não têm religião. Considerando-se o país todo, os sem-religião são mais numerosos entre os homens e entre os brasileiros com menos de 55 anos. Não se sabe de onde eles vêm. É provável que venham do rebanho de católicos desgarrados. O Rio de Janeiro, por exemplo, é o estado menos católico do país e, simultaneamente, tem o maior pelotão de sem-religião. Também é certo que boa parte dos católicos está virando neopentecostal. Nas duas últimas décadas, à queda acentuada de católicos correspondeu uma alta igualmente acentuada de evangélicos – em especial da Igreja Universal do Reino de Deus, que, sendo uma voraz sugadora de fiéis e dízimos, se transformou em potência divina e comercial.

A raiz do fenômeno que irriga o crescimento de evangélicos e de sem-religião faz parte da mesma genealogia: os laços étnicos e culturais de boa parte dos brasileiros estão se desfazendo como resultado da modernidade – do que a modernidade traz de positivo, como o aumento da escolarização e a crescente profissionalização de certas camadas sociais, e do que traz de negativo, como a desestruturação das famílias e a favelização das metrópoles. "É a religião atuando como solvente", diz o professor Flávio Pierucci, da USP. Seus números apóiam sua percepção. Um laço étnico que se desfaz: entre os adeptos do candomblé, credo de origem africana, 40% são brancos. Outro: nos cultos afro-brasileiros há cerca de 100.000 negros, e nos cultos evangélicos os negros já são 1,7 milhão. Mais um: os brasileiros que trocam o catolicismo pelo neopentecostalismo estão dissolvendo um laço cultural e histórico, substituindo a religião fundadora do Brasil, herança que vem do fundo do passado colonial, por uma novidade na cena religiosa do país. É aí, nesse processo de dissolução, que crescem os ateus e os sem-religião.

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SOBRE ESTE ASSUNTO:
Brasil : Pesquisa mostra como a fé resiste à descrença
Dom Geraldo discorda que Salvador seja capital de menor fé do Brasil

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Vade-Retro, Ateu

Na edição desta semana da revista VEJA, é dado um destaque especial ao tema da religião e ao facto desta resistir num mundo cada vez mais marcado pela “descrença”. No artigo intitulado COMO A FÉ RESISTE À DESCRENÇA (do jornalista André Petry) encontra-se uma curiosa referência ao ateísmo no Brasil, acompanhada de uma sondagem (clique sobre a imagem para ampliar) não menos surpreendente. Aqui fica um excerto:

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(...)

Clique para ampliarÀs vésperas do Natal, quando 2,1 bilhões de cristãos vão comemorar os 2 007 anos do nascimento de Jesus Cristo, os católicos brasileiros seguem diminuindo ano após ano, como vem acontecendo desde 1940, mas ainda formam uma estupenda multidão: são quase 74% da população brasileira – o que equivale a mais de 130 milhões de fiéis. Com alguns disciplinados e praticantes e muitos displicentes e relapsos, os católicos do Brasil, com seu número espetacular, mostram o vigor da crença divina, a pujança da fé, a robustez de Deus – uma potência curiosamente dotada de todas as qualidades inversas às da humanidade, que é criada (e Deus é incriado), que é limitada (e Deus é ilimitado) e que é mortal (e Deus é imortal). Os números da fé no Brasil talvez sirvam como explicação para dois fenômenos. Explicam a resistência da religiosidade em um mundo marcado pela descrença e, ao mesmo tempo, o notável preconceito da maioria dos brasileiros em relação aos ateus. Faz sentido rejeitar alguém apenas porque não acredita em Deus?

"Faz todo o sentido", afirma a historiadora Eliane Moura Silva, professora da Universidade Estadual de Campinas e especialista em religião, ela própria uma atéia. "O brasileiro ainda entende o ateu como alguém sem caráter, sem ética, sem moral." É um entendimento que parece espalhar-se de modo mais ou menos homogêneo por todas as classes sociais. Recentemente, a historiadora deu duas aulas sobre ateísmo na Casa do Saber, instituição criada para eliminar lacunas intelectuais dos endinheirados de São Paulo, e a platéia teve uma reação adversa, quase hostil, às idéias ateístas. Antes, a neurocientista Silvia Helena Cardoso, doutora em psicobiologia pela Universidade da Califórnia, em Los Angeles, publicou um artigo num jornal de Campinas discutindo se os santos seriam esquizofrênicos, dada a freqüência com que tinham visões – ou alucinações. Recebeu tantas ameaças que resolveu abandonar o assunto. O professor Antônio Flávio Pierucci, da Universidade de São Paulo, especialista em sociologia da religião, explica o fenômeno: "Os brasileiros não estão habituados a se confrontar com a realidade do ateu". É o que leva os políticos – antes, durante e depois da eleição – a sempre dizer que ninguém é mais temente a Deus do que eles.

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COMENTÁRIO: De todos os brasileiros que conheço – incluindo vários familiares – uma das principais impressões que retenho é a imagem da tolerância e da religiosidade. Creio que isso forma parte do estereotipo que a maioria dos portugueses tem sobre os brasileiros. Por esse motivo o que me surpreende no texto e na sondagem da VEJA é o preconceito anti-ateu. É certo que não podemos dizer que o ateísmo seja uma religião; uma religião possui vários ensinamentos, e o ateísmo consiste num ensinamento: a não existência de Deus. Mas não vejo muitas diferenças entre o preconceito anti-baha’i, tão propagado no em países muçulmanos e este preconceito exposto nesta revista. Ambos são preconceitos religiosos, na medida em que sustentam a discriminação de pessoas com base numa (ou mais) convicções religiosas. Ambos são inaceitáveis.

Anselmo Borges, na Actual

Aqui fica o texto da entrevista de Mário Robalo com o teólogo Anselmo Borges publicada no passado sábado na Expresso-Actual. Os sombreados são da minha responsabilidade.
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O Ateísmo de Deus

Este livro “trata do futuro de Deus e da Humanidade”, escreve o teólogo católico Anselmo Borges na apresentação de Deus do Século XXI e o Futuro do Cristianismo (Campo das Letras), no qual reuniu pela primeira vez a reflexão de diferentes saberes – sociologia, neurobiologia, história, psiquiatria, entre outros

Apesar de todos os avanços tecnológicos e científicos, a questão religiosa permanece.

O ser humano é, pela sua própria constituição, um ser da pergunta. O Homem não pode deixar de perguntar pelo fundamento e sentido último de tudo. Ele é o ser da pergunta e, de pergunta em pergunta, mostra que está aberto ao Infinito, à questão de Deus enquanto questão. Há um mistério no mundo…

E Deus é apenas a figuração desse mistério?

A primeira categoria da religião não é Deus, mas o Sagrado, o Mistério, que se refere sempre ao Último que não podemos dominar, nem pelas palavras nem pelos conceitos. Por isso existem múltiplas figurações, múltiplos caminhos.

É partindo dessa premissa que na apresentação do livro, defende que o diálogo inter-religioso não pode resumir-se «a uma mera tolerância».

As religiões são perspectivas sobre o Mistério Último, mas nenhuma o possui. Todas são relativas, no duplo sentido: relativas na medida em que estão inseridas num determinado contexto histórico-social, e relativas no sentido em que estão em relação com o Absoluto. Se nenhuma religião, nem mesmo todas juntas, o possui, devem dialogar. É a partir desta compreensão que o diálogo inter-religioso não é mera tolerância religiosa, que pressupõe ainda uma superioridade de quem tolera o outro, considerado inferior. E nesse diálogo devem, também, participar os ateus, pois são eles quem mais facilmente denunciam a desumanidade das religiões e a superstição.

Mas as religiões têm separado a humanidade. Os fundamentalismos alimentam guerras em nome de Deus.

Desgraçadamente. O fundamentalismo deriva da concepção de que é possível dominar o fundamento. Ora nós estamos no fundamento, mas nenhuma religião, nenhuma filosofia, possui o fundamento. O perigo para a humanidade é as religiões pretenderem-se omnipotentes através da posse do fundamento. Mas isso é dogmatismo. E, repare, mesmo no âmbito da reflexão cristã já São Tomás de Aquino dizia que a fé se dirige ao Mistério e não ao dogma. Quando se pretende dogmatizar enregela-se esse Mistério Último, porque o fixamos, coisificamo-lo.

Também a ciência se pode tornar fundamentalista.

A ciência pode correr o perigo de pretender ter o monopólio da racionalidade e de ser o único caminho para a verdade. Então, não haveria outras perspectivas da realidade para lá das ciências experimentais. Ora, há múltiplas aproximações da realidade que nos transcende sempre: aproximação científica, religiosa, estética, etc..

Todavia a manipulação genética e as neurociências cada vez mais penetram no mistério do Homem…

O Homem não é redutível a processos físicos e químicos no cérebro. Permanecerá sempre o enigma: como é que se passa de processo cerebrais na terceira pessoa à vivência de si mesmo enquanto eu, na primeira pessoa. A pessoa, porque precisamente neste horizonte do Infinito, como dizia Kant, não se pode comprar nem vender. O grande perigo do cientificismo, para responder à questão, é pretender reduzir o Homem de tal maneira que perderia esta dignidade: já não seria Homem.

Coloca questões às religiões a propósito de um mundo cada vez mais multicultural em resultado da globalização. Qual o futuro das religiões?

O diálogo entre as culturas impõe-se, para haver futuro. É neste quadro que as religiões poderiam dar um contributo inestimável. O cristianismo e as restantes religiões têm futuro se e na medida em que se interessam pela Humanidade de modo activo, em ordem à sua dignificação. O diálogo inter-religioso não deve servir para missionar, mas para que juntos nos convertamos ao Mistério Último e, a partir daí, nos purifiquemos das nossas ideias religiosas. As diferentes religiões deviam reunir-se num concílio, universal, levando a Humanidade a reflectir sobre as grandes questões nos domínios da genética, das neurociências, dos recursos humanos, da energia, do trabalho, da economia, da justiça e da paz.

O que acaba de dizer não agradará às religiões que se anunciam como únicas detentoras de Deus.

Confundir Deus com poder é fundamentalismo. É preciso derrubar todos os ídolos para, no fim, ficar o encontro com Deus, Mistério Infinito, na mística.

O místico não é aquele que foge do mundo?

Pelo contrário. Aliás, é muito interessante observar que Jesus não olhou em primeiro lugar para os nossos pecados, mas para o sofrimento das mulheres e dos homens, e fez tudo para os aliviar. A mística tem de traduzir-se em compaixão pelos seres humanos. Particularmente pelos que sofrem. No futuro, ou há experiência mística autentica ou as religiões degeneram.

Porque se desviaram de Deus?

Exacto. Porque, repare: Deus é ateu. Deus não coloca a questão de Deus. Na autêntica perspectiva religiosa, e nomeadamente no cristianismo, Deus manifesta-se não por causa dele mas por causa das mulheres e dos homens e da sua felicidade. E por isso remete o Homem também para a autonomia. As igrejas têm dificuldade em aceitar a autonomia dos seres humanos. Falar de outro Deus é poder e domínio. Ora, uma religião ou é libertadora ou não serve para nada. É a isso que se chama salvação. Então, os crentes só têm de fazer o que Deus fez: interessarem-se pela Humanidade. E este é o grande culto a prestar a Deus.

E é nesse paradigma que situa também o cristianismo.

Uma religião opressora, que humilha o Homem, interpreta-se mal a si própria. Repare que Jesus, no capítulo 25 do evangelho de Mateus, diz que no «Juízo Final» - quando se refere à realidade última de cada pessoa e da História – não se perguntará por actos religiosos, por actos de culto, mas sim por coisas corpóreas, materiais: «Deste-me de comer, foste visitar-me à cadeia, vestiste-me…» Portanto, a relação do crente com Deus só se torna autêntica se efectivamente for uma dignificação de todos os seres humanos.

E as religiões têm futuro?

O cristianismo e todas as religiões só têm futuro se, a partir da entrega confiada ao mistério de Deus, se colocarem ao serviço da Humanidade e da salvaguarda da Criação.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

De Herodes para Pilatos

Noticias recebidas ontem do Cairo, referem que o Tribunal Administrativo do Cairo adiou pela 5ª vez o veredicto sobre os dois casos de Bahá'ís que estão impossibilitados de obter cartões de identidade devido à sua identificação religiosa. O Tribunal marcou a data de 22 de Janeiro para anúncio da sua decisão final.

Os processos arrastam-se desde 2004, e os juízes vêm argumentando a necessidade de mais estudos e análises dos casos. Lembro que os documentos de identificação no Egipto indicam a filiação religiosa de cada cidadão, mas esta identificação apenas permite o registo de três religiões (Islão, Cristianismo e Judaísmo); os Bahá'ís apenas pretendem escrever o nome da sua religião, ou não preencher este campo.

Como se costuma dizer em português, estes processos “andam de Herodes para Pilatos”. Com a informatização do sistema de cartões de identidade no Egipto, criou-se uma situação que discrimina algumas minorias religiosas. E para reverter a situação, alguma instituição do Estado tem ter a coragem de assumir publicamente que a situação actual é injusta e prejudica as minorias religiosas, nomeadamente os Bahá'ís.

Claro que numa sociedade islâmica, defender publicamente os direitos cívicos dos Baha'is é algo que exige coragem. E enquanto o Presidente, o Parlamento, o Governo, e os Tribunais parecem não ter essa coragem, os Baha’is do Egipto permanecem com um estatuto de não-cidadãos, uma forma de apartheid religioso comum as sistemas ditatoriais e aos tempos medievais na Europa.

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Sobre este assunto:
Bahai trial postponed for fifth time (Daily News Egypt)
Egypt religious freedom cases continued to 22 January (BWNS)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Mensagem de Natal

É a mais original que alguma vez vi.
Foi enviada pela tripulação da Apollo 8, na noite de 24 de Dezembro de 1968.



Tenham um Feliz Natal!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Difamação de Religiões e Direitos Humanos

Além das três resoluções sobre a situação dos Direitos Humanos em Myanmar, na Coreia do Norte e no Irão aprovadas, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma outra moção sobre o Combate à Difamação de Religiões (documento A/C.3/62/L.35). Esta resolução - que foi aprovada com 108 votos a favor, 50 contra e 25 abstenções - foi patrocinada por países membros da Organização da Conferência Islâmica e contou com a oposição dos países Ocidentais.

Será isto surpreendente? Talvez não... Afinal, já em Março, o Conselho dos Direitos Humanos tinha aprovado uma resolução semelhante onde se opunha à difamação do Islão. Também nessa altura os países ocidentais se opuseram.

O documento aprovado na passada terça-feira, e expressa profunda preocupação pelos estereótipos negativos da religião e manifestações de intolerância e discriminação em matéria de religião e de fé, ainda patentes em algumas religiões do mundo. O documento refere também que após o 11 de Setembro se assistiu à intensificação de uma campanha de difamação das religiões que resulta em actos de ódio intimidação, discriminação e coerção contra minorias muçulmanas, e apela a que sejam tomadas todas as medidas possíveis para promover a tolerância e respeito por todas as religiões e seus sistemas de valores.

A mesmo documento enfatiza que todos devem ter direito à liberdade de expressão, que esta deve ser exercida com responsabilidade, e consequentemente esta pode estar sujeita a limitações de acordo com a lei e o necessário respeito pelos direitos e reputação dos outros, protecção da ordem pública, protecção da saúde e da moral e respeito pelas religiões e crenças. Apesar da resolução referir a "difamação das religiões", o Islão é a única religião especificamente mencionada no texto.

A representante de Portugal, falando em nome da União Europeia, afirmou que concordava com a preocupação relativa a surtos de intolerância, discriminação e actos de violência baseados na religião ou na crença, assim como a intimidação e coerção motivadas pelo extremismo. No entanto, a União Europeia não considera o conceito de difamação das religiões como válido no contexto dos direitos humanos; as leis internacionais de direitos humanos destinam-se a proteger primeiramente os indivíduos, e não as religiões; em muitos países as religiões não possuem personalidade jurídica. Além disso a discriminação baseada em religião ou crença deve ser abordada sob todas as suas vertentes; não está confinada a uma religião especifica ou apenas a uma parte do mundo.

Apesar de concordar com o teor das palavras da representante de Portugal, esta resolução aprovada pela Assembleia Geral da ONU merece-me ainda dois comentários:

1 – Leis contra a blasfémia são na prática formas de censura impostas em regimes totalitários. A liberdade de expressão é um bem demasiado precioso para poder ser limitado por sensibilidades políticas ou religiosas. Pessoalmente, não gosto de ver as religiões insultadas; fico incomodado quando isso acontece. Mas ficaria ainda mais incomodado se existissem leis que proibissem o insulto a qualquer crença ou religião (incluindo a minha!).

2 – O facto desta resolução ter sido promovida por países da OCI, mostra bem a hipocrisia dos governantes desses países. Por acaso alguém ignora como são tratadas as minorias religiosas nos países islâmicos? Fariam melhor os países da OCI (sobretudo os países árabes!) se tomassem medidas que mostrassem exemplos de tolerância e respeito por outras religiões.

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SOBRE ESTE ASSUNTO:
Third Committee Approves three Country-Specific Texts on Human Rights (UN)
Islamic Bloc Scores 'Defamation of Religions' Resolution at UN (CNSNEWS.COM)
UN General Assembly adopts resolution against defamation of religions (JURIST)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Pela 20ª vez!

A Assembleia Geral da ONU, através da Terceira Comissão (Assuntos Sociais, Humanitários e Culturais) aprovou ontem três resoluções que referem a situação dos Direitos Humanos em Myanmar, na Coreia do Norte e no Irão. Estas resoluções foram alvo de múltiplas objecções de várias delegações que defendiam que o Conselho de Direitos Humanos era o fórum adequado para expressar estas preocupações.


As resoluções foram iniciativa de países ocidentais e receberam as tradicionais críticas dos regimes ditatoriais e de algumas "pseudo-democracias": os textos em causa eram tentativas de interferência em assuntos internos de Estados Membros, um acto contrário aos princípios estabelecidos na Carta das Nações Unidas, tinham motivações políticas e não mostravam verdadeiro interesse nos direitos humanos.

No caso da resolução sobre o Irão (documento A/C.3/62/L.43), é mencionada a repressão e perseguição fomentada pelo Governo Iraniano contra diversos grupos e organizações, nomeadamente, defensores de direitos das mulheres, media, sindicatos, e ainda minorias étnicas e religiosas incluindo os Baha'is. A resolução menciona que houve “ataques contra os Baha’is e contra sua fé nos media controlados pelo Estado, evidências cada vez mais fortes de esforços do Estado para identificar e monitorizar os Bahá’ís, e tentativas de os impedir de frequentar a universidade e de se sustentarem economicamente; houve também um aumento de casos de detenções e prisões arbitrárias”.

Explicando o sentido do seu voto, a representante do Brasil afirmou que se abstivera porque o seu Governo apoiava a consolidação do Conselho de Direitos Humanos como principal órgão das Nações Unidas para promover e proteger os Direitos Humanos. O Conselho deveria criar e estimular um espaço para abordar as violações dos direitos humanos, num espírito de cooperação e diálogo. No entanto, mencionou a sua preocupação pela situação no Irão, particularmente pela falta de liberdade de expressão, violência contra mulheres, e praticas cruéis de punição. O seu Governo também é contra a aplicação da pena de morte a menores de 18 anos.

Além disso, afirmou que o Brasil desaprova os actos de discriminação contra a Comunidade Baha’i, incluindo questões de consciência e restrições a alguns membros da comunidade no direitos à educação e ao trabalho. Acrescentou esperar que o Governo Iraniano aprofundasse o seu diálogo com o CDH e outros mecanismos de Direitos Humanos da ONU.

A representante de Portugal, falando em nome da União Europeia, afirmou que tinha votado a favor da resolução sobre o Irão, porque a comunidade Internacional não podia ficar em silêncio perante situações em que as violações eram graves e generalizadas, e onde o país em questão não desejava abordar a questão ou envolver-se num diálogo frutuoso. No Irão, as pessoas sofrem violações sistemáticas dos seus direitos humanos e liberdades fundamentais.

A representante portuguesa referiu ainda informações recolhidas por organizações não-governamentais que indica um “agravamento” das violações de direitos humanos ao longo do último ano, incluindo o uso de tortura, execuções públicas, execuções colectivas, apedrejamentos e execuções de menores de 18 anos. Também ocorrem muitas violações contra minorias, defensores de direitos das mulheres e restrições de liberdade de expressão.

Bani Dugal, a representante da Comunidade Internacional Baha'i nas Nações Unidas, declarou "estar feliz por ver que a Assembleia Geral, o órgão mais globalmente representativo da ONU, ter chamado mais uma vez a atenção para as condições em os Baha’is e outros grupos são confrontados com a opressão e perseguição promovidas pelo Governo Iraniano".

Desde 1985, esta é a 20ª vez que um organismo da ONU aprova uma resolução onde se refere a situação dos baha’is no Irão.

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Como nota de curiosidade fica aqui a posição dos países que participaram na votação (72 votos a favor; 50 contra; 55 abstenções).

A FAVOR: Albânia, Andorra, Argentina, Austrália, Áustria, Bahamas, Bélgica, Belize, Bósnia e Herzegovina, Bulgária, Burundi, Canada, Chile, Costa Rica, Croácia, Chipre, Republica Checa, Dinamarca, El Salvador, Estónia, Fidji, Finlândia, França, Alemanha, Grécia, Honduras, Hungria, Islândia, Irlanda, Israel, Itália, Japão, Letónia, Libéria, Liechtenstein, Lituânia, Luxemburgo, Malta, Ilhas Marshall, México, Micronésia, Moldava, Mónaco, Montenegro, Nauru, Países Baixos, Nova Zelândia, Noruega, Palau, Panamá, Paraguai, Peru, Polónia, Portugal, Roménia, Saint Kitts and Nevis, Samoa, São Marino, Sérvia, Eslováquia, Eslovénia, Espanha, Suécia, Suíça, Macedónia, Timor-Leste, Tonga, Tuvalu, Ucrânia, Reino Unido, Estados Unidos, Vanuatu.

CONTRA: Afeganistão, Argélia, Arménia, Azerbaijão, Bahrain, Bangladesh, Bielorússia, China, Cômoros, Cuba, Coreia do Norte, RD Congo, Djibuti, Egipto, Gâmbia, Guiné-Conakri, Índia, Indonésia, Irão, Kasaquistão, Kuwait, Kirguizistão, Líbano, Líbia, Malásia, Marrocos, Myanmar, Nicarágua, Níger, Oman, Paquistão, Qatar, Federação Russa, Arábia Saudita, Senegal, Somália, África do Sul, Sri Lanka, Sudão, Síria, Tadjiquistão, Togo, Tunísia, Turquemenistão, Uganda, Uzbequistão, Venezuela, Vietname, Iémen, Zimbabwe.

ABSTENÇÕES: Angola, Antigua e Barbuda, Barbados, Benin, Butão, Bolívia, Botswana, Brasil, Brunei, Burkina Faso, Camarões, Cape Verde, Chade, Colômbia, Congo, Costa do Marfim, Republica Dominicana, Equador, Guiné Equatorial, Eritréia, Etiópia, Geórgia, Ghana, Guatemala, Guiana, Haiti, Jamaica, Quénia, Laos, Lesotho, Malawi, Mali, Mauritius, Mongólia, Moçambique, Namíbia, Nepal, Nigéria, Papua Nova Guiné, Filipinas, Coreia do Sul, Ruanda, Saint Lucia, Saint Vincent e Grenadines, Serra Leoa, Singapura, Ilhas Salomão, Suriname, Suazilândia, Tailândia, Trinidad e Tobago, Emirados Árabes Unidos, Tanzânia, Uruguai, Zâmbia.

AUSENTES: Camboja, Republica Centro Africana, Dominica, Gabão, Granada, Guiné-Bissau, Iraque, Jordânia, Kiribati, Madagáscar, Maldivas, Mauritânia, São Tome e Príncipe, Seycheles, Turquia.

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SOBRE ESTE ASSUNTO:
Third Committee Approves three Country-Specific Texts on Human Rights (UN)
U.N. General Assembly expresses "deep concern" about human rights in Iran (BWNS)
UN Sees Iranian Rights Abuses (AFP)
UN condemns human rights violations in Iran (Iran-Focus)
UN ‘deeply concerned’ at Iran human rights violations (Daily times, Pakistan)
The only Iran war is within Iran (CSM)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Sam Harris e o Fim da Fé (4)

UMA RELIGIOSIDADE INFANTIL

"Se Deus existe, então porque é que há tanto sofrimento?". Esta é uma pergunta perfeitamente legítima; também é recorrente entre crentes e ateus. Tentar perceber o que faz com que tantos dos nossos semelhantes sejam sujeitos a sofrimentos atrozes (provocados pelos seu semelhante ou por causas naturais) não é tarefa fácil. Pela minha parte sempre desconfiei das pessoas que têm na ponta da língua um resposta para este tipo de questão.

Sam Harris não consegue evitar esta questão. Para o autor de O Fim da Fé, o sofrimento é uma prova óbvia da não existência de Deus.
Se ver metade do nosso povo a morrer na fornalha não serve de prova contra a ideia de que existe um Deus todo-poderoso a olhar pelos nossos interesses, parece razoável presumir que nada o poderá fazer. (p.72)

A criança que nasce sem membros, a mosca sem vista, as espécies desaparecidas – não são mais do que barro moldado pela Mãe Natureza. Nenhum deus perfeito poderia manter tais incongruências. Vale a pena lembrar que se Deus criou o mundo e todas as coisas nele existentes, criou também a varíola, a peste e a filaríase. (p.191)
A infantilidade da argumentação torna-se tanto mais gritante, se pensarmos que o autor destas frases advoga o uso da razão na análise do fenómeno religioso. Porque será que não consegue ir além de um raciocínio do tipo "Se existe sofrimento, então é porque não existe um deus que nos proteja" ou "Se existisse um deus bondoso ele não permitia que acontecessem coisa más"? No fundo isto equivale a dizer: "Se Deus existisse, então o mundo em que vivemos tinha de ser uma espécie de paraíso sem qualquer tipo de sofrimento".

Pergunto-me porque é que o advogado do uso da razão não consegue separar duas questões bem distintas: o “porquê do mal” e a “existência de Deus”. Com o seu tipo de raciocínio também se poderiam dizer coisas do género, “Se as taxas da Euribor, estão a subir, então Deus não existe”.

A ideia que prevalece nesta argumentação de Sam Harris é que para ele ou existe um Deus infantil (tipo velho de barbas brancas que lança raios e coriscos, protegendo uns e castigando outros) ou então não existe. Para quem advoga o uso da razão na análise da religião, não se pode dizer que este seja um raciocínio brilhante.

Com argumentações deste tipo, não admira que o autor de O Fim da Fé tenha sido bastante atacado em revistas ateístas e humanistas. No fundo, um ateísmo que apenas se limita a rebater os argumentos de uma religiosidade infantil (acreditando literalmente nos textos sagrados) apenas consegue ser um ateísmo infantil.

Mas voltemos à questão “Se Deus existe, então porque é que há tanto sofrimento?”. Deixo aqui uma tentativa de resposta; como escrevi, desconfio sempre das pessoas que têm uma resposta imediata para esta pergunta (inclui alguns bahá'ís que acreditam que o sofrimento é um teste que Deus faz aos seres humanos).

O mundo material não tem como propósito ser um local perfeito para seres racionais como nós. Penso que este é apenas um primeiro palco da nossa existência, onde estamos sujeitos às leis da natureza, com todo o sofrimento e alegria que estas nos possam causar. Na nossa condição humana temos capacidade para efectuar juízos de valor (distinguindo o bem do mal); e no decorrer da nossa existência material temos liberdade de escolha na aplicação de juízos de valor, condicionando, assim, a nossa evolução enquanto criaturas morais.

Esta minha explicação não é absoluta, nem definitiva. É a resposta que tenho neste momento; é diferente da que tinha há alguns anos atrás, e certamente será diferente da que encontrarei dentro de alguns anos. É possível que a humanidade nunca encontre uma reposta definitiva para esta questão. Continuaremos sempre à procura de novas respostas. Mas enquanto criaturas racionais, certamente não nos podemos contentar com respostas tão infantis quanto as de Sam Harris.

sábado, 15 de dezembro de 2007

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Os Bahá'ís na Turquia

O texto seguinte é a tradução de um artigo de İzgi Güngör, publicado na semana passada no Turkish Daily News, um jornal turco de língua inglesa; pelo estilo do inglês, depreendo que se trata de uma tradução (provavelmente do turco). Publico-o aqui, não só porque se trata de um jornal publicado num país de maioria muçulmana, mas também porque denuncia situações de discriminação religiosa que nos têm passado despercebidas. O texto original em inglês pode ser lido aqui e aqui. Os sombreados e as imagens são da minha responsabilidade.
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COMUNIDADE BAHA'I NA TURQUIA DESEJA SER RECONHECIDA E OUVIDA

Com cerca de 10.000 membros na Turquia, a Comunidade Baha’i aspira ao reconhecimento oficial pelo Estado e deseja a eliminação dos preconceitos e descrições públicas incorrectas da sua Fé na Turquia.

"Podemos ser pequenos em número, mas somos uma entidade e, definitivamente, temos uma identidade", afirma o Prof. Cüneyt Can, director do Gabinete de Assuntos Externos da Comunidade Baha’i da Turquia. Muitos Baha’is acusam a Turquia de prosseguir uma política discriminatória contra a Comunidade Baha’i ao não listar a sua fé nos bilhetes de identidade. A filiação religiosa é registada nos cartões de identidade turcos, mas os Baha'is não podem declarar a sua religião nos bilhetes de identidade porque esta não se encontra entre as opções. Os direitos existentes entre 1960 e 1990, foram retirados quando o Ministério do Interior emitiu instruções introduzindo um novo sistema de normalização de códigos que não incluía a Fé Baha'i. "Os direitos, que nos foram anteriormente concedidos, foram retirados. Não há progresso, mas retrocesso", afirma Can.

CRÍTICAS DA UE E DOS EUA

As críticas à Turquia em relatórios distintos da União Europeia e dos Estados Unidos, incluíram pedidos para que fossem dados direitos aos Baha'is. "Documentos administrativos, tais como bilhetes de identidade incluem um espaço onde se deve preencher, ou deixar em branco, a religião. Isto pode levar a práticas discriminatórias. Alem disso, existem preocupações sobre as religiões que não são reconhecidas", declara o relatório de progresso anual da UE, enquanto o relatório do Departamento de Estado dos EUA criticava a Turquia por não reconhecer a Comunidade Baha'i, afirmando que a Turquia continua a restringir a escolha da religião. "Continuamos a aguardar a alteração das leis e do sistema de codificação que permita identificar a nossa religião nos cartões de identidade" afirmou Susan Merter, a coordenadora de Relações Públicas do Gabinete Baha'i de Assuntos Externos. Ela pertence à terceira geração de Baha'is que beneficiou da antiga lei que lhes permitia registarem-se. Neste momento, ela não pode renovar o seu cartão de identidade e ter a sua religião identificada neste.

Merter afirma que não hesita em dizer que é baha'i. "Não hesito; é a minha identidade. O que defendo é correcto e é bom. Aprendemos a Fé Baha'i como uma forma de vida. Aprendemos a ser hospitaleiros, virtuosos e acolhemos as diferenças. Trabalhamos pela paz e ela unidade da humanidade, o que é algo de que não nos podemos envergonhar. Então porque devo ocultar a minha identidade religiosa?" pergunta.

Os baha'is da Turquia não enfrentam problemas apenas com os cartões de identidade. Vivem com os problemas e desvantagens que deriva de serem desconhecidos enquanto minoria religiosa na Turquia. Alguns sentem-se livres para revelar a sua identidade religiosa, mas outros são mais comedidos, temendo a estigmatização e a discriminação social. O problema provém maioritariamente da falta de informação sobre a fé e da incorrecta descrição pública da religião, segundo dizem. Querem ser estudados e compreendidos correctamente e não querem ser associados com outros movimentos religiosos fundamentalistas como as ordens religiosas – ou tarikats.

"Ainda que de forma limitada, alguns de nós têm sido hostilizados e investigados por instituições governamentais. Tentam recolher estatísticas e informações confidenciais sobre nós entre os nossos vizinhos. Depois ficam com uma imagem incorrecta da nossa religião. Não fazemos nada de secreto. As nossas portas estão abertas para todos. Podem participar nas nossas reuniões e aprender as coisas em primeira-mão", afirma Can. Murat Bayer, 35 anos, é um actor de teatro que se converteu do Islão para a Fé Bahá'í em 1993. É o único Baha'i na sua família. O seu primeiro contacto com a fé Baha’i deu-se através de um amigo durante os seus anos como universitário. Primeiramente pensou tratar-se de uma organização tipo ordem religiosa; posteriormente ficou impressionado com os princípios da fé e a sinceridade e hospitalidade dos Baha’is. Agora sente-se livre para revelar a sua identidade religiosa. O mundo da arte, afirma, é mais aberto às diferenças. Durante os seus anos na universidade costumava debater o assunto com os seus amigos e professores que reagiam positivamente e até se sentiam interessados em aprender mais sobre a religião.

"Senti-me muito confortável durante a conferência Habitat II realizadas pelas Nações Unidas em Istambul em 1996. Nessa época eu era um novo Baha'i. A Comunidade Baha'i tem um estatuto consultivo nas Nações Unidas; por esse motivo somos automaticamente convidados para as reuniões. Foi a primeira vez que presenciei algo tão livre e natural", afirma. " A Turquia tenta insistentemente ignorar a existência dos Baha'is mas esta é reconhecida por um importante organismo internacional. Baha'u'llah, o fundador da Fé Baha’i, viveu neste território e disse muitas coisas especiais sobre a Turquia. E é verdadeiramente difícil compreender porque é que a Turquia ignora esta realidade", prossegue Bayer.

Bayer conheceu a sua mulher, Denyze Bayer, em Haifa, Israel, onde trabalhou como voluntário no Centro Mundial Baha’i. Denize, uma brasileira que se converteu do Catolicismo, é professora do ensino pré-escolar numa embaixada em Ankara. Sente-se confortável ao afirmar entre os seus amigos que é Baha’i . Não enfrentou problemas graves na sua vida diária por ser baha'i, salvo alguns olhares suspeitos devido à sua religião. "Quando digo que sou Baha'i, primeiro as pessoas acham estranho e depois ficam curiosas sobre o assunto, pois é algo novo e desconhecido para elas. Mas à medida que conhecem melhor o nosso modo de vida, ficam impressionados. Até querem enviar os seus filhos para as aulas baha’is daqui", afirma.

İhsan Karakelle, de 86 anos, é um sociólogo e funcionário público reformado que trabalhou para o segundo Presidente da Turquia, İsmet İnönü. O seu pai era Baha'i. Teve que ocultar a sua identidade baha'i até 1980, altura em que se reformou e só então passou a revelar abertamente a sua religião. Recorda-se da pressão política colocada sobre a comunidade em 1959 pelo Governo, num esforço para combater os movimentos fundamentalistas islâmicos. "Queriam eliminar esses movimentos, mas atingiam-nos", declara. A sua filiação baha’i não aparece indicada no cartão de identidade, mas afirma que foi uma falta sua. Dilan Can estuda na Universidade de Ankara. O seu pai era Baha’i e ela converteu-se do Islão quando tinha 15 anos, pensa que ser baha’i nesta sociedade é interessante mas por vezes também é desvantajoso. O preconceito tem um papel significativo no relacionamento que outras pessoas têm consigo, e há sempre uma dúvida na mente das pessoas em relação a eles. Até houve quem lhe perguntasse se era satânica! Alguns dos seus amigos Baha’is hesitam em revelar a sua identidade religiosa e ela também começou a ser mais cuidadosa. " Geralmente não digo que sou baha'i; só se me perguntarem. Varia conforme as situações ", conclui.


Outro problema levantado pela Comunidade Baha’i relaciona-se com os cursos de religião. O curriculum das escolas nacionais é baseado na religião Islâmica e as diferentes doutrinas ensinadas na escola e em casa confundem as mentes das crianças. “Mesmo que exista apenas uma criança Baha’i na sala de aula, então a religião Baha’i deve ser ensinada”, defende Merter. Por seu lado, Can quer que os seus filhos tenham educação religiosa na escola, mas não que realizem as práticas islâmicas – como as orações – na escola. "Também deviam aprender sobre as outras religiões. Já é obrigatório nas escolas. Mas nós temos as nossas próprias orações e os meus filhos recebem educação religiosa baha’i em casa". E acrescenta: "Ensinamos uma coisa em casa e eles aprendem outra na Escola; as crianças ficam profundamente confundidas. O governo prefere focar-se na educação religiosa islâmica nas escolas porque a maioria da população é muçulmana; mas podiam, pelo menos, incluir exemplos de outras religiões, quando ensinam o que é bom e o que é mau".

QUEM SÃO OS BAHA’IS?

Fundada no Irão no Séc. XIX por Bahá'u'lláh, a Fé Bahá’ís tem cerca de 10.000 membros na Turquia. Baseada em princípios democráticos e contemporâneos, esta religião tem cerca de seis milhões de seguidores em todo o mundo, e propõe a paz mundial e a unidade como resposta aos problemas da idade moderna. Na cidade turca de Edirne situa-se a Casa de Bahá'u'lláh, onde o líder baha’i viveu entre 1863 e 1868. A casa foi declarada local protegido e recebeu a atenção de figuras políticas internacionais. Os Baha’is acreditam em Deus e nos profetas; acreditam que as religiões são semelhantes a um ciclo de vida. Os seres humanos e a humanidade são orgânicos, e as religiões também; quando terminam a sua existência, surgem novos profetas para a humanidade evoluir. Os Baha’is acreditam que a humanidade tem atravessado uma evolução social desde a família ao estado-nação; de acordo com o Kitab-i-Aqdas (O Livro Mais Sagrado), a próxima fase será a unificação e integração global da sociedade. Os Baha’is realizam reuniões regulares, encontrando-se em cada 19 dias. As pessoas não se podem tornar baha’is antes dos 15 anos, idade considerada como sendo de maturidade espiritual. Estão proibidos de se envolverem em política, mas votam nas eleições na Turquia. Os Bahá’ís não têm superstições, nem bebem álcool. Não usam roupas com simbolismo particular, não possuem rituais religiosos, ou locais especiais de oração para grupos. A Comunidade Baha’is possui um estatuto consultivo nas Nações Unidas.

ACTIVIDADE MISSIONÁRIA

O Departamento de Assuntos Religiosos na Turquia declinou fazer qualquer comentário oficial ao Turkish Daily News sobre a forma como classifica a Comunidade Baha'i na Turquia, mas no seu website considera a Fé Baha’i como uma actividade missionária. Numa das suas publicações periódicas on-line intitulada “Diyanet Aylık” encontra-se um artigo sobre “Actividades Missionárias”, o Departamento inclui a Fé Baha’i entre outros movimentos missionários que pretendem espalhar as suas crenças entre pessoas pertencentes a outras religiões, incluindo o Islão. Ahmet Hikmet Eroğlu, um académico religioso e historiador da religião na Universidade de Ankara, concorda com esta abordagem do Departamento de Assuntos Religiosos. Segundo ele, a Fé Baha’i não é uma religião, mas um movimento ecléctico baseado em religiões mais antigas. “A fé Baha’i não é como outras religiões, tais como o Cristianismo Judaísmo ou o Islão que têm profundas raízes na história”, afirma. "É um movimento novo e ecléctico. O Departamento de Assuntos Religiosos pode vê-lo como uma actividade missionária enquanto não estiver definido com exactidão, e for aceite no mundo como uma religião; sabemos que fazem esforços para promover a sua fé". Por seu lado, Cüneyt Can nega estas alegações , dizendo que a fé existe há mais de 100 anos e que não têm qualquer relação com actividades missionárias. "Este tipo de insinuações e o facto de nos associarem com trabalhos missionários é preocupante", declara. "Nós não empregamos pessoas que trabalhem para converter outros à Fé Baha'i. Não temos qualquer estrutura institucional organizada que trabalhe com esse propósito. Não temos dinheiro ou poder. Não fazemos lobby, nem nos envolvemos na política. O que nos torna fortes são os princípios em que acreditamos. Acreditamos, aplicamos os princípios nas nossas vidas, partilhamos isto com os outros e divulgamos isso. É assim que a nossa religião se espalha"

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Uma mensagem de Ban Ki-Moon



Assinalou-se ontem o 59º aniversário da publicação da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Das muitas iniciativas que lembraram esta data, tenho de destacar esta mensagem do Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, que descreve a importância deste documento, e anuncia um ano de celebrações que culminarão com o 60º aniversário deste documento.

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Neste Dia dos Direitos Humanos, lançamos uma comemoração que durará um ano e que assinalará o 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Toda a família da ONU tomará parte na campanha para promover os ideais e princípios de justiça e igualdade existentes na Declaração.

A campanha recorda-nos que num mundo ainda cambaleava dos horrores da Segunda Guerra Mundial, a Declaração foi a primeira afirmação global daquilo que hoje tomamos por garantido - a dignidade e a igualdade inerentes de todos os seres humanos.

A extraordinária visão e determinação dos autores produziram um documento que pela primeira vez definiu os direitos humanos universais para todas as pessoas num contexto individual. Agora disponível em mais de 360 línguas, a Declaração é o documento mais traduzido no mundo - um testemunho da sua natureza e âmbito universais. Inspirou as constituições de muitos Estados recém-independentes e muitas novas democracias. Tornou-se um régua com a qual medimos o respeito por aquilo que sabemos, ou devíamos saber, ser certo ou errado.

A Declaração permanece hoje tão relevante como no dia em que foi adoptada. Mas as liberdades fundamentais contidas nela ainda não são uma realidade para todos. Demasiadas vezes, os Governos não têm vontade política para implementar normas internacionais que aceitaram de bom grado.

Este ano de aniversário é uma ocasião para construir essa vontade. É uma oportunidade para garantir que estes direitos se tornam uma realidade viva – que são conhecidos, compreendidos e usufruídos por toda a gente, em todo os lugares. Frequentemente, são aqueles que mais necessitam da protecção aos seus direitos humanos que necessitam de ser informados da existência da Declaração – e que esta existe para eles.

Que este ano nos revigore nessa missão. Façamos da Declaração Universal dos Direitos Humanos uma parte integral da vida de todos.

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Leituras:
Human rights enshrined in UN Declaration apply universally, says Ban Ki-moon
Human Rights Day - Statements

domingo, 9 de dezembro de 2007

Mereciam mais atenção...

Lamentavelmente a atenção dos media durante a Cimeira UE-Africa centrou-se em ditadores como Khadafi e Mugabe. Entre os governantes africanos estavam outros que mereciam mais atenção por parte dos media. São representantes eleitos pelos seus povos e podem ser vistos como exemplos para outros países do mundo.


Thabo Mbeki (África do Sul)


Mwai Kibaki(Quénia)


Levy Mwanawasa (Zambia)


José Maria das Neves (Cabo Verde)


John Kufuor (Ghana)


Festus Gontebanye Mogae (Botswana)


Armando Guebuza (Moçambique)


Alpha Oumar Konaré (Mali)


Abdoulaye Wade (Senegal)

A Democracia existe em África. Em alguns casos pode ainda ser muito jovem. E por esse motivo necessita de todo o apoio da Europa.

Não houve tabus!



Na Cimeira UE-África, os direitos humanos no Zimbabwe e conflito no Darfur foram frequentemente referidos nas intervenções públicas ou nas sessões plenárias e tratados como exemplos do que deve ser urgentemente resolvido no continente africano. José Sócrates foi inequívoco e afirmou que os Direitos Humanos "não são património de nenhum continente mas de toda a humanidade", têm de estar "no centro da nossa estratégia comum".

Também Angela Merkel referiu que os Direitos Humanos têm um carácter universal, não os há europeus ou africanos, simplesmente têm que ser respeitados. Segundo a chanceler alemã, “Não podemos olhar para o lado quando os direitos humanos são pisados seja onde for”; acrescentou ainda que “Direitos humanos e boa governação são fundamentais para o sucesso económico e para o desenvolvimento. Isto é o mais importante tanto na Europa como em África”.

Fiquei satisfeito com a intervenção destes dois governantes europeus. Não rodearam as questões, nem estiveram com floreados. Estivem bem melhor do que o primeiro ministro britânico, Gordon Brown, que se recusou estar na presença de Robert Mugabe, apesar de há algumas semanas atrás ter recebido em Londres o Rei Abdullah da Arábia Saudita.

Ainda bem na cimeira de Lisboa que não houve temas tabu. É bom que as coisas se digam com frontalidade, mesmo que isso incomode alguns ditadores. E é importante que todos os ditadores sejam confrontados com a dura realidade que vivem os seus povos. Aos que argumentam que isto foram apenas palavras, pergunto: "Preferiam que estes temas não tivessem sido mencionados?"

É que para resolver qualquer problema temos de começar por falar.

Talvez a única crítica que se possa fazer é o facto do Zimbabwe e do Darfur concentrarem a atenção dos governantes e dos media quando se fala de Africa. Muitas outras situações (entre as quais a situação dos direitos do baha'is no Egipto, é um pequeno exemplo) poderiam ter sido abordadas.

Khadafi em Lisboa

Henrique Monteiro escreveu ontem no Expresso:
(...)

Mas já não percebo bem a pertinência de uma Universidade – com o prestígio e a história da Universidade de Lisboa – convidar Khadafi para orador de uma conferência sobre ‘Problemas da Sociedade Contemporânea’. A menos que os promotores tenham da educação a mesma ideia que o reitor da Universidade de Columbia quando insultou o Presidente do Irão, Ahmadinedjad, depois de o ter recebido.

Um dos problemas da sociedade contemporânea (de que nem Khadafi nem os promotores falaram) é esta falta de vergonha que faz com que – a troco de qualquer coisa, e muitas vezes de nada -, se equipare tudo na vida. As universidades tanto ouvem cientistas, investigadores ou criadores de mérito, ditadores e terroristas. Pensarão que isso corresponde a sinais de tolerância e modernidade, mas infelizmente o que revelam é apenas cobardia política, falta de senso e subserviência em relação a personagens que nem dimensão intelectual nem obra têm (se exceptuarmos o ridículo ‘Livro Verde’ que o coronel Khadafi distribuiu pelo mundo).

(...)
COMENTÁRIO: Concordo quase a 100% com Henrique Monteiro. Na verdade eu preferia que a Universidade convidasse um governante africano eleito democraticamente pelo seu povo, e que fosse um exemplo de boas práticas de governação. Quando uma universidade convida um ditador – e continua a sê-lo, mesmo agora que parece alinhado com interesses Ocidentais! – deve confrontá-lo, como fez Lee Bollinger, o reitor da Universidade de Columbia. (Neste aspecto discordo de Henrique Monteiro; penso que o reitor fez foi apenas confrontar com toda a frontalidade o presidente iraniano com a realidade que se vive no Irão).

E que dizer do encontro com mulheres “representativas da sociedade portuguesa”? Serão mesmo representativas? Se estas mulheres tivessem recebido um convite semelhante do presidente do Botswana ou de Cabo Verde tê-lo-iam aceite? Não pode a sua presença neste encontro ser considerada como um sinal de anuência ao ditador líbio? Veja-se a reportagem da SIC:



Maria de Belém e a senegalesa Simone Sagna (o Senegal possui um regime democrático!) dificilmente conseguirão justificar a sua presença neste encontro. Como é possível que não tenham percebido que foram usadas em mais um golpe de propaganda de Khadafi? São estas as mulheres “representativas da sociedade portuguesa”? Ou representativas da ingenuidade política em alguma sociedade portuguesa? Na minha opinião, tal como a Universidade de Lisboa, a participação destas mulheres neste encontro não é um sinal de tolerância e modernidade; apenas revela cobardia política, falta de senso e subserviência.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Cesária Évora



Talvez fosse difícil encontrar artista melhor do que Cesária Évora para receber os participantes na cimeira UE-África. Só espero que os resultados da cimeira sejam tão bons quanto a música da diva dos pés descalços.

Teremos Coragem ou Cobardia?



Mais uma cimeira em Lisboa. Desta vez, além dos burocratas europeus, desfilam governantes africanos. Entre estes contam-se ditadores, pseudo-democratas, e verdadeiros democratas; os melhores destes governantes apresentam-se como representantes dos seus povos; os piores comportam-se como se fossem donos dos seus países.

Além do facto de algumas das comitivas africanas terem uma dimensão impressionante (como se isso fosse um reflexo do poder dos respectivos governos!), impressiona a forma como a leviandade com que se pretende abordar alguns assuntos, nomeadamente a questão dos direitos humanos. Mais uma vez os assuntos incómodos parecem estar destinados a ser ignorados para não incomodar os ditadores.

O Presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, e alguns euro-deputados vieram agora - nas vésperas da cimeira - exigir que os Direitos Humanos fossem incluídos na agenda desta. Posso estar enganado, mas estes pedidos tardios mais parecem uma tentativa de aliviar consciências do que uma vontade sincera de ver estes assuntos debatidos.

Com tudo isto sinto-me próximo da opinião de alguns escritores europeus e africanos, incluindo cinco prémios Nobel, que acusam os líderes dos dois continentes de "cobardia" por evitarem abordar na cimeira as crises no Zimbabwe e no Darfur.

"Porque devemos ouvir os poderosos quando estes não ouvem os gritos dos que sofrem? Milhões de africanos e europeus esperariam que o Zimbabwe e o Darfur estivessem no topo da agenda", afirmam os 17 subscritores da carta, enviada a todos os chefes de Estado e de Governo que irão estar presentes na cimeira. "Ainda não é demasiado tarde" para incluir as duas crises na agenda.

Entre os subscritores constam cinco prémios Nobel da Literatura: os europeus Günter Grass e Dario Fo, e, do lado africano, Nadine Gordimer, John Coetzee e Wole Soyinka. José Gil é o único português signatário, num rol em que aparece também o moçambicano Mia Couto. "Que podemos dizer desta cobardia política?", interrogam.

Mas a cimeira ainda não começou. Pode ser que eu esteja enganado.

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A Ler:
Literary grandees lobby EU-Africa summit (The Guardian)
Writers attack Zimbabwe omission (BBC)
Writers press EU-Africa summit to broach Zimbabwe, Darfur (AFP)

O que tem um nome?



Uma professora inglesa foi presa no Sudão por ter dado o nome “Maomé” a um ursinho de peluche. Segundo os media, houve grande agitação entre os fundamentalistas islâmicos no Sudão; os islamofóbicos regozijaram-se com mais esta prova das suas convicções... Houve quem considerasse isto um acto típico de países sub-desenvolvidos; e houve quem lembrasse a necessidade de respeitar aspectos fundamentais nas diferentes culturas dos povos do mundo.

Não sei como é que a maioria dos Bahá'ís vê esta história. Na minha opinião foi o Islão que saiu ridicularizado. Mas pergunto-me o que aconteceria se aparecesse um cavalo chamado Bahá'u'lláh... Pensam que não podia acontecer?

Na verdade isso aconteceu. Foi em 1951, durante uma competição (a Racing Conference, na Nova Zelândia). Tudo se resolveu de forma amigável; a pedido dos Baha'is os organizadores acabaram por mudar o nome do cavalo. Shoghi Effendi referiu-se a este episódio. Numa carta escrita em seu nome lê-se:
"O Guardião ficou satisfeito por saber que a Racing Conference alterou gentilmente o nome daquele cavalo a quem tinham chamado Bahá'u'lláh".

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Um projecto de alfabetização



Uma notícia proveniente do Ghana e publicada no BWNS, refere um projecto de alfabetização em língua Twi. Iniciado pela Fundação Olinga para o Desenvolvimento Humano (uma organização não-governamental de inspiração Baha'i), este projecto já envolveu mais de 20.000 jovens ghanêses, desenvolvendo actividades que os ajudam a preservar a língua nacional do seu país.

No âmbito deste projecto – intitulado "Enlightening the Hearts" - têm sido desenvolvidas diversas actividades escolares (incluindo a impressão e divulgação de livros) em mais de 260 escolas na região ocidental do Ghana. No programa de actividades desenvolvidas encontram-se repetidamente a ênfase em valores como a igualdade de direitos entre homens e mulheres, a necessidade de eliminação de preconceitos e o direito à educação básica. Segundo Leslie Casely-Hayford, directora da Fundação, "a alfabetização e a educação moral são fundamentais par ao progresso de uma sociedade".

As origens do projecto datam de 1996 quando a Comunidade Bahá'í do Ghana iniciou uma campanha de alfabetização. Esta campanha foi desenvolvida por um grupo de Baha’is que criaram a Fundação Olinga; a sua missão é promover a educação básica universal, capacitar jovens e – de acordo com o seu website - “desenvolver as capacidades necessárias para erguer uma civilização em contínuo progresso no continente africano”.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Ricardo Lumengo



Ricardo Lumengo nasceu em Lussenga, Angola, em Fevereiro de 1962. Em 1979, o seu activismo estudantil valeu-lhe a perseguição política por parte do regime angolano. Emigrou para a Suíça onde pediu asilo político. Posteriormente foi-lhe concedido estatuto de refugiado e autorização de residência permanente.

Licenciado em Direito e membro do Partido Socialista do cantão de Berna, Ricardo Lumengo obteve cidadania suíça em 1997. Em 2004 e 2006 foi eleito para o conselho do cantão de Berna e nas eleições federais do passado mês de Outubro tornou-se o primeiro africano a ser eleito para o parlamento suíço.

Quantos Ricardo Lumengo existem em Portugal?

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A LER:
Angolano foi eleito para o Parlamento suíço (DN)
Ricardo Lumengo, premier Noir élu à l’Assemblée suisse (Afrik.com)
There is tension in the air, says first black MP as Swiss take a turn to the right (The Times)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Schopenhauer



«A nossa felicidade depende sempre daquilo que somos, da nossa individualidade, embora, na maioria das vezes, não tomemos em linha de conta senão o nosso destino e aquilo que possuímos. O destino pode ir-se melhorando, e a frugalidade não reclama dele grande coisa: mas um idiota não deixa de ser um idiota e um indivíduo grosseiro permanece sempre um indivíduo grosseiro, ainda que se veja rodeado de belas mulheres. Eis o motivo pelo qual, segundo Goethe, “a felicidade suprema é a personalidade”.

Para falar com propriedade, aquilo que para ele é essencial, a verdadeira existência do homem, consiste manifestamente naquilo que acontece no seu interior, e que é o resultado daquilo que ele sente, vê ou pensa. Dentro do mesmo ambiente, cada um vive num mundo à parte, e os mesmos acontecimentos exteriores afectam cada um de maneira particular. A diferença que nasce destas disposições íntimas é maior do que aquela que as circunstâncias exteriores estabelecem entre diferentes seres humanos.

De resto, de maneira imediata, cada um deve preocupar-se principalmente com as suas representações, as suas sensações, a expressão da sua vontade; as coisas exteriores não têm influência senão na medida em que as estimulam. Cada um vive, efectivamente, através das suas disposições íntimas, sendo elas que tornam a sua vida feliz ou infeliz.»

Arthur Schopenhauer, 1788–1860 (A Arte de Ser Feliz)

(Tradução de Rui Bebiano)

sábado, 1 de dezembro de 2007

Lego



O meu filho mais novo fez dois anos.

Entre as prendas de aniversário veio uma caixa de Lego. São mais peças coloridas a juntar a tantas outras. Encaixam-se peças, criam-se cenários, personagens... e seguem-se prometidas muitas horas de brincadeira. Como pai tive de explicar alguma lógica na montagem das peças. Como colocar o homem num carro, como fazer uma árvore, a casa...

Também eu na idade deles brinquei com lego. Muitas horas. E antes de mim brincaram outras crianças. O mais espantoso num brinquedo como o Lego, é ver que não passou de moda. Atravessou gerações e fez companhia a imensas de crianças.