Imagine que alguém lhe afirmava que os aviões são máquinas diabólicas que apenas servem para matar pessoas e que apenas têm trazidos enormes desgraças à humanidade. Depois de escutar isto, você invocava os benefícios da aviação comercial no progresso das comunicações, do transporte e do bem-estar dos os povos. Mas o seu interlocutor responderia que mesmo os aviões civis usados são máquinas terríveis que facilmente se convertem em máquinas de guerra; e mesmo que não o façam, alguns podem cair vitimando centenas de inocentes. Em resumo, toda a actividade da aviação se devia proibir, para evitar que novas calamidades se sucedessem.O absurdo deste tipo de argumentação é óbvio.
Imagine agora que em vez de aviação se falava de religião. O seu interlocutor defende que toda a religião é maligna e como tal deve ser extinta; e mesmo a religião moderada deve ser evitada, pois ela possui em si os germes do fundamentalismo e do fanatismo que tanto mal têm causado à humanidade.
Igualmente ridículo? Para Sam Harris, isto não é ridículo. É uma realidade óbvia. Veja-se este excerto do seu livro O Fim da Fé:
Muitos dos religiosos moderados seguiram a supostamente grande via do pluralismo, afirmando a igual validade de todos os credos. Contudo, ao fazê-lo esqueceram-se de referir os axiomas irremediavelmente sectários que estão na base de cada um deles. Enquanto um cristão acreditar que só os seus irmãos se salvarão no Dia do Juízo Final, jamais respeitará as crenças dos outros; afinal, as chamas do inferno foram ateadas por essas mesmas ideias e continuam ainda hoje a receber os seus discípulos. Tanto muçulmanos com judeus têm, em geral uma visão arrogante acerca das suas próprias tradições e há mais de mil anos que persistem em apontar os erros das outras religiões. (p. 18-19)O que imediatamente se estranha nestas palavras é a redução das religiões às suas expressões exclusivistas ("axiomas irremediavelmente sectários"). Será possível que Sam Harris nunca tenha ouvido falar de inclusivismo, ou mesmo de pluralismo religioso? Não sabe que todas estas atitudes são transversais a todas as religiões? Para quem advoga o uso da razão na análise do fenómeno religioso, é caso para perguntar porque é que o autor não consegue ser um pouco mais racional nas suas análises. Será ignorância ou má fé?
O que prevalece destas palavras é a incapacidade do autor de O Fim da Fé para compreender fenómenos como o pluralismo religioso, uma incapacidade igual à dos fundamentalistas religiosos que preferem viver isolados em guetos mentais (ou físicos), ignorando (e evitando conhecer!) as crenças dos outros. Como já escrevi uma vez, as atitudes fundamentalistas religiosas e anti-religiosas caracterizam-se por atitudes mentais muito semelhantes.
Sam Harris nem sequer se demora uma linha para reflectir de que forma poderia existir alguma "igual validade de todos os credos". A ingenuidade do autor suscita várias questões: Será que ele preferia que uma religião asfixiasse todas as outras, resolvendo, assim, o problema do pluralismo? O facto de nem todas as pessoas crentes serem adeptas do pluralismo religioso por acaso invalida o fenómeno religioso como um todo? E por acaso na base de todas as religiões apenas existem axiomas sectários? E qual o contexto em que surgiram as declarações consideradas sectárias?
O problema que a moderação religiosa nos coloca é que não admite qualquer crítica à literalidade religiosa. Não podemos dizer que os fundamentalistas estão loucos, já que eles estão apenas a exercer a sua liberdade de culto; não podemos sequer afirmar que eles estão enganados em matéria de religião, porque o seu conhecimento das escrituras é, regra geral, inigualável. (…) A moderação religiosa é um produto do conhecimento secular e da ignorância das escrituras – e, em termos religiosos, não tem bona fides que a coloque em pé de igualdade com o fundamentalismo. (…) A moderação religiosa, na medida em que representa uma tentativa de nos concentrarmos naquilo que a ortodoxia sagrada ainda pode ter de útil, fecha a porta a outras abordagens mais sofisticadas da espiritualidade, da ética e da construção de comunidades fortes. (p.23)Sinceramente, não percebo que o que significa uma moderação onde não à espaço para “crítica à literalidade religiosa”. Será que este homem alguma vez leu algum texto do John Hick? Saberá que sabe quem é Leonardo Boff? E desconhecer correntes religiosas moderadas (ou religiões!) que criticam o literalismo religioso é motivo para questionarmos o que é que Sam Harris realmente sabe sobre religião.
A última frase consegue ainda ser mais surpreendente além de confirmar que não percebe o que é a moderação religiosa, insinua a necessidade de “outras abordagens mais sofisticadas da espiritualidade, da ética e da construção de comunidades fortes”. Afinal o que pretende ele? Denunciar a religião como fonte de todos os males do mundo moderno, ou procurar novas fontes de espiritualidade?


