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sábado, 21 de fevereiro de 2015

Como falar sobre Deus com um Cientista

Por Gregory Samsa e Jerry Schoendorf.

Numa manhã de 1613, ao pequeno-almoço, Cosimo de Medici e a sua mãe, a grã-duquesa italiana Cristina, começaram a discutir a verdade sobre os satélites de Júpiter. Benedetto Castelli, estudante de Galileu, que estava presente, pediu mais tarde a Galileu para comentar sobre o tema central da conversa: o conflito entre a Bíblia e a doutrina heliocêntrica, a ideia herética de que a Terra girava à volta do Sol

A resposta, a famosa "Carta à Grã-Duquesa Cristina” de Galileu, circulou amplamente nessa época na forma de manuscrito. Nela, Galileu declarou que a Bíblia ensina como se vai para o céu, e não como funciona o céu. A crença de Galileu na verdade da teoria de Copérnico alarmou alguns católicos proeminentes da época, e a Inquisição examinou a carta de Galileu para Christina. Assim começaram problemas de Galileu com a Igreja Católica. (Starry Messenger)
A história de Galileu ilustra não apenas as suas contribuições significativas para o desenvolvimento da ciência e da investigação científica; descreve também uma suposição moderna generalizada sobre a incompatibilidade básica entre ciência e religião. As opiniões sobre esta relação variam muito. Muitas pessoas, incluindo alguns líderes religiosos, ainda insistem na fidelidade escrupulosa e literal à escritura religiosa da Bíblia, do Alcorão, e outros. Outras religiões, incluindo a Fé Bahá'í, têm uma visão mais favorável em relação à ciência, dizendo que:
A religião deve estar em conformidade com a razão e estar de acordo com as conclusões da ciência. [Porque] religião, razão e ciência são realidades; portanto, esses três [religião, ciência e razão], sendo realidades, devem estar em conformidade e reconciliar-se. Uma questão ou princípio que tem natureza religiosa deve ser sancionado pela ciência. A ciência deve declará-lo válido, e a razão deve confirmá-lo, para que ele possa inspirar confiança. ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 394)
Galileu
Os problemas que Galileu viveu no século XVII não seriam problemas do mundo de hoje, porque o pêndulo da verdade popular, afastou-se para muito longe do clima de certeza religiosa daquela época.

Se os dogmas religiosos costumavam ser uma forte ameaça há 400 anos, agora tornaram-se definitivamente menos assertivos à luz de tanta informação que hoje possuímos. Hoje, a ciência é por vezes creditada como tendo revelado tanto da realidade do mundo material que não há espaço livre para uma noção de Deus. Ou seja, muito daquilo que costumava ser misterioso - a existência da humanidade, a perfeição do surgimento da vida na Terra, o funcionamento do universo - agora pode ser explicado através da biologia, da astronomia, da física e de outras áreas da ciência. E apesar de subsistirem enormes mistérios cósmicos, muitas pessoas acreditam que a ciência acabará por entender plenamente o universo, não deixando qualquer espaço para Deus.

No entanto, o que tem a ciência a dizer sobre a abstracção, a ética, a estética, as virtudes, a criatividade, etc.? Porque é que ainda nos perguntamos porque estamos aqui? De onde viemos? Será que temos um propósito? Será que temos valor intrínseco? O que acontece quando morremos? Em 1912, ‘Abdu'l-Bahá questionou uma audiência em Minneapolis:
Se perguntarmos a mil pessoas "Quais são as provas da realidade da Divindade?", talvez nem uma seja capaz de responder. E se perguntarmos ainda "Que provas tem sobre a essência de Deus?" "Como é que explica a inspiração e a revelação?" "Quais são as evidências de uma inteligência consciente para além do universo material?" "Consegue sugerir um plano e um método para melhorar as moralidades humanas?" "Consegue definir e diferenciar com clareza o mundo da natureza e do mundo da Divindade?"- receberíamos muito pouco conhecimento real ou esclarecimento sobre estas questões. (The Promulgation of Universal Peace, p. 326)
'Adbu’l-Bahá continuou a falar das várias razões para isso, referindo que o "desenvolvimento das virtudes ideais tem sido negligenciado". As pessoas não podem investigar estes assuntos por si próprias, salientou ‘Adbu’l-Bahá; em vez disso, confiam em superstições e tradições do passado para lhes dar uma compreensão sobre os conceitos espirituais. O cidadão médio pode ter mais a dizer sobre o clima do que sobre as questões colocadas por ‘Abdu’l-Bahá.

Então, talvez nos devêssemos perguntar: quais são as nossas convicções morais, éticas, espirituais ou religiosas? De onde vêm essas convicções? Quais são as razões ou factos que sustentam as nossas crenças? É importante que as nossas crenças sejam suportadas pela ciência? Sentimos que o uso da ciência e do método científico é uma forma inteligente para determinar as coisas que podem sustentam nossas crenças?

E, claro, que rumo deveremos tomar se concluirmos que a maioria das religiões não são credíveis, e se desejamos seguir princípios éticos, morais e espirituais que sejam inteligente e razoáveis?

Esta série de pequenos artigos presume que a maioria das pessoas desejam tomar as suas próprias decisões sobre a divindade, Deus e a revelação, e esperam fazer essas escolhas de uma forma razoável e inteligente de uma forma com a qual possam viver e explicar aos outros. Por isso, lançamos esta questão: quais os métodos que podem ajudar a definir a realidade e verdade; que podem orientar a própria busca de um significado e propósito para a vida; e estabelecer a integridade e um código de ética que possam proporcionar satisfação e contentamento permanentes?

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Texto original: How to Talk to a Scientist About God (bahaiteachings.org)

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Gregory Samsa é director de estudos de pós-Graduação no Departamento de Bioestatística e Bioinformática na Universidade de Duke (EUA), e entre os seus interesses intelectuais está a desconstrução da prática estatística em componentes que podem ser estudadas cientificamente. Um pai de 5 filhos e treinador de futebol em escolas de ensino secundário.
Jerry Schoendorf é um ilustrador médico reformado e anaplastologista que trabalhou na Universidade de Duke e mais tarde num consultório particular em Durham (Carolina do Norte, EUA). Vive em Chapel Hill, Carolina do Norte, onde se dedica à ilustração, apicultura, e olaria.

terça-feira, 18 de março de 2014

Cosmos e a Fé Bahá’í

Por Mitko Gerensky, no blog Befriend Stranger.

Durante minha juventude na Bulgária comunista, vi na televisão estatal um programa fascinante pelo notável cientista americano Carl Sagan, "Cosmos", que reafirmou o meu fascínio pela ciência e pela incansável busca da verdade. A noção de Deus quase não existia na minha vida diária pois a ideologia estatal do materialismo histórico tinha naquela época obliterado na maioria das pessoas da minha geração qualquer referência a um Criador inteligente. No entanto, sempre houve uma busca por algo mais do que os olhos podiam ver. Apaixonei-me pela ficção científica como uma ferramenta criativa que dava as asas à minha imaginação e antevia um mundo em que todos coexistíamos pacificamente e explorávamos o universo. Ao terminar a universidade, conheci um grupo de Bahá’ís que me disse que de acordo com Bahá'u'lláh, a ciência e a religião devem estar em harmonia. A minha descrença transformou-se num abraço à evolução da religião através da sua revelação progressiva. Tornei-me Bahá’í.

Cosmos: Uma Odisseia no Espaço-Tempo
Ontem, vi o primeiro episódio do inspirador - e actualizado - da série Cosmos: Uma Odisseia no Espaço-Tempo, desta vez conduzido pela vedeta da ciência, Neil deGrasse Tyson, que é o verdadeiro sucessor de Carl Sagan.


Fiquei tão fascinado e inspirado com o primeiro episódio que hoje voltei a vê-lo com as minhas filhas que gostaram muito. A mais jovem, Juliet, comentou o quão pequena se sentia ao testemunhar a imagem notável da vastidão do universo. E quem é que não se sente pequeno ao perceber que a Criação é ilimitada, o que para mim, apesar de (ou devido a) ter crescido como ateu, é uma grande prova da existência de um Criador infinito.

Anoitecer e Amanhecer

Apesar de ter sido ateu na minha juventude, nunca deixei de me maravilhar com o poderoso papel que a religião desempenhou como inspiradora de conhecimento - juntamente com a sua revelação – e as tentativas que fez para o silenciar durante o seu declínio. "Nightfall", um romance brilhante escrito pelos meus dois escritores preferidos de ficção científica, Isaac Asimov e Robert Silverberg, ilustrava, aquilo que me tinha sido apresentado na Fé Bahá'í: que, de facto, a verdadeira ciência e a verdadeira religião não têm de ser mutuamente exclusivas. Apesar de ter a certeza que "Cosmos" e a sua atitude em relação à religião e a Deus pode ser interpretado de inúmeras maneiras, para mim, pessoalmente, reafirma a crença de que por detrás da incrível Criação existe um Criador inteligente, e a religião - tal como a ciência - continuará a actualizar-se através daquilo a que a Fé Bahá'í chama revelação progressiva, a fim de nos iluminar e nos guiar para a plena realização do glorioso destino da humanidade.

Hoje à noite, após o encontro de oraçoes, decidi procurar referências nas Sagradas Escrituras a alguns dos tremendos diversificados e interligados tópicos da série "Cosmos". Não surpreendentemente, encontrei uma infinidade de citações inspiradoras que as imagens de "Cosmos" parecem ilustrar de forma tão bela. Aqui, por razões de brevidade, deixo apenas algumas:
"Magnificado seja o Teu nome, ó Senhor meu Deus! És Aquele a quem todas as coisas adoram e que venera a ninguém, Aquele que é o Senhor de todas as coisas e vassalo de nenhuma, Aquele que conhece todas as coisas e é conhecido de nenhuma. Desejaste-Te tornar-Te conhecido aos homens e, assim, através de uma palavra da Tua boca, trouxeste a criação à existência e formaste o universo. Não há outro Deus senão Tu, o Formador, o Criador, o Omnipotente, o Mais Poderoso." (Prayers and Meditations by Bahá’u’lláh, pag. 6)

"Uma gota do oceano encapelado da Sua infinita mercê adornou toda a criação com o ornamento da existência, e um sopro, emanado do Seu incomparável Paraíso envolveu todos os seres com o manto da Sua santidade e glória. Um salpico das insondáveis profundezas da Sua vontade soberana e predominante chamou das profundezas do nada absoluto à existência uma criação de infinita extensão e imortal duração. As maravilhas da Sua generosidade não podem cessar, e o fluxo da Sua graça misericordiosa jamais será detido. O processo da Sua criação não teve início, e não poderá ter fim.

Em cada era e ciclo, Ele, através da luz esplendorosa emanada dos Manifestantes da Sua maravilhosa Essência, tem recriado todas as coisas, de modo que nada nos céus e na terra que reflicta os sinais da Sua glória seja privado das emanações da Sua misericórdia, nem desespere das chuvas dos Seus favores. Como são abrangentes as maravilhas da Sua infinita graça! Vede como têm impregnado a criação inteira. Tamanha é a sua virtude que não se encontra em todo o universo um só átomo que não declare as evidências do Seu poder, que não glorifique o Seu santo Nome ou expresse a luz fulgente da Sua unidade. Tão perfeita e vasta é a Sua criação, que nunca alguma mente ou coração poderá, por mais apurada ou pura que seja, abranger a natureza da mais insignificante das Suas criaturas e, muito menos, sondar o mistério d'Aquele que é o Sol da Verdade, Aquele que é a Essência invisível e incognoscível. (…)

Como me sinto confuso, insignificante que sou, ao tentar sondar as sagradas profundezas do Teu conhecimento! Quão fúteis os meus esforços ao imaginar a magnitude do poder inerente à Tua obra - a revelação do Teu poder criador! Como podem os meus olhos, que não têm a faculdade de se perceberem a si próprios, alegar terem discernido a Tua Essência, e como pode o meu coração, já incapaz de entender o que significam as suas próprias potencialidades, ter a pretensão de haver abarcado a Tua natureza? Como posso eu dizer que Te tenha conhecido, quando a criação inteira se encontra perplexa diante do Teu mistério, e como posso confessar eu não Te ter conhecido, quando, eis, todo o universo proclama a Tua Presença e dá testemunho da Tua verdade? (Selecção dos Escritos de Bahá'u'lláh , sec. XXVI)
Vocês já viram a série "Cosmos"? Que ideias vos inspirou? Que perguntas levantou? Que respostas vos deu?

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Texto Original: Cosmos and the Baha’i Faith (Befriend Stranger)

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Uma posição Bahá’í no debate Criação/Evolução

O texto que se segue é uma tradução de um artigo de Stephen Friberg (físico experimental e membro da comunidade Bahá'í) a propósito de um debate sobre Criacionismo/Evolucionismo, num canal de TV dos Estados Unidos. Trata-se de uma das mais interessantes explicações sobre a posição Bahá'í em relação a este tema.

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Stephen Friberg
O conflito sobre a evolução e as origens da humanidade, veio mais uma vez à tona com o debate entre Bill Nye - o Homem da Ciência - e Ken Ham - o jovem criacionista. Os bilhetes para o debate esgotaram-se em minutos, criando-lhe uma expectativa semelhante à final do Super Bowl ou uma digressão dos Rolling Stones. Claramente, as pessoas estão interessadas.

E é claro que há oposição. Dan Arel, escrevendo pela Fundação Richard Dawkins, protestou afirmando que "os cientistas não devem debater com criacionistas". O conhecido astrofísico e apresentador de televisão Neil de Grasse Tyson disse numa entrevista a Bill Moyers que é improvável a reconciliação entre a fé e a razão.

Mas nem toda a gente se opõe a esses debates ou é pessimista sobre o futuro da relação entre esses dois aspectos influentes de nossa vida organizada. Muitos, incluindo membros da Fé Bahá'í, desejam um futuro em que a ciência e a religião - a fé e a razão – se reconciliem e não se oponham.

A Fé Bahá'í sustenta a unidade da ciência e da religião como um ensinamento central e enfatiza que a religião deve estar de acordo com a ciência. 'Abdu'l-Bahá (1844-1921), filho e intérprete nomeado dos ensinamentos de Bahá'u'lláh (1817-1892), falou e escreveu repetidamente sobre o tema nas suas visitas às capitais europeias em várias cidades de toda a América do Norte.

Por exemplo, 'Abdu'l-Bahá disse a uma audiência em Filadélfia, em 1912, que:
Deus dotou o homem de inteligência e razão, com as quais lhe é exigido que determine a veracidade de questões e proposições. Se as crenças e opiniões religiosas se encontram em contradição com os padrões da ciência, então são meras superstições e imaginações, pois a antítese do conhecimento é a ignorância, e a filha da ignorância é a superstição.
Então, o que diz a Fé Bahá'í dizer sobre a evolução e a criação?

De acordo com os ensinamentos Bahá’ís, Deus é "o Autor, o Criador". A natureza e todas as coisas criadas são a personificação da vontade de Deus:
A natureza na sua essência é a personificação do Meu Nome, o Autor, o Criador... A natureza é a Vontade de Deus e a Sua expressão no, e pelo, mundo contingente... Está dotada de um poder cuja realidade os homens de sabedoria não conseguem entender. De facto, um homem de visão nada pode perceber nela salvo o esplendor refulgente do Nosso Nome, o Criador. (Bahá'u'lláh, Epístola da Sabedoria)
A natureza, segundo os ensinamentos Bahá’ís, "está inteiramente sujeita ao domínio e controle das leis naturais" e estas leis naturais proporcionam "uma ordem completa e um modelo perfeito, do qual [a natureza] nunca sairá." Todas as coisas criadas "foram criadas perfeitas e completas desde o início." Esta perfeição não se manifesta imediatamente; apenas vai aparecendo gradualmente. (NOTA: Na citação seguinte, os termos " homem" e "humano" são usados alternadamente sem um sentido específico de género)
Da mesma forma, o globo terrestre desde o início foi criado com todos os seus elementos, substâncias, minerais, átomos e organismos; mas estes só surgiram gradualmente: primeiro o mineral, depois o vegetal, seguidamente o animal e, finalmente, o homem. Mas desde o início estas classes e espécies existiam, mas não estavam desenvolvidas no globo terrestre, e depois, apenas apareceram gradualmente. Pois a organização suprema de Deus e o sistema natural universal abrangem todos os seres, e todos estão sujeitos a esta regra. Quando reflectires sobre este sistema universal, verás que nenhum dos seres no momento em que vem à existência atinge o limite da perfeição. Não; eles crescem e desenvolvem-se gradualmente, e, em seguida, atingem o grau de perfeição. ('Abdu'l-Bahá, Respostas a Algumas Perguntas, cap. 51)
Os ensinamentos Bahá’ís comparam este processo de desenvolvimento com a evolução de um embrião para um adulto e com a transformação de uma semente numa árvore madura. Os seres humanos não apareceram de forma instantânea, mas desenvolveram-se gradualmente, por etapas:
No mundo da existência, o homem percorreu sucessivas etapas até ter alcançado o reino humano. Em cada etapa da sua progressão, ele desenvolveu a capacidade para avançar para a próxima etapa e condição. Enquanto no reino do mineral ele estava a ganhar capacidade para passar para a etapa do vegetal. No reino do vegetal foi submetido à preparação para o mundo animal e, a partir daí, ele seguiu para a etapa, ou reino, humano. Ao longo desta viagem de progressão ele sempre foi, potencialmente, homem. ('Abdu'l-Bahá, Promulgation of Universal Peace, p. 225)
Segundo as escrituras Bahá’ís, o homem é muito mais do que um animal. Possui uma realidade tripla:
O homem está dotado de uma realidade exterior ou física. Ele pertence ao domínio material, o reino animal, porque surgiu a partir do mundo material. Esta realidade animalesca do homem é partilhada em comum com os animais. O corpo humano está, tal como os animais sujeito às leis da natureza. Mas o homem está dotado de uma segunda realidade, a realidade racional ou intelectual; e a realidade intelectual do homem predomina sobre a natureza... No entanto, há uma terceira realidade, no homem, a realidade espiritual. ('Abdu'l-Bahá, Foundations of World Unity, 51)
Em resumo, as escrituras Bahá’ís descrevem a evolução como tendo prosseguido etapa a etapa, desde o mundo da matéria inanimada até ao mundo da humanidade. Neste processo, não há nenhum desvio em relação às ciências da evolução (para uma descrição mais detalhada, ver C. Mehanian and S. Friberg, Religion and Evolution Reconciled, The Journal of Baha'i Studies 2003 13 (1-4): 55-93).

Simultaneamente, as escrituras Bahá’ís descrevem a humanidade como criação de Deus, declarando que os seres humanos sempre existiram potencialmente, e caracterizam a realidade humana como distinta e diferente da realidade animal.

Aqui existe, de facto, um afastamento em relação a alguns pontos de vista conhecidos, mas não é um desvio em relação a factos e detalhes da ciência da evolução. Em vez disso, o afastamento é em relação a algumas perspectivas e interpretações - aquilo que são por vezes designadas narrativas da evolução - que se desenvolveram em torno das ciências da evolução.

E esta perspectiva Bahá’í não é profundamente diferente daquela "criação evolutiva", conforme é sustentada por organizações cristãs como a BioLogos (fundada pelo Dr. Francis Collins, director do National Institute of Health, indiscutivelmente o principal biólogo a nível mundial), por académicos do Catolicismo, e mesmo, por um amplo leque de religiosos instruídos, em todo o mundo.

Então, porque há tanto espalhafato, gritaria e choques em relação a questões científicas como a evolução que são facilmente compatíveis com a crença religiosa - e têm sido amplamente entendidas como tal ao longo de séculos (na verdade, milénios)? Parte da razão deve estar, certamente, no conflito sobre a ciência da evolução que vai ocupar Bill Nye e Ken Ham no seu debate de 04 de Fevereiro. A impressão que esse conflito cria - a triste resistência à ciência bem fundamentada que o criacionismo inculca - fortalece, certamente, a tendência entre as mentes científicas para ver a religião como uma espécie de pré-ciência primitiva que apresenta respostas erradas.

Sem dúvida, há muito mais do que isso. Muito do criacionismo é claramente uma resposta às denúncias da religião em nome da ciência, assim como uma reacção contra os movimentos populistas, como Darwinismo Social, que proclamavam as suas supostas verdades como factos derivados das ciências da evolução. E o conflito é uma boa reposição dramática, maravilhosa para motivar as tropas ou as congregações (ou os dadores) e para coleccionar títulos de jornais e comentários.

Mas, no fundo, é um conflito que apenas deve ser resolvido pacificamente. Homens e mulheres de boa vontade devem trabalhar juntos para colocar o assunto no merecido lugar - juntamente com outras batalhas ideológicas do século XIX que estão mortas ou moribundas. É apenas diversão ou um espectáculo secundário na nossa missão principal, que é trabalhar em conjunto para os tão necessários e longamente desejados objectivos de paz e prosperidade para todos os países e povos do mundo, independentemente das suas crenças – ou ausência destas.

Esperemos e oremos para que Bill Nye (o Homem da Ciência) e Ken Ham (o Homem Criacionista) percebem isto no seu debate.

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Texto original em inglês: A Baha'i Take on the Creation/Evolution Debate (Huffington Post)

O debate:


Sobre este assunto:
* Bill Nye v. Ken Ham: Why the Creationism Debate Is Just Another Fish War, Won't Change Minds (Christian Post)
* Bill Nye v Ken Ham: should scientists bother to debate creationism? (The Guardian)
* Bill Nye the 'Science Guy' debates Ken Ham about creation, evolution, February 4 (The Examiner)
* Bill Nye vs. Ken Ham: Should scientists bother debating creationists? (Christian Science Monitor)
* Pat Robertson Disagrees With Creationist Ken Ham, Says 'Let's Not Make A Joke Of Ourselves' (Huffington Post)

sábado, 11 de janeiro de 2014

Integrar Ciência e Religião: as opiniões de duas Bahá'ís

Tradução do artigo How Two Baha'i Women Integrate Science and Religion, de Geoffrey A. Mitelman, publicado no HuffingtonPost
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Poucos americanos sabem o que é a Fé Bahá’í. No entanto, um dos seus princípios fundamentais é um compromisso com a investigação científica, o que significa que os Bahá'ís têm uma perspectiva única sobre a forma como a ciência e a religião podem interagir.

Assim, como parte da série "Sinai and Synapses: More Light, Less Heat", a Drª Lisa M. Ortuno e a Profª. Carey Murphy partilham a forma como a sua Fé Bahá’í tem reforçado o seu amor pela ciência, e como a ciência tem reforçado o seu compromisso com a sua fé.

Lisa M. Ortuno tem um doutoramento em biologia e actualmente trabalha para a Promega Corporation, uma empresa de biotecnologia. Pertence ao grupo de trabalho Sinai and Synapses, e concluiu que o uso do método científico e a sua formação em biologia foram essenciais na sua jornada para se tornar Bahá’í.

Carey Murphy é uma professora reformada que deu aulas de ciências ao 8º ano numa comunidade predominantemente fundamentalista, na Carolina do Sul. Uma vez que a Fé Bahá’í enfatiza a racionalidade, ela usou o seu compromisso religioso para ajudar os seus alunos aceitar o pensamento crítico.


Lisa M. Ortuno, Ph.D.



Olá, o meu nome é Lisa Ortuno, e sou bióloga e Bahá'í .

Gostaria de falar sobre a forma como a Fé Bahá’í influenciou o meu pensamento como bióloga, e como o método científico que eu empregava me levou a pensar como Bahá'í.

A minha fé diz que os mistérios ocultos da natureza podem ser transferidos do plano do invisível para o visível. E é assim que envolvimento na ciência é visto na Fé Bahá’í. Na verdade, é um acto sagrado. É divino.

É esta nova maneira de ver as coisas foi muito apelativa para mim. E isso é especialmente verdade considerando que, durante os anos de liceu e de faculdade, eu era agnóstica. Nunca fui capaz de assimilar a fé a que estive exposta quando crescia, e, portanto, achei que a ciência era a maneira de descobrir as verdades sobre o mundo.

Ainda acredito nisso, é claro. Mas agora acredito que é uma das, pelo menos, duas maneiras de alcançar a verdade e a sabedoria sobre o mundo.

Enquanto continuei na faculdade, aprendi a formular novas questões, ou a procurar questões originais, a desenvolver novas hipóteses, a testá-las e a aplicar o método científico nas minhas descobertas. E foi através do acto de escrever publicações e apresentar a informação à comunidade científica que fui capaz de levar esse conhecimento, mais uma vez, do plano invisível para o visível.

Sempre fui uma daquelas pessoas interessadas em ciência e até mesmo quando era criança, viam-me nos rios a levantar pedras, a recolher  sapos e tartarugas e a levá-los para casa para os guardar em frascos de vidro no meu quarto...

Assim, pensando no meu desenvolvimento como Bahá’í, quando fiquei exposta à Fé, como pode imaginar, fiquei um pouco céptica; e porque tinha formação em biologia, o que eu fiz foi aplicar o método científico às pretensões da Fé. E fiz isso durante três anos.

E o que descobri, como resultado disso, foi que as minhas relações melhoraram, e em algumas delas eu estavam em conflito. E por isso, obtive um resultado verdadeiro, real e científico, de muitas maneiras. E continuei a testá-la. E percebi que, para mim, que este era o caminho que queria seguir.

Ao mesmo tempo, enquanto continuava a aprender a ser uma pessoa de fé, descobri que havia outra transformação que estava a ocorrer, e que foi um crescente sentimento de humildade. É muito fácil tornarmo-nos excessivamente confiantes na capacidade da ciência para resolver os problemas do mundo. E olhando à nossa volta, é claro que todos nós vemos que enfrentamos problemas enormes, e agora seguindo a ideia de que com a ciência e a religião juntas podemos encontrar fontes de conhecimento, e tendo essa informação e aplicando-a globalmente, com o coração cheio de humildade, foi a maneira como eu aprendi a viver a minha vida .

Claro, todas as grandes religiões do mundo defendem esta postura de que precisamos ter essa humildade. Portanto, estou plenamente confiante como pessoa de fé e pessoa da ciência com esta postura humilde na capacidade que, juntas, estas duas podem-nos ajudar a lidar com os grandes problemas que temos diante de nós.

Juntas, a ciência e a religião são as asas de um pássaro, e juntas farão avançar a civilização humana.

Carey Murphy:



Chamo-me Carey Murphy e sou Bahá’í; sou professora reformada de ciências do ensino secundário do 8º ano. Quero falar sobre a forma como a minha religião influenciou a minha sala de aula.

A Fé Bahá’í ensina que a ciência deve aprovar a religião e a religião fortalece ciência. Enfatiza que a ciência e a religião vêm ambas de Deus; não estão em concorrência entre si, e não estão em conflito.

Foi com esse espírito que leccionei durante 25 anos numa cultura cristã diversificada, mas fortemente evangélica aqui na Carolina do Sul. Muitos dos meus alunos acreditavam que os ensinamentos fundamentalistas e literalistas superavam todos os outros tipos de conhecimento, incluindo o que eu lhes estava a transmitir, e que incluía geologia, paleontologia, um pouco de física, evolução e astronomia.

No início da minha carreira de professora decidi ajudar os meus alunos a pensar de forma mais crítica, ensinando-lhes os passos de racionalidade. Passos que são seculares e se encontram de forma clara nas escrituras Bahá’ís.

Estes passos incluem a necessidade de dominar um corpo de conhecimentos; possuir um espírito de investigação e desprendimento; acreditar na volatilidade do conhecimento; possuir um espírito grato e humilde de serviço; testar e re-testar ideias; participar em consulta e peer-reviews; não fazer juízos antes de conhecer; evitar o pensamento dicotómico; e, por último, dissipar o medo da autoridade, da crítica e do fracasso.

Percebi que os meus alunos compreendiam muito bem estas ideias e métodos, e criaram um verdadeiro respeito pela ciência ao longo do processo. Esta experiência ensinou-me que o pensamento racional poderia ser transmitido a jovens e adultos, e que deve ser incluído nos nossos currículos académico e religioso.

Na perspectiva Bahá’í, aplica-se a ambos. Ciência e religião devem ser compreendidas racionalmente.

Os jovens, em resumo, assim como os adultos, merecem ter as ferramentas racionais com que as quais podem analisar as ideias que encontram nas suas vidas.

Quero terminar com uma citação das escrituras Bahá’ís :
Deus dotou o homem com inteligência e razão. Se as crenças e opiniões religiosas se encontram em contradição com os padrões da ciência, estas são meras superstições e imaginações; pois a antítese do conhecimento é a ignorância, e a filha da ignorância é a superstição. Inquestionavelmente deve haver conformidade entre a verdadeira religião e a ciência. Se se descobre uma questão contrária à razão, a fé e a crença nesta são impossíveis, e não há nenhum resultado, salvo hesitação e vacilação . ('Abdu'l-Bahá, The Promulgation of Universal Peace, p. 177)
Muito obrigada pela atenção.

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Texto original em inglês: How Two Baha'i Women Integrate Science and Religion (Huffington Post)

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Telescópio descobre 461 candidatos a planetas

"Sabe tu, que cada estrela fixa tem seus próprios planetas, e cada planeta, suas próprias criaturas, cujo número homem algum pode calcular." -- Bahá'u'lláh 

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No Jornal Expresso, hoje:

A NASA anunciou que o telescópio espacial Kepler identificou 461 novos candidatos a planetas.

São 461 candidatos a novos planetas, quatro deles com menos do dobro da dimensão da Terra, e acabam de ser descobertos pelo telescópio espacial Kepler, da NASA.

Os quatro planetas mais parecidos com a Terra orbitam estrelas a uma distância que os coloca na chamada zona habitável, isto é, na zona do respectivo sistema planetário onde poderá existir água no estado líquido à superfície do planeta que permita a emergência de vida.

Até agora o Kepler já detetou 2740 candidatos a planetas a orbitar mais de duas mil estrelas, mas as descobertas mais recentes mostram um aumento significativo do número de planetas de dimensões mais pequenas (próximas da Terra) e do número de estrelas com mais de um candidato a planeta.

Há também cada vez mais potenciais planetas detetados de dimensão mais pequena com órbitas de longo periodo semelhantes à Terra, o que significa que "já não se trata de saber se vamos encontrar uma gémea da Terra, mas quando isso vai acontecer", sublinha Steve Howell, cientista da NASA ligado à Missão Kepler.

Jack Lissauer, cientista planetário da NASA, explica por sua vez que "o grande número de sistemas com vários potenciais planetas encontrados pelo Kepler (467) mostra que uma parte substancial dos planetas extrasolares pertence a sistemas multiplanetários, o que é consistente com o que sabemos sobre o nosso próprio Sistema Solar".

Claro que há mais candidaturas do que certezas, porque até agora os astrofísicos identificaram "apenas" 900 planetas extrasolares.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Uma reflexão sobre o Espaço e a Alma

Artigo de Sahstri Purushotma, publicado no Huffington Post.
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Na passada sexta-feira (08 de Julho), pelas 11:26 juntei-me a milhões de pessoas para assistir em silenciosa admiração como o Vaivém espacial Atlantis, pela última vez, "ultrapassou os limites ameaçadores da terra" e entrou em órbita. A nossa geração viu o lançamento do Vaivém muitas vezes, mas nunca parece cansar-se; todas as vezes parece haver um sentido especial de beleza, como se soubéssemos que estamos a assistir a uma revelação mágica, tal como vemos a nossa espécie, ao longo de milhares de gerações, desde que saiu de África e se instalou nos continentes do globo, e agora num breve instante da história, de Kitty Hawk à Lua e depois, a uma estação espacial feita por nós próprios.




Embora haja uma sensação de tristeza com o final de uma era e um aparente abrandamento na próxima etapa da exploração espacial, sinto um optimismo a longo prazo sobre a nossa exploração do espaço, inspirado pelo meu entendimento das Escrituras da Fé Bahá’í, que gostaria de partilhar.

O primeiro relaciona-se com o dom de voar. Durante milhares, talvez dezenas de milhares de anos, o homem sonhou ter a capacidade de voar, desde Ícaro até Leonardo Da Vinci. Mas este sonho só se tornou uma realidade em 1903, e desde então tem permitido que muitos de nós possamos voar ao redor do planeta, e a alguns de nós para o espaço.

Porque é que isso aconteceu tão rapidamente, depois de tanto tempo em que foi apenas um sonho? O meu entendimento é que isso tem a ver com a fase da evolução humana, em que estamos agora - o início da etapa da maturidade da espécie humana. É uma manifestação de uma frase na oração do Pai Nosso: ". Venha a nós o Vosso Reino, Seja feita a Vossa vontade, assim na terra como no céu". Uma das imagens presente em quase todas as tradições religiosas é que o céu é que é povoado por seres que têm o dom de voar. Se a nossa terra também está num processo de se tornar celestial, não é de estranhar que agora tenhamos também este dom, e que continuará a desenvolver-se.

Apesar da maioria das Escrituras da Fé Bahá'í se focarem sobre nas imperativas necessidades actuais de paz e unidade para a espécie humana na Terra, há uma declaração feita por Bahá'u'lláh, o fundador da Fé Bahá'í, sobre outras estrelas e seus planetas: "Sabe que cada estrela fixa tem os seus próprios planetas, e todos os planetas as suas próprias criaturas, cujo número homem algum pode calcular." A lógica também mostra que uma Inteligência Suprema que criou este vasto universo não deixaria 99.99999999% (continuemos com os 9s) estéril e vazio de vida, e apenas a nossa minúscula partícula de poeira habitada. Qualquer proprietário ficaria imensamente triste com uma tão baixa taxa de ocupação!

Uma pergunta surge naturalmente: Porque é que ainda não encontramos essas criaturas? Um dia poderemos descobrir porque levou tanto tempo, tal como o nosso dom de descolagem da terra parecia impossível, mas de repente aconteceu. Uma possível explicação é que ainda temos muito trabalho a fazer em nós próprios – somos um planeta e uma espécie que ainda está muitas vezes em guerra consigo próprio. Se as evoluções tecnológica e espiritual, em última análise caminham lado a lado, pode ser que os seres mais evoluídos saibam deixar-nos em paz até que possamos, pelo menos, primeiro estar unidos na nossa própria espécie.

É interessante que a nossa exploração do espaço levou também a um entendimento mais profundo da nossa alma. Permitiu-nos, pela primeira vez, para ver o nosso planeta como um todo na sua beleza deslumbrante, sem fronteiras criadas pelo homem, e pelas quais foi derramado tanto sangue. Forneceu uma imagem visual de uma outra afirmação feita por Bahá'u'lláh: "A terra é um só país e a humanidade os seus cidadãos." As imagens que vemos agora das superfícies de outros planetas e suas luas também têm uma beleza, nas suas formas intrincadas e padrões majestosos, apreciada por artistas modernos; E trazem-me à memória uma outra frase de Bahá'u'lláh: "Cada coisa criada em todo o universo é apenas uma porta que leva ao Seu conhecimento, um símbolo da Sua majestade, um símbolo do Seu poder."

Apesar da nossa dívida nacional - que ironicamente age como a lei da gravidade e nos trás de volta à terra - poder abrandar o nosso programa espacial por agora, espero que o sentimento de maravilha e exploração continue a ser cultivado nas novas gerações, que irão expandir o nosso conhecimento do universo e aprofundar a nossa compreensão da nossa alma. O progresso da ciência e da religião, como duas asas de um pássaro e duas maneiras diferentes de entender a mesma realidade última, são importantes para uma civilização em constante evolução.

Como disse Albert Einstein: "A coisa mais bela que podemos experimentar é o mistério. É a fonte de toda verdadeira arte e toda a ciência." Que possamos continuar a experimentar os belos mistérios dos céus.

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FONTE: Reflections on Outer Space and Our Inner Soul (Huffington Post)

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Ciência e Religião (15)


"Desde o momento das origens cósmicas, qualquer que seja a perspectiva utilizada, sabemos que tem havido um crescimento gradual em complexidade organizada, em sensibilidade e, em última análise, em consciência e consciência auto-reflexa. Afinal de contas estamos aqui, por isso pelo menos algo de importante aconteceu. A existência da nossa própria personalidade inteligente deveria ser o suficiente para nos fazer suspeitar de que algo de importante tem estado a ocorrer no universo, pois não podemos deixar de valorizar a nossa própria mente. Mesmo se alguém questionar ou duvidar daquilo que acabei de dizer, é porque essa pessoa implicitamente valoriza a sua inteligência. Poderá um universo que gerou a sua (inevitavelmente valorizada) mente ser algo essencialmente sem sentido? Se acha que sim, acaba de se contradizer a si próprio."

John F. Haught, Cristianismo e Evolucionismo, p. 190-191

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Ciência e Religião (14)


"Não deveríamos rejeitar nem querer corrigir informação científica séria, para tentar fazê-la encaixar os nossos inevitavelmente estreitos conceitos de divindade. É claro que a biologia evolucionista não é perfeita e continuará a passar por melhoramentos. Mas são desperdiçados demasiado tempo e energia a tentar mostrar que a evolução está errada, quando aquilo que os crentes religiosos deviam estar a perguntar-se era se a nossa compreensão de Deus não será demasiado pequena para nela conseguir acomodar o mundo de Darwin."

John F. Haught, Cristianismo e Evolucionismo, p. 172-173

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Ciência e Religião (13)


"De acordo com a abordagem de compromisso, evolucionismo não implica que tenhamos de abandonar a nossa fé e a teologia, mas sim que a fé e a teologia tenham de passar por um processo próprio de desenvolvimento.

Não existe perigo algum para a fé religiosa ou para a teologia ao abrirem-se a uma tal transformação. Na verdade, um tal crescimento ajuda a manter a fé e a teologia vivas e saudáveis. E se tivermos tempo para pensar em Deus em termos de evolução, acredito que o nosso entendimento religioso terá tudo a ganhar, e nada a perder."

John F. Haught, Cristianismo e Evolucionismo, p. 77

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Ciência e Religião (12)


É um grande paradoxo que Deus crie o universo, e permita que ele seja, de algum modo, independente. Como poderá reconciliar-se a nossa ideia de um poder criador divino com um universo que existe «por si próprio» e que acaba por produzir vida e seres humanos dotados de uma liberdade que pode até opor-se a Deus?

Estas são questões antigas, mas a ciência recente trouxe-nos agora um novo modo de as encarar. Estudos científicos da evolução e dos fenómenos do «caos» e da «complexidade» mostram que o nosso cosmos, desenvolvendo-se ao longo de um período de cerca de quinze mil milhões de anos, é em grande medida uma realidade autocriadora. Não quero estar aqui a sugerir que a Natureza é a origem única da sua própria existência, mas o universo hoje parece ser tudo menos o produto passivo de uma força divina determinativa. Segundo os cientistas, hoje o mundo é composto por sistemas auto-organizativos. O arranjo sequencial de matéria física em átomos, moléculas, sistemas planetários, estrelas, galáxias e clusters de galáxias, células, organismos, pessoas, sociedades – tudo isto acontece de um modo que parece não carecer de uma manipulação exterior. Mesmo o emergir do universo no momento do big bang parece agora aos físicos ter acontecido «espontaneamente».

John F. Haught
, Cristianismo e Evolucionismo, p. 199

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ciência e Religião (11)


Um modo de entender o poderoso, ainda que cientificamente indetectável, influxo de Deus no mundo é recordar como funciona a informação. Ao ler esta página, o leitor está a olhar para manchas de tinta preta fixada numa folha branca. Se não soubesse ler, a única coisa que veria seria umas marcas pretas ininteligíveis. E perderia o conteúdo informativo que se encontra aqui contido. Do mesmo modo, a presença da informação não é detectável à ciência física. Quaisquer ideias inscritas nesta página, por exemplo, não serão detectadas pela química enquanto tal.

John F. Haught, Cristianismo e Evolucionismo, p. 164

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Ciência e Religião (10)


A ciência não pode apelar nunca para o sobrenatural, caso contrário deixa de ser ciência. Porém, os defensores do design inteligente introduzem a sua divindade desenhadora num nível de explicação que é próprio da ciência, e não da teologia. O seu Deus-designer é um deus tapa-buraco. Por pensarem que o design adaptativo e fenómenos como o ADN são naturalmente improváveis, insistem que a própria ciência tem de apelar para uma explicação sobrenatural. No entanto, esse salto fá-los afastar-se da ciência. Tratam erradamente a ideia de design inteligente como sendo uma ideia científica.

John F. Haught, Cristianismo e Evolucionismo, p. 156

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Ciência e Religião (9)


Na verdade, é uma bênção que as Escrituras tenham sido escritas numa linguagem narrativa e poética «ingénua», de uma cultura não científica. Se tivessem sido escritas de acordo com os padrões da ciência moderna, a maior parte das pessoas do passado – que não tinham conhecimentos científicos alguns – nunca delas poderiam ter tirado proveito algum.

John F. Haught, Cristianismo e Evolucionismo, p. 139

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Ciência e Religião (8)


Do ponto de vista científico, é correcto dizer que a selecção natural é um elemento criador na evolução da vida. Mas quando um livro ou um compêndio científico defende - ou até conclui - que a selecção natural é a explicação última da vida e da sua diversidade, então não estamos já no domínio da ciência, mas sim no domínio da fé. E por isso, se os criacionistas fazem mal quando insistem em trazer a fé para a sala de aulas, também o fazem os cientistas quando transformam o método científico numa explicação metafísica última da vida.

John F. Haught, Cristianismo e Evolucionismo, p. 133

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Ciência e Religião (7)


Por definição, a ciência deixa de fora, e tem de o fazer, qualquer referência a Deus. A ciência tem de tentar explicar as coisas, tão perfeitamente quanto possível, em termos puramente naturais. Querer encaixar Deus numa lacuna que a própria ciência acabará por preencher é reduzir o Criador a um «deus tapa-buracos». Se colocamos Deus apenas nas regiões obscuras da pesquisa humana, uma tal divindade tornar-se-á obsoleta no momento em que a ciência conseguir iluminar essas áreas com a sua luz. Deveríamos, em vez disso, procurar situar a realidade divina, e uma compreensão religiosa da evolução, num nível de explicação último, um nível onde o engenho científico, por princípio não pode entrar.

John F. Haught, Cristianismo e Evolucionismo, p. 132

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Ciência e Religião (6)


Juntamente com a maior parte dos cientistas, estou certo que os evolucionistas darwinianos não nos apresentam a história toda sobre a Natureza, e que continuarão a ser feitos aperfeiçoamentos. Mas como teólogo não me compete a mim dizer aos cientistas o que eles deveriam ou não dizer sobre o tema. A teologia, como insistia Paul Tillich, nunca deve subscrever uma teoria científica particular por razões teológicas.

Especialmente no caso da evolução, a teologia tem de lidar com uma versão limpa, não manipulada da informação científica. A longo prazo, ao enfrentar quaisquer dificuldades que a ciência possa levantar, a teologia não estará contaminada, mas sim enriquecida.

Infelizmente os pensadores religiosos adaptam por vezes um pouco as ideias científicas, de forma a fazê-las parecer mais adequadas ao modo de pensar religioso. Mas este é um modo extremamente perigoso, e até autodestrutivo, para o pensamento religioso progredir. Não é uma ajuda à causa da verdade religiosa estarmos a limar as arestas mais vivas de uma descrição assumidamente imperfeita da vida, só para a tornar mais digerível teologicamente.

John F. Haught, Cristianismo e Evolucionismo, p. 114-115

sábado, 25 de setembro de 2010

Ciência e Religião (5)


"... um Criador que chama à existência um mundo auto-organizativo e autocriador parece muito mais digno da nossa adoração do que um Criador que insiste em fazer tudo directamente, sem envolver as próprias criaturas. Por isso, insistir numa criação especial, como fazem muitos cristãos, é reduzir Deus ao papel de um mágico. É também recusar reconhecer a vocação criadora que todas as criaturas, em algum grau, possuem e nós, seres humanos, possuímos de um modo muito especial. Uma sólida teologia da criação encontra mais razões para admirar um criador divino que chama à existência este universo autocriador, do que um «designer» que força directamente tudo, de acordo com um esquema preestabelecido."

John F. Haught, Cristianismo e Evolucionismo, p. 101-102

sábado, 11 de setembro de 2010

Ciência e Religião (4)


"A ideia de uma criação instantaneamente concluída é, como diz Teilhard de Chardin, teologicamente impensável. Um universo já totalmente criado, um universo que não se desenvolvesse gradualmente, seria apenas uma extensão do próprio ser de Deus; não seria um mundo em si mesmo. Não teria autocoerência interna, nem autonomia intrínseca. Seria, em vez disso, uma implementação puramente passiva da vontade divina. Seria um universo congelado, sem futuro, e incapaz de conter vida já que, por definição, os seres vivos têm continuamente de se transcender (ir além) de si próprios para estarem de facto vivos. A duração temporal é um aspecto essencial de uma criação que possa dar origem à vida."

John F. Haught, Cristianismo e Evolucionismo, p. 96-97

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Ciência e Religião (3)


"Ainda que o altruísmo humano e a religião, tal como as outras formas de vida, tenham emergido no decurso de um processo evolucionário e, por conseguinte, tenham algum continuidade com a sua ascendência evolucionária, o seu estatuto ético e cognitivo tem de ser considerado num contexto diferente da sua pré-história evolucionária. Em qualquer desenvolvimento histórico, o estádio original pode tornar-se crescentemente insignificante. Avaliar algo simplesmente na base da sua origem genética é a «falácia genética».

Assim, por exemplo, a ciência da química é descrita como tendo-se desenvolvido a partir da prática medieval da alquimia; e a astronomia moderna é descrita como tendo as suas origens na astrologia antiga. Porém, ao longo do tempo, a química abandonou tudo o que tinha da alquimia, excepto um interesse geral na mudança da matéria; e a astronomia preservou da astrologia apenas um interesse pelos céus. Em ambos os casos, as origens históricas tornaram-se inconsequentes. Se nos deixássemos guiar pela falácia genética, porém, teríamos de rejeitar a química contemporânea e a astronomia, devido à inferioridade dos seus precedentes históricos."

John F. Haught, Cristianismo e Evolucionismo, p. 67-68