sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Emergência no Congo



«É um massacre provavelmente nunca antes visto em África aquilo que está a desenrolar-se à frente dos nossos olhos, com mais um milhão de refugiados, com ataques muitos específicos, mutilações sexuais que fazem parte dos actos de guerra elementares nesta região», disse hoje o chefe da diplomacia francesa, Bernard Kouchner, ao descrever a ofensiva rebelde no Leste da República Democrática do Congo.

Vamos deixar que aconteça outro Ruanda?

Uma nova governação mundial

Dominique Strauss-Kahn, director-geral do Fundo Monetário Internacional, foi hoje notícia nos media internacionais, ao declarar numa entrevista ao jornal Le Monde que vai propor na Cimeira do G-20 (a realizar em Washington no próximo dia 15) um plano para uma nova governação mundial, também descrita como uma estratégia de regulamentação global.

O plano de Strauss-Kahn assenta em vários princípios que visam estabilizar os mercados mundiais, pedindo aos países do G-20 que se "tirem lições das políticas que levaram a estas 'bolhas' e que estão a destruir a economia real" e apela à reflexão com vista à criação de "um sistema mundial mais coerente porque mais simples, mais eficiente porque mais coordenado".

O facto da reunião de Washington se realizar com os países do G-20 (e não do G-8) já foi uma boa notícia. No fundo alarga-se o leque de países envolvidos no processo de tomada de decisões sobre assuntos que afectam toda a humanidade. E esta notícia sobre o plano de Strauss-Kahn é igualmente positiva.

E a propósito desta reunião do G-20, não posso deixar de lembrar as palavras de Bahá'u'lláh: "Haverá de chegar o tempo em que a necessidade imperiosa da convocação de uma vasta e ampla assembleia de homens será universalmente percebida. Os governantes e os reis da terra terão de tomar parte dela, e, participando nas suas deliberações, deverão considerar métodos e meios capazes de assentar os fundamentos para a Paz Maior, mundial, entre os homens".

A reunião de Washington não será, certamente, essa reunião antecipada por Bahá'u'lláh. Mas é um bom sinal. Como bahá’í não posso deixar de a considerar como um passo positivo que nos leva a caminho de uma nova ordem mundial mais justa e equilibrada. Tal como Strauss-Kahn, também eu espero que na cimeira de Washington se faça uma avaliação correcta da situação história em que vivemos e que surja um impulso decisivo para a reforma da governação mundial.

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Sobre este assunto:
Crise Financeira: Director-geral do FMI propõe "nova governação" para superar a crise financeira (Lusa)
IMF Chief Says G20 Should Build Global Governance, Monde Says (Bloomberg)
Optimiste sur les marchées, Strauss-Kahn va proposer une nouvelle gouvernance (AP)
Propondré al G-20 un plan de nueva gobernanza mundial (El Pais) (Lusa)

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Leituras

Enchanted: Journey to Lisbon and several other Portuguese cities (Iranian.com)
Egypt Drops Allegations of Baha'i Links to Zionism (Baha'i Faith in Egypt and Iran)
UN convenes Global Forum of faith groups (BWNS)
Setting the record straight about Egypt's Baha'i (Menassat, Lebanon)
Qom’s New Committee on Religious Minorities (Iran Press Watch)
The Iran Letters – Part IV: A Comparison of Turkey and Iran (Turkish Weekly)

Mais contentores,... o tanas!!!



Porque é que o Governo português pretende investir 200 milhões de euros para viabilizar um negócio privado no Porto de Lisboa?

Porque é que se pretende reforçar a capacidade do Porto de Lisboa quando os portos de Setúbal e Sines estão subaproveitados?

Que raio de negócio foi aquele que o governo celebrou com a Liscont/Mota Engil (a tal do Jorge Coelho!) sobre o porto de Lisboa?

Afinal, uma zona privilegiada de Lisboa deve ser ocupado por pessoas ou por contentores?

E os senhores que governam o País e a capital devem servir o povo ou os interesses de grandes grupos empresariais?

Como escreveu Miguel Sousa Tavares, «tão absurdo projecto só pode ser fruto de uma imbecilidade inimaginável ou... de uma grande, grandessíssima, negociata.»

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Diáspora

Aqui fica a tradução de excertos de um comovente artigo de autoria de Asha Shahir sobre as dezenas de bahá’ís que semanalmente abandonam o Irão, através da linha férrea Teerão-Istambul. É uma perspectiva pouco conhecida sobre a diáspora dos Bahá'ís iranianos. O texto (que merece ser lido na íntegra) foi publicado no jornal online Payvand e no Radio Free Europe. As fotos surgiram no mesmo artigo.
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Bahá'ís tomam o comboio para Istambul e abandonam o Irão


Todas as quintas-feiras de madrugada membros de uma das mais ostracizadas minorias religiosas do Irão reúnem-se na estação de comboio de Teerão.

Com olhos ansiosos e lacrimosos, estão ali para se despedir de parentes e amigos bahá’ís que decidiram desenraizar-se definitivamente e apanhar o comboio das 8H00 em direcção a uma nova vida na Turquia.

A sala de espera da Estação de Teerão

A linha Teerão-Istambul tem uma periodicidade semanal desde há 12 anos; cada viagem leva baha’is que fogem à discriminação com que vivem no Irão.

A maior minoria religiosa do país, os Baha’is, têm enfrentado a discriminação desde que a sua religião foi fundada, naquilo que é hoje o Irão, no século XIX.

Mas a República Islâmica do Irão conseguiu tornar as coisas piores. A nova Constituição não deu qualquer reconhecimento oficial à fé, vista como uma falsa religião pelo novo regime. O aumento da perseguição e hostilização levou muitos dos 300.000 Baha’is do Irão a considerar as suas opções, e durante os últimos 30 anos um grande número destes decidiu partir.

Esta noite, aproximadamente 200 passageiros vão viajar para a Turquia. Dezenas deles são Bahá’ís só com um bilhete de ida.

(...)

Pouco antes do embarque

Se Eu Pudesse Ficar

Durante a viagem, um número superior a 80 bahá’ís concorda falar sob anonimato sobre os motivos para deixar o Irão.

"Após a revolução classificaram-me como redundante no Ministério da Educação e tive de alugar uma loja de cosméticos. Durante 10 anos estive bem, até que declararam a minha licença comercial como nula e sem efeito", diz um homem.

"Agora as minhas duas filhas estão mais velhas e querem continuar os seus estudos. E como não as posso deixar ir sozinhas, toda a minha família teve de partir", explica.

"Vendemos tudo o que tínhamos e não queremos voltar ao Irão. Pensamos ficar a viver em Kayseri [Turquia] durante algum tempo até as Nações Unidas ou a Comunidade Bahá’í fazerem alguma coisa por nós", afirma.

"Trouxemos algumas coisas para não termos de pagar mais por elas na Turquia. Não é certo quanto tempo vamos ter de ficar ali – um ano, 10 meses – e como provavelmente não vou conseguir encontrar imediatamente um emprego, também trouxemos arroz e óleo de cozinha", acrescenta.

Perguntei porque é que a sua família tinha decidido viajar de comboio.

"Certamente que não podíamos ter trazido tudo isto num avião", afirma referindo-se ao excesso de bagagem da família. "O comboio é mais barato que o avião, e para em Kayseri".

A família pagou 700 USD pelos bilhetes de comboio, uma quantia que é um peso significativo para esta e outras famílias.

"Todos nós aqui no comboio temos rendimentos relativamente baixos e temos estado sob tanta pressão ao longo dos anos que temos pouco dinheiro", afirma. "Mesmo agora que vamos para Kayseri, todos temos esperança em Deus, porque sabemos que temos dias duros à nossa frente."

"Se ao menos que pudesse ficar no Irão e viver como as outras pessoas..." lamenta-se.

(...)

O último adeus

Uma Mãe Derrotada

Com os olhos cheios de lágrimas, uma mulher no comboio apresenta-se assim: "Desde o primeiro dia da minha vida que tenho vivido em amargura e agonia. Devido ao amor pelo meu país nunca pensei em partir".

Trabalhou como costureira desde que se casou há 27 anos para ajudar o marido – que trabalha como taxista apesar de ter um diploma universitário – a trazer comida para casa.

"Fizemos tudo o que podíamos para manter os nosso filhos no Irão e para os ver bem sucedidos na vida", diz ela. "Mas devo confessar que toda a pressão fez de mim uma falhada. Sinto-me completamente derrotada".

Apesar de ter feito o que podia para evitar partir, tudo mudou quando a filha lhe veio dizer que estava a planear deixar o Irão.

"Nos cinco ou seis meses seguintes tentei demovê-la, mas por fim tive que desistir, porque percebi que ela tinha razão na sua decisão. Mas, acredite-me, até neste momento, o meu coração e a minha alma pertencem ao Irão."

(...)

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Artigo completo: Iran's Baha'is Leave Persecution Behind On Train To Istanbul (Payvand) (também no RFE)

sábado, 25 de outubro de 2008

Nito (Sebastião Silvestre Junior)

Graças a um amigo bahá’í, obtive um vídeo (já com 14 anos) de um dos mais conhecidos músicos bahá’ís de Portugal: Sebastião Silvestre Júnior, mais conhecido por Nito. E se pensarmos que o Nito faleceu há 10 anos, creio que a maioria dos bahá’ís não hesitará em classificar esta pequena relíquia com um documento histórico.

Aqui fica o vídeo (que teve de ser dividido em duas partes):





Quem foi o Nito?

Sebastião Silvestre Júnior (conhecido pelos bahá’ís com «Nito») nasceu em 24 de Março de 1956 em Moçâmedes, em Angola. Era filho de um português de Castelo Branco e de uma princesa Cuanhama, chamada Petrussa Kashilula.

Durante a sua infância ficou a cargo de uma Instituição, onde um padre lhe ensinou a tocar viola.

Estudou em Sá da Bandeira, onde formou uma banda (os «Kuanza»). Tocavam em Hotéis e Igrejas (que dizem que se enchiam para os ouvir)

Fugindo à guerra civil de Angola veio para Portugal numa época de grande agitação política e social.

Em 1975, conheceu a Fé Bahá’í em Tróia (Setúbal), e rapidamente a mensagem de Bahá’u’lláh se tornou uma prioridade central da sua vida.

A sua voz e o seu talento musical tornaram-no uma figura muito popular entre a Comunidade Bahá’í de Portugal. A maioria dos Bahá’í portugueses consideram que ele é o autor das mais bonitas canções bahá’ís em língua portuguesa. Os seus filhos (que hoje vivem em Portugal, Inglaterra, Holanda e Moçambique) herdaram o seu talento artístico.

Diga-se como nota de curiosidade que o Nito tinha Carteira Profissional de Músico, apesar de não saber ler pautas de música.

Em 1998, foi vítima de uma acidente de viação em Moçambique, tendo vindo a falecer num hospital Sul-Africano em 2 de Agosto desse ano.

O seu corpo está hoje sepultado no Maputo.

(Apontamento biográfico recolhido com a ajuda de Stella Rodrigues)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Relatório Iraniano confirma inocência dos jovens de Bahá'ís

Um Inspector iraniano que investigou as detenções de um grupo de jovens bahá'ís em 2006, na cidade de Shiraz, elaborou um relatório confidencial em Junho de 2008 confirmando aquilo que a Comunidade Internacional Bahá'í sempre afirmou: as actividades deste grupo eram exclusivamente humanitárias e não incluíam qualquer ensino «ilegal» da Fé Bahá’í.

Este relatório, assinado por um «inspector e conselheiro legal» chamado Rustami, foi publicado pela organização Human Rights Activists of Iran no passado dia 23 de Outubro. O relatório é dirigido ao «estimado representante do líder supremo na província» (de Fars) e declara ter sido elaborado a seu pedido.


Recorde-se que três dos 54 jovens Bahá’ís detidos foram condenados a quatro anos de prisão e ainda se encontram presos numa cadeia de Shiraz. A Amnistia Internacional sugeriu que estes três jovens (Haleh Rouhi, Raha Sabet, and Sasan Taqva) eram prisioneiros de consciência e que se encontravam detidos devido às suas convicções religiosas.

O relatório declara que todas as pessoas entrevistadas durante a investigação afirmaram que não houve qualquer menção da Fé Bahá’í durante as aulas ministradas por estes jovens, facto que contradiz a acusação do Governo Iraniano. Algumas das pessoas entrevistadas acrescentaram ainda que queriam que as aulas continuassem.

O relatório cita um oficial da polícia reformado: «As actividades destas aulas eram escrita, desenho, ensino de higiene e valores morais, não havendo qualquer menção de assuntos religioso ou políticos. Nunca houve qualquer referência ou declaração relativamente ao Bahaismo»

Já passaram quatro meses desde a apresentação deste relatório ao «representante do líder supremo» e os três jovens continuam detidos. Não há qualquer indicação de que venham a ser libertados num futuro próximo. Na verdade, nos últimos meses os actos de hostilidade contra os bahá’ís do irão têm aumentado. Mas felizmente, também têm aumentado as vozes no Irão que protestam contra estes ataques e clamam por justiça. A este propósito, lembro-me das palavras de Gandhi:

«Quando eu desespero, lembro-me que ao longo da história os caminhos da verdade e do amor sempre triunfaram. Tem havido tiranos e assassinos, e durante algum tempo eles parecem invencíveis, mas no fim eles caem sempre. Pensem nisso. Sempre.»

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Sobre este assunto:
Document Vindicating Baha’i Youth Prisoners in Shiraz (Iran Press Watch)
Iranian report confirms innocence of Shiraz Baha'is (BWNS)

A profanação do cemitério de Ghaemshahr

Ghaemshahr é uma pequena cidade no norte do Irão, na província de Mazandaran. Desde o século XIX que ali reside uma pequena comunidade Bahá'í. Ao amanhecer do passado dia 23 de Outubro, vários indivíduos munidos de diverso equipamento arrasaram o Cemitério Bahá’í, destruindo todas as campas.

Aqui ficam algumas fotos.







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Fonte: Desecration of the Baha’i Cemetery of Ghaemshahr (Iran Press Watch) [inclui mais fotos]

Alan Greenspan

O antigo presidente da Reserva Federal norte-americana Alan Greenspan reconheceu ontem, numa audição no Congresso, que falhou na regulação do sistema financeiro. "Cometi um erro ao confiar que o livre mercado pode regular-se a si próprio sem a supervisão da administração", afirmou o homem que esteve 18 anos ao comando da Fed.

Alvo de críticas por parte de vários membros do comité que realiza audições sobre a situação dos mercados, Greenspan confessou-se chocado com a dimensão da crise financeira. "Há 40 anos ou mais que tinha uma evidência muito clara de que o mercado livre funcionava muito bem", reconheceu Greenspan. Admitiu, depois, o grave erro em que incorreu quando se opôs à regulação do mercado de derivados. "Presumi, erradamente, que o interesse próprio das organizações, nomeadamente dos bancos, era suficiente para que eles protegessem os seus accionistas." (Público)

É a assinatura que faltava na certidão de óbito do capitalismo financeiro.

Jorge Sampaio entre Estrasburgo e Teerão

Ontem, a edição online do Diário de Notícias noticiou ontem que Jorge Sampaio abordou diversos aspectos relacionados com a integração das minorias muçulmanas nas sociedades europeias numa sessão solene do Parlamento Europeu dedicada ao Diálogo Intercultural.

Este poderia ser um facto poderia ter passado despercebido, não tivesse o ex-Presidente da República participado recentemente numa outra conferência em Teerão dedicada ao tema “A Religião no Mundo Moderno”. Esta conferência mereceu a atenção dos media ocidentais, pelo facto de ter tido a presença de diversos convidados estrangeiros: Kofi Annan, Romano Prodi, Mary Robinson entre outros.

Das intervenções dos palestrantes ocidentais nessa conferência de Teerão, sabe-se que houve apenas um que condenou abertamente o Regime de Teerão pelas suas práticas discriminatórias relativamente às minorias religiosas. Presume-se que Jorge Sampaio não terá abordado esse tema; uma nota à imprensa no site oficial de Jorge Sampaio é omissa sobre esse assunto, permitindo-nos deduzir que o ex-Presidente da República terá ignorado o assunto.

Assim parece-me legítimo levantar algumas questões.

Este Jorge Sampaio que protesta em Estrasburgo contra a discriminação dos Muçulmanos é o mesmo que em Teerão ignorou que os Bahá’ís - a maior minoria religiosa do Irão - não têm qualquer protecção legal naquele país?

Este Jorge Sampaio que em Estrasburgo considera incorrecto que os muçulmanos sejam vistos como “fanáticos e intolerantes” é o mesmo que em Teerão preferiu ignorar que o Parlamento daquele país se prepara para aprovar a Lei da Apostasia, (uma lei que prevê a pena de morte para quem abandone o Islão)?

Este Jorge Sampaio que defende em Estrasburgo o ensino de competências inter-culturais, é o mesmo que na conferência de Teerão se esqueceu que os Zoroastrianos daquele país são considerados «infiéis» pelas autoridades apesar de gozarem de protecção constitucional?

Este Jorge Sampaio que em Estrasburgo condena “a discriminação e a marginalização socioeconómica” dos muçulmanos na Europa é o mesmo que não ousou condenar a discriminação que o Irão faz contra os estudantes Baha’is impedindo-os de entrar nas Universidades?

Este Jorge Sampaio que em Estrasburgo proclama a necessidade de políticas de integração para os muçulmanos na Europa é o mesmo que em Teerão preferiu não condenar abertamente as práticas de Direitos Humanos do Regime Iraniano?

Este Jorge Sampaio que em Estrasburgo clamou por uma acção europeia, iniciativas nacionais e locais, em Teerão terá tido o bom senso de o fazer uma exigência minimamente semelhante ao Regime de Iraniano?

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ACTUALIZAÇÃO: Este texto foi publicado no Diário de Notícias no dia 26 de Outubro, nas Cartas ao Director.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

A crise financeira



Uma "quase-transcrição" de uma conversa com um amigo.
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- Então o que dizem os bahá’ís à crise financeira?

- Dizemos o que todos dizem... estamos todos preocupados... Esperamos que se encontre uma solução verdadeiramente global para os motivos dos problemas; não basta aliviar as dores das consequências...

- Mas a vossa religião não propõe uma solução para isto?

- Os ensinamentos bahá’ís não são um tratado de economia. Possuem princípios gerais e algumas leis que devem reger a vida de cada ser humano... apresentam conselhos sobre a governação e o relacionamento entre os povos...

- Isso assim parece muito vago...

- E a mim parece-me que tu tens expectativas muito exageradas em relação às religiões. Ainda vais ter muitas desilusões...

- Porquê?

- Parece-me óbvio que uma religião que afirme ter uma varinha de condão para resolver a crise financeira, outra para descobrir a cura para a SIDA e mais outra para a toxicodependência, está a entrar no campo da charlatanice. Claro que há sempre uns grupos religiosos que gostam de assumir essa postura. Mas achas que os bahá’ís iam colocar-se nessa posição? O fundador da Fé Bahá’í foi Baha'u'llah; não foi o Paul Krugman!

- Está bem... Mas no caso desta crise financeira quais são os vossos princípios que se podiam aplicar?

- Um dos princípios é a necessidade de impedir o alargamento do fosso entre ricos e pobres. Existem situações de pobreza extrema que são inaceitáveis, tal como existem situações de riqueza extrema que não podemos tolerar. Qualquer modelo económico aceitável tem de procurar diminuir esse fosso entre ricos e pobres.

- E mais?

- Temos de conseguir soluções verdadeiramente globais. A solução para os problemas não pode ser encontrada apenas por europeus e americanos; há outras potências económicas em ascensão que devem ser envolvidas no diálogo para se encontrar as soluções.

- Mas isso alguns políticos também já dizem.

- Vamos a ver se o conseguem pôr em prática. Da teoria à prática as coisas podem não ser simples. Seja como for, as crises também são oportunidades. E esta pode ser uma oportunidade para construir uma ordem económica mais justa e equilibrada.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Se os Zoroastrianos são infiéis...

Baseando-se no texto do Alcorão, a Lei Islâmica considera algumas religiões como "Povo do Livro". Em geral, tratam-se de religiões anteriores ao Islão que possuem as suas Escrituras Sagradas. No Irão, por exemplo, o artigo 13º da Constituição indica de forma bem explicita quais são as religiões oficialmente reconhecidas:
«Os Zoroastrianos, os Judeus e os Cristãos Iranianos são as únicas minorias religiosas reconhecidas que, dentro dos limites da lei, podem realizar os seus rituais e cerimónias religiosas, e agir de acordo com os seus próprios cânones em assuntos pessoais e de educação religiosa.»
Além disto, o artigo 64º da Constituição reconhece o direito dos Zoroastrianos, Judeus e Cristãos a ter os seus representantes no Parlamento Nacional.

Mas será que, na prática, isto tem algum valor?

Um veredicto recente do Ayatollah Ali Khamenei, o líder supremo do Irão, que visa restringir os direitos de todas as minorias religiosas, acabou por pôr em causa tanto o texto do Alcorão como a própria Constituição Iraniana.


O texto do veredicto em questão (apresentado na imagem acima) declara o seguinte:
Em nome do Altíssimo

Submetido à presença do Líder Supremo, o ilustre Grande Ayatollah Khamenei, que a paz esteja com ele!

Se um filho de uma família Zoroastriana que viva sob a lei da República Islâmica se tiver convertido ao credo do Xiismo Jafari do Islão, como é que a divisão da herança se deve efectuar após o falecimento dos pais que são Zoroastrianos, tendo em vista o facto de um dos herdeiros ser Muçulmano? Solicitamos cordialmente a sua opinião.

[segue-se uma linha escrita pela mão de Khamenei]

Na presença de um herdeiro Muçulmano, os infiéis [kafar] estão impedidos de receber uma herança.

[Sêlo do Ayatollah Ali Khamenei e de vários organismo religiosos que processaram o veredicto]
Há várias coisas neste veredicto que são preocupantes. Talvez o mais preocupante seja o factos dos Zoroastrianos serem referidos como infiéis [kafar]. Se os Zoroastrianos são explicitamente protegidos pela Constituição Iraniana e pelo Alcorão, são tratados desta maneira e nestes termos, que esperança resta para a Comunidade Bahá'í daquele país?

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Fonte: Iran’s Leader Considers Zoroastrians to be Infidels (IranPressWatch)

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Ban Ki-moon e os Direitos Humanos no Irão





O Secretário-geral das Nações Unidas Ban Ki-Moon expressou ontem as suas preocupações pela situação dos Direitos Humanos no Irão, apelando ao Governo Iraniano que se empenhe mais no combate à discriminação contra as mulheres e as minorias, referindo explicitamente o caso da Comunidade Bahá'í como vítima de discriminação.

O diplomata coreano acrescentou que existem diversas informações que apontam para a "um aumento nas violações de direitos contra as mulheres, estudantes universitários, professores, trabalhadores e outros grupos de activistas", declara-se num relatório distribuído pelo Secretário-Geral aos 192 estados membros da ONU. Casos de apedrejamentos, execuções públicas, amputação e mortes ou suicídios suspeitos de prisioneiros sob custódia também são referidos neste relatório.

Além de reafirmar as posições da ONU sobre a pena de morte e a execução de menores, Ban Ki-Moon lembrou que a constituição iraniana proíbe a tortura, mas o código penal não possui uma definição clara de tortura enquanto ofensa criminal.

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Sobre este assunto:
Ban criticises executions in Iran (BBC)
Iran: Ban concerned by treatment of women, juvenile executions (UN News Centre)
Report details U.N. concerns on Iran human rights (Reuters)
L'Onu préoccupée par la situation des droits de l'homme en Iran (Le Point)
ONU manifiesta preocupación por derechos humanos en Irán (El Universal, Venezuela)

As árvores do Jardim Eterno

No post Que mal fizeram as árvores? referi os actos de vandalismo cometidos contra o Cemitério Bahá'í de Isfahan, também conhecido como Gulestan-e Javid [Jardim Eterno]. O vídeo que se segue - de autoria do Human Rights Activists of Iran - foi feito nesse cemitério pouco depois desses actos de vandalismo.



No blog Iranian Press Watch foram agora publicadas mais algumas informações sobre este incidente. O Cemitério – onde se encontram 900 campas - fica a 30 km de Isfahan e ocupa uma área de três hectares junta à estrada que liga Isfahan a Yazd. Segundo os vigilantes, 2500 árvores foram cortadas e completamente destruídas. Estas árvores eram mantidas com um sistemas de rega gota-a-gota, que também foi seriamente danificado. Sinais e placas informativas também foram arrancadas e destruídas. É de lembrar que há cerca de seis anos num incidente semelhante, as árvores deste mesmo cemitério também foram arrancadas e destruídas.

Este acto de intimidação ou humilhação tem merecido o silêncio das autoridades iranianas, incluindo organismos de protecção ambiental, municípios e forças de segurança. E apesar de nos últimos anos não termos assistido a execuções sistemáticas de Bahá’ís, é óbvio que a discriminação e a hostilização continuam e agravam-se

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

No Parlamento em Brasília (2)

Declaração proferida no Parlamento Brasileiro (Câmara dos Deputados) pelo Deputado Federal Luiz Couto (PT/PB), na sessão parlamentar no dia 08/Outubro/2008.
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Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados,

O Governo iraniano, mais uma vez, persegue estudantes que professam a fé bahá'i. Jovens que querem estudar são excluídos do novo período acadêmico em andamento.

"Embora o Governo iraniano, em sua posição pública, sustente que os bahá'is são livres para irem à universidade, relatórios das últimas semanas indicam que a política de impedir que os bahá'is obtenham educação superior continua em andamento." Ou seja, para ter acesso à universidade, eles têm de renegar sua fé e assimilar a religião oficial.

"O efeito das políticas do Governo tem sido fechar as portas das universidades do Irã para os bahá'is, apesar do suposto comprometimento iraniano com as leis internacionais que defendem o direito à educação."

De acordo com matéria que tenho em mão, "o principal método através do qual as autoridades estão prevenindo os bahá'is de matricularem-se na universidade este ano é bloqueando os resultados de suas provas e declarando seus dados 'incompletos'. Essa tática foi utilizada no ano passado também, porém se tornou claro este ano que muitos estudantes bahá'is foram identificados no processo de inscrição", e estão sendo prejudicados.

"Estudantes que contestaram o fato de seus arquivos estarem listados de forma imprópria como incompletos, até hoje têm se deparado com ouvidos surdos dos tribunais iranianos." Um tribunal iraniano "rejeitou a reclamação de um jovem universitário bahá'i que havia sido expulso por causa de sua crença religiosa e dirigiu-se à corte buscando ser readmitido."

"Em agosto deste ano, por exemplo, uma estudante da Universidade Fazilat estava apenas a 3 semanas de sua formatura quando foi levada ante às autoridades; quando ela recusou retratar sua fé, foi expulsa da universidade."

Desejo, então, apelar ao Governo iraniano para que não aja dessa forma. Todos têm o direito de professar a sua fé. Não existe uma religião oficial. Cada um tem a sua fé e deve professá-la de acordo com suas convicções. Mas os bahá'is iranianos estão sendo prejudicados por isso.

Gostaria que a matéria fosse transcrita na íntegra nos Anais desta Casa.

Muito obrigado, Sr. Presidente.

domingo, 19 de outubro de 2008

À procura de soluções globais...

O presidente norte-americano e os dirigentes europeus chegaram sábado a acordo em Camp David sobre a realização de uma série de cimeiras face à crise financeira, a primeira das quais pouco após as presidenciais norte-americanas de 04 de Novembro.

Segundo um comunicado publicado pela Casa Branca, os presidentes norte-americano, George W. Bush, e francês, Nicolas Sarkozy, e o presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, concordaram abordar os outros dirigentes internacionais durante a próxima semana "com a ideia de começar uma série de cimeiras para responder às dificuldades com que se confronta a economia mundial".

Penso que é importante que essas cimeiras se realizem. Afinal se vivemos numa economia globalizada, cujos problemas exigem soluções (aspecto que tem sido referido por vários dirigentes europeus), então estas não podem ser encontradas apenas por Americanos e Europeus. É fundamental que países como o Brasil, a Índia, a Rússia e a China (cujas economias estão em franco crescimento) participem nestas cimeiras e possam falar com os parceiros europeus e americanos em pé de igualdade.

Se isso não acontecer, a pretendida «refundação» do sistema financeiro mundial não será verdadeiramente global.

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Sobre este assunto:
Crise Financeira: Bush, Sarkozy e Barroso propõem uma série de cimeiras face à crise (LUSA)
Bush quer cimeira sobre crise financeira «num futuro próximo» (TSF)
Bush, Sarkozy e Barroso acertam série de reuniões sobre crise financeira (Globo.br)

No Parlamento em Brasília (1)

Declaração proferida no Parlamento Brasileiro (Câmara dos Deputados) pelo Deputado Federal Geraldo Resende (PMDB/MS), na sessão parlamentar no dia 16/Outubro/2008.
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BAHÁ’ÍS: MAIS QUE UMA QUESTÃO RELIGIOSA, UMA QUESTÃO DE DIREITOS HUMANOS


Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputadas e Deputados,

O Irã assombra o mundo com seu Programa Nuclear e, sobretudo, com a intransigência do seu presidente Mahrmoud Ahmadinejad em não permitir que membros da Organização das Nações Unidas, a ONU, vistorie as reais intenções iranianas com suas instalações nucleares, mas trago aqui outra questão polêmica que ocorre atualmente no Irã e que não tem recebido do resto do mundo a atenção que deveria receber: a perseguição à religião Bahá’í e a prisão de seus praticantes que estão sendo presos e acusados de espionagem.

Desde o último dia 14 de maio, sete Bahá’ís iranianos vêm sendo mantidos encarcerados, sem acesso a advogados e sem comunicação com suas famílias. São pessoas de bem que cometeram o “crime” de pertencer a uma religião não reconhecida pelo estado iraniano. Este sete Bahá’ís formam um grupo que buscava cuidar dos interesses dos mais de 300 mil Bahá’ís iranianos e foram presos de forma arbitrária, tirados dos seus lares e estabelecimentos comerciais por policiais iranianos.

O trabalho deste grupo consistia em ajudar a organizar reuniões regulares de oração, atividades para crianças, realizar funerais, casamentos e outras poucas atividades comunitárias. E o que é ainda mais preocupante senhor presidente, é que passados quase quatro meses, estes Bahá’ís continuam encarcerados de maneira totalmente arbitrária e agora sob acusação de espionagem e de pertencerem a um grupo anti-islã e anti-irã.

Mais recentemente a situação dos Bahá’ís se agravou. Em junho corrente, três Bahá'ís de origem iraniana, todos com negócios bem sucedidos e famílias estabelecidas no Yemen, tiveram suas casa atacadas e documentos, Cds, fotografias e até computador confiscados.

Embora não tenha havido qualquer acusação formal, oficiais do governo indicaram que os bahá'ís foram detidos sob a suspeita de algum tipo de "proselitismo" contra a lei do Yemen, o que é negado pelos bahá'ís, mas o que é pior: estão diante da possibilidade de iminente deportação ao Irã, onde os bahá'ís são intensamente perseguidos e é provável que enfrentem prisão ou tortura.

Senhor Presidente, estas acusações não são verdadeiras. Conheço muitos Bahá’ís no meu Estado, e sei muito bem que os eles não se envolvem com nenhum tipo de disputas políticas ou religiosas e que, acima de tudo, lutam vigorosamente pela paz e unidade no mundo.

É preciso lembrar que foi o próprio governo persa quem exilou o fundador da fé Bahá’í para a cidade de Acre, hoje parte do território de Israel. Portanto, acusar os Bahá’ís de terem ligações políticas com Israel pelo fato de os santuários sagrados, com os restos mortais do fundador de sua fé estarem localizados naquela região, é algo que claramente demonstra a intenção do governo iraniano de discriminar a qualquer custo esses sete Bahá’ís.

Nobres colegas, até mesmo os cidadãos iranianos estão se levantando em defesa dos Bahá’ís, já que eles, vizinhos, colegas e amigos, sabem que os Bahá’ís não fazem parte de nenhum órgão secreto israelense, e merecem o devido respeito como seres humanos.

A iraniana e muçulmana Shirin Ebade, que recebeu o Prêmio Nobel da Paz, se levantou para defender os Bahá’ís, e o resultado disso foi um jornal reformista iraniano afirmar que sua filha havia se convertido do Islã para a Fé Bahá’í – o que não tem fundamento nenhum.

Analisando esta questão, percebemos que existe uma clara perseguição contra aqueles que defendem os Bahá’ís, e por mais este motivo o governo brasileiro, assim como outros governos no mundo, precisa se pronunciar o mais rápido possível contra estas tristes violações, pois estes sete Bahá’ís estão correndo o risco de serem executados a qualquer momento.

Todos os grupos vulneráveis no Irã contam com a pressão internacional para que algo seja feito; para que seus direitos sejam preservados; e para que possam viver com o mínimo de dignidade possível. Os Bahá’ís iranianos são apenas mais um desses grupos que aguardam apreensivamente uma atitude em sua defesa.

É preciso esclarecer, senhor presidente, que a Fé Bahá’í prega a unidade de Deus, da Religião e da Humanidade. Bahá’u’lláh, fundador da doutrina Bahá’í já dizia que o objetivo fundamental que anima a Fé de Deus e Sua Religião é proteger os interesses da humanidade e promover a unidade, e nutrir o espírito de amor e amizade entre os homens.

A Fé Bahá’í é uma religião mundial, independente, com suas próprias leis e escrituras sagradas, surgida na antiga Pérsia, atual Irã em 1844. A Fé Bahá’í foi fundada por Bahá’u’lláh, título de Mirzá Husayn Ali, que viveu entre os anos de 1817 e1892, e não possui dogmas, rituais, clero ou sacerdócio.

A Comunidade Bahá’í com aproximadamente 6 milhões de adeptos, é a segunda religião mais difundida no mundo, superada apenas pelo Cristianismo. Os Bahá’ís residem em 178 países do mundo, em praticamente todos os territórios e ilhas do globo. No Brasil, a Comunidade Bahá'í está estabelecida desde fevereiro de 1921, com a chegada ao País da senhora Leonora Holsapple Armstrong, que introduziu a Fé Bahá’í no País. Hoje os Bahá’ís formam um contingente de aproximadamente 47 mil pessoas, das mais diversas classes sociais, culturais e econômicas, residentes em aproximadamente 1.215 municípios brasileiros.

É preciso lembrar, senhor presidente, que o próprio Congresso Nacional do Brasil homenageou Bahá’u’lláh, o Fundador da Fé Bahá’í, em concorrida Sessão Solene realizada no dia 28 de maio de 1992, ano do centenário de seu falecimento, ocasião em que representantes dos diversos partidos políticos discursaram sobre a vida e os ensinamentos de Bahá’u’lláh.

Ainda em 1992, durante a realização da Conferência Mundial para Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Eco 92, a Comunidade Bahá'í dirigiu a palavra a todos os Chefes de Estado e Governo na Conferência Oficial e ofereceu à cidade do Rio de Janeiro e a todos os que promoveram a Conferência Mundial, o belo monumento em forma de ampulheta, dedicado à Paz Mundial, estabelecido no Aterro do Flamengo, e concebido pelo renomado artista Siron Franco, ele também um membro da Comunidade Bahá’í.

Além disto, a Comunidade Bahá’í é reconhecida no Brasil por estabelecer projetos de desenvolvimento econômico e social em diversas regiões do país. Por exemplo, aqui em Brasília, criou a ESCOLA DAS NAÇÕES, que propicia uma educação voltada para conceitos de unidade da humanidade e de cidadania mundial. A Comunidade Bahá'í é a primeira organização não-governamental formalmente creditada junto às Nações Unidas, há cerca de 50 anos, apoiando todas as ações das Nações Unidas para o estabelecimento da paz mundial, tolerância e o entendimento entre os povos do mundo.

Diante do exposto senhor Presidente, a comunidade Bahá’í residente no estado brasileiro, aguarda uma manifestação do governo que sempre se mostrou tão preocupado com os direitos humanos.

Muito obrigado.

GERALDO RESENDE Deputado Federal PMDB/MS

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COMENTÁRIO: Quanto tempo vamos ter de esperar até podermos ver um Deputado fazer uma declaração semelhante no Parlamento Português?

sábado, 18 de outubro de 2008

Da Polinésia...

Mana é o nome de um grupo de jovens bahá'ís da Polinésia que produziu este vídeo intitulado "Backbiting".

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Richard Dawkins e A Desilusão de Deus (7)

A RELIGIÃO COMO FORÇA FRACTURANTE

Será a religião a fonte de muitos dos males da humanidade, ou apenas mais “petróleo” que é lançado nas fogueiras dos conflitos humanos? O Prof Richard Dawkins escreve no livro “A Desilusão de Deus”:
A religião é, sem dúvida, uma força fracturante, e é esta uma das principais acusações que lhe são feitas. Mas diz-se frequentemente, e com razão, que as guerras e os feudos entre seitas ou grupos religiosos raramente têm a ver, de facto, com desavenças teológicas. (…) A religião é um rótulo para sinalizar a inimizade e as vendetas entre o grupo a que se pertence e o grupo ou grupos a que não se pertence, um rótulo que não é necessariamente pior que outros rótulos, tais como a cor da pele, a língua, ou o clube de futebol favorito, sucedendo apenas que muitas vezes, na ausência de outros rótulos, é aquele que está mais à mão. [p. 311]

Não nego que as poderosas tendências da humanidade no sentido de uma fidelidade intragrupo e de uma hostilidade para com grupos alheios existiriam mesmo na ausência de religião. Os fãs de clubes de futebol rivais são, a uma escala menor, um exemplo desse fenómeno. Mesmo os apoiantes do futebol por vezes dividem-se em função da religião, como sucede no caso do Glasgow Rangers e do Celtic de Glasgow. As línguas (como na Bélgica), as raças e as tribos (sobretudo em África) podem funcionar como símbolos importantes de divisão. Mas a religião amplia e exacerba os danos… [p. 313]
A religião não é a causa dos conflitos, mas é um factor de identificação que muitas vezes e aproveitado por facções políticas. E quando essas facções políticas não têm escrúpulos, então temos a porta aberta para o conflito religioso. O Prof. Dawkins percebe isso e mostra nas citações acima que não é um anti-religioso primário. Pode ter fama de beligerante contra a religião, mas esta observação mostra que não é assim tão beligerante como o descrevem.


Ninguém pode negar que quando a religião se torna motivo de conflitos, causa sofrimentos difíceis de sarar. Bahá’u’lláh afirmou a este propósito:
Envidai todos os esforços, ó povo de Bahá, para que o tumulto da dissensão e luta religiosa que agita os povos da terra possa ser acalmado e todos os seus vestígios completamente obliterados. Por amor a Deus e àqueles que O servem, erguei-vos para ajudar esta sublime e solene Revelação. O fanatismo e o ódio religioso são um fogo que devora o mundo, cuja violência ninguém pode extinguir. (Epístola ao Filho do Lobo)
Mas nem sempre o Professor Dawkins se mostra tão racional na análise dos males provocados pela religião. A propósito das motivações dos fundamentalistas islâmicos, escreve esta frase com a qual discordo profundamente:
A mensagem que devemos tirar daqui [das motivações dos fanáticos islâmicos] é que há que culpar a própria religião e não o extremismo religioso (como se este fosse uma espécie de perversão terrível da religião verdadeira e boa!) [p. 364-365]
O que me surpreende nesta frase é a ingenuidade contrastante com outras afirmações tão bem fundamentadas ao longo do livro. Seguindo um raciocínio semelhante, teríamos, por exemplo que culpar toda a indústria da aviação pelos bombardeamentos aéreos que ocorreram no último século. Talvez os irmãos Wright não devam ser aclamados como pioneiros; talvez devam ser responsabilizados pelos bombardeamentos de Coventry, Roterdão, Hamburgo, Dresden, Tóquio e tantos outros. E esses admiradores de aparelhos como o Jumbo 747 ou o Airbus 380 serão eles apenas gente ingénua ou estarão a escamotear os pecados da aviação?

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Ainda sobre a Pobreza

A propósito do Blog Action Day assinalado ontem e dedicado à pobreza, aqui fica um excerto do livro "O Mundo Pós-Americano" de Fareed Zakaria” sobre este tema:
Pode parecer estranho tratar de uma prosperidade crescente quando ainda há centenas de milhões de pessoas que vivem numa pobreza desesperante. Contudo, na realidade, a percentagem de pessoas que vivem com um dólar ou menos por dia caiu de 40 por cento em 1981 para 18 por cento em 2004, e estima-se que caia ainda para 12 por cento em 2015. Bastou o crescimento da China para retirar da pobreza mais de 400 milhões de pessoas. A pobreza está a diminuir em países que representam 80 por cento da população mundial. Os 50 países onde vivem as pessoas mais pobres da Terra são um número limitado de casos que necessitam de atenção urgente. Noutros 142 países – o que inclui a China, a Índia, o Brasil, a Rússia, a Indonésia, a Turquia, o Quénia e a África do Sul -, os pobres estão a ser lentamente absorvidos em economias produtivas que estão em crescimento. Pela primeira vez na história, estamos a assistir a crescimento global genuíno.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Blog Action Day


Blog Action Day 2008 Poverty from Blog Action Day on Vimeo.

E a propósito: Blog Action Day creates unity for social action, says organizer (BWNS)

Aconteceu no Bahrain...



A notícia estava ontem no Khaleej Times e dava conta que a Human Rights Watch Society do Bahrain elegeu o seu secretariado na passada segunda-feira. Deste organismo fazem parte quatro muçulmanos, um cristão, um judeu, e - pela primeira vez - um hindu e um baha’i. Foi a primeira vez que isto aconteceu naquele país do Golfo Pérsico. Saliente-se ainda que esta equipa agora eleita é constituída por quatro homens e quatro mulheres.

A Human Rights Watch Society do Bahrain, que é conhecida por se dedicar à protecção das minorias e à promoção da liberdade religiosa, vai elaborar um programa de monitorização das eleições parlamentares e municipais que terão lugar em 2010.

É daqueles exemplos que passam despercebidos, mas que deviam ser publicitados.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

É curioso...


Quem poderia dizer que o mundo ocidental perturbou a vida dos povos não ocidentais? Quem poderia dizer que o pós-modernismo não conseguiu criar um mundo novo? Quem poderia dizer que as fundações da vida humana podem entrar em colapso devido aos efeitos devastadores do nilismo? Quem poderia dizer que a essência de todas as religiões é a mesma?

Alguns leitores deste blog pensarão: Só um Baha'i poderia dizer todas estas coisas. Pois foi Khatami que o disse durante a conferência em Teerão; algumas ideias da sua intervenção são citadas neste artigo do Tehran Times.

Claro que não nos podemos esquecer que Khatami é um político muito hábil. E a maioria dos políticos nunca diz o que pensa, mas apenas aquilo que é conveniente. E o jornal que o cita ignora o conteúdo da intervenção de Kjell Magne Bondevik, o ex-Primeiro Ministro da Noruega. Vá-se lá saber porquê...

O que foi que eles disseram?

Jorge Sampaio discursando na Conferência de Teerão.
O que foi que ele disse?

Diversos analistas e comentadores na imprensa internacional insistem que a conferência de Teerão (onde discursou o nosso ex-presidente, Jorge Sampaio) foi um acto político, um esforço para encorajar a ala reformadora do regime iraniano a enfrentar o ultra-conservador presidente Ahmadinedjad.

O Público, por exemplo, escreve que a Khatami tentou que a conferência servisse como “rampa de lançamento para a sua recandidatura à Presidência da República islâmica”. E apesar do ex-presidente iraniano afirmar publicamente que não deseja misturar as duas coisas, a verdade é que o evento ocorre na mesma altura que Khatami admitiu recandidatar-se à Presidência do Irão.

Outros media lembram que os políticos ocidentais se têm recusado a visitar o Irão desde que Ahmadinedjad subiu ao poder, e que o actual presidente iraniano tem visto a sua popularidade diminuir entre os seus compatriotas.

Pela minha parte, preferia saber exactamente o que disse cada um daqueles convidados estrangeiros; destes apenas sabemos ideias das intervenções de Mary Robinson e de Kjell Magne Bondevik. O que disse Kofi Anan? E Romano Prodi? E Jorge Sampaio? Algum denunciou os crimes cometidos pelo regime islâmico contra as minorias religiosas do Irão?

Infelizmente os media parecem dar preferência à análise e especulação política. Não será isso uma forma de indiferença?

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Sobre este assunto:
Public Stage for Iran’s Ex-President Fuels Talk of Political Return (NYT)
International conference on religion starts in Tehran (AP – Pakistan)
Former global leaders in Iran to support Khatami (Kuwait times)
Bondevik attempts dialogue with Iran's president (AftenPosten – Norway)
Conferência em Teerã sobre Diálogo Inter-Religioso reúne ex-Chefes de Estado (Rádio Vaticano)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Kjell Magne Bondevik



Foi o homem que disse as coisas com frontalidade na conferência de Teerão!

Este político norueguês (ex-primeiro ministro) criticou as opiniões de presidente Ahmadinedjad sobre Israel e afirmou que as minorias religiosas que o Ocidente diz serem discriminadas no Irão, devem ter os mesmo direitos legais que os Muçulmanos. Parece que este homem não tem papas na língua.

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Sobre este assunto:
Iran ex-president hosts prominent Western figures (Reuters)
World Leaders in Tehran for "Religion in the Modern World" conference (Payvand)

As palavras bonitas da Sra Robinson



Referindo-se à Conferência que hoje se iniciou em Teerão as agências noticiosas dão relevo a três aspectos: o discurso da Sra Mary Robinson (antiga presidente irlandesa) que apelou ao respeito pelos direitos das minorias religiosas acrescentando que o extremismo religioso se pode tornar uma arma de destruição em massa. São palavras bonitas que ficam bem.

Resta saber a que minorias é que ela se referia: seriam os Muçulmanos na Europa? Os Cristãos no Iraque? Os Bahá'ís no Irão? Talvez tivesse sido boa ideia ter sido mais explícita, pois não me admirava que os anfitriões iranianos tivessem entendido as suas palavra de uma forma bem diferente do que ela poderia querer dizer.

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Sobre este assunto:
'Religious extremism is a WMD', Tehran meeting told (AFP)
Teherán, sede de una conferencia internacional sobre diversidad religiosa y mundo moderno (libertaddigital.com)

World dignitaries open int'l conference on religion (IRNA)

Frontalidade ou Cobardia?

Começa hoje em Teerão uma conferência internacional sobre "A Religião no Mundo Moderno". O evento é patrocinado pelo projecto "Aliança para as Civilizações" e é descrita como uma iniciativa do ex-presidente iraniano Mohammad Khatami. Entre a lista dos ilustres convidados encontram-se os nomes de Kofi Annan(Gana), Romano Prodi (Itália) Leonel Jospin (França), Frederico Mayor (UNESCO; Espanhan), Kjell Bondevick (Noruega), Mary Robinson (Irlanda), John Esposito (EUA) e... Jorge Sampaio (Portugal).

Claro que a primeira coisa que podemos questionar é se Teerão é o local mais adequado para debater um tema destes. Não é segredo para ninguém que o regime de Teerão tem um longo e sinistro historial de violação dos direitos das minorias religiosas. O próprio Khatami não está isento de culpas nessa matéria. Basta ver o que dizem os relatórios anuais do Departamento de Estado dos EUA sobre liberdade religiosa no mundo, ler o capítulo sobre o Irão para perceber que há muita coisa que não bate certo nesta iniciativa.

Pergunto-me se algum destes convidados estrangeiros para por um momento só para reflectir se o Irão tem qualquer autoridade moral para falar sobre este assunto... Pergunto-me se algum destes convidados tem conhecimento da "Lei da Apostasia" que actualmente está a ser debatida pelo parlamento Iraniano... Pergunto-me se algum deles usará da palavra para condenar a situação das minorias religiosas no Irão, e em especial da maior minoria religiosa daquele país...

Por outras palavras: esta conferência ficará para a histórica como a Cimeira da Frontalidade ou como a Cimeira da Cobardia?

domingo, 12 de outubro de 2008

«O criacionismo é uma grande tolice»

Num artigo do jornal Expresso sobre a pouca atenção que, em Portugal, o ensino dedica à evolução, apresenta-se a seguinte nota com opiniões de Luis Archer e de Manuel Morujão:

Não há "incompatibilidade nenhuma entre a religião e a ciência porque a primeira procura o porquê e a segunda o como", considera o padre jesuíta e cientista Luís Archer, acrescentando que o "criacionismo é uma tolice de todo o tamanho". Os criacionistas defendem que a vida na terra e as espécies foram criadas por Deus, tal como é relatado na Bíblia e não que evoluíram em resultado de um processo de selecção natural. Luís Archer, 82 anos, doutorado em Genética Molecular e ex-Presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida, insiste que "é um disparate as pessoas pensarem que a Bíblia é um livro de ciência" e argumenta que "Deus não é necessário para explicar a origem da vida e a origem do Homem".

O padre Manuel Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, assinala também que "o verdadeiro debate não se situa entre criacionismo e evolucionismo, mas sim entre fixismo e evolucionismo, como se falava até Darwin, e continua em aberto". E a pergunta que se coloca é: "Terá Deus criado o universo de modo evolucionista ou fixista (havendo apenas multiplicação de indivíduos dentro da mesma espécie fixa, desde o início)?" Quanto ao resto, "as primeiras páginas do livro dos Génesis não são uma lição sobre ciência, mas uma catequese sobre Deus". Em suma, "a religião não deve tornar-se ciência e a ciência não deve fazer-se religião".

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COMENTÁRIO: Para um Bahá'í este tipo de declarações (que reflectem uma entendimento da compatibilidade e harmonia entre ciência e religião) nada tem de surpreendente. Afinal, foi 'Abdu'l-Bahá que afirmou que «Quando uma religião se opõe à ciência, torna-se mera superstição: o que é contrário ao conhecimento é ignorância». Porque será que isto ainda é difícil de perceber por algumas pessoas?

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Materialismo

Excerto de uma intervenção de Sohrab Youssefian durante Escola Bahá'í de Verão, realizada no passado mês de Agosto.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Quem foi Paulo de Tarso?

"Paulo, um homem inquieto, um apóstolo insuperável"[Paulinas, 2008] é o título de uma obra do padre Jerome Murphy-O'Connor, um prestigiado professor da Escola Bíblica de Jerusalém e reconhecida autoridade em temas paulinos. Ao longo de mais de 300 páginas, este dominicano irlandês apresenta a vida do Apóstolo na forma de um relato cronológico simultaneamente fascinante e inspirador, levando o leitor a reconstruir o mundo em que S. Paulo viveu, reconstruindo a sua vida e teologia.

Sem nunca entrar em especulações infundadas ou sensacionalismos, o Padre Jerome convida-nos a reflectir sobre diversas possibilidades que se colocam relativamente a muitos aspectos da vida de Paulo para os quais não temos qualquer informação: Os pais de Paulo seriam escravos? Como foi recebido por Pedro quando se conheceram? Quão dolorosa foi a rotura com a Igreja de Antioquia? O que o levou a optar por determinados itinerários ao longo das suas viagens missionárias? Quais as circunstâncias em que foram escritas cada uma das suas cartas?

Para o autor, nas Epístolas de Paulo e nos Actos dos Apóstolos encontram-se diversos indícios que podem ajudar a encontrar respostas a estas e outras questões. Outros escritos históricos antigos, assim como o conhecimento que o da história e geografia do Mediterrâneo Oriental, permitem ao padre Murphy-O'Connor formular algumas respostas possíveis, e, por vezes, justificar qual a mais provável.

Ao longo de um texto onde ressalta a honestidade intelectual do autor (que por vezes assume que não tem respostas), Paulo torna-se um ser humano real, complexo e inseguro como tantos outros homens, bem diferente da imagem de vedeta da santidade que tantas teologias e catequeses proclamam.

Quem foi afinal o cidadão romano, Paulo de Tarso? Talvez nunca saibamos a resposta. Talvez Paulo permaneça para sempre um enigma na história do Cristianismo. Mas o livro do padre Murphy-O'Connor é de leitura obrigatória para quem deseja investigar um pouco sobre Paulo.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Condenado a ser pobre!

Mehran Bandi é um Bahá'í iraniano que tinha uma loja de computadores na cidade de Yazd. Nunca teve qualquer problema com as autoridades até que no passado dia 29 de Maio vários agentes do Ministério da Segurança invadiram o seu estabelecimento, tendo confiscado vários computadores e CD’s, e levado o Sr. Bandi para um local desconhecido.

Em 28 de Agosto, o veredicto nº 87/286 do Tribunal Revolucionário Islâmico acusou o Sr, Bandi de «conspiração contra a segurança interna e externa da nação», «declarações contra o regime da República Islâmica e apoio a grupos anti-revolucionários» e «posse de acessórios de TV por satélite». Com base nessa acusação foi condenado a 3,5 anos de prisão e 3 anos de exílio na cidade de Babak, em Kerman. Além disso, o tribunal decidiu revogar a licença comercial da loja do Sr. Bandi, proibindo-o de participar em actos públicos ou em qualquer tipo de empreendimento comercial.

A loja e o armazém do Sr. Bandi, assim como o seu equipamento de trabalho e equipamentos pertencentes a clientes foram confiscados pelo Ministério da Segurança.

Neste momento o Sr. Bandi cumpre a sua pena na Prisão Central de Yazd. Mas quando for libertado será exilado numa cidade estranha. E sem licença comercial e proibido de envolvimento em actividades comerciais durante cinco anos, pergunta-se como é que ele vai ganhar a vida?

O caso do Sr. Bandi é apenas mais um dos muitos que nos revelam como as autoridades iranianas se esforçam asfixiar economicamente os bahá’ís. Recorde-se que os baha’is foram declarados «impuros» e não podem exercer diversas actividades profissionais, nomeadamente na confecção e distribuição de alimentos. Também não é raro os empregadores serem pressionados a despedir os empregados baha’is. E como é óbvio, são poucos os advogados que queiram defender os baha’is em questões laborais, e pouca justiça se pode esperar dos Tribunais da Republica Islâmica

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Fontes:
Imprisoned for Being Baha’i
محاکمه و زندان به جرم دگراندیشی

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Que mal é que fizeram as árvores?

A profanação de cemitérios tem sido uma das formas de atacar e intimidar a Comunidade Baha’i no Irão. O mais recente acto de vandalismo sobre cemitérios Baha’is deu-se no passado dia 27 de Setembro em Isfahan, onde foram cortadas as árvores ali existentes. As imagens que se seguem ilustram a situação:



No fundo isto é mais uma prova da falsidade e hipocrisia do presidente Ahmadinedjad que recentemente afirmou que as minorias religiosas do Irão fazem parte da “grande família iraniana”. Foram palavras bonitas, sim senhor. Mas este acto mostra que nessa família há uns que são filhos e outros são enteados.

E a propósito: que mal é que fizeram as árvores?

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Gato escondido com o rabo de fora...

O novo ano lectivo recomeça no Irão e todos os alunos retomam os seus afazeres escolares. Todos os alunos... não será bem assim! Na verdade continua a existir aquela minoria para a qual está vedado o acesso ao ensino superior. E por muito que o Governo iraniano afirme que os Bahá’ís são livre de frequentar o ensino superior, as informações surgidas nas duas últimas semanas provam que a política de bloqueio de acesso dos Bahá’ís ao ensino superior continua em vigor

O esquema aplicado é simples: primeiro todos os estudantes realizam o exame de acesso ao Ensino Superior no qual devem identificar a sua filiação religiosa. Posteriormente, quando são publicados os resultados oficiais, os estudantes baha'is verificam que o seu processo de candidatura se encontra classificado como "incompleto". E recordemo-nos que os estudantes que no ano passado foram vítimas do mesmo esquema e decidiram levar o caso a tribunal, acabaram por ver os tribunais a rejeitar as suas queixas.

E mais estranho ainda é que o site oficial consultado por estes alunos ao apresentar a mensagem de erro de "ficheiro incompleto" faz um redireccionamento para um link que termina com as palavras error_bah, uma aparente referência ao facto da candidatura estar incorrecta pelo facto do aluno ser Bahá'í. (se tiver dúvidas consulte o site: http://82.99.202.139/karsarasari/87/index.php?msg=error_bah e veja aqui a tradução dessa página em inglês). Como se diz em bom português: Gato escondido com o rabo de fora...

O site oficial iraniano apresentando a mensagem de erro para os Bahá'ís.
(clique na imagem para ampliar)

Recorde-se que no processo de candidatura e avaliação para o ano lectivo 2007-2008 mais de 1000 estudantes baha’is iranianos candidataram-se ao Ensino Superior, mas cerca de 800 foram excluídos devido ao alegado problema dos "ficheiros incompletos".

Bani Dugal, a representante da Comunidade Internacional Bahá’í junto das Nações Unidas descreveu o caso como a continuação de uma política de segregação educativa baseada na discriminação religiosa: "O efeito destas políticas do Governo Iraniano é fechar as portas das Universidades aos Bahá'ís, apesar do Irão ser signatário de leis e convenções internacionais que defendem o direito à educação. Apelamos à Comunidade Internacional, em especial às universidades, aos professores e aos alunos que protestem em defesa dos jovens estudantes baha’is iranianos."

Sobre esta situação, Ahmad Batebi, um conhecido activista iraniano de direitos humanos escreveu um artigo intitulado “Os Baha’is e o Ensino Superior no Irão”, onde expressa a sua indignação perante este caso. Esse artigo foi referido aqui neste blog.

Spread the story. Stop the disease.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Manuel Clemente: Portugal e os Portugueses (1)

O livro “Portugal e os Portugueses”, de Manuel Clemente (Editora: Assírio e Alvim) despertou a minha curiosidade logo que foi publicado. Existiam dois motivos para essa curiosidade: por um lado era da autoria do Bispo do Porto (considerado por muitos católicos como uma figura de grande prestigio); por outro, abordava um tema tão complexo com a arte de ser português, e a nossa relação com a Pátria.

Durante várias semanas o livro ficou na minha lista de "livros para ler". Acabei por o comprar e li-o durante o verão passado. Apesar de discordar com o Bispo do Porto em diversos assuntos, não posso deixar de considerar interessante uma obra em que se reflecte sobre o lugar para o Divino na história de Portugal e dos Portugueses.

OS CULTOS MARIANOS

Um dos aspectos abordados com maior detalhe é a identificação do povo português com os cultos marianos. O autor dedica dois capítulos do livro a este tema. Cita diversas obras; enumera os diversos monarcas devotos desse culto; refere diversas localidades fundadas e monumentos construídos em honra de “Nossa Senhora”; descreve episódios históricos que de alguma forma sustentam a identificação de diversas gerações de portugueses com o culto Mariano. Percebe-se nas entrelinhas que o Bispo do Porto também é um devoto da mãe de Cristo.

Na minha opinião, a insistência de D. Manuel Clemente para encontrar o lugar de “Nossa Senhora” na história de Portugal é manifestamente exagerado. Veja-se por exemplo, a tentativa de justificar o facto de no momento mais crítico da Batalha de Aljubarrota, o rei D. João I ter invocado S. Jorge e não “Nossa Senhora”, para dar ânimo à tropa (p.52-53). Esta exegese religiosa das palavras atribuídas a um monarca português num texto histórico corre o risco de descredibilizar o esforço de encontrar um lugar do divino na História do povo português.

Claro que a história religiosa de Portugal não se pode resumir aos cultos marianos; o que D. Manuel Clemente nos apresenta é apenas uma perspectiva possível sobre alguns acontecimentos históricos. Em qualquer bom livro de História de Portugal encontramos diversos episódios em que o relacionamento entre o Reino de Portugal e a cúpula da Igreja Católica foi marcado por tensões e até mesmo corte de relações. Recorde-se por exemplo, a excomunhão de D. João IV, já cadáver e feito perante a família real.

A história do Divino e a história de Portugal cruzam-se em episódios brilhantes e em momentos trágicos, onde podemos encontrar heróis e vilões. A verdade é que em dois capítulos deste livro o Bispo do Porto deu uma ênfase especial ao Marianismo, quase dando a entender que este é o ponto alto da história religiosa de Portugal.

Sobre o Marianismo, lembro que já referi neste blog a posição oficial da Fé Bahá’í sobre a virgem Maria (ver links em baixo); e também dei a minha opinião pessoal sobre o tema. Mas a reflexão apresentada pelo Bispo do Porto neste livro leva-me a colocar duas questões que também me parecem merecedoras de reflexão:

1 - Não tem havido, ao longo da nossa história, uma tentativa de substituir o Cristianismo pelo Marianismo?

2 - E a proliferação de santuários marianos no nosso país não será um sinónimo de uma religiosidade popular mal-informada, cuja multiplicidade e diversidade assume carácter quase-politeísta?

Admito que estas questões possam soar a provocação para alguns leitores católicos; mas penso que na religião não deve haver temas inquestionáveis. Além disso, uma análise objectiva da história religiosa de Portugal tem necessariamente de conseguir algumas respostas para estas questões. Uma exposição idílica sobre o Marianismo é manifestamente insuficiente.

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Sobre este assunto:
Kitab-i-Iqan – A Virgem Maria
A experiencia religiosa e o enquadramento humano (Moojan Momen)
Fátima
Ainda sobre Fátima