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sábado, 6 de abril de 2019

Terá Darwin descoberto a Divindade?

Por Robert Atkinson.


A maioria das pessoas recorda o famoso cientista Charles Darwin pela sua teoria da “sobrevivência do mais apto”.

Essa perspectiva da evolução descreve as criaturas no mundo natural – incluindo os humanos – em competição uns contra os outros, num cenário de oposição inerente a todas as criaturas. Há quem diga que a sua teoria lançou uma visão do mundo caracterizado pela separação e competição.

No entanto, se olharmos cuidadosamente para os seus escritos, descobrimos o outro lado da história - algo desconhecido, ignorado e mal-entendido. A visão do mundo marcado pela separação já existia muitos séculos antes de Darwin e as muitas tentativas dos seus seguidores para promover a sua teoria parecem agora ser uma derradeira tentativa para defender essa maneira antiquada de olhar o mundo. Além disso, a teoria completa de Darwin, quando examinada detalhadamente, ajusta-se mais aos princípios espirituais emergentes no seu tempo do que fomos levados a acreditar.

Durante a vida de Darwin, teve início, em 1852, um avanço na consciência da humanidade com a revelação de Bahá’u’lláh, o fundador da Fé Bahá’í. Os ensinamentos Bahá’ís, destinados a ultrapassar normas existentes de construção da nações e nacionalismo, baseiam-se na unicidade da humanidade - o princípio espiritual fundamental que caracteriza o nosso tempo:
A Terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos… Sois frutos de uma só árvore e folhas de um só ramo… Tão poderosa é a luz da unidade que pode iluminar a terra inteira. (Baha’u’llah, Gleanings from the Writings of Baha’u’llah, CXXXII)
Os ensinamentos Bahá’ís apresentam uma visão totalmente desenvolvida da evolução, na qual todas as coisas estão interligadas, dependem do mesmo Criador e, portanto, seguem as mesmas leis e princípios em todos os domínios - incluindo a evolução colectiva da humanidade, que passa por fases, tal como o indivíduo:
A realidade é uma só; e quando encontrada, unificará toda a humanidade… A realidade é o conhecimento de Deus… A realidade está subjacente a todos os grandes sistemas religiosos do mundo. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 372)

A ordem mundial apenas se pode basear na inabalável consciência da unicidade da humanidade… O reconhecimento desta verdade exige o abandono dos preconceitos - preconceitos de todos os tipos – raça, classe, cor, credo, nação, sexo, grau de civilização material, e tudo o que permita que as pessoas se considerem superiores a outras. (The Universal House of Justice, The Promise of World Peace, p. 10)
Os ensinamentos Bahá'ís afirmam que a evolução tem um objectivo, é progressiva e conduz a níveis de cooperação cada vez maiores. Surpreendentemente, a visão de Darwin sobre a evolução, quando considerada na sua totalidade, apresenta um paralelismo perfeito com isto. Darwin fez estudos para ser clérigo; depois, numa verdadeira mudança de paradigma, partiu em viagem no Beagle para as zonas mais remotas do mundo; e também reconheceu que, coexistindo com a sua teoria da “sobrevivência do mais apto”, existe a lei natural da cooperação.

Uma leitura mais pormenorizada sobre as ideias de Darwin revela uma ligação intrigante entre a sua teoria da evolução e os ensinamentos Bahá’ís. No livro The Descent of Man [1871] (traduzido em Portugal como A Origem do Homem e no Brasil como A Descendência do Homem), Darwin escreveu sobre a evolução progressiva:
À medida que o homem progride, e pequenas tribos se unem em comunidades maiores, a simples razão diz ao indivíduo que deve alargar os seus instintos e simpatias sociais a todos os membros da mesma nação, mesmo que não os conheça pessoalmente. Quando se chega a este ponto, apenas existe uma barreira artificial que impede que as suas simpatias se alarguem aos homens de todas as nações e raças. (Charles Darwin, The Descent of Man, p. 83)
O que ele descreve aqui, será altruísmo colectivo ou a Regra de Ouro? Numa frase arrebatadora, Darwin leva a lei natural da cooperação do nível individual ao nível global. O próximo passo neste percurso evolutivo - que tem os seus altos e baixos - será outro princípio espiritual universal - a paz na terra - que é prometido por todas as tradições espirituais mundiais, mas também é visto como inevitável pelas escrituras Bahá’ís.

Será que quando os ensinamentos Bahá’ís estavam a ser revelados no mundo, Darwin, de alguma forma, recebeu estas energias espirituais e integrou-as nas suas ideias inovadoras sobre a evolução? Poderiam outros pensadores de vanguarda daquele tempo – como os transcendentalistas e, mais tarde, os defensores das teorias quânticas – ter feito a mesma coisa nas suas áreas pelo progresso da consciência da humanidade?

Um princípio espiritual essencial da Fé Bahá’í é que a ciência e a religião devem estar em harmonia – a razão e a fé são formas complementares (e necessárias) para compreender plenamente a natureza da realidade. O progresso de cada uma anda a par com a outra.

Nos nossos dias, ciência e religião parecem concordar com a ideia de evolução progressiva. Os ensinamentos Bahá’ís afirmam:
Todos os seres, sejam universais ou particulares, foram criados perfeitos e completos desde o início. O máximo que podemos dizer é que as suas perfeições apenas se tornaram gradualmente aparentes. A lei de Deus é uma; a evolução da existência é uma; a ordem divina é uma. Todos os seres, grandes ou pequenos, estão sujeitos a uma lei e uma ordem. Cada semente tem, desde o início, todas as perfeições da planta… Quando consideramos esta ordem universal, vemos que nenhuma coisa atinge a perfeição imediatamente após vir à existência, mas cresce e desenvolve-se gradualmente até atingir essa fase. (‘Abdu’l-Bahá, Some Answered Questions, newly revised edition, pp. 229-230)
Charles Darwin, no livro A Origem das Espécies (1859), apresenta outro conceito que o liga aos ensinamentos Bahá’ís, quando escreve: “Como a selecção natural trabalha unicamente para o bem de cada ser, todos os dons corporais e mentais tendem a progredir em direcção à perfeição.” (p.577)

Quando juntamos a toda a teoria da evolução de Darwin – baseada na ideia de que os nossos instintos sociais evoluem de “pequenas tribos” para “grandes comunidades”, para “todos os membros da mesma nação” e, por fim, “todas as nações e raças” – com a ideia de que a evolução progride para a perfeição, a sua visão geral alinha-se quase integralmente com o princípio de evolução espiritual através do desenvolvimento progressivo da ordem em direcção a uma harmonia crescente.

Também é interessante notar que antes de Charles Darwin, o conceito de evolução ainda não tinha surgido no discurso público. Agora reconhecemos que tudo evolui: a vida, a cultura, a civilização, a ciência, a tecnologia, as artes e até o próprio universo.

Compreender o que Darwin verdadeiramente disse – e pretendia – assim como a sua provável fonte de inspiração, é uma forma de entender que os saltos evolutivos da consciência humana acontecem numa escala mais ampla. De facto, os fundadores das religiões do passado também tiveram os seus Darwins, Emersons e Einsteins que preencheram o fosso entre ciência e religião enquanto faziam avançar o espírito da época através de uma perspectiva essencialmente secular.

É difícil negar que os fundadores das religiões mundiais - como Abraão, Krishna, Moisés, Zoroastro, Buda, Cristo, Maomé e, no nosso tempo, Bahá'u'lláh - tenham, cada um à sua maneira, transformado a vida espiritual dos povos do mundo, mudado o rumo da vida humana ao longo dos últimos milhares de anos e causado um salto de consciência em cada nova época espiritual iniciada por cada um deles.

Hoje, compreendemos melhor que existe uma lei universal governa tudo, que a realidade é uma só e que a evolução progressiva e a revelação progressiva são princípios paralelos de uma única realidade. Podemos ficar encorajados com a harmonia sobre verdades vitais, tais como o desenvolvimento evolutivo, que nos guiam para uma consciência da unicidade da humanidade.

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Texto original: Did Darwin Discover Divinity? (www.bahaiteachings.org)

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Robert Atkinson é doutorado em psicologia do desenvolvimento, professor na University of Southern Maine e autor de vários livros, nomeadamente, The Story Of Our Time: From Duality to Interconnectedness to Oneness, Mystic Journey: Getting to the Heart of Your Soul’s Story (2012), e Remembering 1969: Searching for the Eternal in Changing Times (2008).

sábado, 18 de agosto de 2018

Cientismo: Se não pode ser provado cientificamente, não existe?

Por David Langness.


Tenho um amigo que quando lhe perguntam qual é a sua religião, ele responde: “Acredito no cientismo”.

“O que é isso?” pergunta a maioria das pessoas.

E geralmente, dá a seguinte resposta: “É a crença de que nada é verdade a menos que possa ser provado cientificamente”.

Numa ocasião tivemos uma discussão sobre esta sua resposta tradicional.

Perguntei-lhe: “Consegues provar isso cientificamente?”

Ele pensou um pouco e acabou por admitir: “Não”.

O cientismo é provavelmente a religião prevalecente no mundo de hoje, especialmente entre as classes educadas na cultura ocidental; mas baseia-se num dogma irracional e contraditório. Defende que apenas podemos acreditar nas coisas palpáveis. Se podemos medir, quantificar ou observar uma coisa no mundo dos sentidos – afirma o crente no cientismo – isso significa que a coisa é verdadeira. Caso contrário, é falsa ou inexistente.

Este raciocínio lógico tem um problema grave – não consegue provar a premissa central do cientismo usando a ciência, razão ou empirismo. O seu ensinamento central – de que a ciência tem acesso a todas as verdades importantes da vida – nega a existência de qualquer coisa que não possamos observar no mundo físico.

Os filósofos do cientismo, que aceitam apenas e exclusivamente aquilo que se pode medir e avaliar, consideram a ciência e o método científico como a única forma aceitável para compreender toda a realidade. Os novos ateus – escritores como Sam Harris, Richard Dawkins, Christopher Hitchens e Daniel Dennett – geralmente aceitam a ideia de que Deus não pode ser provado cientificamente, e que tudo o que existe no universo físico pode ser explicado de forma científica. Os ensinamentos Bahá’ís definem este tipo de filósofos como materialistas:
Os filósofos do mundo estão divididos em duas categorias: os materialistas, que negam o espírito e a sua imortalidade, e os filósofos divinos, os sábios de Deus, os verdadeiros iluminados que acreditam no espírito e na sua continuidade. Os filósofos antigos ensinaram que o homem consistia apenas de elementos materiais que compunham a sua estrutura celular e que quando esta estrutura elementar se desintegrava, a vida extinguia-se. Defendiam que o homem é apenas um corpo, e que surgiu da composição elementar de órgãos e das suas funções, sentidos, poderes e atributos, e que estes desaparecem completamente com o corpo físico. Isto é praticamente a afirmação de todos os materialistas. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 239)
‘Abdu’l-Bahá ilustra a falácia desta ideia ao examinar a natureza dos seres humanos, e assinalando o facto inegável da nossa consciência humana provar que possuímos uma realidade superior e mais complexa do que a restante criação material:
O homem possui as emanações da consciência; ele tem percepção, imaginação e é capaz de descobrir os mistérios do universo. Todas as indústrias, invenções e recursos que rodeiam a nossa vida diária foram, em determinado momento, tesouros ocultos da natureza, mas descobriu-as todas e sujeitou-as aos seus propósitos. Segundo as leis da natureza deveriam ter permanecido latentes e ocultas; mas o homem, transcendendo estas leis, descobriu estes mistérios e trouxe-os do plano invisível para o reino do conhecido e do visível. Como é maravilhoso o espírito do homem! Um dos mistérios dos fenómenos naturais é a electricidade. O homem descobriu o seu poder ilimitado e usou-a para seu proveito… O homem compreendeu que o sol está imóvel enquanto a terra gira ao seu redor. O animal não pode fazer isto. O homem percebe que a miragem é uma ilusão. Isto está para lá do poder do animal. O animal apenas pode perceber através das impressões sensoriais e não pode perceber realidades intelectuais. O animal não pode conceber o poder do pensamento. Isto é um tema intelectual abstracto e não está limitado aos sentidos. O animal é incapaz de perceber que a terra é redonda. Em resumo, os fenómenos intelectuais abstractos são poderes humanos… O homem transcende a natureza, enquanto o mineral, o vegetal e o animar estão subordinados a ela. Isto apenas pode ser feito através do poder do espírito porque o espírito é a realidade. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 240)
As pessoas têm poderes, faculdades e virtudes que nenhuma outra criatura possui. Produzimos arte, construímos civilizações, criamos culturas, descobrimos verdades científicas que estavam ocultas, e percebemos o que existe para lá do imediato e do físico. E acima de tudo, a vasta maioria das pessoas acredita na existência de Deus, que cada um de nós tem uma alma imortal, e que o propósito da vida e a base da moralidade inclui conhecer Deus. Numa perspectiva Bahá’í, esta combinação de atributos e a sua expressão consistente ao longo de milhares de anos, demonstra de forma definitiva que os humanos possuem uma realidade espiritual que transcende as limitações físicas e palpáveis do mundo material:
Nos poderes físicos e dos sentidos, porém, o homem e o animal são parceiros. De facto, o animal é frequentemente superior ao homem na percepção dos sentidos. Por exemplo, a visão de alguns animais é extremamente precisa e a audição de outros é muito apurada. Considere-se o instinto de um cão: como é superior ao de um homem. Mas apesar do animal partilhar com o homem todas as virtudes e sentidos físicos, foi concedido ao homem um poder espiritual que os animais não possuem. Isto é uma prova de que existe algo no homem que esta acima a além do talento animal – uma faculdade e virtude inerente ao reino humano que está ausente nos reinos de existência inferior. Isto é o espírito do homem. Todas estas maravilhosas realizações humanas devem-se ao poder eficiente e avassalador do espírito do homem. Se o homem estivesse privado deste espírito, nenhuma destas realizações teria sido possível. Isto é evidente como o sol do meio-dia. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, pp. 241-242)

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Texto original: Scientism: If You Can’t Count It, Does It Count? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 28 de julho de 2018

A Longa Guerra - e a Trégua Recente - entre Ciência e Religião

Por David Langness.
…uma pessoa religiosa é devota no sentido de não ter nenhuma dúvida quanto ao significado e sublimidade daqueles objectivos e metas suprapessoais que não exigem nem admitem fundamentação racional. Eles existem com a mesma necessidade e vidência quanto ela própria. Nesse sentido, a religião é o antiquíssimo esforço da humanidade para alcançar uma consciência clara e completa desses valores e objectivos, e para reforçar e ampliar incessantemente o seu efeito. Se concebemos a religião e a ciência segundo estas definições, parece impossível um conflito entre elas. Pois a ciência pode apenas determinar o que é, mas não o que deve ser; fora do seu domínio, todos os tipos de juízos de valor continuam a ser necessários. A religião, por outro lado, lida somente com avaliações do pensamento e da acção humanas: não lhe é lícito falar de factos e das relações entre os factos. Segundo esta interpretação, os conhecidos conflitos ocorridos entre religião e ciência no passado devem ser todos atribuídos a uma má compreensão da situação em causa. (Albert Einstein)
Stephen Jay Gould
Esta citação do famoso físico resume claramente a trégua actual entre a ciência e a religião tradicional. Após uma guerra de vários séculos entre a religião tradicional e a ciência emergente, muitos cientistas e teólogos estabeleceram recentemente um tratado de paz. O filósofo e biólogo Stephen Jay Gould criou uma expressão para esta trégua: “magistérios não-interferentes” (NOMA: Non-Overlapping Magisteria). Gould lançou originalmente este teoria em 1997, num artigo na revista Natural History, e recebeu um apoio significativo de teólogos e cientistas.

Gould definiu “magistério” como “um domínio onde uma forma de ensino tem as ferramentas apropriadas para um discurso e uma explicação com sentido”. Em 1999, no seu livro Rocks of Ages, Science and Religion in the Fullness of Life, ele definiu os domínios separados da ciência e da religião da seguinte forma:
A ciência tenta documentar o carácter factual do mundo natural, e desenvolve teorias que coordenam e explicam estes factos. A religião, por seu lado, opera num campo igualmente importante, mas completamente diferente: os propósitos, os significados e os valores humanos - temas que a ciência dos factos pode elucidar mas nunca pode explicar
Muitas Academias Nacionais de Ciências concordaram com esta ideia, afirmando nas suas declarações oficiais que a religião e a ciência são independentes uma da outra e “baseiam-se em diferentes aspectos da experiência humana”.

Esta visão, que hoje é amplamente defendida, está provavelmente muito próximo do princípio Bahá’í de harmonia essencial e reciprocidade entre as duas esferas:
Podemos pensar na ciência como uma asa e na religião como outra; uma ave necessita de duas asas para voar; ter apenas uma seria inútil. Qualquer religião que contradiga a ciência ou que se lhe oponha, é apenas ignorância – pois a ignorância é o oposto do conhecimento.

A religião que consiste apenas em rituais e cerimónias de preconceitos não é verdadeira. Façamos os nossos maiores esforços para ser meios de unidade entre religião e ciência.

Aquilo que a inteligência do homem não consegue compreender, a religião não deve aceitar. Religião e ciência caminham lado a lado, e qualquer religião contrária à ciência não é verdadeira (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 130)
No entanto, os ensinamentos Bahá’ís levam este conceito mais longe do que esta trégua: não se limitam a ver ausência de conflito entre religião e ciência; também vêem uma forte interligação:
A religião e a ciência são duas asas com as quais a inteligência do homem pode subir às alturas, com as quais a alma humana pode progredir. Não é possível voar apenas com uma asa! Se um homem tentar voar apenas com a asa da religião cairá rapidamente no atoleiro da superstição, enquanto se tentar apenas com a asa da ciência não conseguirá qualquer progresso, mas cairá no lamaçal desesperante do materialismo. Todas as religiões do dia actual caíram em práticas supersticiosas, não tendo concordância com os verdadeiros princípios dos ensinamentos que representam, nem com as descobertas científicas da época. Muitos líderes religiosos acabaram por acreditar que a importância da religião reside essencialmente na adesão a um certo conjunto de dogmas, práticas de ritos e cerimónias! Aquelas almas que eles pretendem curar são igualmente ensinadas a acreditar e a aderir obstinadamente a formas exteriores e confundindo-os com a verdade interior.

Acontece que estes rituais e formas são diferentes nas várias igrejas e entre as diferentes seitas, e até se contradizem umas às outras; dão azo a discórdia, ódio e união. O resultado de toda esta contenda é a convicção de muitos homens cultos de que a religião e ciência são contraditórias, de que a religião não precisa dos poderes da reflexão, e que não deve de modo algum ser regulada pela ciência, e que devem necessariamente opor-se uma à outra. O resultado infeliz disto é que a ciência se afastou da religião, e que a religião se tornou cega, e segue de forma mais ou menos apática os preceitos de alguns professores religiosos, que insistem que os seus dogmas favoritos devem ser aceites mesmo se forem contrários à ciência. Isto é disparate, pois é evidente que a ciência é luz, e sendo assim, a chamada verdadeira religião não se opõe ao conhecimento. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, pp. 142-143)
Para os Bahá’ís, a verdade é só uma. Na perspectiva Bahá’í, a verdade científica e a verdade espiritual não operam apenas em áreas separadas - têm a mesma base, a mesma veracidade, e mesma substância:
Não existe contradição entre a verdadeira religião e a ciência. Quando a religião se opõe à ciência torna-se mera superstição; o contrário do conhecimento é a ignorância.

Como pode um homem acreditar num facto que a ciência provou ser impossível? Se ele acredita apesar da sua razão, é mais superstição do que fé. Os verdadeiros princípios de todas as religiões estão em conformidade com os ensinamentos da ciência.

A Unidade de Deus é lógica, e esta ideia não é antagónica às conclusões obtidas pelo estudo científico. (‘Abdu’l-Bahá, Paris Talks, p. 141)
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Texto original: The Long War - and the Recent Truce - Between Science and Religion (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 21 de julho de 2018

A Fé Bahá’í: uma Religião Científica?

Por David Langness.

Louvado seja Deus, pois este século é o século das ciências! Este ciclo é o ciclo da realidade! As mentes desenvolveram-se; os pensamentos assumiram uma visão mais ampla; os intelectos tornaram-se mais profundos; as emoções tornaram-se mais sensíveis; as invenções transformaram a face da terra, e esta era adquiriu uma capacidade gloriosa para a revelação majestosa da unicidade do mundo da humanidade. ('Abdu’l-Baha, Divine Philosophy, pAG. 162-163)
Vivemos, sem dúvida, na era da ciência.

Há apenas um grupo muito reduzido de pessoas na face da Terra que ainda vive em condições intocadas pela ciência moderna. A vasta maioria da população mundial, durante os últimos dois séculos, teve a sua vida revolucionada por descobertas científicas e progressos tecnológicos que hoje tomamos como garantidos.

As invenções científicas, tal como ‘Abdu’l-Bahá sugeriu há mais de cem anos atrás, “transformaram a face da terra”. A ciência tem tido um impacto profundo em todos nós, prolongando a esperança de vida, proporcionando a muitos de nós fontes de alimentação relativamente baratas e seguras, erradicando e controlando doenças mortais que costumavam flagelar a humanidade, e dando-nos a possibilidade de viajar, comunicar e criar amizades com praticamente todos os grupos de pessoas no planeta.

É claro que os avanços da ciência contemporânea também trouxeram a massificação e modernização da guerra e do genocídio, a proliferação das armas nucleares e a vasta poluição da biosfera da Terra.

Podemos então perguntar: como é que as pessoas que se interessam pelas realidades espirituais da vida se relacionam com a ciência? Devemos considerá-la um grande benefício ou uma grande ameaça? Se acreditamos na ciência, será que isso exclui Deus? Como devemos tomar decisões - devemos dar prioridade à religião ou à ciência? A ciência representa uma esperança para as gerações futuras ou será um perigo para o nosso futuro?

Os ensinamentos Bahá’ís dizem que a ciência e a religião são “as duas forças mais poderosas na vida humana”. De facto, a Fé Bahá’í tem uma relação única com a ciência – em vez de se opor, de a ignorar ou de negar o seu impacto profundo, o princípio Bahá’í de harmonia e concordância fundamental entre ciência e religião apresenta uma visão completamente nova de como o progresso científico e a religião progressiva podem potencialmente coexistir e cooperar.

Ao contrário de qualquer outra religião, os ensinamentos Bahá’ís afirmam que a própria religião deve estar de acordo com os ditames da ciência e da razão:
Até agora dizia-se que todas as religiões eram constituídas por doutrinas que tinham de ser aceites, mesmo que parecessem contrárias à ciência. Graças a Deus, neste novo ciclo o conselho de Bahá’u’lláh é que na procura da verdade o homem deve avaliar questões religiosas na balança da ciência e da razão. Deus deu-nos mentes racionais com este propósito: para que compreendamos todas as coisas, para encontrar a verdade. Se alguém renuncia à razão, o que lhe resta? Os textos sagrados? Como podemos compreender os mandamentos de Deus e que aplicação lhes podemos dar, sem o equilíbrio da razão?

Os sacerdotes estão apegados a antigas superstições e quando estas não estão de acordo com a ciência, eles denunciam a ciência. Quando a religião é sustentada pela ciência e pela razão, podemos acreditar com certeza e agir com convicção, pois a faculdade racional é a maior força no mundo. Através dela, criaram-se indústrias, o passado e o presente revelam-se e as realidades ocultas são trazidas à luz. (‘Abdu’l-Bahá, Divine Philosophy, pags. 102-103)
Por este motivo, há muitos observadores e comentadores que chamam “religião científica” à Fé Bahá’í. Essa expressão salienta o princípio básico de concordância essência entre ciência e religião, e também caracteriza a atitude da Comunidade Bahá’í face às questões modernas sobre ciência, tecnologia, medicina e ética; além disso, explica porque é que tantos Bahá’ís optam por cursos educativos científicos e técnicos e se tornam cientistas, engenheiros, médicos e investigadores; e por último, descreve de forma genérica a atitude dos Bahá’ís para com as explicações lógicas e racionais sobre a existência de uma realidade espiritual.

Nesta série de artigos sobre ciência e religião, vamos analisar detalhadamente alguns assuntos específicos: como é que os Bahá’ís encaram as controversas questões modernas que a ciência coloca? E a afirmação de ateus e agnósticos de que a ciência tornou obsoleta a crença em Deus? Porque é que a comunidade científica não aproveitou plenamente as contribuições das mulheres nos campos científicos? Como é que os Bahá’ís vêem a pseudociência? Como podem os ensinamentos espirituais da Fé Bahá’í ajudar a aliviar os estragos feitos pela perspectiva científica mundialmente dominante que vê os humanos como um exército que conquista, domina, mecaniza e industrializa o mundo natural?

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Texto original: The Baha’i Faith: The Scientific Religion? (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA.

sábado, 30 de junho de 2018

'Abdu’l-Bahá, Darwin, e a Evolução de Todas as Coisas

Por Robert Sockett.


O livro de Charles Darwin A Origem das Espécies foi publicado em 24 de Novembro de 1859 e chegou aos leitores americanos dois meses mais tarde. As teorias da evolução tinham começado a ser divulgadas nas décadas anteriores à publicação do livro, incluindo aquelas que sugeriam que as espécies se podiam modificar ao longo do tempo. Estas teorias eram controversas e receberam a oposição da comunidade científica, pois eram contrárias à noção ortodoxa de uma hierarquia de criaturas vivendo num sistema imutável criado por Deus.

Charles Darwin, em 1859
O livro de Darwin não só defendia a evolução, mas também apresentava uma apelativa teoria sobre como funcionava. Explicava que na luta pela vida nos sistemas naturais, as populações mais adaptadas ao ambiente têm maior probabilidade de sobreviver e, consequentemente, de se reproduzir. Estas populações deixam características hereditárias para as futuras gerações - um processo a que Darwin chamou “selecção natural” - e ao longo do tempo, o acumular de variações resultantes provoca a formação de novas espécies.

O livro gerou uma vasta discussão em círculos científicos, filosóficos e religiosos. Teólogos liberais receberam com agrado as suas ideias, afirmando que as ideias religiosas não podem permanecer estagnadas. Outros declararam que a ideia era neutra do ponto de vista metafísico. Mas gradualmente, as suas implicações tornaram-se inegáveis. Se a ciência podia explicar a criação de formas de vida cada vez mais complexas em termos puramente materiais, então, talvez não existisse uma razão indiscutível para acreditar num Criador.

Na tarde de 10 de Outubro de 1912, ‘Abdu’l-Bahá falou no Open Forum em São Francisco - um grupo dedicado à discussão de ideias económicas e filosóficas - e abordou o tema da evolução. Ele defendeu a evolução, embora com diferenças críticas em relação à mecânica física da teoria de Darwin, e apresentou um conjunto totalmente diferente de conclusões metafísicas.

A primeira página do edição britânica
do livro "A Origem das Espécies"
(1859)
O segundo livro de Darwin sobre a teoria da evolução, The Descent of Man (traduzido em Portugal como “A Origem do Homem” e no Brasil como "A Descendência do Homem") foi publicado em 1871, e traça analogias biológicas com babuínos, cães e “selvagens” para mostrar provas de que os humanos descendem dos animais. Em São Francisco, em 10 de Outubro de 1912 ‘Abdu’l-Bahá elaborou uma definição mais precisa sobre aquilo que diferencia humanos dos animais. Entre estes aspectos críticos, disse Ele, encontram-se a razão, o pensamento abstracto e o progresso científico. O animal, afirmou, está limitado pelos seus cinco sentidos e vive inteiramente dentro dos ditames do instinto natural. “[Todos] os fenómenos”, declarou, “estão cativos da natureza.

Mas o ser humano é a excepção a esta regra. “Ao desafiar as leis da natureza,” argumentou ‘Abdu’l-Bahá, “ele pode voar no ar, ou navegar pelos mares num barco, ou explorar as profundezas num submarino. Ele pode colocar numa lâmpada incandescente uma força tremenda e poderosa, e transformá-la para uso próprio.” ‘Abdu’l-Bahá apresentou outros exemplos de invenções notáveis da época, nomeadamente, o fonógrafo e o telefone.

Em resumo”, afirmou, “todas artes e ciências, invenções e descobertas que agora o homem usufruiu eram outrora mistérios da natureza e deveriam ter permanecido ocultos ou latentes. Mas através das faculdades ideais do homem, as leis da natureza foram desafiadas e os segredos da natureza foram trazidos do invisível para o plano do visível.”

No entanto, apesar destas características distintivas, ‘Abdu’l-Bahá notava que os filósofos materialistas “esforçam-se por provar com a anatomia humana que o homem originou do animal.” ‘Abdu’l-Bahá concordava que o homem tinha sofrido alterações biológicas ao longo do tempo. “Suponhamos”, disse ele, “que a anatomia humana era primordialmente diferente da forma actual… que numa época foi semelhante a um peixe, posteriormente um invertebrado e finalmente humano.” No entanto, ao longo desta progressão, defendeu Ele, “o desenvolvimento do homem foi sempre do tipo humano e do tipo biológico.” [sombreado adicionado]

Os debates sobre a Evolução foram uma fonte de
inspiração para os caricaturistas americanos.
Em 1904, na Palestina, ‘Abdu’l-Bahá, respondendo a Laura Clifford Barney, descreveu como se desenvolvem as entidades complexas. ”[O] crescimento e desenvolvimento de todos os seres é gradual,” disse-lhe, “esta é a organização divina universal e o sistema natural.

A palestra de ‘Abdu’l-Bahá no Open Forum foi uma das mais longas e complicadas que Ele deu quando esteve na América. Mas a sua lógica subjacente assenta em dois princípios. Primeiro, apesar dos seres humanos se terem desenvolvido biologicamente ao longo de muitas fases da evolução, sempre estiveram destinados a serem humanos, desenvolvendo o seu potencial latente ao longo do tempo. Segundo, as qualidades que nos distinguem – razão, pensamento abstracto, progresso científico, e outras coisas - não são apenas pequenos diferenciadores, mas antes características que nos separam essencialmente dos animais.

Um elemento adicional na abordagem de ‘Abdu’l-Bahá à teoria da evolução de Darwin e que não foi abordado na sua palestra em São Francisco, foi documentado pela Sra Barney durante a sua estadia na Palestina, e publicado em 1908 no livro Respostas a Algumas Perguntas. ‘Abdu’l-Bahá discordava da noção de Darwin de que a evolução era “cega”, não tendo sentido ou propósito. Pelo contrário, Ele argumentou que o esquema evolutivo era parte do plano divino. O aparecimento dos humanos, afirmou, era o culminar de um processo. De facto, a criação seria imperfeita e incompleta sem os humanos.

Durante o "Julgamento Scopes", T.T. Marin,
Cristão evangélico e militante anti-evolução
alugou uma livraria para divulgar as suas ideias.
Treze anos após a palestra de ‘Abdu’l-Bahá no Open Forum, o debate sobre a evolução na América atingiu um clímax com o infame “Julgamento Scopes”. O Estado do Tennessee aprovou uma lei que proibia o ensino da evolução nas escolas estatais. A União Americana pelas Liberdades Civis financiou uma situação em que John Scopes, um professor do ensino secundário, concordou em violar a lei. Os Estados Unidos tinham a sua atenção fixada em duas figuras lendárias: William Jennings Bryan (três vezes candidato presidencial) que promovia a acusação e o famoso advogado Clarence Darrow que defendeu Scopes.

Quando o julgamento acabou, estava definida uma clara linha de separação: num dos lados, a ciência construiu trincheiras e uma fortaleza ao seu redor; do outro lado, os fundamentalistas religiosos agarravam-se firmemente a uma interpretação literal da história da criação na Bíblia. Quem defendia o diálogo ou um entendimento mais sofisticado do assunto, viu as suas opiniões cada vez menos ouvidas no espaço público.

[NOTA: as citações da palestra de ‘Abdu’l-Bahá no Open Forum usadas neste artigo foram recolhidas dos documentos de Ellen Cooper, nos arquivos Nacionais Bahá’ís dos Estados Unidos.]

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Texto original: Abdu’l-Baha, Darwin, and the Evolution of All Things (http://239days.com/)

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Robert Sockett é um escritor, produtor e director artísticos que vive em Toronto, (Canadá). É co-autor e produtor do site 239 Days in America, A Social Media Documentary, ed. Jonathan Menon and Robert Sockett, October 11, 2012, que documenta e descreve a visita de ‘Abdu’l-Bahá à América do Norte em 1912.

sábado, 30 de dezembro de 2017

A Evolução programou-nos para acreditar em Deus?



Será que a evolução programou os seres humanos para acreditar em Deus?

No debate Intelligence Squared, o físico Lawrence Krauss - que defendia a ideia de que a ciência refuta Deus - afirmou o seguinte:

Os seres humanos foram claramente programados pela evolução para atribuir intencionalidade ao mundo ao seu redor. Significado e o propósito foram infundidos em todos os eventos do dia-a-dia para dar sentido a um mundo perigoso, difícil e indiferente; e assim desenvolvemos rituais a propósito do sol, da lua, dos planetas, do vento, da terra, dos oceanos, em todas as sociedades. O desenvolvimento da nossa compreensão física afastou-nos lentamente desses muitos deuses... A ciência ensinou-nos que em vez de seres caprichosos, há uma ordem na natureza, e essa ordem não parece incluir uma divindade.

Como qualquer pessoa que já trabalhou com computadores sabe, a programação não é feita de forma aleatória - é um acto que exige um objectivo. Krauss e o ponto de vista ateísta que ele representa pedem-nos que acreditemos que um processo sem inteligência racional nem objectivo, de alguma forma, impregna estas qualidades numa criatura entre os milhões que existem e existiram no planeta. Ele apresenta essa ideia em termos passivos ("significado e o propósito foram infundidos"), de modo que parece não haver infusor activo, mas a razão e a lógica determinam que se o propósito fosse infundido, alguém ou alguma coisa deve ter feito a infusão inicial.

O facto dos seres humanos serem as únicas criaturas que atribuem um significado à vida não pode ser explicado apenas afirmando que fomos programados sem um programador, ou que aprendemos a atribuir significados sem que alguém nos tenha ensinado.

‘Abdu’l-Bahá referiu sobre este mesmo assunto durante um encontro com um grupo de pensadores livres em São Francisco, em 1912:

Se se afirma que a realidade intelectual do homem pertence ao mundo da natureza - que é uma parte do todo - perguntamos se é possível que a parte contenha virtudes que o todo não possui? Por exemplo, será possível que a gota contenha virtudes das quais todo o corpo do mar está privado?... Será possível que a extraordinária faculdade da razão no homem tenha carácter e qualidade animal? Por outro lado, é evidente e é verdade, embora muito espantoso, que no homem está presente esta força ou faculdade supranatural que descobre as realidades das coisas e que possui o poder da idealização ou da intelecção. É capaz de descobrir as leis científicas; a ciência que conhecemos não é uma realidade tangível. A ciência existe na mente do homem como uma realidade ideal. A própria mente, a própria razão, é uma realidade ideal e não tangível. (The Promulgation of UniversalPeace, p. 451)

Na verdade, eu gosto da referência de Krauss ao "desenvolvimento da compreensão física ". A distinção é importante, porque leva-nos a questionar uma suposição chave de Krauss: que uma compreensão puramente física do universo é a única compreensão possível ou válida.

O facto de estarmos agora envolvidos numa conversa sobre realidades não-físicas parece debilitar essa suposição. Esta conversa é onde a maioria de nós vive. Gastamos mais tempo considerando coisas intangíveis do que a fazer as nossas necessidades físicas mais críticas, como por exemplo, alimentarmo-nos. Para a maioria das pessoas, estas coisas tornaram-se secundárias que servem para manter, essencialmente, pensamentos sobre coisas não-tangíveis.

Eu passo a maior parte do tempo a contar histórias, a pensar e a escrever sobre coisas não tangíveis. Também muitas outras pessoas, incluindo Lawrence Krauss e o seu parceiro teísta no debate Intelligence Squared, o físico Ian Hutchinson. Ironicamente, todo o conjunto de literatura do Novo Ateísmo, escrito por pessoas como Richard Dawkins, Sam Harris e o inimitável Christopher Hitchens, é sobre coisas intangíveis, do princípio ao fim - e, no entanto, eles negam a existência de qualquer intangível supremo.

Estes novos ateus contam histórias cujo propósito é dizer-nos que não temos nenhum propósito - um enigma sobre o qual gostaria de escrever outro texto. Enquanto isso, medite por um momento sobre este excerto dos ensinamentos Bahá'ís, que indica que nós, humanos, temos um propósito maior e mais profundo do que sabemos:

Se o homem não existisse, o universo não teria resultado, pois o propósito da existência é a revelação das perfeições divinas. (‘Abdu’lBahá, Some Answered Questions, newly revised edition, p. 227)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 16 de dezembro de 2017

Deus - Causa e Efeito

Por David Langness.


Quando S. Tomás de Aquino escreveu as “Cinco Vias” para provar que Deus existe, muitas pessoas acreditaram que ele provara de forma definitiva a existência de um Criador; outros, porém, argumentavam que as “Cinco Vias” eram circulares e não nada provavam.

S. Tomás de Aquino
Mas o pensamento e a escrita de S. Tomás criaram as bases para muita da filosofia moderna. Quer se esteja de acordo ou contra os seus conceitos, todos reconhecemos que o seu trabalho teve enorme influência nos campos da teoria política, metafísica, ética e teologia.

A prova de Deus mais conhecida de S. Tomás - a ideia de causa e efeito - ainda persiste, mil anos depois de ele a ter apresentado. É óbvio que S. Tomás não a inventou - os autores foram Platão e Aristóteles - mas a maioria dos pensadores e filósofos atribuem a S. Tomás o mérito de a ter afirmado de forma tão clara e económica. Na sua expressão mais simples, este argumento segue este caminho lógico:

  1. Todos os seres finitos e contingentes têm uma causa.
  2. Nada que seja finito e contingente pode ser a causa de si próprio.
  3. Uma cadeia causal não pode ter comprimento infinito.
  4. Portanto, a Primeira Causa (ou algo que não é um efeito) tem que existir.

Se pensarmos nos antigos gregos, que perceberam este conceito coerente muito antes de os cientistas começarem a compreender o Universo tal como o conhecemos hoje, o argumento é ainda mais impressionante. Agora aceite por muitos, a ciência designa essa teoria de causa-efeito "o Big Bang" quando aplicada à criação do universo. A versão científica é assim:

  1. Tudo o que tem um início tem uma causa.
  2. A existência do Universo teve um início.
  3. Portanto, o Universo teve uma causa.

Esta lógica sustenta grande parte do nosso entendimento científico actual. Claro, ninguém pôde ainda provar que o universo teve uma "Primeira Causa", embora esta teoria seja, de longe, a história de criação prevalecente na ciência de hoje.

No entanto, muitos dos crentes e teóricos do Big Bang, que constituem a maioria dos cientistas de hoje, também percebem o erro nessa lógica aparentemente clara: o chamado problema de regressão infinita. A regressão infinita, basicamente, argumenta que se o universo tivesse uma primeira causa, o que causou essa primeira causa? Por outras palavras, se a causa e o efeito estiverem sempre em vigor, então, como poderia existir uma "primeira" causa?

Os ensinamentos Bahá’ís abordam esta profunda questão filosófica e científica de uma forma inovadora e completamente única, que alguns físicos teóricos e astrofísicos que estudam buracos negros também começaram a postular. Este entendimento científico e espiritual suporta a questão da causa-efeito sem o problema da regressão infinita. É o chamado “universo não criado”, que combina a ideia de causa-efeito com um conceito muito mais compreensível da Primeira Causa:
Sabe, com toda a certeza, que todas as coisas visíveis têm uma causa. Por exemplo, esta mesa é feita por um carpinteiro; o seu criador é o carpinteiro. Portanto, como estes objectos não se criaram a si próprios, eles não estão na natureza das coisas eternas; mas precisam de uma força auxiliar transformadora, embora na sua essência sejam muito antigas no tempo; mas a sua existência antiga e eterna não se deve à forma temporária.

Por exemplo, o mundo dos elementos não pode ser aniquilado, porque a existência pura não pode ser aniquilada; e o que observamos são modificações transformadoras na composição da essência. A combinação de diferentes elementos formou o homem físico; quando a composição é destruída, os elementos regressarão para as suas partes componentes. A aniquilação completa não pode acontecer.

O universo nunca teve um início. Do ponto de vista da essência, ele transforma-se. Deus é eterno na essência e no tempo. Ele é a sua própria existência e causa. É por isso que o mundo material é eterno em essência, pois o poder de Deus é eterno. (‘Abdu’l-Bahá, Divine Philosophy, pp. 106-107)
Aqui e em muitos outros textos das escrituras Bahá'ís, ‘Abdu'l-Bahá apresenta um argumento extremamente importante que combina a ciência mais avançada com o vasto e ilimitado entendimento de Deus:
Assim, se houvesse um momento em que Deus não manifestasse as Suas qualidades, então não havia Deus, porque os atributos de Deus pressupõem a criação dos fenómenos. Por exemplo, por consideração, dizemos que Deus é o criador. Então, deve existir uma criação - uma vez que o atributo criador não se pode limitar ao momento em que algum homem ou homens percebem esse atributo. Os atributos que descobrimos um a um - esses atributos existem antes de os descobrirmos. Portanto, Deus não tem início nem fim; nem a Sua criação está limitada em grau. As limitações de tempo e grau pertencem às coisas criadas, nunca à criação como um todo. (‘Abdu’l-Bahá, Foundations of World Unity, p. 52)
Aristóteles e S. Tomás levaram-nos à vanguarda da ciência contemporânea. (…)

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Texto original: God - Cause and Effect (www.bahaiteachings.org)

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David Langness é jornalista e crítico de literatura na revista Paste. É também editor e autor do site www.bahaiteachings.org. Vive em Sierra Foothills, California, EUA

sábado, 17 de dezembro de 2016

A Revolução Científica libertou a Ciência da Religião?




A religião e a ciência são duas asas com as quais a inteligência do homem pode subir às alturas, com as quais a alma humana pode progredir. Não é possível voar apenas com uma asa! Se um homem tentar voar apenas com a asa da religião cairá rapidamente no atoleiro da superstição, enquanto se tentar apenas com a asa da ciência não conseguirá qualquer progresso, mas cairá no lamaçal desesperante do materialismo. (‘Abdu’l-Bahá, excerto de uma palestra na Rue Camoens, Paris, 12-Novembro-1911)

A Revolução Científica libertou a ciência da religião. A nova ciência libertou o espírito da matéria. A razão e a experiência substituíram a revelação como fonte de conhecimento no mundo. Após a Revolução Científica tornou-se inevitável que Deus acabasse por ser totalmente afastado da natureza e que a ciência negasse a existência de Deus. (Margaret J. Osler, Professora de História e Professora Adjunta de Filosofia na Universidade de Calgary e autora do livro Reconfiguring the World: Nature, God,and Human Understanding in Early Modern Europe)

No seu ensaio no livro Galileo goes to Jail, a professora Osler prossegue o raciocínio anterior com estas palavras:

“Estas afirmações não fundamentadas fizeram o seu percurso na história popular da ciência e são frequentemente repetidas”. Osler apresenta uma lista de pessoas das facções religiosa e secular do debate que “repetem este mantra reforçando a crença de que o séc. XVII testemunhou o divórcio entre ciência e religião”.

Acho interessante que ela use a ideia de divórcio – como se a ciência e a religião fossem um casal numa crise de meia-idade que trocam a sua vida a dois por fantasias de juventude e carros desportivos. Olhando para o álbum dos anos em que ciência e religião estiveram juntas, é claro que a palavra não foi escolhida por acaso.

Até ao século XIX, a ciência ainda não era ciência; era “filosofia natural” ou “história natural”. Nem existiam cientistas, conhecidos como tal. Os homens e mulheres que se dedicavam à ciência eram, muito frequentemente, pessoas de fé, e muitas vezes, membros do clero. Como referi anteriormente, a filosofia natural era parte integrante dos currículos de todas as universidades medievais, e tinha poucas referências à doutrina da Igreja. A teologia era ensinada como uma área de estudos distinta, numa faculdade especializada.

A filosofia natural focava-se em temas como a origem do universo ou a Primeira Causa, as leis que regiam a criação e a sua concepção, a natureza da alma e do corpo humano. Nesses tempos, a ciência incipiente estava próximo do significado do seu nome scientia – isto é, o conhecimento real da essência das coisas. Aos olhos de alguns, isto impediu a “filosofia natural” de se tornar uma verdadeira ciência (scientia) porque as observações dos seres humanos eram imperfeitas, e consequentemente incapazes do nível de rigor necessário para conhecer a essência de qualquer coisa.

Johannes Kepler
Quando li sobre a história da filosofia mecânica, que tenta explicar todos os fenómenos naturais em termos mecanicistas, assumi que os seus promotores pretendiam eliminar Deus do processo. Mas fiquei surpreendida ao descobrir que eles eram profundamente religiosos. Entre eles incluíam-se luminárias como Gassendi, Descartes e Boyle. Até mesmo Johannes Kepler, com a sua certeza que Deus tinha criado um universo que exibia ordem e harmonia mecânica, podia ser contado entre os proponentes da filosofia mecânica.

A analogia que me vem à ideia quando penso na alegada dicotomia entre filosofia mecânica e filosofia espiritual é a escrita. Quando penso no que é necessário para escrever um romance desde o primeiro brilho nos olhos até ao último parágrafo, vejo dois grandes processos em funcionamento: místico e mecânico. O místico inclui a geração da ideia para a história – o nascimento e génese das personagens, os momentos de inspiração e voo da imaginação, a paixão que liga eventos, personagens e linhas do enredo e traduzi-lo por palavras. Por outro lado, a actividade mecânica de passar estas palavras e ideias para uma forma física – escrever, tal como escrevi este texto – exige que que elas sejam elaboradas de forma a serem experimentadas por outras pessoas.

Estes dois processos dependem mutuamente um do outro. As ideias ficam no campo dos sonhos se não as colocamos no papel; se isso acontecer, nunca se tornarão uma história. Por outro lado, sem essas ideias, essas interligações, essas personagens, o meu amor por elas e a minha paixão pela história, não haverá nada para o processo mecânico registar, e também não haverá história. Parafraseando a professora Osler: até numa criação mecânica há espaço (ou necessidade) de um propósito e de um desenho.

O romance existe porque eu pego no produto do meu processo intelectual/espiritual e aplico-lhe o processo mecânico. As palavras que escrevo revelam o intelecto por trás de si. Também são evidências do processo espiritual.

Não me surpreende descobrir que vários filósofos naturais expressaram a opinião de que, tal como disse Osler, "a filosofia natural, devidamente seguida, leva ao conhecimento do Criador". Entre os que sustentavam essa visão estava Lord Kelvin (físico matemático e engenheiro) que aconselhou:

Não tenham medo de ser livre pensadores. Se pensarem com força suficiente, serão forçados pela ciência a acreditar em Deus, que é a base de toda Religião. Descobrirão que a ciência não é antagónica, mas útil à religião. (William Thomson, 1º Barão Kelvin)

Opiniões semelhantes têm surgido de vozes religiosas – especialmente de Bahá'u'lláh, que escreveu "O princípio de todas as coisas é o conhecimento de Deus", e do Seu filho 'Abdu'l-Bahá, que escreveu: "A ciência é o esplendor do Sol da Realidade, o poder de investigar e descobrir as verdades do universo, o meio pelo qual o homem encontra um caminho para Deus".

Isaac Newton escreveu no Principia que:

... todo o discurso sobre Deus é derivado de uma certa semelhança das coisas humanas, que, embora não sendo perfeita, é, no entanto, um certo tipo de semelhança... E abordar o Deus dos fenómenos é certamente parte da filosofia natural.

Por outras palavras, por muito imperfeita que seja a nossa capacidade de compreensão, a criação pode dizer-nos alguma coisa sobre as qualidades do Criador, tal como a minha escrita diz ao leitor algo sobre mim.

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Texto original: Did the ScientificRevolution Liberate Science from Religion? (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 22 de outubro de 2016

O Cristianismo é a mãe da Ciência Moderna?

Por Maya Bohnhoff.

Suposições teológicas únicas ao Cristianismo explicam porque é que a ciência nasceu apenas na Europa Cristã. Ao contrário da sabedoria transmitida, a ciência e a religião não só eram compatíveis, mas também eram inseparáveis… A teologia Cristã foi essencial para o surgimento da ciência. (Rodney Stark, For the Glory of God [2003])
Parafraseando Newton, o ensaísta Noah Efron (da cadeira de Ciência, Tecnologia e Sociedade na Universidade Bar-Ilan, em Israel) nota que “para cada mito existe um mito igual e oposto”. E prosseguindo o seu raciocínio, produz um mito que nunca tinha ouvido antes: o Cristianismo não apenas deu à luz a ciência moderna, mas também – supõe Rodney Stark – seria o único antepassado possível para essa disciplina.

Mas ele não está só na defesa desta ideia. O Pe. Stanley L. Jaki – professor de Física em Seton Hall – tem afirmado que a ciência foi um nado-morto em todas as culturas antigas e apenas teve um nascimento bem-sucedido na Europa Cristã.

Qualquer pessoa conhecedora de história da ciência na Europa tem motivos para questionar esta afirmação, apesar de reconhecer que os ensinamentos Bíblicos encorajam (em vez de desencorajar) o tipo de investigação racional que está no âmago da ciência moderna:
Os céus proclamam a glória de Deus; o firmamento anuncia a obra das suas mãos.
Um dia passa ao outro esta mensagem e uma noite dá conhecimento à outra noite.
Não são palavras nem discursos cujo sentido se não perceba.
O seu eco ressoou por toda a terra, e a sua palavra, até aos confins do mundo.
(Salmos 19:2-5)
Este trecho da Bíblia dá-nos um convite aberto para explorar o mundo, o cosmos e o nosso ser interior. O Universo físico “passa a mensagem” e “dá conhecimento” sem palavras. Esta ideia – de que o Universo físico fala eloquentemente sobre o seu Criador – é um conceito fundamental em todas as religiões reveladas. Igualmente é a expectativa de que a humanidade use as suas múltiplas e únicas faculdades para “ouvir” o que universo tem a dizer.

Jesus Cristo explica que devemos julgar as coisas pelo seus “frutos” ou resultados (Mat 7:17-20). Posteriormente, Ele reforça esta ideia usando a metáfora que sabemos que o verão está próximo ao observar as evidências dos fenómenos naturais (Mat 24:32). Estas são apenas dois dos muitos trechos em que Cristo invoca a prática da observação e da faculdade racional humana para compreender o mundo e tomar decisões.

Os ensinamentos originais do Judaísmo e do Cristianismo promovem claramente a exploração do universo através da observação e da razão. Assim, não deveria ser surpresa o facto de muitos eruditos Cristãos terem estudado história natural. De Descartes a Newton, de Occam a LeMaitre, os homens da fé Cristã mergulharam de cabeça no estudo do universo que acreditavam ter sido criado por Deus. Mas será correcto dizer que apenas o Cristianismo poderia ter dado origem às ciências físicas?

Sábios Muçulmanos
Tal como Noah Efron salienta no seu ensaio, as ideias Cristãs sobre o universo não são exclusivamente Cristãs. Têm as suas raízes no Judaísmo, foram partilhadas por outras religiões tão diversas como o Budismo ou o Zoroastrismo, e emergiram em culturas tão díspares como a Chinesa e a Grega. Eruditos Muçulmanos como Ibn Sina, Ibn Rushd e outros também tiveram influência na ciência e na cultura.

De facto, todas as pessoas envolvidas no desenvolvimento da ciência dependeram de outros eruditos que existiram anteriormente. Nenhuma ciência surgiu completamente formada numa cultura, religião ou filosofia. Na realidade, os sábios Cristãos da Europa medieval devem muito da sua ciência ao trabalho que os antepassados indianos, persas e gregos herdaram e expandiram. No séc. IX existiam mais livros sobre temas científicos escritos em Árabe do que em Latim ou qualquer outra língua.

A afirmação de que o Cristianismo é a mãe da ciência moderna é significativa numa era em que a unidade na diversidade se tornou uma técnica de sobrevivência. O Dr. Efron nota que quando as pessoas expressam esta ideia, não estão apenas a dizer qualquer coisa sobre o Cristianismo e “os outros”; também estão a dizer algo sobre a ciência. Esta afirmação pretende – na sua essência – que a ciência teve apenas uma história, um único ponto de origem e apenas pode ser entendida de uma única perspectiva.

Esta afirmação sobre o caminho da ciência lembra-me outra semelhante feita por um amigo Evangélico sobre o caminho para Deus. Ele perguntou como é que eu e o meu marido nos tornámos crentes. Eu fui educada como Cristã e o meu marido como Agnóstico; ambos chegámos à Fé Bahá’í – que inclui a aceitação de Cristo – através do amor à razão. O meu amigo evangélico insistiu que isto estava errado. Apenas havia uma maneira de chegar a Deus e esse era através do temor e reconhecimento da nossa própria inutilidade. Esse era o caminho que ele tinha seguido para chegar à fé e nada nas Escrituras que evidenciasse o contrário podia convencê-lo que se podia encontrar Deus por outro caminho.

Basta um breve momento de reflexão para perceber que este conceito particular de Cristianismo está a anos-luz da crença e da fé que inspiraram os primeiros cientistas e filósofos cristãos. Esse conceito reduz a religião e a ciência de sábios não-cristãos a uma admirável insignificância, privada da qualidade intelectual que supostamente apenas os eruditos Cristãos possuem.

Jesus Cristo pediu que os Seus seguidores que avaliassem as afirmações de verdade com a medida da razão - julgar as coisas pelos seus frutos ou resultados. Qualquer olhar objectivo para a história da ciência revela que ela, antes de mais, é um esforço humano e que os humanos que lhe deram forma – para o bem e para o mal – surgiu em todos os cenários possíveis. É certo que podemos afirmar houve contributos mais significativos realizados nos primeiros anos das ciências por crentes de diversas religiões; mas a partir do séc. XIX, o número de cientistas sem religião, agnósticos e ateus tem vindo a crescer.

No entanto, independentemente do sistema de crenças do cientista (e é importante ter presente que a ciência em si não é um sistema de crença), a ciência pode ser usada de forma maligna se não tiver um enquadramento moral que que se aproxime da regra de ouro de Jesus (“O que quiserdes que os outros vos façam, fazei-lho vós também”) e do triplo filtro de Sócrates (“É verdade? É bom? É útil?”).

Tanto a ciência como a religião podem ser, e têm sido, veículos de interesses humanos dogmáticos. No coração da Fé Bahá’í está a firme convicção que devemos fazer o nosso máximo para impedir que isso aconteça. Tal como disse 'Abdu’l-Bahá numa palestra em Nova Iorque em 1912:
A Razão é a primeira faculdade humana e a religião de Deus está em harmonia com ela. (‘Abdu’l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 231)

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Texto original: Did Christianity Give Birth to Modern Science? (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.

sábado, 8 de outubro de 2016

O Islão e o Renascimento Científico

Por Maya Bohnhoff.


Do piedoso muçulmano... esperava-se que evitasse... as ciências [racionais] com muito cuidado, pois eram consideradas perigosas para a sua fé... (Ignaz Goldziher, 1916)

... a posse de toda esta "iluminação" [de pensamento grego] não impulsionou muito progresso intelectual no Islão, muito menos resultou numa ciência Islâmica. (Rodney Stark, 2003)

Infelizmente, Islão voltou-se contra a ciência no século XII. (Steve Weinberg, 2007)
Hoje, muitas pessoas tendem a pensar em Bagdade como um lugar tenebroso com uma população lutando e tremendo de medo de atentados terroristas. No entanto, no século X Bagdade era a capital do Império Abássida com uma população superior a um milhão de pessoas, um centro cultural onde se desenvolviam avidamente actividades científicas e filosóficas.

Uma das actividades "perigosas" exercidas por muçulmanos piedosos foi um grandioso projecto de tradução de textos sânscritos, persas e gregos para o árabe. No século XII - época em que, segundo Weinberg, o Islão se tinha voltado contra a ciência - estes textos árabes foram traduzidos para latim para consumo na Europa Cristã. Os tradutores latinos trabalhavam com textos árabes, em vez dos textos gregos, porque os sábios Abássidas tinham adicionado anotações e comentários desafiadores, completando e corrigindo alguns dos textos gregos originais.

Apesar de este processo estar bem documentado, ainda persiste o mito de que os sábios língua árabe não deram qualquer contributo para o trabalho que traduziram e foram apenas papagaios sem criatividade. Assim é irónica, a acusação de Goldziher contra o Islão de que este era inerentemente hostil a estas escolas do conhecimento. Se isso for verdade, como podiam os "muçulmanos piedosos" permitir sequer a tradução destes textos, quanto mais o seu estudo, a sua divulgação e a aplicação do conhecimento que eles continham? O acto de tradução só por si (apoiado monetariamente por Muçulmanos de todos os estratos sociais) é suficiente para acabar com o mito.

As contribuições árabes para o pensamento científico e matemático podem ser vistas na tradução de obras como Arithmética de Diofanto de Alexandria até à Arte Árabe da Álgebra (a palavra "álgebra" é uma latinização da frase árabe al-jabr, i.e. "a restauração"). Neste trabalho, Qusta ibn Luqa (820-912) define as operações matemáticas dos gregos em termos de uma nova disciplina, que tinha sido desenvolvida pelo matemático Al-Khwarizmi - de cujo nome deriva a palavra algoritmo.

Texto árabe sobre Álgebra
A alegação de que esses sábios muçulmanos nada acrescentaram de novo ou original é facilmente desacreditada: quando o texto árabe foi traduzido de novo para o grego, isso não resultou no texto grego original.

Na verdade, os sábios muçulmanos dominaram o campo da ciência (especialmente, a matemática e a astronomia) entre 800 e 1300 EC. Eles não viam a sua ciência como estando em guerra com a sua fé. O campo da astronomia era importante por razões de fé e razão (ou seja, o cálculo dos momentos de oração e o estudo da força e perfeição de Deus, bem como as causas naturais de fenómenos cósmicos). O primeiro observatório construído por astrónomos muçulmanos foi construído em Bagdade, em 828 EC, enquanto que no séc. XIV, Ibn al-Shatir (cronometrista numa mesquita de Damasco) propôs o modelo lunar usado por Copérnico, no seu trabalho de 1534, De Revolutionibus.

As universidades europeias que referi anteriormente usaram vários textos árabes que tinham sido traduzidos para o latim. A medicina não seria o que é hoje sem o trabalho enciclopédico de Ibn-Sina (Avicena) - O Cânone da Medicina. Este texto foi usado durante séculos nas faculdades de medicina europeias. Outro exemplo no campo da medicina é a descoberta da circulação sanguínea pulmonar por um médico e teólogo sírio, Ibn al-Nafis. No campo da física, podemos citar o trabalho de al-Haytham (Alhazen) que uniu matemática e física e que, de acordo com o historiador de ciência David Lindberg -autor de Teorias de visão de al-Kindi de Kepler - era "a mais figura importante na história da óptica desde a antiguidade até ao século XVII".

Obviamente, a situação não é tão linear quanto Steven Weinberg e companhia sugerem. Assim, podemos questionar, o que deu origem à ideia de que o Islão não contribuiu em nada para a ciência (ou pelo menos nada de original) e, como Weinberg propõe, "virou-se contra a ciência" desde o século XII em diante?

A resposta de Weinberg é que o Islão foi influenciado por um filósofo chamado Abu Hamid al-Ghazali que argumentou contra o conceito de leis estáticas da natureza argumentando que a existência dessas leis amarraria as mãos de Deus. Tal como Ignaz Goldziher (citado anteriormente), Weinberg afirmou que as filosofias de al-Ghazali levaram a ciência islâmica a um impasse. Quão correcta é esta afirmação?

George Saliba - professor de Ciência Árabe e Islâmica na Universidade de Columbia – aponta alguns problemas nesta avaliação, principalmente, o facto do místico sufi, supostamente não-cientista, não só ter apoiado o estudo e uso da lógica e da matemática (algo que até Goldziher admite), mas também ter lamentado que os sábios muçulmanos não estivessem a fazer o máximo que podiam nas disciplinas da anatomia e da medicina. Por esse motivo, ele próprio escreveu sobre esses assuntos:
Se olharmos apenas para os documentos científicos sobreviventes, podemos perceber claramente uma actividade muito florescente em quase todas as disciplinas científicas nos séculos seguintes a Ghazali. (George Saliba, Islamic Science and the Making of the European Renaissance, p. 21)
No fundo, qual a plausibilidade de um único muçulmano erudito - não pertencente à principal corrente da teologia Islâmica - poder influenciar o pensamento, as atitudes e as práticas de uma parcela significativa do mundo muçulmano? O Islão, ao contrário da Igreja Católica ou da Fé Bahá'í, não tem nenhuma autoridade central, muito menos uma que defina uma agenda para todo o corpo de crentes. Em vez disso, várias escolas de pensamento têm evoluído dentro dos dois ramos principais. Os sufis são uma das tradições mais místicas e, como tradição, são reconhecidos como tendo inspirado uma Idade de Ouro na sabedoria Islâmica que se iniciou - ironicamente - por volta de 1300.

A ponderada opinião do Dr. Haq - partilhado por um número crescente de estudiosos – é que:
... durante séculos, enquanto a ciência no Ocidente Latino ficava no marasmo, nenhuma cultura no mundo proporcionou um lar mais hospitaleiro para ciência do que o Islão. E nenhum grupo de muçulmanos cultivou a ciência mais do que os religiosos. (Syed Haq, Galileo Goes to Jail, p. 41)
Na ficção, nós chamamos isso de "trabalhar contra o modelo." O clérigo académico que ama a ciência não é uma personagem que alguns de nós esperam encontrar nas páginas da história; no entanto, à medida que aprendemos mais sobre as interacções entre a fé e a ciência durante e depois da Idade Média, somos forçados a vê-lo como representativo em vez de raro. Como os ensinamentos Bahá’ís salientam, essa combinação equilibrada de ciência e religião concede-nos a capacidade para investigar verdadeiramente a realidade:
Deus deu ao homem a visão da investigação, através da qual ele pode ver e reconhecer a verdade. Ele dotou o homem com ouvidos que possa ouvir a mensagem da realidade e conferiu-lhe o dom da razão pela qual ele pode descobrir as coisas por si próprio. Este é o seu dom e equipamento para a investigação da realidade. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 293)
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Texto original: Islam and Science Redux (www.bahaiteachings.org)

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Maya Bohnhoff é Baha'i e autora de sucesso do New York Times nas áreas de ficção científica, fantasia e história alternativa. É também compositora/cantora (juntamente com seu marido Jeff). É um dos membros fundadores do Book View Café, onde escreve um blog bi-mensal, e ela tem um blog semanal na www.commongroundgroup.net.