sábado, 18 de maio de 2013
Casa de Bahá'u'lláh em Teerão: uma polémica pré-eleitoral no Irão
Nos últimos dias, a agência noticiosa FARS (de cariz conservador) tem publicado diversas notícias sobre este edifício e as suas obras de restauro que estão planeadas. Essas notícias têm sido acompanhadas de diversas fotos e divulgadas em várias publicações. O objectivo destas notícias - segundo o blog de Sen McGlin - é prejudicar Isfandiyar Rahim Masha'i, um aliado e familiar do presidente Ahmadinedjad e possível candidato à eleições presidenciais.
A agência FARS afirma que existem centenas de casas antigas em Teerão com valor arquitectónico e cultural semelhante e que não foram registadas pelas autoridades provinciais responsáveis pela Herança Cultural. A agência indica listas de residências de príncipes e clérigos conhecidos que não foram registadas e descreve (com o facciosismo do costume) a importância da casa na história Bahá’í.
O edifício esteve nas mãos de uma organização de propagação islâmica e foi adquirido pelo actual proprietário em 2005 com o objectivo de evitar a sua demolição. Este proprietário registou o edifício como edifício histórico e pretende restaura-lo com os seus próprios recursos. No entanto, a comunicação social iraniana vai afirmando que o edifício foi comprado pela Fundação do Património Cultural quando o Sr. Masha'i chefiava essa organização.
Abaixo ficam as fotos do edifício divulgadas pela agência FARS.
sexta-feira, 19 de abril de 2013
Celebrando o 150º aniversário da Declaração de Bahá'u'lláh
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No dia 21 de Abril deste ano, a Comunidade Bahá’í vai celebrar o 150º aniversário do dia em que Bahá'u'lláh, fundador da Fé Bahá'í, anunciou em público pela primeira vez a Sua missão num jardim de Bagdade, dando origem assim à Comunidade Bahá’í que hoje compreende praticamente todos os grupos étnicos humanidade em mais de 200 países e territórios.
Num certo sentido, as festividades globais que envolvem pessoas de milhares de grupos étnicos são uma característica da mensagem central da Fé Bahá'í: chegou um momento de felicidade para toda a raça humana que gradualmente evolui de um estado de adolescência colectiva para uma fase de maturidade e plenitude. "Nós desejamos o bem do mundo e a felicidade das nações", disse Bahá'u'lláh para Edward Granville Browne, o académico da Universidade de Cambridge, que o entrevistou em 1890, "que os laços de afecto e união entre os filhos dos homens se fortaleçam... que mal há nisso?... essas lutas infrutíferas, essas guerras ruinosas hão de passar, e a «Mais Grandiosa Paz» virá". Estas palavras apresentam um esboço do objectivo dos ensinamentos de Bahá'u'lláh e do trabalho da comunidade Bahá’í nos dias de hoje.
Mirzá Husayn Ali era um seguidor proeminente da religião Bábí que teve inicio em Shiraz, Pérsia, 19 anos antes; era conhecido pelos membros desta comunidade por "Bahá'u'lláh" (uma expressão árabe que significa "Glória de Deus"). Um dos ensinamentos centrais da religião Bábí era a expectativa do iminente aparecimento de outro Mensageiro Divino que iria cumprir muitas das promessas implícitas na religião - não diferentes das expectativas no Hinduísmo, Judaísmo, Budismo, Zoroastrismo, Cristianismo e Islamismo a respeito de um tempo futuro de cumprimento e realização.
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| Santuário de Bahá'u'lláh, no norte de Acre, na Terra Santa (clique na imagem para ampliar) |
Em 21 de Abril de 1863, quando estava prestes a ser exilado de Bagdade para Constantinopla, Bahá'u'lláh permaneceu durante 12 dias num jardim em Bagdade, conhecido como "Jardim de Ridván (Paraíso)" e foi aqui que Ele deu a conhecer aos membros da comunidade Bábí ali reunida que Ele era o prometido eles aguardavam.
Este foi um momento de grande alegria para o Bábís, que tinham sofrido nos anos anteriores a execução do fundador da sua religião (conhecido como "O Báb") e o massacre de mais de 20 mil membros da sua comunidade. Uma das pessoas presentes no jardim Ridván deixou um relato da cena que descreve o sentimento da ocasião:
"Todos os dias, antes da hora da madrugada, os jardineiros iria colher as rosas que eram alinhadas ao longo das quatro alamedas do jardim, e empilhadas no centro do chão da Sua tenda (de Bahá'u'lláh). Tão grande era o amontoado que quando os Seus companheiros se reuniram para beber o chá da manhã na Sua presença, não eram capazes de se ver uns aos outros através deste."
Bahá'u'lláh descreveu esta ocasião como "O Mais Grandioso Festival", o "Rei dos Festivais", e o "Festival de Deus". Os Bahá’ís comemoram o primeiro (21 de Abril), o nono (29 de Abril) e o último dia (02 de Maio) dos 12 dias do Festival Ridván como dias sagrados e sempre que possível não trabalham nessas ocasiões. O significado de cada um é o seguinte: o primeiro dia de Ridván é quando Bahá'u'lláh entrou no jardim e anunciou a Sua missão; o nono é quando Sua família se juntou a Ele; e foi no décimo-segundo que Ele abandonou o jardim e continuou a viagem de exílio para Constantinopla.
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| Um "Taj" (chapéu) usado por Bahá'u'lláh (clique na imagem para ampliar) |
Nos anos seguintes a este anúncio para um pequeno grupo de Bábís no jardim Ridván, e apesar das limitações impostas por ser um prisioneiro e exilado, Bahá'u'lláh escreveu aos governantes do mundo daquela época e delineou um plano para a paz unificação da raça humana. Foram escritas cartas para Napoleão III de França, o Kaiser Guilherme I da Alemanha, a Rainha Vitória da Inglaterra, o Sultão Abdul-Aziz, o Papa Pio IX e outros. Apesar de ter sido ignorado na época, algumas das ideias nestas cartas foram parcialmente implementadas algumas gerações mais tarde, pelo Presidentes dos EUA Woodrow Wilson e Franklin D. Roosevelt, logo após a Primeira e Segunda Guerras Mundiais.
É sempre benéfico para pessoas com, ou sem, formação religiosa saber mais sobre os Fundadores de sistemas religiosos do mundo, pois esse conhecimento permite entender melhor as suas próprias crenças, e também relacionar-se com os outros. Os leitores perceberão que aprender sobre Bahá'u'lláh é particularmente fascinante, porque Ele, além de reafirmar os ensinamentos morais essenciais de todas as grandes religiões mundiais, também escreveu sobre questões globais e sociais, actuais e futuras, como a diplomacia, a segurança colectiva, o papel dos meios de comunicação, a língua internacional, os problemas económicos, a vida em outros lugares do universo, a medicina, os sonhos, o meio-ambiente, a energia, a governação global, a agricultura, educação e muitos outros.
Se você nunca leu escrituras de Bahá'u'lláh, talvez possa descobrir que uma maneira muito agradável para passar os belos dias da primavera entre 21 de Abril a 02 de Maio deste ano é saborear um chá da manhã (ou um café ou qualquer bebida matinal à sua escolha), junto a um monte de rosas e com algumas obras de Bahá'u'lláh, para perceber porque é que aquele grupo estava tão entusiasmado em Bagdade, há 150 anos atrás.
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Texto original em Inglês: Celebrating the 150th Anniversary of Baha'u'llah's Declaration
quarta-feira, 13 de março de 2013
Francisco I
Ó Papa! Rasga os véus. Aquele que é o Senhor dos Senhores veio envolto em nuvens, e o decreto foi cumprido por Deus, o Todo-Poderoso, o Irrestrito... Ele, em verdade, desceu outra vez do Céu, assim como dali desceu na primeira vez. Acautela-te para não disputar com Ele tal como fizeram os fariseus com Ele (Jesus), sem um sinal ou prova clara. À Sua direita fluem as águas vivas da graça, e à Sua esquerda o Vinho selecto da justiça, enquanto antes dele marcham os anjos do Paraíso, segurando os estandartes dos Seus sinais. Acautela-te para que nenhum nome te exclua de Deus, o Criador da terra e do céu. Deixa o mundo atrás de ti, e volve-te para o teu Senhor, através de qual toda a terra foi iluminada... Resides em palácios enquanto Aquele que é o Rei da Revelação vive na mais desolada das moradas? Abandona-os àqueles que os desejam, e volve a tua face com júbilo e deleite para o Reino... Levanta-te em nome do teu Senhor, o Deus de Misericórdia, entre os povos da terra, e segura no Cálice da Vida com as mãos da confiança e primeiro bebe dele, e oferece-o depois a todos os que a ele se voltaram entre os povos de todas as crenças...
Bahá'u'lláh, Epístola ao Papa Pio IX
domingo, 10 de fevereiro de 2013
quinta-feira, 13 de dezembro de 2012
sábado, 7 de janeiro de 2012
A Epístola da Sabedoria (1)
Ao longo das próximas semana irei publicar neste blog um conjunto de textos sobre a Epístola da Sabedoria (Lawh-i-Hikmat), revelada por Bahá'u'lláh. O objectivo é encorajar os leitores a ler e a reflectir sobre os temas que Bahá’u’lláh ali aborda. Ao longo dos meus posts farei referência aos parágrafos do texto usando parêntesis rectos [ ]; a Epístola contém 47 parágrafos.
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| Casa de Abbud, em Akká, onde foi revelada a Epístola da Sabedoria |
Na Epístola da Sabedoria Bahá'u'lláh aborda a importância da filosofia e da ciência, e simultaneamente insiste na validade da religião. Em relação a outras Escrituras Bahá’ís, este texto destaca-se devido às explicações de Bahá’u’lláh sobre o início da criação e a influência do Verbo de Deus sobre a natureza. Outra característica ímpar desta epístola reside no facto de conter citações de historiadores e biógrafos muçulmanos(b) relativas a antigos filósofos gregos, como Sócrates e Platão.
Consequentemente, esta Epístola encontra-se entre os textos de Bahá'u'lláh que já despertaram a atenção de diversos intelectuais e filósofos. Sem dúvida que no futuro será objecto de muitos e diversificados estudos, dando origem a uma vasta biblioteca de obras.
Na Epístola da Sabedoria também podemos encontrar algumas exortações éticas aos povos do mundo[3, 4, 5]. Em alguns parágrafos, Bahá'u'lláh descreve a decadência e a falta de moral no mundo e seguidamente apresenta diversos ensinamentos conducentes à espiritualização do individuo e da humanidade. Este tipo de exortações encontra paralelo noutras Epístolas de Bahá'u'lláh e não será objecto de análise nestes posts.
Como todas as Escrituras Sagradas, este texto não pode ser entendido apenas no seu sentido literal. Para nos ajudar a compreender o sentido dos Seus ensinamentos, Bahá'u'lláh utiliza frequentemente metáforas - figuras de estilo que criam imagens verbais - que comparam um determinado conceito com coisas que conhecemos. Além disso, o leitor pode encontrar múltiplos significados nas palavras e frases das Figuras Centrais.
Para compreender o texto, é também igualmente importante perceber o contexto intelectual e filosófico do mundo islâmico do sec. XIX em que vivia Nabil-i-Akbar.
Sobre a importância desta epístola, o próprio Bahá’u’lláh afirmou que "em cada versículo da Epístola de Hikmat oculta-se um oceano"(c). Na própria Epístola refere-se à importância das explicações apresentadas como "...é um sopro de vida para aqueles que habitam no domínio da criação..."[1] "...Irrefutável e poderosa explicação..." [43]. Também afirma que a Epístola contém o conhecimento de tudo o que existiu e existirá [35].
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(a) - Este não é o mesmo Nabil que escreveu os "Rompedores da Alvorada". Esse era o Nabil-i-Zarandani, também conhecido por Nabil-i-A’zam.
(b) - É o caso do iraniano Sayyid Jamalu'd-Din al-Afghani (f. 1897) e do egípcio Rifa'ah at-Tahtawi (f. 1873).
(c) - Adib Taherzadeh escreve que “numa das Suas Epístolas [ Athar-i-Qalam-i-Ala, vol. 7, p. 113], Bahá'u'lláh afirma que “em cada versículo da Epístola de Hikmat oculta-se um oceano” (Revelation of Bahá'u'lláh vol. 4, 39)
quinta-feira, 21 de abril de 2011
Ridvan, o Mais Grandioso Festival
Para os Bahá'ís, o Festival de Ridvan tem uma enorme importância. Em 1844, o Báb profetizara o surgimento de um grande mensageiro de Deus, o Prometido de todas as religiões. Durante os seis anos do Seu Ministério, que culminaram na Sua execução pública em 09 de Julho de 1850, o Báb instou o povo da Pérsia, a purificar-se, e preparar-se para a chegada de "Aquele que Deus tornará manifesto".
Bahá'u'lláh foi preso em 1853 por ser um dos mais proeminentes seguidores do Báb. Quando estava na prisão, teve uma revelação de Deus em que Lhe foi anunciado ser Ele o Prometido profetizado pelo Báb. Depois de libertado não contou a ninguém essa experiência que teve na prisão.
Seguiram-se 10 anos de exílio em Bagdade. Durante esse tempo, o carácter, a sabedoria e o discernimento espiritual de Bahá'u'lláh afectaram todos os que entraram em contacto com Ele. A Sua influência era notória, e muitos dos Babís refugiados e exilados no Iraque Otomano recorriam ao Seu conselho e advertência para divulgar os ensinamentos Babís.
Bagdade era um importante local de passagem para viajantes no Médio Oriente, e as autoridades recearam que a influência de uma nova religião se espalhasse demasiadamente depressa na região. Por esse motivo decidiram exilar Bahá'u'lláh para outro local. Quando as autoridades informaram Bahá'u'lláh que Ele ia ser enviado para Constantinopla, Ele foi residir durante alguns dias num jardim nas margens do rio Tigre. Nesse jardim - que os Bahá’ís designam como “Jardim de Ridvan” - recebeu diversas personalidades conhecidas na cidade, poderosos e humildes, ricos e pobres; todos tinham sido tocados pela Sua presença e lamentavam vê-Lo partir.
Durante esses dias, Bahá'u'lláh anunciou a alguns dos Seus familiares e companheiro de exílio, que Ele era o Prometido profetizado pelo Báb.
Shoghi Effendi, bisneto de Bahá'u'lláh, Guardião da Fé, descreveu com as seguintes palavras alguns dos eventos no Jardim de Ridvan:
Das exactas circunstâncias que rodearam essa Declaração - que marcou uma época – nós, infelizmente, não temos senão parcas informações. As palavras efectivamente proferidas por Bahá'u'lláh nessa ocasião, a forma da Sua Declaração, a reacção produzida pela mesma, o choque causado sobre Mírzá Yahyá [meio-irmão de Bahá'u'lláh que tentou usurpar a Sua posição e várias vezes atentou contra a Sua vida], a identidade daqueles que tiveram o privilégio ouvi-Lo, tudo isso está envolvido em obscuridade em que futuros historiadores terão dificuldade em penetrar. A fragmentada descrição deixada para a posteridade pelo Seu cronista Nabíl, é um dos poucos registos autênticos que possuímos dos dias memoráveis que Ele passou naquele jardim. "Todos os dias" - relata Nabíl - "antes do alvorecer, os jardineiros colhiam as rosas que se alinhavam ao longo das quatro avenidas do jardim, e as depositavam no centro do chão de Sua abençoada tenda. Tão grande era a pilha formada, que, quando os Seus companheiros vinham reunir-se com Ele para tomarem o chá da manhã, era-lhes impossível verem-se entre si. Bahá'u'lláh entregava todas essas rosas com Suas próprias mãos, àqueles que cada manha Ele dispensava de Sua presença, para serem entregues, em Seu nome, aos Seus amigos árabes e persas da cidade." "Certa noite" - continua ele - "a nona noite da lua crescente, calhou de ser eu um dos que, do lado de fora, vigiava a Sua abençoada tenda. Ao aproximar-se a meia-noite, vi-O deixar a Sua tenda, passar pelos lugares onde dormiam alguns dos Seus companheiros, e começar a passear, ao luar, indo e voltando, pelas avenidas ladeadas de flores. Tão intenso era o cantar dos rouxinóis nos quatro cantos do jardim, que somente quem estivesse junto Dele poderia ouvir a Sua voz. Continuou a caminhar até que, parando no meio de uma dessas avenidas, observou: "Considerai estes rouxinóis. Tão grande é o seu amor por estas rosas, que, despertos, do anoitecer até a alvorada, entoam as suas melodias e comungam, ardentemente apaixonados, com o objecto da sua adoração. Como podem, pois, aqueles que pretendem inflamar-se com a rósea beleza do Bem-Amado, preferir o sono?" Por três noites sucessivas vigiei e circulei em torno da Sua abençoada tenda. Cada vez que me aproximava do Seu leito, encontrava-O desperto, e todo o dia, desde a manha até o cair da noite, eu O via, envolvido na incessante conversa que mantinha com a corrente de visitantes, que continuava a fluir de Bagdade. Nem uma só vez vislumbrei nas Suas palavras o menor indício de dissimulação." (A Presença de Deus)
Muitos anos mais tarde, Bahá'u'lláh designaria Festival de Ridván como “o Mais Grandioso Festival” e “o Rei dos Festivais”, indicando que o primeiro, o nono e o último dia seriam feriados no calendário Bahá’í. O ano administrativo Bahá’í também se inicia no primeiro dia de Ridvan, com a eleição das Assembleias Espirituais Locais; as Assembleias Nacionais também são eleitas neste período. A Fé Bahá’í não tem clero e estes são os organismos que administram as actividades da comunidade Bahá’í. Esta coincidência não é fruto do acaso. As eleições que renovam a ordem administrativa fazem parte das festividades.
Feliz Ridvan!
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Epístolas de Bahá'u'lláh a Reis e Governantes
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Reis e Governantes, em 1867
Nesse mesmo ano de 1867, realizou-se em Paris a Grande Exposição Universal. O evento era uma afirmação da frança como grande potência europeia e contava com expositores de vários países do mundo. Uma das recordações desse evento é uma ilustração onde estavam representados o Imperador Francês e outros monarcas que visitaram a Exposição. Curiosamente, quase todos eles foram destinatários de uma Epístola de Bahá'u'lláh.
Aqui fica a referida ilustração (clique na imagem para ampliar):

Excertos da Epístola aos Reis (Súriy-i-Mulúk):
Ó REIS DA TERRA! Aquele que é o Senhor soberano de todos já veio. O Reino é de Deus, o Protector Omnipotente, O que subsiste por Si Próprio. Não adoreis senão a Deus e, com corações radiantes, levantai a vossa face para o vosso Senhor, Senhor de todos os nomes. Esta é uma Revelação com a qual nenhuma de vossas possessões jamais será comparável – se apenas pudésseis saber isso.
(...)
Sois apenas vassalos, ó reis da terra! Aquele que é Rei dos Reis apareceu, adornado com a sua mais maravilhosa Glória, e convoca-vos a Ele Mesmo, o Amparo no Perigo, O que subsiste por Si Próprio. Acautelai-vos para que o orgulho não vos impeça de reconhecer a Fonte da Revelação, nem as coisas deste mundo vos excluam, como se o fosse por um véu, daquele que é Criador do Céu. Levantai-vos e servi Aquele que é o Desejo de todas as nações, que vos criou através de uma palavra Sua e ordenou que fôsseis, para todo o sempre, os símbolos da Sua soberania.
(...)
Passaram-se vinte anos, ó reis, durante os quais saboreamos a cada dia a agonia de uma nova tribulação. Nenhum dos que Nos antecedeu suportou o que Nós temos suportado. Oxalá pudésseis perceber isso! Os que se levantaram contra Nós, têm-nos levado à morte, têm derramado o Nosso sangue, têm saqueado os Nossos bens e violado a Nossa honra. Vós, porém, embora cientes da maior parte das Nossas aflições, não detivestes a mão do agressor. E não é claramente vosso dever reprimir a tirania do opressor e tratar com equidade os vossos súditos, a fim de demonstrar plenamente a toda a humanidade o vosso elevado sentido de justiça?
Deus entregou às vossas mãos as rédeas do governo do povo, para que possais governar com justiça sobre eles, salvaguardando os direitos dos espezinhados e punindo os malfeitores. Se negligenciares o dever que Deus vos prescreveu no Seu Livro, os vossos nomes serão incluídos nos que são injustos aos Seus olhos. Lastimável, de facto, será o vosso erro. Agarrai-vos ao que as vossas imaginações conceberam e repelis os mandamentos de Deus, o Excelso, o Inatingível, o Predominante, o Todo-Poderoso? Renunciai àquilo que vós possuís, e segurai-vos àquilo que Deus vos mandou observar. Procurai a Sua graça é o que deveis buscar, pois quem a procura trilha o Seu Caminho recto...
(...)
Ó REI DA TERRA! Nós vos vemos aumentar, todos os anos, as vossas despesas, cujo o peso colocais sobre os vossos súditos. Isso, em verdade, é inteira e grosseiramente injusto. Temei os suspiros e as lágrimas deste Injuriado e não ponhais encargos excessivos sobre os vossos povos. Não os roubeis a fim de erguerdes palácios para vós próprios; não, antes, escolhei para eles o que escolheis para vós próprios. Assim expomos perante os vossos olhos o que vos é proveitoso – se apenas o percebêsseis. Os vossos povos são os vossos tesouros. Acautelai-vos para que a vossa governação não viole os mandamentos de Deus, e não entregueis vossas tutelas nas mãos do ladrão. É pelos vossos povos que governais, por meio deles subsistis, pela sua ajuda que conquistais. No entanto, com que desdém olhais para eles! Que estranho, muito estranho!
Agora que recusastes a Paz Maior, segurai-vos a essa, a Paz Menor, a fim de que possais, de alguma forma, melhorar a vossa própria condição e a dos vossos dependentes.
Ó governantes da terra! Reconciliai-vos, para que não mais necessiteis de armamentos, salvo na medida necessária para proteger os vossos territórios e domínios. Acautelai-vos para não desprezar o conselho do Omnisciente, do Fiel.
Uni-vos, ó reis da terra, pois assim a tempestade da discórdia se aquietará entre vós, e o vosso povo encontrará a tranquilidade - se sois dos que compreendem. Se alguém dentre vós pegar em armas contra outro, levantai-vos contra ele, pois isso nada mais é que justiça manifesta.
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Sobre esta Epístola:
* Epístola aos Reis – Introdução
* Epístola aos Reis (1): A Proclamação
* Epístola aos Reis (2): O Sultão e os Ministros
* Epístola aos Reis (3): Os Embaixadores
* Epístola aos Reis (4): Sacerdotes, Sábios e Filósofos
quinta-feira, 28 de maio de 2009
sábado, 9 de maio de 2009
Concerning the Tablets of Baha'u'llah to the Kings
Baha'u'llah - Letters to the Kings
quarta-feira, 31 de dezembro de 2008
Bahá'u'lláh: The Prisoner of Akká
Recuperado de uma velha cassete VHS existente aqui em casa.
quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007
Rashid's Legacy
O nome Rashid bin Saeed Al Maktoum não diz nada a maioria dos Portugueses. Mas se dissermos que ele foi o Emir do Dubai e que fez daquele Emirado um dos Estados economicamente mais pujantes do Golfo Pérsico (apesar dos lucros do petróleo constituírem apenas 6% do seu Produto Interno Bruto), então ficamos com uma ideia de quem se trata.Este governante faleceu em Janeiro do ano passado, e alguns meses depois foi publicada no Emirado um livro intitulado "Rashid's Legacy" (The Genesis of the Maktoum Family and the History of Dubai). A obra apresenta a história do Dubai e da família Maktoum; naturalmente, é um livro apreciado no Emirado.

Um pormenor curioso deste livro encontra-se na pagina 451 no início do capítulo 27 onde encontramos a seguinte citação.
ama o mundo inteiro. A terra é um só país e humanidade os seus cidadãos.
- Mirzá Husayn 'Ali, lider religioso e escritor"
Mirzá Husayn 'Ali é o nome próprio de Bahá'u'lláh. É surpreendente ver uma citação do fundador da religião bahá’í num livro onde se faz o elogio de uma família governante e de um Estado cuja população é maioritariamente sunita. Recorde-se que o Dubai é um país relativamente tolerante para com as minorias religiosas.
quinta-feira, 15 de dezembro de 2005
Kitáb-i-Iqán (10)
O RECEIO DOS PODERES INSTITUÍDOS
Os príncipes dos sacerdotes e todo o Sinédrio procuravam um depoimento falso contra Jesus, a fim de O condenarem à morte, mas não o encontraram embora se tivessem apresentado muitas falsas testemunhas. Apresentaram-se por fim, duas, que declararam: «Este homem disse: Posso destruir o Templo de Deus e reedificá-lo em três dias» Ergueu-se, então o sumo sacerdote e disse-Lhe: «Não respondes nada? Que dizes aos que depõem contra Ti?» Mas Jesus continuava calado. O sumo sacerdote disse-Lhe: «Intimo-Te, pelo Deus vivo, que nos digas se és o Cristo, o Filho de Deus» Jesus respondeu-lhe: «tu o disseste. E Eu digo-vos: Vereis um dia o Filho do Homem sentado à direita do Poder e vindo sobre as nuvens do céu» Então o sumo sacerdote rasgou as vestes, dizendo: «Blasfemou! Que necessidade temos ainda de testemunhas? Acabais de ouvir a blasfémia.» (Mt 26:59-65)Na história das religiões percebemos que a oposição aos Mensageiros de Deus foi fomentada pelos poderes políticos e religiosos do Seu tempo. Nas religiões semitas, isso é muito claro nos textos e tradições religiosas que nos referem Moisés e o faraó, Jesus e os sacerdotes hebreus, Herodes e Pilatos, e Maomé face aos sacerdotes judeus e cristãos e ainda os lideres tribais do Seu tempo.[16]
No que toca aos dirigentes religiosos[a], percebe-se que a sua oposição ao novo Mensageiro de Deus assenta na sua incapacidade para compreender os significados dos textos sagrados. Nas palavras do novo Profeta vêem uma ameaça à sua posição de poder e prestígio social; curiosamente, esses dirigentes religiosos possuem dúvidas em relação a questões teológicas profundas, mas não hesitam em condenar o novo Mensageiro e afirmar que ainda não se cumpriram os sinais relativos à vinda do prometido.[90]
Sobre este assunto, Bahá'u'lláh escreveu no Kitáb-i-Íqán:
Os lideres da religião, em cada era, têm impedido seu povo de atingir as margens da salvação eterna, na medida em que sustiveram as rédeas da autoridade nas suas poderosas mãos. Alguns pela luxúria da liderança, outros por falta de conhecimento e compreensão, têm sido o motivo da privação do povo. Com a sua aprovação e autoridade, todo o Profeta de Deus bebeu o cálice do sacrifício e alçou voo para os cumes da glória. Que crueldades indescritíveis, eles que ocuparam os tronos da autoridade e do conhecimento infligiram sobre os verdadeiros Monarcas do mundo, aquelas Jóias da virtude divina! Contentaram-se com um domínio transitório, e privaram-se de um soberania eterna.[15]------------------------------------------
NOTAS
[a] – Os dirigentes religiosos são frequentemente condenados nas escrituras baha’is. Veja-se a Epístola os Reis.
sexta-feira, 22 de abril de 2005
O Xá Nasiri'd-Din(2)
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BABIS E BAHÁ’ÍS
Nasiri'd-Din foi o único monarca que acompanhou o nascimento da religião do Báb. Teve conhecimento do seu surgimento, assim que os adeptos babís se espalharam pela Pérsia. Quando ainda era apenas herdeiro do trono, assistiu a uma proclamação do Báb perante uma assembleia de clérigos e dignatários do Azerbaijão persa. Nessa ocasião o Báb terá proclamado: "Eu sou, eu sou, eu sou o Prometido! Eu sou Aquele cujo nome invocais há mil anos, a cuja menção vos levantais, cujo advento há muito desejais testemunhar, e a hora cuja revelação haveis implorado a Deus que apressasse. Em verdade vos digo: incumbe aos povos, tanto do Oriente como do Ocidente, obedecer à Minha palavras e cumprir a aliança com a Minha pessoa"[1]
Em Agosto de 1852 foi alvo de uma tentativa de assassinato por parte de três babís; apesar destes terem confessado ter agido por sua iniciativa individual, esse acontecimento deixaria o seu reinado marcado por uma profunda animosidade contra Babis e Baha’is, animosidade essa que foi prontamente aproveitada pelo clero muçulmano.
O seu rancor foi sendo alimentado por várias vários opositores de Bahá'u'lláh que fizeram chegar ao monarca informações segundo as quais Bahá'u'lláh conspirava contra ele; caluniavam e acusavam Bahá'u'lláh, distorciam os Seus ensinamentos. Não seria, porém, de admirar que o "problema bahá'í" fosse mais uma questão para a qual o Xá pedia o envolvimento dos seus ministros.
EPÍSTOLA DE BAHÁ’U’LLÁH
De entre as epístolas reveladas aos governantes do Seu tempo, a epístola ao Xá da Pérsia (Lawh-i-Sultán) é a mais longa. Nesta, o fundador da religião baha’i proclama ser portador de uma mensagem divina e apela ao Xá para que olhe pelo povo da Pérsia com justiça e generosidade. Ao longo do texto, repetem-se exortações para que o Xá não dê atenção aos seus bens materiais, recordando que foram muitos os monarcas do passado cujos palácios hoje se encontram em ruínas, cujos tesouros se perderam, e cuja glória desapareceu. Mais do que os bens materiais a distinção do ser humano está nos seus actos, na sua rectidão e na sua piedade.
Tal como o fez com outros governantes, também nesta epístola Bahá’u’lláh refere alguns aspectos da governação. No texto é denunciado o comportamento de alguns oficiais e figuras do estado que em vez de trabalhar em prol do progresso do país e serviço ao Xá, preferem denunciar algumas pessoas como Babis, apenas com o intuito de os matar e saquear as suas propriedades.[2]
Um dos excertos mais conhecidos desta epístola é aquele em que Bahá’u’lláh se descreve como Manifestante de Deus. Era um homem como os outros, não tinha conhecimentos ou erudição especial, mas a Revelação Divina fê-Lo expressar a vontade de Deus e proclamar uma nova Mensagem.
Alguns excertos:
Ó Rei! Eu era apenas um homem como os outros, adormecido em meu leito, quando eis que os sopros do Todo-Glorioso manaram sobre Mim e Me deram o conhecimento de tudo o que já existia. Isso não provém de Mim, mas d’Aquele que é Todo-Poderoso e Omnisciente. E Ele ordenou-Me que levantasse a Minha voz entre a terra e o céu, e por isso Me sucedeu o que fez correr lágrimas de todo os homens de compreensão. A erudição comum entre os homens, não a estudei; nem entrei nas suas escolas. Pergunta na cidade em que residi, a fim de teres a certeza de que Eu não sou dos que falam falsamente. Este Ser é apenas uma folha movida pelos ventos da Vontade do teu Senhor, o Todo-Poderoso. Alvo de todo louvor.
(...)
Contempla este Jovem, ó rei, com os olhos da justiça: então, julga com verdade, daquilo que Lhe sucedeu. Verdadeiramente, Deus fez-te a Sua sombra entre os homens e sinal do Seu poder para todos os que habitam na terra. Julga tu entre Nós e aqueles que Nos injuriaram sem prova e sem um Livro esclarecedor. Os que te rodeiam amam-te por seus próprios interesses, enquanto este Jovem te ama por ti mesmo, nenhum desejo nutrindo a não ser o de te fazer aproximar do trono da graça e te dirigir à direita da justiça.
(...)
Oxalá Me permitisses, ó Xá, enviar-te aquilo que poderia alegrar os olhos e tranquilizar as almas e fazer toda pessoa sensata acreditar que o conhecimento do Livro está com Ele... Se não fosse o repúdio dos insensatos e a conivência dos sacerdotes, Eu teria proferido palavras que extasiariam os corações, transportando-os para um reino cujos ventos se fazem ouvir, murmurando "Nenhum Deus há senão Ele!..."[3]
Esta Epístola foi revelada em Adrianópolis, mas só seria enviada para o Xá durante o exílio de Bahá'u'lláh em 'Akká. A história do portador e da forma como foi entregue ao Xá é particularmente interessante e merece um post à parte.
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NOTAS
[1] - Adib Taherzadeh, The Revelation of Baha'u'llah, vol. 2, p. 336
[2] – Nos meios políticos e religiosos da Pérsia naqueles anos, um método normal de destruição de um inimigo era acusá-lo de ser Babi. Antes da vitima poder provar a sua inocência, seria castigada, por vezes com a pena de morte
[3] – Os excertos desta epístola já traduzidos para inglês encontram-se aqui.
terça-feira, 19 de abril de 2005
O Xá Nasiri'd-Din (1)
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INTRODUÇÃO
Quem fale um pouco com iranianos sobre o passado do Irão facilmente percebe o orgulho que sentem na sua história. Tiveram reis extraordinários, ministros e governantes respeitáveis, sacerdotes e místicos admiráveis, poetas e intelectuais famosos, artistas e construtores fantásticos. Mas a história de qualquer nação, ou povo, tem altos e baixos. A dinastia Qajar[1] (1796-1925) ocupou o Trono do Pavão num tempo em que a Pérsia se deixou asfixiar pelas pressões da vizinha Rússia e da Grã-Bretanha. A primeira ia alargando os seus territórios e influência no Cáucaso; a segunda afirmava-se como uma grande potência mundial.
O monarca dessa dinastia que reinou durante mais tempo foi Nasiri'd-Din; durante a última metade do séc. XIX, ele confiou o destino político da Pérsia a sucessivos primeiros-ministros. Além das pressões russa e britânica, existiam também influências económicas, sociais e tecnológicas que iam abalando a sociedade persa. Foi durante esses tempos conturbados que as religiões Babí e Bahá’í surgiram na Pérsia.
Em 1848, Nasiri'd-Din encontrava-se em Tabriz, capital provincial do Azerbaijão persa, quando recebeu a notícia da morte de seu pai, o Xá Muhammad. Nunca tinha sido o filho predilecto, ao contrário do seu irmão Abbas. O novo Xá, com 19 anos, era muito imaturo para o novo cargo; os seus interesses principais centravam-se nas mulheres e na caça. Alguns historiadores referem que estes foram sempre os interesses do Xá ao longo da sua vida; os assuntos da governação eram sempre confiados aos ministros.
AMIR KABIR, O PRIMEIRO-MINISTRO
O seu preceptor, Amir Kabir, acompanhava-o desde muito novo. Quando o príncipe Nasiri'd-Din sucedeu ao seu pai, Amir Kabir foi nomeado conselheiro, e posteriormente, primeiro ministro. Amir Kabir é invariavelmente descrito como um homem inteligente e brilhante cuja grande sonho era devolver ao Irão o seu antigo estatuto de potência próspera e respeitada; os seus métodos de governação, porém, revelariam um homem totalitário e brutal.Os primeiros anos da governação do novo monarca com o seu primeiro-ministro mostravam que a Pérsia se tentava modernizar. Com o Xá frequentemente alheado dos assuntos da governação, Amir Kabir não olhava a meios para modernizar o país: organizou um sistema postal e reestruturou as finanças do estado; eliminou despesas supérfluas, reorganizou o exército e estimulou a economia; lançou as primeiras campanhas de vacinação e fundou a primeira universidade persa. Nas províncias fronteiriças colocou governadores de lealdade inquestionável. Além disto, estabeleceu sólidas relações diplomáticas com os otomanos, e criou obstáculos à influência britânica e russa no país.
Apesar destas realizações notáveis, Amir Kabir é recordado por ter sido ele a dar a ordem de execução do Báb; acredita-se que o Xá teria sido pouco influente nessa decisão. Apesar de Amir Kabir ser repetidamente descrito na literatura baha’i como um dos mais poderosos inimigos dos Babis, é interessante ter recordar umas palavras de 'Abdu'l-Bahá sobre este governante:
"Apesar do facto de ele ter oprimido esta Causa como ninguém mais o fez, Mirzá Taqi Khan[2], o Primeiro Ministro, em assuntos de Estado e política, estabeleceu o que foram as fundações verdadeiramente firmes, e isto, apesar de nunca ter frequentado escolas europeias. Na verdade, a verdadeira educação promove a condição do indivíduo de forma a que ele consiga sabedoria, consciência e confirmações divinas"[3]O DECLÍNIO
O sucesso das realizações de Amir, e os seus programas de redução de despesas desnecessárias, valeram-lhe vários ódios e muitas inimizades. Estes surtiram uma série de intrigas palacianas que culminaram primeiramente na deposição e exílio, e posteriormente na sua execução. Com o fim da influência de Amir, termina também um ciclo reformista inicial do primeiros anos de governação do Xá Nasiri'd-Din; muitas das iniciativas de Amir Kabir foram abandonadas, a economia perdeu os seus incentivos, a vacinação foi esquecida; apenas a universidade continuou a funcionar conforme planeado. além de tudo isto, os governantes seguintes agravariam um estilo de governação despótica e profundamente corrupto.
O Xá Nasiri'd-Din visitou países europeus, encontrou-se com a Rainha Vitória e com o Kaiser Guilherme I. Visitou a Rússia, a Holanda e a Áustria. Estabeleceu ainda vários tratados com países estrangeiros, tratados esses que alguns historiadores consideram terem aberto demasiadamente as portas às influências estrangeiras. Alguns desses acordos (nomeadamente, a cedência da indústria do tabaco aos britânicos) provocaram motins e problemas com o clero.
Em Abril de 1891, Nasiri'd-Din e o país preparavam as celebrações do seu jubileu. No dia 19 desse mês, o Xá dirigiu-se ao santuário de 'Abdu'l-'Azim (túmulo de um líder religioso e local de peregrinação). Quando concluiu as suas orações, um partidário de um grupo oposicionista (Siyyid Jamalu'd-Din) disparou sobre o monarca, que morreu pouco depois. Diz-se que pouco antes de morrer teria pronunciado as seguintes palavras "Se sobreviver, vou governar de maneira diferente!"
O Xá Nasiri'd-Din foi um dos governantes do século XIX em cujas mãos estava o destino de milhões de seres humanos; tal como vários governantes europeus, exercia o poder de forma arbitrária, tirânica e, por ventura, mais brutal. Sendo governante do país natal de Bahá'u'lláh, não é de admirar que ele tivesse sido um dos destinatários das epístolas que o fundador da religião Bahá'í dirigiu aos reis e governantes do Seu tempo. No próximo post será sobre essa epístola, a Lawh-i-Sultán.
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NOTAS
[1] - Ver também Qajar Dynasty
[2] - Outro nome pelo qual Amir Kabir também era conhecido
[3] - Zarqani, Badá’í’ul-Athar, Vol 2, p.144, citado em The Bábi and Bahá'í Religions, 1844-1944; Some Contemporary Western Accounts, pags 160.
terça-feira, 5 de abril de 2005
1853: a caminho do Primeiro Exílio
Como resultado desse jogo de influências, e de alguma forma, fruto do Seu prestígio social e das pressões do embaixador russo[1], no final desse ano, o governo persa libertou Bahá'u'lláh e dando-Lhe um prazo de um mês para abandonar o país. Ao ser libertado, Bahá'u'lláh estava doente, não tinha casa onde morar (a sua residência tinha sido pilhada e vandalizada), e as Suas duas esposas e filhos encontravam-se a viver num bairro obscuro da capital. Valeu-Lhe, então, o apoio de um dos Seus irmãos. No espaço de um mês, Bahá'u'lláh pôde recuperar a sua saúde, enquanto se faziam os preparativos possíveis para deixar o país.
Em Janeiro do ano seguinte, Bahá'u'lláh e a Sua família[2] abandonaram Teerão, na companhia de um representante do governo iraniano e um oficial da embaixada russa. O governo russo tinha-se oferecido para receber aquele nobre persa no seu território, mas Ele preferiu ir para o Iraque, que na época era uma província Otomana.
A história e os detalhes desta viagem em direcção ao Iraque foram já descritas por vários historiadores bahá’ís[3]. Foram três meses em que tiveram de atravessar o agreste planalto iraniano coberto de neve. Anos mais tarde, Bahá'u'lláh numa das Suas Epístolas atribuiria os motivos do exílio à Vontade de Deus e descreveu as condições dessa viagem, referindo que os grupo de viajantes eram "homens frágeis acompanhados por crianças de tenra idade, num momento em que o frio era tão intenso que não se podia falar e o gelo e a neve tão densos que mal se podiam mover"[4].
Ilustração do Sec.XIX, mostrando uma caravana típica
que cruzava as estradas da Pérsia e do Iraque
Não deixa de ser curioso perceber como em todas as religiões o exílio parece ser uma constante na vida dos seus Fundadores. Conhecemos a história da viagem de Abraão de Ur para a Terra Prometida, o êxodo de Moisés, a fuga da Sagrada Família para o Egipto e a migração de Maomé de Meca para Medina. Em todos esses momentos Deus protegeu os Seus Manifestantes e os Seu eleitos. E por incrível que pareça, o exílio do seu Fundador, acaba sempre por fortalecer e proteger essa nova religião.
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NOTAS
[1] – Sobre outras acções do Embaixador Russo em Teerão, ver A Preocupação do Embaixador Russo e Sete Mártires de Teerão: a Reacção Russa.
[2] – Além das esposas e filhos (na época ‘Abdu’l-Bahá tinha nove anos), houve ainda dois irmãos que acompanharam Bahá’u’lláh no Seu primeiro exílio.
[3] – Ver Bahá'u'lláh, the King of Glory, H. M. Balyuzi, cap. 19 (Release an Exile)
[4] – Citado em Presença de Deus, Shoghi Effendi, pag. 162-163
domingo, 13 de março de 2005
O Czar Alexandre II
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Aleksandr Nikolayevich, conhecido nos livros de história como Czar Alexandre II, era o filho mais velho do Grão-Duque Nikolay Pavlovich (Nicolau I) e de Alexandra Fyodorovna. A sua infância e juventude foram vividas sob a personalidade dominante e autoritária do pai, e pelos incentivos da mãe ao seu desenvolvimento moral e intelectual. Alexandre sobiu ao trono em Fevereiro de 1855, em plena Guerra da Crimeia. A derrota russa nessa guerra provocou entre a elite militar um enorme desejo de mudança; a este desejo o novo Czar respondeu com uma série de reformas destinadas a modernizar o país e a colocá-lo entre os mais avançados do mundo.
Foi também criado um sistema judicial comparável aos ocidentais; as reformas administrativas do estado levaram à criação de assembleias eleitas a nível local; os poderes dessas assembleias permitiram algumas melhorias no bem-estar social (educação, cuidados básicos de higiene e saúde e redução do analfabetismo). A reestruturação do exército em 1874 introduziu o recrutamento obrigatório, fazendo com que os jovens de todas as classes sociais prestassem serviço militar.
Alguns prisioneiros políticos foram libertados e foi permitido o regresso de exilados na Sibéria; foram também atenuadas as perseguições às minorias étnicas e religiosas do Império, e aboliram-se os castigos corporais. Como consequência destas tímidas reformas políticas, na Polónia surgiram manifestações nacionalistas. Mas Alexandre II não era propriamente um liberal. Continuou a reger-se por métodos autocráticos, convencido que seu poder tinha origem divina; a própria Rússia não parecia estar preparada para um governo constitucional ou representativo. Após escapar a um atentado em 1866, Alexandre II tomou medidas repressivas. Em 1877, entra em guerra com o Império Otomano (que já estava em guerra com a Sérvia); após uma série de derrotas iniciais, o exército russo acaba por triunfar e alcançar o mar de Marmara. Como consequência dessa guerra, a Bulgária separa-se do jugo Otomano e torna-se independente[1].
Em 1879, o ressurgimento do terrorismo revolucionário foca-se na pessoa do próprio Czar; Alexandre II foi alvo de vários atentados e respondeu com novas medidas ainda mais repressivas. Em 13 de Março de 1881, quando, após muitas hesitações, decidiu proclamar uma nova constituição (que conciliava algumas opiniões politicamente moderadas), foi assassinado num atentado à bomba.
Alguns historiadores descrevem Alexandre II simultaneamente como déspota e autor da modernização da Rússia no séc. XIX (apesar de nem todas as suas reformas terem sido bem sucedidas). Foi ele que abriu as portas para o declínio do imperialismo russo na Ásia: a venda do Alasca aos EUA (1867) foi "compensada" pela aquisição de territórios na China, pela fundação de Vladivostok como capital do extremo oriente (1860), pela subjugação definitiva do Cáucaso (1860’s) e pela conquista da Ásia Central (1870’s).
Os Bahá'ís e a Rússia
A Pérsia do século XIX, vivia sobre pressão britânica e russa. Já aqui referi como uma série de eventos que rodearam o surgimento da religião Babí não passou despercebido aos representantes diplomáticos russos e britânicos. Alguns crentes chegaram a refugiar-se na Rússia quando as perseguições se acentuavam na Pérsia; foi também na Rússia, na cidade de Isqabad[2], que se construiu o primeiro templo baha'i.
O Templo Bahá'í de Isqabad, na Rússia
No entanto, Bahá'u'lláh preferiu ficar em Teerão. Nos meses que se seguiram, Ele foi encarcerado na tristemente célebre Syha-Chal (em português, "o fosso escuro"). A atitude do embaixador russo foi recordada durante muito tempo, como um acto de generosidade para com o Fundador da religião baha’i.
A EPÍSTOLA DE BAHÁ'U'LLÁH
O Czar Alexandre II foi um dos foi um dos monarcas a quem Bahá'u'lláh dirigiu uma epístola. Essa missiva, em língua árabe, foi revelada durante o exílio em ‘Akká; o tom dessa epístola é semelhante de outras epístolas reveladas para outros reis e governantes do Seu tempo[3]. No texto Bahá'u'lláh anuncia abertamente a Sua condição e missão de Profeta, identifica-Se como o Pai Celestial e apela ao monarca para que aceite a nova Causa Divina.
Alguns excertos dessa epístola:
Nunca houve resposta do Czar.Ó Czar da Rússia! Dá ouvidos à voz de Deus, o Rei, o Santíssimo, e volve-te para o Paraíso, Lugar onde habita Aquele que, entre a Assembleia no Alto, possui os mais excelsos títulos e que, no reino da criação, é chamado pelo Nome de Deus, o Esplendoroso, o Todo-Glorioso. Acautela-te para que o teu desejo não te impeça de te volveres para a face do teu Senhor, o Compassivo, o Mais Misericordioso. Nós, em verdade, ouvimos aquilo que suplicaste ao teu Senhor enquanto comungavas secretamente com Ele. Por conseguinte, as brisas da Minha misericórdia agitaram-se e o mar da Minha mercê encapelou-se, e Nós respondemo-te, em verdade. O teu Senhor, verdadeiramente, é o Omnisciente, o Sapientíssimo. Enquanto Eu estava acorrentado e algemado na prisão, um dos teus ministros estendeu-Me o seu auxílio. Por esse motivo, Deus ordenou-te uma posição que o conhecimento de pessoa alguma pode compreender, salvo o Seu conhecimento. Guarda-te de desprezar essa posição sublime...
Acautela-te para que a tua soberania não te prive Daquele que é o Soberano Supremo. Em verdade, Ele veio com o Seu Reino, e todos os átomos clamam em voz alta: "Eis! O Senhor veio na Sua grande majestade!" Aquele que é o Pai já veio, e o Filho[4], no vale santo, exclama: "Eis-me, eis-me, ó Senhor meu Deus!" enquanto Sinai circula ao redor da Casa e a Sarça Ardente clama: "Veio o Todo-Generoso, montado sobre as nuvens! Bem-aventurado quem Dele se aproximar, e ai dos que estão afastados".[5]
Levanta-te entre os homens em nome desta Causa irresistível e convoca, então, as nações a Deus, o Excelso, o Grande. Não sejas dos que invocaram Deus por um dos Seus Nomes mas que, ao aparecer Aquele que é Objecto de todos os nomes, O negaram e Dele se afastaram, e, por fim, decretaram a Sua condenação, com injustiça manifesta. Considera e recorda os dias em que apareceu o Espírito de Deus[6], e Herodes O condenou. Deus, porém, ajudou-O com as hostes do invisível, protegeu-O com a verdade, e mandou-O para outra terra, segundo a Sua promessa. Ele, em verdade, ordena o que Lhe apraz. O teu senhor preserva, verdadeiramente, a quem Ele deseja, quer se ache no meio dos mares, na garganta da serpente ou debaixo da espada do opressor...[7]
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NOTAS
[1] - A guerra Russo-Otomana é descrita por Eça de Queirós nas Cartas de Inglaterra e Crónicas de Londres. Eça manifestava um enorme desprezo político pelo Czar e pelo Sultão e não escondia a sua simpatia pelo povo russo.
[2] - A cidade de Isqabad pertence hoje ao Turquemenistão. O templo em causa foi confiscado após a revolução soviética e posteriormente destruído por um terramoto nos anos 30.
[3] - Ver Epístolas a Napoleão III, à Rainha Vitória, ao Kaiser Guilherme I, ao Imperador Francisco José e ao Papa Pio IX.
[4] - Jesus
[5] – Note-se as imagens utilizadas por Bahá'u'lláh para mostrar que Ele é o Prometido de todas as religiões.
[6] - Jesus
[7] - O texto completo desta epístola encontra-se na Baha'i Reference Library.
domingo, 21 de novembro de 2004
O Imperador Francisco José
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Francisco José[1] nasceu em 18 de Agosto de 1830, Schloss Schönbrunn, perto de Viena. Era o filho mais velho do Arquiduque Francisco Carlos e sobrinho do Imperador austríaco, Ferdinando I. O seu tio abdicou durante a revolução de 1848, e o seu pai renunciou ao seu direito ao trono; Francisco José era o seguinte na linha de sucessão; tinha apenas dezoito anos. Com a ajuda do Império Russo, ele e o seu primeiro ministro, o príncipe Felix zu Schwarzenberg, restauraram a ordem no império e restabeleceram o domínio austríaco na Confederação Germânica.
Em 1854, Francisco José casou com Isabel (conhecida por Sissi), filha do duque Maximiliano da Baviera, de quem teria quatro descendentes; um rapaz e três raparigas.A sua incapacidade para auxiliar a Rússia durante a Guerra da Crimeia (1853-1856) degradaram irremediavelmente as suas relações com o Império Russo. Naquela que foi chamada a Guerra Italiana de 1859, foi derrotado por franceses (liderados por Napoleão III) e italianos (liderados por Victor Emanuel); o tratado de paz assinado em Villafranca di Verona, retira aos Austríacos o domínio sobre a Lombardia. Na guerra com a Prússia, em 1866, perde Veneza para os Italianos; esta derrota provocou o seu enfraquecimento político no seio da Confederação Germânica e a consequente ascensão prussiana. Com o passar dos anos, o Império Austro-Hungaro foi-se tornando cada vez mais subserviente ao vizinho Império Alemão.
Na mesma época, Francisco José começou a negociar as exigências autonómicas da Hungria. Em 1866, a Transilvânia juntou-se à Hungria, e no ano seguinte a Áustria e a Hungria chegaram a acordo sobre a criação de uma monarquia dual, sob a qual os dois países eram parceiros iguais. Assim, e após 1867, a Hungria tornou-se completamente independente nos seus assuntos internos, mas partilhava uma política externa comum à Áustria. Também nesse ano, Francisco José foi coroado Rei da Hungria.
Francisco José planeou conceder alguma autonomia aos povos eslavos do Império, mas as elites que governavam o Império opuseram-se ao plano; como consequência, a insatisfação começou a crescer entre Checos e Sérvios; simultaneamente intensificaram-se as fricções com a Rússia (que se apresentava com a grande defensora dos povos eslavos). Em 1908, o Império Austro-Hungaro anexou a Bósnia, facto que gerou uma enorme crise política e quase provocou uma guerra europeia. A crise foi resolvida, mas o ressentimento Sérvio aumentou.Os últimos anos da vida de Francisco José foram marcados por várias tragédias familiares. O seu irmão Maximiliano foi executado no México em 1867, por revolucionários republicanos. Em 1889, o seu único filho e herdeiro, o Arquiduque Rudolfo, suicidou-se por motivos passionais; em 1898, a sua esposa foi assassinada em Genebra, por um anarquista italiano. Em 1914, o seu sobrinho, e sucessor, Francisco Ferdinando foi assassinado por um nacionalista sérvio. Este assassinato precipita uma crise entre os Impérios Austro-Hungaro e Alemão, por um lado, e a Sérvia e o Império Russo por outro; essa crise degenerou na Primeira Guerra Mundial.
Francisco José faleceu no dia 21 de Novembro de 1916, em Schloss Schönbrunn. Não assistiu à derrota e extinção do seu Império [2].
A Epistola de Bahá'u'lláh
Como escrevi no início, o imperador Francisco José seria um dos destinatários das epístolas de Bahá'u'lláh dirigidas a reis e governantes do Seu tempo. O embaixador austríaco em Constantinopla tinha conhecimento da situação de Bahá'u'lláh e dos "exilados persas", e tinha tomado várias iniciativas para minimizar o Seu sofrimento. É de admitir que tivesse informado o governo austro-hungaro da situação de Bahá'u'lláh. O Imperador Francisco José visitou Jerusalém em 1869, na época em que Bahá'u'lláh se encontrava detido em 'Akká. No entanto, não tomou qualquer iniciativa junto das autoridades otomanas para saber da situação de Bahá'u'lláh, Sua família e companheiros.
O texto da epístola de Bahá'u'lláh integra o Kitab-i-Aqdas, o Livro mais importante das Escrituras Bahá'ís.
Ó IMPERADOR DA ÁUSTRIA ! Aquele que é o Amanhecer da Luz de Deus residia na prisão de Akká quando te dirigiste em visita à Mesquita de Aqsá (Jerusalém)[3]. Passaste por Ele, não indagaste por Ele; Ele, cuja Presença exalta toda a casa, e para quem o mais majestoso portão se descerra. Nós, em verdade fizemos dela (Jerusalém) um lugar para o qual o mundo deve voltar, a fim de Me recordar, e tu, no entanto, rejeitaste Aquele que é o objecto dessa recordação, quando Ele apareceu com o Reino de Deus, teu Senhor e Senhor dos Mundos. Temos estado contigo em todos os tempos e encontramo-te preso ao Ramo sem atenderes à Raiz. O teu senhor, em verdade, é testemunha do que digo. Lamentamos ver como te volvias ao redor do Nosso Nome, continuavas inconsciente de Nós, embora Nós estivéssemos ante a tua face. Abre os teus olhos para que possas contemplar esta Visão gloriosa e reconhecer Aquele a quem invocas durante o dia e noite, e contemplar a Luz que brilha acima deste horizonte luminoso.[4]-----------------------
NOTAS
[1] - Sobre o imperador Francisco José, ver também uma biografia em Francis Joseph I (1848-1916) e o livro Twilight of the Habsburgs: The Life and Times of Emperor Francis Joseph .
[2] - Shoghi Effendi refere-se ao Imperador Francisco José e aos Habsburgos: "The House of Hapsburg, in which the Imperial Title had remained practically hereditary for almost five centuries, was, ever since those words were uttered, being increasingly menaced by the forces of internal disintegration, and was sowing the seeds of an external conflict, to both of which it ultimately succumbed. Francis Joseph, Emperor of Austria, King of Hungary, a reactionary ruler, reestablished old abuses, ignored the rights of nationalities, and restored that bureaucratic centralization that proved in the end so injurious to his empire." (The Promised Day is Come, p. 58)
[3] - Mesquita de Al-Aqsa, significa “A Mesquita Mais Distante” é referida no Alcorão (17:1) e identificada com o Monte do Templo em Jerusalém.
[4] - The Proclamation of Bahá'u'lláh, pag. 40
sexta-feira, 12 de novembro de 2004
Nascimento de Bahá'u'lláh
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Ao nascer do sol do dia 12 de Novembro de 1817, nascia em Teerão, mais um filho de Mirzá 'Abbás (também conhecido como Mirzá Buzurg) e da sua segunda esposa Khadijih Khanum. A criança nasceu numa casa grande, perto do Porta de Shimran, na zona oriental da cidade; era lá que Mirzá Buzurg passava o inverno juntamente com a família. Em casa todos se regozijaram com aquele nascimento; o parto decorrera dentro da normalidade possível, e a mãe estava de boa saúde. Os pais, que já tinham uma filha e um filho, deram a esta terceira criança, o nome de Husayn 'Alí. Para a história ficaria conhecido como Bahá'u'lláh.
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| Teerão, a porta Meidan Machke |
O pequeno Husayn 'Alí era diferentes dos restantes irmãos; era tranquilo, sossegado, não chorava, nem fazia birras. Após as primeiras aulas com professores particulares começou a constar que aquela criança não necessitava de professores; respondia a questões que eram domínio dos homens que estudavam teologia, filosofia e lei religiosa. O pai, que pouca atenção prestava aos filhos, não podia deixar de notar o contraste; a sua admiração por aquele filho foi crescendo. Conta-se que um dia, quando Husayn 'Alí tinha sete anos, os pais observaram-No a caminhar e a mãe comentou que Ele era um pouco baixo. Mirza Buzurg respondeu: "Isso não importa. Não viste como Ele é inteligente e a mente maravilhosa que Ele tem? E que percepção! É como uma chama de fogo. É tão novo e já é superior a homens adultos."
A esta capacidade intelectual juntavam-se qualidades pessoais que não passavam despercebidas a quem O conhecia. Delicadeza, eloquência, humildade, paciência, generosidade e sentido de humor são as mais referidas. Várias actividades filantrópicas valeram-lhe o título de "Pai dos Pobres" devido à Sua extraordinária generosidade e atenção para com os carenciados. Parecia que a riqueza tinha pouca importância para Ele, apesar de ter estado sempre rodeado por esta. As preocupações espirituais eram o centro da Sua vida.
UM SONHO
Quando Husayn 'Alí tinha cinco ou seis anos, teve um sonho que contou ao Seu pai. No sonho, Ele estava num jardim quando pássaros enormes O atacaram por todos os lados; mas nenhum O magoou. Depois foi até ao mar, onde foi atacado por pássaros e por peixes, mas mais uma vez não O conseguiram magoar.
Intrigado com o sonho do filho, Mirzá Buzurg mandou chamar um homem que dizia ser intérprete de sonhos; este disse-lhe que o mar representava todo o mundo, que os pássaros e os peixes representavam todos os povos do mundo que atacariam o seu filho, pois Ele proclamaria algo muito importante para toda a humanidade. Mas todos os povos do mundo, não Lhe conseguiriam fazer mal; e Ele seria vitorioso sobre todos.
SABEDORIA
Testemunhos da sabedoria e espiritualidade do jovem Husayn Alí também ficaram registados. Conta-se que Ele sabia resolver problemas como ninguém e que o Seu profundo conhecimento do Alcorão e das Hadiths (tradições islâmicas) surpreendiam muitos homens instruídos.
Um sábio famoso, Shaykh Muhammad-Taqí, pediu uma vez a uma centena de alunos que lhe explicassem o significado de uma certa Hadith. Segundo essa tradição islâmica, "Fátima é a melhor das mulheres neste mundo, com excepção da filha de Maria". Mas Maria não teve nenhuma filha; o que significava esta tradição?
Bahá'u'lláh respondeu que a afirmação inicial afirma a impossibilidade da alternativa, e portanto não existia outra mulher comparável a Fátima. Era o mesmo que dizer que um certo monarca é o maior dos reis deste mundo, com excepção daquele que desceu do céu. Como nenhum monarca desceu do céu, está-se a afirmar o carácter único do monarca.
O Shaykh ficou silencioso durante uns momentos. Depois repreendeu os seus alunos: "Instrui-vos durante vários anos e agora desiludiram-me. Vejo que vos falta compreensão, enquanto que este jovem sem formação tem uma explicação brilhante para o problema que vos apresentei".
O RESPEITO PELOS MENSAGEIROS DE DEUS
A única coisa que incomodava Bahá'u'lláh profundamente eram faltas de respeito pelos Mensageiros de Deus; mas mesmo nessas situações, advertia o Seu interlocutor com calma e gentileza.
Numa ocasião, realizava-se uma reunião com várias pessoas, em que estavam Bahá'u'lláh e um conhecido sábio sufi, Nazar-'Ali, de Qazvin; este último falou muito, enaltecendo a condição espiritual que um ser humano pode atingir. E referindo-se a si próprio, o sábio sufi declarou: "Sou tão desprendido que se o meu servo me dissesse que Jesus Cristo estava à minha porta, à minha procura, eu não mostraria qualquer desejo em vê-Lo". A maioria dos presentes ficou em silencio; alguns murmuraram admiração pelas palavras do sábio.
Bahá'u'lláh sentiu nas palavras uma enorme falta de respeito por um Mensageiro de Deus. Perguntou-lhe: "És uma pessoa muito próximo do nosso soberano, o Xá Muhammad, e ele aprecia muito a tua sabedoria. Mas se o chefe da prisão viesse bater à tua porta, acompanhado por dez homens e te dissesse que o monarca queria falar contigo, ficarias calmo ou perturbado?"[1]
Nazar-'Ali pensou um pouco e respondeu: "Na verdade, ficaria muito ansioso".
"Nesse caso, também não deves proferir essas afirmações", retorquiu Bahá'u'lláh.
MATURIDADE
Em Outubro de 1835, Bahá'u'lláh, já tinha quase 18 anos, quando casou com Asiyih Khanum, filha de uma outra família da nobreza persa de Yalrud (Mazindaran). Deste casamento nasceram vários filhos que ficaram conhecidos na história da religião bahá'í: 'Abdu'l-Bahá, Mirzá Mihdhi e Bahiyyih Khanum.
Em Agosto de 1844, Mullá Husayn, o primeiro discípulo do Báb, viajou até Teerão. O Báb pedira-lhe que levasse um documento à capital; não lhe disse a quem deveria entregar o documento. Adiantou apenas que "encontra-se oculto um segredo nessa cidade" e que Mullá Husayn encontraria a pessoa que deveria receber o documento.
Em Teerão teve conhecimento da existência do Husayn 'Ali, do Seu carácter e modo de vida. Compreendeu que era Ele o destinatário daquele documento. Dirigiu-se à casa junto da Porta de Shimran e encontrou-se com Mirzá Musá, um dos irmãos de Bahá'u'lláh. Entregou-lhe o documento com a recomendação que o fizesse chegar às mãos de Bahá'u'lláh.
Quando Bahá'u'lláh recebeu o documento das mãos do Seu irmão, abriu e leu-o; alguns dos excertos foi lendo em voz alta. Quando terminou voltou-se par ao irmão e perguntou: "Musá, que dizes disto? Em verdade te digo, quem acredita no Alcorão e reconhece a sua origem divina, mas hesita por um momento que seja em admitir que estas palavras extraordinárias estão dotadas do mesmo poder regenerador, essa pessoa errou no seu juízo e afastou-se do caminho da justiça". Com estas palavras, Bahá'u'lláh declarava a Sua adesão à Mensagem do Báb. A partir desse momento ia dedicar todo o Seu tempo e energia à divulgação daquela Causa. Era o início do fim da Sua vida tranquila e privilegiada.
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NOTAS
[1] - Palavras atribuídas a Bahá'u'lláh



























