domingo, 23 de fevereiro de 2014

A religião provoca conflito?

Por Tom Tai-Seale.

A humanidade tem-se envolvido em guerras por causa da religião; pelo menos é isso, que dizem os livros de história.

Mas raramente o conflito "religioso" resulta apenas da religião. Se assim fosse, então o palco apropriado para a resolução seria a comparação, discussão e interpretação das escrituras. Definitivamente não é isto que acontece.

A religião tornou-se como uma luz que só é vista através de muitos candeeiros coloridos. Apesar dos candeeiros poderem ser bonitos, estes, inevitavelmente, vão colorir a luz com as especificidades da nossa interpretação. Por isso, quando nos deparamos com outras religiões, sentimo-las como diferentes da nossa, porque aquilo que primeiramente vemos é o candeeiro - e não a luz que o anima. Em vez de ver um povo que respondeu a uma luz evidente, da mesma forma que nós teríamos respondido à luz - se estivéssemos no seu lugar no espaço e no tempo - vemos uma religião diferente e questionamo-nos como subvertê-la. Os Bahá’ís acreditam na origem de todas as verdadeiras religiões há uma luz comum e que na unicidade desta luz os povos podem encontrar paz e concórdia:
As fundações de todas as religiões divinas são a paz e a concórdia, mas têm-se desenvolvido desentendimentos e ignorância. Se estes desaparecerem, vereis que todos os agentes religiosos trabalharão pela paz e promulgação da unidade da humanidade. Pois a base de toda é a realidade; e a realidade não é múltipla ou divisível. ('Abdu'l-Bahá, Promulgation of Universal Peace, p. 122)
Os grandes académicos religiosos do nosso tempo compreendem este princípio. Joseph Campbell escreve depois de concluir o conjunto de quatro volumes intitulado The Masks of God (As Máscaras de Deus):
Hoje, olhando para trás para os doze anos maravilhosos que passei nesse empreendimento recompensador, percebo que o seu principal resultado para mim foi a confirmação de um conceito que há muito tempo nutria fielmente: da unidade da raça do homem, não apenas na sua biologia, mas também na sua história espiritual, que em todos os lugares se revelou como se fosse uma sinfonia única, com os seus temas anunciados, desenvolvidos, amplificados e transformados, distorcidos, reafirmados, e hoje, como um grande fortissimo de todas as seções soando juntas, avança irresistivelmente para algum tipo de clímax poderoso, do qual emergirá o próximo grande movimento.
De alguma forma todos os que já tiveram um momento para olhar de forma séria os diferentes candeeiros de qualquer religião revelada devem admitir que ali existe uma beleza. E onde há um belo candeeiro, deve haver uma bela luz para iluminá-lo. Como diz o Novo Testamento, um bom fruto só pode vir de uma boa árvore. Este reconhecimento da beleza das religiões, até mesmo da sua expressão externa, tornou-se muito importante. Pode, pelo menos, permitir-nos a conviver com outros grupos religiosos, enquanto fazemos investigações mais sérias sobre os fundamentos da fé.

A sétima cruzada contra Jerusalem, por Francisco Hayez
Mas explorar a fé não é fácil num mundo que evolui rapidamente, impulsionado por uma explosão de tecnologia, comunicação social, viagens e informações - facto que está longe de ser acidental e que os Bahá’ís salientarão ter tido início em meados do século 19. Fomos lançados numa época em que as nossas próprias identidades foram desafiadas. A maioria dos nossos problemas devem-se ao facto de que não conseguirmos perceber as grandes mudanças desta era.

Apenas nas últimas décadas, a explosão da informação e as viagens fez todos nós cidadãos do mundo. O mundo inteiro tornou-se o nosso assunto - e isso inclui todas as suas religiões. A religião é transmitida formal ou informalmente. Antigamente, éramos educados numa única religião. Nestes dias, porém, a comunicação social traz todas as religiões para as nossas salas de estar. É claro que a qualidade da informação que recebemos é tão boa quanto a fonte - e os operadores dos meios de comunicação não podem ser considerados universalmente honestos. Mas, através da educação formal e informal, somos levados a conhecer todas as fés. Isso nunca aconteceu antes.

Assim, pela primeira vez, temos não só a capacidade, mas também o dever - como cidadãos do mundo - de comparar a religião na nossa investigação da verdade. Se falharmos, ou fizermos um mau trabalho, a nossa própria paz e segurança também irá sofrer. Porquê? Porque já não somos pessoas isoladas. Somos um só povo, embora tenhamos sido lentos a reconhecer isso. Nós somos o mundo, e, consequentemente, as suas religiões. Para estar à altura das exigências da nossa nova era, devemos avaliar de forma honesta as religiões com quem contactamos, e isso inclui nossa própria religião tradicional.

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Texto Original: Does Religion Cause Conflict? (bahaiteachings.org)

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Tom Tai-Seale é professor de saúde pública na Texas A&M University e investigador de religião. É autor de numerosos artigos sobre saúde pública e também de uma introdução bíblica à Fé Bahai: Thy Kingdom Come, da Kalimat Press

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Deputado Iraniano acusa todos os Bahá’ís de serem espiões

O Sr. Ahmad Salek

Na passada terça-feira, Ahmad Salek, presidente da Comissão Parlamentar Cultural do Irão, acusou a comunidade Bahá’í do seu país de fazer espionagem a favor para Israel e dos Estados Unidos. "Eu declaro muito explicitamente que o Bahaismo é uma organização de espionagem que recolhe informações para a CIA e para a Mossad, e há documentos abundantes que provam isto", foram palavras suas citadas pela agência de notícias Fars.

A agência Fars, que é uma filial da Guarda Revolucionária, relembra no mesmo artigo um comentário do então procurador-geral do Irão Qorban-Ali Dorri-Najafabadi, em 2009: "Nós [como o Estado] prestamos uma série de serviços para a seita Baha'i no Irão e respeitamo-los como seres humanos, mas não como infiltrados, espiões, ou grupelho político apoiado pela Grã-Bretanha e Israel que visa perturbar o Irão".

Em Outubro passado, o relator especial da ONU sobre os direitos humanos no Irão - Ahmed Shaheed - divulgou um relatório que incluía uma secção sobre a perseguição contra os Bahá’ís, onde se dizia que continuava a "…observar o que parece ser um padrão crescente de violações sistemáticas dos direitos humanos que visam membros da comunidade Bahá’í, que enfrentam detenções arbitrárias, torturas e maus-tratos, acusações por parte das forças de Segurança Nacional por participação activa em actividades religiosas, restrições à prática religiosa, a negação do ensino superior, dificuldades a emprego na administração pública e os abusos dentro das escolas."

Os comentários de Salek provocaram reacções no ciberespaço. O correspondente do Financial Times no Médio Oriente e Norte da África escreveu no twiter: "Ultrajante: #Irão. Parlamentar afirma toda a Fé Bahá’í é um instrumento de espionagem para a CIA e Mossad".

Recorde-se ainda que no início deste mês, o BWNS relatou um caso de esfaqueamento contra uma família Bahá'í em Birjand, no leste do Irão. De acordo com o relatório, as três vítimas - marido, mulher e filha - sobreviveu ao ataque. A Comunidade Internacional Bahá’í considerou o ataque como mais um crime com motivações religiosas, e salientou que uma das vítimas, o sr. Ghodratollah Moodi, é um conhecido dirigente da Comunidade Bahá’í em Birjand.

COMENTÁRIO: Este Sr. Salek afirmou que possui documentos que incriminam os Bahá’ís mas não mostrou nenhum (apesar de muitos Bahá’is serem constantemente vigiados pelas forças de segurança). Nem conseguiu explicar como é que 35 anos após a revolução islâmica é possível existir no Irão uma rede de espionagem com 300.000 pessoas (que curiosamente professam todas a mesma religião). E também não conseguiu explicar como é que americanos e israelitas recrutam os Bahá’ís como espiões, quando é sabido que no Irão os Bahá’ís estão proibidos de trabalhar na administração pública, forças armadas e indústrias consideradas sensíveis.

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Sobre este assunto:
Top Iranian MP: Baha’i are Mossad and CIA spies (JPost)
Senior MP: Iran Holds Documents Proving Baha’is Spying for Mossad, CIA (Fars) 

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Transformar cobre em ouro?

Por Sen McGlinn.

Um investigador perguntou: os Bahá’ís acreditam mesmo que o cobre se transforma em ouro após 70 anos se for protegido contra a solidificação (i.e., se ficar sempre no estado líquido)?

O talento mais importante para compreender as escrituras, incluindo as escrituras Bahá’ís, não é o domínio das línguas originais, ou um qualquer conhecimento misterioso, mas familiaridade com a linguagem literária: a capacidade para ler poesia e escrita similar. A linguagem religiosa é necessariamente metafórica, usando o mundo físico (tal como é entendido na época) como um correlativo e reflexo das realidades espirituais. A mentalidade literalista confundiu completamente a leitura de qualquer escritura. Este é um problema em todas as comunidades religiosas de hoje, pois a modernidade atribuiu um estatuto tão elevado às ciências exactas à sua forma de descrever o mundo que muitas pessoas nunca aprenderam a ler a linguagem literária como literatura.

O texto a que se referia o investigador está no "Livro da Certeza" (Kitáb-i-Íqán) de Bahá'u'lláh. Na tradução de Shoghi Effendi lê-se:
É evidente que, nada menos que esta transformação mística poderia fazer um tal espírito e conduta, tão completamente distintos dos seus hábitos e modos anteriores, manifestar-se no mundo do ser... Tal é o poder do Elixir Divino, que, tão rápido quanto um piscar de olhos, transmuta as almas dos homens!

Considera, por exemplo, a substância do cobre. Se fosse protegido na própria mina contra a solidificação, atingiria, num prazo de setenta anos, o estado do ouro. Há quem sustente, porém, que o próprio cobre é ouro, que por se ter solidificado, está numa condição defeituosa, não tendo, portanto, atingido o seu próprio estado.

… o verdadeiro elixir, num instante, fará a substância do cobre atingir o estado do ouro e atravessar as etapas de setenta anos num único instante. Poderia este ouro chamar-se cobre? Poder-se-ia afirmar que não tinha atingido o estado do ouro, quando temos na mão uma pedra de toque para analisá-lo e distingui-lo do cobre? De igual forma, através do poder do Elixir Divino, estas almas atravessam o mundo do pó e, num piscar de olhos, progridem para o reino da santidade... (Livro da Certeza [Kitáb-i-Íqán], parag. 164-167)
Vamos começar por ler isto no final; com "Poder-se-ia afirmar que não tinha atingido o estado do ouro, quando existe uma pedra de toque para analisá-lo e distingui-lo do cobre?" Bahá'u'lláh espera que os seus leitores vejam que a pedra de toque está disponível, mas esta é uma ferramenta de ensaio: não o tipo de coisa que os leitores tenham nas suas mesas. Penso que a pedra de toque é uma metáfora para o próprio Bahá'u'lláh, que realmente temos "na mão". E se a pedra de toque é metafórica, o cobre e o ouro também devem ser metafóricos.

O contexto dá-nos mais pistas. O contexto anterior é a "transformação mística" de certas "almas abençoadas", e o argumento é que isto pode acontecer gradualmente, ao longo da vida, ou, com a ajuda do elixir pode acontecer num instante. E então, ele questiona: quem pode dizer que alguém não é o verdadeiro ouro (só porque anteriormente era algo menor do que isso), quando a pedra de toque que temos na mãe diz "ele é ouro verdadeiro"?

Há mais indícios de que a transformação do cobre em ouro está a ser usada simplesmente como uma metáfora. O cobre está "na mina do seu próprio ser." O cobre não tem um ser; as pessoas têm. Setenta anos é o tempo de vida de um homem.

Numa epístola a Ali Kuli Khan, 'Abdu'l-Bahá afirma que as palavras " ... a substância do cobre… Se fosse protegido na própria mina contra a solidificação, atingiria, num prazo de setenta anos, o estado do ouro" é uma citação, apontando para os pontos de vista de um grupo de filósofos naturais. (Ele escreve, in hekaayat qawl-e hukamaa ast). Não tenho a epístola, que tanto quanto sei é inédita; apenas possuo uma citação e transliteração, mas considero a fonte tão fiável como se fosse autorizada. Além disso, é plausível que Bahá'u'lláh tivesse a intenção que estas palavras fossem reconhecidas como uma citação, uma vez que, em seguida, ele contrapõe essa visão com as ideias de um outro grupo que sustenta que "o próprio cobre é ouro, que por se ter solidificado, está numa condição defeituosa, não tendo, portanto, atingido o seu próprio estado".

Nessa citação, 'Abdu'l-Bahá refere-se ao cobre estando protegido de uma "preponderância da secura". Solidez e preponderância de secura eram sinónimos na física que prevalecia no mundo islâmico na época (que se baseava na antiga física grego). Esta física pressupõe que todas as coisas são compostas por quatro elementos: terra, fogo, água e ar, dos quais apenas o elemento seco - a terra - é um sólido. Assim, se alguma coisa é sólida, então deve, por definição, ter uma preponderância de secura. A expressão de Shoghi Effendi "solidificação" é, pois, uma boa tradução, para um público que não conhece as categorias usadas na física da época. Um tradutor deve sempre considerar os leitores, bem como o texto fonte, com o objectivo da tradução transmitir o máximo possível da fonte para um público que não pode ler o original, e possui uma origem cultural e educacional diferente.

Noutras obras de Bahá'u'lláh que referem essa física e processos de alquimia, o elemento seco/terra representa o corpo de um indivíduo e a água representa o espírito. Ser preservado durante 70 da preponderância da secura, significa escapar às atracções do materialismo, e beneficiar de uma educação espiritual, ao longo da vida. E potencialmente, passar de um carácter misto para um puro: do cobre para o ouro.

Bahá'u'lláh não acreditava na alquimia, na forma que era proposta por estudiosos islâmicos. Ele escreve no mesmo livro:
Entre as ciências especificadas, incluíam-se as abstracções metafísicas, a alquimia e a magia natural. Conhecimentos tão inúteis e desprezíveis, esse homem considerou-os como pré-requisitos…(Livro da Certeza [Kitáb-i-Íqán], parag. 203)
E no entanto, ele usa frequentemente metáforas alquímicas. Aqui está outra:
O Livro de Deus está amplamente aberto e a Sua Palavra convoca a humanidade. Pouco mais que um punhado, porém, se mostrou disposto a aderir à Sua Causa ou a tornarem-se instrumentos para sua promoção. Estes poucos têm-se dotados com o Elixir Divino que, só por si, pode transformar no mais puro ouro a escória do mundo, e foram capacitados a administrar o remédio infalível para todos os males que afligem os filhos dos homens… (Selecção dos Escritos de Bahá'u'lláh, sec. XCII)
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Texto original (em inglês): Copper to Gold?
 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Jesus Cristo: Fé, Obras e Transformação

Por Maya Bohnhoff


Todos os profetas de Deus trouxeram a mensagem do amor. Nenhum ensinou que a guerra e o ódio são bons. Todos concordam em dizer que o amor e a bondade são o melhor. O amor manifesta a sua realidade em obras, não apenas em palavras - estas só por si não têm efeito. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 35)
Os leitores podem já ter ouvido muitas vezes a frase "a fé sem obras está morta" (Tiago 2:26). Ouvi-a frequentemente no púlpito quando era criança e muitas vezes me questionei sobre o que significava - especialmente no contexto da afirmação comum de que nenhuma acção (trabalho) que nós como cristãos pudéssemos fazer contribuiria para a nossa salvação espiritual. Como dizia uma amiga cristã: "Tudo o que temos a fazer é ouvir e estar em sintonia com Ele através da Sua Palavra".

Escutar é, obviamente, um bom começo. Um sábio judeu referiu uma vez que quando oramos estamos a falar com Deus e quando lemos a Sua Palavra estamos a escutar a Sua resposta. O Verbo de Deus (a palavra proferida e o Verbo que se fez carne) é fundamental para a nossa educação espiritual e para a nossa transformação de criaturas de barro em seres de luz.

O Mr. Spock dizia que a lógica era o princípio da sabedoria, e não o fim. Penso que a mesma coisa acontece com a fé; a fé é o começo da salvação e não o fim. De acordo com as escrituras (e aqui incluo os ensinamentos de todas as Vozes Proféticas nessa categoria), devemos fazer mais do que escutar; o que ouvimos deve impelir-nos a agir. O apóstolo Tiago escreve que "a fé sem obras está morta", e não que a fé sem obras esteja quase morta ou que esteja um pouco doente, mas mesmo assim seja aceitável para Deus. Ele diz que está morta - falecida, acabada e já não está viva.

Cristo diz aos Seus discípulos a mesma coisa no Jardim do Getsémani, quando, no capítulo 15 de João, Ele diz que devem permanecer no Seu Amor, e que para fazer isso, eles devem obedecer ao Seu mandamento "Amai-vos uns aos outros."

E também acrescenta o que acontecerá se não obedecem a esse mandamento:
Se alguém não permanece em mim, é lançado fora, como um ramo, e seca. Esses são apanhados e lançados ao fogo, e ardem. (João 15:6).
Isto soa como uma declaração espiritual muito clara do tipo "Se… então…": se você não fizer o que é preciso para permanecer em Cristo, então você não permanece em Cristo. Torna-se um ramo seco, morto, sem vida espiritual

Voluntários da Habitats for Hummanity
A minha amiga argumentou que "as bênçãos de Deus não dependem das nossas obras, mas do Seu amor. Não fizemos nada para o merecer, por isso não podemos fazer nada para o desmerecer."

Também fui criada a acreditar nisto, mas as palavras de Jesus simplesmente não sustentavam esta crença.

Em João 15:10, Jesus diz: "Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como Eu, que tenho guardado os mandamentos do meu Pai, também permaneço no seu amor". A metáfora que Ele usa para ilustrar o que acontece aos que não obedecem - que não agem de acordo com a fé que professam - é extremamente clara: um ramo de videira quando é cortado morre e é lançado ao fogo.

Muitas das Suas metáforas ilustram como a nossa crença e comportamento afectam a nossa ligação com Deus (leia a Parábola das Virgens Insensatas e Prudentes para ter uma visão arrepiante). Em nenhum contexto Cristo associa a nossa salvação à crença numa doutrina ou milagre em particular. Ele associa a salvação ao quão bem nós obedecemos e amamos - ao quão bem nós "guardamos" a Sua palavra.

Esta leitura das palavras de Cristo respondeu a uma pergunta que eu me questionava há anos: O que é que Cristo quis dizer quando Ele diz em João 12:48: "Quem me rejeita e não aceita as minhas palavras tem quem o julgue: a palavra que Eu anunciei, essa é que o há-de julgar no último dia"? Como é que a palavra de Cristo nos pode julgar?

No contexto, parece-me que somos julgados pelo quão bem escutamos e agimos de acordo com o que ouvimos. Tal como Cristo diz: "Em verdade, em verdade vos digo: se alguém observar a minha palavra, nunca morrerá." (João 8:51)

Portanto, não podemos "guardar" a palavra de Cristo apenas tendo fé nele; devemos dar frutos - devemos agir. 'Abdu'l-Bahá, falando durante as Suas viagens ao Ocidente, disse: "A realização de qualquer objectivo está condicionada por conhecimento, vontade e acção. Se estas três condições não estiverem presentes, não há execução ou realização". Por outras palavras, a fé sem obras está morta.

Então, como é que os Cristãos passaram a acreditar que nossas atitudes e acções nunca poderiam levar-nos a "desmerecer" a salvação, que nunca deixaríamos de manter a nossa ligação ao Criador, colocando outras coisas à frente da obediência à Sua palavra? Foi uma ilusão da nossa parte acreditar que a salvação era tão fácil, que nada podíamos fazer para a afectar?

Ironicamente, mesmo nessa doutrina, um ser humano deve fazer algo para "merecer" habitar no amor de Cristo e receber a graça de Deus: ele deve acreditar que a graça é possível.  

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Texto Original: Jesus Christ: Faith Works and transformation (BahaiTeachings.org)
Texto Anterior: Jesus Cristo: o Significado do Sacrifício
NOTA: Todas as citações biblicas são retiradas da tradução dos Capuchinhos.

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Uma posição Bahá’í no debate Criação/Evolução

O texto que se segue é uma tradução de um artigo de Stephen Friberg (físico experimental e membro da comunidade Bahá'í) a propósito de um debate sobre Criacionismo/Evolucionismo, num canal de TV dos Estados Unidos. Trata-se de uma das mais interessantes explicações sobre a posição Bahá'í em relação a este tema.

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Stephen Friberg
O conflito sobre a evolução e as origens da humanidade, veio mais uma vez à tona com o debate entre Bill Nye - o Homem da Ciência - e Ken Ham - o jovem criacionista. Os bilhetes para o debate esgotaram-se em minutos, criando-lhe uma expectativa semelhante à final do Super Bowl ou uma digressão dos Rolling Stones. Claramente, as pessoas estão interessadas.

E é claro que há oposição. Dan Arel, escrevendo pela Fundação Richard Dawkins, protestou afirmando que "os cientistas não devem debater com criacionistas". O conhecido astrofísico e apresentador de televisão Neil de Grasse Tyson disse numa entrevista a Bill Moyers que é improvável a reconciliação entre a fé e a razão.

Mas nem toda a gente se opõe a esses debates ou é pessimista sobre o futuro da relação entre esses dois aspectos influentes de nossa vida organizada. Muitos, incluindo membros da Fé Bahá'í, desejam um futuro em que a ciência e a religião - a fé e a razão – se reconciliem e não se oponham.

A Fé Bahá'í sustenta a unidade da ciência e da religião como um ensinamento central e enfatiza que a religião deve estar de acordo com a ciência. 'Abdu'l-Bahá (1844-1921), filho e intérprete nomeado dos ensinamentos de Bahá'u'lláh (1817-1892), falou e escreveu repetidamente sobre o tema nas suas visitas às capitais europeias em várias cidades de toda a América do Norte.

Por exemplo, 'Abdu'l-Bahá disse a uma audiência em Filadélfia, em 1912, que:
Deus dotou o homem de inteligência e razão, com as quais lhe é exigido que determine a veracidade de questões e proposições. Se as crenças e opiniões religiosas se encontram em contradição com os padrões da ciência, então são meras superstições e imaginações, pois a antítese do conhecimento é a ignorância, e a filha da ignorância é a superstição.
Então, o que diz a Fé Bahá'í dizer sobre a evolução e a criação?

De acordo com os ensinamentos Bahá’ís, Deus é "o Autor, o Criador". A natureza e todas as coisas criadas são a personificação da vontade de Deus:
A natureza na sua essência é a personificação do Meu Nome, o Autor, o Criador... A natureza é a Vontade de Deus e a Sua expressão no, e pelo, mundo contingente... Está dotada de um poder cuja realidade os homens de sabedoria não conseguem entender. De facto, um homem de visão nada pode perceber nela salvo o esplendor refulgente do Nosso Nome, o Criador. (Bahá'u'lláh, Epístola da Sabedoria)
A natureza, segundo os ensinamentos Bahá’ís, "está inteiramente sujeita ao domínio e controle das leis naturais" e estas leis naturais proporcionam "uma ordem completa e um modelo perfeito, do qual [a natureza] nunca sairá." Todas as coisas criadas "foram criadas perfeitas e completas desde o início." Esta perfeição não se manifesta imediatamente; apenas vai aparecendo gradualmente. (NOTA: Na citação seguinte, os termos " homem" e "humano" são usados alternadamente sem um sentido específico de género)
Da mesma forma, o globo terrestre desde o início foi criado com todos os seus elementos, substâncias, minerais, átomos e organismos; mas estes só surgiram gradualmente: primeiro o mineral, depois o vegetal, seguidamente o animal e, finalmente, o homem. Mas desde o início estas classes e espécies existiam, mas não estavam desenvolvidas no globo terrestre, e depois, apenas apareceram gradualmente. Pois a organização suprema de Deus e o sistema natural universal abrangem todos os seres, e todos estão sujeitos a esta regra. Quando reflectires sobre este sistema universal, verás que nenhum dos seres no momento em que vem à existência atinge o limite da perfeição. Não; eles crescem e desenvolvem-se gradualmente, e, em seguida, atingem o grau de perfeição. ('Abdu'l-Bahá, Respostas a Algumas Perguntas, cap. 51)
Os ensinamentos Bahá’ís comparam este processo de desenvolvimento com a evolução de um embrião para um adulto e com a transformação de uma semente numa árvore madura. Os seres humanos não apareceram de forma instantânea, mas desenvolveram-se gradualmente, por etapas:
No mundo da existência, o homem percorreu sucessivas etapas até ter alcançado o reino humano. Em cada etapa da sua progressão, ele desenvolveu a capacidade para avançar para a próxima etapa e condição. Enquanto no reino do mineral ele estava a ganhar capacidade para passar para a etapa do vegetal. No reino do vegetal foi submetido à preparação para o mundo animal e, a partir daí, ele seguiu para a etapa, ou reino, humano. Ao longo desta viagem de progressão ele sempre foi, potencialmente, homem. ('Abdu'l-Bahá, Promulgation of Universal Peace, p. 225)
Segundo as escrituras Bahá’ís, o homem é muito mais do que um animal. Possui uma realidade tripla:
O homem está dotado de uma realidade exterior ou física. Ele pertence ao domínio material, o reino animal, porque surgiu a partir do mundo material. Esta realidade animalesca do homem é partilhada em comum com os animais. O corpo humano está, tal como os animais sujeito às leis da natureza. Mas o homem está dotado de uma segunda realidade, a realidade racional ou intelectual; e a realidade intelectual do homem predomina sobre a natureza... No entanto, há uma terceira realidade, no homem, a realidade espiritual. ('Abdu'l-Bahá, Foundations of World Unity, 51)
Em resumo, as escrituras Bahá’ís descrevem a evolução como tendo prosseguido etapa a etapa, desde o mundo da matéria inanimada até ao mundo da humanidade. Neste processo, não há nenhum desvio em relação às ciências da evolução (para uma descrição mais detalhada, ver C. Mehanian and S. Friberg, Religion and Evolution Reconciled, The Journal of Baha'i Studies 2003 13 (1-4): 55-93).

Simultaneamente, as escrituras Bahá’ís descrevem a humanidade como criação de Deus, declarando que os seres humanos sempre existiram potencialmente, e caracterizam a realidade humana como distinta e diferente da realidade animal.

Aqui existe, de facto, um afastamento em relação a alguns pontos de vista conhecidos, mas não é um desvio em relação a factos e detalhes da ciência da evolução. Em vez disso, o afastamento é em relação a algumas perspectivas e interpretações - aquilo que são por vezes designadas narrativas da evolução - que se desenvolveram em torno das ciências da evolução.

E esta perspectiva Bahá’í não é profundamente diferente daquela "criação evolutiva", conforme é sustentada por organizações cristãs como a BioLogos (fundada pelo Dr. Francis Collins, director do National Institute of Health, indiscutivelmente o principal biólogo a nível mundial), por académicos do Catolicismo, e mesmo, por um amplo leque de religiosos instruídos, em todo o mundo.

Então, porque há tanto espalhafato, gritaria e choques em relação a questões científicas como a evolução que são facilmente compatíveis com a crença religiosa - e têm sido amplamente entendidas como tal ao longo de séculos (na verdade, milénios)? Parte da razão deve estar, certamente, no conflito sobre a ciência da evolução que vai ocupar Bill Nye e Ken Ham no seu debate de 04 de Fevereiro. A impressão que esse conflito cria - a triste resistência à ciência bem fundamentada que o criacionismo inculca - fortalece, certamente, a tendência entre as mentes científicas para ver a religião como uma espécie de pré-ciência primitiva que apresenta respostas erradas.

Sem dúvida, há muito mais do que isso. Muito do criacionismo é claramente uma resposta às denúncias da religião em nome da ciência, assim como uma reacção contra os movimentos populistas, como Darwinismo Social, que proclamavam as suas supostas verdades como factos derivados das ciências da evolução. E o conflito é uma boa reposição dramática, maravilhosa para motivar as tropas ou as congregações (ou os dadores) e para coleccionar títulos de jornais e comentários.

Mas, no fundo, é um conflito que apenas deve ser resolvido pacificamente. Homens e mulheres de boa vontade devem trabalhar juntos para colocar o assunto no merecido lugar - juntamente com outras batalhas ideológicas do século XIX que estão mortas ou moribundas. É apenas diversão ou um espectáculo secundário na nossa missão principal, que é trabalhar em conjunto para os tão necessários e longamente desejados objectivos de paz e prosperidade para todos os países e povos do mundo, independentemente das suas crenças – ou ausência destas.

Esperemos e oremos para que Bill Nye (o Homem da Ciência) e Ken Ham (o Homem Criacionista) percebem isto no seu debate.

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Texto original em inglês: A Baha'i Take on the Creation/Evolution Debate (Huffington Post)

O debate:


Sobre este assunto:
* Bill Nye v. Ken Ham: Why the Creationism Debate Is Just Another Fish War, Won't Change Minds (Christian Post)
* Bill Nye v Ken Ham: should scientists bother to debate creationism? (The Guardian)
* Bill Nye the 'Science Guy' debates Ken Ham about creation, evolution, February 4 (The Examiner)
* Bill Nye vs. Ken Ham: Should scientists bother debating creationists? (Christian Science Monitor)
* Pat Robertson Disagrees With Creationist Ken Ham, Says 'Let's Not Make A Joke Of Ourselves' (Huffington Post)

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Jesus Cristo: o Significado do Sacrifício

Por Maya Bohnhoff


Não há nada maior ou mais abençoado do que o Amor de Deus!... A essência de todas as religiões é o amor de Deus, e é a base de todos os ensinamentos sagrados.
Foi o Amor de Deus que guiou Abraão, Isaac e Jacob, que fortaleceu José no Egipto e deu a Moisés coragem e paciência.
Através do Amor de Deus, Cristo foi enviado ao mundo com o Seu exemplo inspirador de uma vida perfeita de auto-sacrifício e devoção, trazendo aos homens a mensagem da Vida Eterna...
Assim, exorto cada um de vós, a compreender o seu poder e beleza, a sacrificar todos os vossos pensamentos, palavras e acções para levar o conhecimento do amor de Deus a cada coração. ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 82)
No texto anterior mencionei várias pessoas que os Bahá’ís consideram como mensageiros do Divino. Não era uma lista exaustiva. Na verdade, ao contrário podem ter lido ou ouvido, não existe uma lista completa, porque Pedro tinha razão: Deus tem falado connosco "desde o começo".

Quando encontrei pela primeira vez a ideia de que Deus revelou progressivamente a religião à humanidade através dos tempos, argumentei que nenhum desses outros profetas, mensageiros ou manifestantes tinha sacrificado a sua vida como Cristo fez. Ou como disse um amigo cristão durante um diálogo sobre fé: "Nenhum outro líder religioso, profeta, ou um homem que se intitula Deus, fez isso alguma vez"

Essa crença, infelizmente, não tem fundamento face à realidade; isso foi algo que percebi rapidamente à medida que estudava mais sobre as vidas e as épocas desses outros Profetas. Primeiramente, cada Mestre Divino vive uma vida de sacrifício absoluto. As culturas onde surgem consideram-nos apóstatas ou loucos. Eles são horrivelmente perseguidos devido aos seus ensinamentos - escarnecidos, ostracizados, torturados, exilados, presos, mortos. Buda foi envenenado; Zoroastro foi morto com uma espada quanto orava; o Báb foi executado por heresia, por fuzilamento, em 1850, porque ensinava que as profecias dos textos sagrados do mundo estavam prestes a cumprir-se. Bahá'u'lláh passou 40 anos da Sua vida na prisão e exílio devido à Sua suposta heresia contra o Islão; também foi repetidamente torturado, envenenado e, posteriormente enviado para a cidade-prisão de Acre, onde os seus perseguidores esperavam que morresse.

Um dos melhores resumos do que sucedeu a Bahá'u'lláh durante a Sua vida está registado no livro bíblico de Isaías, nos capítulos 52 e 53. Aí descreve-se um "homem de dor, afligido com o sofrimento", que foi "isolado da terra dos viventes"; isso aconteceu a Bahá'u'lláh, primeiro no Poço Negro de Teerão, depois numa sucessão de exílios, e finalmente em Acre, na Palestina. Apesar de tudo isto, através de um qualquer milagre que lançou o Império Otomano em turbulência, ele foi libertado de Acre e passou os Seus últimos anos numa casa de campo que tinha sido abandonada.
Foi-lhe dada sepultura entre os ímpios, e uma tumba entre os malfeitores, embora não tenha cometido crime algum, nem praticado qualquer fraude. (Isaías 53:9)
Sempre associei estas palavras com Jesus, mas perguntei-me como é que alguns dos excertos anteriores se aplicavam a Ele. Isaías profetiza sobre este Servo de Deus dizendo que:
… aprouve ao Senhor esmagá-lo com sofrimento, para que a sua vida fosse um sacrifício de reparação. Terá uma posteridade duradoura e viverá longos dias, e o desígnio do Senhor realizar-se-á por meio dele. Por causa dos trabalhos da sua vida verá a luz. O meu servo ficará satisfeito com a experiência que teve. (Isaías 53:10-11)
O Fosso Negro, Teerão
Jesus morreu e ascendeu com 33 anos de idade, deixando a sua "semente" espiritual dispersa e desmoralizada; Bahá'u'lláh regressou a Deus, com a idade de 75 anos; começava então a ver as Suas próprias profecias e ensinamentos concretizados. A própria revolução que permitiu a Bahá'u'lláh passar o final da Sua vida no campo, no exterior dos muros da prisão - onde os governantes otomanos pensavam que Ele iria sucumbir ao ar fétido, às doenças e aos maus tratos - foi um desses eventos.

Era apenas um dos eventos para que Ele alertou numa série de cartas aos reis e governantes mundiais, onde descrevia o que Deus espera deles e advertia para o que iria acontecer se não mudassem os seus hábitos avarentos e belicosos. Os destinatários dessas cartas incluíam o sultão do Império Otomano, o Xá da Pérsia (Irão), o Papa Pio IX, os líderes da jovem democracia americana e os governantes das Ilhas Britânicas e da Europa.

Uma por uma, essas profecias tornaram-se realidade, de acordo com um padrão estabelecido na Torá:
Poderás perguntar-te a ti mesmo: Como distinguiremos a palavra que não proferiu o Senhor? Quando o profeta falar em nome do Senhor e essas palavras não se realizarem, então essa palavra não veio do Senhor, o Senhor não a disse. É insolência da palavra deste profeta. Não tenhais medo dele'. (Deuteronómio 18:21-22)
Através dos sacrifícios de cada um desses grandes Seres - esses manifestantes dos nomes e atributos de Deus - o mundo em que vivemos vai progredindo, não apenas material e cientificamente, mas também espiritualmente.

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Texto Original: Jesus Christ: The Meaning of Sacrifice (BahaiTeachings.org)
Texto Anterior: Jesus Cristo: os Nomes de Deus
NOTA: Todas as citações biblicas são retiradas da tradução dos Capuchinhos.

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 1 de fevereiro de 2014