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sábado, 4 de novembro de 2017

Identificar a Linguagem Figurada para interpretar as Profecias

Por Christopher Buck.


Assim, medita sobre a palavra de um dos Profetas quando Ele deu a conhecer às almas dos homens, através de alusões veladas e símbolos ocultos, as boas novas d’Aquele que devia vir depois d’Ele, para que possas ter a certeza que as suas palavras são insondáveis para todos, salvo aqueles que estão dotados de um coração compreensivo. Ele disse: "Os seus olhos eram como chama de fogo", e "os pés semelhantes ao latão reluzente", e "da sua boca saía uma aguda espada". Como podem estas palavras ser interpretadas literalmente? Se alguém aparecesse com todos estes sinais, certamente não seria humano. (Bahá'u'lláh, Gems of Divine Mysteries, p. 52)
Entender profecias exige uma boa compreensão das figuras de estilo. A linguagem figurada e simbólica usada nas profecias utiliza cinco figuras básicas de retórica (existem muitas) que analisaremos de seguida; depois veremos como elas surgem na profecia bíblica e como os ensinamentos Bahá'ís as interpretam. Estas cinco figuras são:
1. Comparação (uma semelhança).
2. Metáfora (uma representação).
3. Parábola (uma fábula ou um símil ampliado).
4. Alegoria (uma metáfora ou história alargada).
5. Símbolo (uma coisa material que representa uma verdade espiritual).
Podemos ver a diferença entre uma comparação e uma metáfora nestes dois versículos bíblicos semelhantes: "Porque toda a carne é como a erva", de I Pedro 1:24, é uma comparação entre uma coisa com outra usando as palavras "como" ou "semelhante". "Toda carne é erva", a metáfora de Isaías 40:6, deixa de ser comparação e torna-se uma representação directa.

Um símbolo - como nas palavras de Jesus do Evangelho de Tomé, frase 7 - apresenta-se assim: "Bem-aventurado o leão que o homem come, pois o leão tornar-se-á homem; e maldito é o homem que o leão come, pois o leão tornar-se-á homem".

Neste "logion" (ou o dito de Jesus), um símbolo enigmático sinistro e profundo, sugere que o "leão" pode representar a natureza animal (ou as paixões) do homem.

Voltemos agora à questão de como entender a profecia identificando figuras de estilo usadas no texto. Vejamos Apocalipse 19: 11-15, por exemplo:
E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele chama-se Fiel e Verdadeiro; e julga e peleja com justiça.E os seus olhos eram como chama de fogo; e sobre a sua cabeça havia muitos diademas; e tinha um nome escrito, que ninguém sabia senão ele mesmo;E estava vestido de uma veste salpicada de sangue; e o nome pelo qual se chama é a Palavra de Deus;E seguiam-no os exércitos no céu, em cavalos brancos, e vestidos de linho fino, branco e puro;E da sua boca saía uma aguda espada, para ferir com ela as nações; e ele as regerá com vara de ferro; e ele mesmo é o que pisa o lagar do vinho do furor e da ira do Deus Todo-Poderoso;
Aqui está a minha análise do texto figurado deste excerto misterioso é a seguinte:
1. Comparação: "os seus olhos eram como chama de fogo ".
2. Metáfora: "o nome pelo qual se chama é a Palavra de Deus"; "o lagar do vinho do furor e da ira do Deus Todo-Poderoso".
3. Parábola: "os seus olhos eram como chama de fogo; e sobre a sua cabeça havia muitos diademas; e tinha um nome escrito, que ninguém sabia senão ele mesmo".
4. Alegoria: "E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele chama-se Fiel e Verdadeiro; e julga e peleja com justiça".
5. Símbolo: "céu"; "cavalo branco"; "o que estava assentado sobre ele".
A interpretação Bahá'í deste excerto fascinante e profundo, explica os seus mistérios:
Agora explicarei brevemente o verdadeiro significado destas palavras, para que possas descobrir os seus mistérios ocultos e ser dos que entendem...

Sabe, pois, que Ele, que proferiu estas palavras nos reinos da glória, pretendeu descrever os atributos d’Aquele que virá, em termos tão velados e enigmáticos que escapam à compreensão do povo do erro.

Assim, quando Ele disse: "Os seus olhos eram como chama de fogo", Ele aludiu apenas à perspicácia da visão e à acuidade da visão do Prometido, que com os Seus olhos queima todo véu e capa, dá a conhecer os mistérios eternos no mundo contingente, e distingue os rostos que estão obscurecidos com a poeira do inferno daqueles que brilham com a luz do paraíso.

Quanto às palavras "pés semelhantes ao latão reluzente", isso significa a Sua constância ao ouvir o chamamento de Deus que o conduz: "Sê firme conforme te foi ordenado". Ele será tão perseverante na Causa de Deus, e evidenciará uma tal firmeza no caminho do Seu poder, que, mesmo que todos os poderes da terra e do céu O negassem, Ele não vacilaria na proclamação da Sua Causa, nem fugiria do Seu mandamento na promulgação das Suas Leis. Em vez disso, Ele será tão firme como as montanhas mais altas e os picos mais elevados... Já viste neste mundo latão mais forte, ou lâmina mais afiada, ou montanha mais firme do que esta?...

E além disso, Ele disse: "Da sua boca saía uma aguda espada." Sabe que, uma vez que a espada é um instrumento que divide e separa, e porque da boca dos Profetas e dos Eleitos de Deus procede aquilo que separa o crente do infiel e do amante do amado, este termo foi muito utilizado, e, além desta divisão e separação não se pretende qualquer outro significado. (Bahá'u'lláh, Gems of Divine Mysteries, pp. 53-56)
Vamos rever os quatro passos para "Entender a Profecia":
Passo 1: Excluir significado literal.
Passo 2: Identificar figuras de estilo.
Passo 3: Verificar as características representadas.
Passo 4: Aplicar aos eventos espirituais.
Usando essa abordagem, aqui está como Bahá’u’lláh interpretou Apocalipse 19:11-15:
Passo 1: "Como podem estas palavras ser interpretadas literalmente?"
Passo 2: "Medita sobre alusões veladas e símbolos ocultos; ... descobrir os seus mistérios ocultos".
Passo 3: "Descrever os atributos d’Aquele que virá".
Passo 4. Reconhecer "o Prometido" - Bahá'u'lláh.

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Texto original: Identifying Figurative Language to Interpret Prophecies (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 28 de outubro de 2017

4 Passos para entender os Mistérios da Profecia

Por Christopher Buck.


Ele disse: "Os seus olhos eram como chama de fogo", e "os pés semelhantes ao latão reluzente", e "da sua boca saía uma aguda espada". [ver Apocalipse 1: 14; 2:18; 19:15] Como podem estas palavras ser interpretadas literalmente? Se alguém aparecesse com todos estes sinais, certamente não seria humano. E como poderia qualquer alma procurar a sua companhia? Não, se aparecesse numa cidade, até os habitantes da cidade vizinha fugiriam dele, e nenhuma alma ousaria aproximar-se dele! No entanto, se reflectires sobre estas frases, descobrirás que elas têm uma eloquência e clareza insuperáveis que atingem os cumes sublimes da expressão e o epítome da sabedoria. Parece-Me que é a partir delas que os sóis da eloquência apareceram e as estrelas de clareza surgiram e brilharam resplandecentes. (Bahá’u’lláh, Gems of Divine Mysteries, pp. 52-53)
Sempre que nos deparamos com um texto das Escrituras, temos que tomar uma decisão - o texto é literal ou simbólico, metafórico e figurativo? Essa decisão inicial faz toda a diferença.

Este ensaio apresenta uma série de etapas, a que os estudiosos chamariam de abordagem ou técnica hermenêutica, para entender a profecia:
1. Se impossível, então não é literal.
2. Se não é literal, então é figurado.
3. Se é figurado, então é simbólico.
4. Se é simbólico, então é espiritual e social.
Esses métodos não cobrem todas as possibilidades proféticas, mas constituem uma ferramenta interpretativa útil. Vamos tentar um primeiro exemplo da compreensão espiritual da profecia, olhando para o sermão de Pedro em Pentecostes no livro dos Actos dos Apóstolos 2: 14-21:
Pedro, porém, pondo-se em pé, com os onze, levantou a sua voz, e disse-lhes: Varões judeus, e todos os que habitais em Jerusalém, seja-vos isto notório, e escutai as minhas palavras. Estes homens não estão embriagados, como vós pensais, sendo a terceira hora do dia. Mas isto é o que foi dito pelo profeta Joel:
E nos últimos dias acontecerá, diz Deus,
que do meu Espírito derramarei sobre toda a carne;
e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão,
os vossos mancebos terão visões
e os vossos velhos sonharão sonhos;
E também do meu Espírito derramarei
sobre os meus servos e minhas servas,
naqueles dias, e profetizarão;
E farei aparecer prodígios em cima, no céu,
e sinais em baixo, na terra,
sangue, fogo e vapor de fumo.
O sol se converterá em trevas,
e a lua em sangue,
antes de chegar o grande e glorioso dia do Senhor;
E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.
Aqui, Pedro cita Joel 2: 28-32, não como uma profecia a ser cumprida no futuro, mas como cumprida no presente no Dia de Pentecostes, o evento que representa o nascimento da Igreja Cristã.

Nenhuma história contemporânea comprovou a ocorrência física destes eventos celestiais - isto é, que o sol ficou escuro e a lua tornou-se carmesim - eventos que evidentemente não ocorreram, apesar de Pedro ter dito o contrário. Este facto, por si só, força-nos a concluir que Pedro entendeu a profecia de Joel como um evento espiritual, e não como literal.

Vamos agora olhar para a profecia que Bahá'u'lláh comentou acima: Apocalipse 1: 14; 2:18; 19:15. Quanto ao 1º passo, Bahá'u'lláh exclui uma interpretação literal com esse argumento convincente:
Como podem estas palavras ser interpretadas literalmente? Se alguém aparecesse com todos estes sinais, certamente não seria humano. E como poderia qualquer alma procurar a sua companhia? Não, se aparecesse numa cidade, até os habitantes da cidade vizinha fugiriam dele, e nenhuma alma ousaria aproximar-se dele! (Gems of Divine Mysteries, p. 52)
O 2º passo pede-nos que identifiquemos a natureza da figura de estilo em si. Bahá'u'lláh descreve "Os seus olhos eram como chama de fogo" desta maneira:
Sabe, pois, que Ele, que proferiu estas palavras nos reinos da glória, pretendeu descrever os atributos d’Aquele que virá, em termos tão velados e enigmáticos que escapam à compreensão do povo do erro. (Gems of Divine Mysteries, p. 53)
Estes "termos velados e enigmáticos" são, obviamente, figurados, e não literais. Além disso, essa figura de estilo é uma comparação. Simplesmente isto!

Para o 3º passo, quando tentamos identificar as qualidades transmitidas pela linguagem figurada, poderíamos simplesmente perguntar: "Quais qualidades que podem ser representadas pelas «chamas de fogo»?" Aqui, Bahá'u'lláh faz exactamente isso:
Assim, quando Ele disse: "Os seus olhos eram como chama de fogo", Ele aludiu apenas à perspicácia da visão e à acuidade da visão do Prometido, que com os Seus olhos queima todo véu e capa, dá a conhecer os mistérios eternos no mundo contingente, e distingue os rostos que estão obscurecidos com a poeira do inferno daqueles que brilham com a luz do paraíso.

Se os Seus olhos não fossem feitos com o fogo ardente de Deus, como poderia Ele reduzir a cinzas todo o véu e a consumir tudo o que o povo possui? Como poderia Ele contemplar os sinais de Deus no Reino dos Seus nomes e no mundo da criação? Como poderia Ele ver todas as coisas com os olhos de Deus que tudo percebem?... Pois, de facto, que fogo é mais feroz do que esta chama que brilhou no Sinai dos Seus olhos, com a qual Ele consumiu tudo o que encobriu os povos do mundo? (Gems of Divine Mysteries, p. 54)
Quanto ao 4º passo, quando tentamos determinar o evento espiritual a que a profecia alude, Bahá'u'lláh sugere, mas não divulga abertamente, o evento espiritual - o Seu próprio advento, cumprindo estas mesmas profecias do Livro do Apocalipse.

Na verdade, sabemos que esta profecia não pode referir-se literalmente a Jesus Cristo, pelo menos em nome, pois em Apocalipse 19:12 lemos:
E os seus olhos eram como chama de fogo; e sobre a sua cabeça havia muitos diademas; e tinha um nome escrito, que ninguém sabia senão ele mesmo;
Este é o "novo nome" anteriormente referido em Apocalipse 2:17 e 3:12:
Ao que vencer, darei eu a comer do maná escondido, e dar-lhe-ei uma pedra branca, e na pedra um novo nome escrito, o qual ninguém conhece senão aquele que o recebe.

A quem vencer, eu o farei coluna no templo do meu Deus, e dele nunca sairá; e escreverei sobre ele o nome do meu Deus, e o nome da cidade do meu Deus, a nova Jerusalém, que desce do céu, do meu Deus, e também o meu novo nome.
Se, como a maioria de nós, você já se esforçou para entender os mistérios da profecia, esta técnica pode ajudar. No próximo artigo, analisaremos alguns conceitos básicos sobre linguagem figurada que podem ajudar ainda mais.

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Texto original: 4 Steps for Understanding the Mysteries of Prophecy (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 30 de setembro de 2017

O Epitáfio de Satanás

Por Christopher Buck.


Tudo o que potencialmente possuís, porém, só se pode manifestar como resultado da vossa própria vontade. Os vossos próprios actos testemunham esta verdade... Os homens, contudo, têm violado deliberadamente a Sua lei. Esse comportamento deve ser atribuído a Deus, ou aos seus próprios seres? Sede justos no vosso juízo. Todo o bem provém de Deus, e todo mal provém de vós próprios. Não o compreendeis? (Bahá’u’lláh, SEB, LXXVII)
A epígrafe de Bahá’u’lláh sobre o mal é o epitáfio de Satanás.

Esta citação mudou a minha vida. Teve um impacto muito duradouro em mim, libertando-me do medo e do pavor de "Satanás".

“Como?” poderão perguntar. No fundo, a citação nem sequer menciona Satanás. Essa é a questão. Um poderoso "argumento do silêncio", na verdade! Este excerto notável - simples, mas profundo nas suas implicações - impressionou-me tanto pelo que não afirma, assim como pelo que afirma.

Quando li pela primeira vez, "todo mal provém de vós próprios" - precedida pela afirmação "Os vossos próprios actos testemunham esta verdade" - fiquei siderado, atordoado e impressionado com a súbita clareza que senti, e por outro lado, pela tremenda responsabilidade que estas palavras transmitem. Tive, então, que enfrentar a verdadeira origem do mal - no espelho.

No que diz respeito ao mal, compreendi que o problema fica por aqui.

Quando li estas palavras, percebi finalmente que Satanás não existe fora do simbolismo do mal humano. Satanás é uma personificação do mal; não uma personalidade maligna.

Satanás não é uma pessoa. Satanás é um mito. Acreditar no contrário, é uma crença distorcida. Vejam que eu cresci com Satanás fazendo parte da minha educação Cristã. Foi-me dito na catequese que Satanás se poderia disfarçar como um anjo da luz:
E não é maravilha, porque o próprio Satanás se transfigura em anjo de luz. (2Cor 11:14)
Quando era criança, isso deixava-me com medo, até mesmo paranóico. Satanás poderia estar à espreita em qualquer lugar. Pior ainda, Satanás estava em todo lugar - iníquo e omnipresente. Quando era criança, a ideia de Satanás possuía-me. Satanás assustava-me profundamente. Mas a explicação de Bahá’u’lláh libertou-me. Como?

Para os Bahá’ís, Bahá’u’lláh exorciza Satanás, expondo-o por aquilo que realmente é (e por aquilo que não é). Bahá’u’lláh mata o dragão primordial. Os ensinamentos Bahá’ís mostraram-me que Satanás é uma superstição, uma diversão, uma perversão da verdadeira fonte do mal. Há quarenta anos, quando li esta epígrafe pela primeira vez pouco depois de me tornar Bahá’í, fiquei impressionado com outra visão súbita: não preciso de acreditar em Satanás para acreditar em Cristo. Este pensamento, só por si, era libertador, purificador, capacitador. “Porquê?”, poderão perguntar.

Permitam-me ser franco: hoje, para ser cristão, muito provavelmente, você tem que acreditar em Satanás, bem como em Cristo. Pense nisso! O Cristianismo pode existir sem Satanás? Eu acredito que sim. Mas provavelmente a maioria dos cristãos não pensou no problema de Satanás dessa forma.

Não me interpretem mal: ser Cristão é seguir Cristo e aceitá-Lo como Senhor e Salvador. Mas se Cristo salva do Pecado Original, e se o pecado original foi provocado por Satanás, a serpente no Jardim do Éden (como é que Satanás se infiltrou para o Éden?), então ser Cristão, neste sentido, implica a crença num ser maligno, um espírito chamado Satanás. A doutrina prevalecente sobre a salvação implica acreditar em Satanás.

Podemos ver outra ligação: se não existe Satanás, também não existe salvação. A não ser que a salvação que Cristo oferece tenha outro significado. E isso é tema que as Escrituras Bahá'ís clarificam, tal como a questão da existência de Satanás:
A realidade subjacente a esta questão é que o espírito maligno, Satanás ou o que quer que seja interpretado como mal, refere-se à natureza inferior no homem. Essa natureza inferior é simbolizada de várias maneiras. No homem existem duas expressões, uma é a expressão da natureza, a outra a expressão do reino espiritual... Deus nunca criou um espírito maligno; todas essas ideias e nomenclaturas são símbolos que expressam a natureza meramente humana ou terrena do homem. É uma condição essencial do solo da terra que espinhos, ervas daninhas e árvores infrutíferas possam crescer a partir dele. Relativamente falando, isso é mau; é simplesmente o estado inferior e o produto mais baixo da natureza. (‘Abdu'l-Bahá, Promulgation of Universal Peace, pp. 294-295)
E ainda:
"O significado da serpente é apego ao mundo humano." (‘Abdu'l-Bahá, Some Answered Questions, cap. 30)
Por outras palavras, Satanás é uma personificação do mal, não uma personalidade maligna. E acreditar em Cristo, sem exigir uma crença simultânea em Satanás, reconsidera a pessoa e a obra de Cristo de uma forma revolucionária e revitalizante.

Quando entendemos Satanás como um símbolo e não como uma realidade, podemos começar a entender a perspectiva Bahá'í sobre o mal como a regra de ferro do carácter ignóbil, em contraste com a regra de ouro do carácter nobre.

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Texto original: Satan’s Epitaph (www.bahaiteachings.org)

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Christopher Buck (PhD, JD), advogado e investigador independente, é autor de vários livros, incluindo God & Apple Pie (2015), Religious Myths and Visions of America (2009), Alain Locke: Faith and Philosophy (2005), Paradise e Paradigm (1999), Symbol and Secret (1995/2004), Religious Celebrations (co-autor, 2011), e também contribuíu para diversos capítulos de livros como ‘Abdu’l-Bahá’s Journey West: The Course of Human Solidarity (2013), American Writers (2010 e 2004), The Islamic World (2008), The Blackwell Companion to the Qur’an (2006). Ver christopherbuck.com e bahai-library.com/Buck.

sábado, 5 de agosto de 2017

É tempo de acabar com equívocos sobre Maomé

Por Rodney Richards.


No Ocidente, compreendemos mal Maomé e o Islão durante séculos. Agora é o momento de acabar com isso e começar a perceber o que faz do Islão uma grande Fé.

O Islão surgiu na península arábica em 610 EC, tendo desencadeado conflitos e guerras tribais e internas, e por fim tornou-se uma religião mundial com 1,8 mil milhões de seguidores.

Quando Maomé revelou o Islão, o Cristianismo era a religião de estado no Império Romano, na Europa e no Médio-Oriente. Os cristãos daquela época tinham a crença infundada de que Cristo - que eles reverenciavam como o Filho de Deus - era o último dos profetas.

Esta interpretação incorrecta, esta percepção temporal sobre a condição de Cristo - em oposição à Sua ascendência e domínio espiritual - tem sido a causa de indescritível derramamento de sangue. Essa ignorância e má interpretação fomentaram oito cruzadas cristãs, começando em 1095 EC, durante quase 200 anos, provocando a morte de milhões de pessoas.

Estas guerras religiosas e incompreensões continuam a ser o principal obstáculo para a verdadeira reconciliação entre as religiões Cristã e Muçulmana.

A base, quer do Cristianismo quer do Islão, é aproximar as pessoas de Deus, dando-lhes uma ideia mais ampla e uma compreensão mais completa sobre a vontade e o propósito de Deus para a humanidade.

Maomé disse que ambas as comunidades Judaica e Cristã tinham que ser protegidas pelos Muçulmanos, apesar de qualquer animosidade que pudessem ter em relação ao Islão. Assim, tal como Cristo validou o estatuto de Moisés, também Maomé validou os estatutos de Abraão, Moisés e Cristo.

Nos ensinamentos Bahá’ís, isto chama-se de revelação progressiva. No fundo, significa que todos os profetas e fundadores das grandes religiões do mundo vieram da mesma fonte e ensinaram as mesmas verdades. Embora as leis e regras externas de uma religião possam adaptar-se às necessidades das pessoas no momento em que foram reveladas, uma revelação religiosa posterior exige novas leis e regras que sejam adequadas a um tempo mais moderno. As leis espirituais também progridem; passámos de “amar o próprio irmão como a si mesmo” no tempo de Cristo, para “preferir o próximo em vez de preferir a si próprio” no tempo de Maomé e Bahá'u'lláh.

O facto de as religiões lutarem não é devido à falta de integridade e unidade das religiões, mas sim à interpretação incorrecta e ao fanatismo de alguns dos seus líderes e dos seus seguidores. Os Bahá’ís acreditam que toda religião vem de Deus e foi dada à humanidade quando esta mais precisava da orientação de Deus - mas também que as religiões podem entrar em declínio dogmático, não representando os verdadeiros ensinamentos dos seus fundadores. Quando esse declínio ocorre - dizem os ensinamentos Bahá’ís - aparece um novo Mensageiro.

Este conceito de revelação progressiva é claro como o sol do meio-dia: todo mensageiro ou profeta falou sobre o seu regresso ou sobre o surgimento do próximo mensageiro de Deus. Então, por que rejeitamos e perseguimos esse mensageiro quando Ele aparece? Porque estamos apegados (ou presos) ao nosso sacerdote ou imã favorito, ao nosso templo, mesquita ou igreja favorita; porque estamos apegados à maneira como adoramos e às palavras nos nossos livros e ao que pensamos ser o seu significado. Estamos tão apegados a isso que esquecemos que o nosso propósito na vida - enquanto seres espirituais - é amar a Deus e a Sua criação. E esquecemos que a melhor maneira de mostrar que amamos a Deus é amando toda a humanidade.

Os nomes das religiões - Cristianismo e Islão - são apenas rótulos que representam um conjunto de valores, moral e modos de pensamento. Vamos denegrir e insultar pessoas boas só porque não professam a mesma fé que nós? Não. Esperamos poder recebê-las e ajudá-las, independentemente do seu rótulo (ou não-rótulo). Isso é tudo o que Deus quer de nós: amar e cuidar uns dos outros. Essa é a verdadeira mensagem de toda a verdadeira Fé.

Além disso, com a revelação progressiva, se realmente acreditamos no que o nosso Mensageiro nos disse - que aparecerá um Mensageiro maior - então, como podemos manter esses rótulos falsos? O apego a esses rótulos impediu verdadeiramente a humanidade de apreciar plenamente o que cada novo mensageiro de Deus nos trouxe, quando a paz e a tranquilidade poderiam ter sido implementadas.

Está na hora de nos livrarmos desses rótulos antiquados. Se a religião é essencialmente uma só, como afirmam os ensinamentos Bahá’ís, podemos começar a ver toda a religião como:
... diferentes fases na história eterna e evolução constante da religião única, Divina e indivisível, da qual [a Fé Baha’i] constitui apenas uma parte integrante. Não procura obscurecer as suas origens divinas, nem anular a magnitude admitida das suas realizações colossais. Não pode apoiar nenhuma tentativa que procure distorcer as suas características ou esconder as verdades que transmitem. Os seus ensinamentos não se desviam minimamente das verdades que consagram, nem o peso da sua mensagem prejudica uma vírgula da influência que exercem ou da lealdade que inspiram. Longe de pretender derrubar as fundações espirituais dos sistemas religiosos do mundo, o seu propósito declarado, inalterável, é ampliar as suas bases, reafirmar os seus fundamentos, conciliar os seus objectivos, revigorar a sua vida, demonstrar a sua unicidade, restaurar a pureza prístina dos seus ensinamentos, coordenar as suas funções e auxiliar na realização das suas mais elevadas aspirações. (Shoghi Effendi, A Ordem Mundial de Baha'u'llah, p. 114)
Se todos os Cristãos aceitassem Maomé como um mensageiro de Deus, isso em nada diminuiria ou rebaixaria o estatuto de Cristo. O mesmo conceito se aplica do Islão em relação aos Bahá'ís e dos Bahá’ís em relação ao próximo mensageiro de Deus e à nova revelação.

Então pergunto: vale a pena lutar, ou magoar alguém por causa do apego a um rótulo? Espero que a sua resposta seja a mesma que a minha: não!

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Texto original: Time to Stop Misunderstanding Muhammad (www.bahaiteachings.org)

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Rodney Richards é escritor técnico de profissão e trabalhou durante 39 anos para o Governo Estadual de New Jersey. Reformou-se em 2009 e dedicou-se à escrita (prosa e poesia),tendo publicado o seu primeiro livro de memórias Episodes: A poetic memoir. É casado, orgulha-se dos seus filhos adultos, e permanece um elemento activo na sua comunidade.

quarta-feira, 26 de julho de 2017

Opinião de 'Abdu'l-Bahá sobre a Bíblia

Em Setembro de 1911, em Londres, ‘Abdu’l-Bahá falou pela primeira vez para uma audiência ocidental, no púlpito do City Temple. Posteriormente teve a oportunidade de escrever as seguintes palavras numa das Bíblias que era usada pelos pregadores daquela igreja.


quarta-feira, 14 de junho de 2017

O choro do Povo do Filho...

Em 1868, Bahá'u'lláh estava exilado em Edirne (na parte europeia do Império Otomano) quando o Sultão decidiu exilá-Lo juntamente com os Seus companheiros. Essa decisão perturbou profundamente o pequeno grupo de exilados e também muitas pessoas na cidade. A citação que se segue refere-se a esse momento.


sábado, 16 de abril de 2016

Prevendo o Regresso de Cristo

Por Russell Ballew.

Sobre as Suas palavras, que o Filho do homem “virá sobre as nuvens do céu”, o termo “nuvens” significa aquelas coisas que são contrárias aos hábitos e desejos dos homens. (Bahá’u’lláh, O Livro da Certeza, parag. 79)
Em 24 de Maio de 1844, Samuel Morse telegrafou a primeira mensagem a longa distância: «Que maravilhas fez Deus!». A citação, seleccionada da Bíblia (Livro dos Números 23:23), podia aplicar-se igualmente às invenções científicas que constituíram a base da conectividade global do século XXI. A frase poderia também aplicar-se ao fervor religioso sobre o regresso de Cristo que atingiu o clímax nesse mesmo ano.

William Miller
As implicações religiosas desta importante inovação científica inflamaram a imaginação de uma comunidade global de Adventistas, que tinha chegado à conclusão que o Regresso de Cristo aconteceria entre 1843 e 1844. Para compreender esta conclusão vamos analisar o raciocínio e os cálculos de William Miller, um dos mais influentes líderes do Advento, cujo livro Evidence from Scripture and History of the Second Coming of Christ (Evidências da Escritura e da História sobre a Segunda Vinda de Cristo) vendeu milhares de exemplares e deu rigor ao movimento Adventista. Veja aqui um exemplar original desse livro.

Miller começou o seu livro com as bem conhecidas profecias do regresso de Cristo que se encontram no Evangelho de Mateus e no livro de Daniel:
Este Evangelho do Reino será proclamado em todo o mundo, para se dar testemunho diante de todos os povos. E então virá o fim. Por isso, quando virdes a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel, instalada no lugar santo… (Mateus 24 14-15)

Vi um santo que falava, a quem um outro santo perguntou: «Quanto tempo durará o que anuncia a visão, a propósito do holocausto perpétuo, da abominação devastadora, do abandono do santuário e do exército dos fiéis calcado aos pés?» E ele respondeu: «Duas mil e trezentas tar¬des e manhãs. Depois disso, o san-tuá¬rio será restaurado. (Daniel 8: 13-14)
E este é o raciocínio que Miller para chegar às suas conclusões, segundo as suas próprias palavras:
O que devemos entender como sendo dias? Na profecia de Daniel são invariavelmente considerados como anos. Pois Deus ordenou aos profetas que os considerassem dias (Num 14:34): “Conforme o número de dias em que explorastes a terra, quarenta dias, equivalendo cada dia a um ano, haveis de carregar durante quarenta anos as vossas iniquidades e reconhecereis o meu desagrado.” (Evidence from Scripture, p. 46.)

Quando começaram os 2300 anos?... Vamos começar onde o anjo nos disse, desde a publicação do decreto de construção das muralhas de Jerusalém em tempos tumultuosos, 457 anos antes de Cristo. Subtraia-se 457 a 2300 e obtemos o ano 1843 EC; ou se subtrairmos 70 semanas, como sendo 470 anos aos 2300 anos, obtemos o ano 1810 após a morte de Cristo. Adicionemos a sua vida (porque começamos a calcular o nosso tempo a partir do seu nascimento) que são 33 anos, e chegamos ao mesmo ano de 1843 EC. (Evidence from Scripture, p. 46.)
Desde 1843 até ao Outono de 1844, Adventistas zelosos e os seus detractores olharam para o céu esperando ver Jesus descer nas nuvens, levando os fiéis para o paraíso e destruindo o mundo. Alimentavam uma visão de um regresso espectacular do Senhor, não necessariamente consistente com a ciência, mas baseada em várias interpretações de frases semelhantes a esta do Evangelho de Mateus:
Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem e todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vir sobre as nuvens do céu, com grande poder e glória. Ele enviará os seus anjos, com uma trombeta altissonante, para reunir os seus eleitos desde os quatro ventos, de um extremo ao outro do céu. (Mateus 24:30-31)
Apesar da sua devoção pia e renúncia aos bens materiais, nem Miller nem os seus seguidores viram o Regresso de Cristo da forma que imaginavam. Em vez de serem levados triunfalmente para o paraíso, ficaram desiludidos na terra, perguntando-se como algo tão fantástico, tão previsível podia ter corrido mal.
Colónia dos Templários alemães, Haifa, 1895
Pouco depois disto, um grupo de Adventistas alemães liderados por Christoff Hoffman e George David Hardegg formaram a Sociedade dos Templários Alemães. Também acreditavam no iminente Regresso de Cristo. No entanto, acreditavam que os aspectos mais incríveis da Bíblia – como por exemplo: “...quem não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus” (João 3:3) - eram alegóricos e não literais.

Os Templários Alemães concluíram que Cristo regressaria à Terra Santa de uma forma que ninguém imaginara. Talvez Cristo já tivesse vindo e as pessoas não tinham percebido: “Com efeito, vós próprios sabeis perfeitamente que o Dia do Senhor chega de noite como um ladrão.” (1 Tessalonicenses 5:2)

Hoffman e Hardegg levaram os seus seguidores para Haifa (Terra Santa), tendo chegado em Outubro de 1868. Para sua surpresa encontraram os líderes de um novo movimento religioso que tinha surgido em 22 de Maio de 1844, na Pérsia, exactamente o ano em que previam o regresso de Cristo.

Nas palavras dos Templários:
Tomei conhecimento de um outro fenómeno espiritual que pode fortalecer a nossa crença. Trata-se de um grupo de 70 Persas que foram desterrados para Akka devido às suas crenças. (Suddeutsche Warte, June 29, 1871.)
Os Templários Alemães mantiveram contactos com os Bahá’ís e depois fundaram uma comunidade próspera no sopé do Monte Carmelo, próximo dos lugares Sagrados Bahá’ís. Os Bahá’ís acreditam que Templários e Adventistas perceberam o advento profético de uma nova dispensação religiosa, e que a Fé Bahá’í cumpre e completa essas profecias.

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Texto original: Anticipating the Advent and Return of Christ (www.bahaiteachings.org)

Artigo anterior: Procurar o Espírito de Cristo


sábado, 9 de abril de 2016

Procurar o Espírito de Cristo

Por Russell Ballew.


...quem procurar Cristo no Seu corpo físico, terá procurado em vão e ficará afastado Dele como que por um véu. Mas quem aspirar encontrá-lo em espírito, crescerá júbilo, dia após dia… Neste novo e maravilhoso dia, compete-te procurar o espírito de Cristo. (‘Abdu’l-Bahá, Selections from the Writings of Abdu’l-Baha, p. 143)
Nascido numa família de sete irmãos, Joseph Wolf tentou convencer o seu vizinho que Israel triunfaria com a chegada do Messias. Em resposta, o vizinho encorajou-o a ler o capítulo 53 do livro de Isaías. Explicou-lhe que Jesus de Nazaré era o Cristo Prometido, cujo sacrifício é enaltecido nas seguintes frases:
... fomos curados pelas suas chagas. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas perdidas, cada um seguindo o seu caminho. Mas o Senhor carregou sobre ele todos os nossos crimes. (Isaías 53:5-6)
O jovem perguntou ao pai qual era o significado daquele texto, mas o rabino Wolff não lhe deu resposta. Isso estimulou no rapaz o desejo de ler e reconciliar as profecias Judaicas com as pretensões Cristãs. Uma das mais importantes dessas profecias era que Elias precederia o Messias. O Antigo Testamento declara:
Eis que vou enviar-vos o profeta Elias, antes que chegue o Dia do Senhor, dia grande e terrível. (Malaquias 3:23)
Os Cristãos afirmam que João Baptista era o prometido Elias. No entanto, João declarou que ele não era o Elias. “E perguntaram-lhe: «Quem és, então? És tu Elias?» Ele disse: «Não sou.» «És tu o profeta?» Respondeu: «Não.»” (Jo 1:21). Os Cristãos argumentam que João era o Elias porque Cristo assim o afirmou:
… Jesus começou a falar às multidões a respeito de João… É aquele de quem está escrito: Eis que envio o meu mensageiro diante de ti, para te preparar o caminho... E, quer acrediteis ou não, ele é o Elias que estava para vir. (Mateus, 11:7-14)
Para quem aceita Jesus Cristo como manifestante de Deus, a Sua declaração é suficiente. No entanto, muita gente considera estes dois textos bíblicos como contraditórios. Apliquemos o rigor da ciência numa analogia que nos pode ajudar a perceber a diferença entre forma e a função de um fenómeno. Com isto poderemos percebem como João e Jesus estão ambos correctos, cada um na sua perspectiva específica.

Vejamos especificamente a tendência comum para confundir causa e correlação. Em climas temperados no hemisfério norte, desejamos ansiosamente a chegada da Primavera no final de Março. Mas qual é a causa da Primavera? A data do equinócio ou o degelo? Na verdade, não é nenhum deles. O Inverno dá lugar à Primavera quando o movimento orbital da Terra coloca o hemisfério norte mais próximo do Sol. Mas na perspectiva de um agricultor, a primavera chega com o degelo.

É neste momento que o poder e influência do sol são mais evidentes; literalmente o mundo é trazido da morte para a vida. Do mesmo modo, o advento de um profeta de Deus assinala uma primavera espiritual, em que o Sol da Verdade descongela o materialismo e o ódio que endurecem o coração humano, gerando frutos de amor e abnegação.

Para Joseph Wolf e alguns Judeus da sua geração que se converteram ao Cristianismo, o aparecimento de Jesus cumpriu a profecia. Na sua opinião, João desempenhou o papel de Elias ao dizer: “Eu sou a voz de quem grita no deserto: Rectificai o caminho do Senhor” (João 1:23). João Baptista e Elias eram o mesmo no seu propósito, mas eram inteiramente distintos em pessoa, no tempo e o espaço.

Nos ensinamentos Bahá’ís, ‘Abdu’l-Bahá explica:
... se aqui considerarmos não a individualidade da pessoa, mas a realidade das suas perfeições - isto é dizer, as mesmas perfeições que Elias possuía também se percebiam em João Baptista. Assim, João Baptista era o prometido Elias. O que está aqui a ser considerado não é a essência, mas os atributos. (Some Answered Questions, newly revised edition, p. 150)
Joseph Wolf converteu-se ao Cristianismo porque percebeu que João Baptista era o regresso de Elias e observou na vida e ensinamentos de Jesus as funções do prometido Messias. Tornou-se missionário e viajou pelo Médio Oriente e pela Europa. Estava convencido que o trabalho realizado por ele e por outros cumpria Mateus 24:14: “Este Evangelho do Reino será proclamado em todo o mundo, para se dar testemunho diante de todos os povos…” Ele não estava só.

John Wolf convenceu várias pessoas com os seus argumentos, incluindo Harriet Livermore. Ela era tão influente que foi convidada a falar ao Presidente e ao Congresso dos Estados Unidos, em Janeiro de 1827. O fervor milenarista fervilhava enquanto os estudiosos da Bíblia compreendiam a revelação das profecias divinas

Por exemplo, em 23 de Março de 1844, o Império Otomano publicou o Édito da Tolerância, abrindo as portas ao regresso dos Judeus à sua pátria. Houve quem considerasse que isto era o cumprimento de Lucas 21:24: “Serão passados a fio de espada, serão levados cativos para todas as nações; e Jerusalém será calcada pelos gentios, até se completar o tempo dos pagãos.

Nos próximos textos desta série, continuaremos a explorar as mais extraordinárias profecias bíblicas associadas à data do advento de Cristo, e a fascinante história da descoberta da Sua segunda vinda.

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Texto original: Seeking After The Spirit Of Christ (www.bahaiteachings.org)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

O Simbolismo de Sodoma

Por Frances Worthington.



Se pesquisarmos na internet, podemos encontrar milhares de referências a livros que dizem algo sobre o simbolismo de do episódio bíblico de Sodoma.

Estes livros variam na forma como vêem Sodoma: um mandamento claro para sermos hospitaleiros com estranhos; um modelo das mais baixas formas de desejo físico; uma advertência sobre as consequências do pecado; uma descrição literal do castigo espiritual que aguarda os pecadores; uma sentença contra a homossexualidade; uma comparação entre a forma como se espera que os seguidores de Deus ajam e a maneira como os descrentes se comportam; e um aviso sobre o que pode acontecer aos crentes como Lot, que erguem a sua casa entre os ímpios. Também tem sido entendido como um sinal de que apenas os descendentes físicos de Abraão seriam os herdeiros das bênçãos das suas alianças com Deus: apesar de ser um crente fiel, Lot não era descendente directo de Abraão e, por isso, não estava destinado a ser o fundador de uma tribo que iria continuar a jurar lealdade à nova revelação.

Mas outra perspectiva, espiritualmente mais credível, para ver o episódio de Sodoma e Gomorra é entendê-lo como uma descrição do que pode acontecer quando um grupo de pessoas aceita uma religião em palavras, mas não em actos:
Ó Povo! A palavra deve ser demonstrada com actos, pois o testemunho íntegro da Palavra é a acção. Um sem o outro não aliviará a sede dos necessitados, nem abrirá a porta dos olhos dos cegos. (Bahá'u'lláh, Star of the West, Volume 1, p. 7)
Nesta perspectiva, o episódio olha para a história e também apresenta uma profecia, pois o mesmo tipo de hipocrisia religiosa ocorreu repetidas vezes durante os últimos milhares de anos. Os profetas e mensageiros angélicos representam as religiões enviadas por Deus - tais como a religião de Noé, a religião de Moisés, e a religião de Jesus - enquanto Sodoma representa aqueles que afirmam ser seguidores destas religiões. Quando os anjos examinam o comportamento dos sodomitas, torna-se óbvio que, apesar de fingirem ser religiosos, eles foram pervertendo o verdadeiro objectivo da sua fé.

A sua perversão é mostrada pela forma anti-natura com que desejam os anjos - querem usar os anjos para os seus próprios propósitos, em vez de os tratar com honra. Quando Lot tenta afastar os sodomitas das suas perversões (ou seja, ele oferece-lhes os ensinamentos de uma nova e pura Palavra de Deus, simbolizado pelas suas duas filhas virgens), os homens recusam-se inflexivelmente a mudar o seu comportamento. Eles estão satisfeitos com aquilo que são - desobedecem à antiga religião e ignoram a nova. A sua cegueira espiritual significa que eles não conseguem ver qualquer razão para fugir à maldade da desobediência, e por isso a sua aniquilação (física, espiritual ou ambas) é inevitável.

Avisados pelos anjos, Lot reúne os membros da sua família e abandonam Sodoma antes da sua destruição. A esposa de Lot, descrita por Maomé como sendo falsa ao marido, lamenta amargamente ter que deixar a cidade onde foi feliz. Ela volta-se e olha para trás, sentindo saudades da maldade que deixara, um acto de deslealdade que a congela numa estátua de sal.

As implicações místicas desta imagem cristalina podem ser exploradas se examinarmos as propriedades úteis e nocivas do sal tal como são descritas nas Escrituras. Uma das primeiras passagens sobre sal que vem à mente é a pergunta de Jesus: "Vós sois o sal da terra. Ora, se o sal se corromper, com que se há-de salgar?" (Mt 5:13)

De acordo com 'Abdu'l-Bahá, Jesus refere-Se aos perigos das "dissensões e falta de unidade entre os Seus seguidores", salientando que se os apóstolos - o "sal" - não estiverem unidos, o delicioso sabor do trabalho que fazem será perdido. Existem vários outros versículos bíblicos que usam sal como metáfora de uma qualidade que é desejável ou valiosa, incluindo esta de S. Paulo: "Que a vossa palavra seja sempre amável, temperada de sal, para que saibais responder a cada um como deveis." (Col 4:6)

Maomé usa as imagens do sal de várias formas, mas uma das mais intrigantes é a maneira pela qual Ele fala do reino espiritual e o mundo material como oceanos gémeos. Um oceano contém água (espiritual) fresca, enquanto o outro é salgado. Ambos os oceanos proporcionam comida e riqueza, mas apenas a água fresca é doce e agradável de beber:
Ele libertou os dois mares que se conheceram um ao outro ... De cada um, ele trouxe pérolas grandes e pequenas... Nem os dois mares são parecidos: o fresco, doce e agradável de beber; o outro salgado, amargo; no entanto, de ambos comeis peixe fresco, e exibis ornamentos para usais... (Alcorão 35:13; 55: 19-32)
Os ensinamentos Bahá'ís usam o mesmo contraste entre água doce e salgada para demonstrar a insensatez de rejeitar a doçura da espiritualidade e favorecer a amargura do materialismo:
Sim, uma vez que os povos do mundo não procuraram nas Fontes luminosas e cristalinas do conhecimento divino o sentido interior das santas palavras de Deus, então ansiaram, afligiram-se e vaguearam sedentos no vale da vã fantasia e da desobediência. Desviaram-se para longe das águas frescas que aliviam a sede e reuniram-se ao redor do sal que arde amargamente. (Baha’u’llah, The Book of Certitude, parag. 111)
Aplicando todos estes exemplos das Escrituras à mulher de Lot, ela torna-se sal que perde o sabor. Ela está em desunião com a verdade religiosa, porque está mais ligada aos tesouros do mar salgado, simbolizadas por Sodoma, do que às verdades frescas trazidas por Abraão e pregadas pelo seu marido. Ela recusa beber das nutritivos e vivificantes "fontes cristalinas do conhecimento divino" e apenas pretende imergir no oceano amargo da existência física, um desejo que faz com que ela fique coberta com os seus sedimentos que a imobilizam espiritualmente.

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Texto original: The Symbolism of the City of Sodom (www.bahaiteachings.org)

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Frances Worthington é uma escritora apaixonada por bibliotecas, jardins e diálogo inter-religioso. É autora do livro Abraham: One God, Three Wives, Five Religions (Abraão: um Deus, três Esposas, cinco Religiões) e vive em Greenville, South Carolina.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Os Bahá'ís celebram o Natal?

Por Annie Reneau.


Naturalmente, nesta época festiva do ano, as pessoas gostam de perguntar aos Bahá’ís se celebram (ou não) o Natal. E a resposta é simples: Não. Sim. Mais ou menos. Às vezes. Depende.

Isto não é exactamente uma resposta elucidativa, pois não?

A confusão aqui, acho eu, reside mais na própria pergunta do que na resposta. A minha resposta confusa acima é adequada para a pergunta "Os Bahá'ís celebram o Natal?" porque essa questão específica contém várias questões distintas mas relacionadas entre si.

Para esclarecer as coisas, pensei que podia tentar separar essas questões tanto quanto me fosse possível (com a ressalva de que estas respostas são baseadas na minha própria compreensão, que dificilmente é infalível). Assim, aqui ficam algumas perguntas que geralmente estão associadas à questão mais genérica sobre se os Bahá'ís celebram (ou não) o Natal, e minhas respostas a essas perguntas.

Os Bahá'ís acreditam em Cristo?

Sim, acreditamos.

Aqui fica um resumo da perspectiva Bahá'í sobre Jesus:
Quanto à posição do Cristianismo, diga-se sem qualquer hesitação ou equívoco que a sua origem divina é reconhecida incondicionalmente, que a Filiação e Divindade de Jesus Cristo são destemidamente declaradas, que a inspiração divina do Evangelho é plenamente reconhecida, que a realidade do mistério da Imaculabilidade da Virgem Maria é confessada, e o primado de Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, é mantido e defendido. (Shoghi Effendi, The Promised Day is Come, pag. 109)
O Fundador da Fé Cristã é referido por Bahá'u'lláh como o "Espírito de Deus", é proclamado como Aquele que "apareceu do sopro do Espírito Santo" e é enaltecido como a "Essência do Espírito". A Sua mãe é descrita como "aquele belíssimo semblante velado e imortal", e a condição do seu Filho elogiado como uma "condição que está enaltecida acima das imaginações de todos os que habitam na terra", enquanto Pedro é reconhecido como aquele a quem Deus fez "os mistérios da sabedoria e da expressão fluir da sua boca."

Além disso, Bahá’u’lláh afirmou: "Sabe que quando o Filho do Homem entregou o espírito a Deus, toda a criação chorou num grande pranto. Ao sacrificar-Se, porém, uma nova capacidade infundiu-se em todas as coisas criadas. As suas evidências, como se testemunha em todos os povos da terra, estão agora manifestas diante de ti. A sabedoria mais profunda que os sábios pronunciaram, o conhecimento mais profundo que qualquer mente explicou, as artes que as mãos mais hábeis produziram, a influência exercida pelo mais poderoso dos governantes, são apenas manifestações do poder vivificador libertado pelo Seu Espírito transcendente, omnipresente e resplandecente. Testemunhamos que quando Ele veio ao mundo, Ele derramou o esplendor da Sua glória sobre todas as coisas criadas. Através d’Ele, o leproso recuperou da lepra de perversidade e da ignorância. Através d'Ele o ímpio e rebelde foram curados. Através do Seu poder, nascido do Deus Todo-Poderoso, os olhos dos cegos abriram-se e a alma do pecador santificou-se… Ele é Quem purificou o mundo. Bem-aventurado o homem que, com um rosto radiante de luz, se volveu para Ele." (SEB, XXXVI)

Portanto, a resposta é sim. Nós veneramos e adoramos Cristo e acreditamos n’Ele como um Mensageiro Divino (Para mais informações sobre a relação entre a Fé Bahá'í e o Cristianismo, clique aqui.)

Os Bahá'ís celebram o Natal como comunidade religiosa?

Não. Nós aceitamos Cristo com todo o coração, e, portanto, honramos a celebração do Seu nascimento; mas a nossa comunidade não celebra o Natal. Também aceitamos e veneramos Moisés, Buda, Krishna, Zoroastro, Maomé e outros Mensageiros Divinos; mas se celebrássemos todos os seus nascimentos e outros dias santos associados a cada um deles... estaríamos em festa durante todo o ano. Por muito divertido que isso possa parecer, não tem muito sentido lógico. E também não faria sentido celebrar apenas alguns, e não outros. Assim, enquanto comunidade, apenas comemoramos os dias sagrados e feriados do calendário Bahá'í.

Mas os Bahá'ís PODEM celebrar o Natal?

Sim, não apenas entre Bahá’ís. Muitos de nós participamos alegremente nas celebrações de Natal organizadas pelas nossas famílias e amigos. Como indivíduos, somos livres de participar em quaisquer actividades religiosas que não interfiram directamente com os ensinamentos Bahá'ís. Na verdade, a partilha de tradições espirituais é uma das melhores maneiras de criar laços de comunhão e unidade entre pessoas de todas as fés. Isto é um dos ensinamentos centrais de Bahá'u'lláh: "Associai-vos com os seguidores de todas as religiões num espírito de amizade e camaradagem."

Então os Bahá'ís têm Árvores de Natal, fazem bolos de Natal, colocam enfeites de Natal, trocam prendas de Natal, etc.?

Talvez. Às vezes. Mais ou menos. Depende. Parte da confusão é que o Natal tornou-se um feriado cultural para muitas pessoas. Todos os ateus e agnósticos que conheço ainda montam Árvores de Natal, cantam canções de Natal, e trocam prendas de Natal. Para a maioria dos Cristãos, é um dia santo. Para pessoas não-religiosas, é um tempo para a família e para a tradição. Para os Bahá'ís, pode ser os dois e pode não ser nenhum; tudo depende da perspectiva. Isolar práticas culturais de práticas religiosas numa época festiva é o suficiente para deixar muita gente baralhada.

Conheço algumas famílias Bahá'ís que montam Árvores de Natal; mas diria que a maioria não o faz. Pessoalmente, adoro partilhar bolos. Alguns Bahá'ís oferecem presentes às suas famílias e círculos de amigos, especialmente aqueles cujas famílias não são Bahá'ís. Temos um grande feriado chamado Ayyam-i-Ha no final de Fevereiro, em que oferecemos presentes; por isso, normalmente guardamos as prendas maiores para essa época.

E o Pai Natal?

Tenho que reconhecer que vou escrever algo que pode irritar algumas pessoas. Como adulta e mãe, toda a história do Pai Natal me chateia (isto não é o ensinamento Bahá'í oficial, apenas para que fique claro!) Isso deve-se ao facto de muitas pessoas perguntarem constantemente aos meus filhos o que foi que o Pai Natal lhes deu. Nós não nos mascaramos de Pai Natal; por isso, a coisa fica estranha.

A outra parte é apenas a minha própria análise pessoal. Penso que São Nicolau (o verdadeiro) foi uma maravilhosa inspiração, dando generosamente aos pobres e salvando as meninas de terem de se prostituir. Mas o Pai Natal que temos na tradição - na minha opinião - não tem uma imagem assim tão perfeita. Primeiro, é suposto que ele apenas dá prendas às crianças que se portam bem. Lá se vai o ensinamento da generosidade para com todos. Em segundo lugar, em qualquer outro contexto, um velho que convida crianças que não conhece para se sentarem no seu colo e oferecendo-lhes doces é... esquisito. Em terceiro lugar, perguntar repetidamente às crianças o que elas querem para o Natal tende a perpetuar o materialismo e o consumismo que todos reclamam durante os feriados. Acho que seria preferível se o Pai Natal perguntasse às crianças o que elas gostariam de dar. Em quarto lugar, mentir às crianças para manter viva uma fantasia não faz sentido. Em quinto lugar, quando as tradições culturais se formam e, em seguida, se misturam com actividades comerciais e sentimentalismos nostálgicos, é muito fácil que estas se transformem em algo que lembra vagamente a ideia original; assim, acabamos por dizer que isso é uma importante tradição de longa data sem a questionar.

Eu sei, eu sei. É uma tradição inofensiva e eu sou uma velha rabugenta. Penso que é importante deixar as crianças terem as suas fantasias. Mas os nossos filhos têm vidas com muita fantasia (por vezes, demasiada) sem o Pai Natal. Eu cresci sem acreditar no Pai Natal, e apesar disso gostava desta época festiva. Por isso, não me parece que as crianças estejam a perder muita coisa...

Na verdade, e talvez ironicamente, eu adoro os filmes com o Pai Natal. Devo ter visto o Miracle on 34th Street uma dúzia de vezes quando era criança. E gostamos imenso dos filmes do Tim Clause sobre o Pai Natal. Deve ter sido desde que me tornei uma mãe excessivamente analítica que o alegre velho barbudo me sensibilizou.

E incomoda se as pessoas lhe desejam um Feliz Natal?

De maneira nenhuma. Pessoalmente, adoro todos os bons votos da época, e não entendo como as pessoas se podem ofender com isso. No entanto, o que eu realmente gostaria de ver era as pessoas a desejarem umas às outras votos de felicidade em qualquer época festiva. Desejar Feliz Natal aos seus amigos cristãos, um feliz Hanukkah aos seus amigos judeus, um feliz Kwanzaa aos seus amigos afro-americanos. Porque não há nada de errado em desejar boas festas. Tudo é dito com boa vontade, e eu penso que nós devemos tomá-lo como tal.

Portanto, agora que já expliquei como é que os Bahá'ís celebram o Natal de forma sim/não/mais ou menos/talvez/às vezes, e que já denegri completamente a amada instituição chamada Pai Natal, pergunto: o que faz a sua família no Natal?

Nós aproveitamos a festa e calor da época festiva, e maravilhamo-nos com as iluminações e as Árvores de Natal dos nossos amigos. Como eu disse, gostamos de filmes do Pai Natal porque às vezes as coisas que fazemos não fazem um sentido perfeito. Havarti é um grande fanático de LEGO, e nós temos uma cidade do inverno da LEGO que nós colocamos sobre um manto. Também sempre gostei de nozes, por isso temos uma pequena colecção de quebra-nozes usamos durante os meses de inverno. Também gosto de decorações com bonecos de neve, que eu penso que ajuda as crianças a não se sentirem estranhas por não terem algum tipo de decorações festivas no mês de Dezembro. Contamos às crianças as histórias de Hanukkah, da Natividade e da Kwanzaa, e participamos em quaisquer festividades para que sejamos convidados, e falamos sobre a importância de respeitar as celebrações de todos.

(...)

Espero que as coisas tenham ficado claras. Depois disto sinto uma vontade irresistível de escrever uma carta de desculpas ao Pai Natal. Coitado!

Que todos tenham um Feliz Natal, um Feliz Hanukkah, um feliz Kwanzaa, e uma época festiva calorosa (qualquer que seja a celebração!).

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Texto original: Do Bahá’ís Celebrate Christmas? (Motherhood and More)


terça-feira, 8 de dezembro de 2015

A Virgem Maria: uma perspectiva Bahá'í


Em muitos livros e websites Bahá’ís onde se apresenta uma perspectiva sobre o Cristianismo, é frequente encontrar as seguintes palavras de Shoghi Effendi:
Quanto à posição do Cristianismo, diga-se sem qualquer hesitação ou equívoco que a sua origem divina é reconhecida incondicionalmente, que a Filiação e Divindade de Jesus Cristo são destemidamente declaradas, que a inspiração divina do Evangelho é plenamente reconhecida, que a realidade do mistério da Imaculabilidade da Virgem Maria é confessada, e o primado de Pedro, o Príncipe dos Apóstolos, é mantido e defendido. (Shoghi Effendi, The Promised Day is Come, pag. 109)
Porque hoje muitos cristãos celebram a Imaculada Conceição, parece-me oportuno apresentar alguns excertos das Escrituras e de textos oficiais Bahá’ís que descrevem a perspectiva Bahá’í sobre a Virgem Maria. Uma breve análise destes Textos permite-nos perceber que a Mãe de Jesus é uma figura profundamente respeitada na Fé Bahá’í. Esse respeito, porém, não justifica qualquer culto mariano por parte dos Bahá’ís, nem a crença no nascimento virginal de Jesus eleva o Seu estatuto acima de qualquer outro Mensageiro de Deus.

Nas Escrituras Bahá’ís

Nas Escrituras Bahá’ís a expressão “Filho de Maria” é frequentemente usada nas referências a Jesus Cristo; na minha opinião o uso repetido desta expressão mostra-nos que a identidade de Jesus não é dissociável da Sua mãe. Das traduções em inglês das Escrituras Bahá'ís, a mais reveladora sobre Maria encontra-se no Kitab-i-Iqán (O Livro da Certeza):
De igual modo, deves reflectir sobre o estado e a condição de Maria. Tão profunda foi a perplexidade desse belíssimo semblante, tão penosa foi a sua situação, que ela lamentava amargamente ter nascido. Disto dá testemunha o texto do sagrado versículo onde se menciona que Maria, depois do nascimento de Jesus, chorou a sua situação e gritou: “Oxalá eu tivesse morrido antes disto e tivesse sido esquecida, completamente esquecida!”[1]. Juro por Deus! Essas lamentações consomem o coração e abalam o próprio ser. Tão grande consternação da alma, tão grande desespero, não foram causados senão pela censura do inimigo e pelos comentários dos infiéis e dos perversos. Reflecte: que resposta poderia Maria ter dado às pessoas ao seu redor? Como poderia ela afirmar que um Bebé Cujo pai era desconhecido tinha sido concebido pelo Espírito Santo? Por isso, Maria, aquele semblante velado e imortal, pegou na sua Criança e regressou ao seu lar. Logo depois, os olhos do povo caíram sobre ela e levantaram a voz dizendo: “Ó irmã de Araão! O teu pai não foi um homem perverso, nem a tua mãe foi impura.”[2]

E agora medita sobre esta grandiosa convulsão, esta dolorosa provação. Apesar de todas estas coisas, Deus conferiu àquela essência do Espírito, Àquele conhecido entre o povo como não tendo pai, a glória da missão Profética, e fez d’Ele um testemunho para todos os que estão na terra e no céu.

(Bahá’u’lláh, Kitab-i-Iqan, parágrafo 59)
Nas suas Palestras em Paris, ‘Abdu’l-Bahá descreveu a filiação divina de Jesus como um obstáculo que impedia as pessoas de O reconhecer como Manifestante de Deus:
Bahá'u'lláh disse: "Quando Cristo veio pela primeira vez Ele veio sobre as nuvens"[3]. Cristo disse que Ele tinha vindo do céu, do Paraíso - que Ele tinha vindo de Deus - apesar d’Ele ter nascido de Maria, a Sua Mãe. Mas quando Ele declarou que tinha vindo do céu, é óbvio que Ele não se referia ao firmamento azul; Ele falava do Paraíso do Reino de Deus, e que desse Paraíso Ele desceu sobre as nuvens. Tal como as nuvens são obstáculos para o brilho do sol, também as nuvens do mundo da humanidade ocultaram dos olhos da humanidade o esplendor da Divindade de Cristo.

Homens disseram: "Ele é de Nazaré, nascido de Maria, conhecemos Ele e conhecemos os seus irmãos. O que ele quer dizer? O que ele está ele a dizer? Que Ele veio de Deus?"

O Corpo de Cristo nasceu de Maria de Nazaré, mas o Espírito veio de Deus. As capacidades do Seu corpo humano eram limitadas, mas a força do Seu espírito era vasto, infinito, imensurável.

(‘Abdu’l-Bahá; Paris Talks, 27/October/1911)
Em Paris, e posteriormente nos Estados Unidos (ver The Promulgation of Universal Peace, p.201, 347, 450), ‘Abdu’l-Bahá recordou as palavras de Maomé sobre Jesus e Maria:
No Alcorão lemos que Maomé falou aos Seus seguidores, dizendo:

"Porque não acreditam em Cristo e no Evangelho? Porque não aceitam Moisés e os Profetas, pois a Bíblia é, certamente, o Livro de Deus? Na verdade, Moisés foi um Profeta sublime, e Jesus estava cheio do Espírito Santo. Ele veio ao mundo através do poder de Deus, nascido do Espírito Santo e da abençoada Virgem Maria. Maria, sua mãe, era uma santa do Paraíso. Ela passava os seus dias no Templo em oração e a comida era-lhe enviada do alto. O seu pai, Zacarias, foi ter com ela e perguntou-lhe de onde vinha a comida, e Maria respondeu «Do alto». Certamente, Deus enalteceu Maria acima de todas as outras mulheres".

Isto é o que Maomé ensinou ao Seu povo a respeito de Jesus e Moisés, e Ele repreendeu-os pela sua falta de fé nesses grandes Mestres, e deu-lhes lições sobre verdade e tolerância. Maomé foi enviado por Deus para trabalhar entre um povo tão selvagem e incivilizado quanto os animais selvagens.

(‘Abdu’l-Bahá; Paris Talks, 27/October/1911)

Nos Textos Autorizados Bahá’ís

A perspectiva Bahá’í sobre a Virgem Maria foi objecto de diversos esclarecimentos por parte de Shoghi Effendi, o Guardião da Fé Bahá’í. Os seus textos são considerados interpretações oficiais das Escrituras Bahá’ís, e por esse motivo a sua leitura é inseparável das Escrituras.

Nascimento Virginal de Cristo
"Primeiro, sobre o nascimento de Jesus Cristo: à luz daquilo que Bahá'u'lláh e 'Abdu'l-Bahá afirmaram a respeito deste assunto, é evidente que Jesus veio a este mundo através da intervenção directa do Espírito Santo, e consequentemente, o Seu nascimento foi absolutamente milagroso. Isto é um facto estabelecido, e os amigos não têm que se sentir surpreendidos, pois a crença na possibilidade de milagres nunca foi rejeitada nos Ensinamentos. A sua importância, porém, tem sido minimizada".

(Lights of Guidance #1637; De uma carta datada de 31 de Dezembro de 1937, escrita em nome do Guardião a um crente individual)

Os milagres são sempre possíveis
"Mais uma vez, no que diz respeito à sua pergunta relativa ao nascimento de Jesus: Ele deseja que eu a informe que não há nada mais que ele possa acrescentar à explicação que ele lhe deu na sua comunicação anterior sobre este ponto. Para uma coisa, porém, ele deseja chamar novamente a sua atenção, nomeadamente, que os milagres são sempre possíveis, apesar de não constituírem um canal regular, pelo qual Deus revela o Seu poder à humanidade. Rejeitar os milagres na terra porque eles implicam uma violação das leis da natureza é um argumento muito superficial, quase obtuso, na medida em que Deus, Que é o autor do universo pode, na Sua sabedoria e Omnipotência, realizar qualquer mudança, mesmo que temporária, na operação das leis que Ele próprio criou.

"Os Ensinamentos não nos falam de qualquer nascimento milagroso além de Jesus."

(Lights of Guidance #1638; De uma carta datada de 27 de Fevereiro de 1938, escrita em nome do Guardião a um crente individual)

Os Ensinamentos Bahá'ís estão acordo com Doutrinas da Igreja Católica sobre o nascimento virginal
"Em relação à sua pergunta sobre o Nascimento Virginal de Jesus: quanto a este ponto, como em vários outros, os Ensinamentos Bahá'ís estão em pleno acordo com as doutrinas da Igreja Católica. No "Kitáb-i-Íqán" (Livro da Certeza) e em algumas outras Epístolas ainda não publicadas, Bahá'u'lláh confirma, ainda que indirectamente, o conceito católico do nascimento virginal. Também 'Abdu'l-Bahá no "Respostas a Algumas Perguntas", Cap . XII, afirma explicitamente que "Cristo veio à existência através do Espírito de Deus", uma declaração que implica, necessariamente, quando visto à luz do texto, que Jesus não era filho de José ".

(Lights of Guidance, #1639; de uma carta datada de 14 de Outubro de 1945, escrita em nome do Guardião a um crente individual)

Os irmãos e as irmãs de Cristo nasceram de forma natural
"Nós acreditamos que Cristo só foi concebido imaculadamente. Os Seus irmãos e irmãs terão nascido de forma natural e concebidos de forma natural."

(Lights of Guidance, #1640; De uma carta escrita em nome do Guardião ao Dr. Shook, 19 nov 1945:. Bahá'í News, No. 210, p 3, Agosto de 1948)
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NOTAS:
[1] - Alcorão 19:22
[2] - Alcorão 19:28
[3] - João 3:13

sábado, 24 de outubro de 2015

O Fim do Mundo

Por Deshon Fox.


No Evangelho de S. Marcos encontramos um interessante diálogo sobre este assunto entre Cristo e os Seus Discípulos, quando estavam no Monte das Oliveiras.

Perplexos com a profecia de Cristo sobre a destruição do templo, os discípulos pedem a Jesus que diga uma data em que acontecerá essa destruição. Em resposta, Jesus refere uma série de eventos que irão ocorrer antes do fim do mundo. Estes eventos incluem coisas como falsos profetas que enganam os fiéis, guerras e rumores de guerras, fomes, epidemias e terramotos. Além disso, Cristo promete que o Seu evangelho seria pregado em todo o mundo e a todas as nações antes da chegada do fim:
Jesus começou a dizer-lhes: «Acautelai-vos para que ninguém vos iluda. Surgirão muitos com o meu nome, dizendo: 'Sou eu'. E seduzirão a muitos. Quando ouvirdes falar de guerras e de rumores de guerras, não vos alarmeis; é preciso que isso aconteça, mas ainda não será o fim. Há-de erguer-se povo contra povo e reino contra reino; haverá terramotos em vários lugares, haverá fome. Isto apenas será o princípio das dores.» (Marcos 13:5-8)
Evangelho de S. Marcos
Estas frases intrigantes captam a nossa atenção e soam como um presságio sobre o fim do mundo. Mas poderá o fim de que Cristo falava já ter ocorrido e estarmos agora a viver um novo período da existência humana? Poderão as "dores de parto" que Cristo descrevia simbolizar as enormes convulsões mundiais dos últimos dois séculos?

À primeira vista não parece possível. O fim significa sempre o fim; não seria um acontecimento que passasse despercebido. Os finais são cataclismicos, apoteóticos e derradeiros - ou não será assim? Alguém consegue indicar o momento exacto em que terminou a sua infância e começou a sua adolescência? Os finais assinalam sempre o início de uma experiência nova e totalmente diferente. No entanto, ocorrem frequentemente de forma subtil, simples e discreta.

A Fé Bahá’í afirma que as profecias dos "fins dos tempos" que se encontram na Bíblia e noutros Livros Sagrados referem-se a ciclos de orientação divina que o Criador proporciona à humanidade. Esses ciclos - e os Mensageiros que os trazem - iniciam-se com a alvorada ("o princípio") da nova revelação de Deus à humanidade. Também possuem a suprema autoridade divina enquanto estão na terra ("o fim"); e actuam como portas para o reino celestial, pontes para uma mais profunda consciência da alma sobre a sua ligação eterna com o seu Criador.

Os Bahá’ís entendem as coisas desta forma: sempre que um novo profeta e mensageiro é enviado do reino celestial, nós vivemos o fim do anterior ciclo da orientação divina e, simultaneamente, o início de um novo ciclo. Inícios e fins caminham sempre lado a lado:
Sabe tu que o regresso de Cristo, não significa aquilo que as pessoas acreditam, mas sim quer dizer que o Prometido viria depois d’Ele. Ele virá com o Reino de Deus e o Seu poder que envolve o mundo. Este domínio está no mundo dos corações e dos espíritos, e não na matéria... Em verdade, Cristo veio com o Seu Reino, desde o início, que não teve início, e virá com o Seu Reino para a eternidade das eternidades, pois neste sentido, "Cristo" é uma expressão da Realidade Divina, a Essência elementar e Entidade celestial, que não tem início nem fim. Existe surgimento, ascensão, manifestação e declínio em cada um dos ciclos. (‘Abdu’l-Bahá, quoted by Dr. J. E. Esselmont in Baha’u’llah and the New Era, p. 224)
Desta maneira, podemos compreender, de uma forma nova e mais profunda, as profecias de Cristo sobre o fim dos tempos conforma registadas nos Evangelhos.

Sem dúvida que já experimentámos as "guerras e os rumores de guerras" - as duas guerras mundiais no século XX, e a Guerra Fria que se seguiu encaixam-se perfeitamente nesta descrição. As fomes, certamente, custaram a vida de inúmeros seres humanos. E testemunhámos vários terramotos devastadores. Parece que já aconteceu o "fim" que estes sinais referem.

Então, o que acontece após o "fim do mundo"? A vida torna-se um vazio absoluto, ou existe simultaneamente, como com todos os fins, um novo início?

Os ensinamentos Bahá'ís dizem-nos que o fim do mundo profetizado por Cristo significa o fim de um ciclo divino e o início de um novo destinado a cumpri-lo.

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Texto original: The End of the World - and a New Beginning (www.bahaiteachings.org)

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Deshon Fox é o autor do livro The Middle Theory. Vive nas Bahamas com a esposa e três filhos. Tem um mestrado em Engenharia Civil pela Universidade de Minnesota e trabalha numa empresa de engenharia sediada nas Bahamas. Actualmente é membro da Assembleia Espiritual Nacional dos Bahá'ís das Bahamas, um papel que ele teve desde 2009.