terça-feira, 26 de agosto de 2014

Os Bahá’ís acreditam na vida depois da morte?

Por Maya Bohnhoff.



Os Bahá’ís têm algum conceito sobre vida após a morte? Se sim, em que consiste?

A resposta a esta pergunta - um SIM muito claro e enfático - flui ao longo das Escrituras Bahá’ís.

Bahá’u’lláh ensinou que existem inumeráveis de “mundos de Deus”, incluindo aquele em que entramos quando abandonamos a nossa forma física. Mas os Bahá’ís também acreditam que a vida seguinte não é algo com que nos devamos preocupar ao ponto de reduzir a nossa vida neste mundo a uma espécie de sala de espera.

Primeiramente, Bahá’u’lláh afirma que não podemos compreender como será a próxima existência, tal como a criança no ventre materno não consegue compreender o que é este mundo. Por este motivo, não temos um modelo de comparação. Os Bahá’ís acreditam que essa existência após a morte não é um local estático, mas, em vez disso, uma evolução em direcção a Deus.

Várias pessoas fizeram perguntas a Bahá’u’lláh sobre a vida após a morte. Aqui fica a resposta que Ele deu a uma dessas perguntas:
E agora, sobre a tua pergunta referente à alma do homem e à sua sobrevivência após a morte. Sabe tu, em verdade, que a alma após a sua separação do corpo, continuará a progredir até atingir a presença de Deus, num estado e condição que nem a revolução dos séculos e das eras, nem as mudanças e casualidades no mundo, podem alterar. Perdurará enquanto perdurar o Reino de Deus, a Sua soberania, o Seu domínio e poder. Manifestará os sinais de Deus e os Seus atributos, e revelará a Sua amorosa generosidade e bondade. (SEB, LXXXI)
Nessa mesma epístola, Bahá’u’lláh escreve um pouco sobre o poder espiritual das almas puras que já faleceram:
A natureza da alma após a morte nunca poderá ser descrita, não é conhecida, nem é permissível revelar todo o seu carácter aos olhos do homem. Os Profetas e Mensageiros de Deus foram enviados com o único propósito de guiar a humanidade ao íntegro Caminho da Verdade. O propósito subjacente da Sua revelação tem sido educar todos os homens para que eles possam, na hora da morte, ascender - com a maior pureza e santidade, e com absoluto desprendimento - ao trono do Altíssimo. A luz que estas almas irradiam é responsável pelo progresso do mundo e pela evolução dos seus povos. Elas são como o fermento que leveda o mundo do ser, e constituem a força motriz através da qual as artes e as maravilhas do mundo se manifestam. (SEB, LXXXI)
A alma humana, afirmam os ensinamentos Bahá’ís, é eterna. Todos nós temos um ser interior eterno, uma realidade espiritual que retém a nossa individualidade, o nosso carácter e o nosso nível de maturidade e desenvolvimento, quando o nosso corpo morre:
Se o corpo sofre uma mudança, o espírito não tem de ser afectado. Quando se quebra um vidro onde brilha o sol, o vidro parte-se, mas o sol continua a brilhar! Se uma gaiola com um pássaro for destruída, o pássaro fica ileso. Se uma lâmpada se parte, a chama ainda pode arder com brilho! A mesma coisa se aplica ao espírito do homem. Apesar da morte destruir o seu corpo, ela não tem poder sobre o seu espírito. Este é eterno, imortal, sem nascimento, nem morte ('Abdu'l-Bahá, Paris Talks, p. 65-66)
Os Bahá’ís aguardam com expectativa a transição deste mundo para o próximo, o nosso inevitável nascimento naquilo a que ’Abdu’l-Bahá chamou “a segunda vida”.

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Texto original: Do Baha’is Believe in Life After Death? (bahaiteachings.org) 

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A capacidade das crianças para a compaixão



As crianças são as mensagens vivas que enviamos para um tempo que não veremos. (Neil Postman)
Sentei-me num restaurante sombrio, irritada, e exausta. O meu marido carinhosamente ia dizendo palavras de encorajamento enquanto terminávamos a refeição e acabávamos de beber os nossos chás gelados. Uma menina com rabo de cavalo, cerca de oito anos, passou pela nossa mesa a caminho dos lavabos; sorriu para mim e perguntou:-me "Como estava? Estava bom?" Retribui o sorriso e respondi: "Sim". Quando voltou, ela parou novamente perto da nossa mesa e deu-me um sorriso ainda maior. Desta vez, ela fez também o gesto do polegar para cima, muito cómico e entusiasmado. O meu marido e eu começámos a rir. Ela apagou a minha tristeza.

Aquela menina mostrava uma característica que muitas vezes vejo em crianças: uma incrível capacidade para a compaixão. Ela parecia ter percebido que eu me sentia em baixo e que precisava de uma palavra amável e um sorriso feliz. Também percebeu a minha angústia e agiu imediatamente.

Ao longo da minha carreira como psicóloga escolar, vi frequentemente exemplos inspiradores de compaixão das crianças para com outras pessoas. Por exemplo, tive dias especialmente agitados quando eu estava no meu escritório, ocupada com prazos de entrega de relatórios, papelada aparentemente interminável, e telefonemas, e aparecia um aluno que me dava um abraço inesperado.

Eu dizia: "Estava a precisar disso."

E o aluno respondia: "Eu sei, a senhora Campbell. Eu podia adivinhar."

Os ensinamentos Bahá’ís dizem:
As crianças são o tesouro mais precioso que uma comunidade pode possuir, pois nelas está a promessa e a garantia do futuro. Eles têm as sementes do carácter da sociedade futura, que é em grande parte moldado por aquilo que os adultos membros da comunidade fazem - ou deixam de fazer - em relação às crianças. Eles são uma esperança que nenhuma comunidade pode negligenciar impunemente. (A Casa Universal de Justiça)
Esta citação parece dizer-nos que as crianças possuem um enorme potencial, e que os adultos desempenham um papel importante para as guiar no desenvolvimento desse potencial. De facto, esta citação parece salientar que orientar as crianças da nossa comunidade é um imperativo moral.

A Fé Bahá'í também possui muitas - e belas - orações sobre (e para) crianças que fazem alusão ao seu potencial, à sua necessidade de orientação, e à sua importância para o mundo. Aqui ficam alguns exemplos:
Ó Deus! Educa estas crianças. Estas crianças são as plantas do Teu pomar, as flores do Teu prado, as rosas do Teu jardim. Permite que sobre elas caia a Tua chuva; permite que o Sol da Realidade brilhe sobre elas com o Teu amor. Permite que a Tua brisa as refresque, para que sejam educadas, cresçam e se desenvolvam e manifestem a maior beleza. Tu és o Generoso! Tu és o Compassivo! ('Abdu’l-Bahá)

Ó Senhor! Eu sou uma criança. Permite-me a crescer à sombra da Tua Amorosa Generosidade. Sou uma pequena planta; deixa-me ser alimentada pelas efusões das nuvens da Tua generosidade. Sou um rebento do jardim do amor; torna-me uma árvore frutífera. Tu és o Omnipotente e Poderoso, e Tu és o Todo-Amoroso, o Omnisciente, Aquele que tudo vê. ('Abdu'l-Bahá)
Se as crianças são os nossos "tesouros", as nossas "pequenas planta[s]", e, em última análise, a nossa "promessa e garantia" do futuro, não deveremos protegê-las, orientá-las e tratá-las como entidades preciosa que são ?

Não deveremos tratar todas as crianças com compaixão?
A terra é uma única pátria, um único lar; e todas as pessoas são filhos de um único Pai. Deus criou-os, e eles são os destinatários da Sua compaixão. Portanto, se alguém ofende outro, ele ofende a Deus. É desejo do nosso Pai celestial que cada coração se alegre e fique cheio de harmonia, e que vivamos juntos em felicidade e alegria. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 468).
Podemos ser pais, mães, tias, tios, avós, avôs, padrinhos, madrinhas, tutores, pais adoptivos, professores, mentores, treinadores, baby-siters, monitores de jovens, ou instrutores de aulas infantis; todos temos um papel na protecção, educação e orientação das crianças do mundo. E porque as crianças aprendem com o exemplo, com as nossas palavras e com o nosso comportamento, devemos reflectir as nossas crenças na igualdade entre mulheres e homens, e as nossas crenças na unidade mundial. Vamos ensinar às crianças virtudes como a bondade, o amor, o respeito e a compaixão. Vamos incentivá-las a desenvolver o seu potencial, enquanto tratamos e cuidamos delas. Talvez, através dos nossos esforços combinados, consigamos ver ainda mais exemplos de compaixão, semelhante à compaixão que aquela menina mostrou quando me sorriu, me deu um sinal positivo, e iluminou o meu dia.


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Texto original: Children’s Capacity for Compassion (bahaiteachings.org)

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Jennifer Campbell é psicóloga escolar e escritora. Ela e o marido Kurt são Bahá'ís e vivem no Colorado (EUA).

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A lição d’Os Miseráveis: toda a verdade é relativa.

Por David Langness.


A maioria das pessoas concorda que roubar é errado. Mas quantos de nós roubariam um pedaço de pão para alimentar uma família com fome?

Essa é a questão ética e filosófica do conhecido escritor francês Victor Hugo coloca apresenta no seu magnífico monumental Os Miseráveis. Provavelmente os leitores já viram a peça ou alguma versão no cinema; ou talvez tenham lido as 1400 páginas do livro. Literalmente, milhões de pessoas em todo o mundo têm sido profundamente influenciadas por esta grandiosa obra de arte. Se não a conhecem , então aqui fica um breve resumo: Jean Valjean, um ex-presidiário, libertado após cumprir uma pena de prisão de 19 anos por roubar um pedaço de pão para alimentar os filhos da sua irmã, tenta mudar de vida e fazer o bem aos outros, enquanto foge à perseguição do implacável do polícia Javert, um homem cego pela lei.

Victor Hugo
O romance de Hugo causou uma grande polémica quando surgiu pela primeira vez na década de 1860; nesse mesmo período surgiu a Fé Bahá'í. Os Miseráveis desafiou o pensamento convencional, ao questionar a crueldade do primado absoluto da lei, praticado pela aristocracia europeia e autoridades religiosas. Jean Valjean defendida a democracia, o humanismo, a justiça misericordiosa e o homem comum, e elevou esses valores acima abordagem rigorosa e absolutista de Javert, que exemplificava os princípios legais e religiosos praticados nessa época pela maioria dos governos despóticos do mundo. Os Miseráveis ficou famoso pela forma como apresentou a terrível situação das classes desfavorecidas parisienses, defendendo uma abordagem humana e inteligente para resolver problemas sociais.

A história d’Os Miseráveis tem um enorme eco nos ensinamentos Bahá’ís. Não só aborda princípios semelhantes aos Bahá’ís - amar a todos, a unidade da humanidade, a futilidade da guerra, a eliminação dos extremos de pobreza e riqueza - mas também abrange um tema central enfatizado pelos ensinamentos Bahá’ís: a relatividade.

Não… não se trata da teoria da relatividade de Einstein. Os Miseráveis torna-se famoso ao colocar-nos uma grande questão: A verdade é absoluta ou relativa?

Até meados do século XIX, a maioria das pessoas teria, provavelmente, escolhido a primeira resposta. Até essa época, as autoridades governamentais e religiosas exerciam o poder com punhos de ferro e detinham autoridade absoluta sobre os seus súbditos. Proliferavam as mais inflexíveis leis e regras de conduta. Tipicamente, a dissidência, ou a discordância, recebiam uma resposta dura e até mesmo fatal. As pessoas acreditavam, em grande parte, que a inflexibilidade da verdade absoluta tornava necessário um regime autoritário.

Então, subitamente, deu-se uma mudança gigantesca. Surgiu a revelação Bahá'í, trazendo consigo um novo conjunto de pressupostos sobre a natureza da verdade. Apareceu uma nova visão da ciência, gerada pelos avanços do Iluminismo e pensadores como Darwin. A era da modernidade, com toda a sua glória perturbadora, começou a florescer. E no meio de todas essas mudanças, em vez de adoptar a abordagem absolutista da época, Bahá'u'lláh afirmou que a própria verdade não é absoluta, mas relativa:
O princípio fundamental enunciado por Bahá'u'lláh... é que a verdade religiosa não é absoluta, mas relativa, que a Revelação Divina é um processo contínuo e progressivo, que todas as grandes religiões do mundo têm origem divina, que os seus princípios básicos estão em completa harmonia, que os seus objectivos e propósitos são uma e a mesma coisa, que os seus ensinamentos são apenas facetas de uma verdade, que as suas funções são complementares, que diferem apenas nos aspectos não-essenciais das suas doutrinas, e que as suas missões representam etapas sucessivas na evolução espiritual da sociedade humana .... (Shoghi Effendi, The Promised Day is Come, pag. v.)
Bahá'u'lláh não nos deu apenas uma nova forma de olhar para a evolução da própria verdade; os Seus ensinamentos apresentam uma maneira completamente revolucionária para ver a evolução da humanidade:
... A Sua missão é proclamar que as idades da infância e da meninice da raça humana já passaram, que as convulsões associadas à actual fase da sua adolescência estão lenta e dolorosamente a prepará-la para atingir o fase da maturidade, e que anunciam o Tempo dos Tempos, em que as espadas serão transformadas em arados, em que o Reino prometido por Jesus Cristo será estabelecido e a paz do planeta será assegurada de forma definitiva e permanente. Bahá'u'lláh não proclama que a Sua própria Revelação tenha um carácter final, mas declara que uma medida mais completa da verdade Lhe foi delegada pelo Todo-Poderoso para ser concedida à humanidade, num momento tão crítico do seu destino, devendo necessariamente ser revelada em futuras etapas da evolução constante e ilimitada da humanidade. (Idem)
Da mesma forma, os ensinamentos Bahá’ís apresentam uma visão de uma nova sociedade global concebida para banir o absolutismo e o despotismo da face da Terra:
A Fé Bahá'í sustenta a unidade de Deus, reconhece a unidade dos Seus Profetas e inculca o princípio da unidade e integridade de toda a raça humana. Ela proclama a necessidade e a inevitabilidade da unificação da humanidade, declara que esta se está gradualmente aproximando, e afirma que apenas o espírito transformador de Deus, operando através do Seu Porta-Voz eleito neste dia, poderá consegui-lo. Além disso, impõe aos seguidores o dever primordial de procurar irrestritamente a verdade, condena todas as formas de preconceito e superstição, declara que o propósito da religião é a promoção da amizade e concórdia, proclama que esta deve estar em harmonia com a ciência, e reconhece-a como o agente principal para a pacificação e o progresso tranquilo da sociedade humana... (Idem, pags. v-vi)
Gostava que Victor Hugo e os seus Miseráveis tivessem vivido para ver isto.

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Texto original: The Lesson of Les Miserables: All Truth is Relative (bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site BahaiTeachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.