sábado, 26 de julho de 2014

Indonésia admite reconhecimento oficial da Fé Bahá’í

Lukman Saifuddin, Ministro dos Assuntos Religiosos da Indonésia
O novo Ministro dos Assuntos Religiosos da Indonésia afirmou que a Fé Bahá’í deve ser a sétima religião a ser reconhecida oficialmente no país. "A [fé] Bahá'í é uma religião; não é uma seita" escreveu Lukman Saifuddin na sua conta no Twitter @lukmansaifuddin na passada quinta-feira. "Há 220 crentes em Banyuwangi, 100 em Jacarta, 100 em Medan, 98 em Surabaya, 80 em Palopo, 50 em Bandung, 30 em Malang e em outras regiões."

Lukman esclareceu posteriormente que fez o comentário, como resultado de uma carta enviada pelo Ministério do Interior solicitando esclarecimentos sobre a religião: "Eu disse [ao Ministério do Interior] que a [fé] Bahá'í é uma religião protegida por artigos 28E e 29 da Constituição".

O Ministro acrescentou ainda que os Bahá’ís devem ter direito a identificar-se como tal nos seus cartões de identidade nacionais - e que esse reconhecimento que tornaria mais fácil a obtenção de documentos oficiais, tais como cartas de condução, certidões de nascimento, certidões de casamento e registo de propriedades.

Recorde-se que alguns governos locais assumem uma linha dura contra as minorias na Indonésia, não lhes dando documentos oficiais por não pertencerem a uma das seis religiões reconhecidas no país: islão, budismo, catolicismo, protestantismo, o confucionismo e hinduísmo.

O Ministro do Interior, Gamawan Fauzi, tinha afirmado que aguardava uma resposta do Ministério de Assuntos Religiosos antes de reconsiderar se a Fé Bahá’í deveria ser incluída como opção nos cartões de identidade.

"Se for declarada como uma das religiões aqui reconhecidas, então vamos colocá-la nos cartões de identidade", disse na sexta-feira Gamawan citado pelo jpnn.com. "Se houver necessidade de a acrescentar [às seis religiões existentes] por favor informem-nos, pois há apenas seis opções de religião no cartão de identidade."

O porta-voz da Comunidade Bahá’í na Indonésia não quis fazer comentários sobre o assunto.

Na Indonésia - o mais populoso dos países muçulmanos - este assunto não é pacífico. São cada vez mais visíveis sinais de hostilidade contra grupos xiitas e Ahmadiyahs. E, recentemente, sobre a Fé Bahá’í, o secretário do Indonesian Ulema Council, Amirsyah Tambunan, afirmou-se contra o reconhecimento da fé Bahá’í, acrescentando que as religiões devem ser provenientes de uma revelação, como as religiões abraâmicas.

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Sobre este assunto:
Acceptance of Baha’i faith welcomed (Jakarta Post)
New Religious Affairs Minister Supports State Recognition of Baha’i Religion (Jakarta Globe)

domingo, 20 de julho de 2014

Este pequeno planeta não merece ser dividido

Por David Langness.


A guerra civil na Síria já atravessou a fronteira e entrou no Iraque. Mas quem fez essa fronteira?

Para perceber a resposta a esta pergunta, é importante conhecer o significado de duas palavras: Levante e al-Jazira.

Governada ao longo dos séculos por persas, gregos, romanos e árabes, a Al-Jazira tem sido descrita como o berço da civilização, e corresponde ao território da antiga Mesopotâmia, onde os seres humanos fizeram as primeiras colheitas agrícolas e domesticaram animais. Os arqueólogos descobriram evidências consistentes na região sobre o estabelecimento de sociedades de caçadores-colectores que lentamente se tornaram agrícolas, por volta de 9000 aC. Foi aqui que as pessoas começaram a fazer culturas agrícolas; e como consequência, as suas civilizações prosperaram e espalharam-se em todas as direções.

Toda a região que circunda a Al-Jazira é conhecida desde o século VXI como Levante ou Mediterrâneo Oriental; esta região inclui as actuais nações de Israel, Jordânia, Líbano, Síria, Palestina, a Província de Hatay do Sul da Turquia e a ilha de Chipre. A região tem o seu nome da palavra francesa "levant", que significa "nascente." A palavra designado a região como o lugar no Oriente onde o sol nasce, onde a luz tem origem e onde surgem as religiões.

Guerra Civil na Síria
Após a Primeira Guerra Mundial, os governos britânico e francês criaram a fronteira actual entre a Síria e o Iraque na parte da al-Jazira, no Levante. A Grã-Bretanha e a França dividiram uma região desértica, rural e contígua entre os rios Tigre e Eufrates, que constitui a região central da al-Jazira. Quando desenharam aquela fronteira arbitrária, dividiram uma população árabe sunita predominantemente rural com fortes afinidades tribais, em duas nacionalidades diferentes.

Talvez isso explique por que a cidade iraquiana de Mosul, recentemente "tomada" pelas forças do ISIL, caiu tão rapidamente. As províncias iraquianas de Anbar, Nínive e Diyala, são regiões predominantemente sunitas com profundas ligações à Síria, têm mais simpatia e afinidade com seus correligionários sunitas na Síria do que com os que formam o governo xiita de Bagdade. Mosul, historicamente, tinha laços mais fortes com a região síria de Aleppo do que alguma vez teve com Bagdade.

Mas podemos dizer que a queda de Mosul e outras cidades iraquianas na região da Al-Jazira é culpa da partição Europeia de há quase um século? Não totalmente. Também temos de ter em conta a crescente divisão sectária entre muçulmanos sunitas e xiitas no Iraque, agravada pelas opções políticas do governo iraquiano do pós-guerra, liderado por xiitas.

Quando qualquer governo privilegia uma comunidade ou grupo religioso acima de outro, então as tensões aumentam inevitavelmente. Tanto na Síria como no Iraque, os governos actuais e anteriores favoreceram grupos religiosos e tribais minoritários, mantendo o seu poder através de uma repressão brutal e da força militar. Os ensinamentos Bahá'ís falam claramente sobre as soluções para estes problemas aparentemente insolúveis:
Nestes dias deve existir um grande poder de entendimento incutido nas nações. Os princípios da unidade do mundo da humanidade devem ser proclamados, compreendidos e postos em prática, de modo que todas as nações e religiões possam lembrar-se novamente do facto, há muito esquecido, que são todos descendentes de uma primeira humanidade, Adão, e habitantes de uma única terra. Não respiram todos o mesmo ar? Não é o mesmo sol que brilha para todos? Não são todos ovelhas de um único rebanho? Deus não é o pastor universal? Ele não é bondoso para com todos? Vamos banir os pensamentos irreais sobre oriente e ocidente, norte e sul, europeus e americanos, ingleses e alemães, persas e franceses.

Considerai a criação do universo infinito. Este nosso mundo é um dos mais pequenos planetas. Esses corpos fantásticos giram num espaço imensurável, a abóbada celeste azul infinita de Deus, são muitas vezes maior do que a nossa pequena terra. Aos nossos olhos este globo parece vasto; no entanto, quando olhamos para ele com olhos divinos, este fica reduzido ao mais pequeno átomo. Este pequeno planeta não merece ser dividido. Não é uma única casa, uma única terra natal? Não é toda a humanidade uma única raça? Na criação não existe qualquer diferença entre os povos.

Que visão acanhada teríamos se tentássemos dividir uma sala em zonas oriental e ocidental. A divisão geográfica deste mundo é um paralelismo igual. Com a nossa ignorância e falta de visão dividimos esta casa comum, dividimos os membros desta família em várias raças, dividimos a religião em diferentes seitas e depois com essas supostas divisões fazemos guerra uns contra os outros; derramamos o sangue dos outros e saqueamos os seus bens. Não é isto uma ignorância imperdoável? Não é isto o cúmulo da injustiça? ('Abdu'l-Baha, Divine Philosophy, pp. 177-179)
 
Aquilo que 'Abdu'l-Bahá designa como "supostas divisões" é descrito agora por estudiosos como "identidades políticas" modernas. Muitas nações e facções em todo o mundo aprenderam a usar os conflitos inerentes a algumas políticas de identidade para obter vantagens. Ao reforçar o impulso sectário em populações específicas e ao fomentar divisões entre as pessoas, utilizando os meios de comunicação modernos, os líderes políticos e militares de países como o Iraque, a Síria, o Irão, muitos países dos Balcãs e lugares como Ruanda e Sudão usam as origens étnicas cultural e religiosas para dividir e conquistar. Depois transformam estas divisões sectárias profundas em guerra, fome e caos.

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Texto original: This Small Planet, Not Worthy of Division (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.