sábado, 24 de agosto de 2013

Uma oportunidade de mudança no Irão

Por Winston Nagan, publicado no blog On Faith do Washington Post, em 21 de Agosto (os sombreados são da minha responsabilidade).
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Winston Nagan é um professor de direito e diretor-fundador do Instituto de Direitos Humanos e Desenvolvimento da Paz da Faculdade de Direito na Universidade da Florida e ex-presidente do conselho de administração da Amnistia Internacional, EUA (1989-1991).

Evitar qualquer tipo de convívio com a “seita depravada e enganadora". Estas são as palavras da fatwa de 28 de Julho de 2013, publicada pelo líder supremo do Irão, Ali Khamenei, contra a Fé Bahá'í. A sua publicação tão próxima do dia 04 de Agosto - data da tomada de posse do novo presidente iraniano, Hassan Rouhani - poderia naturalmente ser considerada como um acto preventivo para bloquear quaisquer planos do novo presidente para atenuar a perseguição contra as minorias religiosas no Irão, em especial os Bahá'ís.

O presidente iraniano Hasan Rouhani numa conferência de imprensa 17 de Junho, em Teerão.
(Ebrahim Noroozi / AP)

Rouhani desencadeou especulações significativas sobre o futuro do Irão. Quem é ele? O que vai ele fazer? É um verdadeiro "moderado" ou "conservador"? Será que ele vai alinhar-se com o ataque mais recente de Khamenei contra os Bahá'ís? Ou vai ser a aquela mesma voz de esperança para as minorias iranianas oprimidas quando, ao fazer campanha eleitoral, afirmou que as minorias religiosas devem ter igualdade de direitos de cidadania? Uma coisa é clara: a sua tomada de posse apresenta uma oportunidade para uma mudança significativa no tom, e talvez na política. Embora as aspirações nucleares do Irão preencham os títulos dos jornais, as práticas de direitos humanos do Irão são uma grande preocupação, especialmente no que toca à liberdade religiosa e aos que defendem esse direito.

No Irão, hoje, existem centenas de prisioneiros de consciência. Entre os mais notáveis encontram-se três advogados de direitos humanos: o Sr. Abdolfattah Soltani, a Sra. Nasrin Sotoudeh, e o Sr. Mohammad Ali Dadkhah. O seu crime: defender prisioneiros de consciência.

Soltani fundou, juntamente com Dadkhah e Sra. Shirin Ebadi, o Centro de Defesa de Direitos Humanos em Teerão. Foi detido em 2011, defendendo os sete dirigentes da comunidade Bahá'í do Irão, que foram presos devido à sua fé. Soltani foi condenado a 13 anos de prisão e proibido de praticar a advocacia durante 20 anos. Enquanto estava na prisão em 2012, ele foi agraciado com o Prémio do Bar da Associação Internacional dos Direitos Humanos.

Da mesma forma, Dadkhah defendeu o pastor Youcef Nadarkhani, que foi, a certa altura, condenado à morte devido à sua fé cristã, mas acabou por ser libertado. Dadkhah, foi detido em 2011, condenado a nove anos de prisão e proibido de praticar a advocacia durante 10 anos.

Sotoudeh, conhecido pela sua defesa das minorias religiosas, foi condenado em 2011 a 11 anos de prisão e proibido de praticar a advocacia durante 20 anos. Em 2012, enquanto estava na prisão, foi-lhe atribuído o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento do Parlamento Europeu. Além desses corajosos prisioneiros, outros advogados, como a Sra. Ebadi e Mahnaz Parakand, estão actualmente exilados por defender os direitos dos cidadãos iranianos.

A liberdade religiosa pode ser a frente mais importante na luta pelos direitos humanos no Irão, pois é a liberdade que mais profundamente desafia a visão do regime de uma teocracia ideologicamente homogénea. Cada um destes advogados defendeu as minorias religiosas, e Ebadi, Soltani, Sotoudeh e Parakand defenderam membros da Fé Bahá'í, a maior minoria religiosa não-muçulmana do Irão. Os Bahá’ís têm sido o alvo favorito do regime e são regularmente detidos e presos. Desde Janeiro de 2011, o número de Bahá'ís na prisão duplicou (de 56 para 112); e o número dos que aguardam julgamento, recurso, leitura de sentença, ou o início das suas sentenças aumentou de cerca de 230 para 435.

Entre os Bahá'ís actualmente presos encontram-se os sete membros de um antigo grupo ad-hoc de direcção nacional. Eram responsáveis por tratar das necessidades básicas da comunidade Bahá’í, como tratar de casamentos, divórcios e funerais. Foram presos com base em acusações infundadas, incluindo espionagem e espalhar corrupção na terra, e foram defendidos por Ebadi e Parakand antes desses advogados terem sido obrigados a deixar o país. Em Maio deste ano, completaram-se cinco anos da sua pena de 20 anos, as penas mais longas dadas a quaisquer prisioneiros de consciência no Irão até ao momento.

Com duras penas contra Bahá'ís, Cristãos, e advogados que se atreveram a defendê-los, o Irão enviou uma mensagem clara sobre as suas restrições à liberdade religiosa. Agora é a oportunidade de Rouhani para cumprir a sua promessa de campanha de acabar com esse abuso. A fatwa de Khamenei vai tornar mais difícil a tarefa do novo presidente. De facto, a fatwa pode até ser um sinal de que virão coisas piores.

Aceitar o pluralismo religioso - a implicação óbvia da promessa de campanha de Rouhani - permitirá fortalecer significativamente a sociedade iraniana. Nos últimos anos foram recolhidas evidências consideráveis, principalmente nos estudos rigorosos do Fórum Pew sobre Religião e Vida Pública, mostrando uma forte correlação em todo o mundo entre a liberdade religiosa e a estabilidade social. Se Rouhani e a elite clerical que lidera o governo do Irão estiverem verdadeiramente preocupados com o bem-estar do país, fariam bem em começar por conceder mais liberdade, inclusive de religião.

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FONTE: A chance for change in Iran (On Faith, WP)

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

OIT preocupada com repressão económica dos Bahá'ís iranianos

A OIT (Organização Internacional do Trabalho) manifestou "profunda preocupação" sobre a continuada discriminação económica e educativa dos Bahá'ís no Irão. Uma comissão da OIT encarregado de monitorar o cumprimento global, com o direito à não-discriminação no emprego e na ocupação, disse que o caso dos Bahá'ís iranianos continua a ser "particularmente grave" a "discriminação sistemática" por parte do governo.

Diane Ala'i, representante da Comunidade Internacional Bahá'í, nas Nações Unidas, em Genebra, afirmou: "A OIT é um organismo triplo, representando governos, trabalhadores e empregadores, de todo o mundo. O relatório da comissão, lançado no final de Junho, é, portanto, especialmente significativo porque representa a opinião não só dos governos, mas também de trabalhadores e empregadores".

"O facto da OIT se ter juntado ao clamor da preocupação internacional sobre a discriminação continuada do Irão, contra os Bahá'ís, no local de trabalho e na educação, é um factor importante para a opinião global."

"Na verdade, o Irão não só não fez quaisquer progressos na eliminação da discriminação, como piorou, ainda mais, a situação ", acrescentou. "Desde Janeiro deste ano, houve um aumento acentuado no número de lojas Bahá’ís que foram encerradas ou tiveram as suas licenças de negócio revogadas". Acrescentou que, em Hamadan, algumas lojas das 32 lojas peretencentes a Bahá’ís foram fechadas, no ano passado, e, com duas exceções, todos os outros lojistas bahá'ís naquela cidade foram convocados pelas autoridades, para interrogatório, em final de Fevereiro. Muitos desses comerciantes, mais tarde, tiveram as suas lojas fechadas.

"Uma loja Bahá'í, em Hamadan, foi fechada porque o dono da loja se recusou a abri-la nos dias sagrados Bahá’ís", disse Ala'i. "Quando ele começou a vender os produtos no seu camião, este foi-lhe confiscado. A sua residência foi também invadida e a sua conta bancária bloqueada. Estas formas de discriminação contra os Bahá'ís estão a ocorrer em todo o Irão".

“A discriminação no ensino superior, contra os Bahá'ís iranianos, também continua, abrangendo as escolas profissionais, as quais se enquadram no âmbito da área de preocupação da OIT.

Referindo-se a um memorando confidencial emitido pelo governo, declarou que "um número de escolas de formação profissional estavam entre as 81 universidades iranianas que foram especificamente instruídas para expulsar todos os estudantes que descobrissem ser bahá'ís, em 2006".

O relatório da comissão da OIT, nas suas conclusões "insta o Governo do Irão a tomar medidas decisivas para combater a discriminação contra minorias étnicas e minorias religiosas não reconhecidas, em particular os Bahá'ís."

O relatório também referiu opiniões de representantes dos trabalhadores, empregadores e do governo sobre a situação no Irão. Tais comentários são mantidos em anonimato para garantir a independência da comissão perante pressões por parte dos governos.

"Os representantes dos trabalhadores afirmaram que, apesar das numerosas evidências destes casos, nenhum progresso real foi feito em conformidade com a Convenção", diz o relatório. "A falta de capacidade do Governo para revogar, mesmo a legislação e os regulamentos mais ostensivamente discriminatórios, foi profundamente lamentável".

Ainda, segundo o Relatório, os mesmos representantes, propuseram também que uma missão de alto nível fosse enviada, para visitar o país, o mais urgente possível, com o objetivo de averiguar e definir um plano de acção com prazos que visassem garantir o cumprimento da Convenção.

Também os representantes dos empregadores, da mesma forma, " instaram o Governo a tomar medidas concretas para assegurar a proteção abrangente contra a discriminação direta e indireta em todas as áreas enumeradas na Convenção."

Vários governos, incluindo da União Europeia e do Canadá, também foram citados no relatório.

O representante do governo do Canadá, por exemplo, disse que as minorias religiosas enfrentaram discriminação persistente e generalizada. "Os membros da Fé Bahá'í foram discriminados no acesso à educação, às universidades e aos empregos no setor público; eles foram privados da propriedade, do emprego e da educação pela recorrente incapacidade do Governo para respeitar as suas obrigações ao abrigo da Convenção. Mesmo depois de repetidos apelos para a mudança, através da Comissão, demonstrou a falta de seriedade e boa-fé", disse o membro do governo do Canadá, de acordo com o relatório.

TRADUÇÂO: Ivone Correia 
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FONTE: ILO expresses concern over economic repression of Iranian Baha’is (BWNS)

domingo, 4 de agosto de 2013

Fatwa de Khamenei provoca críticas e condenações

A fatwa de Khamenei - que descrevia a Fé Bahá’í como "depravada e enganadora" - tem provocado várias críticas e condenações de diversos governos e organizações.

O governo do Canadá criticou o regime iraniano devido à sua “persistente e generalizada perseguição das minorias religiosas”. Andrew Bennett, embaixador do Canadá para a Liberdade Religiosa acrescentou que “os mais recentes comentários de ódio de Khamenei contra a pequena Comunidade Bahá’í do Irão mostram mais uma vez as verdadeiras intenções e sentimentos do regime iraniano”

"O seu apelo instando os iranianos a evitar interacções com este segmento pacífico da população do Irão apenas pode causar mais danos à perseguida Comunidade Bahá’í." Bennett recordou que "os Bahá’ís no Irão têm sofrido muito devido ao ódio que lhes é deliberadamente dirigido pela liderança iraniana. Atingir os Bahá’ís e outras comunidades religiosas é uma tentativa mal concebida para desviar a atenção dos iranianos das falhas internas do regime."

Também a Christian Solidarity Worldwide (CSW) manifestou a sua preocupação com o futuro das minorias religiosas no Irão depois da fatwa emitida contra a comunidade Baha'i. Mervyn Thomas, director executivo da CSW, lembrou que fatwas anteriores provocaram repressão "intensa" sobre os membros da comunidade Bahá’í, e apelou ao Líder Supremo e ao presidente eleito para defender os direitos dos Bahá’ís como cidadãos iguais e garantir a liberdade religiosa para todas as comunidades religiosas.

"Havia um optimismo cauteloso após a eleição de Hassan Rouhani, que prometeu uma abordagem mais moderada do que o seu antecessor. No entanto, esta notícia levanta questões sobre se ele será capaz de fazê-lo, uma vez que o poder supremo reside claramente noutro lugar", afirmou. "A fatwa também põe em causa a possibilidade de qualquer melhoria na situação das minorias religiosas do Irão".

Por seu lado, a Freedom House denunciou a fatwa, manifestando a sua profunda preocupação pela possibilidade deste decreto ser um precursor de uma nova ofensiva contra os Bahá’ís. Esta organização instou a República Islâmica a abster-se de mais repressão contra os Bahá’ís e a permitir que os seguidores de todas as religiões possam praticar a sua fé sem discriminações.  

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FONTES:
Canada slams Iran's hateful remarks against Bahá’í's (SUN News)
Fatwa against Baha'i community prompts concerns for Iran's religious minority (Christian Today)
Freedom House Condemns Recent Fatwa Against Baha’i Faith in Iran

sábado, 3 de agosto de 2013

Bahá’ís no Iraque: uma minoria não reconhecida

O texto que se segue é de autoria de Ali Mamouri e foi publicado no site Al-Monitor. A tradução para português foi feita a partir de uma tradução inglesa (de Sami-Joe Abboud).
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Rio Tigre, Bagdade (1918)
O Iraque é um dos principais pontos de partida da religião Bahá’í. Bahá’u’lláh, o fundador da religião, passou 10 anos no Iraque, onde fez o seu apelo religioso. Isso ocorreu no jardim Radwan [Ridvan], em Bagdade, situado nas margens do rio Tigre, naquilo que é actualmente a Cidade Médica de Bagdade. A religião Bahá’í foi precedida por uma forte presença dos seguidores do Báb (outra figura central para a religião Bahá’í) no Iraque, principalmente Tahirih Qurratu l-‘Ayn, a figura feminina mais proeminente entre eles.

Desde a sua criação, a religião Bahá’í tem enfrentado pressão e perseguição no Médio Oriente em geral, e no Iraque, em particular. Muitos dos seus seguidores foram mortos e os seus locais sagrados destruídos. Os Bahá’ís foram submetidos a investigações e perseguições durante diferentes períodos. Uma série de textos provocatórios foram produzidos contra os Bahá'ís, instigando à violência contra eles. Eles foram acusados de uma série de delitos, como a debilitação da religião para pregar o ateísmo, pornografia, descritos como fruto do colonialismo e do sionismo, e a lista continua.

Não há estatísticas oficiais sobre os Bahá’ís no Iraque, e seu número exacto ainda é desconhecido, devido ao medo dos aderentes em revelar as suas identidades. O correspondente do Al-Monitor reuniu-se com vários Bahá'ís em Bagdade e Sulaimaniyah na região do Curdistão iraquiano. No entanto, nenhum dos entrevistados apresentou estatísticas sobre os seus números, devido à sua dispersão, como resultado do medo profundo de ser hostilizado por autoridades e cidadãos comuns. Apesar disso, os Bahá’ís em Sulaimaniyah sentem-se mais seguros e têm mais estabilidade do que os seus irmãos em Bagdade, ainda que se coíbam de praticar abertamente a sua fé pelas razões acima mencionadas.

Durante a monarquia, os Bahá’ís podiam declarar oficialmente a sua identidade. A comunidade Bahá’í iraquiana foi fundada em 1931; o primeiro fórum central Bahá’í foi fundado em 1936 na região de al-Sa'doun; e possuíam um cemitério no distrito de Nova Bagdade, desde 1952, conhecido como o "jardim eterno". O governo iraquiano registou a religião Bahá’í no censo de 1957.

As restrições aos Bahá’ís começaram a crescer gradualmente após a queda da monarquia, até que a repressão atingiu o seu auge durante o regime Baath. Nessa altura, o governo publicou um conjunto de decretos contra os Bahá’ís em 1970 no Diário Oficial do Iraque. Nestes decretos, a religião Bahá’í foi oficialmente proibida, os Bahá’ís foram privados de todos os seus bens e proibidos de registar a sua religião nos registos civis. Além disso, foram obrigados a apagar as referências à Fé Bahá’í nos registos existentes e a substituí-los por uma das três religiões abraâmicas oficialmente reconhecidas. Posteriormente, um grande número de seguidores foi preso e muitos seguidores religiosos Bahá’ís foram condenados à morte no final de 1970.

Estes riscos levaram os Bahá’ís a querer fechar-se completamente ou a deixar o Iraque. Apesar da abertura que se seguiu à queda do regime do deposto presidente Saddam Hussein, em 2003, os Bahá’ís no Iraque ainda permanecem na penumbra, vivendo com medo de declarar a sua identidade social e preferindo não praticar a sua religião em público.

Uma mulher Bahá’í disse ao Al-Monitor, que depois de ser libertada da "prisão" do regime de Saddam Hussein, sentiu que se tinha mudado de uma pequena prisão para uma sociedade, mais dura e mais violenta do que a anterior. A vida na "prisão", afirmou, costumava protegê-la da cultura de exclusão para com os Bahá’ís que prevalece na sociedade iraquiana.

Saad Salloum, um especialista em minorias iraquianas, disse ao Al-Monitor que a mudança de regime em 2003, em nada alterou a situação dos Bahá’ís. A religião Bahá’í ainda é oficialmente proibida e os Bahá’ís continuam sem permissão para indicar a sua religião nos registos civis. Ainda não recuperaram os seus bens confiscados e os decretos publicados contra eles não foram abolidos.

Casa de Bahá'u'lláh em Bagdade

Apesar de toda a violência e exclusão praticada contra os Bahá’ís, tem havido um conjunto recente de evolução jurídica e religiosa que servem os interesses dos Bahá’ís e melhoram a sua condição social, apesar de se tratar de um progresso legal lento. De acordo com a Declaração n º 42, publicada na edição 4224 da Iraqi Facts em 26 de Dezembro de 2011, o Ministro da Cultura iraquiano Saadoun al-Dulaimi emitiu um decreto segundo o qual a casa que foi habitada por Bahá'u'lláh, quando ele esteve em Bagdade passou a ser considerado património cultural. É interessante notar que o local se transformou num espaço cerimonial xiita conhecido como "Sheikh Bashar", actualmente localizado no bairro de Al-Tala'eh de Bagdade.

No entanto, Salloum declarou que o lugar tinha sido demolido numa tentativa de desencorajar os Bahá’ís, que não foram dissuadidos e mostrou disponibilidade para o reconstruir, se tivesse oportunidade.

No plano religioso, várias fatwas foram publicadas por estudiosos xiitas em Najaf e Qom apresentam uma perspectiva diferente sobre a religião Bahá’í, incluindo um nível de tolerância para com esta. A principal destas fatwas relacionadas com Bahá’ís foi publicada Ayatollah Hossein Ali Montazeri em 2009. Nesta pede-se respeito pelos seus direitos como cidadãos, apesar das diferenças religiosas entre eles e os muçulmanos.

Um estudo intitulado "Um Olhar Histórico sobre as Minorias Religiosas do Iraque: História e Crenças", foi publicado por Jawad al-Khoei, professor do seminário xiita de Najaf. Este estudo inclui uma visão científica e neutra em relação a todas as religiões do Iraque - incluindo os Bahá’ís - reflectindo uma maior abertura ao nível das elites religiosas. Além disso, o jornalista iraniano Mohammad Nourizad, que se opõe à autoridade absoluta de Velayat-e faqih (regime de juristas islâmicos), visitou a casa de uma família Bahá’í para lhes apresentar um pedido de desculpas oficial pela perseguição política e social e violência que sofreram ao longo dos anos nas mãos da maioria muçulmana. Este gesto foi recebido de forma positiva, e algumas páginas de iraquianos no Facebook apelaram a que um acto semelhante se realizasse pelo lado iraquiano.

Os Bahá’ís do Iraque esperam ser reconhecidos oficialmente, ter segurança e protecção judicial, permissão para afirmar a sua identidade, praticar os seus rituais religiosos e recuperar as suas propriedades, especialmente as de valor simbólico e religioso.

Ali Mamouri é um investigador e escritor, especializado em religião. Foi professor em universidades iranianas e seminários no Irão e no Iraque. Publicou vários artigos relacionados com assuntos religiosos nos dois países e as transformações sociais e sectarismo no Médio Oriente. 

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FONTE: Iraq's Baha'is Continue to Face Persecution, Social Exclusion (Al-Monitor)

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Na prisão, o pai do pequeno Artin responde a Nourizad

 Em 15 de Julho de 2013, Mohammad Nourizad, ex-apoiante de linha-dura do regime iraniano e jornalista que mais tarde se tornou um crítico do regime, visitou a casa da família Rahimian. Kamran Rahimian e esposa Faran Hesami são educadores Bahá’ís que foram presos por ensinar os seus companheiros de Fé frequentemente perseguidos numa universidade alternativa (os seguidores desta religião, são considerados hereges pelo poder xiita e estão oficialmente proibidos de ingressar no ensino superior). Numa demonstração de oposição à repressão dirigida contra os Bahá’ís, Nourizad imitou o Papa Francisco ao beijar os pés do pequeno Artin, de quatro anos de idade, filho dos Rahimians. Kamran Rahimian, escreveu na prisão Raja'i-Shahr perto de Teerão, respondeu à visita de Nourizad. Texto dessa carta foi traduzido para inglês no site Tavaana e é apresentado aqui aos leitores deste blog.

A carta do pai de Artin para Mohammad Nourizad, da prisão de Rajai-Shahr

Sr. Nourizad! Escrevo-lhe da prisão de Raja'i-Shahr [perto de Teerão]. Estou na prisão há cerca de dois anos, e nunca tive um dia sequer de licença. A minha esposa foi presa há mais de um ano, mas só fui autorizado a vê-la duas vezes. Nestes mais de dois anos, foi-me permitido receber a visita do meu filho a cada duas semanas.

A família Rahimian
Sr. Nourizad! Sou alguém que, quando numa aula de ética em 1981 - tinha 12 anos - foi ridicularizado porque os Bahá'ís eram acusados de contrair casamentos incestuosos. Nesse mesmo ano, fui proibido de visitar o túmulo da minha avó, falecida no ano anterior, porque o local onde ela tinha sido sepultada tinha sido expropriado e mais tarde transformou-se no Centro Cultural Khavaran. Sou uma pessoa que - em 1983 - aos 14 anos vi o meu pai preso durante 11 meses, executado sem que tivesse oportunidade de me despedir dele, e sepultado em Khavaran sem o nosso conhecimento. Antes disso, tinha sido expulso da casa onde vivia porque esta fora confiscada, com apenas uma mala para levar os meus livros escolares e roupas para a minha mãe, para o meu irmão e para mim. Sou alguém a quem foi recusada a possibilidade de participar nos exames de admissão à universidade, em 1987.

Sr. Nourizad! O meu nome é Kamran Rahimian. Sou o pai de Artin, de quatro anos de idade, que você viu quando foi a nossa casa. Você visitou o nosso lar reduzido a três pessoas que, apesar pertencerem a famílias diferentes, formam agora uma família entre eles. A minha mãe, cujo marido foi levado para ser executado há quase trinta anos atrás, carrega nos ombros o peso de todo o sofrimento destes últimos anos. A sua neta de 13 anos de idade, Gina, já teve a experiência de testemunhar a prisão simultânea da sua mãe e seu pai, em 2004. Agora o pai de Gina está na prisão e sua mãe está nos céus. O outro neto da minha mãe é o Artin, que tem ambos os pais na prisão. O que você escreveu fez-me sentir a necessidade de me fazer ouvir, e deu-me a oportunidade de me expressar. Envio-lhe os meus agradecimentos, juntamente com uma mistura de enorme aprovação e enorme tristeza. Ao mesmo tempo, parece-me que você se expôs conscientemente ao sofrimento, a fim de ouvir a dor da minha família.

Sr. Nourizad! Nas palavras que você escreveu, vi que pediu perdão, algo que eu tomei como um desejo de aceitação e compreensão. Você beijou os pés do Artin, e eu vi nisso como um símbolo de respeito e amor. Você reconheceu que muitas pessoas faltavam naquela casa, o que eu entendi como a sua disposição para aceitar a responsabilidade. Ouvi a sua esperança por apoio e justiça para os pais do Artin. Você bebeu água na nossa casa, e eu vi nisso um sinal da sua demonstração de aceitação e igualdade. Deduzi que a sua citação de um hadith [tradição atribuída do Profeta Muhammad] mostrou a importância e o respeito que você afirma estar consciente.

Sr. Nourizad! Eu entendi a acção que você tomou como uma tentativa para trazer objectividade a valores como o respeito, amor, justiça, ajuda, responsabilidade, igualdade, consciência e compaixão. Com as minhas palavras, vou tentar transmitir-lhe a minha gratidão. Também vou afirmar a minha esperança que a compaixão possa ser um caminho para construir um mundo de paz, que leve a justiça e a liberdade a cada tipo de pessoa.

Paz significa a aceitação do pluralismo e da capacidade de vários grupos coordenarem a busca de um objectivo comum - sendo esse objectivo a felicidade e conforto de todos. Justiça significa dar a cada indivíduo a oportunidade de fazer uso de todas as suas capacidades. Liberdade significa o potencial e a capacidade de um ser humano para crescer, evoluir, e preparar-se para a mudança, alinhado com os valores da humanidade, sem qualquer excepção entre os seres humanos, e sem considerar qualquer coisa que sirva para nos diferenciar, como etnia, raça, nacionalidade, sexo, religião e educação. Toda a humanidade foi criada à imagem de Deus.

Ao mesmo tempo, gostaria de aproveitar esta oportunidade para expressar alguns dos meus desejos:

Sr. Nourizad! Você chamou ao Artin uma pequena criança Bahá’í. Eu desejo que o Artin e todas as outras crianças, independentemente da família em que crescem e as crenças em que são educados, possam ter a oportunidade de aprender e adquirir conhecimentos. Eu gostaria que, ao tentar procurar a verdade, eles possam tomar uma decisão informada sobre suas crenças, de modo que suas acções possam ser o produto dessas crenças.

Sr. Nourizad! Frente ao Artin, você ajoelhou-se e beijou-lhe os pés. Considero isso a expressão suprema de amor e respeito, não para com o Artin, mas para com o espírito humano puro. Ao mesmo tempo, não desejo que pessoa alguma seja forçada a ajoelhar-se diante de outra pessoa, por vergonha. Vejo o respeito por cada pessoa como vindo do seu espírito humano, o que é exactamente o que todos nós temos em comum. A estima e o respeito de ambos os lados é igualmente importante e valioso.

Sr. Nourizad! Você pediu ao Artin para que o esbofeteasse e lhe cuspisse. Ouvi este pedido como a sua tentativa de aliviar a sua dor, e sinal supremo da sua honestidade e da sua aceitação de responsabilidade. Ao mesmo tempo, desejo que nenhum corpo humano seja exposto a tal coisa, pois o corpo aloja o espírito humano e o espírito humano é uma demonstração do Divino.

Sr. Nourizad! Eu acredito que uma pessoa doente precisa a ser tratada, e este tratamento é um processo que pode demorar muito tempo. Eu também acredito que, se o preço para o tratamento de uma pessoa é a dor de outra pessoa ou outras pessoas, esse ciclo não será quebrado. Por isso, desejo que todos nós tentemos quebrar o ciclo de violência. Isso não pode ser posto em prática sem que você, eu e todas as pessoas do Irão trabalhemos para que isso aconteça. Isso obriga-nos a perdoar a nós próprios e a perdoar os outros. Depois de tomar consciência e assumir responsabilidade, isto é algo que as pessoas podem pôr em prática. Esta ideia é algo que eu trabalhei para conseguir alcançar nos sete anos em que estive activo no campo da psicologia.

Sr. Nourizad! Você publicou algumas perguntas que Artin colocou, e eu presumo que a sua intenção era encontrar palavras que possam expressar o que o Artin está a sentir. Pode ter sido uma sugestão para que outros aceitem alguma responsabilidade. Eu desejo que o Artin - e todos nós - consiga tornar o respeito uma condição necessária para todas as interacções. Eu desejo que possamos aceitar que as diferenças de crença, e até que interesses subjectivos e opostos, existem, mas que nenhuma apele, ou exija, o desrespeito. E depois, desejo que sejamos capazes de aprender a expressar as nossas opiniões de forma honesta e com o maior respeito.

Sr. Nourizad! Acredito que, se conseguirmos manter constantemente uma ligação com o espírito humano existente na pessoa diante de nós, independentemente do que ela diz ou faz, nós podemos deixar de ser violentos. Este é o primeiro passo para criar o mundo que desejamos. Acho que você está a dar passos nesse caminho, e ao sentar-se à frente do Artin e da minha mãe mostrou que se move ao longo deste caminho. Aceite os meus parabéns por fazer isso.

Sr. Nourizad! Em conclusão, gostaria mais uma vez de expressar o meu respeito e a minha gratidão. Eu quero deixar claro que, se alguém vê algo diferente do que a minha gratidão e os meus desejos nesta carta, é apenas um sinal da minha incapacidade de expressar o que eu tenho dentro de mim, assim como um lembrete de que preciso de continuar a aprender e a praticar. Como Gandhi disse: "Deixem-nos ser a mudança que desejamos ver no mundo."

Kamran Rahimian
Prisão de Raja'i-Shahr
18 Julho de 2013

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Ayatollah Khamenei publica fatwa contra Fé Bahá’í no Irão


Segundo uma notícia divulgada pela agência AP nas últimas horas, o líder supremo iraniano - Ayatollah Ali Khamenei – publicou um decreto instando os iranianos a evitar todo e qualquer tipo de relacionamento com os membros da comunidade Bahá’í no Irão. Esta fatwa é a mais recente acção contra Fé Bahá’i no Irão. Além de ser considerada como uma reafirmação de fatwas anteriores, esta medida é vista como um prelúdio de novas medidas repressivas sobre os Bahá’ís daquele país.

O Tasnim - site iraniano de notícias – afirma que Khamenei designou a Fé Bahá’í como “depravada e enganadora”.

Recorde-se que o Irão concede alguma liberdade religiosa a Judeus, Cristãos e Zoroastrianos, e tem em vigor severas medidas contra conversões religiosas. A Fé Bahá’í - que surgiu no Irão no século XIX - não é reconhecida como religião pelo regime islâmico e os seus seguidores tem sofrido diversas formas de repressão e hostilidade por parte do regime e da comunicação social controlada pelo governo.

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SOBRE ESTE ASSUNTO:
Top Iran leader issues edict on Baha'i faith (CBS)
Top Iran Leader Issues Edict on Baha'i Faith (ABC)
Ayatollah Ali Khamenei Issues Edict Against Baha'i Faith In Iran (Huffington Post)
Top Iran leader issues edict on Baha'i faith (US News and World Report)